domingo, 31 de maio de 2009

Pacheco Pereira e o retrocesso civilizacional

Pacheco Pereira insurgiu-se ontem, no Público, contra a Imprensa que tresanda a histórias de vida cheias de pathos, porque isso constitui um retrocesso civilizacional. Referia-se, em concreto, ao caso da menina russa, filha de mãe alcoólica, que o tribunal entregou à dita, entre outros casos, como o de Leonor Cipriano. Notícias deste tipo causam horrores a Pacheco Pereira. Aliás, tudo o que seja vagamente pessoal, eu diria, popular, lhe causa horrores. Pacheco, tendo vivido no século XIX, nunca teria lido Camilo.
Lembrei-me do prédio da minha mãe.
No prédio da minha mãe há 10 inquilinos mais ou menos velhotes. Todos se conhecem uns aos outros e entreajudam. Todos contam uma parte da vida. Não tudo, só um bocadinho. Eu, que não moro lá, reparo que os vizinhos da mãe sabem muito mais sobre a minha vida do que eu poderia imaginar, e não é que me incomode, mas a minha mãe deve descair-se um bocado. Quando a minha mãe não me atende o telefone, o que me preocupa sobremaneira, telefono imediatamente ao vizinho de baixo, ou ao do lado, para lá ir bater à porta e ver o que se passa. Que estava a pendurar roupa no arame, com a cabeça fora da janela, ou que deixou o telefone mal pousado na base.
A Dona Jesus, a quem o filho único, que era violoncelista, morreu com sida, em Paris, há duas décadas, costuma pedir-me para lhe interpretar as cartas que vêm do banco com o saldo das contas à ordem e a prazo, e pede-me para lhe ver se o marido andou a levantar dinheiro para dar "às putas". Lá lhe explico tudo muito bem. Em que dias levantou ele dinheiro para as putas, e quanto, e o que restou, e que juros venceram as contas a prazo, etc.
Aos almoços de domingo também tenho direito ao relatório materno das notícias da semana. E vou dando a minha opinião. Como nos outros andares, outros vizinhos devem dar a sua opinião sobre a minha vida e a da minha mãe. Por exemplo, uma das opiniões correntes, lá no prédio, é que sendo a minha mãe velhinha, e eu filha única, deveriam unir-se as casas, que até era mais barato e tudo. Acredito.
Com isto tudo, contei-vos uma pequena história de vida.
Vamos a outra.
O meu prédio tem 33 inquilinos. Não conheço ninguém. Cruzo-me com pessoas no elevador, mas não fixo em que andar moram. É demasiada gente.
Conheço o homem do bigode, o que me apanhou a mala com preservativos no elevador, há uns anos, e que me está sempre a dizer que as cadelas estão gordas, mas nem sei como se chama - costuma cheirar a álcool; conheço o casal simpático que agora tem uma cadelinha preta, porque falamos sobre os cães, e porque são mesmo uns amores de pessoas, e não me importaria nada de ser amiga deles, mas é raro encontrarmo-nos neste universo tão grande. Vou estando a par dos dramas e alegrias dos meus vizinhos de andar, apenas porque as paredes são finas. Mas se precisar de ajuda, não saberei a quem me dirigir. Se calhar corro ao prédio da minha mãe.
A grande diferença entre o meu prédio e o prédio da minha mãe é que o dela é uma aldeia e o meu uma cidade grande, e nas cidades grandes existe a protecção do anonimato, com todas as vantagens e desvantagens que acarreta. Uma das desvantagens é a quase total ausência de histórias de vida que tanto incomodam Pacheco Pereira. Mas entre o prédio da minha mãe e o meu, para ser sincera, não sei qual deles estará em maior retrocesso civilizacional.
Depois, claro que tudo o que contei sobre a minha vidazinha é deplorável. Agora, passado a livro, como ficção do quotidano urbano, fazendo de conta que não tem nada a ver comigo, se calhar Pacheco Pereira até lhe acharia graça. Não seria grande obra, mas também não envergonharia muito, e para se ler numa tarde do mais leviano Verão, talvez servisse.

Vilhelm Hammershoi



sábado, 30 de maio de 2009

Falta-me o pai das cadelas

Sentadinha na esplanada do costume a ler o Público e o Expresso acabados de sair do forno, com as cadelas à solta debaixo da mesa, e um café sobre o respectivo tampo.
Aparece o filho da Ermelinda, empregada do café Machado, onde se fazem os melhores croissantes do bairro. Seis anos de rapaz.
- Estas cadelas são tuas?
- São.
- Elas comem flores? - enquanto esmagava uma entre as mãos.
- Não, só gostam de as cheirar.
- Comem sementes?
Fiz uma pausa, tentando lembrar-me:
- Não, não comem. Só se meteres a semente dentro de um bocado de carne.
- Tenho aqui uma, estás a ver? - e mostra-me um grão de milho de pipoca.
- Sabem jogar futebol?
- Não, nunca as ensinei.
- Devias ensiná-las.
- Como? Eu também não sei.
- Pedias ao pai delas.
- Qual pai? O meu marido?
- Sim.
- Eu não tenho marido.
- Não tens marido?! - o miúdo esboça um grande sorriso incrédulo. Custa-lhe a acreditar.
- Como é que consegues? Ainda bem que são cadelas, se fossem cães era mais difícil para ti.
Fiquei a rir-me.
Para as crianças deve ser muito confuso adequar à lógica do seu mundo, ainda tão puro, tão possível, tão selvagem, a ordem das coisas tal como lhes é transmitida em casa e na escola e nos restantes círculos sociais. Já não nos lembramos, mas para nós, as lógicas da cultura que agora defendemos com unhas e dentes, também devem ter sido um parto difícil.

Psicopatologiazinha

A Micas vai fazer 11 anos e está a ficar velhota. Cada vez lhe pesa mais a anca e a pata direita. Caminha devagar, fica para trás, ao seu ritmo.
No elevador, abracei-a, e disse-lhe, deixa lá, a dona adora-te, e quer que tu vivas muitos anos: mais 10, 20, 30, 40 anos... bem, tantos também não, porque depois não estaria cá para cuidar de ti, para te proteger. E em centésimos de segundo compreendi o que passa pela cabeça dos suicidas-homicidas, dos que dão cabo da família toda, inclusive do cão e do gato, antes de se aniquilarem: não suportam que a vida dos outros possa seguir sem eles. Não acreditam. Não conseguem viver no mundo e acham que o mundo não consegue viver sem eles.
Sinceramente, a maior parte de nós vai adormecendo e acordando agarrado à sua psicopatologiazinha.

Foto: Micas, by Isabela

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Essa forma de existência tão anormal

A minha vizinha do lado é uma mulher jovem e muito bonita. O marido é um camião TIR com o tubo de escape muito carbonizado. Nunca saem juntos de casa. Nunca entram juntos.
Sei que são casados porque a minha sala dá para a cozinha deles, ambos passamos muito tempo nos respectivos espaços, e as paredes são finas demais. Há dias em que tenho dúvidas sobre se hei-de ver um dvd ou ficar a ouvir a troca de galhardetes do outro lado. Do outro lado há tensão emocional, há dimensão trágica, há ciúme, raiva, desprezo, humilhação, decepção; os intervenientes na acção desempenham os seus papéis com autenticidade e mestria, como se nunca tivessem feito mais nada na vida. Vê-se que não são amadores. Enquanto num filme é sempre incerto.
Quando os ouço penso que tive uma sorte enorme em escapar ao teatro da vida conjugal. Mas depois páro um pouco e sei que é mentira. Isso era o que eu gostava que fosse, para poder justificar, com argumentos imbatíveis, a minha condição de solteira, essa forma de existência tão anormal, como dizia no outro dia uma tia minha.
Porque é evidente que outros casais têm tudo. Os meus vizinhos é que tiveram azar.

As rolas

Duas mulheres passam por mim abordando um assunto bonito. Uma arrulha, cucuru, cucuru, e diz, eu é que sei arrulhar tal e qual como uma rola. E repete, cucuru, cucuru. A outra responde-lhe, sem maldade, pareces mais uma pomba histérica, e tenta fazer melhor, cucuru, cucuru.
De repente, lembrou-me que há poucos dias li, em algum lugar, ou contaram-me, que a uma certa mãe não custava matar galinhas, o que lhe doía era matar as rolas. Não consigo localizar a fonte desta informação nem localizá-la temporalmente de forma precisa nem sei porque me recordo dela.
Não falam dos maridos nem dos filhos nem do emprego nem do que vão fazer para o jantar. Arrulham. Arrulhar é um assunto importante. Devem ser felizes.

sábado, 23 de maio de 2009

País das Maravilhas

Gostava de ter gerado as minhas cadelas. De as ter tido na barriga a esticar as patinhas, a dar a volta; de fazer uma ecografia e ver os seus coraçõezinhos pequeninos bater. Gostava de as ter parido, e que mas tivessem posto sobre o peito com o pelinho encharcado de líquido amniótico, e de ter olhado para elas e concluído que, sim, eram a minha cara, tinham os meus olhos, via-se mesmo que eram minhas filhas. E dar-lhes de mamar, e que elas adormecessem a sugar o leite das minhas mamas.

Se o mundo fosse perfeito, para haver justiça entre as espécies que o habitam, não deveríamos poder escolher o que paríamos. As fêmeas, sem olhar à espécie, poderiam gerar bebés humanos ou suínos ou leões ou gatos ou ratinhos. Quando o teste de gravidez desse positivo estaríamos grávidas de uma criatura à sorte. Então, respeitaríamos os animais, atribuir-lhes-íamos direitos e já não nos incomodaria que andassem à solta na rua, porque podem morder, tal como não nos incomoda o pensamento de que haja malucos perigosos lá fora, e eles passam por nós todos os dias. Isto é capaz de vos parecer mais uma das minha ideias lunáticas, mas para mim tem uma lógica imbatível, para além de que implicaria todo um outro mundo, um outro pensamento. Se uma mulher pudesse parir um cão nenhuma das instituições ideológicas em que nos baseamos para compreender esta realidade poderia continuar a servir. Uma coisa seria certa, amaríamos os nossos filhos, independentemente das suas capacidades. Os sistemas políticos e religiosos perderiam o sentido, bem como a obsessão da competição. Creio tratar-se de um belo tema a explorar.

Esta noite a Morena veio enfiar-se na minha cama e apertou muito o dorso contra a minha barriga, como se quisesse entrar dentro de mim e ali ficar em posição fetal. Aconcheguei-me a ela. Meio a dormir, aconchegámo-nos uma à outra, e tive pena que ela não pudesse cair para dentro do meu umbigo tal como Alice resvalou para o País das Maravilhas.


Fotograma de O Anticristo, de Lars Von Triers.

Nota: agradeço muito que os leitores me lembrem e façam chegar exemplos de manifestações artísticas que se encontrem relacionas com a ideia que exponho neste texto, ou seja, a procriação aleatória interespécies. Interessam-me imagens (foto, pintura, escultura), textos (narrativa, poesia, texto dramático), inclusive para público infantil. Interessa-me qualquer manifestação artística ou ensaística que exponha um mundo no qual humanos e não humanos vivessem em igualdade. Por favor, enviem-me essas referências para o e-mail.


Espelho

Quando escrevo, sobre o meu pai, "Está ali aquela gigantesca figura zangada, humana e dorida (...) tenho algumas dúvidas de que esteja a falar só dele.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Gigantesca figura

O meu pai morreu em Maio, há oito anos, e eu deixei passar o dia. Não me lembrei mesmo.
Não vou ao cemitério há um bom par de anos. Imagino que os seus ossos estejam muito sossegadinhos, numa gaveta, a ganhar humidade ao lado dos da mãe. Dentro de um gavetão de cemitério deve haver muita humidade.

Até parece que afinal esqueci o homem da minha vida. Que já era.

No outro dia sonhei que o meu pai tinha morrido num lar. A proprietária procurava contactar-me, bem como à minha mãe, para nos avisar da sua morte, mas não nos conseguia localizar. Tinhamo-lo abandonado nessa casa e nunca mais o fôramos visitar. Não tínhamos deixado morada nem números de telefone. Eu estava aflita; queria explicar que não era isso, mas também não sei dizer o que era.

É provável que tenha de carregar comigo a culpa, eventualmente justificada, de ter abandonado o meu pai. Tanto no plano simbólico, como no real, ambos travámos, ao longo do tempo, uma inexplicável luta de abandonos sucessivos e de reencontros de amor brutal.
Quando escrevo sobre o meu pai sinto quase sempre que o abandono mais uma vez, e talvez não o mereça. Talvez. Nunca tenho a certeza.

O meu pai era um homem sorridente, generoso, sensível. O meu pai era irascível, medonho, impulsivo.

Ontem, enquanto via um episódio de Dr. House, aconteceu-me chorar. O médico negro deixou morrer uma doente, e havia ali uma certa tensão. A combinação choro e médico negro transportou-me para a memória do meu pai. Por vários motivos: o meu pai também chorava. Chorávamos nas mesmas alturas dos filmes: era um bocado ridículo e até nos ríamos disso. Se estivesse a ver aquele filme comigo, o meu pai teria ficado comovido com o médico negro. Por ser médico e negro. Por ter conseguido ultrapassar as barreiras da raça (o episódio também abordava a temática). Mas se estivesse a ver o episódio comigo, o meu pai teria comentado, mais para si próprio do que para mim, embora até parecesse que estaria a convencer-me - e sei que o teria dito, sem falhar - "os negros também podem chegar a médicos. Também são espertos, em querendo. Também são capazes". E di-lo-ia com uma convicção enorme. Isso dos negros também serem capazes de ser médicos. E às vezes dos bons, melhores que os brancos.

Concluindo: posso perfeitamente esquecer-me da data de aniversário e morte do meu pai, porque não o esqueço no resto das datas, ou melhor, todos os dias. Está ali aquela gigantesca figura zangada, humana e dorida, como um antigo amor que nunca conseguimos ultrapassar.


Dr. House e Companhia

terça-feira, 19 de maio de 2009

República do Padrinho

Houve um tempo não muito distante em que acreditei na democracia. Era idealista. E sou, penso. Mas, agora, uma idealista ferida, como uma leoa atingida por uma bala no flanco. Sou um animal dorido e raivoso. Não me toquem. Não se aproximem. De preferência, não existam.
Ainda há meia dúzia de anos discutia largamente com a minha tia afastada, uma senhora que viveu parte da sua vida adulta sob o salazarismo, sobre o carácter definitivo das vitórias da democracia, sobre um impossível retrocesso relativamente a direitos e deveres consagrados na Lei e na Constituição da República, como o direito ao voto e à protecção sanitária e social. Essas discussões entusiasmavam-me. Quase lhe gritava que ela não tinha motivos para ter medo. Que tudo tinha mudado. Que não voltaríamos a ter microfones da PIDE a escutar-nos por debaixo das secretárias.
Desde que o governo Sócrates vigora, tenho tido de engolir, Lei a Lei, aquilo em que acreditava com argumentos que não se baseavam na mera fé. Não era como acreditar em Deus. Sabia ter atrás de mim toda uma tradição política, exemplos de verdadeira consagração ao serviço público.
Mas, hoje, levaram-me mais fundo, mais longe. Hoje, vi anular-se, frente a estes olhos, uma eleição realizada nos termos legais, cumprindo os preceitos estipulados pela própria democracia. Os resultados do sufrágio não interessaram à "democracia". Portanto, kaput. Não acreditava que isto pudesse acontecer na Europa, no nosso tempo. Não estamos na Guiné-Bissau. Isto não é a Serra Leoa. Ou é? Digo-vos, isto, hoje, foi, verdadeiramente, a República do Padrinho.
Uma coisa é ler nos jornais que que o primo de Fulano está na China a aprender kung-fu oito horas por dia, e dar uma gargalhada, porque a realidade parece uma bd, e outra é levar com a realidade na cara, de chofre e sem jornal nem bd, que por acaso foi o que me aconteceu hoje.
Compreendi a cru que a "democracia" cria mecanismos que o compadrio tem o poder de anular. Compreendi que não vivemos em democracia, mas no compadrio. A democracia chama-se O Padrinho. Está lá O Padrinho. Vamos eleger O Padrinho. Há vários tipos de O Padrinho. Podemos escolher entre O Padrinho A, B ou C, mas as diferenças não são relevantes, e O Padrinho, eleito, faz o que lhe der na real gana. Entre isto e o poder feudal, sinceramente, venha a guilhotina.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Enorme pouco


Lendo sentada no chão, sobre uma manta e almofadas. Ia noite alta. O Putchi ressonava a um canto, competindo com um trompete dum dvd que tocava. Fazia um frio de facas, como faz sempre em Alcácer, no Inverno; eu tinha fechado a porta e ligado o aquecedor, um bocado. O quarto tinha aquecido e estava-se agora lá muito bem, com a luz suave, a música, o cão, os livros à minha volta, o conforto, a minha vontade, a minha vida... e depois caí em mim. Reunira ali tudo o que sempre desejara. Era tão pouco. Esse enorme pouco era a minha felicidade. Seria difícil voltar a ter nas minhas mãos outro momento de igual paz, e de facto só a recuperei quando vim para esta casa, e me entranhei nela como se fosse a minha casca.
A felicidade é coisa muito pouca. Muito rasteira. De linguagem muito incipiente. Gestos muito inesperados e simples, sem nada a esconder. Sinto isto, tenho isto para dizer, toma lá.
Recordo-me de ter pensado que era absolutamente necessáro recordar para sempre esse momento, esse exemplo. Tinha 37 anos e passaram mais dez. Vejo nas fotos que estou mais velha e muito mais feliz.

Foto: Gregory Colbert

domingo, 17 de maio de 2009

Dinamitar o Cristo Rei?


Nossa Senhora tem andado em digressão pela Margem Sul por mor da comemoração do cinquentenário da construção do Cristo Rei.
Confesso que não foi assim que a minha mãe me contou à hora do almoço.
Falou-me do representante do Papa, e de muitos cardeais, e do bispo de Setúbal a elogiar a nossa presidenta da Câmara, e de muitos, muitos padres de todo o lado, e procissões, e que em Lisboa também tinha sido muito lindo, que a Senhora tinha ido a um hospital, e muita gente, muita gente, tudo muito lindo, muito lindo, como é que era possível que eu não tivesse ficado em casa a seguir tudo pela televisão.
Fui ouvindo isto entre as favas com salada de alface e pescada frita, e só me pronunciei quando chegou a parte em que me revelou que Nossa Senhora tinha vindo num vidro de Roma. Porquê num vidro de Roma? Acaso o nosso vidro não é suficientemente bom? Eu tinha percebido mal. Era numa redoma. Nossa Senhora tinha vindo numa redoma. "Porque traz uma coroa de ouro de muitos quilos, manto bordado a ouro e jóias, muitas jóias." Parei de mastigar para lhe responder, "e esse ouro e essas jóias, vendidos, não seriam uma boa forma de arranjar dinheiro para ajudar uma quantidade de famílias, agora com a crise?!, e Nossa Senhora não havia de se importar de viajar mais pobrezinha."
Sacrilégio! Roubar o ouro à Senhora! Que não, que o ouro e as jóias tinham sido oferecidos pelo povo com muito sacrifício. Ainda retorqui, sem grande sucesso, "mas não achas que agora o povo está a precisar disso tudo de volta?"
E acabou-se ali a conversa, que ela não me quer ver excomungada.

Adiante, e passemos para a importância que a estátua do Cristo Rei tem para a população da Margem Sul.
Para nós, almadenses de carne ou de adopção, o Cristo Rei é o maior mamarracho que alguém se lembrou de construir no nosso território. Eu até podia ir agora ao Google investigar quem foi o autor de semelhante projecto, mas aposto que foi um daqueles licenciados do antigo regime, que aprovou a Inglês Técnico via fax.
Um bloco de cimento atirado ao alto, descarnado, com Cristo de braços abertos para Norte. Vão-se lixar para os braços abertos a Norte, e Cristo não merecia tanta fealdade.
Em cinquenta anos de existência, o Cristo Rei serviu-me, quando era mais nova, para namorar à sua larga sombra e aproveitar as delícias da juventude no meio duns arbustos muito discretos que o rodeavam. Depois, muraram-no, passaram a chamar-lhe santuário, e deixou de ter interesse.
O que a gente queria mesmo, e aproveito para lançar a ideia ao senhor vereador do património edificado, era dinamitar aquilo como se fez aos prédios em Tróia, e contruir ali um carrossel, uma montanha russa, enfim, uma grande feira popular toda iluminada à noite, com farturas e tiro aos pratos e umas barracas com cerveja fresca e caracóis e pipis.
E uma enorme bandeira, no alto, com a foice e o martelo bordados a ouro. Era isso, se faz favor.


Foto de juhanie


Nota importante:

já agora, senhores vereadores da Câmara Municipal de Almada, do que nós também precisamos muito é de espaço ajardinado para onde possamos levar os nossos cães, porque a bicharada precisa de correr. O Parque da Paz é lindo, gostamos todos muito, sem ironia, mas andar com os cães atrelados, e não poder levá-los para a relva por causa das crianças, é muito chato, sobretudo quando os cães até são os companheiros das crianças.

Precisamos dum jardim como o Central Park, para onde possamos ir livremente piquenicar com o nossos animais, ler, correr, jogar, deitar-nos ao Sol e à sombra. Um lugar dog friendly, logo, um lugar civilizado.

Outro recado, já que estou com a mão na massa: lembro que a Festa do Avante era dog friendly e deixou de ser. Na última edição não pude entrar com as minhas cadelas e voltei para trás. Pedi devolução do bilhete, e não voltarei à Festa enquanto não as puder levar comigo.

Ter proibido as pessoas de entrar com cães na Festa foi um enorme retrocesso relativamente ao que era a essência do Avante.

Cabrão velho

Putchi era o cão da minha senhoria, em Alcácer do Sal, quando lá trabalhei numa sucursal da fábrica. O Putchi foi, sem qualquer hesitação, dos cães mais feios e mal cheirosos e pulguentos e carracentos e espertos que conheci em toda a minha vida.

Era um cão de caça, baixo, quase roçava o chão, de pêlo curto, branco sujo misturado com amarelo, cinzento, castanho, preto, óleo dos carros, bosta de ovelha. Tinha as orelhas rasgadas e cicatrizes no focinho. Quando se enrolava na cama que lhe arranjei, parecia uma esfregona velha que já ninguém se atreveria a usar.

Antes da minha chegada, o meu senhorio chegou a esquecer-se dele nos montes, recuperando-o uns dias depois. Deixava-o, sem querer, fechado na bagageira do automóvel, e ia trabalhar de autocarro. Algum tempo antes de eu chegar, o Putchi dormia no pátio, que no Inverno era gelado, acorrentado a uma casota de pedra por meio metro de corda, e comia restos do jantar dos donos. Segundo o meu senhorio, era um excelente cão de caça, o que não lhe granjeou melhor tratamento.

Quando cheguei àquela casa, o Putchi já tinha conseguido carta de alforria e passava a maior parte dos dias solto, vagueando por onde lhe apetecia. Essa seria a sua grande benesse. A liberdade.

A primeira vez que dormiu dentro de uma casa, e sobre superficie almofadada, foi no dia em que fui viver para o sotão da minha senhoria. Entrou-me lá dentro a abanar o rabo, com os olhos muito molhados, muito vivos, pretos, eu olhei para aquela bota velha com mau hálito, e apaixonei-me por ela. Enquanto lá estive o Putchi gozou vida de lorde. Só descia para vadiar. Raramente ia à caça. Nunca mais viu coleira nem trela e posso dizer, com alguma certeza, que foi feliz.

Tossia muito de noite. Acordava-me, e fazia-me levantar para lhe enfiar Nimedes goela abaixo, que era o que havia, e resultava. Era-me fiel como o meu próprio corpo. Nunca lhe dei banho, que ele não permitia essas práticas anti-naturais, mas esfregava-o com panos húmidos e ensaboados, para aliviar o cheiro e tirar a maior. Desparasitava-o, alimentava-o e falava com ele.

De manhã, acompanhava-me, muito alegre, até à fábrica, correndo atrás dos pardais que se atravessavam pelo nosso caminho, e depois ficava uns minutos ao portão, até seguir destino. Conhecia o meu horário, e voltava para casa quando eram horas do meu regresso.

O maior desgosto do Putchi era não ter autorização para dormir na minha cama. Ainda me lembro do cheiro dele. Cheirava a cebola podre perfumada com terra. Era um cheiro doce, ácido e velho. Com o tempo, e a insistência dele, cheguei a arranjar-lhe uma cama especial muito ao fundo do meu colchão, com um cobertor velho, e dizia-lhe, ficas aqui sossegadinho, não sais daí, e adormecia, e acordava sempre com a cabeça dele deitada na almofada ao lado da minha, e aquele hálito poderoso no meu nariz. Ria-me, o que é que eu havia de fazer, ria-me e voltava-lhe as costas, e insultava-o, chamando-lhe grande cabrão, e outros mimos.

Quando de lá saí levei-o muito atravessado no coração. O Putchi não era meu, era um cão emprestado. Hoje penso que devia tê-lo trazido, porque morreu atropelado, dois meses depois, na estrada dos Açougues, com as tripas expostas.

Fomos muito felizes os dois. Alguns dos momentos mais felizes vivi-os com cães. Alguns nem sequer eram meus.

Não podemos voltar atrás, mas podemos aprender com a memória do que não não é possível consertar.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Rua negra

Era Novembro e eu tinha acabado de chegar.
Nas Caldas da Rainha, em 1975, para ir para a escola atravessava uma rua negra, com alcatrão levantado nas bordas, sem passeio: um túnel de edíficios muito sujos pelo tempo, dos dois lados da via. Era uma rua cinzenta-escura do princípio ao fim. À hora a que ali passava havia ainda muito nevoeiro ou fumo ou frio opaco. A atmosfera era espessa, e eu atravessava-a como uma faca. Cruzava-me com trabalhadores apressados, vergados pela hora matinal, pelo sono, pelo cansaço, pela pressa. Caminhavam muito rápido e de passo miúdo, com os olhos postos no chão, usando casacos e bonés de fazenda axadrezada, cinzenta, preta ou castanha e fatos de trabalho escuros. Nunca lhes via a cara.
Do lado direito da estrada, no início da rua, abria-se uma porta larga para as entranhas de uma oficina. Não era uma porta, mas uma cloaca. Dentro, paredes negras de humidade e óleo velho. Quando passava frente ao portão, três homens atarracados, com mãos e roupa sujas do trabalho, gritavam-me comentários sexuais que me esforçava por não ouvir. Colava o pescoço aos ombros, comprimia as paredes dos ouvidos, fechava os olhos, fechava-me, e mesmo sem querer escutava mamas, cona, rabo, palavras que vinham adornadas com advérbios ou verbos de péssima expressão. Insultos. Eu tinha 12 anos, quase 13, e estava a ser insultada por evidenciar mamas, cona e rabo, não percebendo o desmerecimento. Era insultada por ser uma mulher. Era quanto bastava. Aos rapazes ninguém os insultava desde que não parecessem maricas.
Não tinha outro caminho para a escola. Era preciso ir por ali todos os dias.
A minha avó era uma velhinha muito branca e vestia-se toda de preto. Quando lhe descrevi o comportamento dos homens da garagem, disse-me que era assim, que não respondesse, que mulheres honradas tinham orelhas moucas.
Lembro-me muito desta rua e desta oficina. O mês passado ocorreu-me que nas próximas férias gostaria de passar pelas Caldas, lá em baixo junto ao cais, para ver se a rua negra ainda existe, se ainda está tal como a deixei. Aposto que não mudou. Em Portugal tudo demora muito tempo a mudar.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Desgosto cru

Há muitos anos, nos tempos em que o Agualusa ainda não era um escritor luso-angolano, apenas colaborava no DNJovem, abordou-me para uma crítica pertinente.

Argumentava que o que eu escrevia sobre África era demasiado saudosista, que dava da realidade colonial uma ideia melosa, de uma boa vida. Que me referia aos retornados com certa compassividade, esquecendo-me do fundamental da questão: o massacre de Wiriamu. Sabia eu o que se tinha passado em Wiriamu?! Sabia vagamente, digamos. Claro que lhe disse que sabia muito bem.
A crítica do Agualusa tinha todo o sentido. Não o admiti. Fugi à questão o mais que pude. Que essa não era a minha intenção, a do saudosismo - e não era - e fugi. Acho que nunca mais voltámos a falar sobre este assunto e, de forma geral, sobre nenhum outro. Penso que o Agualusa nunca gostou muito de mim.

Em 1985 não posso dizer que a questão colonial estivesse arrumada na minha mente. O meu pai estava vivíssimo da silva, tratava por tu todos os pretos que encontrava pelas ruas de Lisboa, perguntando-lhes, ó pá, de onde é que tu vieste, e basicamente desejava que a Renamo destruísse, de preferência com bomba atómica, qualquer resquício da Frelimo.

Creio que n'O Mundo Perfeito cheguei a revelar que quando O Enigma da Caixa de Música, de Costa-Gavras, estreou em Portugal - filme que explora o dilema de uma filha, ao descobrir que o amado pai pertenceu activamente às SS - fui vê-lo segunda vez com o meu pai. Para ele, era a primeira. Queria prazenteiramente confrontá-lo com aquilo.

Estávamos os dois no cinema, lado a lado, amávamo-nos, tínhamos saído de casa num sábado à tarde, lanchado na pastelaria Suiça, rido, conversado, e agora eu estava ali a mostrar-lhe - desculpem, o filme estava ali a mostrar-lhe - como era o fim dos conjurados, estás a ver?, e este devia ser o teu fim, devias pagar e bem. Estás a ver, meu grande filho-da-puta?

Ser filha do meu pai foi o meu maior bem e contentamento e simultaneamente um desgosto cru, manchado de dor e vergonha. Como pôde existir tanta negação e tanta raiva pelos meandros do amor mais pungente que lhe dedicava? Como podia traí-lo tanto?! Foi com este misto de sentimentos que tive de aprender a viver, e a resolver-me e a posicionar-me na vida. Será esta ambivalência algo assim tão impossível de compreender?! Não faz ela parte de incontáveis episódios da história da humanidade e da literatura? Sou a única com telhados de vidro? Sinceramente, creio que não. Há muito quem por aí tenha sentimentos semelhantes.




O passado colonial está arrumado de forma muito transparente na minha memória ou não poderia escrever sobre nada disso. Talvez um certo meio politica e socialmente correcto preferisse que registasse tais memórias com mais paninhos quentes, explicações, justificações. Se calhar deveria excluir-me do processo e dizer, ah, isso foram os outros, eu cá não. Não é possível. O que tenho a dizer é totalmente sem paninhos quentes. Portanto, o que me ocorre sobre o passado colonial limita-se à narração ou descrição fria, e o mais isenta possível do que vivi. Na minha consciência não preciso de atenuantes. Na minha consciência, e estou farta de dizer isto, preocupa-me, apenas, proteger o amor pelo meu pai, e é isso que é difícil e me remete constantemente para o fio da navalha. Não tenho nenhuma outra forma de o fazer a não ser declarando que, apesar de tudo, o amava, o continuo a amar. Sou fracota nisto do amor.

De resto, o colonialismo... tudo muito bem arrumadinho. Tínhamos a melhor das vidas. Os negros safavam-se; mais porrada, menos porrada, lá lhes calhava, tal como a um cão do qual afinal até se gosta, um bocado de carne. O pessoal da Metrópole estava-se nas tintas para o destino dos pretos, as especificidades da vida colonial, o que o chateava era a mortandade na guerra, e não ter, também, os seus pretos tão fáceis, tão à mão; tinha-nos uma inveja de morte, e tratou-nos pior que febre suína quando cá chegámos a pedir batatinhas.

A maior parte dos retornados, velhos e da minha idade, continua hoje a odiar os pretos, e a financiar, sob a forma de doação, os movimentos de extrema-direita. Mas o que sempre foram da Metrópole odeiam a pele negra de igual forma, e mal se distinguem dos referidos doadores. Entretanto, o complacente Estado português alarga os limites da liberdade de expressão a um ponto tal que possibilita a proliferação de mensagens cujo conteúdo é ofensivo da dignidade humana, pela discriminação implícita.

Pela minha parte, e para memória futura, pretendo deixar claro o seguinte: participei ou, no mínimo, fui testemunha de actos colonialistas e racistas durante boa parte da minha vida. Tudo o que vivi foi traumatizante e impediu-me de me tornar um ser humano mais livre e mais aberto. Sou filha desse colonialismo, para o bem e para o mal, e os meus actos têm-no sempre como medida primeira. Foi a vida que tive. Foi assim que começou. Não posso voltar atrás. Não posso negá-la. No entanto, assiste-me o direito de a expor como um quadro da guerra, como uma Guernica, para que pelo menos não possa voltar a acontecer sem o meu aviso nem sem o meu exemplo.