segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Misericórdia

No fim-de-semana que terminou cumpriu-se mais uma vez a tradição em Barrancos. Tradição é um eufemismo. O que isso quer dizer é que mais uma vez o povo se juntou para matar o touro na arena, ofício que realizam colectivamente, com entusiasmo, batendo palmas entre expressões do mais autêntico júbilo. Um concerto do Tony Carreira não mereceria tanta atenção, porque o Tony Carreira, está bem que é um cantor de qualidade, mas não é a tradição e não sangra objectivamente.
Uns vizinhos aqui do bairro, que estavam há bocado a almoçar umas entremeadas com batata frita no café Colina, diziam que aquilo é selvajaria, que não se faz, matar o animal na arena, que já não estamos nesses tempos antanhos.
No momento em que o diziam, pelo país fora, 35 camiões repletos de porcos, borregos, carneiros e outra bicharada atravancada num espaço mais pequeno que o seu próprio corpo, encaminhavam-se para os respectivos matadouros municipais, onde se descarregaram os animais em direcção à linha de montagem da morte industrial, sem ritual e sem palmas. Acredito que isto possa parecer frio, mas para estes animais, e considerando as condições em que foram engordados até à matança, a morte industrial pode considerar-se um momento de pura misericórdia humana. A benção da vida não é uma benção para todos. E era isto que queria explicar ao senhor Manel e ao Zé Gordo. É que os tipos de Barrancos são uns selvagens, mas não estão sozinhos.

domingo, 30 de agosto de 2009

Final de Agosto

Os jornais, ultimamente, têm ironizado muito com uma tal Carolina Patrocínio que declarou em público só comer cerejas e uvas se a empregada lhes tirasse caroço e graínhas, respectivamente. Não sei quem é a moça nem o que faz. Imagino que seja modelo ou actriz de telenovela, o que na prática é o mesmo. Agora, o que para mim é evidente, é que a empregada não lhe tira caroços nem graínhas em quantidade suficiente, porque a rapariga tem um ar visivelmente subalimentado.
Hoje em dia já não se pode confessar nada inocentemente. Olhem se ela admitisse que não sabe fazer contas de dividir?! Ou que dormia com o cãozinho na cama? Coitada! Não lhe queria estar na pele.

Vida privada

Quando é que começa o Inverno, para a Morena se meter outra vez dentro dos cobertores e dormir muito encostadinha a mim, aquecendo-se com o meu calor e eu com o dela?
O Zé Miguel já disse que não se importa de dormir na pontinha do lado esquerdo, e que não atrapalha nada. Se for assim, começa a juntar créditos.

sábado, 29 de agosto de 2009

Pedidos a Deus

Esta manhã acordei tarde, puxei a Micas para cima, e deixei-me ficar deitada sobre a cama, com uma menina de cada lado, falando com elas, mimo daqui, mimo dali, altura em que tive uma revelação: isto é a melhor das vidas! Nenhuma piscina, nenhum apartamento inteligente, nenhuma conta na Suiça pode valer estes momentos sem preocupações.
Achei logo que devia agradecer a Deus tanta felicidade, e pedir-lhe que mantivesse as minhas meninas sempre junto de mim, mesmo velhinhas, movidas a Ananase para desinflamar as articulações. E, se fosse possível, o Jorge Palma. Mas esse na sua casa. Se calhar abusei um bocadinho, mas como diz a minha prima afastada, quem não chora não mama.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Da insatisfação permanente

- Oh, senhor Vieira, o senhor quer salada - gritava a cozinheira do canto de onde provinham os vapores a óleo muito frito.
- Não, que eu não sou grilo!
- E hortelã, quer que lhe ponha umas folhinhas de hortelã?!
- Não, não que eu gosto é do borrego.

O homem que não era grilo e gostava era do borrego estava na mesa atrás da minha, não dizia nada cujo sentido ultrapassasse a objectividade de uma bola de futebol, e eu pensava, que besta quadrada, que bestas quadradas são estes homens, com excepções meramente residuais, e como é que eu poderia viver com um individuo destes sem cometer hara kiri na praça municipal, ao domingo à tarde, à hora das famílias?!

Juro que pensei tudo isto no maior silêncio, enquanto rosnava mentalmente, e que só me dignei ver-lhe a tromba quando me levantei para pagar.

Vim para casa procurar alívio para uma dor ferrada na anca, estender-me no sofá, ver um dvd. A personagem masculina do filme era um homem interessante, em luta com o sistema, mas que se vê obrigado a mentir para sobreviver, logo, a entrar no sistema. E havia aquele amor de dez anos pela mulher com quem vivia. Eram amigos, eram próximos. Não havia entre eles nada de muito erótico, apenas uma partilha, uma amizade como a que tem os amantes quando passa a vertigem do sexo.

E pensei que queria uma companhia assim. Por dois segundos, até admiti que os homens têm uma força anímica formidável, um sentido prático das coisas que me fascina, uma capacidade para solucionar problemas que me espanta. Deixei que me passasse pela mente a muito evitável ideia de que seria bom viver uma relação sem hara kiri diário, com um bebé dito normal, tudo conseguido segundo as normais sociais vigentes, e tal como o vulgo considera bonito.

As pessoas nunca estão satisfeitas. Eu não conheço nenhuma. Se alguém olhasse de fora para a minha vida diria que tenho uma boa vida. Eu própria olho de fora para a minha vida e considero que, tal como está, não está mesmo nada mal.

domingo, 23 de agosto de 2009

A culpa foi do carro

O primeiro carro que conduzi foi um Renault 9 dum modelo muito em voga nos anos 80. Era um belo carro espaçoso, vistoso, e guiava-se bem. Depois, o meu pai estampou-o e mudou para um Renault 19 Chamade, cinzento-escuro e pesadão, de volante pequeno demais para o meu gosto. Nunca gostei do Chamade. Que tractor!
Quando comprei o meu primeiro carro, em 1993, o meu pai aconselhou-me um Opel Corsa. Era um carro alemão, e num carro alemão podia sempre confiar-se, explicou-me. Pareceu-me bem. Queria um em azul-céu, metalizado, mas acabei por me deixar levar por um azul-escurinho discreto. Escuro e discreto são dois adjectivos que só muito vagamente se relacionam com os aspectos fundamentais da minha personalidade, mas o Corsa portou-se bem. Nunca me deixou ficar mal. Troquei-o, porque me convenceram que estava na hora de o fazer, para "evitar perder dinheiro". Conversa dos anos 90. Como se eu não fosse especialista, com louvor e distinção, em deitar dinheiro pela borda fora, cheia de boas intenções. Tenho muitas saudades do Corsa azul. Ficou-me atravessado. Durante muitos anos passei frente ao stand onde o abandonei, para ver se o descortinava no estacionamento dos usados-seguros, mas nunca tive essa felicidade. Nunca mais encontrei o meu Corsa azul em nenhuma estrada.
Quando passei para o segundo carro, resolvi mudar radicalmente. O meu pai ainda era vivo, e aconselhou-me novamente. Argumentou que em equipa vencedora nunca se mexe, pelo que comprei um Opel Corsa Swing em verde-escurinho discreto. Queria um em verde-alface, mas não havia. Teria de esperar muito tempo, talvez meses, de maneira que lá levei o verde-escuro, pouco convencida. A nossa relação não foi totalmente satisfatória, o que penso ser culpa minha. Nunca o valorizei realmente, nunca lhe dei o reforço positivo que merecia, tudo por causa daquela cor de velho, irritantemente discreta. Ainda nos aguentámos dez anos, e, no fim, confesso, a separação não foi indolor, mas saudades, saudades, tenho do outro, do azul-escurinho.
Hoje, no estacionamento do Almada Fórum, encontrei o Corsa Swing verde-alface dos meus sonhos. Era aquele. Fiquei a admirá-lo. Saíram poucos dessa cor. É raro verem-se. Que lindo!
Pensei que se tivesse comprado um Corsa verde-alface, na altura em que me impingiram o verde-escuro, teria sido muito mais feliz. A minha vida teria sido completamente diferente e hoje seria outra mulher. A culpa foi do carro.

sábado, 22 de agosto de 2009

Do silêncio

Do Silêncio, 2009 [foto obtida a partir de imagens televisivas]



Gosto de escutar o vento abanando os estores, enquanto me vou deixando ficar pela penumbra fresca dos lençóis vespertinos. Ouço outros ruídos, os únicos que suporto: o assobio da brisa marítima riscando as colunas da ponte, o pensamento do velhote perneta que faz palavras cruzadas no café da esquina todos os meses do ano, os sonhos da Morena que mexe nervosamente as patas enquanto dorme e até o estômago indigesto da terra que se revolve lá em baixo, e que ouço perfeitamente, perfeitamente.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Agosto II

O meu agente mandou-me pelo correio as provas do livro para correcção, acompanhadas de um bilhete onde gatafunhou "a editora tem pressa nisto", e seguiu de férias para Cabo Verde, acompanhado por uma jovem e promissora poetisa brasileira. Conheceu-a há cerca de um mês, num lançamento de obra alheia. Ela deu-lhe a ler a sua última compilação de originais, que intitulou Sua Carne em Minha Carne, e ele gostou. Dado o interesse que mantém nesta autora, creio que pondera tornar-se seu agente a tempo inteiro. A mim não me convidou para Cabo Verde, de maneira que concluo que até com agentes se aplica a teoria dos filhos e enteados.
Disse-me que tivesse cuidado com o que escrevo sobre a sua pessoa. Defendi-me alegando que era tudo para efeitos de promoção do livro. Ainda me respondeu que "nesse caso, tudo bem, desde que a Isabela se comprometa a não revelar o nome com o qual a minha mãezinha me baptizou." E eu fiquei a pensar nisto, não sei porquê. Que o homem também foi baptizado. Passou pela infância. Houve um dia em que foi ingénuo e não soube para que servia uma moeda de dois cêntimos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O que foi o colonialismo?

O governo moçambicano inaugurou, no início do mês, uma ponte de quase três quilómetros sobre o rio Zambeze, ligando a província de Sofala e a da Zambézia, ou seja, aproximando o Sul e o Norte do país, ao transformar viagens rodoviárias de sete dias em percursos de apenas dois ou três. É importante que tal aconteça para o desenvolvimento do território.
A mão-de-obra técnica e especializada veio, segundo o jornal i, de 31 de Julho passado, principalmente de Portugal, Itália, Holanda, Suécia e Noruega. A ponte foi construída pelo consórcio português Mota-Engil/Soares da Costa. Os custos do empreedimento, no montante de cerca de 67 milhões de euros, foram cobertos por fundos da União Europeia, e outros disponibilizados pelos governos italiano e sueco. Moçambique contribuiu com o que tinha, isenção de IVA e impostos alfandegários. Quem dá o que tem...
Eis um bom exemplo do que foi o colonialismo. Trinta e quatro anos após a independência, Moçambique ainda não possui, já não digo financiamento para uma ponte, mas cérebros e técnicos que a ponham em pé. Apenas mão-de-obra, aquilo que existia no tempo em que o meu pai pagava a 30 negros para executarem, às suas ordens, a electrificação do prédios de Lourenço Marques. A diferença é que agora ganham melhor, pagos pela empresa internacional.
Tornar um país independente não implica entregar-lhe apenas o poder político. Implica devolver-lhe o que se lhe tirou. Nomeadamente, a capacidade de acção.
Não há brancos espoliados. Lamento, mas é uma ilusão de propriedade. Os brancos compraram o que não lhes pertencia. Medraram com base num trabalho para-escravo. O que há é uma enorme terra fértil, cheia de potencialidades, que se viu obrigada a governar-se partindo do zero, e pior, cheia de raiva. Ficaram as infra-estruturas construídas segundo as ordens do brancos, mas como se poderia mantê-las? Quem sabia reparar os cabos que se partiam? Os elevadores? As torneiras de rega? E com que materiais? Onde arranjar trabalho, se as empresas se haviam desfeito com a saída dos brancos, devidamente justificada pelo contexto? Tendo os colonos regressado ao lugar de onde haviam partido, quebradas todas as estruturas de planeamento e produção, que nunca tinham estado nas mãos dos negros, e não tendo havido tempo para a formação de técnicos que mantivessem em bom estado o legado do colonialismo, o que restava para o poder político governar?
Foi isto, o colonialismo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Sexo e literatura: questão teórica

Consideremos uma escritora cuja obra, vasta e de qualidade, apresentasse grande resistência ao leitor, tipo Agustina Bessa-Luís. Imaginemos que após anos de celibato forçado, a consagradíssima autora juntava os trapinhos com um jovem brasileiro, um morenão de peito largo e braços fortes, estudioso apaixonado pela sua obra, e soberbo lambe-selos. Existiria a possibilidade de, neste caso, o seu estilo se alterar, e, eventualmente, a certa altura, os textos começarem, enfim, a deixar-se ler?
Não seria esta uma boa questão para ocupar as mentes dos grandes teóricos da literatura?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Esperança para a Humanidade

Um amigo com o cerebelo parcialmente lixado telefonou-me a dizer, pá, viste aquele filme do Woodstock que passou na 2? Pá, muita bom... a liberdade... até anunciavam ao microfone que o ácido castanho em circulação não era de grande qualidade, mas que o consumo ficava ao critério de cada um... viste?! Ter existido o Woodstock foi uma esperança para a Humanidade, não achas? Eu, que por acaso já tinha escrito o texto anterior, respondi-lhe, pois...

Eu também não estive em Woodstock



A Imprensa enche-nos de imagens do festival de Woodstock, legendando-as com a expressão "três dias de música, paz e amor". É assim todos os anos. Quando era jovem, à falta de informação, julgava que tudo aquilo tinha ocorrido num grande espaço relvado e florido, como o Central Park. Gente bonita, vestida com roupas coloridas, ou nua em total harmonia com a natureza. Hoje, tenho de ser sincera, não dúvido que tenham sido três dias de música, mas quanto ao resto, pensemos bem.

Observo as fotos e vejo um enorme campo de lama e lixo: garrafas de plástico, latas, sacos e papel. Jovens cansados, com um aspecto deplorável, dormindo no chão molhado, embrulhados em cobertores sujos de terra, com a roupa colada ao corpo, caminhando pela lama com olhar perdido. Se os hippies eram um movimento a tender para o ecologista, não consigo vislumbrar ali ecologia alguma. Parece que houve ali um belo campo de pasto antes da chegada do pessoal, mas quem é que não sabe que o Inferno são os outros?!
Expliquem-me onde é meio milhão de pessoas fez as necessidades durante três dias? Na meia dúzia de latrinas portáteis disponíveis algures nos 250 hectares da quinta?! A Festa do Avante é o que se sabe e tem dois ou três balneários de 50 metros, com numerosas fileiras de latrinas democráticas. Calculo o inferno de humidade e fedor que se terão suportado naqueles dias. O que realmente justifica as drogas. Se tivesse que suportar tal coisa também me drogava até chegarem os paramédicos. É por isso que não acredito na paz nem no amor. Entorpecimento, sim, falem-me disso. Mas paz e amor no meio da humidade, do fedor e do sobrepovoamento dos festivais de rock, por favor, não me vendam esse produto, em parte nenhuma do mundo, e aproveitem para fumar os charros sossegadinhos em casa.





segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O que é a ficção?

A minha prima afastada anda metida com um empregado da loja Blockbuster da Cruz de Pau, pelo que me proibiu de escrever no blogue sobre vídeos, dvd, cinema em geral, bem como franchisings. Disse-me que isso de misturar verdade e ficção era uma brincadeira muito perigosa, e que fizesse o favor de manter a sua vida fora deste blogue.
Os escritores são muito incompreendidos. Que tristeza!

O mau funcionamento dos telefones

Perto da uma da tarde.
Mãe (muito chateada) - Estou farta de tentar falar contigo e não consigo.
Isabela (com uma paciência de santa) - Oh, mãe, estive cerca de uma hora lá em baixo no café...
M - (ainda mais chateada) Não é só isso, ontem quis telefonar-te toda a noite e não consegui.
I - (com uma paciência de santa ainda maior) Estive toda a noite em casa.
M - (irritada, como se a culpa fosse minha) Telefonei mais de 20 vezes e aparecia-me uma voz a dizer que o teu telefone não falava.
I - (desejosa que passe ao assunto que a levou a telefonar) Só se foi quando fui passear as cadelas.
M - (indignada) É que quero falar contigo e não consigo. Se precisar de ir ao hospital...
I - (passada dos carretos) E o que é que queres que eu faça?!
M - (começando a amansar) Não sei o que é que se passa com os telefones. Mas isto é do teu telefone, não é do meu.
I - (tentando controlar o passanço dos carretos) Oh, mãe, sinceramente, acho que tens de ter mais cuidado a marcar os números. Se calhar, se não te enganares nos números, consegues ligar.
M - (outra vez indignada) Não me engano nada!
I - (a rebentar) Olha, concretamente, telefonaste para quê, para além da reclamação sobre telefones?
M - (ligeira pausa) Ah... espera lá... agora já não me lembro. Daqui a bocado ligo-te outra vez.

domingo, 16 de agosto de 2009

Formigas

Nas noites de Verão, enquanto passeio as cadelas pelo parque, as formigas sobem-me às dúzias pelas pernas, até às virilhas, e vão-me picando durante a travessia, só para me lembrarem que tenho um corpo doce.

sábado, 15 de agosto de 2009

Excomunhão

As mães têm sobre os filhos um poder praticamente ilimitado.
A minha prima afastada disse-me que o texto que escrevi ontem vai chegar ao Vaticano e serei excomungada. Lembrei-lhe que não passo de uma livre-pensadora obscura, num blogue obscuro, e que nunca chegarei a parte alguma que se dê ao trabalho de me excomungar. Ignorou-me e continuou dizendo que o Vaticano me iria mandar uns homens todos vestidos de negro, como aqueles do código Da Vinci, com o certificado de excomunhão devidamente carimbado. Que me apareceriam a bater aqui à porta, mal eu esperasse.
Para ser sincera, com a excomunhão do Vaticano posso eu bem, desde que não digam nada à minha mãe. O único argumento que me amedrontaria e me faria dar o dito por não dito seria ameaçarem contar-lhe tudo. Porque a excomunhão da minha mãe, ah, a excomunhão da minha mãe havia de ser castigo pesado. Tirando isso, respondi-lhe, que venha o Vaticano inteiro!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Como Lúcia se livrou dos primos

Lúcia


Ontem, fez 92 anos que Nossa Senhora não apareceu aos pastorinhos. Talvez a luz branca da Senhora tenha pousado sobre a azinheira de metro e meia na Cova da Iria, e aguardado o tempo regulamentar concedido aos atrasos, mas nesse dia os pastorinhos tinham sido convocados para estar presentes na sede do concelho com o objectivo de ser violentamente interrogados sobre os acontecimentos que diziam presenciar. Nossa Senhora só lhes apareceu no dia 19, estando eles já libertos do algozes de Ourém. No entanto, no Santuário de Fátima comemora-se a aparição da Senhora a 13 e não a 19 de Agosto.

Baseio-me nos escritos de Lúcia, que li há ano e meio, com o objectivo preciso de contrariar a opinião de um amigo herege, que a acusava de horrores, inclusive de responsabilidade pela morte dos primos. Prometi-lhe que ia ler as memórias de Lúcia e assim fiz.

Terá Lúcia alguma culpa na morte dos primos? Terá o meu amigo razão? Vejamos, segundo as suas memórias, ela era a única que via e ouvia a Senhora e que com ela conseguia comunicar. Jacinta via, mas não ouvia, e Francisco, pobre rapazinho impuro, não via nem ouvia coisa alguma. Ajoelhava e rezava, compungindamente, fiado no relato da prima e da irmã.

Continuando a seguir as memórias de Lúcia, esta revela que o comportamento dos três passou então a ser influenciado pelas palavras da Senhora, a qual lhes dizia que deveriam sofrer muito, cumprir muita abstinência de todas as coisas, oferecer muitos sacrifícios ao Senhor em nome dos pecados da humanidade. Foi esta a mensagem que Lúcia transmitiu aos primos, mais novos, que começaram a recusar comer e beber, durantes dias inteiros.

Saíam de manhã para o campo, com o gado a apascentar, e pelo caminho distribuíam o farnel pelos pobres, mais pobres, que encontravam. A Senhora, segundo Lúcia, exigia-lhes sacrifícios. Um dia, Francisco foi repreendido pela irmã por ter sido apanhado a comer frutos silvestres, roído pela fome. De dia e de noite, os irmãos carregavam uma corda apertada à cintura para sentirem a dor permanente. Mesmo depois de adoecerem gravemente, permaneciam de corda apertada, flagelando-se por pecados que nem compreendiam. Lúcia relata que muitas vezes considerava exagerada a abstinência dos primos, mas que a sua fé era inamovível. Ardendo em febre, recusavam beber água, para agradar à Senhora. Quando a morte de um dos primos já era esperada, confidenciou-lhe Lúcia que a Senhora tinha mandado dizer que podia aliviar o nó da corda, porque já não era necessário tal sacríficio. Por outro lado, noutros momentos via-se obrigada a chamar-lhes a atenção porque os via comportarem-se como crianças. Será oportuno esclarecer que Lúcia não nos revela que sacrifícios realizava. Sabemos apenas que rezava muito. Fiquei com a impressão que rezava de barriga cheia ou teria valorizado o seu próprio sacrifício. Portanto, segundo as suas memórias, que li de fio a pavio, não é demais salientá-lo, ela rezava enquanto os primos fiéis, por sua ordem, não só faziam o mesmo, como se ciliciavam através da fome, da sede e da dor física. Vítimas da tortura sugerida por Lúcia, cuja opinião os pequenos irmãos valorizavam, caíam feridos de morte por inanição, pouco depois.

Posto isto, e considerando que a única que ouvia a Senhora e comunicava as suas palavras era Lúcia, podemos concluir que motivou a morte dos primos à fome, cabendo a ordem de execução à Senhora. Mas é possível ir mais longe, ilibando a Senhora deste grande equívoco. A minha ideia de divino não se encaixa numa moldura ritual de sacrifícios de vida. Isso é paganismo ancestral. Por uma questão de pura lógica, à ideia equilibrada e ordenada de um Deus, seja qual for a sua forma, não poderá agradar a ruptura que consiste numa morte em seu nome. Uma ideia sensata de Deus tenderá a encará-lo como algo que procura a paz, o bem-estar físico e mental e o usufruto do benefício da vida. Não há Deus algum na morte nem no sangue nem no sacríficio, e se o Cristianismo nos legou essa herança, lamento, mas está errada. Que Deus seria esse capaz de exigir tanto sangue? Um Estaline? Um Hitler? Não me custa a acreditar que Jesus Cristo fosse um homem santo, mas Cristo morreu por uma questão política, assunto cabalmente esclarecido do ponto de vista histórico, e que em nada colide com o teológico. Se era um homem santo, ressuscitaria ao terceiro dia, naturalmente, porque no campo do misticismo religioso tudo é possível. Não meto aí o nariz. Nem sequer questiono que uma luz intensa, dentro da qual se encontrava uma senhora toda da branco e muito linda tenha aparecido aos pastorinhos (excepto ao desgraçado do Francisco). Se calhar apareceu. Não faço ideia. Agora, o que para mim é claro como água é que uma Senhora oriunda do Céu não pode ter pedido a crianças inocentes tão graves sacríficios, e muito menos poderia, em 1917, três meses após a Revolução Russa de Fevereiro, terminando esta série de aparições no mês da revolução de Outubro, anunciar o fim de um comunismo cujos resultados ainda não se conheciam. E digo que não, porque não tem lógica. É uma equação que não me dá certa, e o mundo, como sabemos, é matemática pura. O resto é psicose sado-masoquista ou alucinação maníaco-obsessiva. Eu, por exemplo, tenho um tio que sempre ouviu vozes, mas mantenho-me o mais distante que posso.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Agosto

Agosto, 2009 [foto obtida a partir de vídeo visionado em computador]

Os cafés fecharam todos, excepto o do tabaco e das cervejolas, que leva com a chapa do sol toda a tarde. Encontra-se repleto de famílias inteiras de vizinhos que não foram passar férias à terra nem ao Algarve nem a Ibiza, discutindo, de mesa para mesa, entre suores, assuntos de importância internacional, como a idoneidade moral do Barbas da Costa da Caparica, que responde pela do Benfica. A gritaria não me deixa ler o jornal, e as crianças, todas malcriadas, querem correr atrás das cadelas, puxar-lhes a coleira e chateá-las até à exaustão.

Às cinco da tarde a rua abrasa e ninguém sai. O meu bairro parece uma vila abandonada no faroeste. Só os platános, do lado de lá da estrada conseguem respirar ao sol.

Agosto é um barril de água choca. Agosto é um tapete encardido de gente. Agosto é o mês mais triste do ano.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Do impossível

O popular trinómio da suprema realização humana, manda-nos plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho. No que respeita ao fazer, até fiz.

domingo, 9 de agosto de 2009

O nome de Deus

Desde que entrei para o convento, rapei o cabelo e desposei o Senhor. Dedico-Lhe todos os meus actos e pensamentos. Rezo-Lhe as mais belas orações que não escuta. O nome do Senhor é Roíz de Tulipe, cavaleiro do paço ao serviço de alguém.

sábado, 8 de agosto de 2009

Filho

Daqui a 30 anos, no dia em que a Segurança Social me enviar a cartinha na qual me anunciará
que posso finalmente conhecer o meu filho, podem desligar as máquinas e deixar-me morrer em paz.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O meu futuro namorado

A Morena dorme à minha direita todas as noites. Ontem, adormecemos com as patinhas dela, macias e morninhas, encaixadas na minha mão direita. Que doçura, que consolo!
Se o Zé Miguel quiser mesmo namorar comigo, a ver se lhe faço uma caminha no chão do quarto, ao lado da da Micas, possivelmente com uns cobertores velhos lá da minha mãe.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Podia ser mais simples

Tratamos mal quem nos ama, porque tememos excessos, apegos, demasias, ou seja porque queremos mais, mais amor.
Oferecemos o nosso melhor a quem nos detesta para que nos ame só um bocadinho, mesmo que nos trate mal, quer dizer, mesmo que nos rejeite sem contemplações.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Devorar ou deitar fora

(...) confeitos à moda antiga, confeitos feitos pelos velhos, feitos e embrulhados com amor, o amor que não temos alternativa senão sentir por aqueles a quem nos damos, para que nos devorem ou nos deitem fora.

J. M. Coetzee, A Idade do Ferro

Porrada

- Vais levar muita porrada quando o teu livro sair; ah, vais levar muita porrada.
- Achas?
- Acho.
- Deixa. Já estou habituada.

domingo, 2 de agosto de 2009

O que ouço quando ouço Kate Bush


Claro que gosto muito da Kate Bush, que continuo a gostar muito da Kate Bush, dançando e cantando pelo meio dos arvoredos e da névoa do Norte agreste. E por muito que o meu inglês tenha melhorado ao longo dos anos, também continuo, de igual forma, a não perceber uma palavra do que canta; estou a ouvi-la agora e parece-me ser , I wana file, fall in love, in me, oh, oh,oh uee, uee, uee, you had a temper too hard too greedy all me show what to do it's me so oh oh oh uee, uee, uee, it's me, it's me, oh Cathy oh Catho, I´me reed to maine lan best, to say waterful, waterful, waterful... penso que seja isto e não devo estar muito enganada.

sábado, 1 de agosto de 2009

Ferro-velho

O rio, 2009 [foto obtida a partir de imagens televisivas]


Estou a ver como se chega lá. Corta-se à esquerda à saída de Alcácer do Sal. A estrada segue entre casas até se transformar num caminho de terra que desce em direcção ao rio.
Sai-se do carro, aproximamo-nos da água e escutamos os ruídos do fim da-tarde. O piar obsessivo dos pássaros que se recolhem. A brisa que sacode as canas com um barulho de papel amarrotado, assobiando surdamente entre o canavial. O trinado fresco, jovial, das águas mansas quando chocam nos arbustos da margens. Insectos baixos que zunem à volta dos nossos corpos mornos. Um peixinho de prata salta, além, mal se viu. Atrás de nós, sobreiros frondosos tornam aquela margem muito escura. O sol baixa cada vez mais e, na escuridão, vislumbra-se ao meu lado direito uma zona de ferro-velho. Máquinas enferrujadas, abandonadas. Electrodomésticos acabados, mas também bocados de carros, de camionetas, televisões antigas, bidões. Tudo feio, amolgado, destruído. A terra do chão, na zona do ferro-velho é suja e oleada. A água do rio também ali chega, mas não transborda a margem, não pode lavar aquele lugar tão imundo.
Desejo meter-me pelo meio das peças velhas e enferrujadas porque acho que lá encontrarei alguém que conheço. Sinto que alguém me olha de lá. Sinto que não estou só. Contudo, cai a noite, tenho medo de qualquer coisa que não posso explicar. Por isso, abondono a margem do rio, meto-me no carro, e vou-me embora com pressa.