segunda-feira, 28 de setembro de 2009

"Negociação absoluta"

Eis a minha breve apreciação dos resultados eleitorais:

todos, rigorosamente todos os partidos, excepto um, elegeram mais deputados do que aqueles que tinham na anterior legislatura. Os partidos que os comentadores consideraram os grandes derrotados da noite, PSD e PC, elegeram, respectivamente, mais 4 e 1 deputados do que nas últimas eleições. Ou seja, cresceram.

O PS perdeu 24 deputados, e foi o único partido a perdê-los. Ou seja, regrediu.

Resumindo, em relação aos resultados das últimas eleições contabilizo quatro partidos em ascensão e um em queda, sendo que o crescimento dos quatro foi feito à conta dos grãos que saíram do papo do PS (relembro que o PSD teve mais votos que nas últimas eleições).

Coligações entre o PS e o PP? Como é que o PS vai levar a cabo os seus projectos de legitimação das relações LGTB e dos métodos de procriação medicamente assistida em coligação com o PP? Não estou mesmo nada a ver. A não ser que Paulo Portas ceda quanto a essa questão para si tão paradoxalmente contra-natura. Veremos.
O que tenho à minha frente é um tabuleiro cheio de jogadas interessantes que ainda não foram realizadas. Citando o JN, que traz o melhor título dos jornais de hoje: o que vejo chama-se negociação absoluta.

domingo, 27 de setembro de 2009

A benção dos filhos

O jovem pai cruzou-se comigo à saída do centro comercial. Levava uma criança na mão e outra no carrinho e ambas berravam.
Tinha vestida uma t-shirt na qual se podia ler a frase "Vive depressa".
Eu acredito muito nas mensagens das t-shirts como manifestos ideologógicos, culturais, políticos, de classe. E senti que havia ali um certo aviso às massas. Se o jovem pai pretendesse reflectir a realidade da sua própria vida deveria ter vestido a outra t-shirt que lá tem em casa e na qual se lê "Matem-me depressa!" Mas se calhar nem teve tempo!

sábado, 26 de setembro de 2009

Relacionamentos ambíguos

De vez em quando alguém se queixa do meu telemóvel sempre desligado.
Esqueço-me de lhe carregar a bateria.
Cheguei a este estado de negligência no dia em que percebi que o emissor de 90% das mensagens e chamadas que recebia todas as semanas era a própria TMN, e eu detesto alimentar relacionamentos ambíguos e não correspondidos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O Anjo Novo anuncia a sua chegada

Clicar sobre a foto para visualizar uma imagem com melhor definição.

Como remendar os buracos de Sócrates e partenaires?

Hoje, às tantas da matina, Pedro Adão Silva questionava-se, na TVI24, e preocupadamente, sobre se os restantes partidos terão a responsabilidade suficiente para viabilizar os projectos-lei dum PS minoritário. A mim, o que me interessa saber, é se o PS terá a responsabilidade e humildade suficientes para viabilizar os projectos-lei dos partidos restantes, com o objectivo de remendar os buracos originados pela política cega, surda e muda de Sócrates e seus partenaires.

A margem de erro

Confesso que me fascina a opinião dos comentadores políticos sobre sondagens, a sua interpretação sobre como estas influenciarão o voto dos indecisos.
Os cidadãos escolherão o partido que terá mais votos, para se sentirem ganhadores, como com o Benfica, excepto a parte dos ganhadores, ou pelo contrário, reagirão a essa eventual consensualidade negando-lhe o voto útil?
Acho sempre uma certa graça a isto, porque as sondagens parecem-se com as ecografias obstétricas: permitem, a certa altura, identificar o sexo do bebé, ver se tem pernas, braços, dedinhos, mas não vão ao essencial da questão do "venha com saúde", que é saber se a criança nasce autista, surda, ou com um problema congénito num órgão qualquer. Enquanto a criança não nascer não se sabe realmente. As sondagens baseiam-se numa estatístisca, e todas as estatísticas têm uma margem de erro. Ora, o espectáculo está todo na margem de erro. Se as estatísticas ditassem os resultados do dia D, eu não começava a ficar com arritmia 24 horas antes.

O inútil voto útil

Acabei de responder à carta de um leitor dizendo-lhe, "o voto útil é a coisa mais inútil que pode fazer por este país!"
Acabei de lhe dizer, "a maioria absoluta é por natureza anti-democrática, autoritária e uma forma de ditadura como outra qualquer. Se o partido no qual votarei se transformasse numa maioria absoluta, deixaria de ser o partido no qual considero importante votar. O poder, para haver diálogo e justiça, convém encontrar-se pulverizado".
A última frase não foi tal e qual assim, mas a ideia era a mesma.
Obrigada, leitor!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Os bebés são como o trigo

Trigo, 2009 [imagem captada mediante vídeo visionado em computador]


Tenho um casamento.
Fui à cabeleireira do bairro, a D. Fátima, uma mulher aqui muito conhecida por todos, militante do PC, que engravidou no final dos anos 60, dum valdevinos que fugiu para o Ultramar, e ainda garota teve de criar sozinha a filha, sem um ai, trabalhando na Timex, até que aqui montou o salão, e se safou com as clientas que a conheciam e a ajudavam.
Passou-me para as mãos as revistas mais recentes, e fomos comentando, enquanto me espalhava a tinta.

Manuel Luís Goucha e José Carlos Malato assumiram homossexualidade. "Fizeram eles muito bem, que isso de andar às escondidas não dá saúde a ninguém.

Elsa Raposo, namorada do Kléber Qualquer-Coisa, foi ao Brasil para engravidar segundo um método que permite escolher o sexo do embrião. "Enfim, é a Elsa Raposo, é melhor nem nos pronunciarmos." Rimos, rimos, rimos.

Solange F, a famosa lésbica portuguesa, está grávida em produção independente. Não revela a identidade do pai nem como realizou a fecundação do seu bebé. "Acho muito bem. Se estivesse no lugar dela era tal e qual. Não tem que dar contas da vida dela a ninguém. Já sabe como é que criei a minha, não sabe?"

Ricky Martin mostra as fotos de férias com os seus gémeos fruto de barriga de aluguer. "Ah, que lindos meninos, com os olhitos achinesados como o pai. Que engraçado! E ele que também é um rapaz tão lindo! Um pedaço de homem, digo-lhe eu, mas não é cá para o nosso lado, infelizmente!"

Dois homossexuais americanos relatam o caminho traçado, desde que decidiram ser pais, até ao contacto com a mulher que acedeu ser barriga de aluguer e se deixou inseminar quatro vezes, produzindo para este casal duas meninas, em gravidezes diferentes. "Já viu, coitados, não desistiram. Aquilo era mesmo um desejo muito grande que eles tinham. E as meninas são lindas! Ah, eu fico toda contente quando vejo alguém que cuida dos filhos mesmo com amor!"

O transsexual grávido foi mãe pela segunda vez, e é agora pai de uma linda menina. "Bem, isso é que é mesmo uma grande confusão. Não percebo nada. Mas, pronto, o que interessa é que sejam todos felizes."

Perguntei-lhe se ela sabia que a Manuela Ferreira Leite, e muita gente, defendia a procriação como objectivo principal do matrimónio. Sabia, sabia. "Se as crianças só nascessem dos casamentos, não havia gente no mundo. Os bebés são como o trigo. Basta lançar a semente." E rimo-nos as duas. Rimo-nos mesmo, e a gente sabe bem porquê.


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Constipação 0 - Punhado de doenças 25

Pego no telefone a fungar, com o pingo no nariz, o lenço de papel na mão e a voz muito rouca.
Marco o número da minha mãe, que atende do outro lado:
- Estou, sim?!
- Sou eu, mãe... bom dia.
- Então...
- Estou com uma constipação que nem consigo abrir os olhos, dói-me a cabeça, dói-me o corpo...
- Oh, deixa-me cá. Hoje estive para não me levantar. Se não fosse para levar a Lili à rua... É que nem me conseguia vestir. Umas dores, umas dores, na coluna, nos braços, nos ossos a chegar cá acima à cabeça, umas dores que pareciam facas a espetar. Já tomei o Voltaren 75, mas aquilo faz um mal ao estômago... tenho o estômago a arder. E o figado também não está grande coisa; sinto umas picadas, e não tenho cá nada para tomar. Depois, o intestino, já sabes, é sempre o mesmo problema. Tens que ir à farmácia que me indicou a Dona Luciana e perguntar se têm o Doce Alívio. É que não há nada, nada que me esvazie este intestino, até tenho a barriga dura, sabes lá. Estou feita num oito. Hoje não tenho ponta por onde se pegue. E dormi muito mal com isto tudo. Então e tu, como é que estás hoje?
- Ah, está tudo bem. Tudo bem.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O meu moinho de pimenta

Os meus amigos são todos muito trendy, muito design, e desconfio que se relacionam comigo apenas porque levo algum folclore às suas vidas.
Ultimamente, tenho reparado que em cada jantar para que sou convidada há um moinho de pimenta, com verdadeiros grãos, um moinho de sal, com verdadeiras pedras, e até uma espécie de sal muito fina a que se chama flor de sal, e que não percebo muito bem em que difere do sal de cozinha do Minipreço, mas vá.
Bem, pensei eu, influenciada pela pressão de pares, se calhar também tenho de arranjar um moinho de pimenta. Concordo que os grãos moídos na hora têm outro gostinho. Assim, programei uma excursão à secção de utensílios de cozinha do Jumbo.
Encontrei vários tipos de moinho, em diversos materiais, desde a fibra de vidro transparente à madeira de cedro envernizada ou em bruto, passando por alguns exemplares de fantasia, todos às flores, ou pintados de polícia inglês ou de dançarina de hula-hula. Tudo bem, até aí. Foi quando comecei a comparar preços. Queria o mais barato de todos, de tamanho médio. Ora o modelo que se encontrava nessas condições custava 38 euros. As pessoas pensam que 38 euros não é nada, mas com essa quantia compro um cd ou um livro e ainda consigo ir três vezes ao cinema. Depois havia os de 17, que eram pequeninos como um vibradorzinho de mala. E o meu lado folclórico, nesse momento, salvou-me.
Vim para casa, procurei no saco das ferramentas que herdei do meu pai, que veio no caixote dos retornados, e tirei de lá um belo dum martelo impregnado de design vintage, com uma pega em boa madeira envelhecida e suada, que deve ter passado pelas mãos de todos os negros que o meu pai empregou e deve ter martelado em todos os prédios de Lourenço Marques. Claro está, levei-o logo para a cozinha. Está na gaveta do saca-rolhas e do descasca-legumes e dá-me um jeitaço de cada vez que é preciso esmagar grãos de pimenta cá em casa.

domingo, 20 de setembro de 2009

Política fiscal para tansos

Vivemos inseridos em estruturas de comportamento económico, social, psicossexual, profissional, etc. Já existiam quando tomámos conhecimento do mundo ou foram criadas durante o nosso tempo de vida, tendo entrado nos nossos hábitos.
O hábito é um facilitador do quotidiano, porque nos situa relativamente aos diversos focos da nossa vida. Organiza-nos e equilibra-nos. O problema do hábito é que a certa altura se transforma num molde tão confortável que há quem pense não ser possível ultrapassá-lo, criar outro hábito, eventualmente melhor.
Dou um exemplo. Quando comecei a trabalhar, em 1984, ninguém declarava rendimentos. É possível que os meus patrões enviassem para as finanças todos os meus dados, mas eu sei que não entregava papelada alguma, e andei assim durante muito tempo. É evidente que descontava para a Segurança Social e etc., mas a coisa acabava aí.
Só por volta de 1990, mais coisa, menos coisa, surgiu essa moda da declaração do IRS. Apareceu uma roulote em Cacilhas que dizia "entregue aqui a sua declaração", e os funcionários ajudavam a preencher a papelada. Diziam-nos que era obrigatório, e que podíamos declarar determinadas despesas com a saúde e a educação, e até receber de volta o excesso de descontos que havíamos feito. E começámos todos a declarar, porque o que a gente queria era receber de volta o excesso, não é que nos interessasse de onde vinha o que se recebia, mas o importante era que se recebia. Aí não havia dúvidas.
Foi assim que o IRS entrou nas nossas vidas, transformando-se numa espécie de rito de passagem. Quem não cumpre o rito é penalizado e excluído de muitos actos importantes da vida civil, tal como a concebemos. Por isso, ao longo do ano, todos vamos recolhendo recibos de consultas médicas, manuais escolares, seguros de saúde e planos poupança-reforma e educação, entre outros. Para deduzir. Os vendedores de certos produtos usam como técnica de aliciamento o argumento de que o colchão x ou a cadeira y são dedutíveis no IRS. E resulta. Isto é estar habituado ao sistema. Adaptámo-nos. Aprendemos desta maneira e não percebemos como poderá a vida fiscal existir de outra forma.

É verdade que no famoso debate com Sócrates, Francisco Louçã demorou muito tempo a reagir à acusação relativa à exclusão de algumas deduções fiscais, nomeadamente as da saúde, educação e planos poupança-reforma. Respondeu, mas ao lado, e em política a resposta tem de vir na ponta da língua. Loucã demorou-se a pesar as contrapartidas políticas da admissão desse ponto do programa do partido. Acabou por esclarecer, já na ponta final, mas não em tempo muito útil. E eu quero voltar a isto, porque, como é óbvio, concordo com Louçã, e penso que este aspecto do seu programa é um belo exemplo de democracia e merece ser explorado, no sentido contrário ao pensamento capitalista de Sócrates.

O que são deduções fiscais? O que querem elas dizer? Dizem-nos o seguinte: "sim, nós, governantes, sabemos que a educação universal deve ser gratuita, bem como os cuidados generalizados de saúde. Também estamos conscientes que a atribuição de pensões dignas é uma obrigação do Estado. As referidas obrigações estatais estão consignadas na Lei e na Constituição da República, mas a verdade é que não comparticipamos como deveríamos, ou seja, contornamos a Lei e a Constituição, porque nada disto é realmente gratuito, e as pensões são miseráveis, tudo por causa da economia de mercado; é por isso que vos iludimos com a ideia de que ao aceitarmos deduzir as vossas despesas vos estamos a dar benesses. Não estamos a dar-vos nada, porque vocês, ó mulas, já descontaram todos os meses para a Segurança Social, e outros subsistemas de saúde, como a ADSE, ou para o IRS, e o IVA, e o IMI, e o Imposto Único de Circulação, e o camandro que a gente aqui inventa para vos esmifrar a carteira. O que estamos é a tentar devolver-vos uma percentagem do que é vosso, e apenas porque conseguimos daí tirar dividendos políticos, porque vocês, ó tansos, não fazem a menor ideia sobre como funciona a máquina fiscal."

É exactamente isto que nos estão a dizer de cada vez que nos aceitam, para efeitos de dedução no imposto que já nos cobraram, um recibo do médico especialista privado, porque, se tivéssemos de esperar pela consulta marcada no hospital, através do posto médico, demoraria, sejamos optimistas, 10 meses. Ora, ninguém deveria ter de esperar 10 meses por uma consulta médica, quando desconta todos os meses do seu ordenado para a Segurança Social.

Claro que a alternativa seria termos serviços de saúde e de educação verdadeiramente gratuitos, como noutros países da Europa. E isso seria mudar o hábito, alterando uma estrutura edificada sobre o erro. Mas é sempre mais difícil mudar. É preferível viver sobre o erro, alegando que o erro é o melhor dos males.

sábado, 19 de setembro de 2009

Em casa

Finalmente, um balneário onde toda a gente usa soutiens da II Grande Guerra e conhece as vantagens terapéuticas da cueca de gola alta. Não é um balneário, é como chegar a casa.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Palhaça fora do circo

Paula Rego


Estou arrependida de ter afirmado que a Paula Rego era uma tia. Continuo convencida de que recebeu muitas influências, e as manteve, mas as pessoas não têm culpa dos condicionalismos nos quais são ensinadas a viver.
Li uma entrevista dela à Pública e gostei muito. Parece-me um bocado fora do mundo, da linguagem, das conveniências. Diz muitos disparates, isto é, inconveniências. O que não se diz. Hoje, num telejornal, explicava ela à Maria Cavaco Silva - visivelmente encavacada, mas muito oficial - que a mulher do quadro estava a morrer e apenas se preocupava em puxar a saia para esconder o rabo, porque as portuguesas preocupam-se, em primeiro lugar, em esconder o rabo. Pronunciou rabo umas três vezes e a Maria Cavaco Silva tremia de medo do que poderia ouvir a seguir.
Bem, na tela não vi mulher alguma a morrer, ou melhor, morrer, morria, mas de prazer. E segurava a saia porque se contorcia dentro dela, e era o que pretendia esconder, esse acto.
A Paula Rego diz que gosta muito de vestidos, por isso, hoje, na inauguração da Casa das Histórias, usou um todo em fantasia, com grandes e vivas pinceladas roxas, de saia em balão. Um vestido horrível. Um vestido de bruxa que não podia assentar-lhe pior. E foi isso, acho eu. Foi essa a gota de água que me fez gostar dela. Essa total disponibilidade para ser uma palhaça fora de circo, e não se importar, nem pensar nisso, nem sequer se lembrar.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Tristeza alegre

Antigamente, carregava a minha tristeza para todo o lado nas veias dos braços. Quando batia às portas podiam ver-se inchadas, quase a rebentar, mas ninguém parecia reparar. Falavam comigo como se os meus braços fossem perfeitos, como se não vissem as minhas veias roxas, salientes, como se aquilo não estivesse ali ou pensassem que eu não queria que reparassem no que estava ali. Mas queria. Se alguém, nesses dias, tivesse realmente reparado na minha tristeza... teria sido igual. Era um cancro que me minava, mas que não sabia nomear. Poderia gritá-lo. Se quisessem. Ou mesmo que não quisessem, alguém ouviria esse grito, a certa altura; saía, não podia fazer nada.
Com os anos a minha tristeza mudou. Agora, transporto-a nos rins, o que me permite livrar-me dela várias vezes ao dia. Foi amansando. Domesticou-se. Já vem à mão. Diria que se tornou alegre, come e dorme sem dar problemas. É uma tristeza que aprendeu a sorrir, que se aceitou. Do género, pronto, sou um cancro, e depois?!, não podemos ser todos iguais e eu não sou um cancro mal feito. Estou em crer que até lhe ganhei afecto, tal como à cicatriz da mama direita. Nem as distingo. Uma é a outra, porque isso das cicatrizes, para mim, são partes do corpo como os ovários, ou aquela costela flutuante que se pode mandar serrar em nome da elegância. Não servem para nada, contudo compõem o conjunto.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Parece que és parvo!

Avistamento, 2009 [foto obtida através de imagem visionada na televisão]


As pessoas que conheço e que leio manifestam o desejo de compreender o amor. Defini-lo seria ainda melhor. O amor romântico, tal como a existência de Deus, não se pode provar, o que lhe confere mistério. Torna-se dogma. Ou se tem fé ou não.
Há quem garanta que o amor romântico não existe. Há quem diga que, tal como Deus, o seu espírito é eterno, omnipresente e omnipotente. Eu, tal como as outras pessoas aqui da vizinhaça, e mesmo os estudiosos do meu concelho, não sei explicar essa variante do amor. Gostaria. Esforço-me. Mas o máximo que posso oferecer-vos sobre o tema é a minha experiência de avistamento. No continente americano vêem-se muitos ovnis, e nos Himalaias, de vez em quando,o Yeti sai da toca.... No meu caso, houve momentos e que avistei o amor romântico, de perto, como se visse um anjo à minha frente, mas sem perceber que o era.
Por exemplo, sei que os meus pais gostavam de conversar deitados na cama. Passavam assim muitas tardes, ao fim-de-semana, depois do almoço. Tagarelavam até se cansarem e esse seu ruído acalmava o meu coração.
Também havia momentos em que o meu pai ficava a olhar para a minha mãe e ria-se todo. Ela perguntava-lhe, por que é que estás a olhar?, e ele não lhe respondia, continuava a fitá-la sorrindo com a mesma honestidade malandra, até que ela lhe dizia, a rir, parece que és parvo!
Pela manhã, a minha mãe tinha o hábito de lhe calçar as peúgas com ele ainda deitado, o que me parecia o cúmulo da sua servidão e da preguiça dele. O meu pai tinha, como eu, um acordar doloroso. Era teimoso para sair da cama e a minha mãe ia-o adiantando. Mas o que eu não compreendia era que também o calçasse e lhe atasse os atacadores. Ele é que o devia fazer, o abusador. E ela, revoltar-se. Muitos anos depois compreendi que o meu pai nunca se teria calçado decentemente se a minha mãe não o fizesse por ele: a barriga dilatada não o deixaria baixar-se.
Muitos dirão que nada, nada disto é o amor. Eu creio que havia entre eles a confiança e intimidade de quem se ama sem palavras, sem conceitos. Precisavam de se sentir juntos, e percebia-se que apreciavam essa proximidade. Não havia ali abstracções nem parábolas. Era aquela unidade. Tem uma certa graça, hoje, pensar que casaram para formar família, para se entreajudarem, e que nessa intenção o amor nunca foi uma certeza. O amor não os juntou, mas o que construíram ao longo do tempo, permitiu-me conhecê-lo. Apesar de ter lido muitos livros sobre sociologia, e aprendido diversas teorias sobre a história da humanidade, bem como outros assuntos bastante valorizáveis, que os meus pais nem sonharam conhecer, o amor, para mim, estava destinado a ser, para o resto da vida, esse precoce avistamento da sua união.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O dia todo

Sísifo, 2009 [magem obtida a partir de vídeo visionado em computador]


São os meus melhores dias, esses em que chego a casa entorpecida pelas vozes que ouvi, pelos passos que caminhei, os gestos que fiz, as histórias que contei, os sorrisos que ofereci, as perguntas que perguntei, o esforço para conciliar tarefas, para realizar o que nem sequer me apetece, mas que tem de ser feito, porque me cabe, como a todos, o trabalho diário de Sísifo.
São melhores do que outros em que me deixo estar deitada no sofá a ver documentários da tv ou a escrever textos no computador e a dormitar. Não é que os últimos não sejam bons. Mas não me sinto tão viva nem tão útil. É importante sentir-me útil e poder justificar cada dia que passa, pensando, para mim, que o vivi bem. É isso, que o vivi sem trepidação mas inteiramente.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Amor bom

Abraço-a e repito sem saber o que digo, amor bom, amor bom, amor bom. Poderia dizer outras palavras que os amantes usam, embora já não me lembre dessas, mas poderia ser apenas, meu amor, meu amor. Contudo, seria inexacto. A Morena não é apenas o meu amor. É que amores há muitos, e alguns, sabemos, não prestam. Ora, ela é, no verdadeiro sentido da palavra, um amor que é bom. Um amor bom. É exactamente essa ideia de conforto que a minha conexão voz-mente produz sozinha no momento em que abraço a Morena.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Águas muito correntes

Os cuidados de higiene a ter para evitar o contágio pela gripe A têm efeitos mais gravosos para o planeta do que para os humanos afectados. Vejamos: lavar as mãos pelo menos 10 vezes por dia é comportamento próprio de indivíduos com a fobia da sujidade. Há até quem as lave de meia em meia hora, mas, na melhor da hipóteses, anda a fazer psicoterapia da pesada. Analise-se o impacto que esta euforia de lavagens terá nos gastos de água em domicílios e instituições, bem como nas captações de água municipais.
Os delegados de saúde aconselham-nos a lavar as mãos durante 20 segundos, cada uma dessas 10 vezes. Nas torneiras à antiga, como as que tenho em casa, posso muito bem molhar as mãos em quatro segundos, fechar a torneira, ensaboar e esfregar as manápulas durante os tais 20 segundos e voltar a abrir a torneira para enxaguar por mais seis. Gastei 10 segundos de água e estou a ser generosa nos tempos. Mas na maior parte dos restaurantes, cafés, lugares da noite, centros comerciais, escolas e hospitais, ou seja, fora de casa, as torneiras funcionam de acordo com temporizadores regulados para os 12 segundos, tempo que se considerou suficiente para uma lavagem de mãos, pelo que não posso ser eu a controlar a quantidade exacta de água necessária. Será assim: molhamos as mãos em quatro segundos, tiramos gel do distribuidor - dois segundos - iniciamos o ensaboamento, a água ainda está a sair da torneira, mas deixa de pingar quando vamos no sexto segundo de ensaboamento. Tudo bem, acabamos a tarefa calmamente, palma das mãos, dedos... e accionamos de novo o temporizador para as enxaguar. Gastamos mais seis segundos e a água continuará a correr em vão por mais 12. No total, para lavar as mãos fora de casa gastei 24 segundos de água, mais do dobro do tempo que seria necessário. Ora, estes tempo de torneiras a verter água multiplicado por 10 vezes ao dia por um número x de cidadãos em todo o mundo parece-me coisa pouco ecológica, considerando que a água é um recurso escasso. Para quem está habituado a poupar água, tudo isto configura mais um atentado ambiental. Se não morrermos de gripe A é muito provável que morramos à sede.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Promessa


Milagre, 2009 [foto obtida a partir de video visionado em computador]


Poderíamos subir às árvores como adolescentes. Ele subiria primeiro e oferecer-me-ia a mão, porque, com o passar do tempos, perdeu-se a agilidade juvenil. Ou sentarmo-nos clandestinamente no telhado do meu prédio, sobre as telhas ainda quentes, tendando recordar quando foi a última vez que contemplámos o Cristo Rei nocturno na paisagem iluminada de Lisboa, ao fundo.
Outra hipótese: alugar uma casa grande e toda vazia onde pudéssemos fazer amor ao domingo à tarde. Eu coseria umas cortinas de pano cru e ele arranjaria maneira de as segurar sobre as janelas, se fosse homem para isso. Ou, em alternativa, sermos menos ambiciosos e sentarmo-nos numa mesa de café olhando um para o outro sem grandes conversas. Nada de livros nem de filmes nem de filosofias que apenas serviriam para justificar encontros inconvenientes.
Olharmos para a cara nua um do outro.
Olha, agora tens uns sinais na face esquerda. Parece que os olhos te escureceram. Nitidamente, fizeste 40 anos e isso não engana. Agora pintas o cabelo de louro mais claro. Já não róis as unhas. As tuas mãos estão iguais. Continuas a gostar de castanho. Agora já não dás gargalhadas frescas, sabes, aquelas gargalhadas dos 18 anos, que eram como água a sair das pedras. Os teus olhos estão mais tristes. Tens uma pestana na cara. Fizeste bem em rapar o cabelo. Fica-te bem. Pareces o Yul Breyner. Quem é esse? Um actor de quem o meu pai gostava. Ah! Tu deixaste crescer o teu. Pois deixei. Achas giro? Acho.
Chegava. Depois seguíamos o nosso caminho e na semana seguinte voltávamos a encontrar-nos noutro café qualquer. Poderíamos ler em conjunto as notícias do dia, comentar a política, por exemplo, e rirmo-nos dos aprendizes de Maquiavel. Rir é sempre um grande milagre. Ou então, sem alaridos, alugarmos a tal casa na praia. Eu cosia as cortinas e fazíamos amor pelo chão até gastarmos o parquet. E podia continuar assim até ao dia em que um de nós tivesse de ir ao funeral do outro, às escondidas. Para quê preocupações?! Não me venham com cepticismos sobre não haver uma outra vida. Claro que tem de haver, e nessa, prometo, eu prometo, estaremos juntos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Não, não como

Animal, 2009 [foto obtida a partir de imagens televisivas]

Estava a contar-me que tinha ido às festas de Barrancos. Se eu já tinha assistido. Respondi que não e que nem tinha planos futuros para tal visita. Percebeu que a ideia dos touros não me agradava. Desculpou-se que aquilo era mesmo tradição, e que qualquer pessoa que por lá passe, percebe que aquela cultura está entranhada nas pessoas, novos ou velhos. Ocorreu-me dizer-lhe que também era tradição as mulheres não poderem trabalhar fora de casa sem autorização do marido, e que hoje, pelo menos no Ocidente, isso mudou. Que a tradição não é necessariamente um valor a seguir. Quer dizer, que a culturazinha pode alterar-se, querendo.
Depois disse-me que pelo menos os touros, em Barrancos, não ficam a sofrer esperando que o veterinário municipal os venha abater, e que a carne do animal é posta à disposição das pessoas. Carninha da boa. Argumentei que não como carne. Nem de touro nem de vaca nem de borrego nem de porco nem de javali nem de cabra nem de carneiro nem de ovelha, e a lista ia longa. Isso deixou-o visivelmente atarantado. Caramba, assim não era possível dialogar. Fez silêncio durante um minuto ou dois enquanto fumava debruçado na varanda e depois não aguentou mais:
- É que se não comêssemos carne seria impossível arranjar alimentação para todos, porque uma agricultura para tantos biliões de pessoas é insustentável para o planeta. Morreríamos se fome.
Tentei responder:
- Mas isso de comer muita carne é coisa recente. Os nossos antepassados, embora menos numerosos, não dispunham da carne que hoje existe. Comer carne era um luxo. Matava-se um porco para o ano inteiro numa família de seis. Comia-se uma galinha no Natal.
Na Ásia, por exemplo, uma larga faixa da população é vegetariana desde tempos imemoriais. Sempre foi. E a terra sempre os sustentou bem. Mas para mim o problema não reside na carne que se come, mas na industrialização da criação e morte dos animais. É uma questão de dignidade, de ética.
- Os outros não vão deixar de comer carne, portanto vai tudo dar ao mesmo. Para que serve o teu esforço?
- Os nossos valores não podem subjugar-se ao que é mais útil, mais fácil. Se acreditamos num determinado princípio, a nossa acção tem de reger-se pelos comportamentos que o respeitam.
O facto de outros não pensarem e não procederem como eu, não desmerece a minha posição. Mas, enfim, não pretendo convencer ninguém. Isto não é um apostolado.
- O chato é que tinha descongelado umas febras para o jantar. Não comes, pois não?

Pardais do subúrbio

Há um côncavo no chão, junto à esplanada do café, para onde escorre a água das lavagens de algures. Quando está calor, as cadelas gostam de se sentar sobre a água desse lago duvidoso. Enxoto-as. Ralho-lhes. Porque vocês se sujam todas. Aquilo não é água limpa. Etc.
Hoje reparei que os pardalinhos aí vão beber. Descem das árvores, acercam-se sem medo, e molham os biquinhos. Fiquei a pensar que se calhar vai fazer-lhes mal, que se calhar vão morrer, e esta ideia foi demasiado triste. Mas o instante de vida dos passarinhos, a pura energia, livre, selvagem que os anima enquanto não caem das árvores fulminados pelo nosso lixo, consolou-me. Que alguém seja livre a vida inteira. Já nem me interessa quanto dura uma vida.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Cuecas no arame

Estive a mostrar à minha mãe e à sua vizinha preferida, Dona Novália, as novas funcionalidades do Google Street View. Expliquei-lhes que agora, assim que fotografarem as ruas de Alcobaça e da Covilhã, até podem ver as casas onde nasceram, a vivenda do primo Rogério, etc., etc.
Estavam ambas maravilhadas, até ao momento em que lhes mostrei a própria rua onde viviam. A minha mãe revelou-se um bocado nervosa. Olha se a tivessem apanhado à porta, com as calças de andar por casa, a chamar a vadia da Lili! A Dona Novália, muito aliviada, exclamou que felizmente, nesse dia, não tinha pendurado roupa no arame!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A minha foto

Recuso a divulgação de fotos minhas, mas o meu agente enviou as que tinha à minha editora, a pedido, para a badana e outras acções de divulgação.
Telefonei-lhe. Aleguei que tenho o direito de manter reserva relativamente à minha imagem. Acrescentei que também ninguém viu a Teresa Veiga mais gorda. Posso passar por ela que não sei quem é. Perguntou-me se me considerava uma primadona, e sem me dar espaço para respostas, continuou que até poderia lá chegar, se quisesse, mas que para isso precisava de uma foto, porque livros sem foto não vendem, e livros que não vendem não projectam autores, e autores que não se projectam são engolidos pelo mercado. O monstro do mercado, disse ele. Ignorei-o. Deixei-me estar na minha.
O senhor viu a cara ao Herberto Helder nos últimos 30 anos? E quando leu as suas aventuras dos Cinco tinha alguma ideia de como se parecia a Enid Blyton?
Mas a menina não é o Herberto Helder nem a Enid Blyton - a Assíro & Alvim que lhe perdoe colocar ambos no mesmo cesto! - porque, se fosse, não precisaria de mim como agente, não lhe parece?!
Fiz orelhas moucas. Ainda hoje vi a Paula Rego na televisão: uma tia! Falava de Cascais, do lugar onde ia lanchar antigamente, de um jardim com verdadeiros macacos, o que tanto a divertia... uma tia do chá das cinco! Imagina a necessidade que eu tinha de saber quem era a Paula Rego ou de a ouvir falar?! Zero. A mulher tem uma obra. As pessoas têm uma obra. Ninguém precisa de as conhecer pessoalmente. Não preciso de conhecer pessoalmente nenhum artista. E se por acaso temos o azar de os conhecer, convém desenvolver uma diligente imparcialidade, isso se quisermos continuar a apreciar a obra.
Suspirou.
Isabela, suspeito que seja impossível fazê-la entrar neste meio. No seu caso é bem verdade que podemos tirar a rapariga das entranhas do subúrbio comuna, mas jamais o subúrbio comuna das entranhas da rapariga. Mas quem é que você quer ser, afinal? Não pensa no futuro?! Na sua carreira?! Olhe, não percamos tempo com ninharias; não responda, não me interessa. Deixe estar assim. A foto tem de entrar e depois logo se vê quem tem razão.
E desligou, o presumido.

O tio mais estragado

Mãe - Isto aqui no Forum é fresquinho.
Isabela - É.
M. - Devem ter uns valentes ares condicionados para conseguirem refrescar um espaço tão grande.
I. - Ah, pois devem.
M. - Quando está calor é o melhor sítio para se vir descansar um bocado.
I. - É capaz...
M.- O teu tio M. diz que vem para aqui todos os dias ler o jornal.
I. - Óptimo para ele.
M. - Agora é que ele está bem. Não trabalha. Faz o que quer.
I. - Ele também nunca se matou a trabalhar.
M. - Pois não, por isso é que ele é o mais velho e o menos estragado de nós os três.
I. - Dos três irmãos?
M. - Sim!
I. - Mas o tio A. morreu há três meses, mãe, já não entra nessa conta.
M.- Seja como for, o teu tio M. é o que está menos estragado.