sexta-feira, 31 de julho de 2009

Noites de Verão

Bumbuns, 2009 [foto obtida a partir de imagens televisivas]

Para fugir a 30 segundos de um documentário em que nativos de uma tribo do Gabão se preparavam para sacrificar um lindo galo pedrês a fim de de curar uma doença, embora, por outro lado, tivessem pedido autorização à certa arvore para lhe retirar as folhas alucinógeneas necessárias ao mesmo ritual, apresentando-lhe desculpas e orações pelo mesmo motivo, dei comigo na SIC Radical, numa reportagem sobre a indústria dos filmes pornográficos portugueses. Aprendi muito.
Primeiro, que com 45 mil euros fazem dois filmes, cada um com cerca de cinco cenas. A maior parte do orçamento serve para pagar cachets, porque as actrizes porno portuguesas são as mais bem pagas do mundo. É preciso ir buscá-las. Não sei onde, mas talvez não seja informação relevante.
Alguns actores têm de ser importados, já que os candidatos portugueses carecem dos dotes físicos imprescindíveis para a optimização da actividade.
Segundo, que o consumidor português não quer história, mas sexo sempre a abrir, por isso não se considera produtivo investir em argumento.
Uma das actrizes da reportagem era muito, muito feia, mas graças a Deus usava uns grandes óculos escuros, pelo que deduzo que também fosse zarolha. Repetiu muito que não fazia anal, o que a desgostava muito, mas, pronto, não era capaz. A loura checa, parecia uma galinha acabada de sair da água, e era stringer - espero não me estar a enganar no inglês técnico - portanto, a sua especialidade era o trabalho a solo, conseguindo orgasmos muito molhados em apenas dois minutos. A minha preferida era a segunda portuguesa muito, muito feia, com uma boca enorme com dentes todos separados. Confessou ser nova na profissão, mas via-se que estava orgulhosa por ter chegado a este patamar da indústria cinematográfica. Ainda só tinha feito cenas lésbicas, e defendia que no mundo do sexo está tudo por aprender. Queria experimentar todas as variantes, e, em produções futuras, entrar no hardcore.
Quando lhe perguntaram o que considerava mais sexy no seu corpo, respondeu que era a boca e o "bumbum bonzão". O bumbum não vi, mas quanto à boca, acho que vou levar décadas para esquecer tal visão.
Quando voltei ao Odisseia já os doentes se encontravam sentados à volta da fogueira, pintados de branco, após ingestão da planta sagrada. O galo a sacrificar tinha desaparecido.

sábado, 25 de julho de 2009

Juntos

O meu pai estava comigo. Tínhamos ido a um banquete numa casa muito fina. Puseram em cima das mesas alguns coquetailes de camarão. Eu e o meu pai, com naturalidade e boas intenções, fomos servir-nos. Tínhamos ambos fome e ali nunca mais se comia.
Os coquetailes destinavam-se à entrada, pelo que quando a refeição teve início já não no-la distribuíram. Obviamente, reclamei perante a jovem organizadora de eventos.
- Mas que raio de festa é esta em que uma pessoa não tem direito a comer duas entradas? Isto está racionado, ou quê?
E arranjei logo ali uma grande questão. Aleguei que tudo aquilo era uma vergonha, que o meu pai era uma pessoa de idade e doente, e não podia estar ali aquelas horas todas à espera de comer, e que tínhamos todos fome, ponto final.
Armei um escarcéu que só visto.
Continuo a sonhar com o meu pai todas as noites. Onde quer que eu vá, ele vai comigo.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Ossos


Árvore do genoma humano.


Uma amiga de infância foi ao cemitério procurar a campa do meu pai e já não a encontrou. Na secretaria disseram-lhe que os restos mortais correspondentes ao seu nome se encontravam num ossário, juntamente com os de outra pessoa. A minha amiga perguntou-me com quem partilhava ele a gaveta. Quem era essa pessoa?! Os espaços da morte são muito íntimos. Respondi que era a mãe, a minha avó paterna, portanto. O que restou do meu pai e da sua própria mãe encontra-se guardado numa mesma gaveta rente ao chão, num sítio ermo do cemitério do Feijó.
Penso muito nisto, porque é como se estivessem agora dentro de uma mesma barriga de morte. Já não existe mãe nem filho, mas dois seres ligados pela carne na sua forma mais pura, cujo adn permanece ali intacto, esperando ainda pelo último elo da cadeia, que sou eu. Seria eu. Naquela gaveta não há lugar para mais ninguém.
Como da minha carne não sairá carne alguma, os meus ossos apenas poderão acompanhar os da minha mãe, se alguém fizer o favor de os arrumar juntinhos, numa mesma bolsa de morte, num cemitério qualquer. E acaba ali.


quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mais uma era glaciar

O maior problema deste Verão está em que eu e as cadelas já não conseguimos ler o jornal de manhã, na esplanada, à sombrinha, com o nosso galão e o nosso croissant, porque corre um vento muito frio e temos de voltar logo para casa. Tenho de as conformar, garantindo-lhes que é da maneira que poupamos dinheiro.

Factos da vida

O mundo está cheio de histórias de amor impossível. Ontem vi mais um filme subordinado ao tema. Não os procuro. Às vezes nem sei sobre o que são, mas eles vêm ao meu encontro. Desconfio que os filmes sejam quase todos sobre amores impossíveis. Mas bem vistas as coisas, o que interessa é que continue a ter crédito no banco para pagar a renda e abastecer-me no Minipreço.

Cortar-me

Hoje fui radical. Marquei consulta no médico que me há-de cortar metade do estômago. Metade ou mais. Estou já a antecipar; entro no consultório e digo-lhe, doutor, sou uma mulher excessiva; doutor, corte-me todos os excessos, sem piedade, sem contemplações. É cortar, sempre em frente. Ah, quando eu for normal, quando tiver perdido tudo o que me transcende, hei-de ser tão feliz!

Uma alteração radical da ordem do mundo

"(...) existe um ideal de revolução que persiste como arquitectura do possível, vislumbre de uma possibilidade que nos pode levar a agir e a combater pela mudança, por uma alteração radical da ordem do mundo."


Rui Bebiano, historiador, aqui.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Minha culpa

Isabela, 2009 [a minha imagem inadvertidamente reflectida no écran da tv]

Se Deus me conceder a longevidade dos meus antecessores, terei, no dia de hoje, vivido metade da minha vida. Impõe-se um balanço de arrependimentos.
Arrependo-me de não ter vivido as experiências que me proibiram.
Arrependo-me de não ter engravidado aos 15 anos e depois aos 17, sem fazer ideia sobre quem era o pai.
Arrependo-me de não ter aprendido a fumar só porque dava estilo e toda a gente o fazia.
Arrependo-me de não ter tomado comprimidos até espumar da boca, para me considerarem problemática. Tem sido difícil sobreviver problemática mas sem diagnóstico.
Arrependo-me de não ter sido uma filha que dá desgostos aos pais, que chega tarde, que desobedece, que chumba ano após ano com louvor.
Arrependo-me de ter recusado charros e toda a espécie e drogas que se consumiram ao meu lado, só porque achava que era superior a isso. Gostava de ter vivido a revolução do lsd nos anos 80, de ter fumado todos os charros que F fumou, e de termos fornicado mais, muito mais que nem coelhos, sem nos lembrarmos do dia seguinte. E gostava de ter tido paciência para lhe aturar as paranóias, porque andava a foder uma mulher cinco anos mais velha, grande coisa!, e de lhe ter aparecido na igreja, no dia do casamento, e ter dito, senhor padre, há um grande impedimento.
Arrependo-me de ter ido trabalhar na fábrica em lugar de andar por aí aos caídos, para que os meus pais me sustentassem até ter sucesso, até vender um livro ou coisa assim.
Arrependo-me de ter sido responsável e coerente e orgulhosa, e de pensar no futuro, porque o futuro é uma merda.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O fantasma de Michael Jackson

No programa de Larry King passaram estas imagens da CNN, nas quais se vê, nitidamente, o fantasma de Michael Jackson, dançando o Moonwalk no interior do seu palácio hipotecado.
Mas aparecem logo uns invejosos a estragar as boas notícias.

Striptease a cavalo e acrobacias vaginais

Gostaria de eleger como notícia do dia de ontem a que o Correio da Manhã publicou, para meu gáudio, sobre a Feira Erótica Medieval, que tem lugar em Vila Nova de Gaia, mais propriamente na localidade de Perosinho.
A notícia caracteriza este festival como "inovador" uma vez que o público poderá assistir a espectáculos de "striptease a cavalo, lutas na lama, saltimbancos que recriam contos eróticos ou acrobacias vaginais" .

A minha primeira dúvida assenta sobre a escolha temática da época medieval, mas, felizmente, o organizador esclarece que"na Idade Média havia muito erotismo, sobretudo na nobreza, a começar pelos corpetes que as senhoras usavam somente para provocar".
Aponta, ainda, como objectivos da feira, para além do habitual "apimentar a relação dos casais portugueses", a representação do "adultério, um dos temas mais polémicos da época". E eis como esse tema fundamental será tratado: "Vamos simular a apresentação ao rei de uma mulher adúltera, que será depois enxovalhada e atirada à multidão". Se me pedissem opinião, teria sugerido que antes de a atirarem à multidão, que há-de estar obcecada com a questão do adultério, a torturassem primeiro numa masmorra, presa na escuridão a uma parede húmida, com pés e mãos subjugados por anéis ferrugentos e pesados. Toda nuazinha só com uns restos de corpete todo esfarrapado, a ser fustigada com um chicote. E a sofrer muito, coitadinha.
A segunda dúvida prende-se com o facto de não conseguir perceber a que historiador terá o organizador ido bustar tais referências. Não deve ter sido o José Mattoso. Só se foi o José Hermano Saraiva. O José Hermano Saraiva até se lambia todo só para fazer a contextualização do corpete, do adultério e das acrobacias vaginais. Isto para não falar do striptease a cavalo, que era actividade diária pelas ruas, na época.
Para o ano podem fazer a Feira Erótica do Renascimento, com tudo igualzinho, mas mulheres mais gordinhas. No ano seguinte, atiram-se à Feira Erótica Barroca, com as mesmas acrobacias vaginais mas striptease sobre um altar de talha dourada, e por aí fora até à Feira Erótica
Pós-Nuclear.
Nota importante: a edição on line do Jornal de Notícias de hoje traz este vídeo da programação de ontem.


Camponeses medievais ainda a trabalhar, mas já a pensar na hora de saída, altura em que a adúltera lhes será lançada.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Imortal II

O carro, 2009 [foto obtida a partir de filmes reproduzidos no écran do meu computador.]


Sim, é verdade, há duas semanas sonhei que íamos ambos no automóvel que um de nós conduzia. Encontrávamo-nos muito juntos, como se o carro fosse pequeno e o espaço apertado. Os nossos corpos muito encostados, quase enfiados um no outro, como se fôssemos gémeos siameses, e fazíamos de conta que não dávamos por isso. Conversávamos animadamente, sem atrito, sobre assuntos profissionais, culturais, políticos, como sempre nos aconteceu. Sentia vontade de o beijar na face, de fazer um gesto que pudesse expressar o amor que lhe pertence, mas não podia. Se levantasse a minha mão para tocar o seu pulso causaria o fim desse momento de harmonia condicional, tão frágil. Por isso, deixei-me ir, embalada na conversa, enquanto o carro circulava por estradas que não vêm nos mapas, e trocávamos ideias, felizes, como se nunca nos tivéssemos amado, ou como se, podendo amar-nos, tivéssemos abdicado dessa possibilidade. Talvez ele estivesse distraído. Talvez não se apercebesse de que estávamos assim tão próximos, mas isso bastava-me.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A culpa ferra-nos os dentes

Um bloguista com quem nunca me encontrei, veio dizer-me que aquilo que me estava a preparar para fazer ao meu pai era muito feio. Apontava-me o dedo e dizia, "Isabela, grande erro, o respeito pelos pais é sagrado. Como podes fazê-lo?!"
Não me lembro do seu nome, embora tenha a noção de que era um bloguista relativamente famoso ou até talvez mais do que apenas relativamente. Alguém que no passado me tinha lido, e junto de quem eu mantinha alguns créditos literários, apesar de com o tempo ter ficado desiludido com os meus temas, e ter deixado de me ler por me considerar "demasiado radical e escatológica". Era uma figura tutelar, o que é estranho, porque eu não tenho figuras tutelares na blogosfera.
Ouvia-o e pensava, "tarde demais, meu amigo, penses o que pensares, vou fazê-lo", e tentava, dentro de mim, encontrar justificações plausíveis para a traição, enquanto me preparava para mandar rezar uma missa em nome do meu pai. Lá teria de ser.

terça-feira, 7 de julho de 2009

O morto

Todos as manhãs o encontro, quando vou apanhar o metro de superfície, a caminho do trabalho. Ele vem de baixo, do lado do Bairro Bento Gonçalves, com a mulher e o filho. É sempre muito cedo, e o ar permanece gasoso dos restos de madrugada. A mãe limpa a boca ao miúdo, que ainda traz marcas de um bigode de leite; o pai ajeita-lhe a camisa dentro dos calções. O garoto é a cara do pai. Que lindo menino! Contemplo-os e penso que devem ser tão felizes as pessoas que têm assim um filho no qual podem enterrar fundo todo o amor. São jovens pais. Ela é uma mulher normal, e percebe-se que gosta muito do marido. Talvez seja um bocadinho dependente. Talvez tenha herdado essa tradição da sua mãe: não fazer nada sem o marido; viver para o marido. Ele gosta dela. Não sente paixão nem nunca sentiu, mas gosta dela. Muito. Sente gratidão e amizade. E, mais importante, ela é a mãe do seu filho. Aquela riqueza saiu do seu corpo, formou-se toda lá.
Contemplo-os tão cedo a caminho do trabalho. Vão apressados para não perderem o transporte. A mulher olha sempre muito para mim. De alto a baixo. A criança não repara. Ele não vê nada, porque morreu há uns anos. Vai só ali. Eu é que acredito em fantasmas, e, como acredito, posso vê-los.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O rato que mordeu o IP8

Ao longo deste fim-de-semana fui assistindo à perplexidade dos órgãos de comunicação social, e do comum mortal, relativamente ao projecto de se construírem três viadutos no IP8 para presevar o rato de Cabrera, uma espécie ameaçada.
Quererá esta abundância informativa sobre o referido assunto transmitir-nos-nos a ideia de que um rato não merece tanto?! Que importância tem o bicho?! Por que não podemos atropelá-lo alegremente?! Bem, o argumento é que se trata de uma espécie em extinção. A mim basta-me que seja uma vida. Não gosto de matar nem baratas. Lamento que numa altura de contenção orçamental tenham de se gastar 7 milhões de euros para garantir a preservação da espécie, mas a verdade é que o avanço das estradas, logo, das comunicações, não tem tido qualquer respeito pela vida animal. O IP8, projectado para as proximidades de Santiago de Cacém, é absolutamente necessário? Está mesmo a fazer falta? Uma melhoramento da estrada existente não chega? Há muitas estradas e pouco dinheiro. Precisamos é de respeito pelos seres vivos não-humanos.

domingo, 5 de julho de 2009

Da traição

Poço do Inferno, 2009 [foto obtida a partir de imagens televisivas]


"Achas possível amar uma pessoa e simultaneamente traí-la?", perguntava uma das personagens do filme que vi ontem. O interlocutor respondeu, sem mais justifição, "Acho". "Traí-la", era, naquele contexto, ter ido para a cama com outrém fora da relação amorosa.
Fiquei a pensar nesta troca de palavras tão simples e tão comum, que a todos já aconteceu, um dia. Perante a dor do traído, nós ou outros, a resposta tende a ser "não, não é possível amar uma pessoa e traí-la, fazendo amor com outra".
Por outro lado, quando me lembro do amor que eu já traí, dos amores que aqueles que conheço, e não conheço, traíram, torna-se claro que a ordem natural das coisas é amar e trair. O meu pai traiu a minha mãe vezes sem conta, e adorava-a. A traição não é necessariamente uma declaração de desamor pelo parceiro sentimental.
Os grandes amantes tendem a ser, também, personalidades emocionais, impulsivas, apaixonadas, especialmente frágeis às solicitações do desejo. Depois, caindo no poço do Inferno, caramba, que lugar mais aprazível! Refastelamo-nos, por meia hora, nas lamas sulfurosas do local danado, e, acabado o momento, saltamos para fora, sacudimos a roupa, a cabeça, e toca a andar para casa. Não contamos a ninguém. Para quê? Fumar um cigarro ou comer uma tablete de chocolate inteira também é bom e não vamos a correr contar. Fumou-se, comeu-se, e a vida continua. Uma facada na relação amorosa pode não ser mais grave que isto: fumar ou comer às escondidas.
Para quem está fora de uma relação amorosa é fácil defender esta ideia, concordo. Sei perfeitamente que o mundo desaba quando nos sentimos traídos, mas estou convencida que a cultura valoriza demasiado a importância da traição. Estou convencida, pelo que observo, que trair, na maior parte das vezes, não implica qualquer ruptura com os sentimentos profundos que alimentamos pelos outros. Na maior parte dos casos, a traição é apenas um momento, um apêndice na vida dos traidores e dos traídos. Mas eu compreendo que não foi isso que aprendemos e não sabemos o que fazer aos nossos impulsos animais, que escapam, apesar de tudo, à cultura e à educação.


sábado, 4 de julho de 2009

Sentimento

Pintei o cabelo de louro-marilyn e as unhas todas do corpo com vermelho-marylin, porque ontem comecei a sentir-me, pela primeira vez neste belo verão atlântico, uma marilyn-obesa.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A arte da guerra

1. A assembleia da República enquanto espaço a respeitar

A política transformou-se numa arte da guerra, e em guerra aproveitam-se as falhas do adversário: impulsos, emoções incontroladas, um flanco mal guarnecido, um qualquer ponto fraco. Mal estaria o beligerante que não aproveitasse uma brecha do opositor, e por ali não carregasse forte e feio.
Vamos ao gesto do ministro da Economia, prontamente demitido. É relevante discutir se os dois indicadores esticados, e encostados às têmporas, ou melhor, "o cornudo", como lhe chamo, constituem uma grande ofensa? Como afirma JPN, a linguagem dos políticos cada vez menos se distingue da do comum mortal, pujante de vernáculo bastante peludo. Imaginemos que Manuel Pinho largava um "vá-se foder". Era mais grave? Para mim era igual. E porquê?
A questão número um é que tenho as minhas manias democráticas, e gosto de lembrar que a Assembleia da República é, em teoria, e deveria ser, na prática, um espaço institucional da maior seriedade, exactamente como um tribunal: ali se decidem aspectos determinantes da vida do País, os quais nos afectarão directamente. É ali que se decide a idade para entrada na reforma, o pagamento ou a isenção de taxas de saúde ou de propinas e, também, quantos vão para o desemprego e terão de recorrer aos bancos de ajuda alimentar. Portanto, exige-se respeitinho, porque a AR não é o bar da esquina, ali em São Bento. Se se tornou absolutamente useira a falta de respeito que ali se vem praticando, lamento muito, mas algo tem de ser repensado no que respeita à ética política.
Não me refiro apenas às habituais mentiras descaradas, caso que motivou o gesto do ministro. Já se percebeu que as centenas de empregos que o Governo alega ter criado nas minas de Aljustrel, confirmadas ao senhor primeiro-ministro por Manuel Pinho, não aconteceram, até porque os mineiros já revelaram não ter tido o gosto de conhecer os novos colegas. Refiro-me, também, à forma como o Primeiro-Ministro responde pontualmente aos deputados, apoucando, com sarcasmo, argumentos bem pertinentes, ou, pior, ignorando quem os apresenta. Refiro-me ainda à troca de palavras com insinuações impróprias, que se regista amiúde entre deputados, ou entre deputados e elementos do Governo. A AR tornou-se o reino da ironia, da boca, do sarcasmo, do trocadilho, não esquecendo que enquanto vão esgrimindo o melhor comentário jocoso para lançar à bancada oposta, nós lhes vamos pagando os ordenados, e permitindo folga à segunda e sexta. Somos bons patrões.
Impõe-se que os deputados da nação, sem prejuízo do legítimo direito ao exercício da retórica e consequentes recursos de estilo, trabalhem com seriedade. Sem "foda-se" e sem "cornudos". São servidores do Estado, e, portanto, espero deles o mesmo que de um médico, de um professor e de um juíz: um trabalho sério, inteligente, criativo, inquisitivo e pensado para benefício da res publica que os sustenta. Se assim não é, assim deveria ser.

3. A morte muito anunciada do Governo

Lembro-me que durante a campanha eleitoral para a última legislatura de George Bush, o seu adversário democrático desequilibrou-se e caiu do palco onde discursava. Levava vantagem nas sondagens, mas essa queda alterou-as de imediato. Estou em crer que o gesto de Manuel Pinho na AR vai ser a queda do palco para Sócrates. Esta retirará ao Primeiro-Ministro a escassa credibilidade de que já gozava antes das eleições europeias. Mas não nos enganemos: a queda começou muito antes! O que aconteceu ontem foi apenas simbólico.
A exigência de um pedido de desculpas por parte dos restantes partidos da AR, no que respeita ao gesto do Ministro da Economia, não é inocente. Não se trata de pedir/aceitar desculpas. Ninguém está verdadeiramente interessado nelas. O que ali interessa é levar o PS ao fundo do poço, a becos sem saída. Ter demitido o ministro constituiu uma assumpção de erro, de má prática política. É óbvio que Sócrates preferiria não o ter feito. E também é óbvio que Sócrates sabe que paga por tê-lo feito, mas não havia saída airosa. O PS deveria começar a queimar uns pauzinhos de incenso na respectiva bancada ou fazer uma excursão a Fátima no 13 de Agosto, porque só com um milagre, e dos grandes, vai conseguir recuperar o respeito de que se foi autoroubando ao longo destes anos de mandato. Não adiantam as falinhas mansas em entrevistas à SIC, admitindo erros com olhar humilde, contudo enérgico. Não vale a pena a ministra da Educação desfazer-se em não-ditos sobre a avaliação dos profes, e até abdicar da quota que antes era absolutamente fundamental para impedir o acesso, aos escalões mais elevados, aos preguiçosos que se dão ao luxo de ir dormir a casa, quando podiam muito bem ter um saco-cama debaixo da secretária. Não nos enganam com a plácida concordância e cedência ao longo das negociações respeitantes ao Estatuto da Carreira Docente do Ensino Superior... Que bela altura para se negociar com o Governo. Se isto não é desespero, e eu compreendo-o, o que é o desespero?!
O panorama vai negro para o Partido Socialista, e a prova é que até Manuel Alegre veio a público, hoje, defender o ministro autor "do cornudo".
Chego a ter pena que o homem seja demitido por algo que todos fazemos fora da AR sem consequências de maior. É que eu conheço um ministro, e peço desculpa por não me conseguir calar com isto... que fez um exame por fax, fora da AR, e que chegou a doutor, quero dizer, licenciado, mas, já se sabe, doutor. E que defende as Novas Oportunidades, o que não me admira, considerando as que ele teve. Credibilidade?! Boa imagem? Manuel Pinho não tem a capacidade nem o poder para afectar a imagem de um Governo que ficará conhecido, para a história, como o Império Autista do Amiguismo-porreirismo, o qual praticou com louvor e distinção.
Por tudo isto vos digo, e é certinho como nozes no Outono, Manuela Ferreira Leite vai a primeira-ministra no final de Setembro.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O BMW é pior para o colesterol

A canalização é que está a dar. A crise pode chegar à hotelaria, ao negócio de chapéus de senhora para casamentos, mas à canalização, nunca.
O Sr. Belmiro, canalizador, que mora aqui mesmo por baixo, comprou um BMW do comprimento de uma limusina, todo preto, e com vidros escurecidos, como os da estrelas de cinema na América. Um carro a sério. Carro para presidente de um país onde reine a fraude, dos que dão mesmo nas vistas, e é para isso que existem.
Fica é muito mal estacionado aqui à porta, ao lado nos nossos Seat, Fiat e Ford. Destoa. Isto não é bairro para BMWs, e não sei como é que tudo se irá passar daqui para a frente: ou remodelamos os prédios, pintura exterior e arquitectura paisagista envolvente, ou o senhor Belmiro terá de mudar para zona aparentemente mais nobre. O sr. Belmiro comprou um BMW de gente grande, mas isto continua o mesmo subúrbio de sempre. Quinta do Ciganinho, é como isto se chama. Um BMW na Quinta do Ciganinho! Há quem lhe chame Bairro do Lilaparque, mas toda a gente sabe que o Bairro do Lilaparque é o nome chique da Quinta do Ciganinho.
E nem é o mais grave. O pior é que o senhor Belmiro sofre de hipertensão, colesterol, ureia, trigliceridos, tudo com valores altos, mais a angina de peito, já teve uns ameaços de coágulos nas artérias, a respiração desenvolve-se, ruidosa, pelas vias pulmonares da amargura, e o homem, desde que comprou o BMW, não tem sossego. Não descansa um minuto em casa. Já não vê a bola nem o telejornal sem preocupação. Enquanto isso, tem o BMW na rua à mercê da aleivosa vontade divina. Que a Dona Machada não regue os gerânios nos dias em que o sr. Belmiro estaciona o BM por debaixo da sua varanda! E que Deus ponha olhos nisto!
De Verão vou mais vezes com as cadelas à rua - umas quatro vezes ao dia, e duas após o sol se pôr; no mesmo horário pós solar, o senhor Belmiro sai para vigiar o carro de hora a hora. Mira-o todo à volta. Passa-lhe a mão pela anca bojuda, como a dar-lhe uma palmada erótica. Sopra para afastar uma folha caída das árvores. Limpa uma sujidade que só ele vê. Verifica, a olho, a pressão dos pneus, garante que não há riscos nem amolgadelas, que os outros veículos estacionaram a uma distância que permita não lhe tocarem na chapa ao abrir uma porta e que os espelhos retrovisores laterais se encontram correctamente posicionados. Creio que isto vai acabar com o resto de coração que ainda sobra ao Sr. Belmiro. É por isso que eu considero que um BMW é pior para colesterol do que o entrecosto frito. Mata mais depressa, mesmo parado no estacionamento, e o pior é que ninguém avisa.