Sábado, 25 de Setembro de 2010

Apologia da pornografia em horário nobre

Ao sábado, o i traz uma coluna de opinião da autoria de José Couto Nogueira, que não sei quem é, mas também não vem ao caso. São quatro colunas de texto, e penso que devem pagar-lhe para as escrever.
Esta semana, a questão da leitora Marta é a seguinte: o marido é viciado em pornografia; para além disso, quando estão a fazer amor chama-lhe o nome das ex-namoradas, e sente-se incomodada. O que fazer?
José Couto Nogueira começa por lhe explicar que 99 por cento dos homens consome pornografia, não porque esteja insatisfeito com as mulheres, mas porque "para lá do entretenimento que possa proporcionar a quem a aprecia, a pornografia é vista como um escape saudável para as diversas tendências e preferências da líbido de pessoas normais".
Também esclarece o cronista que um homem pode não se sentir à vontade "para partilhar essas manias com quem partilha cama e mesa", sendo que a Marta tem duas opções: primeira, compra uma fatiota de enfermeira e um chicote, e pode ser que "ainda lhe tome o gosto"; segunda, ignora o assunto para não "estragar o relacionamento com uma devassa da sua intimidade que o pode deixar constrangido e envergonhado".
Para levar que o marido "se esqueça de vez dessas cabras que lhe iluminavam o passado", Marta terá de estar mais presente e ser mais sedutora. Uma das formas para o conseguir será "aprender alguma coisa com os filmes pornográficos".
Tive saudades do consultório sexual da Maria, no qual alguém aconselharia, a certa altura, "se não se sentir à vontade, fale com ele/ela". Pelo menos não se faria a apologia descarada da pornografia, como se cada vídeo não passasse de uma saudável aula de educação sexual.
Eu sei que sou muito antiquada, com muitos preconceitos, mas nunca me tinha apercebido de que se aprendia sexualidade com a pornografia. Sempre vi essas imagens como uma espécie de arte circense nua, com atletas bem treinados, realizando acrobacias. E desde que as realizem entre adultos e indivíduos racionais, capazes de consentir, não meto aí o bedelho.
Mas agora percebo por que motivo os pais se preocupam tanto com a educação sexual nas escolas. Às tantas, seguindo esta ideia de que a pornografia é entretenimento educativo, começo a compreender que a senhora dona Maria Teresa não esteja mesmo nada interessada em que o Tiago Marcelo vá para a escola visionar o famoso "Brunaça, Enfermeira do Turno da Noite.
Eu cá não tenho marido, portanto não posso compreender este problema, dirão. Posso, posso, e tenho solução. Se me calhasse na lotaria um maridinho irremediavelmente viciado em pornografia, comprava-lhe uns patins em linha com gps codificado para casa da mamã ou da ex-namorada ou do colega do trabalho, e sem coordenadas para o regresso.
Não me querem também pagar uma coluna semanal, numa revista para freiras, por exemplo, onde possa igualmente debitar as minhas opiniões moralistas e desajustadas, em nome do contraditório ou do livre pensamento?