sábado, 27 de fevereiro de 2010

Voyeuse

À minha volta, no café, um rapaz homossexual, nos seus vinte e tal, bonito, enérgico, narrava as injustiças e coscuvilhices do trabalho a um primo ou irmão, enquanto a mãe e avó escutavam sem intervir.
Na sua empresa não se respeita ninguém. Chamam-se as pessoas ao gabinete e diz-se-lhes, não precisamos mais de si, amanhã já não vem. Fizeram-no, esta semana a um senhor que lá trabalhava há 16 anos e realizava tarefas relacionadas com o serviço de fora, pagamento de contas, ctt, etc. Como puderam?!
A chefe ganha 2500 euros. Chama-se Cátia, e também ouvi o apelido, mas convém omitir. E ele repetia, 2500 euros, 2500 euros para estar ali sentada a despedir e a ser desagradável com toda a gente?! Deve fazer muito ioga a seguir. Concordo, absolutamente. Simpatizei com ele, com a sua indignação, a sua energia. Precisamos de muitos refilões laborais em Portugal, país claramente deficitário nesta área.
Ao fundo, um casal de senhores mais velhos. Ele, arranjado. Ela, uma Marilyn Monroe, mais loura que eu, acabada de sair do cabeleireiro com um penteado lindo, como gosto, meio despenteado. Ele fez-lhe uma festa na cara. Ela agarrou-lhe a mão, sorriu e evitou outras manifestações públicas de afecto.
Mais perto, a rapariga mais linda do mundo com o namorado. Loura escura, com os olhos azuis-escuros, a pele muito branca, e traços de rosto de um classicismo invulgar. Não conseguia desviar os olhos do seu rosto. Uma estátua de beleza. Uma estátua má, caprichosa, arrogante, implicando com o rapaz. Ele deu-lhe um beijo, tentando quebrá-la. Não conseguiu.
Talvez ser muito bonito não favoreça a formação do carácter. Fiquei pensativa. Ter tudo invalida a experiência de uma humanidade diversa? E os ricos, autorizados a nascer feios? Esses, por outro lado, podem formar o carácter pagando uma bela educação. Os príncipes fazem experiências de vida junto de populações carenciadas, ajudam a construir escolas e casas nas zonas rurais da Colômbia, carregando baldes de massa e pedra. Não sei se lhes faz bem. Ser bonito e rico, por esta lógica, seria o Inferno da desumanidade.
Muito perto de mim, um casal de trinta anos com uma filha muito querida. Ele, com ares de tuningue. Ela, com as mamas ao léu. Umas belíssimas mamas, note-se. Não tinha frio. Era feiazinha, mas com aquele aparato mamário quem é que reparava?! Tive de me controlar muito para não olhar exageradamente.
Olho muito. Estou sempre a olhar muito.
No Inverno a esplanada raramente funciona. Sinto a falta das meninas debaixo da mesa. Lá dentro é confortável, mas estou mais sozinha. Tenho saudades dos tempos em que nos deixavam levar os cães para dentro dos cafés. Toda a gente tinha a ganhar, porque os cães são a mais doce das companhias.

Micas

Eu chorava, chorava, como toda a gente sabe que choro, com umas lágrimas grossas que a Micas lambe quando a abraço, porque choro, choro com a cara ferrada no pêlo do seu pescoço, não me faltes, Micas, digo-lhe, e depois, quando cortar o estômago e não puder comer, nem me ocorrer lembrar isso, posso ainda embebedar-me até cair.

Namorar

Agora existem os centros comerciais, onde os namorados podem escolher abrigar-se para namorar nos dias de chuva e tempestade. Podem beijar-se no meio da multidão.Ninguém repara. Se o segurança não der por nada, podem esmagar-se contra uma parede discreta.
No meu tempo, íamos para a Costa da Caparica fazer amor de Inverno. E discutíamos a inevitabilidade da queda do comunismo em snacks de terceira categoria, entre homens que bebiam, como eles diziam, apiritivos. E foram grandes tempos de amor escondido.

Quantos textos sobre aborto escreverei no futuro?

Mais reacções, etc., etc. A Isabela isto, o Caderno aquilo. O pior é o textozinho do aborto. Eis um assunto sobre o qual deveria ser proibido escrever. Nada de abortos nem herpes labial e muito menos o vírus do papiloma humano. Mais vale descrever como se mata um porco ou degola uma cabra. Isso sim, é a natureza, e tem uma beleza selvagem. Um aborto espontâneo não, porque arrepia, e é um assunto de mulheres e ginecologistas. Façam um blogue de senhoras e escrevam lá sobre esses assuntos. Nos blogues de senhoras.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ensurdecendo 2

Outro favor que a TVI me fazia era banir as campainhas nas telenovelas: das portas e dos telefones.
E impedir que os argumentos incluíssem expressão de emoções como rir, chorar, gemer, gargalhar, lamentar-se, zangar-se, chamar alto...
O ideal seria mesmo gravar aquilo em mudo e pôr legendas. Nem imaginam o jeito que me dava.

Secar a roupa

O que me tem valido para secar a roupa tem sido um pequeno radiador a óleo que regulo para o mínimo, com os lençóis por cima, sem tapar a zona onde se lê, não cobrir este radiador.
O meu radiador faz-me lembrar uns suportes para toalhas, aquecidos, que existiam na Suécia, em casa da minha amiga. Pousávamos neles a toalha molhada e uma hora depois estava sequinha. Embora tenha vindo do chão, aprecio certos confortos burgueses.

Ensurdecendo

Um grande favor que a TVI podia fazer-me, e que nada tem a ver com informação isenta, etc., era proibir que actrizes de voz aguda fossem escolhidas para integrar os elencos das novelas.
Desde que tenho a minha mãe cá em casa sinto que estou a ensurdecer.

Prótese nova

Tenho uns óculos novos com lentes progressivas para ver ao perto e ao longe. Disseram-me que ia ser preciso um estágio para conseguir usá-los; que teria grande dificuldade para me adaptar; que não virasse a cabeça de repente, que não olhasse de lado, que era melhor levar alguém comigo das primeiras vezes que saísse à rua, e que custava, mas convinha pensar neles como uma prótese, e uma prótese exige adaptação, mas compensa em qualidade de vida.
Vim para casa a pensar, estou lixada, então gastei 800 euros nisto e nem posso olhar de viés?! Coloquei-os em cima do nariz e, de repente, senti que Nosso Senhor tinha feito um milagre. Via. Quero dizer, via melhor que antes. Podia virar a cabeça e olhar de lado e não havia literalmente qualquer problema de adaptação. Conseguia lindamente ler as legendas da tv, tudo. O mundo renascia. E pensei que as pessoas não sabem o que é ser pitosga a serio. Os pitosgas não precisam de estágios oculares, precisam é de qualquer coisa que os ponha a ver.

Os meus novos óculos têm uma armação Versace. Eu não queria, porque sou contra a política das marcas. Pedi para ver das mais baratas, mas ficavam-me mal ou não serviam para lentes grossas. De maneira que ficaram as Versace. São bonitinhas, da cor do meu cabelo. Esqueçamos o preço. As lentes é que são poderosas. Pareço o Luiz Pacheco, mas em mais gordinho e mais bonito.

Não tenho coragem para ir com eles trabalhar, ao cinema, às entrevistas. Ainda não saíram do percurso do passeio das cadelas. Portanto, para todos os efeitos, excepto à noite, quando estou na intimidade da minha casinha, e de manhã, quando levo as meninas lá fora, continuo usando as lentes de contacto, sem ver um palmo à frente, e fingindo que consigo ler as inscrições nos placares.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Finish

Tem dores nos ossos, no fígado, no estômago e nos intestinos. Dói-lhe a cabeça. Não vê bem e ouve cada vez pior. Tem sonhos horríveis. Não consegue andar. Perdeu o apetite. Come muito pouco. Acabou de saborear uma pescadinha cozida com batatas e couve, ah, grande petisco, agora não sou capaz de comer isto tudo, se fosse antigamente... lambeu os beiços, pousou os talheres e pronunciou um sonoro, muito bem articulado, e pronto, finish.

Biscoitos para a Lili

A minha mãe pediu-me hoje que lhe comprasse daqueles biscoitos muito bons, os esses de Azeitão. Não é para ela, porque a ela qualquer pão seco lhe basta. É para a Lili, porque gosta de dar só uma pontinha à Lili todas as manhãs.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A bondade dos táxis

Levaram-me para a enfermaria de mulheres agarrada à barriga, às dores e aos suores frios. Pensava, nunca mais me meto nisto. Não aguento, paciência. Acabou-se. O útero ardia-me. Queimavam-mo com alguma coisa introduzida na confusão das sondas e exames. Acabou-se, acabou-se, repetia entre grossas lágrimas. E o outro lado do meu cérebro ripostava, como podes desistir?! Como podes esquecer o naco quente de amor que tanto desejas?! Então és das que desistem, das que não aguentam?! És fraca. Se não fosses fraca o teu corpo resistiria. O teu corpo que não vale nada, ao fim e ao cabo, que nem um filho segura na barriga. Amputada, o que vales tu, raio de mulher?!
Uma dúzia de horas após a minha entrada na urgência, tinham decidido tirar-me do corredor e mandar-me para uma cama na enfermaria, onde esperaria que o colo do útero dilatasse a ponto de expulsar sozinho o feto inviável, sem intervenção cirúrgica. Teria contracções durante a noite, como se me preparasse para parir, e de manhã o trabalho estaria naturalmente feito: um parto de postas de sangue, eu já sabia. Já não era o primeiro. Mas nunca foi assim, porque o meu corpo bastardo é muito agarrado à carne de que é feito.

Na enfermaria, duas velhotas esperavam ser histerectomizadas no dia seguinte. Conversavam animadamente sobre a felicidade de terem sido finalmente chamadas para irurgia. As miudezas só lhes davam trabalho.
Permanecia calada. Ouvia-as. Chorava. O lado bom e o lado mau do meu cérebro lutavam sem tréguas.

As senhoras queriam meter conversa, aproveitando a minha mudança de posição, com dores, para me perguntarem o que fazia ali uma mulher tão nova. Alguma laqueação de trompas?! Que ironia! Que vontade de rir me dava tudo aquilo, ao mesmo tempo. Contei-lhes. Não, um aborto espontâneo. O segundo em ano e meio. E a da ponta exclamou, com muita convicção, não volte a tentar. Já não tem idade para isso. Desista. Adopte. Há para aí tanta criança a precisar de pais.
Tentei afastar as suas palavras. Esquecê-las logo. Quem a mandou falar? Se pudesse ter evitado essa voz sibilina nos meus ouvidos. Não queria ouvir. Não havia alguém que me dissesse, tente outra vez, tente as vezes que forem necessárias. Tente, vai conseguir. A sua mãe não foi também assim? Tente, tente, tente.
Não diga essas coisas, ralhou a senhora da cama do meio com a da ponta. Já está nos 40, mas há muitas mulheres que têm filhos nessa idade. Ainda pode ter. Não desanime. E agradeci-lhe, de viva voz, mas sobretudo com o meu coração ferido. E a outra, céptica, insistindo, têm aos 40, mas não o primeiro. Quantas mulheres têm o primeiro filho aos… que idade é que a senhora tem? … aos 44? Pouquíssimas. E depois, há o problema das doenças. Nunca se sabe. Oh, minha senhora, faça o que lhe digo, desista.
Como é que se calava aquela velha bruxa cuja voz perfurava o lado mau do meu cérebro, que lhe dava razão?

As dores das contracções interromperam o diálogo.

No dia seguinte, às nove da matina, regresso ao corredor da urgência; o feto não saíra; era preciso proceder a uma raspagem. Raspá-lo à faca, rasp, rasp, repito.
Chegada a noite, trinta horas após a minha entrada, e a maior parte delas passadas numa maca no corredor, ouvindo mulheres entrar, gritando, para parir em vinte minutos, alguém teve pena de mim, injectou-me um calmante, mandou-me abrir as pernas e disse-me, vai sentir um bocado, mas é rápido. Não me dão anestesia, perguntei. Da outra vez deram-me. Não, o que lhe injectámos vai torná-la sonolenta. Vamos a isto. E foi. Senti tudo, mas ligeiramente amortecido. Devem ter-me injectado esponja nas veias. E repetia as palavras que me haviam dito, como uma oração, "mas é rápido, mas é rápido, mas é rápido". Não sei se foi. Depois disseram-me, agora vista-se, nós chamamos o seu marido e vai para casa. Não tenho marido. Então chamamos quem? Pode ser uma prima minha. Não sei, se calhar é melhor não, que está na hora da novela. Chamem-me um táxi, por favor.


domingo, 21 de fevereiro de 2010

Manchas

Não quero tirar as manchas do meu rosto nem as cicatrizes espalhadas pelo corpo. Quero estar devidamente munida de provas para apresentar aos meus espectadores e dizer-lhes, vêem, aqui, e ali? Estão a ver, não me venham com coisas, eu tenho vivido como posso.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Encontro com o meu agente

Tal como combinado há uma semana atrás, encontrei-me ontem com o senhor Simões no Starbucks do Almada Fórum. Tem o escritório emprestado a uma brasileira de Curitiba que cá está a investigar a obra de José Luís Peixoto.

- Mas de onde é que conhece essa Serena Thaís, senhor Simões?

- Através de umas poetisas brasileiras que cá estiveram o ano passado a ver como é que eu as podia representar, coisa e tal. Poetisas, não, desculpe, poetas, que vocês agora são muito sensíveis à terminologia (ri, gozando). Ainda fui com elas ao Gerês. Boas raparigas (ri outra vez).

- (Insisto na inoportunidade do empréstimo) Mas por que é que não lhes indica uma pensão, ou uma casa a partilhar? Como é que pode trabalhar? Tem tudo lá, ou não?

- (Chegando o rosto ao meu, e falando baixo, por uma questão de intensidade.) Se a Isabela fosse ao Brasil fazer investigação não gostaria que alguém a amparasse?

- Depende. Se me ajudassem quanto ao essencial, e de resto me deixassem em paz para trabalhar... Não acho isso bem: andar a passeá-las. Não vêm para investigar? Investiguem. A Biblioteca Nacional abre das 9 às 19 horas. No Starbucks é que não... o escritório é fundamental.

- (Conciliando.) Não seja assim. A Serena precisava do computador do escritório. E tem sempre uma chávena de bom café preparada para mim. Excelente rapariga, e...

- Não quero saber! Sinceramente, senhor Simões, poupe-me aos detalhes. Trabalhemos.

- Ok, ok, trabalhemos… Mas, já agora, deixe-me dizer-lhe: a menina sai pouco. Não é bom estar sempre fechada com as cadelas; não aproveita a vida. Depois, claro está, não tem conhecimentos e não compreende quem os tenha. E censura. Devia arranjar um namorado. Olhe, tenho um amigo meu, divorciado...

- Não é nada disso, senhor Simões. Desculpe lá. Avancemos, avancemos. Não me faça falar...

- Bom, a coisa está neste pé: neste momento a menina precisa de pensar em consolidar a sua carreira. O que vai escrever a seguir é de suma importância. Conhece o sindroma Dinis Machado? Pois bem, isso é a última coisa que quero que lhe aconteça. Tem de escrever todos os dias, quanto mais melhor. E ler que nem uma maluca.

- Eu já leio que nem uma maluca e escrevo todos os dias. Quero é saber o que pensa do que tem lido no blogue.

- Oh, filha, a menina dispersa-se como a água em queda nas cascatas do Niágara. Um dia, são vestidos; no outro, pão com queijo. Não pode ser (tom paternalista).

- (Começando a ficar irritada) É o meu estilo. Detesto monotonia. Detesto fazer todos os dias a mesma coisa. Preciso de variar.

- Mas deixe-me dizer-lhe que não é assim que escreve o Saramago, o Lobo Antunes, a Agustina, o Gonçalo Tavares e toda a gente que interessa. Eles encontram o filão, fixam-se nele durante dias a fio e não o largam.

- Mas eu sou diferente. Portanto, esqueça isso.

- Afinal que história é aquela dos comboios, da Roménia?

- É uma viagem que fiz em 1994, e que se veio a revelar muito difícil por várias razões.

- Mas a quem é que isso interessa? Quem é que lhe vai comprar um livro sobre uma viagem que correu mal? Quem é que não fez viagens dessas? E sobre romenos! Olha, sobre romenos! O pessoal começa logo a pensar naqueles indigentes infectos que nos lavam os vidros do carro, à força, nos semáforos da Avenida das Forças Armadas.

Não lhe respondi.

- Isabela, vamos lá ver se nos entendemos. A menina contratou-me para lhe indicar o caminho, para a orientar quando estivesse a descarrilar; pois eu digo-lhe já que esse texto dos comboios vai ser um descarrilamento com mortos e feridos. Vai ser pior que Alcafache. Não me disse que precisa de dinheiro para operar os olhos e o estômago e fazer doações para uma ONG qualquer?! Quem é que quer saber seja o que for de romenos, Isabela?

- (Com calma, com tristeza.) O dinheiro não é tudo, sr. Simões. Se um livro estiver bem escrito, mesmo que não venda, não perde valor.

- Ah, o que eu gostava de a ouvir dizer isso ao seu editor. Sim, sim, a menina chegue lá acima e diga-lhe, com esse seu arzinho de professora do liceu, senhor doutor, isto está lindamente escrito, mas é capaz de não vender nem a badana, porque o assunto não interessa ao Menino Jesus. Isabela, para a idade que tem, eu esperaria que fosse menos ingénua, menos idealista, menos romântica!

- Se quiser, digo-lhe eu. Qual é o problema?!

- Não diz nada. Essa não é a sua tarefa. Aqui, quem fala com o seu editor sou eu. Cabe-me discutir com ele a natureza e condições da publicação. As coisas não são como pensa. Há procedimentos.

- Não queria dizer isto, mas seja: ao contratá-lo, senhor Simões, esperava de si uma outra sensibilidade. O senhor vê-me apenas como um produto a vender. Exactamente por isso não sei se é o agente ideal para me acompanhar e representar. A minha editora tem créditos firmados. É pequena, mas credível. Não entra lá qualquer um. E o senhor fala comigo como se eu fosse uma gaja qualquer, que não sou. Não é essa a imagem que passa de mim nas reuniões com o meu editor, espero.

- A Isabela não se preocupe com isso. Sei o que faço. (Tornando-se mais eloquente.) Eu estou habituado a lidar com essa gente da universidade! Muita conversa, muita filosofia, muita história, muita literatura, mas eles gostam é de uma boa anedota acompanhada de uma imperial com tremoços e fotos de miúdas em soutien. Fazem intervalos na leitura do Derridas para visitarem o blogue do Miguel Marujo. Eu dou-lhes a volta com uma pinta...

- Não sei...

- Isabela, a menina pense num romance.

- Um romance?! Está maluco. Eu não quero escrever nenhum romance.

- Oh, filha, se quiser escreva-o na primeira pessoa, como a menina gosta.

- Por favor…

- Já leu o Bolaño?

- Não.

- Tem de ler. Aquilo é um tratado de escrita criativa. Digo-lhe como pode fazer. Imagine um saco cheio de notas de euro. Tem uma acção central, que é o saco cheio de dinheiro, mas depois vai separando as notas por valores. Para um lado, as de 5 euros; para outro, as de 10; e as de 20, 50, 100, 500. Cada molho de notas é um núcleo secundário da acção. Tira uma nota do molho de 5 e outra do de 500, e essas devem permanecer na narrativa até ao final. Tipo, o fio condutor, o espírito da coisa, os mestres daquilo. Às restantes, dos diversos núcleos, faz o que quiser. Amantize-as. Indisponha-as umas com as outras. Mande-as para o estrangeiro…

- Senhor Simões, não estou interessada em escrever argumentos para telenovela...

- Lá está você. Olhe, Os Maias, outro bom exemplo de romance. Já leu Os Maias?

- (Pior que estragada, quase gritando.) Senhor Simões, por favor, eu sou professora de Português!

- (Olhando para o lado enquanto fala.) É professora, mas eu sei lá o que é que vocês aprendem agora na faculdade. Trabalhinhos... (Parecendo defender-se.) E a menina licenciou-se na Nova: um ninho de cursos surrealistas com pedagogias pós-modernas. No meu tempo, menina, na vetusta Universidade de Lisboa, isso é que era! Exames a sério, e orais. O professor David Mourão Ferreira... um excelente catedrático! Uma pessoa saía dali com uma formação… as raparigas, então, querendo, tinham aulas extra... iam ouvi-lo ler os seus poemas, e de outros.

- Mas o senhor não acabou o curso em 1974, e não passaram nesse ano todos com 6 ou 7 ou lá o que foi? Uma rebaldaria que não lembra ao diabo?!

- ... mais ou menos. As pessoas exageram nessa história. Quanto ao romance, falamos depois. Também a posso pôr em contacto com o Bruno Sena Martins, que percebe disso… é só querer.

- Faça o favor de não me pôr em contacto com ninguém...

- Vá escrevendo, menina; vá escrevendo que depois logo vemos como arrumar o caos que produz. Agora, desculpe, mas tenho de ir. A Serena prometeu que me massajava a coluna lombar com uns óleos de uma planta aquática do Amazonas, e que me fazia uma reza a Iemanjá... Sabe lá o estado em que tenho a coluna! Deixe cá espreitar se há bicha na ponte... Caraças, tenho mesmo que ir andando!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Um pátio cheio de merda

Para além de lavar roupa para fora, a minha avó vivia da criação. Galinhas, pombos e borrachos ocupavam amigavelmente o pátio e almofadavam com excremento todo o percurso cimentado que se percorria até entrar em casa. Era um chão que não se lavava, por fraqueza do verbo; raspava-se com instrumentos agrícolas, e depois esfregava-se com uma vassoura de ramos duros. Quem ali entrava, emudecia. Raramente se tinha oportunidade de ver tanta merda acumulada num espaço tão pequeno.
Quando vínhamos da rua, abrindo-se a porta que dava para o pátio, a primeira coisa a fazer era vigiar o chão que se pisava. Era um hábito que se ganhava, e que a certa altura se tornava natural como abrir os olhos.


A minha avó era visitada por vizinhos que pretendiam comprar criação para abater, e por pessoas que tinham pena dela, porque era uma velha só, quase cega, cujo filho tinha fugido para África. A verdade, que não contava, é que recusara todos os pedidos do filho para se lhe juntar em Lourenço Marques. E agora mandavam-lhe a neta, uma mulher feita, apesar dos 13 anos. Uma responsabilidade. Se tivesse ido, como o filho bem queria, gostava de ver para onde mandavam agora a miúda Nunca verbalizou os seus motivos, mas posso perceber, hoje, que tinha amor à sua criação.
Havia sempre umas galinhas protegidas, que morriam de velhas, cheias de tosse, algumas paralíticas, em caixinhas de papelão donde nunca saíam, e a que ela mudava religiosamente a palha antes de as alimentar. Nos dias de sol punha-as na rua, e elas cacarejavam muito felizes. Eu gostava de meter as mãos nos ninhos das galinhas paralíticas, porque me pareciam velhas sábias, e eram muito quentinhas. Gostava de todos os animais da minha avó, apesar da abundante merda que nos rodeava. Uma pessoa como eu habitua-se a tudo; relativiza a importância da dificuldade, e não festeja às largas a vitória, porque sabe que nada é certo, nada dura. Fora educada segundo esse princípio de sobrevivência que rapidamente se revelara correcto. O meu pai não perdera tudo o que tinha?! E os outros?! Não haviam perdido mais ainda que o meu pai?! Eu não estava agora nas Caldas da Rainha e o meu pai em Cahora Bassa? O que seria o futuro?

Um senhor adulto e solteiro, natural da aldeia da Sancheira Grande, visitava a minha avó todas as vezes que vinha à cidade para compras, e outros assuntos que nunca perguntámos. Era o Paulino. A minha avó recebia-o com a cerimónia possível, esclarecendo-me depois que o senhor era paneleiro, e só por isso o recebia, que naquela casa nunca tinham entrado homens, era uma mulher honesta, que ninguém tinha nada a dizer - mas que eu não podia pronunciar esta palavra em frente a ninguém. Era muito feio.
Um paneleiro não fabricava panelas e tachos; era o nome que se dava aos homens que gostavam de homens. Paneleiros, rabichos. Nunca tinha ouvido? Pois era isso. Mas não era da sua conta, que o Paulino era muito bom homem, e se lá tinha as suas coisas, era a vida dele. Ganhei vergonha ao senhor Paulino. Nunca percebi como se tinham conhecido nem onde, nem o que fazia aquele homem em tal cenário. Que interesse tinham um no outro?! Protegia a minha avó?! Protegia-o ela a ele?!
A ideia de um homem gostar de outros homens era cá de um absurdo! Não me parecia impossível, mas a lógica da relação não estava ao meu alcance. O que faziam eles uns com uns outros? Também namoravam?! Beijavam-se e apalpavam-se?! Imediatamente retirava da minha mente excessivamente visualista essa imagem incómoda, e pensava noutros assuntos igualmente absurdos, mas possíveis, como por exemplo, os outros miúdos, na escola, chamarem-me gorda, ou retornada, ou ambos. Isso era algo que, sendo estúpido, podia compreender. Era maior que eles e tinha vindo de Moçambique, como retornada, logo, era uma gorda retornada.
Quanto ao resto, de certeza que isso de os homens gostarem de outros homens não era nada como o pintavam; seria uma afeição excessiva, um amor platónico, uma admiração pelas qualidades viris alheias. As pessoas exageravam e viam mal em tudo.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sobre o Caderno

Vários leitores me pediram que lhes facultasse o texto lido por Margarida Calafate Ribeiro na apresentação do Caderno, em Coimbra, no final de Janeiro. Finalmente, o texto encontra-se disponível, em excertos, no blogue da Angelus Novus.
Quis destacar uma frase, mas não consegui. Tudo é importante. Sublinharia tudo. Para além do mais, está maravilhosamente escrito.
Remeto, portanto, os leitores para o blogue da Angelus Novus, e agradeço a Margarida Calafate Ribeiro a excelente e informada leitura que fez do meu Caderno.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Colchão de palha

Na casa da minha avó paterna os colchões eram cheios a palha. Fazia-se assim: tirava-se a roupa da cama, procurava-se uma fenda a meio do saco-colchão, afundava-se nela o braço, até onde chegasse, e ia-se remexendo a palha, levantando-a, afofando-a. Quando acabávamos de fazer a cama, verificávamos que tinha alteado uns bons 15 centímetros.
Em Lourenço Marques, tinha uma cama normal, um colchão normal. Em casa da minha avó dormia na cama e colchão que haviam pertencido ao meu pai em solteiro, tirando a palha, que essa tinha de se ir renovando anualmente. Só nessa altura percebi o que o meu pai dizia quando me contava que tinha nascido pobre, e que nós não éramos pobres nem ricos, mas remediados. Ser pobre era dormir num colchão de palha. Ser pobre era comer toucinho cozido com batatas e couves. Ser pobre era tomar banho numa bacia larga, no pequeno quintal, junto ao tanque onde a minha avó lavava, para fora, a roupa de senhoras que lhe pagavam. Ser pobre era ouvir a minha avó dizer que mais valia lavar roupa para fora do que estudar, porque estudar não dava de comer a ninguém. Sim, era uma pobreza inominável.
À noite deitava-me nessa cama de palha feita com lençóis de algodão gelado. Rezava as minhas orações já estendida. Pai Nosso. Sobretudo, Avé Maria, oração da qual sempre gostei muito, "... Maria... cheia de graça... bendita sois vós entre as mulheres... bendito é o fruto do vosso ventre..." Para aquecer, no gelo do Inverno, seguia os conselhos que o meu pai me havia dado antes de partir de Lourenço Marques. Quando tiveres frio, esticas-te muito na cama. Não te encolhas, que é pior. Mantém-te direita para o sangue circular melhor. O sangue é que nos aquece. Ensinaram-me isto na tropa; se fizeres o mesmo, se aguentares o frio durante um bocado, vais ver que depois compensa. Depois ficas muito quentinha.
E eu fazia exactamente como ele me tinha ensinado. Deitava-me muito direita, sem me mexer. Morria de frio, mas o meu pai é que sabia. O meu pai é que tinha dito. E o meu pai estava comigo, eu sabia. Sempre.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Todos os livros do mundo

Entretanto, a Ana Ferreira mandou-me a prova. Obrigada.


Acabei de chegar da Livraria Escriba, na Cova da Piedade, a minha preferida, que tem pelo menos um exemplar de todos os livros do mundo.
Estive a falar com Rosa Alface, a livreira. Disse-lhe que tem um belo nome artístico. Respondeu-me que também há um sabonete rosa alface. E uma loja de bordados e berloques do género.
Também me disse que esteve lá um amigo meu que é diplomata, que veio de longe. Respondi que não conheço diplomatas de profissão, que os meus amigos são todos poetas e parasitas sociais, se é que existe diferença. Retorquiu, ah, então é um fã do seu blogue. Bem, um fã do blogue já pode ser, que este blogue, realmente, lê-se ao mais alto nível.

Serve esta introdução para informar que a Escriba já está on line, pelo que podem encomendar, deixar sugestões, o diabo a sete. Não podemos é deixar que as livrarias mais pequena, as livrarias de bairro, nos faltem. E entretanto vou com as cadelas à rua, enquanto não volta a chover.

Na neve com a Mónica

Email do sr. Simões, acabadinho de chegar:

"Então, Isabelinha, escreveu alguma coisa de jeito desde o lançamento em Almada? Aquelas memórias do interrail parecem-me coisa pouco vendável. Veja lá, menina, que agora tem responsabilidades para com o estimável público, e não pense que a sua editora lhe publica... poesias.
Eu, pela Serra da Estrela, escrevendo na neve com a Mónica, mas vá trabalhando o mais que puder até ao nosso meeting de sexta.
Leu as crónicas do Direitinho na residência da Lapónia?! Dezasseis horas por dia, menina! De si não espero menos, com ou sem vodka.»

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Joguem ao Monopólio

Passei o Sábado a ler com muita atenção o jornal Sol, de ontem, e desenvolvimentos na Imprensa de hoje. Dei-me ao trabalho de analisar infografias com circulos representativos de grupos económicos, e setas que indicam participações de tantos por cento. Não foi fácil, mas deu para chegar à conclusão que quando pago a conta da Zon, estou também a pagar uma parte à Mediacapital e à Ongoing e à Cofina, que por sua vez também fazem parte da PT... A promiscuidade económica impera. Andam todos a dormir com todos, e pior, sem protecção, pelo que os vírus se propagam rapidamente, fazendo-se pagar mais que bem.
A narrativa, feita pelo Sol, da eopopeia de contornos económicos que governa este país, cansou-me. Muitas personagens, muitas estratégias, muitos milhões reportando a um "grande chefe". A certa altura, alguém escreve que Sócrates já se viu demasiadas vezes envolvido em escândalos de tráfico de influências, deles tendo saindo incólume, mas que algum dia será apanhado. Concordo com tudo menos com o será apanhado. Há sempre um amigo que nos ampara. Um amigo que posicionámos no lugar certo. Eu teria sido apanhada, sem dúvida. Os meus amigos estão todos muito mal colocados.
Lembrei-me também do jogo Monopólio. Saía mais barato ao país, a todos, se esta gente se reunísse ao sábado à tarde para uma bela jogatana de Monopólio. Sobretudo, seria muito mais saudável.

Só para coscuvilheiros

Não é bem verdade que tenha falado pouco. Tirei notas no caderninho só porque o meu agente, agora, me disse que deveria fazê-lo para ganhar um ar mais intelectual. Sorri muito, porque, enfim, tinha muita, muita vontade.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Já cá cantam

Neste blogue escreveu-se, hoje, pela primeira vez, com óculos de ver ao perto. Fique registado.

Amor sustentável na Angelus Novus

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Toda a gente sabe que eu detesto o dia dos namorados tanto quanto qualquer outra solteirona diplomada pode detestar. Detesto corações de peluche e canecas com ursinhos usando pijamas decorados a corações vermelhos, e esferográficas em forma de coração, e almofadas que são anjinhos barrocos mal amanhados e servem para nada, e toda a parafernália própria da data. Odeio jantarzinhos de namorados e de casalinhos, e as prendas especiais, os ramos de flores, as pulseiras, os alfinetes de gravata, os cartões. E o resto das mariquices que passam por namoro. Nunca me lembro de ter vivido um dia de namorados. Se vivi, já foi há muito, muito, tempo, e, exactamente por isso, não me lembro Aposto que nunca entrei em cenas dessas. Se por acaso estou enganada, alguém se acuse (não ouço nada).

E eis que a minha editora me manda, hoje, esta promoção. E os namorados são a Verónica e o Abel, o Eduardo e o Rui. Uma editora com uma política sexual absolutamente sustentável! E não fizeram nenhum comigo! Podia ser Adília & Isabela. Compre uma, leve o par. Ou Isabela e... Senhor Simõõeeees..., se faz favor, que autoras é que eles lá publicam para além de mim?

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Pensão Anjo Azul

No dia dos namorados, é costume o senhor engenheiro Mendonça e a D. Carmo da contabilidade terem de pedir folga de meio dia, na empresa onde laboram, para irem ao médico e dentista, respectivamente, correndo a aproveitar a tarde na Pensão Anjo Azul, mas só até às 5, porque prometeram aos respectivos cônjuges sair mais cedo para o programa especial de São Valentim. Este ano, como calha ao Domingo, o engenheiro Mendonça já avisou em casa que vai passar a tarde com o Mendes da tabacaria, que tem a Sport Tv, e a D. Carmo, acordará a chorar, declarando ter tido um pesadelo horrível com a tia Luísa, coitadinha, que está no lar e ninguém a vai visitar, "mas não passará de hoje, que eu vou lá sozinha, deixem-se estar!".

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Até ao osso

Recostei-me, peguei no bisturi e nas compressas, e, devagarinho, tracei um risco de sangue na anca esquerda. Primeiro, só um corte superficial sobre a pele, na diagonal.

Ensopei o sangue e continuei. Um corte mais fundo, atingindo uma camada de gordura amarela, carne, ainda não o osso, a minha meta.

Pretendia substituir a cartilagem da articulação do fémur com a bacia. Não seria cirurgia fácil, mas já tinha visto na televisão e na internet. Não esperava facilidades.

Fui tocando na minha carne com as mãos já bastante sujas do meu próprio sangue. Era viciante poder tocar o meu corpo por dentro, as partes físicas que me formavam e permaneciam dentro do invólucro da pele. Aquela era a minha gordura, aqueles eram os meus músculos, vasos, artérias. Sobretudo, aquele sangue todo que me esforçava por estancar. Bem bonitos. Era tudo só meu. Eu. Uma beleza diferente, é certo, mas beleza.

Afundei o bisturi, cortando camadas até ao osso, e ali estava ele como a cabeça de um bebé a ser parido. Branco. A cartilagem visivelmente danificada.

Limpei cuidadosamente o sangue para poder explorar a zona. Vê-la e tocá-la. Queria tocar com os meus dedos nos meus ossos, nos nervos, nas veias... não vale a pena fingir: queria tocar o meu corpo por dentro, tal como existe na sombra eterna dessa casa fechada, porque lá dentro também sou eu, e nunca vi, não conheço. O que posso imaginar ou intuir não me basta. Como sou? Feita de quê? A minha carne é macia? O meu sangue é grosso?

A urgência de proceder à substituição da cartilagem do fémur serviu-me lindamente para explorar esse meu lado desconhecido.




Pouco tempo antes, com sorte, tinha conseguido obter no mercado negro, uma peça protésica ainda a ser testada num laboratório japonês. Não era mera candonga. Tratava-se de material cirúrgico de ponta, totalmente experimental, cujo objectivo seria substituir tecidos humanos, neste caso, cartilagem. Tanto quanto quando podia observar, parecia-me borracha de aço inoxidável. Uma superfície aderente ao osso, mediante colagem ou aparafusamento, bastante rígida, contudo flexível à carga. Cartilagem artificial. Uma inovação da engenharia humana, avultadamente subsidiada pelas forças armadas norte-americanas, e ali a trinta centímetros de fazer parte do meu corpo ferido pelo uso quotidiano.

Não posso dizer que tenha sido difícil de conseguir, mesmo para a filha de um electricista-montador. Admito que foi caro. Admito que gastei naquilo as minhas economias e as de um amigo, emprestadas à taxa zero. Quanto ao resto, vivemos em Portugal, e há sempre alguém disponível para contactos. O nosso vizinho de cima poderá ser sobrinho do general x, que é amigo do deputado y, que conhece uma forma de entrar em contacto com empresário h, que telefonará ao intermediário k, agente de seguros ou vendedor da Oriflame, tanto faz. A cartilagem artificial chegou-me por correio normal, num pequeno contentor de plástico no qual se criara a quantidade certa de vácuo.

Preparei o cenário. Adquiri as compressas, o soro fisiológico, bisturi, agulha e linha de sutura, tudo isto em farmácias diferentes. Pedi a um amigo enfermeiro que me arranjasse anestésico local no hospital privado onde trabalha. A dose suficiente para uma anca, cerca de hora e meia de anestesia, uma mulher de tantos quilos, sem problemas de saúde… cá veio ter o suficiente.

Testei a posição corporal que iria manter, a distância a que os objectos cirúrgicos ficariam das minhas mãos e a ordem pela qual estariam dispostos. Fui meticulosa como qualquer psicopata de pacotilha, com uma diferença essencial: eu não era psicopata, apenas uma mulher habituada a resolver os assuntos à sua maneira.

A questão da anestesia preocupava-me relativamente. Injectar-me seria fácil, o problema encontrava-se nas quantidades, e, sobretudo, no espaço que deveria mediar entre cada injecção. Seria preferível esperar que passasse o efeito da primeira dose para me injectar com a segunda, correndo o risco de suportar uma quantidade excessiva de dor, que me incapacitasse de prosseguir, ou correria menos riscos se me injectasse a espaços temporais bem marcados, com doses menores? O meu problema era não ter quatro mãos. Sabia de antemão que, mesmo tomando coagulantes, iria precisar de um par suplementar delas a estancar sangue, quanto me injectasse com anestésico. Apesar de tudo, perdi o amor à hemorragia e escolhi a segunda. Antes de começar teria já preparadas cinco pequenas doses que injectaria de 20 em 20 minutos, eventualmente 30. Isto era um trabalho solitário para o qual não poderia convocar ninguém.

Preparei o sofá, no qual me deitei de lado, com o joelho esquerdo ligeiramente dobrado. E ali estava eu com o meu formidável corpo. Nua. Rasgada na anca. O fémur exposto. Tocando os meus ossos, pressionando a minha gordura com o indicador, e com o mesmo testando a elasticidade dos músculos. Magnífica arquitectura, o corpo. Perfeita. Irrepetível. Toquei a minha carne com ternura, por ser minha, por me fazer tão bem.

Dei um puxão forte ao fémur para o desencaixar da bacia. Isso, senti, mesmo anestesiada. Senti, mas ignorei a dor, porque havia ali um trabalho a fazer-se.

Retirei a cartilagem artificial da embalagem, puxei o adesivo que protegia a substãncia colante, manchando de sangue tudo em que tocava, e fi-la aderir à cartilagem danificada que nascera comigo. Alisei muito bem com a palma da mão. Nada de pregas. Aquele forro artificial tinha de rodar no côncavo da bacia sem atritos. Oh, que maravilha, iam acabar-se as dores.

Reencaixei o fémur. Testei a articulação movimentando a perna, e tudo parecia funcionar normalmente. Obra concluída. Podia mandar vir uma garrafa de champanhe, se estivesse no hotel. Não estava.

Olhei uma última vez para os meus ossos e sangue, e preparei-me para fechar com cuidado todo o caminho aberto, suturando as camadas cortadas até chegar à pele, cosendo-a como se fizesse um pesponto numa bainha.

A desarrumação imperava, mas a anestesia ainda não tinha passado. O melhor seria fazer o penso, ligar a anca, e ir-me deitar um bocado a descansar. A posição tinha sido difícil de manter. Não era coisa que fizesse todos os dias, e sentia-me estafada. Passei pela cozinha, peguei nas caixas de Nolotil e de Clamoxil, levei-as para o quarto, deitei-me já com as cápsulas no bucho e pensei, antes de adormecer, que se lixe a sala, a mulher-a-dias vem amanhã e convém recuperar disto o melhor possível, que para a semana quero operar a anca direita.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Look de 90 euros

Algumas pessoas ontem presentes na Fnac tiveram o prazer de falar com o meu agente. O que não sabem é que antes dos holofotes já ele me tinha arrastado para um canto do centro comercial a fim de criticar o meu look de 90 euros.
Disse-me o cavalheiro, "a menina deve pensar que ganha o suficiente em direitos de autor para os desbaratar em máscaras que fazem de si uma pessoa que não é?!"
Respondi-lhe, "mas estou linda, não estou? E este lançamento é em Almada, praticamente dentro de minha casa..."
Não se deixou convencer. "Concentre-se no que vai dizer, em lugar de embatucar cada vez que lhe perguntam por que escreveu o livro. Reflicta sobre o que escreveu e emita um discurso, se faz favor."
Encolhi os ombros e atirei-lhe, "senhor Simões, desculpe, eu não sou o Roland Barthes, nem quero ser." E
ele, venenoso, "não é, não. Esteja descansada que não é, e por este caminho nunca será. Enfim, menina, veja lá se diz qualquer coisa, e se não souber, sorria, que vocês, mulheres, têm sempre duas escapatórias: sorrir e chorar!"
Reclamei. Disse-lhe que não podia falar comigo dessa maneira, que eu tenho um diploma de especialização em Estudos Feministas. Já ele ia no corredor junto à Papelaria Fernandes, caminhando a passos largos. Diria, disfuncionais.

Mas o meu look de 90 euros foi um sucesso. Todos (excepto o senhor Simões) disseram que estava linda. E as minhas amigas e colegas também tinham ido ao cabeleireiro para se porem lindas para mim. De um momento para o outro senti-me uma pessoa amada, o que no meu caso é sentimento raro. Sei que sou inocente e ingénua tantas vezes, mas quero acreditar que todas aquelas pessoas que me sorriam e me beijavam, gostavam mesmo de mim; que estavam ali porque me estimavam. Quero acreditar nisso e não me interessa o resto. Não me interessa o que dirá o chicote do meu agente. Ele não conseguirá agenciar outra escritora como eu nem que ande com uma candeia acesa.

Cheguei a casa e tinha de me desmaquillhar. Custou-me destruir a beleza conseguida a peso de ouro, Mas ao olhar-me ao espelho e ao ver-me como sou, também me achei bonita. Mesmo sem brilhos, sou bonita de todas as maneiras.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A senha

Passeando pelo bairro com a minha prima afastada e as cadelas.

- E se o pedófilo aparecer?
- Ah, vai aparecer, de certeza.
- Pois vai, que chatice.
- Se ele aparecer, temos de combinar uma senha para eu te avisar.
- Está bem.
- Sei lá, uma palavra que não dê muito nas vistas como por exemplo...
- Cogumelos!
Riso.
- E que tal pedófilo!
Mais riso.
- O que achas, Isabela, se for mesmo uma frase completa como, "olha, ali está o pedófilo."
Riso, riso, riso.
- Oh, pá, ouve-me, uma coisa que se possa dizer sem dar nas vistas como por exemplo "Fnac".
- Ah, sim, essa é uma linda senha! Até parece que ninguém diz Fnac em montes de contextos.
- Então, e se for algo como "a revolução na tua imagem". (lia-se num painel que eu alcançava).
- Muito, muito natural. É o mesmo que dizer-te, de um momento para o outro, "Na China, hoje, está a chover."
Riso prolongadíssimo, mútuo.
- Pronto, fica decidido, se o gajo aparecer, olho para ti e digo-te, "estás a ver aquele? É o pedófilo". É a senha.

A terceira

Não sei quê a terceira, e eu que faça o que quiser, que está farto de ser mal interpretado, e que é mentira que vá de férias para a neve, que há anos que não vai. Que a decisão fica nas minhas mãos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sábado, jogo em casa

FNAC, Almada Fórum, 16h00.

A alma ao diabo

Alguém está a precisar de um agentezinho ou, como se diz agora, de um gerenciador de carreira?
O meu está à disposição. Ele não se dispôs, eu é que estou farta. Hoje, disse-lhe, "senhor Simões, careço de imaginação para vender mais línques no meu blogue. Os meus leitores são pessoas de classe. Não apreciam". E ele, enquanto marcava uma suite no Corinthia Alfa, só para passar a tarde, retorquiu "a menina meteu-se nisto, não meteu?! Quer voltar atrás?! Não sabia que se vende sempre parte da alma ao diabo?! Pensava que podia manter-se incólume com as cadelinhas lá na sua redoma? Filha, cresça!"
Domingo passado, deu-me um pontapé debaixo da mesa porque em conversa com outros escritores ousei revelar, "estive muito tempo sem escrever". Tenho que dizer "estive muito tempo sem publicar". Porque escrever, escrevi sempre. Tinha os meus cadernos. Não posso desmerecer o meu trabalho, e muito menos em público. Entre andar com ele ou contratar um ex-agente da Judiciária para me controlar os ímpetos, não sei se não preferirei o segundo.
Portanto, o Sr. Simões começa a estar mais disponível.
Meto este linquezinho, não por ele, mas pelo E. Pitta, que tem sido um senhor comigo. Um verdadeiro senhor, como já não há.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Eu, de todas as maneiras

Aqui, sobre a apresentação do livro, em Coimbra, sábado passado.

Aqui, lendo mais um excerto do Caderno.

Aqui, uma recensão que saiu na revista Os Meus Livros.

Aqui, convite para apresentação do Caderno no meu território.

Aqui, reportagem fotográfica sobre mim e as meninas, todas em vestido de noite, na revista Caras. E tive de tirar as pratas dos armários (se porventura o línque nao estiver a funcionar é problema do vosso servidor, ao qual sou natural e totalmente alheia).

O cão do preto era branco

O raio do cão do preto era branco. Era branco no pêlo de arame, no céuzinho rosa da boca, nas unhas, na pelezinha da barriga branca-rosa. O cão do preto parecia um bebé de branco, mas tinha fome. Os bebés dos brancos não tinham fome, nem se viam bem, encafuados em roupas e cestinhas forradas. Eu nunca pude ver bem um bebé branco, mas aos cães brancos dos negros tinha muito acesso, e aos bebés nus que as mamanas traziam atados às costas ou ao peito, enquanto trabalhavam ou caminhavam. Os meninos dormentes, siameses dos corpos da mãe, saídos da barriga, mas ainda vigorando numa aliança de apenas um corpo. Deixavam cair a cabeça sobre o ombro da mãe, porque o calor dos corpos e os movimentos de fêmea hipnotizavam-nos. Os bebés negros eram uma carne animal que demorava a acordar, que se ia criando às costas, sugando calor do sol e o da mãe, respirando o ar terroso, o ar queimado do capim ardido pela noite, e o cheiro enjoativo das hormonas materna; sugando a teta morna. A teta caída, mole, muito doce, macia, que apetecia lamber toda. E depois, os meninos, nesse ventre fora do ventre, abriam os olhos, falavam, queriam andar, e tudo se complicava.
Lá em minha casa dávamos comida ao cão branco do preto. Eu tinha-o trazido para dentro do quintal. Arranjávamos qualquer coisa dos nossos. O animal deliciava-se enchendo a pança. Começou a engordar. O que dariam eles a comer ao escanzelado do Pirata? O meu pai dizia que os pretos não tratavam bem os cães. Andava ossudos de volta das palhotas, comendo os poucos restos, lambendo malgas. Para que queriam eles os cães se não os sabiam tratar? Caçar-lhes-iam a bicharada nociva? Dariam guarda? A nossa família não percebia.
Perguntei muitas vezes ao meu pai se podíamos ficar com o Pirata, já que o dono não se importava que lhe déssemos comida, ou que o cão estivesse por lá. O meu pai dizia que não. O preto era nosso vizinho e isso seria má vizinhança. Ficar com o cão do preto seria passar-lhe um atestado de pretidão, e, mesmo sendo verdade, o meu pai queria manter boas relações com o dono preto do Pirata, homem que tinha legitimamente construído a sua casa numa área de brancos. A ideia era o gajo estar do nosso lado, ir sendo cada vez mais branco.
Trocavam ofertas: o meu pai levava-lhes comida da minha mãe, garrafões de vinho da metrópole; em troca recebíamos garrafas manhosas com sumo de caju fermentado, bebida ultra-alcoólica que o meu pai levava para os seus pretos. Apetecia-me beber daquilo por parecer leite, saber a caju e ter o feitiço que tornava a cabeça mais leve.
Os pretos da casa vizinha cozinhavam na rua, em grandes panelões que colocavam sobre o carvão. Mexiam farinha com peixe seco. Pilavam milho. Assavam maçarocas. Às vezes, carne. Sobretudo galinha. Pelo quintal havia inúmeras à solta. Debicavam aqui e acolá, enchendo o papo de restos, como os cães. Galinhas cafreais, pequenas, cinzentas, acastanhadas, com plumagem multicolorida, e outras muito bonitas, gordas, de pescoço pelado, que punham grandes ovos e eram boas para chocar. A minha mãe gostava das galinhas cafreais gordas. Eram boas mães e davam excelente canja.
Os vizinhos pretos tinham uma bela casa que nunca acabaram. Rebocaram-na, e para ali ficou sem muro, sem pintura; à preto. Porque é que não pintavam a casa? Porque eram pretos e aqui acabava a explicação.
Viviam na rua, debaixo do cajueiro que lhes fazia a sombra. Para que queriam eles a casa? Não sabíamos. Eram pretos. Estendiam a esteira por debaixo do cajueiro e toca a dormir a tarde e a noite. Pela manhã os panelões que assentavam sobre a fogueira de carvão, fumegavam levemente, cortando o nevoeiro das primeiras horas. O sol abria-se logo a seguir. Era um jorro de sangue atirado para castigo da manhã. Um brilho insuportável. Um tecnicolor que ninguém tinha pedido. E os pretos levantavam-se e lavavam-se na rua em enormes barris de metal cheios de água da chuva ou da mangueira. Lavavam muito bem a carapinha, os sovacos, o peito, com sabão macaco, com sabão amarelo, como sabão azul e branco, com sabão desinfectante, tal como os tínhamos ensinado. E esfregavam os dentes, durante uns minutos, com um ramo castanho que iam mastigando pelo caminho. Vestiam-se de branco. Uma camisa branca, uma blusa de algodão branca para ir trabalhar.
Fui algumas vezes ao quintal do meu vizinho preto. Ficava de pé contemplando as operações. As mamanas velhas falavam comigo em landim, e eu percebia só os sorrisos. As crianças não brincavam comigo porque eu era branca e eu não brincava com elas por serem pretas. Olhávamo-nos. Avaliávamo-nos. Os nossos pais conversavam. Que conversa poderia ser essa entre um branco e um preto? Que tinham eles a falar? Nunca soube nada sobre essas conversas civilizadas mantidas entre o meu pai e o vizinho preto do cão branco.