segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Brancos negros e negros brancos

Paulo Serôdio, afro-americano


Apanhei uma aluna muito negra explicando à colega que era francesa. Apanhei a colega, igualmente negra, respondendo-lhe, pois, pois, tens mesmo cara disso!
O assunto interessou-me, pelo que interferi. Perguntei à segunda, acha que não existem franceses negros? Respondeu-me que sim, que havia, claro.
E suecos, continuei eu, acha que existem negros suecos?
Também.
E portugueses?
Ah, portugueses, ela tinha a certeza absoluta. Havia muitos. Ela própria era portuguesa e negra.
Seguiu-se a questão para a qual estava a preparar terreno, e brancos, acha que há brancos africanos? Por exemplo, brancos guineenses, acha que há? Olhou para mim, fez uma pausa com cara de quem pensava "esta está-se a passar" e disse, sim, acho que sim.
Sorri-lhe e rematei, ok, ok, era só para saber a sua opinião.
Não foi inocente. Há uns tempos pediram-me que escrevesse sobre um branco moçambicano, radicado nos Estados Unidos, o qual pretende ser considerado afro-americano, uma vez que não se sente europeu, nem português. Contudo, tal desejo causou enorme ofensa entre os negros norte-americanos. [Creio que a esta altura deveria escrever, se estivesse nos Estados Unidos, entre os afro-americanos. Nos EUA não há negros, há afro-americanos. E um branco não pode declarar pertença africana.]
O moçambicano branco que se considera afro-americano teve problemas sérios na universidade onde tirava o seu curso, e foi impedido de se apresentar dessa forma. Processou a Universidade.

Ocorre-me que escritor e Prémio Nobel John Coetzee, nasceu, estudou e viveu na África do Sul até aos 22 anos, altura em que foi trabalhar para Inglaterra, passando depois pelos EUA, e regressando à África do Sul no ano 2000. Actualmente, vive na Austrália. Coetzee é branco. Mais branco do que eu, garanto. Será Coetzee um africano, um afro-australiano ou um anglo-africano? E nos EUA? Será que nos EUA se deverá proclamar anglo-australiano por ser branco?
Estas associações raça/nação parecem-me todas muito redutoras, e uma forma de racismo como outra qualquer. Não creio que a ideia política de negritude tenha algo a ganhar com restrições a uma pertença, seja de que raça for, à africanidade.

domingo, 29 de novembro de 2009

Big Brother no colégio

Foto: jornal i

Os melhores colégios de Lisboa, católicos, permitem que uma produtora de vídeo frequente as suas instalações a fim de gravar anuários dos alunos, com autorização dos pais. Li isto há umas semanas, no i. Filmam as crianças nas aulas, excepto nas de Português e Matemática - calculo que a professora de Geografia deva adorar! Filmam-nas também no recreio, em animado convívio com os coleguinhas, na cantina e por aí fora. Realizam sessões Big Brother. Julgo que não o façam quando os juvenis se juntam atrás do pavilhão D para fumar às escondidas, ou noutras acções menos próprias que cabe a todos realizar, embora os papás não apreciem. Confesso não saber se nos melhores colégios católicos de Lisboa existem pavilhões D. Se calhar, não. No meio desta febre documental, outras pessoas que não deram autorização alguma são igualmente apanhadas, como as freirinhas, os professores, as senhoras da limpeza, e as outras crianças, cujos pais, eventualmente, discordem de tais processos de registo.
A empresa defende que os progenitores gostam muito dos seus dvds a 30 euros a unidade, até porque não têm ideia sobre como decorre o dia-a-dia dos filhos no colégio. Compreende-se que uma pessoa goste de saber como gasta os seus milhares de euros anuais. Afinal, o que fazem a Leonor Augusta e o Dinis Afonso nos momentos em que a criadagem da casa não lhes refreia os ímpetos?
Tendo a noção que cada um têm o direito a gastar os seus euros como bem entende, penso que devem existir alguns limites éticos relativamente ao que se compra e vende. Eu não gostaria de ter sido filmada na escola, quando fui aluna. Não gostaria que os meus pais tivessem dado autorização para tal. Não suporto que me espreitem, que me vigiem. Tenho o hábito de sair das lojas nas quais percebo que estou a ser vigiada. Parece-me coisa de muito mau gosto. Não tolero essa desconfiança generalizada. Defendo que temos, enquanto crianças ou pessoas adultas, o direito à privacidade, pelo que não compreendo esta obsessão com a imagem, este objectivo maior, que se gerou na sociedade, e leva os seus elementos a desejar transformar as suas vidas num episódio da novela "Morangos com Açúcar".

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Uma princesa na picada

Começamos muito cedo a ser nós. Por isso, sei o que estava a pensar neste momento. Aquela menina ainda cá está. O crescimento foi realizando o seu trabalho inevitável, mas eu, a forma como penso os meus pensamentos, como sinto o mundo, como tenho a consciência do que acabei de pensar e sentir, é a mesma. Por muito estranha que me pareça a figura daquele ser tão pequeno, tão louro e tão magro, partilhamos a mesma alma indivisível.
Não me lembro do local concreto onde tirámos esta foto, mas sei que era domingo. A minha mãe só me calçava sapatos de verniz ao domingo. Queriam tirar-me fotografias ao sol, e eu não conseguia enfrentá-lo. "Olha para cima! Não desvies a cara! Não feches os olhos! Levanta a cabeça, rapariga!" Não era uma sessão fotográfica, mas uma tortura. Tripla. Primeiro, a obrigação de enfrentar o sol, que continua a ser impossível. Segundo, o vestido de tule, um tecido duro, que armava, que me picava os braços e as pernas. Terceiro, os sapatos de verniz, fechados, com meias de lã. Por cima de tudo aquilo, um calor húmido na ordem dos 36 graus.
Por que me faziam aquilo? Porque eu era uma menina de bem, de boas famílias. Porque eles não tinham tido direito a tule, sapatos de verniz nem fotografias. Porque as fotografias serviam para se mostrar, e então que se mostrasse algo faustoso; uma princesa. Uma princesa na picada. Não existem por ali palácios nem jardins. É uma picada rodeada de mato. Um desvio. A estrada para a casa de algum machambeiro. E, no meio da picada, a princesa de tule. Julgo que os portugueses sentiram a pulsão de vestir África inteira de tule, e calçá-la com sapatos de verniz. E esse foi um dos erros. Aquilo era bom, mas era bom porque estava nu.
Aos domingos, oferecia-me ao sacrifício. Sabia que era temporário. Sabia que um dia seria adulta e haveria de me livrar deles, das fotografias. Quando fosse adulta ia estar sozinha na minha casa e ninguém entraria para me chatear, e só faria o que valesse a pena. Pensava isto exactamente como estou a escrevê-lo. A minha alma é ainda a mesma.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Aproveitar a oportunidade

Tenho recebido muita correspondência, e alguma muito interessante. Gostei muito de ler a carta de Berta Neto, na qual descreve uma visita relativamente recente que fez ao Maputo. Transcrevo:

Foi a minha primeira vez em África. Nunca me senti muito atraída por este continente, mas lá tive de ir a um congresso de engenheiros, um daqueles encontros ditos "científicos" recheado de eventos sociais e com imenso tempo livre. A viagem foi longa com uma escala interminável em Joanesburgo e quando cheguei a Maputo estava em tal desalinho que não sabia em que terra estava. Só quando pisei o chão, é que pensei "estou em África" e agucei os sentidos para me forçar a perceber as diferenças. E eram muitas. O caos era total. Nada funcionava, era preciso ir improvisando. Ia distribuindo euros por pequenos favores. Dirigiam-me tratamentos estranhos "senhora" "mãezinha" que sabia serem interesseiros mas de que no fundo gostava. Ia observando as pessoas, a forma como se comportavam, mas à minha beira perdiam a naturalidade. Ficava triste com isso porque sentia uma rara afinidade com aquele lugar, mas tudo me recordava que não pertencia ali. Quando fui tomar banho na baía de Maputo, a minha branquidão sobressaiu no meio de toda aquela gente preta. As crianças riam-se e apontavam. Foi engraçado. Todos os dias, lia os jornais para perceber as coisas por lá, queria integrar-me. Fui reparando que as pessoas não se queixam muito, vivem a vida com o que têm. Agarram as oportunidades quando elas aparecem. Um dia, rebentou uma conduta de água no meio da rua e os transeuntes foram logo buscar roupa a casa que lavaram ali no passeio. Houve até quem tomasse banho. Os meus colegas lamentaram imediatamente a pobreza, mas eu achei que as pessoas souberam aproveitar a oportunidade. Se estivesse no lugar deles, acho que fazia o mesmo.


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O que os portugueses pensam realmente sobre o arquivamento das escutas Sócrates-Vara


A Justiça pode ser a Justiça, mas a voz da minha mãe é a voz do povo. Quando a minha mãe abre a boca, não é ela que fala, é Portugal inteiro.
A conversa, ontem, foi assim, e foi curta, porque me larguei a rir e depois já não havia nada a dizer:
- Então, mãe, já viste; o Sócrates lá se safou outra vez, que os juízes já mandaram arquivar as escutas!
- Oh, filha, eles comem todos do mesmo tacho!

domingo, 22 de novembro de 2009

O prédio do Alto-Maé

Esta foto foi tirada pelo meu pai por volta de 1960. Penso que esta era a vista da Pinheiro Chagas, ao Alto-Maé, junto do cinema Infante. A imagem foi registada do terraço de um prédio cujo frente dava para o Jardim 28 de Maio. O prédio da Somac, uma empresa de peças de automóvel. Se não era Somac, seria qualquer outro nome muito parecido. Era um prédio relativamente bem frequentado pela classe média de diversas raças. Não me lembro se havia negros, mas é muito provável que existissem mulatos. Todas as flats eram alugadas, e eu morei no sétimo andar, a certa altura. No 6º, morava o juiz Muge, pai das irmãs Muge; uma delas a Amélia Muge, compositora e intérprete que vamos escutando. Perdia-me a espreitar as irmãs Muge namorando nas escadas. Não sei se elas alguma vez perceberam, mas foi a primeira vez que vi alguém namorar e dar um beijo.
Há nos Cadernos uma personagem deste prédio. É o preto Manjacaze, criado do prédio Lobato, que esvaziava os caixotes do lixo dos inquilinos. Lembro-me muitas vezes do Manjacaze, de quem o meu pai gostava muito, porque, dizia, era um preto bom. Não sei se era um preto bom. À distância tenho muita dificuldade em distinguir bondade e obediência. Seja como for, eu gostava do Manjacaze, que ia comigo no elevador e tinha um sorriso bonito. É provável que ainda esteja vivo. Deveria ser da idade dos meus pais ou pouco mais velho. Não se chamava Manjacaze. Optei por lhe dar este nome no livro porque era um homem alto e magro, e de alguma forma evocava em mim o famoso gigante moçambicano: o gigante Manjacaze.

Nota - Ocorreu-me agora: a foto da menina loura com cão, na capa do livro, também foi tirada pelo meu pai nesse tal jardim 28 de Maio.

sábado, 21 de novembro de 2009

Debaixo da terra abaixo do Sol

Bichos, 2009 [imagem obtida fotografando um vídeo visionado no computador]

Estamos sozinhos e tomamos conta do nosso corpo e consciência. É preciso estar atento, porque ninguém olha por nós. Somos a nossa própria defesa e garantia. Não existe uma alma a quem possamos interessar. A questão é que não valemos nada. Se valêssemos, alguém nos teria deitado a mão, ou não é verdade?! Tinham-nos puxado por um braço e dito, "acolhe-te aqui". Por isso, convém não fazer ondas, ir aguentando, comendo, fazendo o que nos mandam, o que esperam de nós, calar as infâmias, passar despercebido, caminhando rente às paredes, em público e em privado. Somos como os bichos e sentimo-nos próximos deles; compreendemos a sua destituição. Quem haveria de querer escutar-nos?! Somos zeros. Não temos voz. Vivemos porque respiramos, e isso não nos podem tirar. O corpo aguenta e a alma há-de resistir. A bem ou a mal há-de sair com vida, embora não ilesa. Ilesa é impossível, porque entretanto se quebrou. Sim, sim, qualquer coisa já não é o que era. Soltou-se uma peça, algures; sentimo-la chocalhar no estômago vazio. É engraçado como perdemos o medo no auge do perigo. O medo tem o seu lugar se ainda formos alguém, se ainda tivermos valor. Mas vamos percebendo devagarinho que não há lugar para nós dentro dos outros nem nos sítios por onde passamos. Medo de quê?! Quem é toda essa gente?! Que importância tem este lugar concreto ou aquele?! Existimos debaixo da terra abaixo do Sol. Havemos de escavar um túnel até à luz, mas agora não. Agora é cedo. Esperamos com paciência e força. Não temos lugar, ponto final, não precisamos que nos expliquem. Não temos e mesmo que um dia possa aparecer um cantinho qualquer, sabe-se lá onde, já não caberemos.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Colonizada



Já houve quem me escrevesse perguntando se gosto da frase final que remata a apresentação do livro. "É possível descolonizar um país, mas é impossível descolonizar uma alma".
Confesso que comecei por estranhá-la, por constituir uma visão de fora, mas com os dias, conforme a vou relendo, tenho vindo a percebê-la. Aquela frase reflecte-me?
Vejamos este exemplo: escrevi a um amigo com imensos contactos em Angola e Moçambique, pedindo-lhe que tentasse divulgar a existência do livro nesses países. Gostava de ser lida em África; tenho este fetiche. Gostava que os africanos pudessem conhecer o que representou todo aquele processo para alguém que não tinha culpas directas no cartório da sua repressão, mas que se viu envolvido no tumulto, atravessando grande injustiça e violência como incauta testemunha. É provável que não gostem do que escrevo, como muitos retornados (aqui e lá) não gostarão, mas aquelas são as minhas vivências, e é indiscutível, para quem me rodeia e me conhece, que sou uma mulher profundamente marcada pelo facto de ter nascido e vivido em Moçambique até ao início da adolescência. Sou isso. Essa personalidade de linha de fronteira que só pode sentir-se quase aquilo, e nunca o absoluto dessa substância. E talvez este livro tenha servido como catarse dessa impossibilidade de pertencer totalmente a um lugar, a uma pessoa, a uma só ideia, que me perseguiu desde então.
Ao escrever ao meu amigo com contactos africanos, disse-lhe algo como, "olha, vê lá se divulgas isto ao pessoal que conheces nas colónias". E escrevi-o com a maior naturalidade. Nada me pareceu incorrecto nesta frase. Enviei o emaile, e só o reli quando veio a resposta. Deparei-me com o vocábulo "colónias" e ainda pensei em enviar-lhe uma errata do género, "onde se lê colónias, deves ler ex-colónias". Mas depois pensei que não. Seria melhor não dar relevância ao assunto, podia ser que lhe tivesse passado. Até agora não se acusou.
Mas fiquei a pensar. Caramba, digam-me lá se isto não é uma alma colonizada até ao tutano? E não é por mal. Eu quero muito que as ex-colónias vivam cada vez melhor sem nós. Há neste desejo uma enorme sinceridade e muita emoção envolvida. Contudo, sinto um interesse pela realidade dos países que foram colónias portuguesas que não se compara com o que me suscita os que foram colónias de outros. Tenho muita pena, mas o que se passa no Quénia e na Zâmbia interessa-me menos. Não possuo uma ligação emocional com esses lugares. A minha alma não está colonizada por eles. Eu não fui deles e eles não foram meus. Mas entre mim e Moçambique não há volta a dar, colonizámo-nos mutuamente, para a vida, como amores antigos.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

As tardes solarengas dão-me uma azia

A fala está para a língua como o casamento de homossexuais para a Igreja Católica. Não adianta travá-los, eles não têm limitações e só fazem o que lhes apetece.
Juro que nunca mais na minha vida vou emendar frases que contenham a expressão "tarde solarenga". Não vou emendar mental ou verbalmente para soalheira. Não vou repetir que o radical de solarenga é solar, mas solar-casa, não solar de sol. A fala tem sempre razão, tem a sua lógica, as suas estratégias de sobrevivência com o mínimo de esforço possível, e quem sou eu para contrariar essa ordem maior. Querem tarde solarenga, escrevam e digam tarde solarenga até se cansarem. Estou-me nas tintas. Arrumei as botas.

domingo, 15 de novembro de 2009

Frango assado com esparguete


Era o almoço de domingo. Frango assado com esparguete. A Mizé ia atirar o esparguete à parede. Ainda eram 10 da matina e já todas sabíamos. A Mizé, que comia na sala anexa, e cuja rebeldia a chefe de mesa não conseguia controlar, ia atirar o barro à parede.
Era uma novidade como outras. Novidade de colégio. De quem está encerrado. De quem não tem com que entreter o espírito. Por que é que elas não liam um livro, não faziam os trabalhos de casa, não davam explicações de Inglês à Luísa, com réguadas a sério, como eu fazia?!
Enfileirámos para almoçar no meio dum burburinho nervoso que as prefeitas não compreendiam. Estávamos com o diabo no corpo, diziam-nos. Eu nunca tinha o diabo no corpo, portanto não me servia a carapuça. Seguimos para o almoço, desejosas que servissem a sopa, e a retirassem, e que viesse o franguinho com o esparguete. Assistia a estas manifestações com uma superioridade curiosa. Queria ver o espectáculo, e, no entanto, lamentava que houvesse quem se prestasse a semelhante acto de rebeldia gratuita. Não gostavam, não comiam. E não gostavam porque eram finas. Coitadas. Se fossem filhas da minha mãe logo viam se não comiam. Se não gostavam.
As empregadas serviram o franguinho, e nada. A Mizé não tinha ousado. Ouvia risinhos na sala dela, mas nada fora do normal.
Foi na repetição. As senhoras da cozinha vieram de novo com os tabuleiros, começaram a repetir na minha sala. Já não havia pernas; só peitos. Esparguete, o que quiséssemos, e é nessa altura que a sala da Mizé rebenta em gargalhada. As meninas da minha mesa, e as das outras, levantaram-se e correram para a sala ao lado. Só as chefes permaneceram sentadas, deslocadas do ambiente geral. Umas queriam ir, também. Eu nunca iria. Eu não descia tão baixo. O espectáculo de uma miúda malcriada a atirar comida à parede...
A dona Perpétua chamou imediatamente a directora, enquanto o barulho progredia na sala e as empregadas pararam de servir. A directora interrompeu o próprio almoço, e entrou na sala de rompante. Silêncio profundo. Quando a dona Celene aparecia, havia uma solenidade, emendo, um medo! A dona Celene falava alto e grosso, embora tivesse uns olhos bons. Eu achava que tinha. A dona Celene ralhou especificamente com a Mizé, que mandou ir ter à sua sala no final do almoço, e deu um ralhete geral para as duas salas. Se não gostávamos da comida convinha lembrar que havia muita gente no mundo, e até em Portugal, que não tinha mais do que batatas. E batatas, com sorte. Comer só batatas?! Caramba, isso seria uma catástrofe. Mais valia o suicídio.
Eu, impassível. Sempre em ordem. Bata impecável. Lavada e penteada. Sentada na minha mesa como me competia. Estudiosa. Trabalhadora. Nada a apontar. Como é que elas se prestavam àquele sacrifício? E para quê? Eu não poderia dar esse desgosto aos meus pais nem aos meus professores. Não suportaria a decepção que sobre mim haveria de recair. Não queria chamar a atenção de ninguém. Só queria que me deixassem comer o meu esparguete em paz. O esparguete era delicioso. A meu ver não se atirava comida à parede. Não se era malcriado. Não se respondia aos mais velhos. Dizia-se "se faz favor" e "obrigada". A Mizé ia ser castigada. Quem, no seu perfeito juízo, oferecia o corpo ao castigo só para ser engraçada, para manifestar desagrado relativamente à comida? Então não seria melhor escrever uma carta à directora? Ou pedir para falar com o senhor Ilídio?
Não me passava pela cabeça que aquela era uma forma da Mizé se confirmar como líder para as outras. Era um ritual de acesso ao poder. Um poder transitório, efémero, mas o poder. Portanto, valia tudo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Nunca estive sozinha

Antes de sair de casa digo sempre, pronto, agora ficam aqui sossegadinhas a tomar conta da casa e uma da outra. A doninha vai trabalhar; vai ganhar dinheiro para comprar sacos de ração de dieta, paté de carne, pipetas para as pulgas, cápsulas e analgésicos para a artrite, vacinas e todas as outras coisas de que precisamos para viver.
Se não pudesse pronunciar todos os dias esta cantilena seria uma mulher muito mais triste.

Controlem essa mulher

No passado tinha sido uma pessoa agressiva e impaciente, mas havia mudado. Muito. De há uns anos a esta parte era uma paz de alma, compreensiva e tolerante.
Até que, de um dia para o outro, começou a marrar em tudo o que mexia; chamava cabrões, filhos-da-puta aos condutores dos outros veículos automóveis, chateava-a que as cadelas não andassem mais depressa, que as facas não cortassem, que o cabelo se despenteasse com o vento... Andava embirrenta. Tinha de admitir. Mas porquê? Setembro tinha começado tão bem. Outubro também. Estava tudo a correr sobre rodas. O quê, caramba?! Foi quando se lembrou que há duas semanas não tomava a sertralina. Tinha-se acabado, e esquecera-se de ir à farmácia convencer o farmacêutico a vender-lha sem receita - saía mais caro ir ao médico.
Resumindo, há pessoas a quem não pode faltar o quimicozinho para o resto da vida.

Quero pôr os meus sonhos no You Tube

No dia em que pudermos gravar digitalmente os sonhos que sonhamos à noite, poderemos editá-los em formato dvd, ou outro qualquer, e sermos cineastas mais aclamados que Tarantino ou Lynch. Sem trabalho de preparação e sem custos de produção, ideia que me parece absolutamente revolucionária.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Claro que também gostaria de ver a capa em maior

O meu agente mandou-me um emaile das Canárias, informando que o meu livro já está em pré-lançamento num site da internet. Parece. Perguntei-lhe o que era isso do pré-lançamento, mas não me respondeu, ainda, se calhar porque foi com de viagem com uma estagiária em técnicas de representação autoral, e deve estar em formação contínua.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A importância das ruínas

Tenho de viver com os muros que ergui, mesmo que já não dividam coisa alguma. Não posso derrubá-los. Estão demasiado vivos na minha memória. Tenho de acordar todos os dias no meio das ruínas desses edifícios nos quais já não vivo. É muito pedregulho, mas afasto-os do caminho e vou para o meio da rua como qualquer outra pessoa que acabou de afastar os seus.
Por uma questão prática, as pessoas e as nações devem trazer consigo as suas cicatrizes, seja qual for a profundidade. Não vale a pena gastar energias a extinguir aquilo que, mesmo extinto, ainda se alcança. Mais vale deixar ficar paredes rombas contra as quais nos possamos ainda atirar, e abraçar, de braços abertos, e chorar.

domingo, 8 de novembro de 2009

Imigração dos pássaros

Os homens do café Colina, chegando ao final de uma tarde de Domingo ventosa e molhada.
- Pá, olha ali, olha ali... (aponta para o céu).
- Ena, tanta nuvem negra! Em castelos.
- Não é isso. Olha os pássaros. Tanto pássaro!
- Então, é a imigração dos pássaros. Já começou o mau tempo e vão-se embora em imigração. Vão para África ou lá o que é.
- Pois é. Tens razão. Mas acho que nunca tinha visto tantos assim em imigração.

sábado, 7 de novembro de 2009

O clã

Pelas colunas dos comentadores políticos, a propósito do VaraGate, irrompem expressões como "o país surpreendeu-se com as dimensões de mais este caso de alegada corrupção", sendo que o substantivo corrupção surge sempre acompanhado do adjectivo alegada ou do advérbio alegadamente. A corrupção, no nosso país, mesmo que nos esborrache os sentidos todos, dificilmente passa de uma alegação.
Se calhar isto não interessa a ninguém, é só uma conversa cá com os meus botões, mas esclareço, seja como for: os casos de corrupção, e as dimensões dos casos de corrupção não me surpreendem, não me espantam, não me movem um milímetro. O que me espanta e surpreende e me leva às lágrimas é descobrir um político ou um empresário que lhe seja imune.
É público que em Portugal, políticos e empresários e presidentes de clubes de futebol e directores-gerais da administração pública são todos grandes amigos. Trocam números de telemóvel e usam-nos amiúde. Já o maile usam menos, porque o maile fica por aí escrito, mesmo que se apague dos discos do computador.
São amigos e não só: vieram das mesmas zonas do País ou de zonas limítrofes; andaram nas mesmas escolas; tiraram os mesmos cursos; passaram pelas mesmas empresas antes de chegarem àquelas onde estão; fazem parte de uma mesma rede de conhecidos; frequentam as mesmas festas e inaugurações. Eu só não diria que dormem todos com as mesmas mulheres, ou homens, porque isso é que já poderia ofender susceptibilidades.
O primeiro-ministro, por exemplo, tem um azar tremendo com as pessoas que conhece e com quem se dá. O magnífico reitor da universidade na qual se licenciou era de uma negligência administrativa aterradora; o primo que está na China a tornar-se mestre do kung fu fartou-se de usar o seu nome para conseguir negociatas; os amigos do partido, vêem-se envolvidos em casos de corrupção apanhados pela Lei. É preciso resistência para ir rasando tantas situações manhosas e permanecer incólume, de reputação intocada. É preciso ter as mãos muito lavadinhas, o que não é para todos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Todos os gritos pela liberdade

Na minha escola estão a construir um muro de Berlim. Aquilo dá trabalho. Todo feito em caixas de cartão pintadas e grafitadas com reproduções que existiram realmente no Muro. Havia colegas a trabalhar naquilo até às tantas da noite, e miúdos, voluntários, a reproduzir grafitis, todos contentes, com autorização para grafitar naquela parede todos os gritos pela liberdade. Vim para casa toda atravessada pelo Muro. Quero dizer, pelo tempo. Já tinha escutado e lido, por aí, de raspão, que a destruição do Muro de Berlim, e a mudança do mundo que implicou, faziam 20 anos, mas a mensagem ainda não me tinha verdadeiramente tocado. Ontem, tocou.

A queda do muro abriu as portas da Europa e uniu-a, mas também expôs as feridas que o comunismo tratara de camuflar. As que preexistiam e as que ele gerou. Tratou-se de um momento de libertação, de irreprimível mudança, e mudar é uma ideia especialmente produtiva. Mas esta mudança trouxe-nos também uma excessiva necessidade de protecção, que redundou num progressivo regresso a valores tradicionais, conservadores em algumas áreas da vida social e económica. A queda do comunismo [e, tal como era, ainda bem que caiu] mergulhou-nos num superavit de capitalismo, cujas consequências atravessamos no preciso momento. O nosso tempo de crise também será uma data histórica daqui a 20 anos.
Na prática, os regimes comunista e o fascismo capitalista pouco se distinguiram. Que diferenças existiam entre Portugal e a União Soviética dos anos 60? Bem, eles tinham educação para todos, é verdade, e aquecimento central gratuito em todos os edifícios urbanos. Mas o que fazer, depois, com a educação e o aquecimento, se não há liberdade de expressão nem de movimentos?! Quando estamos prisioneiros de um sistema?! De uma ideologia?! Eu preciso de liberdade para desejar viver. Pare desejar viver, não me enganei. Quanto mais livre sou, mais produzo, mais quero produzir. A liberdade acarinha-me.

Lembrar a queda do Muro é questionar o sistema no qual vivemos hoje e repensar a filosofia marxista. Não creio que o falhanço do comunismo tenha afectado a pureza do pensamento igualitário de Marx. Penso é que Marx teria de ser lido e adaptado à vida das nações, partindo-se de um caldo verdadeiramente democrático. Sem repressão. Sem medo. Sem corrupção. Sem troca de favores. E isso é que ninguém quer. Ninguém quer uma política limpa e justa. Ninguém imagina uma existência que não passe pela adoração ao dinheiro, mas o dinheiro, infelizmente, não é grande coisa. Pagamos todos muito caro por ele.

Com a espada sobre a cabeça

O homem foi mostrar-me a casa para alugar. Não é que queira realmente mudar de casa, e muito menos de bairro, é só aquela insatisfação... Só fui porque tinha marcado a visita, e, embora me tivesse arrependido, o homem não me largaria o telemóvel, e eu odeio o toque do telemóvel, e odeio que me telefonem a dizer que não atendo o telemóvel. Detesto conversas telefónicas e respectiva dependência e parafernália.
O homem foi mostrar-me a casa para alugar. Ao chegar, percebi-lhe a respiração, e achei que estava a meia hora de um ataque cardíaco. Ao telefone parecia-me ter uns 70 anos, ao vivo tinha 40 e tal. Gorducho, de bigode, com uma respiração acelerada, congestionada. Tinha dificuldade em andar. Subiu, gemendo, os cinco degraus de escadas. Mostrou-me a casa sentado. Fui circulando pelas tristes assoalhadas, enquanto me dizia, e como vê, todos os quartos têm guarda-roupa, e eu ouvia-o na cozinha, já não há casas desta qualidade por este preço. Resfolegava. Tive vontade de me sentar à sua frente e dizer-lhe, o senhor já percebeu que está à beira de um ataque cardíaco ou de um acidente vascular cerebral, não percebeu? Era óbvio que aquele corpo não aguentava muito mais. Mas seria impossível que ele não o soubesse, que o médico, a mulher, os filhos, os colegas não lho tivessem dito já. E ele ali andava, com a espada sobre a cabeça, já a roçar-lhe o cabelo. Sabendo, mas acreditando piamente que, com um bocado de sorte, não lhe aconteceria. Aos outros, sim. Agora, no seu caso?! Não, claro que não! Foi neste momento que me revi nele. Uma parte de mim também sabe que se não mudar, morre amanhã. E resiste. Sabe, mas resiste.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Viver com os outros

Os outros julgam-me a partir da minha aparência, realizando um juízo de valores no qual eu sou "assim"; eu julgo os outros pela sua aparência, e no meu juízo de valores considero, naturalmente, que são "assado". Ninguém quer verdadeiramente falar comigo, conhecer-me, saber quem sou para além do que pareço, nem eu desejo, efectivamente, dar-me ao trabalho de penetrar na essência profunda de ninguém. Portanto, nem os outros me conhecem, nem eu os conheço. Ninguém conhece ninguém. Conhecer os outros, saber quem são?! É incerto. Perigoso. Nunca se sabe. É muito mais confortável continuarmos certos de que estamos certos, e distantes, para sempre, de quem possa aparecer para questionar tanta certeza.

domingo, 1 de novembro de 2009

Bibelô

Se pudesse, abriria a porta da tua casa, entraria, e deixar-me-ia estar por aí sentada numa divisão qualquer, mesmo que tu não estivesses. Não incomodaria. Não interpelaria ninguém. Quando chegasses, não precisavas sequer de reparar em mim, desde que me fosse concedida a possibilidade, agora impossível, de olhar para ti, para a tua pasta, os teus cadernos, a roupa de andar por casa. Desde que pudesse ver-te passar a mão pelo crânio, coçar a barba, assoar o nariz, arranhar as costas com uma mãozinha de madeira que o teu pai te trouxe do Alentejo. Queria só estar mais perto de ti, como um bibelô com faro.