segunda-feira, 26 de abril de 2010

Da exposição

Frida Kahlo, O Veado Ferido, 1946


O que significa expormo-nos? No meu dicionário particular significa permitir que outros nos conheçam como pretendemos ser conhecidos, o que não implica que venham alguma vez a conhecer-nos como gostaríamos. No meu caso pessoal, há quem interprete a minha exposição de forma totalmente diversa. Para uns sou muito linda e boazinha, para outros, uma bruxa insuportável. Se não me expusesse daria no mesmo. Tive uma colega de quem ninguém sabia coisa alguma. Uns chamavam-lhe a sonsa, outros, a deusa. E a senhora, coitadinha, estava ali sossegada, sem uma palavra, só com bons-dias, boas-tardes.
As pessoas do círculo intelectual e cultural no qual até poderia inserir-me, querendo, mas não quero, odeiam a exposição. Criticam-me em doses moderadas. Como consigo eu escrever sobre as minhas cadelas, sobre a minha mãe, a mulher-a-dias, o meu agente, a minha prima afastada, etc., etc.?
Penso no assunto, a instâncias. Escrevo sobre todas essas pessoas e animais porque são bonitas, ambíguas, narrativas ou poéticas. Escrevo sobre quem é interessante, sobre quem me toca, e porque não vejo mal no que conto. Se outros vêem, são os seus olhos.
A quantidade de exposição é subjectiva; aquilo que para mim é exposição, para outros não o será, e vice-versa. Nunca senti que me expusesse, o que não quer dizer que não o faça, mas os outros é que mo lembram. É evidente que tenho uma vida privada e que a guardo dos olhares alheios, mas os limites do que é uma vida privada é que não são universais. Os da minha são francamente reduzidos. Há uma quantidade enorme de dados pessoais que não sei por que não podem ser públicos; que não quero omitir deliberadamente ou que já não saberia omitir, mesmo que quisesse. O maior risco que corro tem passado pela indistinção entre as minhas personagens e situações autobiográficas e as de ficção. Mas mesmo esse risco, admito, é delicioso de se correr. Admitamos, portanto, que gosto de correr os riscos que escolho. Que tenho apreço pelo fio da navalha, sobre o qual ganhei treino em equilíbrio.
Para além de tudo, a exposição, ao contrário do que se pensa, é uma excelente estratégia de auto-defesa. Querem pegar-me por onde? Está praticamente tudo à vista. E o que não está é porque interessa pouco.

Campanhas publicitárias geniais

A Toshiba lançou uma campanha que me parece genial em termos de marquetingue, sobretudo porque apela ao fanatismo, à chico-espertice e à burrice. Cada televisão ou portátil vendidos até 10 de Junho, serão reembolsados ao comprador se Portugal ganhar o Mundial. Eis como se venderão centenas de aparelhos, mesmo nas previsões mais pessimistas, sem ter que dar nada em troca.
Em Espanha foi lançada a mesma campanha, mas na terra dos nossos irmãos, a Toshiba arrisca mais. Isto não é complexo de inferioridade lusitana, são factos.

sábado, 24 de abril de 2010

O silêncio

O silêncio na memória colectiva é o tema do painel no qual participarei hoje, pelas 18h30, em Aveiro, com Diana Andringa e Celina Pereira.
É uma produção Oficinas sem Mestre em parceria com Performas e o programa pode ser consultado aqui.
Deixo uma síntese do que se irá passar:

Exibição da curta metragem A Cela Branca (Portugal, 2006, 6’13’’) de Ivar Corceiro
Exibição do filme Dundo Memória Colonial (Portugal, 2009, 60’) de Diana Andringa
Seguidos de debate com:
Diana Andringa, jornalista e realizadora.
Isabela Figueiredo, escritora, autora de “Caderno de Memórias Coloniais” (2009)
Celina Pereira, cantora e contadora de histórias cabo-verdiana, autora de "Estória, Estória... Do Tambor a Blimundo”
Moderação: Catarina Gomes (antropóloga)


Só depois de publicar este poste me apercebi de que o anterior tem o mesmo título. Fica assim.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Silêncio

No final da sessão de cinema a que ontem assisti, no Indie, encostei a cabeça à cadeira, virando a cara para o tecto, os olhos para cima. Queria ouvir com atenção a música, a belíssima composição musical que encerrava o filme e que passava com a ficha técnica. Que beleza! Ouço tão pouca música, pensei. Vivo tanto de silêncio, de longos, profundos silêncios, que acabo por esquecer essa maravilha tão nas minhas mãos, à distancia de um botão: a música.

Quero casar com a Micas e a Morena e os outros cães todos

A má fé do professor de Direito Constitucional, que pretende fazer valer os seus argumentos vencidos contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, veio lançar uma questão interessante.
Eu, realmente, gostava de casar com as minhas cadelas. Não seria o único casamento sem sexo. Há por aí muitos não declarados. Pelo menos na nossa relação há muito afecto. Temos um projecto de vida em comum. Vivemos umas para as outras. E eu queria dar-lhes direitos. Queriam que pudessem ir ver-me ao hospital, se estivesse doente. Queria poder incluí-las nos gastos com dependentes, na minha declaração de IRS.
Queria que fossem aceites, respeitadas, estatuto que o casamento concede sem entraves, em nome do amor, da união, etc. O casamento sempre serviu para transformar putas em ladies e chulos em senhores de bem. Que sirva agora para que se faça alguma justiça a quem nunca teve voz.
Se os animais não têm personalidade jurídica, deveriam tê-la. Portanto, talvez se pudesse começar por aí.

Sou sempre muito injusta com a minha mãe


A minha mãe é sibilina e pessimista. Irrita-me ouvi-la enumerar impossibilidades, descrer de tudo e preparar-se para o pior. Irrito-me e estrebucho. Acuso-a de ser incapaz de ver beleza nas coisas, nas pessoas, no mundo. Acuso-a de não entender a beleza do voo de um pássaro, de saber apenas dizer-me se a sua carne é comestível. E no entanto, conforme os anos vão passando, descubro que na sua concepção tão escatológica da vida, tem muitas vezes razão; não temos ninguém. Não temos de facto ninguém. Estamos tão sós como na barriga da nossa mãe, e aqueles que têm sorte, têm-na pela vida fora, velhinha, sibilina, crítica impiedosa, mas têm-na para sempre.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Como cheguei à Angelus Novus?

Esta é outra das questões que invariavelmente me fazem nas entrevistas.
As outras editoras chegaram demasiado tarde até mim. Quando os convites começaram a chegar por email, já estava comprometida com a Angelus Novus, embora não tivesse assinado qualquer contrato, figura jurídica que desprezo.
Ana Bela Almeida, professora e investigadora de Literatura Comparada, foi quem levou os meus escritos ao conhecimento de Osvaldo Silvestre, editor da Angelus Novus, onde já tinha trabalhado, e também seu amigo. Igualmente minha amiga, Ana Bela Almeida teve um papel fundamental na minha chegada ao mundo editorial, do qual me encontrava afastada. Duvidei que aquele material pudesse interessar para publicação, e foi ela quem de facto me motivou a publicá-lo.
A Angelus Novus, embora fosse uma editora mais dedicada ao ensaio, agradava-me. Quem não gosta de contratos não pode preferir grandes complicações editoriais, e a Angelus dava-me, à partida, a garantia de um tratamento mais pessoal, sem grandes concessões ao sistema. E tem sido assim.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A minha querida família

As pessoas perguntam-me muito pela reacção da minha família ao livro.
Gostava de esclarecer que, tirando a minha mãe, resta-me pouca família com a qual mantenha relações. Não conheço ninguém, repito, ninguém da família do meu pai. Imagino que tenha primos, mas não sei onde vivem nem como se chamam nem tenho curiosidade em saber.
Ter família é viver preso ao que esperam de nós, às obrigações que se devem. Eu, mal nascera, já estava a dever favores ao padrinho que me foi buscar à maternidade, porque o meu pai não me queria ver nem pintada, nem à minha mãe, grande culpada porque eu tinha vindo... rapariga.
Há outras pessoas que, não sendo família, tiveram importância na minha vida por serem amigas dos meus pais. Algumas leram o livro e não comentaram, outras, não faço ideia, e é assunto que também não me interessa. Não perco dois segundos tentando adivinhar qual será a opinião dos outros sobre mim. Até porque é demasiado fácil imaginar o que pensa de nós a família. Para além da minha mãe já tenho a Micas e Morena; as duas últimas têm óptima opinião sobre mim e não me chateiam por estar gorda ou despenteada ou não ter luz em casa à noite - o que é que eu vou fazer para a rua com frio e chuva e etc.?
Antes da família vem a liberdade e a paz de espírito. E mesmo partindo deste pressuposto há sempre um momento em que uma pessoa se passa.

O meu gabinete

Chegou a Primavera e, apesar dos Program e quejandos, retirei uma pequena carraça moribunda do pescoço da Morena. Disse-lhe, minha querida, não estou nada interessada em dormir com os teus hóspedes, e dito isto empalei o horrível vampiro que lhe sugava o sangue.
Não sei se as carraças têm sentimentos, mas espero que não, porque não lhes tenho qualquer afecto. Ainda estou para compreender a utilidade dos parasitas. Contribuem para o equilíbrio ecológico? Eu dispensava tanta biodiversidade.

Uma colega muito querida ralhou comigo porque paro pouco na sala de professores. Nunca fui muito de sala de professores. Tem muita gente. É preciso conversar, sorrir, interagir, ser alguma coisa, e eu prefiro não ter que ser coisa alguma. Gostava de ter um gabinete como os professores dos filmes. Se tivesse um gabinete havia de ter os meus papéis muito arrumadinhos, e plantinhas, conchas, pequenas recordações de sítios onde estive, poemas sem grande presunção, luz quando preciso de luz e sombra quando preciso de sombra. Havia de ter um divã para dormir umas sestas, e quando me fossem bater à porta fazia de conta que tinha saído para ir à reprografia. O ideal seria deixarem-me levar as meninas, e ter por lá as suas caminhas, o prato da água e da comida. Só viria a casa dormir. A ideia não me desagrada, mas os sonhos são apenas sonhos.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Parafilia


Então, a menina arranjou maneira de perder o portátil na Galiza...
Não foi na Galiza, Sr. Simões. Foi na viagem de Braga para baixo.
Mas como é que se perde um portátil?!
Era noite. Não vi, o que é que quer?
Mas por que é que tirou o portátil da mala?
Porque o motorista não me deixou levar a mala dos papéis junto de mim. Alegou que era volumosa e ia incomodar os outros passageiros. E eu tirei o portátil, e o que me interessava ler, e o homem ficou satisfeito ao arrumar a mala vazia no porão. É uma tara salazarista lá dele.
Você não é capaz de cumprir regras, pois não?! Até lhe dá urticária.
Dá-me um bocado, dá.
Quer dizer, não se importou de incomodar quem ia ao seu lado!
Não ia ninguém ao meu lado. Nem à frente nem atrás. O autocarro levou 4 passeiros até ao Porto e 7 até Lisboa. Sou a última pessoa a pretender incomodar seja quem for. A menos que sejam uns salazaristas tacanhos. A esses, só não os incomodo se não puder.
Caraças, que fixação que a menina tem com as questões de poder. Precisamos de ordem, menina, de ordem. Sem ordem a sociedade não se organiza, não há progresso. Essa sua tendência é quase uma parafilia.
O Sr. Simões desculpe, mas parafilia é mantê-lo como agente.

Empresa de autocarros Rede Expressos está-se nas tintas para os passageiros

A Rede Expressos também não presta um bom serviço aos passageiros.
No domingo, tendo telefonado para todos os números da empresa, nomeadamente do terminal de Sete Rios, ninguém atendeu a chamada. Por esse motivo, resolvi escrever um email para o endereço disponível, na esperança de que, ontem, alguém me tivesse respondido, para me encaminhar, no mínimo. Ainda não obtive resposta. Fica o email e o aviso relativamente ao mau serviço prestado pela Rede Expressos.
De igual forma, farei chegar ao email rede.expressos@mail.telepac.pt um línque para este poste.

computador portátil esquecido em autocarro Braga - Lisboa

Isabel Figueiredo 18 de abril de 2010 21:30
Para: "rede.expressos@mail.telepac.pt"
Exmos. Senhores,

solicito a vossa melhor atenção ao exposto:
- esqueci um pequeno computador portátil no Expresso das 20:00, Braga - Lisboa, de sábado passado, dia 17,
Deixei-o sobre o banco, dentro de uma capa de protecção de cor preta.

Alimento a esperança de que o motorista ou alguém o tenha recolhido e entregue na gare de Sete Rios, ou outra.
Para onde deverei telefonar para tentar recuperar o meu computador, por favor?

Muito obrigada. Agradeço toda a ajuda que possam dar-me.

Os melhores cumprimentos,

Isabel Figueiredo

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Não se importa de devolver o meu portátil?

Clicar sobre a imagem para aumentá-la.

Caro senhor ou senhora que entrou na minha conta de email há 57 minutos atrás, estava eu ainda no Jumbo a comprar o jantar, muito agradecia que devolvesse o portátil que encontrou no autocarro Expresso, Braga-Lisboa, sábado passado (ver imagem).
A ideia é a seguinte: o portátil vale pouco, até já lhe entornei uma chávena de chá em cima, pelo que a placa não deve estar grande coisa; o que me faz mesmo falta são os ficheiros que se encontram na pasta documentos e, também, no ambiente de trabalho.
Agradeço que devolva o portátil nos perdidos-e-achados da Rede Expresso, ou que me contacte, por exemplo, via email, para negociarmos a entrega.
Os meus emails, como penso que saberá, são os seguintes: isabelmari@gmail.com e omundoperfeito@gmail.com.
Se pretender mesmo manter o portátil, podemos negociar entrega de uma pen drive com os ficheiros atrás referidos.
Muito obrigada pela sua compreensão e sentido de responsabilidade.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O imperativo

O Sr. Simoes acabou de telefonar para a minha pousada galega para me dizer que é "imperativo meter o linquezinho para o blogue da sua editora". Nao faço ideia por que seja imperativo. Tenho de ler com atençao as cláusulas do contrato. Mas para nao o ouvir faço como com a minha mae; sim, sim, sim, claro que sim, e passo para outra.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Gritar e sair para a rua

O Benfica ganhou ontem. Deve ter ganho, porque por volta das 22h00 ouvi um enorme clamor no meu bairro. Era o ruído de milhares de vozes jubilando, gritando em uníssono, produzido em todas as casas e em nenhuma em particular. Juro que ainda não li os jornais, mas como esta zona é muito dada ao Benfica...
Para mim tanto faz que ganhe um clube ou outro. Até mesmo o Futebol Clube do Porto, sobreviveria
Não censuro que as pessoas se manifestem, pelo contrário, até gostava que se fizessem ouvir muito mais. Por exemplo, à hora do telejornal gostaria de ouvir as pessoas gritar com igual entusiasmo revoltado cada vez que nos aumentassem os impostos; que lançassem exclamações depreciativas sempre que ouvissem falar de corrupção; que batessem as palmas quando uma cientista portuguesa ganha um prémio por uma descoberta importante, e mais, que, logo a seguir, mesmo cansados do dia de trabalho e com o pastel de bacalhau entalado nos dentes, saíssem para a rua, manifestando-se a torto e a direito, sem bandeiras nacionais, mas com muitos painéis pintados à mão - exigindo liberdade, respeito, justiça, e por aí fora. E que falassem umas com as outras, que trocassem ideias sobre política, para além de futebol. Que não tivessem medo de ter opiniões e de as exprimir e justificar. Que as pessoas se sentissem vivas com o que acontece à sua volta. Que participassem na vida das cidades, que se sentissem responsáveis pelo que nelas acontece, e que assumissem o governo da parte que lhes cabe do país ao qual pertencem. Não creio que isto seja uma utopia.

Uma parede só para mim

O que poderá haver de comum entre mim, a Coca-Cola Zero, o Axe for men e a Meo Fibra?

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Viver para sempre?

O combate à sida está agora a fazer-se mediante o recurso às células estaminais.
Os portadores de VIH poderão vir a ser tratados, em alternativa aos retrovirais, com as suas próprias células estaminais, as quais, ao serem extraídas da medula óssea, purificadas em laboratório, manipuladas, e de novo reinjectadas no organismo do qual provêm, garantirão uma qualidade de vida que o doente com sida nunca imaginou recuperar, uma vez que o sistema imunitário desenvolverá resistência ao vírus. Desenvolver resistência ao vírus implica recuperar a imunidade perdida.
Segundo a revista Science Daily, o grupo de cientistas responsável por este estudo testará o método até 2013.
A terapêutica com células estaminais está prestes a alterar as técnicas de combate às doenças, sejam quais forem e onde quer que se situem no nosso corpo, num espaço de dez anos. Não tenho muitas dúvidas de que em 2020 será possível regenerar um fígado, desenvolver matéria óssea ou a cartilagem de uma articulação, recuperar lesões no coração, nos pulmões, nas artérias, doenças crónicas e congénitas. Será no nosso tempo, ainda.
Recentemente, um colombiano desenvolveu uma articulação mandibular a partir da extracção de células estaminais da sua própria medula.

A ideia de um novo mundo é tão abrangente que não se confina às fronteiras do social. O novo mundo é mais aberto, mais tolerante, mais consciente, mas será também mais saudável.
Um amigo perguntava-me se nos tornaremos imortais. Não creio que se torne uma solução muito popular. Se pudesse atingir uma longevidade extrema, desejá-la-ia? Gostaria de chegar aos 150, 180 anos, imaginando que poderia ser possível?
Por muito que deseje viver, a imortalidade está fora do meu universo de objectivos de vida. Desejo manter uma razoável longevidade, que seja lúcida e destituída de dor física, mas não pretendo ser eterna. Morrer é importante e nada tem de errado. Precisamos de descansar, chegada uma certa hora.
Não nego que existirão homens e mulheres a prolongar a sua vida para lá do aceitável, enquanto for possível. Serão os excêntricos, os americanos que já realizaram todas as operações plásticas do catálogo. Não serão compreendidos. Aceitar a morte, num mundo em que a esperança de vida nos levará facilmente aos 100 anos, como hoje se chega aos 70, tornar-se-á tão digno como aceitar as rugas, os cabelos brancos, a falta de visão ao perto, a pele escamada, a velhice.

domingo, 11 de abril de 2010

Sou eu

Quando saio de casa, as meninas ficam bem entregues. Tratam delas com igual desvelo, bem sei, mas custa-me. Talvez fiquem felizes por se livrarem de mim dois ou três dias, ou até quatro, mas a mim é que me custa não poder adormecer e acordar com elas, senti-las respirar, cheirar o seu cheiro, abraçá-las, ralhar com elas ou mimá-las. Vivemos juntas. Somos umas das outras. Eu, pelo menos, pertenço-lhes inteiramente. Acho que é isto que sentem os amantes.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Bucareste, Suceava, pela E85 - parte 1


Primeiro fecho os olhos. Vejo melhor com os olhos fechados. No meu cérebro existe uma sala privada de cinema; se correr as cortinas e apagar as luzes, consigo assistir a sessões gratuitas. O filme chama-se “O que já passou”, produzido e realizado por mim. O de hoje começa com um Citroen ZX percorrendo os principais eixos rodoviários de Bucareste, extremamente movimentados, que permitem alcançar a estrada nacional 85, em direcção ao Norte. Dirigimo-nos à Bucovina. Neste passo do meu filme, ruas com árvores, zonas densamente povoadas e urbanizadas, atravessadas por um trânsito indescritivelmente perigoso. Penso que se aprendi a conduzir no caos de Lisboa, se conduzo no caos de Lisboa, conduzirei em qualquer parte do mundo. Não é bem assim; Lisboa é um caos que domino, que entendo, partilho e para o qual contribuo. Um caos resolvido. O caos do tráfego rodoviário em Bucareste é desesperado, porque eu estou desesperada. Não sei para onde vou. As ruas têm inúmeras faixas, como um monstro de cinco cabeças, todas eles lançando fogo pela boca. São percorridas por intermináveis cordas de carros cujos tubos de escape rebentam em fumo e ruído, conduzidos como carrinhos de rolamentos loucos pela encosta abaixo, rasando-se.
Sossego após atravessar a zona industrial em direcção ao Norte. O que vejo agora? Campo cultivado ou ceifado. Extensos campos. Árvores ladeando a estrada. É o por-do-sol com laivos laranja. A minha hora preferida, que chega para sossego de todos os espíritos, os bons e os maus. Há uma lentidão, não sentem?!, uma preguiça. Entendemos as pernas. Respiramos fundo. Finalmente fora de Bucareste. Agora, sim, é a Roménia, o que eu quero que a Roménia seja, uma terra pacífica e bela. Ah, que calma! Vai correr tudo bem. Este é o início de uma viagem maravilhosa.
Escurece lentamente, sobre os campos ceifados, castanhos-claros, e na escalada da noite vão surgindo os fogos acesos de queimadas que empastam o ar com fumo invisível e transformam a escuridão num cenário iluminado sem tempo nem espaço. É a noite e o fogo, que são iguais há milhares de anos, em todos os lugares do planeta. Seguimos em silêncio. S. vai copilotando, atenta a placas com indicações de direcção e quilometragem. A noite avança e estamos cansadas. Torna-se claro que foi um erro sair de Bucareste tão tarde para atravessar toda a Roménia, de Sul para Norte. Cerca de 500 quilómetros não se fazem em 5 horas, já devia saber. A que horas fecha a pousada? Aqui no guia não diz. Não deve fechar. Se fechar, toca-se à campainha e alguém vem abrir. Sim, mesmo chateado, alguém virá abrir.
Vamos andando. Esta noite chegaremos muito tarde, mas dormiremos num local fresco; uma pousada perto de Suceava. Acabou-se o inferno de Bucareste. Em desespero de cansaço, paramos em Adjud para beber um café que afinal vazamos no alcatrão.
São onze e tal da noite da noite. Há tabernas abertas de onde sai ruído de vozes. Entrar sozinha não será muito aconselhável, mas o que tem de ser feito, faz-se. Entro no primeiro café. Os homens param de falar, por segundos, enquanto entro e me dirijo ao balcão. Há mesas e cadeiras de um lado e do outro, como num bar de um western. Não tenho pistola, apenas a minha dignidade. Recomeçam a conversa, mais baixo. Riem. Não sei o que dizem. Pronunciam algumas palavras em inglês, good, beautiful; dizem América, mas isso não é inglês, é romeno, é português. Peço café e água ao balconista. Pago. Saio rapidamente, tentando não entornar as chávenas de cartão rasas de líquido. Chego vitoriosa. S. bebe o primeiro golo e olha para mim. Isto é café?! Tem um sabor esquisito. Tem?! Nunca gostei de café, não sei dizer se é bom ou mau. Bebo, seja como for. S. tem razão. O café está gasoso. O café tem Coca-Cola. É ela que o diz. Tem Coca-Cola, tem. Até eu percebo. S. pergunta-me como aconteceu aquilo. Não sei. Digo não sei, mas penso que vi o homem entornar o conteúdo de uma garrafa sobre os copos. Seria água fria para arrefecê-lo. Não o impedi, porque já estava feito. Mas se quisesse reclamar não teria vocabulário que mo permitisse. E ali não se reclamava. Era a Roménia, e as pessoas tinham outros hábitos. Despejar água no café deveria ser normal. Não disse nada disto a S., aborrecida com os hábitos romenos e a inutilidade dos meus préstimos. Coca-Cola no café! Gente doida! Obcecada por tudo o que é americano.
Continuamos caminho. Racaciuni. Terras cultivadas. Noite escura. Cleja. Veículos pesados circulando devagar. Nicolae Balcescu. Cansaço. Bacau. Noite, noite escura. Bogdan-Voda. Um animal atravessa a estrada. Campo. Roman. Estrada. Traian. Árvores. Vinha. Geraiesti. Campo, camiões, atenção. Cristesti. Noite escura. Draguseni. Noite mais escura. Vadu Moldovei. Noite. escuríssima Falticeni. Oh... quase. Suceava. E agora, para que lado é a pousada?

terça-feira, 6 de abril de 2010

Um negro bem vestido

No Minipreço, à hora de fecho.

Hoje é domingo, e vesti o meu melhor fato, bem escovado e passado a ferro. Engraxei os sapatos até brilharem, pus chapéu e calcei luvas, como príncipe branco de um filme americano. E ela pensa que me vou calar?! Não está a ver o meu fato, não percebe que não sou qualquer um, que sou uma pessoa importante?! Pensa que me passa a perna porque sou negro?!
- Ouça lá, por que é que o meu cartão não dá? Os cartões das outras pessoas da fila, todos deram, e o meu não dá, porquê?
- Oh, senhor, e eu é que sei!? Não está a aceitar. Está a ver aqui?!
Valha-me Deus, o raio do homem, deu-lhe para me chatear. Metem os cartões em todo o lado e depois esperam que funcionem.
- O senhor tem de esperar um bocadinho, se faz favor.
Mas ela pensa que me engana? Que me dá a volta? A escravatura acabou. A humilhação acabou. O racismo acabou. Vai ver…
- Desculpe, mas não dá. Está a ver?! Não dá. Tem de pagar a dinheiro.
- Não pago a dinheiro. O cartão está bom. Ainda há bocado levantei. Ponha lá outra vez.
- Eu não posso fazer isso. O senhor já viu a quantidade de pessoas que está na fila desta caixa? Hoje estou sozinha com o meu colega, que devia estar a repor latas nas prateleiras. Não posso estar à espera. Não quer ir lá fora levantar ao multibanco? Se tem dinheiro na carteira, são nove euros e trinta e...
- Não vou lá fora, não. Não dá porque você é uma racista. O cartão do preto nunca dá para nada. É racista. Não pense que me engana. Tem de dar. Meta lá o cartão.
Ai, meu Deus, o homem é maluco! Estou bem lixada, hoje.
- Oh, Carlos, estou aqui com um problema… o teu multibanco está a dar? É que o meu não aceita o cartão de um cliente... Ok, vou tentar mais uma vez.
Isto não vai dar. Sai-me cada um. Esta porcaria deve estar desmagnetizada.
- Olhe, senhor, vou tentar de novo, mas se não der tem de pagar a dinheiro ou então deixa as coisas.
- Racismo em todo o lado. Quer que diga mais alto? Racismo! O cartão está bom. Tem de dar. Passe o cartão e faça tudo bem, como deve de ser. Os pretos também têm cartão, também compram nas lojas...
- Estou a fazer tudo bem. Já lhe mostrei a mensagem que a máquina devolve… O senhor deve ter o cartão desmagnetizado. Tem de ir ao seu banco queixar-se.
- Vocês pensam que humilham os pretos. Vocês querem humilhar os pretos. Comigo, não.
- Há muita gente na fila à espera. É melhor o senhor pagar de outra forma.
- Racistas.... Vocês comem todos do mesmo prato. Pensam que ainda mandam. Que branco é branco, branco, branco. Em mim ninguém manda.
- Afinal, como é, o senhor vai pagar ou anulo o que registei?
- Tome lá, sua racista de merda. Ainda há bocado levantei esse dinheiro com este cartão. Não dá porque você é uma merda.
Não responder, Maria Luísa, não responder que o homem é doido. Quero lá saber que seja preto. É que me estou mesmo nas tintas. Grande paranóia. Grande moca. Olhem-me este, bolas. Tomates do meu tio!
- Carlos, viste esta fita? Viste a forma como ele olhou para mim enquanto se ia embora? Se pudesse, matava-me com o olhar Que eu sou racista, porque o multibanco não lhe aceitou o cartão... Já viste?! Que ódio, meu Deus! Que mal é que eu lhe fiz? Isto, de vez em quando aparece aqui cada um um. Conheces este gajo cá da loja?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O mundo está cada vez melhor

Não creio que os jovens de hoje sejam piores que os da minha geração ou da geração anterior à minha. Acho que são diferentes.
Os meus pais foram educados no fascismo e educaram-me dentro da mesma ideologia. Se me exprimo de forma relativamente livre, não é que tenha sido ensinada a fazê-lo. Aprendi que devíamos calar, fingir, ter medo, agir subterraneamente.
Claro que os miúdos fazem asneira e são cruéis uns com os outros e com os mais velhos, mas quem poderá garantir-me que há 40, 50 anos não existiam jovens maus, dissimuladamente maus?! Havia mais pureza, diz a minha mãe. Não havia, não. Havia mais silêncio. Havia menos pedófilos e menos mulheres maltratadas pelos maridos, acrescenta. Não, não. Havia medo, vergonha. Havia vozes caladas.
Os jovens são hoje muito mais espontâneos, exigem explicações e condições, reclamam, de forma geral. A bem ou a mal. E a nós dava-nos muito jeito que estivessem todos caladinhos, e se tivessem reclamações a apresentar, desabafassem lá em casa em vez de nos torturarem a alma.
Antigamente, a escola era um lugar mais pacífico e os professores podiam dedicar-se a ensinar. Eram, de facto. Antigamente, os filhos dos agregados que vivem com o rendimento mínimo não punham os pés numa sala de aula, nem os ciganos nem os jovens complicados, com patologias diversas aos 14 anos. Hoje, estão todos lá, e a escola mudou. Um professor não pode, hoje, ser apenas um garante transmissor de ciência. Exigem-se-lhe competências relacionais, alguma psicologia, uma boa capacidade para ouvir e negociar. Tornou-se uma profissão com algum risco e insegurança intrínsecos, que exige, portanto, uma protecção adequada por parte das tutelas.
Agora, perguntam-me se tudo isto significa que o mundo se tornou pior? Para mim, não. Apesar do desemprego, da crise, da insegurança, o mundo está cada vez melhor. Nunca se viveu tão bem como nos dias de hoje. Nós é que exigimos mais, muito mais do que os portugueses de há 40 ou 50 anos atrás. E ainda bem.