Mas acha que há assim tanta diferença entre fingir e falar a sério? [Arthur Schnitzler, A Cacatua Verde]
Domingo, 30 de Maio de 2010
Pertenço pouco
Sábado, 29 de Maio de 2010
Então, e as meninas?
Sexta-feira, 28 de Maio de 2010
Seguranças privados: má-fé, arrogância e abuso de poder
2. Se um passageiro alega não ter moedas para comprar os referidos sacos, agradece-se que indiquem onde podemos trocar uma nota, ou alguém mande ali colocar uma máquina de trocos ou arranjem, por gentileza, um stock de moedas. A resposta correcta para as arranjar não é "vá ali ao café e peça qualquer coisa", porque ninguém pode ou deve ser levado a gastar 1,25 € num café para arranjar forma de gastar 1 € em sacos de plástico. A resposta também não deverá ser "só no terminal 1", porque condicionar uma pessoa a deslocar-se, carregada, ao terminal 1, esperando por um autocarro, e regressando nele, quando o voo parte em meia hora...
Felizmente, por oposição à má-fé, arrogância e abuso de poder dos prosegures do terminal 2 do aeroporto da Portela, existe a simpatia dos agentes da PSP no gabinete ao lado. Vi-me, portanto, obrigada a entrar na PSP para pedir ajuda; os três agentes juntaram as moedinhas do bolso de cada um e trocaram-me a nota, ficando de acertar contras entre si. E mais, concordaram comigo quanto ao lobbie prosegur - máquinas de sacos - café para trocar moedas. Grande roubalheira em cadeia que ali se montou.
Este poste serve, pois, dois objectivos: agradecer aos agentes da PSP que me ajudaram sem hesitar, e lembrar aos lacaios da segurança que a ajuda aos passageiros e a boa educação também fazem parte das suas funções. E que o poder de que se sentem investidos não vale um carapau seco. Não lhes reconheço nenhum nem tenho medo deles. Na verdade, as únicas pessoas que ali têm poder são os agentes da PSP ou os comandantes dos aviões. Eles são apenas porteiros que remexem as malas de quem entra. Uma profissão que, sendo exercida por eles, se torna verdadeiramente mal cheirosa.
Quinta-feira, 27 de Maio de 2010
Isabela no Funchal
Terça-feira, 25 de Maio de 2010
Agressividade e dominância
Encontro-te todas as noites
Encontrava-a de novo. Ela ia com o marido e os filhos, ainda bastante jovem, indiferente, cumprimentando-o de longe, como se se conhecessem mal, ou fazendo de conta que não o conhecia. E esse era exactamente o dia em que ele saíra de casa com a roupa velha, sem se barbear, o cabelo mal penteado. Nos sonhos era assim: ela, no seu melhor; ele, um indigente. Como poderia ela respeitá-lo ou admitir que tinham tido um caso tão bonito quanto trágico?
Queria esconder-se. Escondia-se. Nos últimos assentos do autocarro, atrás de um grupo de pessoas, mudando de passeio. Como pudesse. Mas ela via-o, por mais que se escondesse. Não havia forma de fugir a esse olhar culposo que lhe dizia "meu Deus, como estás mal, como envelheceste! Devias deixar de fumar, fazer jogging, usar um creme hidratante." Nos últimos 10 anos as mulheres tinham passado a achar que um homem devia usar creme hidratante e máscara para amaciar o cabelo. E isso era o menos. Dava tudo para estar no seu esplendor de homem nesses encontros em que a via, em sonhos, mas tão reais. Dava tudo para merecer dela um olhar aprovador, um "muito bem, estás óptimo" adivinhado, apenas. Ela não podia imaginar o que tinha sido viver debaixo da sua pele nos últimos 30 anos. Não sabia o que era uma ausência. Ele poderia enumerar meia dúzia de sinónimos em cinco segundos.
E se ela tivesse sentido o mesmo? Se tivesse, em silêncio, sem um sinal, carregado a mesma falta até se cansar? Não era impossível. Se afinal aquela mulher tivesse razão em não suportar vê-lo, olhá-lo, imaginar que existia e a provocava? Era uma ideia insuportável que nunca lhe tinha ocorrido e que preferia afastar da mente. Ela era insensível. Ponto final. Desprezava-o. Parágrafo. Nisto conseguia acreditar.
De resto eram só sonhos. Nenhum daqueles encontros fora por um minuto real, embora acontecessem todas as noites.
Segunda-feira, 24 de Maio de 2010
A vida não é uma festa
Domingo, 23 de Maio de 2010
Nem precisava de saber falar
Woody Allen
Aqui no meu bairro existe também um senhor, electricista reformado, que todas as tardes espera pelo regresso das senhoras, para, esmeradamente, as ajudar a estacionar... - é um desvelo.
No outro dia, perante um carro muito luxuoso que ali estava parado, saiu-se a dizer: isto é que um carro; com um destes tinha as mulheres todas que quisesse, nem precisava de saber falar...
Enviado por mail por leitor atento.
Sexta-feira, 21 de Maio de 2010
Onde é que liberdade de expressão é um atentado ao pudor?
Não fumo, não me drogo, não gosto de apanhar sol nem de ouvir trance, mas é-me indiferente que outros fumem, consumam drogas, apanhem montes de sol e ouçam a música que lhes apetecer ouvir, desde que não me veja envolvida contra minha vontade - são direitos que lhes assistem. Passo a vida a dar este exemplo: os meus vizinhos do lado, no que me toca, são iguais pessoas quer pratiquem sodomia, quer não. É assunto que me interessa tanto como saber quando devem do empréstimo para o carro (admito que haja quem também goste de estar a par das finanças e posses dos vizinhos, mas eu nem sei se os meus têm carro).
O direito a uma vida privada e a agir nos limites da uma esfera de liberdades, individual e adulta, são ainda um luxo, em muitos lugares do mundo. E nem é preciso ir longe. Se vivesse em Mirandela ou Vila Real teria de prestar contas sobre a singularidade dos meus hábitos e existência, e, provavelmente, acumularia, já, um ou mais processos jurídicos para resolver - é que a expressão livre do pensamento continua sendo um atentado ao pudor. Há lugares onde pagamos um preço muito alto para nos darmos ao luxo de agir em liberdade. É por isso que eu, gostando muito dos passarinhos e das florzinhas do campo, não penso sair da cidade.
Quinta-feira, 20 de Maio de 2010
Um homem tem as suas necessidades
De vez em quando, um ou outro ousa confiar-me intimidades. O discurso é sempre o mesmo. Ainda sou novo e saudável, mas o pior é que a minha mulher desde que tirou o peito/as miudezas já não se interessa por nada, e um homem tem as suas necessidades. Desculpe estar a dizer-lhe isto, não leve a mal, mas a menina, a menina ou a senhora?, a menina é muito bonita. Tem uns olhos e um sorriso... como é que hei-de dizer... vê-se que a menina deve ser uma pessoa muito doce. E eu tenho muito tempo livre, sabe? Vive sozinha com as cadelinhas? Ah, bom, bom. Pois é, não leve a mal dizer-lhe isto. E eu não levo, embora tome consciência de que este meu voluntariado tem os seus riscos. Gosto de ouvir os velhotes, de ajudar na medida do possível, mas apenas na medida do possível. Faço de conta que não percebo o que estão a propor, ou encorajo-os a procurar alguém que possa resolver o seu problema. O pior, o pior mesmo, é que os senhores deixam de me falar. No dia seguinte já não estão à porta do café à hora em que passo e desaparecem sem rasto.
Terça-feira, 18 de Maio de 2010
Finalmente, a Igreja Católica abençoou-me as cadelas
Uma velhota na Cova da Piedade queria vender-me uns santinhos com a imagem do Santo Padre. Disse que não, muito obrigada. Respondeu-me, olhe que tenho aqui outros, e também anjinhos: o anjo Gabriel, o Anjo da Guarda... Ah, deixe lá, exclamei enquanto andava, já tenho dois anjinhos lá em casa.
Minha senhora, muito obrigada e muito boa sorte para os seus meninos. São meninos?
Não, são meninas.
Que Deus as abençoe, minha senhora.
Segunda-feira, 17 de Maio de 2010
A porcaria das pessoas
Sou, graças a Deus, do tempo em que dávamos milho e pão esfarelado aos pombinhos, que vinham às centenas; eram tantas asas que ninguém nos via no meio da passarada nervosa.
Sou do tempo em que os pombinhos eram criaturas de Deus, tão inocentes, alegres, medrosos e afoites como crianças. Foi um tempo que, felizmente, durou muito tempo.
Os pombos não são ratos, precisam de comer, como nós, e na cidade há que recorrer ao que cai. Os pombos não transmitem doenças, apanham-nas dos humanos. O meu marido diz que o pior são as cagadelas. Que ainda ontem me tirou do arame uma t-shirt toda borrada de uns que fazem ninho no terraço e pousam no beiral por cima da varanda. Respondi-lhe que cagadela de pombo é cagadela santa, e que o que se suja, se lava. Gosto de pombos. Gosto de os ver voar a pique, dar de comer aos borrachinhos... A porcaria dos pombos não me incomoda. O que me incomoda é a das pessoas, muito mais diversa e fatal. Essa abunda e ninguém pensa em exterminar a fonte.
Sábado, 15 de Maio de 2010
O sucesso automático
Toda a nudez docente será castigada
O que mais me custa é o analfabetismo de quem sabe ler.
Há uma enorme diferença entre mim e a professora de Mirandela: no Caderno, a nudez está verdadeiramente nua.
Quarta-feira, 12 de Maio de 2010
Multidões
Isabela na Radio França Internacional
Terça-feira, 11 de Maio de 2010
A Igreja não tem culpa
Não me escandaliza, primeiro, porque os párocos são seres humanos, e, segundo, porque entre os párocos existem pessoas tão disfuncionais como qualquer leigo.
Não me passaria pela cabeça a ideia de que um padre não sentisse atracção sexual por uma mulher, um homem ou uma criança. Acontece aos seres humanos. Os que têm responsabilidades dentro da Igreja não são pessoas diferentes. Alguém quis que fossem mais sagrados. Eles quiseram, talvez. Alguns conseguiram. Devem sentir-se como eu relativamente ao apelo sedutor do croissante misto, "não devia, não devia, não devia, mas, ai, apetece-me tanto, é só uma trinquinha, e, pronto, agora sinto-me muito culpada, mas já está, que fazer?"
Os problemas da Igreja não pertencem à Igreja, mas à sociedade, na medida em que a Igreja a acolhe. Se a pedofilia foi e é uma prática corrente, e todos, de alguma forma, passaram por ela, como objecto ou testemunha, como poderia a Igreja estar imune? Nessa presunção da diferença, a própria Igreja falha. Acredita que, ao escolher um caminho espiritual, teriam de revelar uma moral incorruptível. Trata-se de uma questão insolúvel no seio da Igreja; mesmo que venham a conceder, aos religiosos, o direito a quebrar o voto de celibato, mesmo que se abram as suas portas às mulheres. A abertura da Igreja não servirá como garantia de pureza, porque entre homens e mulheres livres no exercício do sacerdócio, celibatário ou não, existirão sempre os que aceitam as regras, e as cumprem, e os restantes. Nas igrejas protestantes, onde o voto de celibato não existe, a pedofilia, bem como o assédio sexual e moral não desapareceram. Porquê? Porque no meu bairro, de onde pode sair matéria-prima sacerdotal, também cá temos de tudo.
Este não é um tempo mais pedófilo nem mais orgíaco, porque todos os tempos o foram, havia era menos comunicação social, ou seja, menos polícia de costumes. Havia segredo.
Segunda-feira, 10 de Maio de 2010
Como estimular um filho a ler e escrever
O que fiz ao Corpo do Senhor

Fiz a primeira comunhão em Moçambique, na igreja da Matola nova. Não sei se havia Igreja na Matola velha; é possível. O padre era um senhor de batina branca, com uma grande trunfa morena, magro, de estatura média-alta, com óculos, pelos seus 40 e picos. Um bocado comunista demais para o gosto dos meus pais, segundo pude escutar. E porquê? Bem, porque constava que o padre protegia muito os negros, defendendo que tínhamos os mesmos direitos. Durante muito tempo achei que os comunistas eram pessoas que gostavam dos pretos.
No dia da primeira comunhão - a foto até aparece no Caderno - eu, e uma boa centena de meninas, 90% das quais, negras, fomos receber o Corpo de Cristo pela primeira vez, devidamente confessadas e vestidas a rigor. Eu, de branco, com meias de lã e sapatos de verniz, o que era habitual. A única diferença consistia no facto de nesse dia o vestido ser de bordado inglês. Se calhar não sabem o que é bordado inglês, mas explico com gosto: é um tecido de algodão todo esburacado, e cada buraquinho deve ser visto como uma pétala, nuns casos, ou como uma flor, noutros. Era fresco. Cá por mim, podiam ter-me vestido sempre de bordado inglês. Ter-me-iam poupado grandes estopadas de calor. Mas o bordado inglês era fino e caríssimo, só para ocasiões solenes como casamentos, baptizados e comunhões.
Naturalmente, nunca tinha tomado a hóstia. Desconhecia a sua consistência e sabor. Queria experimentar, e devo dizer que era a grande motivação para andar na catequese. Não é que não quisesse aprender sobre a vida de Cristo. Queria. Mas queria muito mais provar a hóstia. Havia todo aquele misticismo sobre ser o Corpo do Senhor, não se poder trincar, apenas deixar que se desfizesse lentamente no interior cavidade oral, um momento muito sagrado, pungente mesmo.
No dia da primeira-comunhão, chegada a minha vez de comungar, abri a boca, mas insuficientemente; o senhor padre inseriu-me a hóstia na ponta da língua e, quando a recolhi, percebi que me tinha ficado colada ao céu da boca e contra os dentes do maxilar superior, metade fora. Apesar das tentativas, não conseguia descolá-la nem escondê-la dentro da boca, como as outras, de maneira que, envergonhada, enquando regressava ao meu lugar, resolvi trincá-la para a fazer desaparecer. E estava demasiado preocupada com a dessacralização para conseguir pensar no sabor.
A minha primeira comunhão não foi, assim, o momento em que recebi o Corpo do Senhor, mas aquele em que o trinquei. E estou em crer que este insucesso marcou para sempre a minha relação com o catolicismo.
Domingo, 9 de Maio de 2010
A vida é maravilhosa
Eles param
Quando pisei o passeio olhei para trás. Era uma longa passadeira. Uma estrada bem larga. E vi o semáforo vermelho para mim. Havia um semáforo! Foram eles que pararam com o verde para eu passar.
Feira do Livro: impressões de uma tarde escura
2. Há muitos anos que não via uma Feira tão pobrezinha. O auditório é um pré-fabricado do tamanho do meu quarto... não há caixas multibanco... cadê o pavilhão onde expunham todos os livros do dia para consulta? As casas de banho, segundo o rapaz da roulotte virada para a das farturas, onde uma tosta de queijo custa 3 euros, disse 3 euros, eram "aquelas coisas brancas ali em baixo". Está bem, a crise, mas e a visita do Papa?
3. Mais uma vez me lembrei, no ponto x da subida do lado direito, por acaso muito perto do stand da Letra Livre, que foi na Feira do Livro de 1991?, 1992?, que o jovem que, com sorte ou azar, deveria ter sido o pai dos meus filhos, me anunciou que ia casar nesse verão. Fui tão burra que lhe respondi, pois fazes muito bem, que eu agora também tenho um programa parecido, vou de férias para a Tunísia. E continuei a subir. Acho que ele desceu.
Fui burra, porque deveria devia tê-lo deixado a esvair-se em sangue, no mínimo com a cabeça partida. Perdi ali uma bela oportunidade para exprimir os meus verdadeiros sentimentos com toda a espontaneidade. É que se o tivesse feito não me lembraria disto duzentos anos depois, sempre que passo pelo ponto x da subida do lado direito. É que irrita.
Feira do Livro: sabe, eu é que sou a autora
Na cena que se segue, lá vou eu em busca do stand da Letra Livre, dando de caras com um senhor que penso conhecer de qualquer outro lado. Diria que já trabalhou na Ler Devagar, ao tempo em que se situava no Bairro Alto, mas, muito sinceramente, pode ser de outra vida, que eu estou farta de conhecer pessoas de outras vidas, não sei é quais, nem posso confirmar se realmente lá estive.
Livros meus, nada vezes nada. Na frente do stand, alfarrabista; no expositor do lado esquerdo, Averno e &etc; expositor do lado direito, vazio.
Consulto os alfarrábios, escolho um que me interessa, e entabulo conversa com o senhor de cabelo comprido que conheço de outra vida, vocês não representam a Angelus Novus?!
Representamos, sim.
Mas não têm os livros em exposição.
Pois não, hoje não, que esteve a chover e tive que tirar os livros do expositor daquele lado. Batia a chuva.
Ah, está bem. E têm o Caderno de Memórias Coloniais?
Temos, temos. É o livro que vende mais. Está sempre a sair.
E eu, muito orgulhosa, sabe, eu pergunto porque não vejo à venda, e eu é que sou a autora, sabe, eu é que sou a autora.
Sábado, 8 de Maio de 2010
Feira do Livro: uma aventura na Livros do Brasil
Hoje, rumei à Livros do Brasil. Queria um livro de Annie Ernoux recomendado por uma leitora. Toda faceira pedi à menina, olhe, se faz favor, era um livrozinho da escritora Annie Ernoux, acho que é Lugar ao Sol, ou qualquer coisa assim.
Annie Ernoux? Annie Ernoux? E voltou-se para dois senhores sisudos, de fato, gravata e óculos de ver ao perto, que pareciam acabadinhos de sair do gabinete de informação de um governo PS. Percebi uma troca de impressões quase em código, uns abanos de cabeça, e a menina voltou, Annie Ernoux não é nossa. Por acaso até sei qual é a editora... - olhou para trás, os senhores sisudos estavam perto - mas a senhora vá ali às informações e pergunte, que eles dizem-lhe.
Muito obrigada. E segui caminho, pensando com os meus botões, se a escritora não é deles, mas sabem a que editora pertence, por que não dizem? Qual é o problema? A isto é que se chama união no sector editorial. Fui-me embora com muito má impressão, como é de calcular.
Nas informações da APEL tive de esperar um bom bocado, porque uns senhores queriam comprar as memórias de um médico de província, mas não estava na feira, não estava, paciência, desculpassem, disse-lhes a funcionária. Chegou a minha vez.
Boa tarde, diga-me, por favor, qual a editora portuguesa da Annie Arnoux. Soletro. Digita rapidamente o nome no computador e devolve-me a seguinte informação, é a Livros do Brasil.
Não pode ser... acabei de vir de lá e disseram-me que a Annie Arnoux não é deles.
Ah, é, é. São dois livros, um chama-se Um Lugar ao Sol e o outro Uma Paixão Simples.
Mas acabei de vir de lá...
Sabe, às vezes a pessoa que está a atender não está bem informada...
... mas estão lá três pessoas...
Volte e diga que na APEL lhe confirmaram esta informação.
Ok. Subo a feira, apresento-me no dito stand com os dentes a ranger, e digo, venho da APEL e os livros de Annie Ernoux são desta editora.
A menina volta-se de novo para os senhores sisudos. Há uma certa movimentação. Catálogos. Consultas às estantes. Nada. Conversa, conversa, tudo em código, não ouço nada, não olham para mim. A certa altura a menina diz-me, Um Lugar ao Sol está esgotado.
Ignorei. Há meia hora atrás não era da sua editora, agora estava esgotado... Continua a movimentação. Catálogos. Folhas A4 impressas e presas por um agrafo. Demora. Olho distraidamente para uma fileira de livros em saldo, do meu lado direito, e vejo a lombada de dois exemplares seguidinhos de Annie Ernoux, Um Lugar ao Sol. Pego num e digo-lhes, a Annie Ernoux está aqui. Movimentação. Agitação. Ah, pois é. Olha que engraçado, é daquela colecção, pois é. Pois, está bem. E continuam procurando nas prateleiras. Pergunto o preço, porque os livros não estão marcados. Alguém atira, cinco euros. Podiam ter dito dois ou três, mas para meu mal saiu-lhes cinco. Deve ser o preço mínimo da Livros do Brasil. Continuam a conferenciar sobre Annie Ernoux. Demoro a pagar. Com um bocado de sorte pode ser que ainda encontrem o segundo título. Se lá voltar amanhã pode ser que já tenha aparecido.
Mulher-cão
O ano passado encontrei-me com uma leitora do ex-Mundo Perfeito cuja filha queria conhecer a mulher-cão (ver fotomontagem que constitui o banner do MP), ou seja, eu. Fez-me muitas perguntas sobre a vida quotidiana de uma mulher-cão, às quais respondi com muito agrado. Queria saber se eu podia falar com os outros cães, se podia pensar como eles, se também dormia no chão ou ladrava muito... Orgulho-me de ser uma mulher-cão, de haver uma criança que pode compreendê-lo, sem que tenha de explicar porquê. Não há porquê. Sou. Algumas crianças não estão ainda contaminadas por excesso de cultura humana, e para elas o mundo é realmente perfeito, sem tabus, pelo que é possível conversar com elas seriamente sobre este assunto. Podem compreender a minha dupla natureza.
Não suportar animais e só conseguir imaginá-los no prato seria amputar uma parte significativa da vida. Conheço pessoas assim, e parecem-me excessivamente tristes e rigorosas.
O que separa as pessoas que gostam de animais das que não gostam é uma questão subjectiva de cultura e educação, porque os animais são exactamente os mesmos.
Sexta-feira, 7 de Maio de 2010
Preciso de tempo
Conclusão que me deixa um bocado deprimida: dentro de 23 anos terei 70, e 23 anos passam num ápice.
Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
As pessoas sensíveis
Falsas frágeis
Quarta-feira, 5 de Maio de 2010
Os meus meses têm mais dias
A diferença entre o deputado Ricardo Rodrigues e outros políticos é só essa: há quem engane mais. Há quem não tire gravadores: mande tirar: ou use estratégias alternativas diversas.
A política portuguesa enoja-me. Os negócios, as influências, as protecções. Uma máfia legalizada. Quem é o inocente que anda pela política em nome da nação, pela nação?
Gostava de acreditar que há realmente deputados nos quais se pode confiar, e a quem o exercício do seu mandato não serve apenas como plataforma estratégica de acesso ao que pretendem aceder. Gostava de ver clareza na sua acção e trabalho dedicado, não em prol da política do seu partido, mas em defesa dos interesses de quem os elegeu.
Não sei como funciona a Assembleia da República, mas gostava que me explicassem, para poder compreender, por exemplo, como pôde Ricardo Rodrigues trabalhar apenas 1 dia em Outubro, 9 em Novembro, 7 em Dezembro, 11 em Janeiro, 4 em Fevereiro, 9 em Março e 11 em Abril, nos quais já se incluem as sessões de trabalho parlamentar. Onde é que andou nos restantes? Trabalhou on line? De certeza que haverá alguém disponível para apresentar uma inatacável justificação para estes singulares 52 dias de trabalho em 5 meses e meio.
Terça-feira, 4 de Maio de 2010
Um poço vazio
Está lá fora no quintal, perto das laranjeiras, essas, sim, bem viçosas, perfumadas, um regalo. As visitas perguntam-me, porque não acabas com aquilo?
Acabar como? Como é que se acaba com um poço vazio, que nunca serviu, que foi um erro na construção desta casa? Nunca houve água naquele lugar. Chamar-lhe poço é um exagero: um buraco escuro, isso sim. A ideia foi boa, mas nenhuma boa ideia sozinha garante a realização de um projecto. Se tivesse sido mais ao lado...
E as pessoas dizem-me, podias aterrar isto. Deitavas-lhe pedras para dentro, terra... alisavas. Esquece o poço, mulher! Respondo-lhes que não é assim. O que eu queria era enchê-lo de água. Descobrir um veio freático, talvez mais fundo, e ter ali água clarinha e fresca, musgo e fetos pelas paredes molhadas. Um poço não se aterra. Havia de lá ficar para sempre, mesmo aterrado. Um poço não se desfaz assim. Agora, água, isso é que eu queria. Posso chamar uma empresa e tentar de novo. Quem sabe se não haverá agora água para encher o poço da minha fome? Isso é que seria uma bela coisa.

Eu e a Coca-Cola
Segunda-feira, 3 de Maio de 2010
Dentro da terra
O Perfume, de Patrick Suskind, é um livro que aconselho aos alunos mais velhos que afirmam não gostar de ler. Nem sempre resulta, mas, de forma geral, a quantidade e qualidade da peripécia prendem a leitura, e a construção da personagem principal gera suficiente horror.
Gostaria de ser capaz de criar, um dia, uma personagem equivalente ao incompreendido Grenouille. Um criador de perfumes que ao nascer escorrega do útero para um charco de restos de peixe mal cheiroso - o fundo de uma banca do mercado, e procura pela vida fora uma ideia de beleza, de maravilhamento, que nunca tenha sido experimentado, criando uma droga feita a partir do que as pessoas verdadeiramente são.
Quando os alunos me perguntam qual a minha parte preferida do livro ficam sempre decepcionados. Não gostam. E não sei explicar-lhes muito bem por que gosto tanto, embora me esforce. O que nos leva a gostar de algo remete para a nossa vivência pessoal, para os nossos desejos e ambições, para o que tememos ou rejeitamos. Uma escolha é sempre um acto autobiográfico, e eu creio que a minha escolha do capítulo preferido de O Perfume, o seu refúgio nas entranhas da terra, não abone grande coisa em meu favor.
Domingo, 2 de Maio de 2010
Leiam os meus livros às escondidas
Qual linguagem? Cona? A cona das pretas? Deveria ter escrito como? Vamos lá ver as hipóteses possíveis:
1. As pretas tinham a passarinha larga.
2. As pretas tinham o pipi largo.
3. As pretas tinham a vagina larga.
4. As pretas tinham o orgão sexual largo.
5. As pretas tinham as partes baixas largas.
7. As pretas tinham a boca do corpo larga.
Nunca tive como propósito escrever um livro para crianças, e o Caderno é um texto literário, não um ensaio nem uma reportagem.
Mas mesmo que não fosse, chateia-me, na minha vida pessoal, ter de usar eufemismos, perífrases, metáforas ou vocabulário médico para designar realidades que a morfologia da língua portuguesa contempla exemplarmente.
Vamos agora ao foder. O meu pai gostava de foder. Tal como para cona, as alternativas são inúmeras, embora não satisfaçam os requisitos da minha intenção expressiva.
1. O meu pai gostava de pinocar.
2. O meu pai gostava do truca-truca.
3. O meu pai gostava de fornicar.
4. O meu pai gostava de ter relações sexuais.
5. O meu pai gostava de fazer amor.
6. O meu pai gostava de dormir com mulheres.
Não ofendamos mais o meu pai. O homem gostava de foder, valha-nos Deus! Era de foder, não de pinocar, nem de truca-truca nem de fornicar. E recuso-me a usar figuras de estilo para a função! Mudem de canal. Leiam os meus livros às escondidas. Não me peçam é para evitar a cona e a foda, palavras como outras, como garganta, boca, mão, teta, mama, barriga e coração.
Como é que uma cultura tão assente no prazer material, no prazer do sexo, enquanto ideologia, pode temer tanto os vocábulos com ele relacionados? É muito crua a minha linguagem? É natural. Sou uma pessoa objectiva. E pior, intensa. Não faço desvios, não navego ao largo. E isto, na nossa terra, parece mal. Falar, gesticular, pensar, ter opinião também. Oh, a minha mãe sempre me ensinou que os calados ganham mais. E ganham. Eu bem vejo que ganham, não sou é concorrente ao mesmo prémio. O que me faz feliz nem sempre é o que faz feliz os outros. Vou andando no rufar da vida. Não caminho ao seu lado. Estou inteiramente metida nela.
Sábado, 1 de Maio de 2010
Queria ser outra
Quando chegámos ao albergue, perto de Sucevita, onde dormiríamos, segundo os nossos irrealistas planos de viagem, era tarde demais. Duas da manhã. Estava fechado e não havia quem nos recebesse. Na minha memória, uma luz fraca pendia sobre a porta onde S. bateu. É provável que não houvesse luz alguma para além do luar. Estacionámos junto ao edifício e concluímos que a solução seria dormir no Citroen, rodeadas pela floresta.
Não durmo em qualquer lugar. Não durmo em pé nem sentada nem inclinada nem nos aviões nem nos comboios nem no cinema. Durmo bem no chão, se puder esticar-me e pousar a cabeça numa superfície macia, como um casaco. Mas não durmo no chão de um lugar no qual me sinta insegura.
Dentro do carro, escutando o piar das aves nocturnas, o ruído dos insectos e bichos que vagueavam ordenadamente pela escuridão, o rumor das águas de um ribeiro próximo, a brisa tocando os ramos das árvores do bosque, sentindo a humidade da noite, podia dizer-me relativamente segura. Tinha-me sido atribuído o melhor lugar do automóvel, o banco de trás, mas o problema consistia em saber onde colocar as pernas. Sou grande demais. Sobra sempre uma parte de mim que não sei onde arrumar. Nunca caibo. O que fazer de mim, e comigo?
Passámos uma noite em grande desconforto. S. dormiu. Ouvia-lhe a respiração pesada, à frente, e pensava que queria ser igual. Queria adormecer sentada no banco do pendura com o encosto ligeiramente inclinado. Queria ser uma pessoa fácil, diferente, outra. Queria não ter medo, não duvidar, não prever.
Deitei-me de lado e entreguei-me ao meu ofício nocturno mais frequente: pensar. De manhã haveríamos de comer qualquer coisa, o que houvesse, tomar um banho quente, sacudir a cabeça e depois partiríamos em direcção aos mosteiros da Bucovina. Ia correr tudo bem. Era só preciso sobreviver ao frio dessa noite.

