sábado, 31 de outubro de 2009

Tumulto

Sábado, nove da manhã, estendida ao comprido no chão na sala de estar.
Bom dia, Micas querida, velhota bebé da doninha! Como está a hoje a minha menina?! Dói a perninha, dói, querida? A dona cura a perninha da menina. Bebé linda. [Beijinho, beijinho, festinha, festinha...] Tens manchas na barriguinha?! Deixa ver. Pois tens! Estás velhota. Tens manchas como as das mãos da avó. Também já tens muitos anos, não é?! Deixa lá, a dona também já tem 46 anos, quase 47, 48, 49, quase 50. Também vai a caminho. [Beijinho. beijinho.] Mas têm sido uns 40 muito emocionantes, Micas. [Pausa. Beijinho.] E, pensando bem, agora, os trinta também não foram nada sossegados. O tumulto que por aqui andou! E aos 20, se formos ver, também aconteceu muita coisa. Da adolescência é melhor nem falar. Nem da infância. Olha, Micas, tem sido uma vida acidentada, cheia de altos e baixos, e curvas e atalhos e cruzamentos e bifurcações e estradas que parece que não têm saída, mas lá se encontra um atalho... e tu tens testemunhado os últimos onze anos, sabes que não estou a mentir, querida. [Beijinhos. Festinhas. Algum silêncio.] Afinal, por que é que estou sempre a dizer que a vida é uma merda, sabes? E que não vivi nada, como os outros, sabes? Não sabes?! Passo a vida a reclamar?! Achas que passo a vida a reclamar? Se calhar passo. Mas, minha querida, tenho um medo de estar aqui e de não aproveitar o que tenho. De não saber gozar o dom da vida, o benefício das experiências dos sentidos: ver, escutar, cheirar, sentir... Saborear, não. Saborear ja saboreei muito, não te parece?! [Beijinho.] E, agora, se fôssemos à rua e ao jornal e ao café, querias?
Logo vi que a ideia te diminuiria as dores!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Cuecas de gorda

Estreei hoje umas cuecas compradas na Irlanda, país que atribui às gordas o direito à sensualidade, como se fossem seres humanos normais, pessoas como as outras. Eu sei que parece estranho, mas é tal e qual como digo! As cuecas pertencem a uma tal colecção designada Secret Possessions. E enquanto as vestia pensei, caramba, ao menos as cuecas!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A aventura do exame gástrico


Hoje fui fazer uma endoscopia, exame médico particularmente difícil, e avisaram-me que deveria levar companhia - o marido ou qualquer outra pessoa amiga ou da família. Que ia ser sedada, portanto não poderia conduzir, etc.
Apresentei-me à hora. Na recepção, perguntaram-me pelo acompanhante. Informei que tinha ficado "a ler lá em baixo no café". Ah, sendo assim... é que depois não me poderia ir embora sozinha, porque iam sedar-me.
E lá fui. A sedação consistiu em 3 mg de Dormicum endovenosos. Por extenso: três miligramas. A dosagem mais baixa existente no mercado é de 15 mg. Não me chegaram a injectar o correspondente a 1/4 de comprimido. Devo confessar que nos últimos quatro anos tive dias em fui trabalhar bem mais sedada, e fartei-me de produzir.
Claro está que com 3 mg não conseguiram fazer-me exame algum. Correu um bocado mal. Se aquilo não era a polícia tailandesa a tentar extrair-me informação sob tortura, assemelhava-se bastante. Felizmente tenho força e consegui dar uns coices. Ia-lhes partindo a maquinaria toda. Ficaram lá com uma mordidela na sonda gástrica, para recordação, porque quando decidi que havia de sair, a bem ou a mal, não estava a brincar. Foi a mal.
A médica escreveu no relatório, "estômago incompletamente observado por intolerância da doente, pelo que foi suspenso o exame". Foi intolerância, foi. Devo ser caso único, porque o resto dos diagnosticandos têm todos o gorgomilo muito deslassado.
Expulsaram-me do gabinete e sentaram-me numa cadeira à espera que me passasse a sedação dos potentes 3 mg. Aproveitei para pensar o que ia fazer para o jantar. Quando vieram, de novo, perguntar pelo meu acompanhante, repeti que estava lá em baixo no café, porque não lidava bem com situações médicas. Ah, pronto, ok. Mas conseguiria eu descer sozinha pelo elevador e encaminhar-me até ele?! Sim, claro, sem problemas. Iria agarrada ao corrimão, não se preocupassem.
Desci, meti-me no carro, arranquei aliviada, e fui à manicure pintar as unhas de vermelho-licor.

domingo, 25 de outubro de 2009

Eu não sou normal

Eu não sou normal, 2009 [imagem obtida através de vídeo visionado em computador]


As instituições preocupam-se muito com natureza social dos progenitores.
Para se ser pai e mãe bem aceites convém cumprir-se alguns requisitos básicos como juventude, heterossexualidade e, de preferência, matrimónio.
Há uns anos, numa reunião sobre questões pedagógicas, ouvi a directora de um centro de acolhimento de crianças retiradas aos pais pelo Tribunal, afirmar que estaria fora de questão entregar as suas criancinhas a algo que não fosse uma família normal, com pai e mãe, porque, dizia ela, seria impossível saber a companhia que uma mãe ou um pai sozinhos poderiam levar para dentro de casa. Sabia lá ela, por exemplo, o que um casal de homossexuais faria à frente das crianças.

Estava a esquecer-se que as suas crianças, infelizmente, eram provenientes de jovens agregados heterossexuais que faziam tudo frente aos meninos e aos próprios meninos. As pessoas, para confirmarem as suas convicções, esquecem-se do que não lhes serve. Desvalorizam, que é como se nunca lhes tivesse acontecido.

Lembrei-me disto hoje, sentada na esplanada do café Colina, enquanto a Micas e a Morena pediam bocados de croissant ao senhor da mesa da ponta, fugindo às criancinhas que queriam montá-las e puxar-lhes as caudas.

Não me sento no café apenas para beber a bica e ler o jornal. Sou uma observadora de café já com certo grau de profissionalismo. Aí posso ver e ouvir, passando relativamente despercebida, porque sou apenas aquela senhora sozinha que gosta de ler e tem as cadelas velhotas, um belo disfarce. No café consigo penetrar no mundo, mantendo-me fora dele. Estou ali de viagem, e quero estar. Quero ouvir as pessoas que não são como eu. Que julgo que não são como eu. Preciso de me situar, por semelhança ou antagonismo, e, ao ouvi-las, constrói -se, para mim, um novo lugar no mundo - um lugar que refaço constantemente, que ajusto, que me esforço por compreender. Quem sou eu e para que sirvo? A resposta a estas perguntas tem mudado ao longo dos anos.

Ao domingo de manhã há pelo café muitos pais com os seus filhos de gestação fácil. Demoro-me a observá-los. Que tipo de mãe serei eu, quando for mãe?
Uma décima parte dos pais e mães normais que observo não têm a menor vocação nem capacidade emocional para ter filhos. Aquilo saiu-lhes na sorte grande, ou acharam que estava na moda e também queriam experimentar, ou foi pressão da cultura de massas - namorar, ter filhos, receber o subsídio de desemprego - não faço ideia. Ser como todos os outros do bairro, penso eu.
A nossa cultura escavou em todos um incontornável fosso masoquista, ou ninguém pensaria em tal coisa. Por que quero eu ser mãe? Não tenho uma vida tão livre, tão agradável? Para que quero complicar os meus dias? Não consigo responder a esta questão, ainda.

Reparo que é um alívio, para uma parte dos meus vizinhos, livrarem-se dos filhos. Estão-se completamente nas tintas para o que fazem, desde que os deixem sossegados a fumar, a conversar sobre bola ou a vida alheia enquanto bebem cervejas. Os filhos são um peso, um parasita que têm de suportar. Compram-lhes o que pedirem, desde que se vão embora de novo. Mais meia hora de sossego!
As crianças andam à volta das mesas a criar-se sozinhas, o que acaba por não ser necessariamente mau.

Compreendo que para o comum mortal que precisa de descansar da semana de trabalho não é fácil gostar dos filhos. Para se ser um bom pai ou uma boa mãe é preciso ter a cabeça arrumada, saber distinguir autoridade e violência, afecto e suborno emocional. Uma parte dos pais precisaria que alguém ainda cuidasse deles. São imaturos, inconsistentes, querem outra vida, não suportam a que têm. Como podem os que não suportam a vida, dar vida?

Observo. Penso que talvez eu desse uma boa mãe. Uma mãe amorosa e atenta. Uma mãe exigente, com alguns ataques de mau génio, certo, mas uma boa mãe.
Estou em crer que as assistentes sociais encarregadas do meu processo de adopção não pensam o mesmo; não me consideram uma família exequível, e não estão muito certas sobre as companhias que uma mulher como eu poderá levar para dentro de casa.
Para elas, por muito que não o admitam, eu não sou normal.



sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Deixem o homem em paz

Estive a ouvir Saramago conversar com o padre Carreira das Neves no programa do Mário Crespo.

[Existirá algum motivo esotérico que justifique o facto de Mário Crespo, referindo-se a Saramago, e dando resposta a uma questão retórica do autor, se entregar a bajulações peçonhentas como "Deus criou o Universo para que pudéssemos tê-lo connosco"?]

Esta polémica continua a alastrar e é duma estupidez sem paralelos. Discutam os perfis dos novos ministros, o aumento pós-eleitoral do desemprego.
Saramago está velho. Treme um pouco. Fala com dificuldade. Lembra-me o meu pai com a trombose a enrolar-lhe palavras na língua.
O seu pensamento não é original nem brilhante. Qualquer pároco de aldeia se exprime com mais lógica, isto para não chegar à eloquência. Escrever um livro deve custar-lhe uma trabalheira, mesmo para quem não faz mais nada. O homem tem quase 90 anos, deve chagar o juízo à Pilar, todos os dias, repetir-lhe as mesmas coisas vinte vezes, e provavelmente é uma trabalheira primeiro que consigam pô-lo apresentável para sair de casa. Não sabem o que é ser velho? Não conhecem velhos? Deixem o homem em paz!


Um tempozinho de morte

Tem 34 anos. Nasceu numa aldeia perto de Coimbra. Nunca disse uma asneira, nunca lhe autorizaram um caraças, nem mesmo quando cortava um dedo a descascar batatas.
Quando acabou a escola secundária, a madrinha, uma senhora formada, encaminhou-a para o curso que considerava o melhor para se ser professora de Matemática. Era, de todos, o mais difícil, o que exigiria mais estudo e mais prática, portanto, aquele que a prepararia melhor. Fez o curso na prestigiada Universidade de Coimbra sem uma disciplina em atraso. Participou nos rituais de iniciação, como caloira e como veterana. Comprou o fato académico, inscreveu-se na tuna, interveio activamente nas Semanas das Fitas sem beber um copo a mais e nunca cedendo à tentação de não estudar as suas três horas por dia, regime que se tinha imposto fora da época de exames. Pensa, hoje, que se tivesse seguido outro curso, eventualmente aquele que desejava, talvez pudesse ter terminado com melhor média. Mas, paciência, também não desgosta do que tirou. E conseguiu empregar-se com facilidade!
Conheceu na faculdade o primeiro namorado, com o qual casou na igreja, numa festa para mais de duzentas pessoas. Um rapaz de famílias honestas, que estudou para engenheiro. No casamento, os convidados tratavam-nos por senhora doutora e senhor engenheiro. Os pais ofereceram-lhe o apartamento onde vivem, devidamente mobilado. Com as prendas em dinheiro compraram um carrinho e começaram um bela vida sem dívidas.
Engravidou duas vezes. Teve uma menina e a seguir um menino. Crianças desenxovalhadas, educadas, que vão à catequese. Desdobra-se em cuidados com os filhos. Esforça-se por conciliar o emprego com os horários das crianças. Embora o marido ajude, deita-se tarde. Ao domingo, apetecia-lhe descansar, mas vão sempre almoçar a casa dos pais; numa semana os dela, na outra os do marido. As crianças precisam de conviver com os avós. E os pais ajudam sempre que é preciso, e dão bons conselhos sobre como levar uma vida cordata, sem sobressaltos.
No emprego, ouve, cala e executa. Não tem opinião sobre nada. Ter opinião poderia originar sarilhos,e mais vale não se meter neles, que tem dois filhos para criar. Por isso, faz tudo como lhe mandam, independentemente do que mandam ou como mandam. Não está ali para questionar instruções. Pagam-lhe para as executar. Também nunca respondeu ao pai nem à mãe nem à madrinha nem aos professores. Nunca deu um desgosto aos pais, não seria agora... Não tem vocação para reclamar.
Ouço-a e sinto-me cansada. Há pessoas que nunca saltam dos eixos. Ouço-a e penso que, no seu lugar, alguém já me teria encaminhado para uma instituição psiquiátrica. Ouço-a e penso que a sua vida é um campo de trabalhos forçados ao qual se habituou. Ouço-os a todos, muitas vezes, porque eu estou ali; eu tenho tempo para ouvir. Um dia falha-lhes o coração, e depois, viveram quanto?
Ouço-a e sinto uma enorme compaixão que não posso revelar. Ocorre-me que de vez em quando acontece-lhes morrerem cedo. Serem modelos de vida tradicional, autorizada, não lhes concede moratórias vivenciais. Dá-lhes uma síncope qualquer e ficam-se. Costuma-se dizer, morreu tão nova, deixou filhos por acabar de criar, logo agora que começava a levar uma vida mais descansada, foi-se, coitada, e não gozou a vida. Ouço-os a todos e penso que deve ser um alívio, esse tempozinho de morte. Devem chegar ao final do túnel da luz branca e pensar, foda-se, finalmente vou descansar sem ninguém a dizer-me o que devo fazer, e a que horas. Foda-se, que bela vida se leva nesta morte!

Uma realidade muito sintética


O novo governo, hoje anunciado, tem 16 ministros. Cinco são mulheres. Não chegam a um terço.
Contudo, o deputado Francisco Assis, do PS, destaca à Imprensa, em primeiro lugar, o facto de este ser um Governo com uma fortíssima presença feminina. O adjectivo encontra-se aqui em negrito numa tentativa para reproduzir o tom de voz do político, ao enunciar o superlativo absoluto sintético. Devo dizer que me pareceu uma daquelas situações em que a realidade designada era mais sintética que a natureza gramatical do próprio adjectivo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O céu chora a rir

Se Deus Nosso Senhor for realmente o Deus Nosso Senhor da Bíblia, o que mandou Abraão matar o seu filho como prova de fé, ficará muito zangado com José Saramago, furioso, até, e é provável que mande um dos seus anjos exterminá-lo rapidamente, e de caminho nos lance 13 pragas, excluindo a gripe A, porque essa já cá está e não conta.
Se Deus Nosso Senhor não for exactamente o Deus Nosso Senhor da Bíblia, mas outra forma qualquer que desconhecemos, eventualmente uma forma coerente e incaracterizável pelos nossos padrões humanos e primários, pode ser que pense, caraças, a imagem que aqueles gajos dão de mim na Bíblia foi concebida à imagem deles, e não minha. Se pudessem, exterminavam José Saramago ou lançavam-lhe 13 pragas todas em meu nome. Tenho de me despachar a enviar uns bites de concórdia em direcção àqueles tolos pensamentos.
Se Deus Nosso Senhor não existir, o céu inteiro chora a rir.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Vítima e carrasco

Encontrei a Vera, que foi minha colega de escola.
Era loura de olhos azuis muito vivos, uma lindeza de rapariga. Agora já não é loura. Nem castanha. É uma cor baça qualquer. E os olhos também já não têm cor. Nem consegui ver-lhos bem, porque estavam, muito lá ao fundo da cara. Também já não sorri. Foi um cumprimento sem vontade, a fugir. Foi antes um "que chatice encontrar-te aqui, não me apetecia falar com ninguém e vou já despachar-te".
A vida tratou mal a Vera. Ou a Vera tratou mal a vida. Nestes casos tenho sempre dificuldade em distinguir vítima e carrasco.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Tempo

O telefone tocou. Olhei para o relógio: cinco da manhã. Merda! Quem é que telefona às cinco da matina?! Não vou. Depois lembrei-me: a minha mãe. Salto da cama, corro para o telefone, atendo já a imaginar-me a caminho do hospital, e a minha mãe diz-me, olha, não te esqueças, amanhã, de me trazer a Maria. Eram cinco da tarde. Tinha-me deitado às duas, para dormir uma horinha.

domingo, 18 de outubro de 2009

Um Calvin sem Hobbes


A Cidália tem um método de sucesso para entreter o miúdo. Põe-no todo o dia a brincar na rua, à roda do café onde trabalha. Enquanto tira os galões e prepara as tostas mistas vai deitando o olho ao terrorista, pelo lado de dentro das vidraças, enquanto este malha, quer dizer, entretém vigorosamente os filhos dos clientes.
Hoje, ia eu a entrar no café da Cidália para beber uma biquinha, ia o puto a sair com a mão direita toda feita numa Smith & Wesson das antigas; acertou-me um balázio fulminante na testa e fiquei logo ali caída. A seguir, atirou a matar na Micas e na Morena, e tombaram sem piar. Deu dois passos, e encarou os quatro vizinhos que vinham atrás de mim. Não teve piedade. Reflectiu em segundos e disparou. Ficaram estendidos, dois metros à frente, atingidos no peito, no estômago, na cabeça, onde calhou. E o pequeno terrorista continuou o seu morticínio pelo bairro fora.
Não sei nada sobre pedagogia a putos de 8 anos, mas o miúdo não me parece infeliz. E eu cá não me importava nada de ter a idade dele, para fazermos uma hedionda dupla contra-cultura, como Bonnie and Clyde.


Falta-me um empurrãozinho

Escrevem-me muito com metáforas do género, "o teu blogue é uma pedra". Ou, "ainda não consegui parar de me rir com aquela tua frase tal e tal". Ou ainda, "para quem trabalha numa fábrica, deixa lá que tens mais lógica que o meu prof. de História da Cultura (se calhar é um aluno do Rui Zink!).
São comentários que me mostram por que não progrido na blogosfera e o meu blogue nunca será convidado para nada de verdadeiramente blogotrendy.
O que eu queria era que me escrevessem "ah, os seus textos apresentam interessantes dialécticas"; "Ah, percebe-se que a Isabela é senhora de capacidades de expressão ultra-expressivas"; "Ah, as suas citações de grandes autores levam-me a concluir tratar-se de uma mulher superiormente culta, com esmerada educação conservadora, de boas famílias."
No mínimo, caros leitores, dirijam-me adjectivos como magnífica, incomparável, inimitável e até mesmo sagrada. Não será demais. Agora, "é uma pedra!"; "Não consegui parar de rir"! Por favor!
É que em Portugal, sem família e lobis, ou sem o empurrãozinho da seriedade e suprema contenção não se chega a lado nenhum! E nós precisamos todos da comidinha no prato!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dedos amputados

O meu pai sofreu a amputação de três dedos da mão direita. Cortou-os numa máquina tipográfica, quando era pequeno. Começou a trabalhar aos 12 anos, porque já era um homem, e a máquina bem lhe mostrou que já tinha idade suficiente para ficar sem dedos.
Os dedos do meu pai, olhando para a palma da sua mão aberta, pareciam pénis anões circuncisados, com o freio separando cada metade, ou melhor, travando ali aquelas pequenas bochechas de carne.
Ao meu pai não agradava que eu procurasse muito brincar com os seus dedos, do que gostava tanto.

Adormeço, sonho e acordo, e do lado de cá continua tudo igual.
Ainda bem. Não sei se o meu coração teria força para bater tantas horas do outro lado.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

E a próxima Ministra da Educação é.... II

Consta. Não é certo. Má-língua. Conversa de bastidores com pessoas bem informadas e posicionadas. Que talvez. Que seria a escolha lógica. Até foi à Finlândia ver como é que eles já não fazem, que é para nós fazermos igual. Que esta evitaria deixar cair tudo. Que seria uma solução intermédia para próxima Ministra da Educação.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Se é público, é público

Juro que não lhes dei tanta informação biográfica nem ma pediram.

Esta é a minha livraria preferida.

A Maria Emília não gosta de cães

A minha mãe disse-me ontem, parece impossível, que tu, que és toda comunista, não votes na Maria Emília. Toda a gente cá gosta dela. Tem feito muitas coisas em Almada.
Respondi-lhe que é verdade, que tem feito. Temos de admitir que, do ponto de vista urbanístico, o nosso concelho tem registado melhorias, e está cada vez melhor servido de transportes e estruturas de apoio, como escolas e bibliotecas.
O trânsito rodoviário piorou, mas é inegável que o Metro Sul do Tejo facilitou imenso a deslocação a quem usa os transportes públicos. E isso é louvável.
O Parque da Paz, construído sob o seu mandato, é a coqueluche dos almadenses. Quando nos dizem que Almada é subúrbio, atiramos-lhes logo com o Parque da Paz. "Tens lá na tua terra um parque destes, que parece uma ilustração do paraíso dos testemunhas de Jeová? Não tens?! Ah, então é subúrbio, mas é em bom."
Enfim, a dona Maria Emília, candidata pela CDU, não é má presidenta, mas tem um senão: não gosta de cães. Obriga-nos a andar com eles à trela - o que não respeito, quero deixar claro! - como se fossem todos cães treinados para atacar. No Parque da Paz não podem connosco atravessar a relva, deitar-se ou brincar nela, nem em qualquer outro metro quadrado de verde neste concelho. E eu, obviamente, não lhe perdoo este ódio canino aos bichos. Tenho muito pena, mas sou como a máfia calabresa, quem é contra os meus, é contra mim.
Se for ali ao Miratejo, que pertence ao concelho do Seixal, posso brincar à vontade com as cadelas nos jardins, e não tenho a obrigação de as ter presas, uma vez que a lei apenas se aplica a cães de raças consideradas perigosas.
Não aceito esta diferença de critérios, que, para mim, é decisiva. Os votos decidem-se nestes pormenores. Portanto, a Maria Emília lá vai ganhando, é verdade, mas não ganha comigo. Até pode cá construir um Museu do Louvre, uma Torre Eiffel... mas enquanto não resolver o seu problema com os cãezinhos, não posso dar-lhe o meu voto.
É o tipo de fobias que se resolve com hipnoterapia; e cá no concelho há hipnoterapeutas dos bons. E todos com cães!
Não querendo desvalorizar a vitória da dona Maria Emília Inimiga-de-Cães, gostaria apenas de lembrar que o seu maior concorrente no concelho é Paulo Pedroso, candidato do PS.
Caramba, até uma pessoa fica com a impressão que o PS atirou um candidato para queimar em Almada!



Parque da Paz, Almada, Maio de 2009 (cães interditos na relva, mesmo com trela!)

domingo, 11 de outubro de 2009

O eugenismo aplicado ao trabalho

O mundo está cada vez mais fascista.
Quando li que o nosso Governo se prepara para, até 2012, introduzir testes ao álcool e drogas nas empresas, felizmente estava sentada, e assim evitei lesionar um músculo qualquer.
A liberdade é um valor que não se troca por nada. O direito à vida privada, e a fazer nela aquilo que é privado, ficará exposto a todas as violações, se tal medida se concretizar. Tenho o direito a beber meia garrafa de uísque todas as noites, se me apetecer. Tenho o direito de fumar dois charros à hora do almoço. Fora da minha profissão estou no meu espaço privado, e o meu espaço privado, desculpem, é meu.
Argumentar que esta medida é meramente preventiva e se deve a questões de saúde pública é uma desculpa incoerente. Se fosse verdadeiramente uma questão de saúde pública, preocupar-se-iam em realizar rastreios à diabetes ou a comportamentos alimentares altamente lesivos da saúde. Ninguém quer saber se comi açúcar ou hidratos de carbono?! Para isso não há testes?
Não há, porque, em princípio, não afecta a produtividade. O que está aqui em causa é esse valor máximo, e a possibilidade de se despedir com justa causa em seu nome. O que que aqui está em causa é a cada vez maior interferência das gestões nas vidas privadas dos geridos, transformando as empresas em pequenas ditaduras dentro da ditadura maior. Esta ideia do cidadão-escravo da empresa magna, vigiado por ela, e assim obrigado a manter comportamentos padrão, como se vivesse num big brother, remete-me para a literatura de ficção científica de Aldous Huxley e de Isaac Asimov. Era ficção, mas começa a tornar-se realidade.
Se as empresas tivessem quaisquer preocupações sanitárias, contratariam equipas de apoio médico especializado, às quais os empregados se pudessem dirigir voluntariamente, e em total anonimato.
Imaginemos um funcionário que tem problemas com cocaína: se não afectar a empresa, e geralmente não afecta, durante um largo período, é a ele que cabe decidir se quer resolver esse problema e quando. Mas talvez às empresas não interesse detectar os consumidores de cocaína, porque esses trabalham sem horas. Interessa-lhes saber se o funcionário x ou y, normalmente os que reclamam direitos laborais, bebe vinho à hora do almoço. É que se beber torna-se mais fácil pô-lo a andar rapidamente...
A recente vaga de dezenas de suicídios em grandes empresas francesas, com órgãos de gestão a que dificilmente se poderá chamar gente, mostra-nos que é possível uma empresa reduzir um cidadão a nada. Chama-se a isto escravidão. Há relatos de escravatura, de há 200 anos, dando conta que muitos dos escravos levados para o Brasil, perante o tratamento de que eram alvo, preferiam matar-se ou ser mortos, a viver tal como os obrigavam. Parece que isto anda a acontecer de novo. Parece que andamos a regredir civilizacionalmente. Se isto não é grave, precisamos de reformular as nossas noções de gravidade.
O que se pretende com as alegadas medidas higienistas é, no fundo, um "eugenismo "do mercado de trabalho. O trabalhador deverá corresponder ao padrão-máquina. As empresas não querem pessoas, mas máquinas, e se essas máquinas forem de carne, melhor, porque são mais flexíveis, mais funcionais.
O trabalho não é a actividade a que nos dedicamos apenas para pagar as contas. Mesmo quem não vive essa pressão arranja uma ocupação, nem que seja sentar-se na bolsa a controlar as subidas e descidas do mercado de valores onde investiu a maquia do Euromilhões.
Precisamos de trabalhar porque o trabalho estrutura as nossas vidas, portanto, estrutura-nos. Aquilo que fazemos, e a satisfação que obtemos perante a sua concretização, compensa o nosso esforço e ajuda a dar sentido à nossa existência. Se assim não for, é a pior das escravaturas.
Num mundo em que se agravam cada vez mais as relações laborais, admira-me que se considere anacrónico ouvir a esquerda falar dos interesses do patronato e em direitos dos trabalhadores.

Devia ser tão fácil, 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Deixem os professores trabalhar

Maria Manuela Carvalho, professora de Matemática na Escola Secundária Infanta D. Maria, em Coimbra, ao Público, na segunda-feira passada:

"Pronto, já me calo, sei que estão fartos destes temas. Mas deixem-me dizer-vos, pelo menos, que se neste momento sou capaz de dizer que sou uma professora feliz é porque acredito que o modelo de avaliação que contestámos não será aplicado e que a divisão de carreiras deixará de existir; e também porque sinto que, ao contrário do que pretendia a senhora ministra, os professores são respeitados pelos pais, pelos alunos, pela sociedade em geral."

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Eu tenho qualquer coisa

Lá na minha fábrica, mandaram-nos para uma acção de formação sobre métodos de recuperação de parafusos defeituosos. Como proceder para os endireitar, remediar pequenos ou grandes defeitos e lançá-los de novo no mercado. Aderi entusiasticamente. Detesto desperdício e sou a favor da reciclagem.
O formador propôs-nos um jogo com o objectivo de percebermos como se chega à criação de um estereótipo de parafuso. O que nos leva a categorizar um parafuso como bom ou mau, e como poderão estar erradas tais categorizações. A ideia seria percebermos que um parafuso todo torto pode, com jeito, dar um lindo trabalho de aparafusamento.
Pediu voluntários para o jogo, e eu ofereci-me logo, que sou danada para a brincadeira. Fui a primeira.
O jogo consistia em emitirmos opinião, por escrito, sobre dois assuntos polémicos: casamento de homossexuais e racismo/imigração. Concordar ou discordar de duas afirmações sobre os referidos temas, e justificar a nossa opinião, tudo em 60 segundos ou menos.
O formador recolheu as fichas nas quais os três voluntários se pronunciaram, e leu apenas duas. Aos restantes formandos coube decidir, também por escrito, a quem pertenciam as opiniões expressas em cada ficha. Se ao colega A, B, ou C. Eu era o A. A maioria dos meus colegas achou que a ficha 1, a qual continha as posições mais conservadoras sobre os assuntos em referência, me pertencia.
Ora, a minha ficha foi a que o formador não leu. Fiquei a saber que os meus colegas me consideram conservadora. Incluíram-me nessa categoria. Não sei se não terá sido do colar que levava ontem, mas fiquei um bocado preocupada. Afinal eu não sou aquela que, logo à primeira impressão, parece uma revolucionária de esquerda, uma companheira do Che, mas mais nova?!
Mas o mais interessante da acção foi a parte final, quando o formador, um moreno todo mexido e bem falante, chegou à conclusão que, para ter sido eu a escolhida por todos, naquele contexto, disse ele, muito próximo de mim, "eu tinha qualquer coisa". Não lhe respondi. Sorri só e pensei, tenho, tenho sim, estou cheia de qualquer coisa, mas tu, com essa grossa aliança, nunca poderás descobrir!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O dinheiro deles?

Ouvi, há pouco, nas notícias, que entre os clientes do BPN lesados com a conhecida situação de insolvência, se encontram membros do governo angolano, os quais investiram milhares de euros em fundos de retorno absoluto, e nada sabem do seu dinheiro há meses.
Fiquei desolada. Pobres membros do governo angolano! Anda um homem a trabalhar arduamente no desenvolvimento de um país africano, para depois lhe roubarem o que é seu!
E perguntei-me logo: quanto ganhará um membro do governo angolano? E poderão envolver-se em negociatas? Sejamos claros, onde é que vão arranjar milhões de euros para investir tão confortavelmente? Aquilo serão tudo heranças? Cá em Portugal, por exemplo, há muito político que de vez em quando recebe quantias avultadas em heranças dos avós!
Como é óbvio, não estou à espera que as instituições governamentais angolanas tomem a iniciativa de investigar de onde vêm estes dinheiros. É capaz de não lhes dar jeito, e o Orçamento de Estado não suportaria os encargos com uma comissão de inquérito à corrupção, tráfico de influências e outros tráficos. Mas talvez algum dos(as) leitores(as) possa informar-me sobre a existência de um organismo internacional com poder para se imiscuir nos esquemas de um país como Angola, e descobrir como é que numa terra onde tantos comem e dormem no chão, uns poucos investem milhões em bancos manhosos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Se fossem todos à merda....

Há dias em que tenho saudades de ser velha. Gostava de me levantar tarde e mal disposta - bem, isso não seria novidade... mas levantar-me tarde e mal disposta e mandar todos à merda, porque os velhos podem mandar todos à merda. Ah, estás gorda! Vai à merda! Ah, estás despenteada, pareces uma mulher das barracas! Vai à merda! Ah, essa blusa fica-te mal porque está muito apertada ou muito larga! Vai à merda! O que eu queria era deixar-me andar por casa a ler, escrever e petiscar, e só saísse se tivesse mesmo de ser. E se fosse para sair, que não tentassem levar-me para as salas muito puras que não quero frequentar, como as que existem nas honestas casa de família, e coisa assim.
Fazer sala?! Fossem à merda! O que eu havia de querer era cinemas e teatro e danças e antiquário e alfarrabista e lojas de roupa para velhas gaiteiras, e sentar-me nos bancos de jardim com passarinhos aceitando as minhas migalhinhas, e falar com os cães na via pública, e ocupar espaço em cafés sem música nem tv, só com pessoas dedicadas a ler o jornal, a resolver palavras cruzadas ou jogando às damas, entre outros. Que não se metessem comigo, mas me deixassem ouvir conversas interessantes. Se não fosse exigir muito, conversas bonitas. Queria ser velha sabendo que ia morrer, mas que isso não era urgente nem deixava de ser. E que, até lá, tinha todo o tempo para ser livre como nunca foi possível - consciente de que tinha sido infinitamente mais livre que muitos! Queria ser velha para ser livre, para ser muito mais livre, de preferência a liberdade toda, e usar uns chapéus que tenho cá em casa, e que certas pessoas dizem que me ficam ridículos... Se fossem todas sucessivamente direitinhas à merda....

domingo, 4 de outubro de 2009

Barriga do antebraço II

Que memória tão curta! Que injusta sou! É evidente que já muitos acariciaram a barriga do meu antebraço. As massagistas dos diversos spas que tenho frequentado, que são uns amores. O fisioterapeuta. O endireita. A técnica de análises que me tira o sangue lá em baixo na Piedade. A minha mãe quando eu era pequena, quero acreditar, nem que fosse só para me dizer, estás negra de sujidade. O meu pai, embora não me lembre, mas isso é porque estavamos sempre a fazer festas um ao outro. A Morena e a Micas. Tenho a certeza que ambas já me lamberam a barriga do antebraço. A água do chuveiro, escorrendo ao longo do meu corpo, e também a água do mar e da piscina. E eu, claro, sempre eu.

sábado, 3 de outubro de 2009

Barriga do antebraço

Acordei, virei-me para o lado direito e estendi o braço. A Morena não estava lá. Mexi as pernas; não a senti ao fundo da cama. Devia ter sentido calor durante a noite e procurado o chão.
Muito sonolenta, esfreguei a barriga do meu antebraço estendido. Era bom. A minha mão gostou de sentir o antebraço macio e o meu antebraço gostou de sentir a mão morna e lenta. Foi uma carícia sensual. Foi um gesto de ternura.
Acho que nunca acariciaram a barriga do meu antebraço e, francamente, não sei dizer se alguma vez acariciaram parte alguma do meu corpo. Digo acariciar, e é mesmo só isso que quero dizer.

Má índole

Tenho alguma paciência para os malucos, emendo, para aqueles que padecem de certas doenças psiquiátricas.
Entendo perfeitamente os psicótico-delirantes, os maníaco-depressivos e os paranóico-obsessivos. O stress é tramado, e a química neuronal, a mais ou a menos. Chego a dar o desconto aos esquizofrénicos. Se não ultrapassar um par de horas, vá lá, até sou capaz de os segurar, havendo calma.
O que realmente não suporto mesmo, e de certa forma me incapacita muito, nos dias de hoje, é gente malcriada, caloteira e má por vocação. Sobretudo os últimos, porque são capazes de enferrujar o mais claro céu vespertino no acto de o fisgarem pelo canto do olho maligno, e olham sempre assim, com a visão muito esquerdina. Para esses não encontro nem paciência nem remédio.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

E o próximo Ministro da Educação é...

Ontem foi um dia divertido. Ri-me de manhã à noite, e começou tudo com a minha mãe, quando me anunciou que a próxima ministra da Educação seria "aquela rapariga que escreve livros para crianças e que deu muito apoio ao Socas na fase final da campanha". A Isabel Alçada? Que sim. Ri-me, claro, uma pessoa tem que se rir ao imaginar a Isabel Alçada ministra.
À tarde, a minha prima afastada enviou-me um mail, um bocado assustada, porque tinha ouvido dizer que a próxima ministra da Educação seria a Directora Regional de Educação da Zona Norte, a inolvidável Margarida Moreira. Ri-me. Uma pessoa tem de se rir quando lhe comunicam a eventualidade de uma substituição que poderia levar os professores a sentir saudades de Maria de Lurdes Rodrigues.
Mas a notícia mais divertida chegou depois do telejornal, pelo telefone. Uma colega da fábrica dizia-me, "Ó Isabela, olha que consta, ouve-se dizer pelos corredores, que o próximo ministro da Educação será o Augusto Santos Silva, o que é que achas?". Não lhe consegui responder nada de jeito. Tive dificuldade em controlar a risota. O Augusto Santos Silva! Lindo remendo! Até me vou deitar mais cedo, porque dizem que para combater a insónia, devemos deitar-nos de cabeça leve, de preferência depois de ouvir uma boa anedota. E por isso vou aproveitar.

Imagem aqui.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Quanto custa o tal 2666?

Também sou bloguista, e portanto também quero entrar na polémica blogosférica que rodeia o recentemente traduzido 2666, de Roberto Bolano.
Para começar, parece-me muito bem que Soraia Chaves tenha sido convidada para ler excertos da obra no seu lançamento, e que se distribuíssem croquetes e margueritas entre leituras. Seja a obra realmente interessante e não há croquete nem coqueteile capaz de lhe manchar a moral.
Se para o lançamento do meu caderninho me dessem a escolher entre excertos lidos pela Soraia Chaves ou por um conceituado crítico da praça, escolheria a Soraia sem hesitações. Primeiro, porque é gira. Segundo, porque sendo assim tão gira reuniria as condições necessárias para me ajudar a vender a primeira edição logo no lançamento (falarei sobre o assunto com o meu agente).
Também não me incomoda ler uma obra que está na moda e já passou pela vista de 11 milhões de leitores. É verdade que não li certos títulos que compõem a memória literária da humanidade, e constam de todas as listas de mesa de cabeceira de letrados assumidos, títulos esses que me absterei de revelar, tentando não me afundar ainda mais no submundo da marginalidade literária, mas há uma explicação: não li porque eram uma seca!
Portanto, a questão determinante, no meu caso, a que decidirá se lerei o livro, e quando, explica-se rapidamente: quanto é que a coisa custa?

A minha pasta vermelha

Algumas pessoas pensarão que eu levo uma monótona vida de solteirona, casa, esplanada, mãe velhota, cadelas, prima afastada, monitora da hidroginástica, colegas da fábrica, agente literário... Não é verdade! Embora admita que não parece, vivo um quotidiano frenético, envolvente e excitante.
Hoje, por exemplo, fui à advogada tratar de assunto de suma importância para o desenvolvimento de certas áreas do nosso País.
Ora, tal como Barak Obama, também tenho uma pasta vermelha repleta de assuntos quentes. Uma verdadeira pasta vermelha cheia de papelada. Não sei como é a dele, mas a minha foi comprada no Jumbo, toda em plástico, do melhor que a indústria nacional produz, e com mais de duzentas micas interiores onde posso colocar e proteger cada folhinha do meu importante dossier quente.
Levei a pasta vermelha para a consulta da advogada e coloquei-a em cima da sua secretária enquanto aguardava que acabasse uma anotação e pudesse atender-me. Quando esse momento chegou, a Doutora Marcela, antes sequer de me perguntar ao que ia, puxou para si a minha pasta e eis que a abre na primeira página, perante a minha incredulidade e surpresa, visualizando o primeiro documento, que nada tinha a ver com a questão que ali me levava.
Abri muito os olhos, e disse-lhe, isso são outras coisas, enquanto trazia de volta a mim aquilo que me pertencia.
A Doutora Marcela olhou-me, finalmente, e perguntou, então o que a traz cá? Nesse momento abri legitimamente a pasta, folheei-a demoramente - para lhe dar a entender... - e tirei os documentos relevantes para o caso, enquanto explicava o que ali me tinha levado.
O resto da consulta correu normalmente e penso ter dado início, com sucesso, ao que pretendia iniciar.
O meu problema, agora, é que não sei se deva arranjar outra advogada que possa tratar eficazmente de um segundo processo que gostaria de instaurar à Doutora Marcela, por tentativa de violação de documentos privados e atropelo deontológico. Mas o pior é que não tenho testemunhas.

Do Presidente da República

As pessoas têm aquele defeitozinho de esperar sempre mais do que lhes dão. Queriam que Cavaco se explicasse melhor, que dissesse mais do que disse, que falasse aberta e claramente, mas o senhor, coitado, faz o melhor que pode, e estão ali muitos euros em terapia da fala.
Neste caso do Presidente da República, nunca se chegará a saber se o seu pronunciamento de anteontem foi um momento de estratégia ou de autenticidade. Atrevo-me a afirmar tal coisa, porque o ouço há uns bons 20 anos, e não me lembro, em momento algum, de o ter ouvido falar claramente, sendo que até não sou má em interpretação retórica.
O milagre, para mim, foi que o tenham eleito para o cargo sem que ele possua a capacidade para expressar ideias de forma inequívoca. Isso é que me deixa insone.

Dou-te um tiro no pé e a seguir tu dás-me um tiro no pé

Embora seja muito devota da participação em sufrágios, confesso-me incapaz de conceber uma nova ida às urnas dentro de dez dias. Meus amigos, eu ainda nem comecei a recuperar do último renhido e sofrido momento eleitoral.
Pergunto-me de onde é que saiu esta linda ideia do encavalgamento de eleições?! Agradeço que não me venham dizer que foi o Presidente da República, condicionado pelo Governo. Ou o Governo, tentando pressionar o PR. As pessoas sabem o que fazem. Existe uma enorme cooperação institucional. Isto deve ter sido tudo muito bem pensado.