Mas acha que há assim tanta diferença entre fingir e falar a sério? [Arthur Schnitzler, A Cacatua Verde]
Segunda-feira, 28 de Junho de 2010
I corpi attraversati a fondo
Agora vou lá abaixo reinscrever-me na hidroginástica.
Domingo, 27 de Junho de 2010
A paz do tempo
Ontem, encontrei os documentos sanitários necessariamente emitidos no Maputo para trazer o meu cão Farrusco, que tenho ao colo na capa do Caderno. Estão manchados de mercúrio para as feridas, porque o Farrusco, a certa altura, foi violentamente mordido por um cão de guarda, e ao tratá-lo devo ter sujado sem querer esses papéis. Como posso deitar fora a papelada com trinta e tal anos relativa à conformidade sanitária do Farrusco, que morreu em 1976? Como conseguem fazer isso os outros?
Ainda ontem, li que o Saramago retirou dos seus livros as dedicatórias à primeira mulher. Mas consegue permanecer-se inteiro, gente após roubar o que se ofereceu? Uma dedicatória? Juro que não sabia.
Também li que em Gori depuseram uma estátua a Estaline. Ocorreu-me: onde estão as estátuas depostas? Todas as estátuas depostas? Onde estão as pedras que formaram o Muro de Berlim? Todas essas pedras. Onde está a estátua de Mouzinho de Albuquerque a cavalo e os relevos da prisão de Gungunhana que se encontravam junto à catedral de Lourenço Marques? Onde se encontra toda a estatuária da ditadura, do Estado Novo? Deveríamos ter um museu de depostos. Um lugar onde aquilo que um dia teve honra, não interessa qual nem a que preço, pudesse repousar em paz. A paz do tempo. Da história. Do que não pode ser desfeito.
Sábado, 26 de Junho de 2010
Pedras
Quinta-feira, 24 de Junho de 2010
O mal gratuito
Lá em baixo, à hora do almoço, o velhote perneta que chama sempre a Morena para lhe fazer festas, atirava aos pombos pedacinhos de pão sobrante, que esfarelava nas mãos. Muitas vezes, os pombos partilhavam a refeição com a Morena. Davam-se bem.
No prédio azul, há uma loja de frescos que tem à porta uma tigela de água para os pombinhos. Ontem, junto à água, apenas um, doente, de bico aberto, aflito. O velhote perneta tinha espalhado o pão de cada dia pelo chão, mas não tinha clientes. Perguntei-lhe, "então, os pombinhos?". "Estão enjoados da refeição", respondeu-me, sorrindo. Não quis dizer-lhe a verdade. Não quis dizer-lhe que o caçador que mora no prédio de trás envenenou os pombos. Que poucos restaram, e esses estão doentes. E que os borrachinhos por cima da minha casa deixaram de chiar. A consciência do mal gratuito não beneficia ninguém.
Terça-feira, 22 de Junho de 2010
A Isabela arranjou namorado (finalmente)
Sexta-feira, 18 de Junho de 2010
O vício da liberdade

Não costumo sentir grande emoção quando alguém morre, sou sincera. Morreu, morreu. Morremos todos. É assim que é. Mas hoje não consegui permanecer serena no momento em que escutei a funcionária da biblioteca dizer a outro, então, professor, o nosso Saramago lá se foi. Tocou-me. E quero perceber porquê.
Como escritor, admiro em Saramago o imaginário fertilíssimo, a ironia decepcionada, a leviandade com que expunha o seu pensamento sem peias, e o seu humanismo socialmente incorrecto, e profundamente religioso. Toda essa dúvida cristã que o envolvia, essa procura de respostas que não vinham nos livros da igreja. Enquanto cidadão, invejei-lhe o indefectível vício de liberdade. Fez o que queria. Ignorou os ignorantes. Esteve-se nas tintas para o que esperavam dele por ser português, por ser Nobel ou outra coisa qualquer. Por último, admirei-o por reconhecer, com orgulho, que viera dos fundos do quintal. Essa origem era uma bandeira. A dos que levantam a cabeça, porque é uma cabeça e uma cabeça não se verga. Um orgulho que era também uma raiva. Numa terra onde todos lutam por ser reis ou, no mínimo, senhores, Saramago quis ser um homem, primeiro, e só depois, escritor. Nunca lhe perguntei, mas é o que faz sentido, no seu caso.
Por último, José Saramago morreu com a mesma idade da minha mãe viva. Mas a minha mãe, essa, eu já lho disse, está proibida de morrer.
Quinta-feira, 17 de Junho de 2010
Votem ali em baixo, à direita
Neste momento, vai a frente a discreta opção "O mais possível. Continua. És a maior.", que apoia incondicionalmente o actual aspecto, seguida por "Gostava mais da mulher-cão no meio das flores". Entre as duas, sou sincera, o meu coração balança muito.
Por favor, participem na sondagem.
Não parece África

Devo dizer que tendo vivido 13 anos em Moçambique, nunca passei tanto calor como em Portugal. Para se apanharem temperaturas como as do Alentejo ou do interior do nosso país, no Verão, é preciso, em Moçambique, viajar para Norte, até Tete, ou coisa assim.
De manhã, em Lourenço Marques, nesta altura, havia sempre uma cortina de névoa baixa atravessada por negros que caminhavam a pé, embrulhados em mantas ou capulanas a caminho do trabalho. Havia um friozinho, sim.
Quando escolhi as fotos para o Caderno havia imagens que considerava lindíssimas e que queria incluir, mas alguém me dizia, estás toda encasacada, isso poderia ter sido tirado na terra da minha mãe. Isso não parece África. E como não parecia África, ficaram de fora. Mas África é um continente muito diverso, como qualquer outro.
Quarta-feira, 16 de Junho de 2010
Voar
Ora, a questão é que a aguarela publicada uns textos abaixo, não representa um tordo dos que são perseguidos pelos caçadores lusitanos. É um passarinho lindo, de facto, mas parece que não é um tordo. Sendo assim, resta-me corrigir, explicar que sempre fui uma menina urbana, e deixar aqui a foto do verdadeiro tordo, que me foi enviada pelo referido leitor.
tordo
Adenda: escreve-me um segundo leitor, ornitólogo de prato, tanto quanto sei, acrescentando "uma achega para o dossiê dos passarinhos: o anterior era um pisco (um pettirosso como, mais sugestivamente, dizem os italianos), mas a aguarelista, acho eu, exagerou no vermelho, estendendo-o até ao fundo da barriga." A Micas continua na sua, "piscos ou tordos, eu que os pisque...."
Segunda-feira, 14 de Junho de 2010
O novo aspecto
Domingo, 13 de Junho de 2010
Viste algum tordo?
Norte
Nos meus sonhos existe essa ideia fixa de fugir para Norte, onde os imperativos de sobrevivência nos reduzem ao essencial, e a solidão nunca é uma escolha, mas a vida. Aí, longe de tudo e de todos aqueles que amo e dos quais não posso libertar-me, mesmo que pudesse, fechar-me-ia na datcha durante o Inverno, lendo livros volumosos e escrevendo histórias sobre meninos e meninas tão felizes e perfeitos de coração que poderiam ter sido meus filhos. E na Primavera, quando chegassem as aves, e ervas despontassem, percorreria os campos para cheirar o ar novo e as ervas, e encontrar animais espetando o nariz fora das tocas e fugindo amedrontados dos meus passos.
Teria comigo os meus cães, porque podemos viver longe de tudo, excepto dos animais que guardam parte significativa da nossa alma. Não seria mais feliz. Uma mulher sem terra em viagem para sempre. A mulher simpática. A mulher dos cães. A mulher gorda. Teriam que me chamar alguma coisa e qualquer uma destas serviria bem para sintetizar o que sou. Não sei como se diz isto em russo ou em norueguês, mas aprenderia escutando.
Sábado, 12 de Junho de 2010
A voz de Deus
- Estavam maravilhosas. Ainda não são muito grandes, mas gordinhas e bem assadas... se eu imaginava vir hoje comer sardinhas...
- Onde é que te apetece ir agora?
- Olha, agora vai pôr-me em casa que quero ir ver os casamentos de Santo António. Já casaram de manhã, pelo registo, mas poucos, e de tarde é pela igreja.
- São muitos?
- São.
- Dez, vinte?
- Mais!
- Ena, pá, tanta gente a casar!
- E na igreja é muito lindo, porque vão as noivas todas com os ramos oferecer a Santo António. E à noite, nas marchas, desfilam os casais no final dos bairros.
- Isso é que pior, oh, mãe! Coitados.
- Pois é, que eles já estão cansados. E no dia seguinte vão todos de lua-de-mel para a Madeira. Aquilo vai ser preciso um avião inteiro para os levar. Nunca mais se vão esquecer.
- Para o ano já deve haver casais homossexuais.
- Nos casamentos de Santo António?!
- Sim. Pela lei já podem casar. Como é que lhes vão negar a participação se...
- Nem pensar! O casamento de Santo António é uma coisa religiosa. É o Santo António.
- Está bem que é uma coisa religiosa, e podem usar esse argumento se quiserem casar pela igreja, mas pelo registo não estou a ver como podem recusar, mãe. Não estou mesmo a ver.
(Segundos de silêncio.)
- Este ano não vi lá homens a casar. Só raparigas... quer dizer, raparigas com os noivos.
- Pois, mas para o ano, se calhar...
- Isso ia ser um escândalo... ia toda a gente falar. Era de ir para o jornal. (pausa) Não! Então, tu achas que a câmara vai pagar a esses homens todos para casarem à borla? Isso era um abuso. A câmara não vai nisso. Se querem casar que gastem do bolso deles.
Quinta-feira, 10 de Junho de 2010
Gritar, ah, gritar
Segunda-feira, 7 de Junho de 2010
O sermão
- Oh, stora, a gente quer ir para a praia.
- Têm exame daqui a uma semana e querem ir para a praia?! Estão a dizer-me que não são capazes de aproveitar os próximos dias para estudar e dar o vosso melhor, sabendo que a seguir vão ter três meses seguidos de férias para ir todos os dias para a praia, fazer asneira todos os dias? Olhem que três meses é muito tempo para asneirar, meninos. Tenham juizo. Não estraguem a vossa vida que é tão linda.
- Oh, stora, mas isso das aulas extraordinárias é obrigatório?
- Não interessa se é obrigatório. O que interessa é que já têm idade para perceber que vão ser sujeitos a exame, e se vocês precisam destas aulas! Já viram as notas dos alunos da turma G? Viram a diferença nos testes intermédios?
- Por favor, stora, eles trazem bolachas Maria de casa dentro de um tupperware, e metem as mãozinhas lá dentro, muito delicadamente. São uns nerds, stora.
- Cincos, o que eles são é cincos a todas as disciplinas! Vocês, só com muita água benta. E não é só isso, meninos, ninguém é anónimo nesta estrutura. Cada turma, cada aluno está associado a uma professora, e as vossas notas são também as minhas, para todo o efeito, entendem? É assim que as coisas estão, agora.
- Oh, não...
- Não é "oh, não", é "oh, sim". Quero aqui toda a gente para as aulas extraordinárias, já disse, ponto final.
- Oh, stora, por favor... diga lá ao ministério que nós temos uma vida social.
O professor Ernesto e o marido
Com o tempo, pode ser que o professor Ernesto, director de turma do 9ºF, possa vir a dizer aos pais dos seus meninos, desculpem, mas hoje temos de acabar às oito, impreterivelmente, porque o meu marido vem buscar-me para irmos ao teatro.
A tua voz não era a tua voz

I acto, cena I
Personagens - um pai (José) e uma filha (Maria).
O pai, um homem velho, aparece à entrada do compartimento. Aparenta 70 anos, coxeia como quem teve um acidente vascular cerebral. Tem um olhar bom. É um homem grande e belo apesar da velhice e da doença.
A filha vê-o, larga o tricot e levanta-se, como se contemplasse um fantasma.
Maria – És tu?! (aproxima-se, observa-o bem, toca-lhe na cara, segura-lhe uma das mãos, que observa nas palmas) És tu! Como é que conseguiste?! Estavas lá… como é que conseguiste voltar? Voltaste?! (pausa enquanto pensa e o observa) Mas és tu. És tu, sem dúvidas. Estou tão feliz por te ver. Deixa-me abraçar-te. Não me interessa como vieste. Estou tão feliz por te ter de novo.
(Abraçam-se.)
Maria – Senta-te. Senta-te aqui comigo.
José – Estavas sempre a chamar-me. Em pensamentos, em voz alta, nos livros que escrevias…
Maria – Sim, mas chamar-te era uma forma de me sentir acompanhada. Nunca julguei que viesses, que pudesses vir... Não sabia que isso era possível. Nem no Ghost a Demi Moore teve tanta sorte...
José (rindo-se) – Nós vimos isso juntos. Vim porque precisávamos. Parti mal. Parti sem falar contigo. Sem te dizer o que queria.E tu a mim. Depois, publicaste o O Colonialismo Eras Tu, no qual falavas de mim, de quem fui, da nossa relação… e pedi autorização para vir visitar-te.
Maria – Quer dizer que não vais ficar?
José – Só enquanto for necessário.
Maria – Queres ralhar comigo? Queres brigar? Queres acusar-me de te ter desonrado. De ter manchado a tua memória. Espero que não, pai. Estás lá em cima há anos, ou onde raio vocês estão. Deves ter aprendido alguma coisa entretanto. Devem ter-te metido numa escola, à força, e deves ter escrito muitas vezes, “nós e os pretos afinal somos iguais”. Fizeram-te lá isso?
José – Foi pior que escrever muitas vezes. Tive que o provar. Não quero ralhar, não, Maria. Até parece que passei a vida a ralhar-te... (Olha a filha nos olhos, sorrindo com muita ternura). Tu és a minha menina. És o meu tão-balalão-cabeça-de-cão, lembraste?
(Maria dá uma gargalhada.)
Maria – Lembro. Às vezes ouvia a tua voz pronunciar essa cantilena, e doía-me, porque sabia que a tua voz não era a tua voz, era um eco guardado na minha memória. Tu já cá não estavas. Não eras tu. Não imaginas o que é sentir a falta de alguém que nunca voltará. Que na melhor das hipóteses há-de estar à nossa espera do outro lado, com um bocado de sorte.
José – Era eu. Essa voz era eu. Tu foste o meu antídoto. Nasceste para isso. Vim para falar contigo. Vim, para que possas dizer-me tudo o que sempre quiseste. Para te responder, explicar. Não disseste numa entrevista ao Diário do Dia que gostarias de me ter dito tudo o que pensavas? Pois estou aqui.
Maria – Se sabes o que foi dito nessa entrevista também sabes o que penso e o que escrevi.
José – Por acaso sei.
Maria – Então, falar para quê?
José – Por ti. Sempre por ti.
Domingo, 6 de Junho de 2010
Desdenha de mim
Sábado, 5 de Junho de 2010
Nódoa burra
Mas, meu amor, tu estás à vontade; entre as notícias que circulam por aí, escolhe a teu prazer. Constrói camada a camada aquilo em que te convém acreditar. Interessa que tenhas alguma coisa para contar, todas as sextas, ao jantar, à senhora séria, modesta, contida que te lava as camisas, as calças, as peúgas. Não presto. Sou uma desbocada. Não tenho pudor. Descarrilei a certo passo do caminho. Nunca seria mulher para ti. E, sobretudo, que acabámos por não foder. Isto, sim, deves reiterar sem medo que se torne repetitivo. Íamos fodendo, mas tinhas hora para estar em casa. O conforto do cativeiro.
Se te peço muita desculpa é porque acabou de cair uma norme nódoa de gordura frita do teu jantar mesmo ao centro do peitilho da minha blusa, entre as mamas que um dia tive, mas mandei cortar para te agradar, num futuro improvável. Já usei os solventes e detergentes adequados, esfreguei, pus a peça a corar, mas o amor é uma nódoa tão burra.
Quinta-feira, 3 de Junho de 2010
Barata tonta
Talvez eu devesse tolerar baratas. São criaturas de Deus, como as lagartixas, que não despertam em mim sentimentos assassinos. Por outro lado, em Moçambique, desde que nasci, vivi sempre em casas com baratas debaixo do lava-louças, no motor do frigorífico, atrás do fogão, na arrecadação Quando vim para Portugal respirei de alívio. A população era menor. Tenho tido muita sorte. Faço sempre o esforçozinho sobrevivente de encontrar algo de bom para o que nem sempre resulta bem. Mas as baratas que em Moçambique voavam de parede para parede, e nos subiam pelas pernas durante a noite, não se tornaram realidade ordinária. Tenho medo e nojo dessas perfeitas criaturas de Deus. Deus também erra.
Quarta-feira, 2 de Junho de 2010
Isabela, Aquilino e Afonso

A gatinha chama-se Isabela, mas podem pôr-lhe outro nome, que nunca será mais bonito. Os meninos chamam-se Aquilino e Afonso, por motivos que não posso revelar aqui.
Dou os gatinhos a quem puder fazê-los felizes, vou entregá-los, e ofereço lanche aos adoptantes. Por favor, comecem a escrever rapidamente para omundoperfeito@gmail.com.
De PS a Plano Sócrates
Os iates que paguem a crise
O slogan dos anos 70 continua actualíssimo. Quem enriqueceu com os negócios de fundo falso que a isto nos levaram, que pague a crise. Têm iates, carros de alta cilindrada, vivendas, contas de milhares, acções?! Então paguem a crise. A mim não me sobra nem para contas poupança-reforma. Portanto, este é o único Plano de Estabilidade e Crescimento que consigo aceitar.
Terça-feira, 1 de Junho de 2010
Isabela no Funchal II
Aproveito para agradecer à organização da Festa do Livro do Funchal, nomeadamente a Francisco Faria Paulino, e assistentes Luísa e Maria, pela extraordinária simpatia com que me receberam, excelentes condições proporcionadas e por todo o apoio que me prestaram.
Agradeço, ainda, a Elisa Seixas e Isabel Ventura de Um blogue que seja seu, pelo carinho e amizade que me dedicaram. Foi óptimo conhecê-las, ir almoçar e jantar fora as comidinhas típicas da ilha e levarem-me a passear até ao magnífico Centro Cultural da Calheta.
Muito obrigada a todos.

