domingo, 30 de maio de 2010

Pertenço pouco

O Festival Erótico Medieval, sobre o qual escrevi o ano passado, quer ser meu amigo do Hi5, e sinto-me tentada. Sim, por questões de cultura geral, aceito informação sobre damas amarradas no calabouço, todas nuzinhas, violadas 10 vezes por dia pelos carrascos, sendo que as cativas demonstram o seu apreço por esta prática desfazendo-se em estridentes orgasmos. Por favor, mandem-me newsletters com informação sobre a performance erótica na qual a rainha se masturba com o cabo da espada do rei, ou, por exemplo, uma orgia na cozinha entre os serviçais, todos besuntados da mesma gordura com que barraram a carne no espeto, ou o bobo com a cabecinha entalada entre as vultuosas mamas da primeira aia, ou os aios entretendo-se com as pilinhas uns dos outros e com a do rei, ou as fabulosas acrobaciais vaginais das donzelas, capazes de produzir fogo a partir das passarinhas oleadas. Informem-me, apenas, porque eu pertenço pouco ao mundo - e calha-me abanar a cabeça, ou sorrir, sentada na minha cadeira de pau, no Olimpo, ao olhar para baixo, por desfastio.

sábado, 29 de maio de 2010

Então, e as meninas?

Leio o blogue de Woman Once a Bird, mas não nos conhecíamos pessoalmente. Ontem, encontrou-me na Festa do Livro, aqui no Funchal, e uma das primeiras questões que me colocou foi, então e as meninas? As meninas, respondi, ficaram em casa da avó, e eu já estou cheia de saudades. E estou. Hoje, ao acordar, senti muito a falta a minha Moreninha. Não estava encostadinha às minhas pernas, nem tinha usado os meus pés como almofada nem a ouvia respirar, nem a Micas fazia os barulhinhos que lhe costumo ouvir quando acorda.
As pessoas que constituíram família podem fazer-se acompanhar pelos cônjuges ou filhos, por isso parecer-me-ia justo que os hóteis nos deixassem trazer os nossos animais, os nossos companheiros. A minha Moreninha e a minha Miquinhas adorariam passear-se por estes jardins cheios de palmeiras e correr atrás das lagartixas - além disso o quarto é grande e com varanda e são ambas muito queridas e sossegadinhas!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Seguranças privados: má-fé, arrogância e abuso de poder

O poder transtorna as pessoas. Dá-lhes uma falsa segurança de deuses. É aborrecido, porque não só não são deuses como nem sequer é absolutamente certo que precisemos dos serviços para os quais foram investidos de poder.
Falo dos profissionais de segurança, securitas, prosegur e afins, classe de serviçais imediamente acima dos taxistas, mas pouco, e cuja função consiste em desconfiar que somos ladrões, traficantes de droga ou terroristas do Bin Laden.
Enquanto perdem tempo tentando chatear-me porque não levo dentro de um saco de plástico transparente, de 15x15, o frasco de perfume, a bisnaga de dentrífico, o boião de creme de dia, o de desodorizante, uma embalagem de protector solar para rosto e outra de creme de pés, tudo em contentores já encetados de 50 ml ou menos, o passageiro ao lado safa-se com coca na sola dos sapatos, ou com material explosivo no forro do casaco.
Desconfiar dos produtos de beleza e higiene que transporto, porque não estão num saco de plástico, mas num necéssaire de pano, e de mim, enquanto criminosa de alto coturno, é realmente de grande utilidade para a segurança da aviação mundial. Quando me vejo a embarcar num voo da Tap, Lisboa-Funchal, no fabuloso terminal 2 do aeroporto da Portela também desconfio que eu possa ser terrorista da Al Quaeda. Tenho cara disso, tenho.
Passo a explicar o seguinte aos prosegures, respectivos chefes, e a quem os contratou para fazer serviço no terminal 2 do aeroporto, na quarta-feira passada, pelas 20 horas - sem qualquer esperança que compreendam o meu latim, sobretudo porque não vem em forma de normativo:
1. Depois de obrigarem os passageiros a tirar a tralha da mala, para de seguida exigirem um saco de plástico que têm de ir comprar a uma máquina fora dessa zona restrita, convém que arranjem um lugarzinho onde deixar o estendal do crime enquanto se adquire o extraordinário saco. Metermos tudo dentro da mala, de novo, retroceder, comprar o saco, ir outra vez para a fila onde somos tomados por terroristas, colocar uma segunda vez os objectos na bacia de plástico e tudo o que lhes parecer necessário, é serviço inútil, para não dizer estúpido - por favor não nos obriguem a seguir-lhes as passadas.

2. Se um passageiro alega não ter moedas para comprar os referidos sacos, agradece-se que indiquem onde podemos trocar uma nota, ou alguém mande ali colocar uma máquina de trocos ou arranjem, por gentileza, um stock de moedas. A resposta correcta para as arranjar não é "vá ali ao café e peça qualquer coisa", porque ninguém pode ou deve ser levado a gastar 1,25 € num café para arranjar forma de gastar 1 € em sacos de plástico. A resposta também não deverá ser "só no terminal 1", porque condicionar uma pessoa a deslocar-se, carregada, ao terminal 1, esperando por um autocarro, e regressando nele, quando o voo parte em meia hora...

Felizmente, por oposição à má-fé, arrogância e abuso de poder dos prosegures do terminal 2 do aeroporto da Portela, existe a simpatia dos agentes da PSP no gabinete ao lado. Vi-me, portanto, obrigada a entrar na PSP para pedir ajuda; os três agentes juntaram as moedinhas do bolso de cada um e trocaram-me a nota, ficando de acertar contras entre si. E mais, concordaram comigo quanto ao lobbie prosegur - máquinas de sacos - café para trocar moedas. Grande roubalheira em cadeia que ali se montou.

Este poste serve, pois, dois objectivos: agradecer aos agentes da PSP que me ajudaram sem hesitar, e lembrar aos lacaios da segurança que a ajuda aos passageiros e a boa educação também fazem parte das suas funções. E que o poder de que se sentem investidos não vale um carapau seco. Não lhes reconheço nenhum nem tenho medo deles. Na verdade, as únicas pessoas que ali têm poder são os agentes da PSP ou os comandantes dos aviões. Eles são apenas porteiros que remexem as malas de quem entra. Uma profissão que, sendo exercida por eles, se torna verdadeiramente mal cheirosa.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Isabela no Funchal

Hoje, pelas 17h00, na Feira do Livro, conversa com Francisco Faria Paulino, difundida em directo para toda a baixa, onde quer que existam colunas de som.
Amanhã, pelas 18 horas, autógrafos no stand da FNAC (no Funchal a Feira do Livro faz-se com livrarias e não com editoras, como em Lisboa.)

terça-feira, 25 de maio de 2010

Agressividade e dominância

Não, não é uma actividade na qual as minhas cadelas me tenham inscrito. É um seminário organizado por uma amiga, que poderão frequentar para aprender a lidar com cães que nasceram com o sindroma do filho único.

Encontro-te todas as noites

A esperança ajuda a viver. Já tinha passado por essa fase. Mas agora era tarde: perdera a esperança. Não vivia triste nem eufórico: vivia. Não pretendia matar-se, bem pelo contrário. Desejava viver o que lhe restava o mais confortável e amavelmente possível. Talvez ainda suportasse bem um par de responsabilidades, mas depois viesse a reforma, esse tempo que guardamos para nos restabelecermos de anos de cansaços e contrariedades. Que importava a velhice? Que diferença substancial poderia existir entre os 25 e os 52 anos?! Pele?! A pele não tem assim tanta importância. Arrependia-se de ainda sonhar. Talvez arrependimento não fosse a palavra... como evitar sonhar os sonhos que o visitavam tão amiúde? Que responsabilidade tinha ele?
Encontrava-a de novo. Ela ia com o marido e os filhos, ainda bastante jovem, indiferente, cumprimentando-o de longe, como se se conhecessem mal, ou fazendo de conta que não o conhecia. E esse era exactamente o dia em que ele saíra de casa com a roupa velha, sem se barbear, o cabelo mal penteado. Nos sonhos era assim: ela, no seu melhor; ele, um indigente. Como poderia ela respeitá-lo ou admitir que tinham tido um caso tão bonito quanto trágico?
Queria esconder-se. Escondia-se. Nos últimos assentos do autocarro, atrás de um grupo de pessoas, mudando de passeio. Como pudesse. Mas ela via-o, por mais que se escondesse. Não havia forma de fugir a esse olhar culposo que lhe dizia "meu Deus, como estás mal, como envelheceste! Devias deixar de fumar, fazer jogging, usar um creme hidratante." Nos últimos 10 anos as mulheres tinham passado a achar que um homem devia usar creme hidratante e máscara para amaciar o cabelo. E isso era o menos. Dava tudo para estar no seu esplendor de homem nesses encontros em que a via, em sonhos, mas tão reais. Dava tudo para merecer dela um olhar aprovador, um "muito bem, estás óptimo" adivinhado, apenas. Ela não podia imaginar o que tinha sido viver debaixo da sua pele nos últimos 30 anos. Não sabia o que era uma ausência. Ele poderia enumerar meia dúzia de sinónimos em cinco segundos.
E se ela tivesse sentido o mesmo? Se tivesse, em silêncio, sem um sinal, carregado a mesma falta até se cansar? Não era impossível. Se afinal aquela mulher tivesse razão em não suportar vê-lo, olhá-lo, imaginar que existia e a provocava? Era uma ideia insuportável que nunca lhe tinha ocorrido e que preferia afastar da mente. Ela era insensível. Ponto final. Desprezava-o. Parágrafo. Nisto conseguia acreditar.
De resto eram só sonhos. Nenhum daqueles encontros fora por um minuto real, embora acontecessem todas as noites.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A vida não é uma festa

Já é velha. Não deu por nada e de repente acordou velha. Deviam ter-lhe explicado melhor que um dia ficaria da idade dos pais, continuando a ver-se ao espelho como uma menina que está na vida por acaso, só a experimentar, a imitar uma existência; se não gostar pode ir-se embora como se abandona uma festa.

domingo, 23 de maio de 2010

Nem precisava de saber falar

"Sexo é como jogar bridge: se não se tem um bom parceiro o melhor é ter uma boa mão."
Woody Allen

Aqui no meu bairro existe também um senhor, electricista reformado, que todas as tardes espera pelo regresso das senhoras, para, esmeradamente, as ajudar a estacionar... - é um desvelo.
No outro dia, perante um carro muito luxuoso que ali estava parado, saiu-se a dizer: isto é que um carro; com um destes tinha as mulheres todas que quisesse, nem precisava de saber falar...

Enviado por mail por leitor atento.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Onde é que liberdade de expressão é um atentado ao pudor?

Na China, o tribunal condenou um grupo de cerca de vinte swingers a uma pena que agora não recordo, e no Malawi, um casal homossexual foi condenado a 14 anos de prisão. Se uma regulação jurídica desta ordem interferisse na vida sexual do Ocidente, remeteria milhões de pessoas para uma cela de prisão, o que, no actual estado de coisas, teria, eventualmente, seu lado positivo: criaria novos postos de trabalho e promoveria as obras públicas.
Não fumo, não me drogo, não gosto de apanhar sol nem de ouvir trance, mas é-me indiferente que outros fumem, consumam drogas, apanhem montes de sol e ouçam a música que lhes apetecer ouvir, desde que não me veja envolvida contra minha vontade - são direitos que lhes assistem. Passo a vida a dar este exemplo: os meus vizinhos do lado, no que me toca, são iguais pessoas quer pratiquem sodomia, quer não. É assunto que me interessa tanto como saber quando devem do empréstimo para o carro (admito que haja quem também goste de estar a par das finanças e posses dos vizinhos, mas eu nem sei se os meus têm carro).
O direito a uma vida privada e a agir nos limites da uma esfera de liberdades, individual e adulta, são ainda um luxo, em muitos lugares do mundo. E nem é preciso ir longe. Se vivesse em Mirandela ou Vila Real teria de prestar contas sobre a singularidade dos meus hábitos e existência, e, provavelmente, acumularia, já, um ou mais processos jurídicos para resolver - é que a expressão livre do pensamento continua sendo um atentado ao pudor. Há lugares onde pagamos um preço muito alto para nos darmos ao luxo de agir em liberdade. É por isso que eu, gostando muito dos passarinhos e das florzinhas do campo, não penso sair da cidade.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Um homem tem as suas necessidades

Há aqui no bairro uns senhores reformados que me vêem passeando com as meninas, quase sempre sozinha, e me cumprimentam muito e metem conversa. São realmente simpáticos, e vê-se que lhes agrada conversar comigo, que até se babam ligeiramente, que sabem apreciar as mulheres que tudo devem à abundância. Devo ser uma visão materializada das suas fantasias de juventude, quando uma mulher desejável devia apresentar argumentos suficientes para encher as duas mãos a um homem. Sou realmente um consolo para estes senhores, o que aceito alegremente, considerando que presto ao Estado Social um serviço de voluntariado na área do entretenimento.
De vez em quando, um ou outro ousa confiar-me intimidades. O discurso é sempre o mesmo. Ainda sou novo e saudável, mas o pior é que a minha mulher desde que tirou o peito/as miudezas já não se interessa por nada, e um homem tem as suas necessidades. Desculpe estar a dizer-lhe isto, não leve a mal, mas a menina, a menina ou a senhora?, a menina é muito bonita. Tem uns olhos e um sorriso... como é que hei-de dizer... vê-se que a menina deve ser uma pessoa muito doce. E eu tenho muito tempo livre, sabe? Vive sozinha com as cadelinhas? Ah, bom, bom. Pois é, não leve a mal dizer-lhe isto. E eu não levo, embora tome consciência de que este meu voluntariado tem os seus riscos. Gosto de ouvir os velhotes, de ajudar na medida do possível, mas apenas na medida do possível. Faço de conta que não percebo o que estão a propor, ou encorajo-os a procurar alguém que possa resolver o seu problema. O pior, o pior mesmo, é que os senhores deixam de me falar. No dia seguinte já não estão à porta do café à hora em que passo e desaparecem sem rasto.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Finalmente, a Igreja Católica abençoou-me as cadelas

As pessoas que vendem coisas, e as que pedem na rua, tal como os malucos, gostam de falar comigo. Provavelmente tenho um ar doce e inofensivo. As que sabem falar-me a preceito conseguem o que querem. Sou um alvo fácil. Hoje escapei-me.
Uma velhota na Cova da Piedade queria vender-me uns santinhos com a imagem do Santo Padre. Disse que não, muito obrigada. Respondeu-me, olhe que tenho aqui outros, e também anjinhos: o anjo Gabriel, o Anjo da Guarda... Ah, deixe lá, exclamei enquanto andava, já tenho dois anjinhos lá em casa.
Minha senhora, muito obrigada e muito boa sorte para os seus meninos. São meninos?
Não, são meninas.
Que Deus as abençoe, minha senhora.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A porcaria das pessoas

Pelo que venho lendo na Imprensa, Facebook e blogosfera, atravessamos uma fase de sanha anti-pombo. As cidades cobrem as fachadas e monumentos de picos que desencorajam as aves; há quem as corra à vassourada; há mesmo quem as envenene ou assassine. No Facebook, um dia destes, chamavam-lhe "ratos".
Sou, graças a Deus, do tempo em que dávamos milho e pão esfarelado aos pombinhos, que vinham às centenas; eram tantas asas que ninguém nos via no meio da passarada nervosa.
Sou do tempo em que os pombinhos eram criaturas de Deus, tão inocentes, alegres, medrosos e afoites como crianças. Foi um tempo que, felizmente, durou muito tempo.
Os pombos não são ratos, precisam de comer, como nós, e na cidade há que recorrer ao que cai. Os pombos não transmitem doenças, apanham-nas dos humanos. O meu marido diz que o pior são as cagadelas. Que ainda ontem me tirou do arame uma t-shirt toda borrada de uns que fazem ninho no terraço e pousam no beiral por cima da varanda. Respondi-lhe que cagadela de pombo é cagadela santa, e que o que se suja, se lava. Gosto de pombos. Gosto de os ver voar a pique, dar de comer aos borrachinhos... A porcaria dos pombos não me incomoda. O que me incomoda é a das pessoas, muito mais diversa e fatal. Essa abunda e ninguém pensa em exterminar a fonte.

sábado, 15 de maio de 2010

O sucesso automático

Afastar de funções as professoras boazonas é uma medida anti-pedagógica. Toda a gente sabe, encarregados de educação incluídos, que os alunos só estudam com gosto, e se mantêm nas aulas com atenção, se as professoras tiverem atributos que o mereçam. Confesso ter uma enorme inveja das minhas colegas com as curvas no lugar certo. Não têm de se esforçar tanto como eu para conseguirem o sucesso dos alunos. O sucesso é automático. Os alunos não lhes respondem mal. É só sorrisos. Eu, pelo contrário, tenho de fazer fichas com bonecos e power points sobre Os Lusíadas com músicas dos Tokio Hotel ou da Lady Gaga.

Toda a nudez docente será castigada

Compararam hoje o meu caso com o da professora de Mirandela que posou nua para a Playboy. Mostraram-se preocupados devido à "crueldade de certos textos".
O que mais me custa é o analfabetismo de quem sabe ler.
Há uma enorme diferença entre mim e a professora de Mirandela: no Caderno, a nudez está verdadeiramente nua.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Multidões

Tenho estado a pensar quem é que eu gostaria de ver ao vivo, que justificasse meter-me numa enorme multidão tresloucada de fé e passar uma noite ao gelo. Actores, escritores, cantores, políticos, a rainha de Inglaterra... não me ocorre ninguém, sou sincera, a não ser um amigo da minha prima afastada, por acaso muito alto, lindo e saudável. Eventualmente, o jovem moreno de 30 e tal anos, mais coisa, menos coisa, que no Domingo, ao final da tarde, estando eu ligeiramente perdida no piso -1 do estacionamento do centro comercial Campo Pequeno, me perguntou, e passo a citar, "posso ser útil?". Alguém devia avisar estes rapazes para não se meterem em trabalhos.

Isabela na Radio França Internacional

Não querendo ser chata, se estiverem interessados em ouvir a minha voz de novo, desta vez em entrevista feita ao telefone pela Radio França Internacional, emissão em Português, para África, poderão seguir este línque. Pelo menos a música é excelente.

terça-feira, 11 de maio de 2010

A Igreja não tem culpa

Escandaliza-vos que haja abusos sexuais na Igreja Católica? A mim, não. Não me admira que os párocos abusem da confiança dos seus paroquianos, de qualquer idade, para com eles alcançar fragmentos materiais do céu físico, que lhes está vedado por motivos de grande coerência mística, nuns aspectos, e criminal, noutros.
Não me escandaliza, primeiro, porque os párocos são seres humanos, e, segundo, porque entre os párocos existem pessoas tão disfuncionais como qualquer leigo.
Não me passaria pela cabeça a ideia de que um padre não sentisse atracção sexual por uma mulher, um homem ou uma criança. Acontece aos seres humanos. Os que têm responsabilidades dentro da Igreja não são pessoas diferentes. Alguém quis que fossem mais sagrados. Eles quiseram, talvez. Alguns conseguiram. Devem sentir-se como eu relativamente ao apelo sedutor do croissante misto, "não devia, não devia, não devia, mas, ai, apetece-me tanto, é só uma trinquinha, e, pronto, agora sinto-me muito culpada, mas já está, que fazer?"
Os problemas da Igreja não pertencem à Igreja, mas à sociedade, na medida em que a Igreja a acolhe. Se a pedofilia foi e é uma prática corrente, e todos, de alguma forma, passaram por ela, como objecto ou testemunha, como poderia a Igreja estar imune? Nessa presunção da diferença, a própria Igreja falha. Acredita que, ao escolher um caminho espiritual, teriam de revelar uma moral incorruptível. Trata-se de uma questão insolúvel no seio da Igreja; mesmo que venham a conceder, aos religiosos, o direito a quebrar o voto de celibato, mesmo que se abram as suas portas às mulheres. A abertura da Igreja não servirá como garantia de pureza, porque entre homens e mulheres livres no exercício do sacerdócio, celibatário ou não, existirão sempre os que aceitam as regras, e as cumprem, e os restantes. Nas igrejas protestantes, onde o voto de celibato não existe, a pedofilia, bem como o assédio sexual e moral não desapareceram. Porquê? Porque no meu bairro, de onde pode sair matéria-prima sacerdotal, também cá temos de tudo.
Este não é um tempo mais pedófilo nem mais orgíaco, porque todos os tempos o foram, havia era menos comunicação social, ou seja, menos polícia de costumes. Havia segredo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Como estimular um filho a ler e escrever

Não escrevas mais... deixa lá isso dos livros, já chega, que tu tens demasiado trabalho com a escola, a casa e as cadelas, nunca descansas, estás sempre, sempre a escrever, e não pode ser, dás cabo da tua cabeça. Isto foi o que a minha mãe me respondeu quando lhe comecei hoje a dizer, mas nem pude acabar, bem, eu agora vou escrever mais livros e pode ser...
Eu, se fosse a ti, deixava isso!
Então, mas ó mãe, eu sei escrever, e gosto...
Escrever mais livros? Oh, mulher, e quem é que te aspira o chão e vai às compras? Não, não, larga isso e dedica-te mas é à tua vida.
A minha mãe sempre teve este jeitinho especial para me incentivar a prosseguir no caminho das letras.

O que fiz ao Corpo do Senhor


Para comemorar a visita do Papa Bento XVI inicio hoje uma curta série de textos dedicados à minha relação íntima com a religião católica.

Fiz a primeira comunhão em Moçambique, na igreja da Matola nova. Não sei se havia Igreja na Matola velha; é possível. O padre era um senhor de batina branca, com uma grande trunfa morena, magro, de estatura média-alta, com óculos, pelos seus 40 e picos. Um bocado comunista demais para o gosto dos meus pais, segundo pude escutar. E porquê? Bem, porque constava que o padre protegia muito os negros, defendendo que tínhamos os mesmos direitos. Durante muito tempo achei que os comunistas eram pessoas que gostavam dos pretos.

No dia da primeira comunhão - a foto até aparece no Caderno - eu, e uma boa centena de meninas, 90% das quais, negras, fomos receber o Corpo de Cristo pela primeira vez, devidamente confessadas e vestidas a rigor. Eu, de branco, com meias de lã e sapatos de verniz, o que era habitual. A única diferença consistia no facto de nesse dia o vestido ser de bordado inglês. Se calhar não sabem o que é bordado inglês, mas explico com gosto: é um tecido de algodão todo esburacado, e cada buraquinho deve ser visto como uma pétala, nuns casos, ou como uma flor, noutros. Era fresco. Cá por mim, podiam ter-me vestido sempre de bordado inglês. Ter-me-iam poupado grandes estopadas de calor. Mas o bordado inglês era fino e caríssimo, só para ocasiões solenes como casamentos, baptizados e comunhões.

Naturalmente, nunca tinha tomado a hóstia. Desconhecia a sua consistência e sabor. Queria experimentar, e devo dizer que era a grande motivação para andar na catequese. Não é que não quisesse aprender sobre a vida de Cristo. Queria. Mas queria muito mais provar a hóstia. Havia todo aquele misticismo sobre ser o Corpo do Senhor, não se poder trincar, apenas deixar que se desfizesse lentamente no interior cavidade oral, um momento muito sagrado, pungente mesmo.

No dia da primeira-comunhão, chegada a minha vez de comungar, abri a boca, mas insuficientemente; o senhor padre inseriu-me a hóstia na ponta da língua e, quando a recolhi, percebi que me tinha ficado colada ao céu da boca e contra os dentes do maxilar superior, metade fora. Apesar das tentativas, não conseguia descolá-la nem escondê-la dentro da boca, como as outras, de maneira que, envergonhada, enquando regressava ao meu lugar, resolvi trincá-la para a fazer desaparecer. E estava demasiado preocupada com a dessacralização para conseguir pensar no sabor.
A minha primeira comunhão não foi, assim, o momento em que recebi o Corpo do Senhor, mas aquele em que o trinquei. E estou em crer que este insucesso marcou para sempre a minha relação com o catolicismo.

domingo, 9 de maio de 2010

A vida é maravilhosa

Estou de costas para a televisão, à qual tirei o som, mas quando me volto reparo que está a decorrer uma grande festa de Carnaval em Lisboa. Há carros enfeitados, julgo que alegóricos, bandeiras coloridas e uma alegria histérica e irracional. Parece-me muito bem que as pessoas dancem, saltem, cantem, gritem, bebam e acordem amanhã com umas grandes olheiras. As orgias são tão libertadoras quanto incompreendidas, mas a verdade é que os seus participantes ficam com a impressão que a vida é maravilhosa, que Portugal é um país de luxo, com um belo governo, idem para a oposição, que todos os dias vela pelo nosso melhor. Tudo bem, tudo bem. Toda esta efusão me parece muito natural. Que a televisão transmita, em directo, horas de nulidade informativa, é que me parece lamentável.

Eles param

Atravessei na passadeira, mas mesmo assim vinham dois carros na minha direcção sem mostras de pretender travar. Continuei na minha, porque achei que teriam de parar - estamos a brincar?! - e fizeram-no. Olhei-os com reprovação, e eles a mim, mas atravessei no lugar certo. Claro que pensei que esta situação, num país civilizado, nunca aconteceria, e iniciei, de imediato, uma reflexão sobre o carácter indisciplinado dos portugueses. Ando sempre nas ruas a pensar, nunca estou atenta ao caminho. Agora, que combinei com a terapeuta fazer caminhadas, tenho oportunidade de pensar imenso durante meia hora, enquanto atravesso passadeiras e corro o risco de ser atropelada. Sou distraída, mas aproveito o tempo.
Quando pisei o passeio olhei para trás. Era uma longa passadeira. Uma estrada bem larga. E vi o semáforo vermelho para mim. Havia um semáforo! Foram eles que pararam com o verde para eu passar.

Feira do Livro: impressões de uma tarde escura

1. No stand da APEL ouço a resposta a um senhor com máquina fotográfica das boas, acompanhado de duas lindas meninas - os fotógrafos têm uma sorte! - oficialmente, a feira está neste momento encerrada. Encerrada?! Olhei em volta: pavilhões abertos, excepto os das editoras a sério, como a Assírio, Cotovia, e outras anti-sistema - pessoas circulando, muito mais do que seria de esperar, considerando a tarde escura que decorria. Oficialmente, estava encerrada. Na prática, o negócio ia-se fazendo.

2. Há muitos anos que não via uma Feira tão pobrezinha. O auditório é um pré-fabricado do tamanho do meu quarto... não há caixas multibanco... cadê o pavilhão onde expunham todos os livros do dia para consulta? As casas de banho, segundo o rapaz da roulotte virada para a das farturas, onde uma tosta de queijo custa 3 euros, disse 3 euros, eram "aquelas coisas brancas ali em baixo". Está bem, a crise, mas e a visita do Papa?

3. Mais uma vez me lembrei, no ponto x da subida do lado direito, por acaso muito perto do stand da Letra Livre, que foi na Feira do Livro de 1991?, 1992?, que o jovem que, com sorte ou azar, deveria ter sido o pai dos meus filhos, me anunciou que ia casar nesse verão. Fui tão burra que lhe respondi, pois fazes muito bem, que eu agora também tenho um programa parecido, vou de férias para a Tunísia. E continuei a subir. Acho que ele desceu.
Fui burra, porque deveria devia tê-lo deixado a esvair-se em sangue, no mínimo com a cabeça partida. Perdi ali uma bela oportunidade para exprimir os meus verdadeiros sentimentos com toda a espontaneidade. É que se o tivesse feito não me lembraria disto duzentos anos depois, sempre que passo pelo ponto x da subida do lado direito. É que irrita.

Feira do Livro: sabe, eu é que sou a autora

Ontem fui à Feira do Livro verificar como ia a venda do meu Caderninho. E esfrego as mãos neste momento.
Na cena que se segue, lá vou eu em busca do stand da Letra Livre, dando de caras com um senhor que penso conhecer de qualquer outro lado. Diria que já trabalhou na Ler Devagar, ao tempo em que se situava no Bairro Alto, mas, muito sinceramente, pode ser de outra vida, que eu estou farta de conhecer pessoas de outras vidas, não sei é quais, nem posso confirmar se realmente lá estive.
Livros meus, nada vezes nada. Na frente do stand, alfarrabista; no expositor do lado esquerdo, Averno e &etc; expositor do lado direito, vazio.
Consulto os alfarrábios, escolho um que me interessa, e entabulo conversa com o senhor de cabelo comprido que conheço de outra vida, vocês não representam a Angelus Novus?!
Representamos, sim.
Mas não têm os livros em exposição.
Pois não, hoje não, que esteve a chover e tive que tirar os livros do expositor daquele lado. Batia a chuva.
Ah, está bem. E têm o Caderno de Memórias Coloniais?
Temos, temos. É o livro que vende mais. Está sempre a sair.
E eu, muito orgulhosa, sabe, eu pergunto porque não vejo à venda, e eu é que sou a autora, sabe, eu é que sou a autora.

sábado, 8 de maio de 2010

Feira do Livro: uma aventura na Livros do Brasil

Antigamente ia à Feira do Livro para calcorrear tudo o que era stand, subindo e descendo duas vezes o Parque Eduardo VII. Hoje em dia, seria impossível. Vou directa às editoras que me interessam, verificando antes, pela internet, onde se situam os respectivos stands.
Hoje, rumei à Livros do Brasil. Queria um livro de Annie Ernoux recomendado por uma leitora. Toda faceira pedi à menina, olhe, se faz favor, era um livrozinho da escritora Annie Ernoux, acho que é Lugar ao Sol, ou qualquer coisa assim.
Annie Ernoux? Annie Ernoux? E voltou-se para dois senhores sisudos, de fato, gravata e óculos de ver ao perto, que pareciam acabadinhos de sair do gabinete de informação de um governo PS. Percebi uma troca de impressões quase em código, uns abanos de cabeça, e a menina voltou, Annie Ernoux não é nossa. Por acaso até sei qual é a editora... - olhou para trás, os senhores sisudos estavam perto - mas a senhora vá ali às informações e pergunte, que eles dizem-lhe.
Muito obrigada. E segui caminho, pensando com os meus botões, se a escritora não é deles, mas sabem a que editora pertence, por que não dizem? Qual é o problema? A isto é que se chama união no sector editorial. Fui-me embora com muito má impressão, como é de calcular.
Nas informações da APEL tive de esperar um bom bocado, porque uns senhores queriam comprar as memórias de um médico de província, mas não estava na feira, não estava, paciência, desculpassem, disse-lhes a funcionária. Chegou a minha vez.
Boa tarde, diga-me, por favor, qual a editora portuguesa da Annie Arnoux. Soletro. Digita rapidamente o nome no computador e devolve-me a seguinte informação, é a Livros do Brasil.
Não pode ser... acabei de vir de lá e disseram-me que a Annie Arnoux não é deles.
Ah, é, é. São dois livros, um chama-se Um Lugar ao Sol e o outro Uma Paixão Simples.
Mas acabei de vir de lá...
Sabe, às vezes a pessoa que está a atender não está bem informada...
... mas estão lá três pessoas...
Volte e diga que na APEL lhe confirmaram esta informação.
Ok. Subo a feira, apresento-me no dito stand com os dentes a ranger, e digo, venho da APEL e os livros de Annie Ernoux são desta editora.
A menina volta-se de novo para os senhores sisudos. Há uma certa movimentação. Catálogos. Consultas às estantes. Nada. Conversa, conversa, tudo em código, não ouço nada, não olham para mim. A certa altura a menina diz-me, Um Lugar ao Sol está esgotado.
Ignorei. Há meia hora atrás não era da sua editora, agora estava esgotado... Continua a movimentação. Catálogos. Folhas A4 impressas e presas por um agrafo. Demora. Olho distraidamente para uma fileira de livros em saldo, do meu lado direito, e vejo a lombada de dois exemplares seguidinhos de Annie Ernoux, Um Lugar ao Sol. Pego num e digo-lhes, a Annie Ernoux está aqui. Movimentação. Agitação. Ah, pois é. Olha que engraçado, é daquela colecção, pois é. Pois, está bem. E continuam procurando nas prateleiras. Pergunto o preço, porque os livros não estão marcados. Alguém atira, cinco euros. Podiam ter dito dois ou três, mas para meu mal saiu-lhes cinco. Deve ser o preço mínimo da Livros do Brasil. Continuam a conferenciar sobre Annie Ernoux. Demoro a pagar. Com um bocado de sorte pode ser que ainda encontrem o segundo título. Se lá voltar amanhã pode ser que já tenha aparecido.

Mulher-cão

A mulher-cão, Paula Rego

Uma grande amiga minha vai dar uma conferência, em Lovaina, sobre a mulher-cão na obra de Paula Rego. Fiquei toda contente, disse-lhe que a mulher-cão sou eu, e ela, para minha felicidade, confirmou.
O ano passado encontrei-me com uma leitora do ex-Mundo Perfeito cuja filha queria conhecer a mulher-cão (ver fotomontagem que constitui o banner do MP), ou seja, eu. Fez-me muitas perguntas sobre a vida quotidiana de uma mulher-cão, às quais respondi com muito agrado. Queria saber se eu podia falar com os outros cães, se podia pensar como eles, se também dormia no chão ou ladrava muito... Orgulho-me de ser uma mulher-cão, de haver uma criança que pode compreendê-lo, sem que tenha de explicar porquê. Não há porquê. Sou. Algumas crianças não estão ainda contaminadas por excesso de cultura humana, e para elas o mundo é realmente perfeito, sem tabus, pelo que é possível conversar com elas seriamente sobre este assunto. Podem compreender a minha dupla natureza.
Não suportar animais e só conseguir imaginá-los no prato seria amputar uma parte significativa da vida. Conheço pessoas assim, e parecem-me excessivamente tristes e rigorosas.
O que separa as pessoas que gostam de animais das que não gostam é uma questão subjectiva de cultura e educação, porque os animais são exactamente os mesmos.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Preciso de tempo

Estive ontem a conversar com uma amiga sobre empréstimos bancários, compro casa, não compro, alugo outra, taxas indexadas ou fixas. E perguntei-lhe, achas que uma pessoa com a minha idade ainda pode fazer um empréstimo para amortizar em 25 anos, por exemplo, ou terá de ser em menos tempo? E ela respondeu-me, cheia de boa vontade, acho que a Caixa aceita que amortizes até aos 70. Fiz rapidamente contas de cabeça e exclamei óptimo, óptimo, assim pode ser que me façam a 23 anos.
Conclusão que me deixa um bocado deprimida: dentro de 23 anos terei 70, e 23 anos passam num ápice.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

As pessoas sensíveis

As pessoas superiores e sensíveis comem galinhas, sim senhores. Não descem à rua para agradecer seja o que for, desculpar-se ou manifestar agrado. Não tossem nem espirram nem sentem arrepios de frio nem lhes sobe ou baixa a tensão conforme os acontecimentos, mas comerem galinhas, comem, porque já vi.

Falsas frágeis

Que o homem que amámos nunca venha a ser nosso por fidelidade a alguém, aceita-se. O que é que não aceitamos com o passar dos anos e a urgência da vida?! Mas que o homem que amámos não seja nosso nem da pessoa a quem jurou fidelidade, para se perder de amor por uma terceira, é que deita uma mulher abaixo.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Os meus meses têm mais dias

Olho para o deputado Ricardo Rodrigues, do PS, reparo na sua linguagem corporal, nos seus gestos, e penso que é uma injustiça gritante alguns trazerem visivelmente gravado no rosto aquilo que são, e outros, iguais, andarem por aí disfarçando a massa ética que os forma.
A diferença entre o deputado Ricardo Rodrigues e outros políticos é só essa: há quem engane mais. Há quem não tire gravadores: mande tirar: ou use estratégias alternativas diversas.
A política portuguesa enoja-me. Os negócios, as influências, as protecções. Uma máfia legalizada. Quem é o inocente que anda pela política em nome da nação, pela nação?
Gostava de acreditar que há realmente deputados nos quais se pode confiar, e a quem o exercício do seu mandato não serve apenas como plataforma estratégica de acesso ao que pretendem aceder. Gostava de ver clareza na sua acção e trabalho dedicado, não em prol da política do seu partido, mas em defesa dos interesses de quem os elegeu.
Não sei como funciona a Assembleia da República, mas gostava que me explicassem, para poder compreender, por exemplo, como pôde Ricardo Rodrigues trabalhar apenas 1 dia em Outubro, 9 em Novembro, 7 em Dezembro, 11 em Janeiro, 4 em Fevereiro, 9 em Março e 11 em Abril, nos quais já se incluem as sessões de trabalho parlamentar. Onde é que andou nos restantes? Trabalhou on line? De certeza que haverá alguém disponível para apresentar uma inatacável justificação para estes singulares 52 dias de trabalho em 5 meses e meio.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Um poço vazio

A minha fome é um poço vazio. Nada cresce lá dentro. Não é suficientemente húmido para hospedar répteis nem seco para agradar aos mamíferos, e a escuridão desencoraja as ervas que costumam crescer nos vãos de pedra. É um vácuo fundo, para onde atiro coisas velhas que já não prestam cá em casa. Velhas cadeiras, objectos que deixaram de servir ou se partiram. Cá no bairro não há recolha de monos, e uma pessoa tem de arranjar maneira de se desfazer das antiguidades sem estardalhaço, com um mínimo de trabalho. Poupar energia é o meu lema.
Está lá fora no quintal, perto das laranjeiras, essas, sim, bem viçosas, perfumadas, um regalo. As visitas perguntam-me, porque não acabas com aquilo?
Acabar como? Como é que se acaba com um poço vazio, que nunca serviu, que foi um erro na construção desta casa? Nunca houve água naquele lugar. Chamar-lhe poço é um exagero: um buraco escuro, isso sim. A ideia foi boa, mas nenhuma boa ideia sozinha garante a realização de um projecto. Se tivesse sido mais ao lado...
E as pessoas dizem-me, podias aterrar isto. Deitavas-lhe pedras para dentro, terra... alisavas. Esquece o poço, mulher! Respondo-lhes que não é assim. O que eu queria era enchê-lo de água. Descobrir um veio freático, talvez mais fundo, e ter ali água clarinha e fresca, musgo e fetos pelas paredes molhadas. Um poço não se aterra. Havia de lá ficar para sempre, mesmo aterrado. Um poço não se desfaz assim. Agora, água, isso é que eu queria. Posso chamar uma empresa e tentar de novo. Quem sabe se não haverá agora água para encher o poço da minha fome? Isso é que seria uma bela coisa.


Elizabeth Layton, Hunger, 1985

Eu e a Coca-Cola

Respondi a um inquérito sobre a minha relação com a Coca-Cola, que por acaso é muito melhor do que a que tive com qualquer namorado, desde que comecei a tê-los. Se alguém pensa poder destronar a Coca-Cola no meu coração, clique aqui (e faça uma declaração de amor).

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dentro da terra

A certa altura, Grenouille sente necessidade de se esconder e isolar, e procura um esconderijo na montanha, julgo que em Auvergne. Aí, encontra uma toca já escavada por animais, que aprofunda, e na qual hiberna. Vive dentro da terra, em transe, alimentando-se de raízes, nas raras vezes em que sai, e bebendo a água que escorre entre pedras. Vive na escuridão. Envelhece. Amadurece. E tudo à volta é pedra do início do tempo, e terra e ar. Passam os anos.

O Perfume, de Patrick Suskind, é um livro que aconselho aos alunos mais velhos que afirmam não gostar de ler. Nem sempre resulta, mas, de forma geral, a quantidade e qualidade da peripécia prendem a leitura, e a construção da personagem principal gera suficiente horror.
Gostaria de ser capaz de criar, um dia, uma personagem equivalente ao incompreendido Grenouille. Um criador de perfumes que ao nascer escorrega do útero para um charco de restos de peixe mal cheiroso - o fundo de uma banca do mercado, e procura pela vida fora uma ideia de beleza, de maravilhamento, que nunca tenha sido experimentado, criando uma droga feita a partir do que as pessoas verdadeiramente são.
Quando os alunos me perguntam qual a minha parte preferida do livro ficam sempre decepcionados. Não gostam. E não sei explicar-lhes muito bem por que gosto tanto, embora me esforce. O que nos leva a gostar de algo remete para a nossa vivência pessoal, para os nossos desejos e ambições, para o que tememos ou rejeitamos. Uma escolha é sempre um acto autobiográfico, e eu creio que a minha escolha do capítulo preferido de O Perfume, o seu refúgio nas entranhas da terra, não abone grande coisa em meu favor.

domingo, 2 de maio de 2010

Leiam os meus livros às escondidas

O meu livro tem uma linguagem muito crua e algumas pessoas ficaram escandalizadas.
Qual linguagem? Cona? A cona das pretas? Deveria ter escrito como? Vamos lá ver as hipóteses possíveis:
1. As pretas tinham a passarinha larga.
2. As pretas tinham o pipi largo.
3. As pretas tinham a vagina larga.
4. As pretas tinham o orgão sexual largo.
5. As pretas tinham as partes baixas largas.
7. As pretas tinham a boca do corpo larga.
Nunca tive como propósito escrever um livro para crianças, e o Caderno é um texto literário, não um ensaio nem uma reportagem.
Mas mesmo que não fosse, chateia-me, na minha vida pessoal, ter de usar eufemismos, perífrases, metáforas ou vocabulário médico para designar realidades que a morfologia da língua portuguesa contempla exemplarmente.
Vamos agora ao foder. O meu pai gostava de foder. Tal como para cona, as alternativas são inúmeras, embora não satisfaçam os requisitos da minha intenção expressiva.
1. O meu pai gostava de pinocar.
2. O meu pai gostava do truca-truca.
3. O meu pai gostava de fornicar.
4. O meu pai gostava de ter relações sexuais.
5. O meu pai gostava de fazer amor.
6. O meu pai gostava de dormir com mulheres.
Não ofendamos mais o meu pai. O homem gostava de foder, valha-nos Deus! Era de foder, não de pinocar, nem de truca-truca nem de fornicar. E recuso-me a usar figuras de estilo para a função! Mudem de canal. Leiam os meus livros às escondidas. Não me peçam é para evitar a cona e a foda, palavras como outras, como garganta, boca, mão, teta, mama, barriga e coração.
Como é que uma cultura tão assente no prazer material, no prazer do sexo, enquanto ideologia, pode temer tanto os vocábulos com ele relacionados? É muito crua a minha linguagem? É natural. Sou uma pessoa objectiva. E pior, intensa. Não faço desvios, não navego ao largo. E isto, na nossa terra, parece mal. Falar, gesticular, pensar, ter opinião também. Oh, a minha mãe sempre me ensinou que os calados ganham mais. E ganham. Eu bem vejo que ganham, não sou é concorrente ao mesmo prémio. O que me faz feliz nem sempre é o que faz feliz os outros. Vou andando no rufar da vida. Não caminho ao seu lado. Estou inteiramente metida nela.

sábado, 1 de maio de 2010

Queria ser outra

A Roménia é claramente o Oriente a Norte. Sente-se um fatalismo alegre; uma brusca necessidade de sobrevivência intersecciona certo desejo de inconsciência. A música dos ciganos ouvida ao longe, pelas estradas, é tão estupidamente alegre que me apetece chorar. O que canta esta gente? O que dança? O que festeja?
No Oriente, há cacimbo pela noite. Os dias são quentes e húmidos. A atmosfera pesa lentamente, e eu sinto-me tão só e perdida, que me ocorrem pensamentos suicidas. Em alternativa, dormir.
Quando chegámos ao albergue, perto de Sucevita, onde dormiríamos, segundo os nossos irrealistas planos de viagem, era tarde demais. Duas da manhã. Estava fechado e não havia quem nos recebesse. Na minha memória, uma luz fraca pendia sobre a porta onde S. bateu. É provável que não houvesse luz alguma para além do luar. Estacionámos junto ao edifício e concluímos que a solução seria dormir no Citroen, rodeadas pela floresta.
Não durmo em qualquer lugar. Não durmo em pé nem sentada nem inclinada nem nos aviões nem nos comboios nem no cinema. Durmo bem no chão, se puder esticar-me e pousar a cabeça numa superfície macia, como um casaco. Mas não durmo no chão de um lugar no qual me sinta insegura.
Dentro do carro, escutando o piar das aves nocturnas, o ruído dos insectos e bichos que vagueavam ordenadamente pela escuridão, o rumor das águas de um ribeiro próximo, a brisa tocando os ramos das árvores do bosque, sentindo a humidade da noite, podia dizer-me relativamente segura. Tinha-me sido atribuído o melhor lugar do automóvel, o banco de trás, mas o problema consistia em saber onde colocar as pernas. Sou grande demais. Sobra sempre uma parte de mim que não sei onde arrumar. Nunca caibo. O que fazer de mim, e comigo?
Passámos uma noite em grande desconforto. S. dormiu. Ouvia-lhe a respiração pesada, à frente, e pensava que queria ser igual. Queria adormecer sentada no banco do pendura com o encosto ligeiramente inclinado. Queria ser uma pessoa fácil, diferente, outra. Queria não ter medo, não duvidar, não prever.
Deitei-me de lado e entreguei-me ao meu ofício nocturno mais frequente: pensar. De manhã haveríamos de comer qualquer coisa, o que houvesse, tomar um banho quente, sacudir a cabeça e depois partiríamos em direcção aos mosteiros da Bucovina. Ia correr tudo bem. Era só preciso sobreviver ao frio dessa noite.