segunda-feira, 29 de junho de 2009

O carro da lama

O carro da lama, 2009 [fotos captada a partir de imagens televisivas]


A Micas caminha devagarinho porque sofre de displasia avançada na anca. Digo-lhe, quando chega, és o carro da lama. É uma expressão muito antiga que aprendi com a minha mãe. O meu vocabulário é essencialmente rural, bem como a minha prosódia. A minha fala é a fala da minha mãe, por muitos oceanos que tenhamos atravessado.
Gosto da expressão "o carro da lama". Seria a carroça de bois que vinha lenta na estrada do Inverno. Os animais puxariam a carga, arrastando-se sob o peso da chuva que enlameava todos os caminhos da aldeia. O carro da lama progrediria com dificuldade, não sendo o último a chegar, porque em Janeiro todos os carros eram da lama. É uma expressão ferozmente antiga, marcada pela dureza da vida na aldeia, para todos os seres que nela viviam.
O mundo mudou muito e as nossas expectativas são agora muito altas. Hoje, pelo menos para os citadinos, a felicidade não se limita a desejar ter estradas sem lama. Ambicionamos possuir um jipe para podermos enterrá-lo e desenterrá-lo, recreativamente, pela lama dos caminhos. O que para os outros era trabalho, para nós é entretenimento. O prazer tornou-se demasiado caro e complexo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Aqueles que representam o tempo das nossas vidas

Morto, 2009 [foto obtida a partir de imagens televisivas]


Lembro-me que tinha acabado de chegar de 40 graus em Paris, com os pés em sangue, e na manhã seguinte a minha mãe acordou-me, anunciando-me, Diana morreu. Levantei-me da cama em estado alterado. Como poderia ser tal coisa? Sentia-me chocada. Mas que diferença haveria, para mim, entre a morte de Diana e a de uma prima cancerosa, no mês anterior? Conhecia a minha prima querida e não senti choque tão profundo. Quem era essa Diana, e o que fez para além de ser princesa em Gales, oh, tarefa árdua?!

A diferença entre a minha prima cancerosa e Diana de Gales é que a segunda constituia, para mim, um ícone cultural, e com ícones não se brinca, porque representam mundos: ela representava uma certa ordem que não funcionou. O casamento de sonho, o casamento falhado, a maternidade autónoma, a beleza convencional. Uma mistura entre o velho e onovo mundo.

Aconteceu-me o mesmo hoje, com a notícia sobre a morte de Michael Jackson. Vejo muitos jovens de 20, 30 anos, na blogosfera, comentarem o seu desaparecimento, mas para quem viveu com ele os anos 80, e imaginou o seu futuro enquanto passavam, na rádio e na tv, as suas músicas, é uma perda estranha. Caramba, eu namorei a ver telediscos do Michael Jackson. Estão a brincar!
Há pouco um video de uma canção sua de que gostava tanto, e só quis chorar. Era tão jovem, tão bonito, e a vida tratou-o tão mal. Não quero ouvir uma palavra sobre os seus exageros, os seus erros - eu também cometo os meus.
O que se perde com o desaparecimento de MJ? Nada de maior, verdadeiramente. Ele já tinha desaparecido pelos meandros da sua decadência. Contudo, como símbolo de um tempo que é a nossa arqueologia, nossa dos de quarenta, ele importava. Como Diana, era ícone cultural de um tempo, de uma ideologia que enquanto vivessem, boa ou má, vivia. Se calhar, como diz Chavez, um ícone do capitalismo! Se o homem está certo, e deve estar, terei de comer o meu chapéu, mais cedo ou mais tarde. Mas por agora só consigo lembrar-me dos acordes de Billy Jean e o resto não me interessa a ponta de um chifre de veado. Eu nem sequer era fâ de MJ. Perceber isto até dói.


Poema de sexta-feira à noitinha

Tinha de decidir se havia de enganar o farmacêutico com uma mentira qualquer para me vender uma caixa de Lorenin 5 ou se entrava no Jumbo, e comprava, sem alarido, uma garrafa de legalíssimo uísque velho, sem justificações. Por uma questão de preguiça, e não só, optei pela segunda. O meu pai bebia uísque com soda e gelo ao sábado à tarde, e deixava-me provar golinhos preciosos. Gosto de uísque porque era a bebida do meu pai, porque me leva para outro tempo, outro lugar. Estou sentada ao seu colo e ele pergunta-me, queres provar? Queres ir dar uma voltinha ao Zambi? Queres ir comer um sorvete na cooperativa?
O meu uísque tem folhas de palmeira e uma brisa morna a tocar-me nos ombros.
Não somos o que os nossos pais quiseram que fôssemos; não somos o que eles fizeram de nós. Somos o que os vimos fazer, e aquilo que fizemos com eles, e era bom.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Fígado de porco

O meu primeiro aborto saiu-me pela boca do corpo como um grande fígado de porco cortado aos bocados. Acordei na minha cama ensanguentada, e ao levantar-me, involuntariamente, o meu corpo expulsou litros de sangue coagulado, ainda fresco. Era tão bonita essa carne vermelha, que era apenas sangue. Fiquei com aquilo nas mãos. Eram muitos bocados. Rosas de carne viva que iam saindo de mim conforme caminhava pela casa, deixando um rasto de sangue, como se o útero regurgitasse sozinho por ter bebido demais na noite anterior. Talvez eu tivesse bebido demais na noite anterior, não me lembro. Depois abortei outra vez mais devagarinho. Era só um fiozinho de sangue nas cuecas, uma coisa de nada, e percebi logo que havia outro figado de porco pronto a sair. No hospital, rasparam-me o útero com uma navalha, e eu senti, rasp, rasp, rasp. Era o meu fígado de porco a ser retalhado, e não me deixaram vê-lo na bacia de metal. Devem ter queimado tudo na incineradora do hospital, e saido em fumo pela chaminé, como os condenados em Auwschwitz . Podiam ter-me deixado trazê-lo para casa, para um arroz de cabidela. Ao menos, que o fritasse para as cadelas. Com tudo isto vim a descobrir que sou uma excelente produtora de figado de porco.

Os meus

Quando dou banho às cadelas com champoo vitaminado ficam a cheirar a champoo vitaminado, que é um odor muito artificial. Odor a nada. Espero 24 horas que lhes regresse o cheiro normal, e permaneço, então, com o nariz colado aos seus pêlos, inspirando o aroma animal como quem come carne para saciar a fome. A Morena exala um odor intenso a palha seca ao sol. Forte, pastoso, ligeiramente enjoativo. A Micas cheira a sal. É um odor mais leve, mais ácido, contudo quente. Às vezes deito-me no chão, e encosto a minha cabeça às delas, e fico muito tempo a cheirá-las, tentanto identificar cada fragmento odorífero que trazem colado a si, bem como a temperatura dos seus corpos. A Micas tem a testa sempre quente como se tivesse febre.
Eu sei que poderia ir para a rua inspirar o odor das flores, das plantas campestres, da terra do jardim, das chaminés das churrascarias, mas prefiro ficar em casa a cheirar as cadelas, para me sentir mais entre os meus.

Uma casa abandonada

Não me importo que entrem no meu peito e vasculhem os restos. É um cofre que se abriu. Uma casa abandonada pelos velhos donos falecidos. Pode entrar toda a gente para se esconder da polícia ou dos ladrões, para fazer amor, praticar ignomínias, injectar uma dose de heroína, escrever nas paredes ou defecar nos cantos. O meu peito é um lugar sem dono. Só escrevo meu porque se situa no corpo que me reveste, mais nada.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

A beleza


A defesa do corpo velho, caído, o corpo que o tempo transformou, é uma atitude louvável, e a encorajar, mas puramente intectual. Que remédio nos resta senão gostar do que ficou daquilo que fomos? Nem falo tanto por mim, mas sobretudo por aqueles que foram grandes ícones de beleza, e cujo ganha-pão deve ter dependido, em grande parte, dessa magnífica beleza física. Vejo-os em fotos antigas, e essas imagens passadas, gravadas em papel amarelecido, excitam o meu desejo de juventude, e de lamento pelo fim de condição tão perfeita. O que é ser belo, ser perfeito? É discutível, mas a frescura da juventude, o olhar, o brilho da pele, o sorriso que ficam nas imagens antigas é indiscutível. A maturidade traz-nos muitas vantagens, sobretudo mentais, mas esse olhar um pouco perdido, esse brilho, esse sorriso, que pena perdê-los tanto!

Paul Newman - entre as duas fotos passaram cerca de 50 anos.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Quem guarda os nossos animais durante as férias?

Está a chegar o tempo de férias e muitos não sabem onde deixar os animais de companhia enquanto vão uma semaninha de férias.

Pois bem, gostaria de vos lembrar que a Inês, da Casa do Pinhal, recebe cães como Família de Acolhimento Remunerada, a preços acessíveis a bolsas operárias, e os trata maravilhosamente, porque os adora, tout court.

Uma Família de Acolhimento não tem nada a ver com um hotel de cães, uma vez que os animais não ficam numa box, são passeados e tratados como da família. É lá que deixarei as minhas meninas quando for de férias.

Sinto-me feliz por poder divulgar esta mensagem da Inês. Tem o selo de qualidade de O Novo Mundo.

Os contactos estão no flyer, basta clicar na imagem para conseguirem vê-la maior - vão conseguir vislumbrar a Morena em duas fotos!


segunda-feira, 22 de junho de 2009

O parto da Morena

A Morena foi tosquiada, e o miúdo do 2º esquerdo disse-me, ontem, que ela está mais bonita, que até parece mais nova.

Perguntou-me ainda a sua idade, e eu pus-me a fazer contas de cabeça. Ora, se nasceu antes de o meu pai morrer, e se o meu pai morreu em 2001, e ainda a conheceu, e estamos em 2009, ela deve ter 9 anos. Depois, ainda precisei, foi no mês em que estreou o filme Magnólia, porque me lembro de estar sentada numa sala do Monumental, com a minha prima afastada, ainda o filme não tinha começado, e ela disse, Morena, vai chamar-se Morena como uma pantera linda de uma telenovela qualquer. E eu aquiesci, Morena, seja.

Portanto, a Morena fez 9 anos o mês passado ou está a fazê-los agora. Já não é uma criança, embora para mim seja o meu bebezinho, saído da minha barriga, carne da minha carne, sangue do meu sangue.

Lembro-me bem do parto. Eu tinha uma barriga muito pequenina. Toda a gente me dizia, vai ser uma menina, e eu respondia, pois vai, e é uma cadelinha, e andava muito feliz. Depois, no final do tempo, foi tudo muito natural: rebentaram-se-me as águas, senti algumas contracções, agachei-me no chão da sala, sobre um cobertor velho, e à sexta contracção a Morena nasceu, toda envolta num véu de líquido amniótico. Cortei o cordão umbilical com uma navalha desinfectada no fogo, e pus a menina sobre o meu peito, com os olhinhos fechados, atordoada, limpando-a toda com uma paninho húmido. Tinha os meus olhos, a minha boca, e senti logo aquele amor que as mães dizem sentir pelos bebés recém-nascidos. A minha Moreninha. A seguir, puxei a placenta, que no dia seguinte enterrei junto à raiz de um plátano do largo, lá em baixo, que cresceu ainda mais frondoso. É a sombra preferida da Morena, nos dias de muito calor. Sentarmo-nos debaixo da árvore, mãe e filha, gozando a leve brisa de Verão.


domingo, 21 de junho de 2009

Da batata

Ah, poder ser tu, sendo eu !
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso ! Ó céu !
Ó campo ! Ó canção ! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve !
Entrai por mim dentro !
Tornai Minha alma a vossa sombra leve !
Depois, levando-me, passai !



Fernando Pessoa


Na mesma reportagem em que recolhi informação sobre o plantio, tratamento e consumo da batata francesa, fiquei a saber que o primeiro tubérculo veio do Peru pela mão dos espanhóis. Disso já tinha uma ideia. Do que escrevo a seguir, não.

Lá nos Andes profundos, lugar onde a Shirley MacLayne recebeu há décadas a visão do Paraíso, e onde eu também o respiraria inteiro, se lá pudesse ir, continuam a viver os índios que primeiro as cultivaram há 10 mil anos, e a fazê-lo da mesma forma. Batatas bonitas, com formatos invulgares e cores diferentes daquelas a que estamos habituados. Vivem literalmente das batatas que plantam. Ou seja, comem apenas batatas, ao almoço e ao jantar. Se a plantação rendeu, pondem trocá-las entre si, e alternar, às refeições, entre espécies diferentes, o que será um luxo.

Imagino que se dediquem à caça miúda (a reportagem não abordou a questão, mas imagino que sim), no entanto, a economia é de subsistência, com a batata como alimento central.

Achei isto muito bonito, e desejei logo ser uma índia do Peru, com aquele chapelinho negro e as roupas coloridas e manchadas Mas, por culpa de Deus, vejo-me obrigada a ser a mulher que está do lado de fora, sentada ao volante de um Skoda, na berma na estrada, observando a índia do Perú sendo feliz na sua alegre inconsciência de semeadora de batatas, e querendo ser como ela, mas com a minha consciência.

Colocando a literatura de lado, no meu prato de batatas, sei muito bem que não pertenço à Europa. Olho à minha volta e sei que não sou daqui. Agora, por exemplo, olho lá para fora, alcanço o Mar da Palha, o arvoredo do Alfeite, o Barreiro muito ao fundo e sei que este não é o meu lugar. E é triste, sentirmo-nos exilados. Para além de que não se pertencer à Europa não é nada pessoano.


Foto de Michael De Maria, Amanhecer nos Andes, Peru

(...)

O futuro da leitura

A filosofia do Jornalismo, permitam-me criar esta área de estudos, caso não exista, interroga-se sobre o fim das edições em papel. A disponibilização on line da maior parte dos conteúdos editoriais veio causar o fim da imprensa escrita?

Por um lado é uma ideia algo apocalíptica, por outro é de um realismo ensurdecedor.

Para pessoas como eu é impensável trocar a leitura do jornal ou do livro em papel pela leitura num écran luminoso, seja ele qual for. A leitura não é, para mim, um acto de pensamento meramente associado ao visual. A leitura é táctil. Recordo o tipo de papel dos melhores livros que li. Consigo descrever o grafismo do Diário de Notícias ou de A Capital ou do Independente, nos anos 80. Consulto os jornais on line apenas para confirmar alguma informação que me transmitiram de boca ou para comparar uma notícia lida num título, com a forma como a trataram noutro. De resto, detesto ler no écran do computador, que tão útil me é de tantas formas.

Cumulativamente, não consigo compreender esta modernice que consiste em os jornais permitirem comentários às suas notícias e artigos on line, no final da última coluna de texto. Leio totais aberrações; emendo, não leio. Recuso ler o que quer que seja escrito como comentário a uma notícia. Claro que temos que dar voz aos malucos, mas por enquanto ainda existe o Júlio de Matos, as portas das casas-de-banho e a rua, a libérrima rua onde cada um pode gritar o que lhe apetecer e insultar o comum transeunte. A mim costumam calhar-me todos, até já estou habituada.

As notícias não devem ter caixas de comentários, nem os jornalistas ou cronistas devem ter que indicar o seu e-mail para receberem correspondência dos leitores. Se o leitor tem alguma opinião, que terá sempre, até porque defendo o direito à loucura e à indignação, escreva para a direcção do jornal e explique-se.

A democracia, infelizmente, tem de reescrever os seus limites. Eu, que sempre defendi que os blogues deviam manter caixas de comentários abertas, e critiquei, aberta e ferozmente, quem as fechava, acho hoje que os outros tinham razão, e que me cabe fazer um mea culpa nesse ponto. Não podemos ser demasiado ingénuos e pensar que quem nos lê, chega até nós com boas intenções, boa educação. Alguns, chegam. De resto, a saúde mental dos portugueses não anda grande coisa, e uma pessoa tem o direito de se defender. Penso, hoje, que permitir a livre expressão de opinião em caixas de comentários, nos blogues ou nos jornais, pode contaminar e abastardar o conteúdo comentado. Nos blogues, enfim, ainda se tolera, mas nos jornais é inadmissível.

Não é impossível que a edição jornalística em papel desça para metade, ou menos, nas próximas décadas, mas nesse caso será absolutamente necessário, por uma questão de sobrevivência, que as edições on line só estejam disponíveis mediante assinatura. Eu não faria uma assinatura on line do meu jornal preferido, a menos que estivesse no estrangeiro, mas a avaliar pela relação de osmose quase total que os jovens mantêm com o computador, penso que o futuro, todo o futuro estará on line. Os produtos em papel serão artigos de luxo para élites; eventualmente mais caros.

Pode haver quem diga que não está disposto a pagar uma assinatura on line, mas eu também já disse que nunca pagaria acesso à net, e estou a pagá-lo todos os meses. Portanto, o que dissemos ontem não corresponde necessariamente ao que faremos hoje.
A edição em livro, no entanto, manterá o seu formato em papel, por uma questão de tamanho e facilidade de leitura. É acessível, a qualquer par de olhos, ler textos curtos num écran, mas não estou a prever grande interesse pela leitura de O Ensaio sobre a Cegueira num computador, por muito bom que seja - o livro e o écran. Ler um livro ou um jornal na esplanada, à sombrinha, não é o mesmo caso o suporte seja um livro ou um notebook muito jeitoso. O problema da edição em livro prende-se, a meu ver, com o tipo de leitura que oferecerá, e não tanto com as características do suporte.
O leitor que hoje tem 15 ou 16 anos prefere temas actuais, práticos, numa linguagem fácil e bem ilustrada. Detestam romances e novelas com muitas personagens, intervenções inovadoras do narrador, ordens temporais complexas, símbolos. Gostam dos livros de auto-ajuda. Como fazer isto e aquilo? Como foi ou é a vida do cantor tal? Gostam de humor. Quanto à poesia, ao contrário do que afirmam os editores, penso que se transformará na grande fonte de literariedade, por um motivo bastante prosaico: normalmente, é um texto curto e de rápido acesso à emoção. Livros de poemas bem ilustrados, bem escritos, são muito apetecíveis aos jovens, ao contrário do que se pensa. Pena é não existirem muitos, porque a poesia continua a ser encarada como um texto muito, muito, muito sério que deve ser empacotado numa capa muito, muito, muito chata. Para mim, a poesia, é de todos os textos literários o mais intenso, o mais poderoso, o que mais facilmente captará para o mundo dos livros um potencial leitor.

Foto minha, captada a partir de imagens televisivas.

sábado, 20 de junho de 2009

Unhas de gel com terra

A mim interessam-me assuntos como as batatas.
Estive a ver uma reportagem sobre o assunto. Parece que em França lavam as batatas para as tornar mais apelativas ao consumidor. Parece que as armazenam em grandes superfícies, onde as gaseiam para que não grelem, e possam vender-se como novas muitos meses depois. Em França, os agricultores têm um catálogo que explicita as espécies de batata que podem cultivar-se em cada ano. Digamos que o cultivo da batata, em França, não é livre, e se nos apetecer plantar a espécie Mordome em lugar da Agatha, pode aparecer-nos a polícia lá na plantação.
Depois, claro, há ainda os pequenos agricultores, que para os critérios portugueses são todos grandes, os que vendem nos mercados ao ar livre belas batatas de pele fina, e ainda com terra. Vir envolta em terra é garantia de qualidade para o conoisseur da batata, que sabe bem que a produção industrial a lava e abrilhanta.
Mas no meio de tudo aquilo, o que me impressionou mesmo foram as unhas da vendedora do mercado. Tinha a minha idade. Era loura, magra e bem vestida. Manuseava as batatas terrosas com as unhas de gel, longas, pintadas de branco, com piercings brilhantes. Agarrava nelas com a mão cheia, raspava-lhes a pele com a extremidade larga da grande unha postiça e bem tratada, explicando ao repórter o que era uma batata nova, e perguntava, combien de quilos? Tudo com as unhas de gel, que eu, obsessivamente, via cheias de terra do lado interior. E foi essa imagem estranha, algo pósmoderna, que me prendeu. As unhas longas, de gel, com piercings de diamante, todas cheias de terra das batatas na face escondida.

As minhas colegas


As mulheres acordam às seis da manhã para entrar às oito e meia. Trabalham a jornada inteira. Chegam a casa às oito. Fazem o jantar para os filhos e para o marido. Metem a louça e a roupa nas máquinas. Arrumam a louça que ficou lavada do dia anterior e penduram no arame a roupa que que está ainda por secar. Dobram as peças que tiram do arame. Algumas, têm de passar-se logo, porque são necessárias no dia seguinte.

É preciso lavar os filhos, deitá-los e adormecê-los - as que vivem acompanhadas recebem alguma ajuda nessa área.

Depois são dez e meia, e há ainda trabalho a fazer; um ponto numa bainha, um botão que caiu, os sapatos por engraxar, a roupa para o dia seguinte, trabalhos para acabar trazidos da empresa.

Deitam-se tarde. O tempo não chega, nunca chega. No dia seguinte levantam-se às seis. Têm a impressão que as suas vidas não são a vida.

Vivem com a impressão muito nítida de que as suas vidas são em tudo muito contrárias à vida.


Fotos minhas, captadas a partir de imagens televisivas.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Poema da tua mulher

Querido, estive a pensar, e tão certo como tu chamares-te Prudêncio e eu, Vitória, é esta suprema ironia de não ser a tua esposa, a que vive as crises de silêncio da tua boca pela ausência incómoda e amante da minha, e ser de mim que, queiras, não queiras, rezará o futuro da tua história.
É tão injusto, meu amor, e só prova que quem verdadeiramente trabalha e merece os louros, jamais os desfruta.


Fernando Ribeiro, Sem Título (Deambulação), detalhe, C-print, 2009

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O odioso low profile

Tenho um defeito profissional que se conjuga que nem flores com certas características da minha personalidade, e que em Portugal é considerado uma enorme deselegância entre as pessoas educadas, as pessoas de bem, as pessoas contidas, as pessoas que se esforçam por andar na rua fazendo de conta que nem sequer existem: falo alto.
Em Portugal toda a gente quer ter low profile, ou melhor, traduzindo à letra, perfil baixo, ou melhor, traduzindo livremente, não dar nas vistas. Não tenho nada contra. Não percebo é por que motivo as incomodo tanto. Não faço esforço para ter profile algum. Deixo que a natureza faça o seu trabalho. Existo, exprimo-me... Não seria capaz de viver debaixo desse autocontrolo. Passei toda a minha vida a desejar fugir a todos os controlos possíveis. Não ando nas ruas a pensar, ai, estou a falar alto, se calhar era melhor baixar a voz, ou, ai, dei uma gargalhada, se calhar não devia gargalhar tão expressivamente, podia disfarçar, tapar a mão com a boca, e emitir um ligeiro ri-ri-ri. Não, deu-me para tirar partido da vida toda, e é sempre a abrir.
Ontem, à hora de almoço, calhou sentar-me, na cantina, ao lado de uma colega a quem pus a alcunha secreta de "nada de extremismos, nada de exageros", porque é o que a apanho a dizer todas as vezes que lhe roço com a perna a orla do vestido discreto. Conversávamos sobre umas políticas lá da fábrica, tudo com muita moderação, e num certo momento perguntei-lhe quem tinha feito a afirmação x. Ela respondeu, o Pedro. Eu exclamei, o Pedro?! Qual Pedro?! Há lá muitos nas diversas secções da fábrica. E a "Nada de extremismos" respondeu-me secamente, fala mais baixo. Secamente, com censura, mesmo a matar. Por segundos, senti-me sua filha, sensação deveras traumatizante. A "nada de extremismos", a maior mosca-morta da fábrica, que não se compromete com nada, não diz sim nem não nem talvez, e deve abrir a torneira da casa de banho de cada vez que vai fazer xixi, mandou-me baixar o volume. Olhei à volta. Não havia por ali ninguém que pudesse de alguma forma tirar ilacções da minha pergunta, "Qual Pedro?", mas calei-me, por boa educação e boa vizinhança, pensando, claro, que eu teria a delicadeza de não mandar calar os outros com tanta frieza.
E andei.

domingo, 14 de junho de 2009

A morte do artista

O Ministério da Educação pretende concluir o processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente sem alterações de maior relativamente às reivindicações dos professores, ou seja, sem alterações de base, quanto ao que realmente se questiona no processo de avaliação, entre outros.

Acredito, sinceramente, que a teimosia e o orgulho tenham as suas vantagens, em casos particulares. Neste caso, será a morte do artista.

Sócrates ainda não percebeu, o que é grave para um político, aquilo que em ciência histórica é quase uma lei: a evolução faz-se mediante recuos e avanços. Um passo atrás não significa necessariamente uma derrota. Pode querer apenas dizer que naquele momento, e daquela maneira, determinada ideia não é possível.

Nós, as mulheres, que viemos de longe, tivemos de recuar muitas vezes, ao longo do nosso processo de emancipação, autonomia e atribuição de direitos para chegar ao patamar no qual nos encontramos. E chegámos cá.

Ter feito cavalo de batalha do processo de avaliação dos professores, mantendo-se cego e surdo a toda a lógica, foi um erro que pagará caro. Paciência: há quem diga que se aprende, errando.

Imagem emprestada de We Have Kaos in the Garden

sábado, 13 de junho de 2009

Um cão que sobreviveu ao Vietname

Hoje quero falar-vos do Talibocas, o cão do Vietname.
Para iniciar, deixo claro que o Talibocas é um cão único, especial, que precisa de um dono igualmente especial, que aprecie as suas idiossincrasias.
Chamo-lhe cão do Vietname, desde que o vi, porque a criatura parecia um veterano de guerra, acabado de chegar do ponto mais encarniçado da guerrilha, respirando, mas coberto de feridas. Encontrava-se tão magro e tão ulcerado que dificilmente encontrávamos no seu corpo um lugar disponível para receber festinhas.
O Talibocas, viveu toda a vida na rua ou foi abandonado, ou ambas, não se sabe, e quando chegou à Casa do Pinhal - Família de Acolhimento Temporário Remunerada , pertencente à minha amiga Inês - vinha a recuperar de um atropelamento. Mão amiga tinha-o levado ao veterinário, onde estivera internado, e nessa altura precisava de um lugar onde recuperar totalmente dos autênticos buracos que ainda trazia na carne..
Embora os cépticos afirmem que o Talibocas é inadoptável, eu e a Inês achamos que não é bem assim: apenas precisamos de arranjar um dono especial para um cão especial.
O Talibocas é, digamos, um cão de uma estirpe exquisite, único da sua espécie: já velhote - a semana passada até lhe caiu um dente, pele cicatrizada mas com muitas peladas, as pontas das orelhas roídas, pequenote de rodas baixas; um rasteirinho, com a cauda sempre a abanar, fiel como poucos. Para mim e para a Inês é lindo, é um Mister Dog.
Teve a vida difícil de um cão abandonado na cidade. É, portanto, um sem abrigo, um durão que passou por tudo. Sofre de uma doença não transmissível aos humanos, que apanhou através de picada de mosquito, a leishmaniose. A maior parte das peladas têm a ver com a referida doença, embora esteja totalmente controlada - é medicado para o efeito.
Gostávamos que o Talibocas fosse bem adoptado, porque merece um resto de velhice em paz. Temos um carinho especial por este animal que passou por tudo, e a tudo resistiu, e se mantém vivaço, crente nos humanos, bom como só um cão sabe ser.
Aceitamos candidaturas à adopção do Talibocas. Tem de ser alguém que ame os cães, que perceba que passear um animal como o Talibocas não confere status a quem o passeia, que muita gente pode mesmo afastar-se, como medo das "doenças", que é um ser sofrido, contudo, um sobrevivente dos autênticos. Se fosse uma pessoa, tenho a certeza que o Talibocas seria filiado no PCTP-MRPP. Seria certinho!
Podia deixar-vos aqui uma foto dele, mas prefiro remeter-vos para a Casa do Pinhal, onde poderão ler a história completa do Talibocas, e ver todas as fotos.

A Casa do Pinhal é também um dos meus blogues preferidos, não por ser da Inês, mas porque ela fala sobre os cães com uma responsabilidade, uma vocação, um espírito de missão e de mudança que me move. A forma como a Inês fala dos animais inclui-se no espírito do que para mim constitui O Novo Mundo.
Mas o objectivo deste poste é arranjar um dono especial para um cão especial. Não esqueçam, por favor. Quem ficar com o Talibocas não lhe faz nenhum favor, recebe um prémio raro: o Talibocas.*

*Quando chegou à Casa do Pinhal chamavam-lhe Talibã. Não sabemos quem lhe pôs este nome. Sinceramente, há nele algo de Talibã, mas a Inês resolveu atenuar a semântica e passou a chamar-lhe Talibocas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

8

As oito coisas que eu gostaria de fazer antes de morrer!
Serei realista. Só desejos que possam realizar-se. A ordem é aleatória, excepto as duas primeiras:

1. Ter um filho e criá-lo para que seja um ser humano lúcido e justo.

2. Ajudar mais associações de protecção dos animais, do ambiente e de direitos humanos, de preferência envolvendo-me em acções que possam causar benefício ao outro.

3. Viajar pelo continente africano de jipe; América Latina de autocarro, e com mochila às costas; América do Norte, em carro alugado; Tibete, Nepal e Mongólia, a pé e de burro, e por todo o lado com o meu filho.

4. Arranjar forma de ganhar mais dinheiro para realizar estas viagens.

5. Escrever alguns livros, porque posso, e para não me estarem sempre a chatear com o mesmo assunto há 20 anos.

6. Trabalhar com gosto e saúde até à idade da reforma, sem me fazerem sentir lixo, todos os dias, como acontece actualmente.

7. Emagrecer um bocado.

8. Arranjar um terreno para plantar flores, legumes e árvores, e ter os animais à solta.


Quem me passou esta corrente foi a Gi, do Garden of Philodemus.

Apeteceu-me responder, por isso aceitei, excepcionalmente, e agora tenho de a passar a oito pessoas. Escolherei apenas vítimas que conheça e me apeteça pôr a pensar sobre a vida. Portanto, elas serão:

1. Helena em Santa Apolónia, de Linha do Norte

2. Mónica em Campanhã, de Linha do Norte

3. Alexandre, de os espelhos velados

4. JPN, do Respirar o Mesmo Ar

5. Carlos Narciso, do Escrita em Dia

6. Joaquim Carvalho, de Nu Singular

7. Inês, de Casa do Pinhal

8. Inominável

domingo, 7 de junho de 2009

A gente avisou

Senhor Sócrates, a gente avisou. Avisámos alto e bom som, na rua, na Imprensa, na blogosfera, de todas as maneiras que nos pareceram lógicas e viáveis, que isto ia acontecer. A surdez e o autismo políticos têm consequências graves. E é apenas o princípio.

Não se abstenham

A primeira vez que votei foi numa escola do Feijó, que já não funciona, em 82 ou 83, e levei comigo o Frick, que Deus o tenha, que foi comigo até à mesa de voto recolher o boletim e proceder à identificação, e me acompanhou até à cabine, tudo sem trela, e ninguém refilou. Outros tempos. Gostei de votar. Gosto sempre de votar embora os meus partidos nunca ganhem. É importante respeitar este direito que a democracia nos concedeu. Penso sempre que muitos deram a vida ou a saúde pelo nosso direito a este acto participativo, que é mais do que isso, é decisivo.

Anda pela blogosfera e pela net em geral uma campanha a favor da abstenção. Sou visceralmente contra a abstenção. Quando o meu pai estava acamado, nos dias de sufrágio, chamava os bombeiros, metiamo-lo na cadeira da rodas, subiamo-lo a peso de braços pelas escadas da escola, que foi sempre no 1º andar, e ele lá ia votar no seu partido à vontade. Era um direito que lhe assistia, e era também a minha forma de lhe mostrar que no bendito tempo das suas convicções, ele não podia fazê-lo nem com bombeiros nem com cadeira de rodas.

Creio que a abstenção vai sempre desfavorecer a esquerda, porque este movimento de insatisfação sai maioritariamente das suas fileiras. É óbvio, para mim, que o PS e o PSD vão votar em massa, nisto a que eles chamam um teste para as legislativas e uma manifestação de vigor. Não se vão abster, garanto-vos.

Portanto, enquanto cidadã não abstencionista, cabe-me dizer que seria mais útil votar branco ou nulo. Votar é sempre uma manifestação inequívoca de interesse pela situação política. Se o sistema está viciado, se não funciona, usem-no como antídoto: voto branco ou nulo. Se há descontentamento, e existe muito, o voto deve entrar na urna revelando esse descontentamento: branco ou nulo.
A abstenção, como escrevi ontem na caixa de comentários do Escrita em Dia, é incerta. Nunca sabemos se quem se absteve estava de férias, ou não foi porque chovia muito ou chovia pouco ou se se está nas tintas para a política. E não é essa a mensagem duvidosa que querem passar, pois não?

sábado, 6 de junho de 2009

Manifesto com um mês de atraso

Não chamei O Novo Mundo à 2ª série de O Mundo Perfeito por mero acaso. O Novo Mundo não remete apenas para a continuação do blogue anterior. Houve, aliás, uma altura, há uns anos, em que quis dar o actual título ao ex-Mundo Perfeito, mas deixei cair a ideia, porque os títulos não interessam aos leitores, e eu era a parte secundária, nesse caso. Não valia a pena confundir as pessoas.
Sempre tive algumas dificuldades em definir exactamente sobre o que vou escrevo. O registo é pessoal, mas nem sempre é diarístico. Exponho ideias sobre o mundo, o que sempre desejei fazer: enquanto filha única que passou muito tempo sozinha, acabei por me tornar demasiado reflexiva. Mas o registo diarístico da minha vivência transporta também uma visão das pessoas, da sociedade, dos hábitos, do que somos e parecemos. Ou seja, ele também é reflexivo.
O título deste blogue iluminou essa minha dificuldade: escrevo sobre o novo mundo. É isso. Este blogue é sobre o novo mundo. Sobre um mundo que vemos pela primeira vez, que nos parece colorido demais, estranho e aberrante, como aqueles homens pardos que os navegadores portugueses viram pela primeira vez ao chegarem às praias do Brasil. É exactamente isso: um mundo que já existe e funciona, do lado de lá da floresta, mas do qual ainda só vislumbramos algumas manifestações: os índios na praia.
A exposição que tenho vindo a fazer desse novo mundo tem-me valido as maiores críticas por parte dos leitores, e alguma proscrição enquanto autora. Os meus assuntos não são correctos e tornam-se muito difíceis de engolir por uma quantidade enorme de pessoas que me visita porque pretende ler sobre colonialismo ou cães ou mulheres ou homens ou o que penso ao sábado enquanto leio o jornal no café, com as cadelas ao pés. Imagino que para os adeptos da sagrada família tradicional, seja difícil lerem o que tenho a dizer sobre o assunto, e não concordem. Para os que defendem o primado da natureza sobre todos os actos humanos, calculo que seja violento ser confrontado com a minha total defesa de uma aliança natureza-ciência, e detestem tal ideia. Por outro lado, imagino que seja mesmo muito difícil para os retornados que voltaram a Moçambique, e que desejam ver o passado esquecido e enterrado, encontrá-lo escarrapachado nestas páginas, todo esventrado ao alcance de qualquer olhar. Mas eu acredito que para voltar a semear um campo, primeiro temos de o desminar completamente. Depois, sim, podemos plantar.
Concluindo, isto é um blogue tramado, e serve-me sobretudo para arranjar inimigos, que nunca sei de onde caem, mesmo fazendo questão de informar que este é um blogue maldito, e de não poderem alegar que vêm ao engano.
É curioso que eu também seja uma pessoa do velho mundo, educada nos velhos valores; também acreditei na sagrada família, na natureza, no que parece que nunca muda - ou seja, eu também vim desse lugar. Não pude foi ficar por lá. A vida que acontece à minha volta não permitiu. Não sou cega nem surda nem insensível ao que me rodeia,
Ainda há duas horas comprei a revista Maria para a levar à minha mãe, e dois assuntos chamaram a minha atenção, ao folheá-la: uma fotografia de Elisabeth, a belíssima mãe britânica de 67 anos, com o filho Jolyon nos braços, sorridente e feliz, e a legenda "vou criar o Jolyon sozinha", p. 18; a reportagem sobre Adriana e Murina, duas lésbicas brasileiras que tiveram dois gémeos na barriga de uma, com os óvulos da outra, e que agora disputam ambas o estatuto de mães, quando a lei só permite a existência de uma, p. 34. Bem, parece-me que a lei brasileira vai ter que mudar. E depois as dos outros países, por arrasto. Porque, reparem, isto é a revista Maria, a publicação mais popular em Portugal. Um sucesso de vendas. Não se trata de uma publicação especializada para um público seleccionado, Não há vida sem Maria. A revista Maria condiciona o comportamento social dos portugueses, desde que existe. A moda das mães solteiras e do sexo oral e depois anal e por aí fora, dependeu largamente da cobertura da revista Maria. Há duas coisas que a minha mãe lê na vida: as orações do padre Cruz e a revista Maria.
Portanto, caros leitores, quando o novo mundo chega à revista Maria, acabaram-se os comportamentos de excepção. Já nada é excepção. Os dois casos que acabei de relatar estão tão legitimados como a gravidez de dois meses de Clara de Sousa, que já passou dos 40, p. 112.
Tenho muita pena de vos anunciar isto - sei que é difícil, mas convém que comecem a habituar-se: estais, para o resto das vossas vidas, condenados ao novo mundo.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Comentários, kaput!

Infelizmente, um blogue destes não pode ter caixas de comentários abertas. Estava em fase de teste, e provou-se que não pode. Tenho muita pena, mas detesto bitaites anónimos. Quando tenho alguma coisa a dizer, bato à porta com o meu nome. Isto é um blogue, não é terapia em grupo. Por esse motivo, e definitivamente, acabaram-se. Os leitores e leitoras que quiserem, podem sempre escrever-me para o e-mail que se encontra no cabeçalho.

Os principais agentes de transformação da contemporaneidade

(...) A particular atenção dada aos elementos marginalizados na estrutura de poder (mulheres heterossexuais; homossexuais homens e mulheres) prende-se àquilo que Mottier classifica como a grande” ironia” da História: o facto de os elementos mais marginalizados da heterosexualidade terem sido os principais agentes nas transformações das sexualidades e das formas de relacionamento (heterossexual ou não) da contemporaneidade. (...)
Ana Bela Almeida

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Ao sábado havia milando*

Ao sábado trabalhava-se, e o meu pai pagava a semana ao final da tarde.
Morávamos no terraço de um prédio da 24 de Julho. Como o prédio não tinha telhado, o rectângulo de cimento que constituía a caixa do elevador, elevava-se nu acima do chão, como uma espécie de torre de vigia. Subiámos seis degraus bem altos para aceder ao portão dessa construção que metia medo. Nunca aí entrei, mesmo quando os elevadores se avariavam, embora raramente os elevadores avariassem.
Ao final da tarde, o meu pai chegava ao terraço com os pretos todos, "os desenrascados" os "mandriões" e os assim-assim. Eles sentavam-se nos degraus da caixa do elevador, constituindo, assim, um anfiteatro de assalariados. Falavam a língua deles. Raramente português. Metiam-se comigo, na língua deles, ou não. Pediam-me para perguntar isto e aquilo ao meu pai. Pediam-me copos de água. Às vezes a minha mãe dava-lhes sandes ou bolachas. Faziam-me perguntas cujo objectivo eu não entendia.
Se era véspera de dia importante, o meu pai era capaz de dar ordem para distribuir copos de vinho ou cervejas com sandes de carne. Esses momentos eram bons.

O meu pai sentava-se no topo da mesa da sala com os livros e blocos de apontamentos onde assentara o trabalho de cada um, mais o dinheiro para pagar. Havia, por vezes, entre o meu pai e a minha mãe, alguma conferência sobre o valor dos pagamentos a efectuar, sendo que ela tentava acalmar-lhe os ânimos; dizia-lhe, "não faças isso", dizia-lhe, "fazes mal", dizia-lhe, "só vais arranjar problemas". Os negros esperavam cá fora, à sombra, conversando.

Lembro-me que eram finais de tarde todos de ouro, de uma serenidade animada. Começava a ficar mais fresco. Os corpos largavam a escravidão do trabalho como se larga a pele velha. No dia seguinte seria domingo e ao domingo não se falava em trabalho. Saía-se, comia-se, bebia-se, estava-se à sombra, ouvia-se rádio.

Mas, no meu terraço, a essa hora, apesar de tudo, algo tremia no ar; era medo e incerteza.
Gostava de ver ali os pretos do meu pai. Todos juntos pareciam muitos. Descansavam um pouco. Eram homens diferentes uns dos outros. Uns mais novos, outros velhos, com a carapinha a embranquecer. Uns calados e sérios. Outros sorrindo. Alguns com medo. Outros falando como doidos. Rondava-os, enquanto o meu pai fazia as contas; ia lá dentro confirmar que o meu pai estava no mesmo sítio, chateado, praguejando; regressava ao anfiteatro de negros, que se impacientava com o tempo que as contas demoravam, que queria ir-se embora, que estava a demorar; voltava ao meu pai, que estava a demorar; o meu pai muito tenso, eles que esperassem; corria ao anfiteatro, tinham de esperar. Os fins de tarde de ouro retalhavam os nervos a qualquer um.

A certa altura, o meu pai começava a chamá-los, não sei porque ordem. Podia ser a da recolha que fazia, às segundas de manhã, nas bombas do Xipamanine, ou ao calhas. O procedimento era simples. Os negros iam à sala, e o meu pai entregava-lhes o dinheiro. Às vezes eles contavam e reclamavam. O meu pai gritava-lhes que nessa semana tinham estragado um cabo ou chegado tarde ou sornado ou mostrado má cara ou era só porque lhe apetecia castigá-los por qualquer coisa que tinha metido na cabeça. Não sei, tudo era possível. Gritava sempre. Para além de ter mau génio nestas coisas, tinha os seus preferidos, e aos seus preferidos pagava sempre o acordado sem descontos. Depois havia os mais novos, recém-chegados, ou aqueles em quem o meu pai não confiava. E com esses havia muitas vezes milando. Ainda não tinham percebido as regras, que eram só duas: receber e calar. Não era preciso agradecer. Mas se agradecessem, começariam a subir na tabela de preferidos. A única hipótese de não haver milando, era eles meterem o dinheiro recebido no bolso das calças rasgadas e saírem, cabisbaixos. Se reclamavam, havia milando, e não eram poucas as vezes em que saíam da sala a pontapé e com um murro nos queixos. Havia milando bravo. Ameaçavam o meu pai, o que o irritava ainda mais. Eram expulsos. Eu e a minha mãe, tremíamos. Entre os negros que ainda esperavam receber, crescia um silêncio tenso. Depois, tudo se passava muito depressa. O meu pai chamava o resto dos nomes, pagava e punha-os a andar. A seguir ficava doente para o resto da noite.

Julgando que agia pelo bem da nação e daquela raça, que tanto precisava de ordem e civilização forçada, o meu pai tinha o condão de transformar os finais dourados das tardes de sábado num poço escuro de medo e raiva.


* Acho que quer dizer algo como chatice, problema, confusão.

Quadro III

Fizemos amor, e por fim caímos para o lado, cansadas, como acontece sempre nos filmes. Ela pôs-me a mão sobre a barriga, e disse, quase dormindo, parece um ovo de carne. A partir desse dia, puxei sempre a sua mão para a colocar sobre a minha barriga, e dizia eu, parece um ovo de carne. E foi assim, sempre assim, durante 200 dias e 200 noites.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Quadro II

Foto de Ed Clark, para a Life, 1950


Marilyn Monroe, aos 24 anos, em foto que integra uma sessão tirada para a Life, e nunca publicada por falta de qualidade.


Quadro

Fizemos amor, e por fim caímos para o lado, cansados, como acontece sempre nos filmes. Ele pôs-me a mão sobre a barriga, e disse, quase dormindo, parece um ovo de carne. A partir desse dia, puxei sempre a sua mão para a colocar sobre a minha barriga, e dizia eu, parece um ovo de carne. E foi assim, sempre assim, durante 200 dias e 200 noites.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Mulheres-máquinas de bebés

Para comemorar o Dia Internacional da Criança Nascida Livre
Meus senhores, é cada vez mais difícil controlar as mulheres, e então as suas barrigas, nem se fala. Elas é que decidem se querem ter filhos, e têm-nos sozinhas, recorrendo a meios que a ciência torna possíveis, e a outros que até preferimos nem saber. Como se não tivéssemos de lidar, ainda, com o terrível retrocesso que foi, por todo o lado do mundo civilizado, a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às x semanas, deparamo-nos agora com uma questão nova e contra tudo o que a natureza previu: as mulheres atirarem-se a gerar e parir filhos depois da menopausa. Aos 50, 60 anos frequentam, por todo o mundo, clínicas especializadas em reprodução medicamente assistida, e compram o tratamento hormonal, a fertilização in vitro, e respectiva insersão uterina, de um embrião resultante de dadores incógnitos, contudo, legitimamente seu filho, da sua barriga.




Segundo Luís Graça, obstetra no Hospital de Santa Maria, ao DN de ontem, "uma gravidez aos 60 anos é inexplicável. Não tem qualquer sentido (...) O corpo não está preparado. É como se fosse uma máquina que foi artificialmente condicionada para receber aquela gravidez ."
Gosto desta frase, por se aplicar a uma mulher dita velha, já fora do circuito, porque se se tratasse de uma mulher jovem, infértil ou estéril até às orelhas, já não seria máquina nem artificial desde que tivesse dinheiro para pagar o processo.O problema é que as velhotas, agora, aos 60, deu-lhes para isto, e nós, que não concordamos, que não achamos bem, nada podemos fazer. Elas vão à Ucrânia, aos países de Leste, e sai-lhes num ápice um menino loiro e de olhos azuis, e sem grandes perguntas.

Adrian Iliescu, mãe aos 67, em 2005


Esta preocupação com a barriga das mulheres sempre me impressionou.. Mas, pergunto eu, as hormonas com que um corpo se prepara para uma fecundação artificial não são as mesmas para as novas e para as velhas?. Não é o reinado da progesterona aos litros? As mais velhas têm dores na coluna e joanetes? E as mais novas, não têm? E diabetes, e colesterol e obesidade. Ponhamos de parte as questões do afecto ligadas à gravidez: se há coisa de que as grávidas se queixam ao longo do tempo de gestação, é desse desconforto, dessa escravidão por vontade ao ser que geram, e que se mexe, e se estica como um alien, que não as deixa dormir deitadas, nem andar de pé, nem beber um copo de água sem irem a correr à casa de banho; nem mexerem-se, de forma geral, como uma prostrada máquina de fazer bebés. As mulheres são umas máquinas de carne para fazer bébés.
Por outro lado, ninguém ousa lembrar a um homem de 60 anos, olhe, o senhor desculpe o incómodo, a gente até sabe que, com esforço, ainda levanta a bandeira, mas, sinceramente, não se considera velho demais para ter filhos? Não. Ninguém. Eles são sempre novos para encher barrigas. Conheço muito português que foi pai aos 70, e com grande honra para a sua virilidade. Aquilo é que são homens a sério. Mas as mulheres, com ajuda da ciência, é loucura, o corpo já não dá, etc., etc. É outra coisa.

Janice Wulf , mãe aos 62 anos,em 2006


No mesmo DN, também se pode ler que Jorge Branco, director da Maternidade Alfredo da Costa "também se mostra muito céptico em relação a esta prática". Diz o médico, "O filho nem é dela. Ela empresta o útero para o desenvolvimento de um embrião que não é dela. É um acto médico não recomendável", sublinha.
Estou aqui com um problema: então a Maternidade Alfredo da Costa não é uma das unidades hospitalares que em Portugal se ocupa da reprodução medicamente assistida, nomeadamente da manipulação de ovócitos e esperma de dadores anónimos que serão os filhos legítimos de alguém? Então mas se é recomendável a Sara Daniela e o José Pedro, de 39 e 41 anos, respectivamente, inférteis, recorrerem a este tipo de apoio (ovócito+esperma alheios), sendo útero da Sara Daniela emprestado para o desenvolvimento de um embrião que não é dela, mas será seu filho, por que motivo o mesmo não é igualmente recomendável para a senhora dona Maria Natália, reformada, viúva, que herdou uns dinheiros do falecido? Por uma questão médica? Não, meus senhores, porque na fase em que está a ciência da reprodução, as questões médicas já não são óbice algum. É a culturazinha. Não é recomendável, porque eles descobriram que não podem mesmo controlar-lhes as barrigas. E isso é novidade, e chato, porque vem romper esquemas aceites e estabelecidos. Estruturas de pensamento tão jeitosas, e agora, tudo por terra. Mudar é chato. Há quem nunca mude, só para que se veja como é mesmo chato.


Patricia Rashbrook, mãe aos 62, em 2006

Claro está que tudo isto me suscita logo grande inquietação. Sinto uma vontade, mal reprimida, de comprar um bilhete para a Ucrânia já amanhã, de por lá passar as férias todas a fabricar um bebé só meu, só meu, graças ao ovócito de outra mulher ,e a pronunciar a tudo spaciba, spaciba, da, da. E juro-vos, bem jurado, que se não fosse uma reles operária de fábrica, sem herança, sem pé de meia, estava neste momento a escolher, on line, o voo para Kiev.
Há quem queira 30 mil euros para comprar um carro. Eu precisava de 30 mil euros para ir ter o meu filho.