segunda-feira, 28 de junho de 2010

domingo, 27 de junho de 2010

A paz do tempo

Estátua de Mouzinho de Albuquerque e relevos da prisão de Gungunhana (Lourenço Marques, anos 50)

Hoje obrigaram-me a deitar roupas fora. Não digo que fossem belíssimas, mas tinham enorme valor estimativo. O pijama que o João Luís me despiu tantas vezes para fazermos amor entorpecidos pelo sono; uma batinha de trazer por casa, com flores e rendas, que poderá ser dos anos 50, mas que a minha mãe costurou em Moçambique, com o seu carinho de mãe, para a filha distante; a blusa com padrão egípcio que estreei quando lancei o meu primeiro livro - estavam a Ondina e o Dinis Machado, que foram tão bons comigo. Como podemos libertar-nos dos objectos que nos trazem balões cheios de espaço-tempo passado?
Ontem, encontrei os documentos sanitários necessariamente emitidos no Maputo para trazer o meu cão Farrusco, que tenho ao colo na capa do Caderno. Estão manchados de mercúrio para as feridas, porque o Farrusco, a certa altura, foi violentamente mordido por um cão de guarda, e ao tratá-lo devo ter sujado sem querer esses papéis. Como posso deitar fora a papelada com trinta e tal anos relativa à conformidade sanitária do Farrusco, que morreu em 1976? Como conseguem fazer isso os outros?
Ainda ontem, li que o Saramago retirou dos seus livros as dedicatórias à primeira mulher. Mas consegue permanecer-se inteiro, gente após roubar o que se ofereceu? Uma dedicatória? Juro que não sabia.
Também li que em Gori depuseram uma estátua a Estaline. Ocorreu-me: onde estão as estátuas depostas? Todas as estátuas depostas? Onde estão as pedras que formaram o Muro de Berlim? Todas essas pedras. Onde está a estátua de Mouzinho de Albuquerque a cavalo e os relevos da prisão de Gungunhana que se encontravam junto à catedral de Lourenço Marques? Onde se encontra toda a estatuária da ditadura, do Estado Novo? Deveríamos ter um museu de depostos. Um lugar onde aquilo que um dia teve honra, não interessa qual nem a que preço, pudesse repousar em paz. A paz do tempo. Da história. Do que não pode ser desfeito.

sábado, 26 de junho de 2010

Pedras

Tiveste sorte. Ontem não te escrevi. Não fui bater à tua porta. Não te persegui quando saíste, insultando-te pelas ruas; uma desvairada que te persegue, amaldiçoa, cobarde, mole, vêem, este, julga-se grande, normal, julga que vale, que é um senhor, que havia de ser homem como eu sou uma mulher. Este nada. Perseguir-te pelas ruas, gritando aos teus ouvidos as injúrias justas, verdadeiras, envergonhando-te, mais do que envergonhando-me, porque já não pertenço à vergonha. Mas, ontem, meu caro, safaste-te à grande. Não marquei o teu número de telefone. Não estava postada à saída do teu trabalho. Nem fui sequer ao teu bairro, que sorte a tua. Não viste o meu rosto que te é tão querido, nem o meu corpo, língua da tua boca. Foi sorte, porque tinha combinado jantar no centro comercial com uns amigos, enxuguei os olhos, lavei a cara, e toda a noite falei e ri com o corpo pesado das tuas pedras.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O mal gratuito

Na minha rua, sobre os telhados dos prédios, arrulhando, fazendo ninhos, havia pombinhos. Brancos, cinzentos, manchados, uma boa dúzia deles. Ultimamente, ao final da tarde, escutava o chiar dos borrachinhos, sobre o meu tecto, quando sentiam os pais chegar com o papo cheio para eles. Ouvia-os e ficava satisfeita, porque a ordem da vida cumpria-se tão perto de mim, e enchia-me da paz de quando tudo está certo.
Lá em baixo, à hora do almoço, o velhote perneta que chama sempre a Morena para lhe fazer festas, atirava aos pombos pedacinhos de pão sobrante, que esfarelava nas mãos. Muitas vezes, os pombos partilhavam a refeição com a Morena. Davam-se bem.
No prédio azul, há uma loja de frescos que tem à porta uma tigela de água para os pombinhos. Ontem, junto à água, apenas um, doente, de bico aberto, aflito. O velhote perneta tinha espalhado o pão de cada dia pelo chão, mas não tinha clientes. Perguntei-lhe, "então, os pombinhos?". "Estão enjoados da refeição", respondeu-me, sorrindo. Não quis dizer-lhe a verdade. Não quis dizer-lhe que o caçador que mora no prédio de trás envenenou os pombos. Que poucos restaram, e esses estão doentes. E que os borrachinhos por cima da minha casa deixaram de chiar. A consciência do mal gratuito não beneficia ninguém.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A Isabela arranjou namorado (finalmente)

O blogue não está de férias, mas funcionará em intermitência até à primeira semana de Julho, por motivos demasiado complexos para estar aqui a explicar.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O vício da liberdade


Conheço muito bem a cara da morte. Tem voz fraca, arrastada, apenas um fio de palavras demasiado húmidas para se conseguirem descolar umas das outras. Traz uma pele branca e baça, cobrindo os músculos lassos de uma arquitectura que já cedeu. Os olhos sem brilho, a cabeça inclinada, o já não interessa. Conheço esses sinais porque os vi no meu pai, e logo a seguir ele morreu. Quando vi Saramago pela última vez na televisão, a propósito de Caim, revi a morte. Ela estava ali. E pensei, estás nas últimas, José.
Não costumo sentir grande emoção quando alguém morre, sou sincera. Morreu, morreu. Morremos todos. É assim que é. Mas hoje não consegui permanecer serena no momento em que escutei a funcionária da biblioteca dizer a outro, então, professor, o nosso Saramago lá se foi. Tocou-me. E quero perceber porquê.
Como escritor, admiro em Saramago o imaginário fertilíssimo, a ironia decepcionada, a leviandade com que expunha o seu pensamento sem peias, e o seu humanismo socialmente incorrecto, e profundamente religioso. Toda essa dúvida cristã que o envolvia, essa procura de respostas que não vinham nos livros da igreja. Enquanto cidadão, invejei-lhe o indefectível vício de liberdade. Fez o que queria. Ignorou os ignorantes. Esteve-se nas tintas para o que esperavam dele por ser português, por ser Nobel ou outra coisa qualquer. Por último, admirei-o por reconhecer, com orgulho, que viera dos fundos do quintal. Essa origem era uma bandeira. A dos que levantam a cabeça, porque é uma cabeça e uma cabeça não se verga. Um orgulho que era também uma raiva. Numa terra onde todos lutam por ser reis ou, no mínimo, senhores, Saramago quis ser um homem, primeiro, e só depois, escritor. Nunca lhe perguntei, mas é o que faz sentido, no seu caso.
Por último, José Saramago morreu com a mesma idade da minha mãe viva. Mas a minha mãe, essa, eu já lho disse, está proibida de morrer.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Votem ali em baixo, à direita

Está a decorrer, na coluna direita deste blogue, uma sondagem cujos resultados serão tidos em consideração no futuro visual do Novo Mundo. Isto porque me é muito mais fácil andar entretida a mudar o visual do blogue do que reduzir um único número no tamanho de calças.
Neste momento, vai a frente a discreta opção "O mais possível. Continua. És a maior.", que apoia incondicionalmente o actual aspecto, seguida por "Gostava mais da mulher-cão no meio das flores". Entre as duas, sou sincera, o meu coração balança muito.
Por favor, participem na sondagem.

Não parece África


Na África do Sul está muito frio; os jornalistas portugueses queixam-se. Temperaturas na ordem dos zero graus, à noite. Julgo que, pela primeira vez na vida, alguns portugueses e europeus tomaram consciência de que África não é um continente uniformemente tórrido. Por curiosidade, acabei de ir consultar a temperatura que a esta hora se regista na cidade do Maputo: 13º. Estão a bater o dente, portanto. Se consultarmos um mapa, observamos que Joanesburgo e Faro ficam praticamente no mesmo paralelo, relativamente ao Equador, embora em latitudes opostas.
Devo dizer que tendo vivido 13 anos em Moçambique, nunca passei tanto calor como em Portugal. Para se apanharem temperaturas como as do Alentejo ou do interior do nosso país, no Verão, é preciso, em Moçambique, viajar para Norte, até Tete, ou coisa assim.
De manhã, em Lourenço Marques, nesta altura, havia sempre uma cortina de névoa baixa atravessada por negros que caminhavam a pé, embrulhados em mantas ou capulanas a caminho do trabalho. Havia um friozinho, sim.
Quando escolhi as fotos para o Caderno havia imagens que considerava lindíssimas e que queria incluir, mas alguém me dizia, estás toda encasacada, isso poderia ter sido tirado na terra da minha mãe. Isso não parece África. E como não parecia África, ficaram de fora. Mas África é um continente muito diverso, como qualquer outro.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Voar

Escreve-me leitor atento, para me corrigir em questões de passarada. Diz-me que os pássaros estão para si como, para mim, os cães. Não será verdade, que tanto eu como a Micas e a Morena adoramos passarinhos, de forma diferente, mas adoramos. Estou sempre a dizer que na próxima vida quero ser uma brasileira mulata bem torneada, a viver em Copacabana, ou, em alternativa, pássaro. Em qualquer destes corpos serei capaz de voar.
Ora, a questão é que a aguarela publicada uns textos abaixo, não representa um tordo dos que são perseguidos pelos caçadores lusitanos. É um passarinho lindo, de facto, mas parece que não é um tordo. Sendo assim, resta-me corrigir, explicar que sempre fui uma menina urbana, e deixar aqui a foto do verdadeiro tordo, que me foi enviada pelo referido leitor.

tordo

Adenda: escreve-me um segundo leitor, ornitólogo de prato, tanto quanto sei, acrescentando "uma achega para o dossiê dos passarinhos: o anterior era um pisco (um pettirosso como, mais sugestivamente, dizem os italianos), mas a aguarelista, acho eu, exagerou no vermelho, estendendo-o até ao fundo da barriga." A Micas continua na sua, "piscos ou tordos, eu que os pisque...."

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O novo aspecto

Escrevem-me para dizer que o novo aspecto do blogue não tem tanto a ver comigo, e que não é bom para os pitosgas, etc. Bocas negras. Os pitosgas, se são fãs a sério, põem os óculos, e quanto ao resto, no fundo, no fundo sou uma mulher tão etérea quanto este look. É lindo, com os passarinhos...

domingo, 13 de junho de 2010

Viste algum tordo?

Aguarela de Donna Greenstein (este é o pisco).

Em Portugal, setenta e cinco por cento dos caçadores praticam a caça ao tordo, uma vez que há cada vez menos pombos e coelhos. De Outubro a Março contam-se cerca de 105 mil caçadores, e alguns até vêm do estrangeiro. Num período de 45 meses são feitas cerca de 50 mil caçadas em Portugal - pelo menos no contexto do estudo que se iniciará este ano pela Federação Portuguesa de Caçadores. É que os caçadores não conseguem perceber por que há cada vez menos tordos.

Norte

Nos meus sonhos penso em terras com nomes como Salangen, Gamvik, Murmansk, Vorkuta, Petropavlovsk-Kamchatskiy, cujo interesse reside para mim no facto de nada saber sobre o local. É possível que em Vorkuta exista um belo jardim com árvores coníferas. Talvez haja sumptuosos monumentos em Murmansk, e paisagens marítimas únicas em Gamvik, mas não faço ideia. É bem provável que não passe de pó negro industrial, betão armado e gelo. Não interessa, realmente.
Nos meus sonhos existe essa ideia fixa de fugir para Norte, onde os imperativos de sobrevivência nos reduzem ao essencial, e a solidão nunca é uma escolha, mas a vida. Aí, longe de tudo e de todos aqueles que amo e dos quais não posso libertar-me, mesmo que pudesse, fechar-me-ia na datcha durante o Inverno, lendo livros volumosos e escrevendo histórias sobre meninos e meninas tão felizes e perfeitos de coração que poderiam ter sido meus filhos. E na Primavera, quando chegassem as aves, e ervas despontassem, percorreria os campos para cheirar o ar novo e as ervas, e encontrar animais espetando o nariz fora das tocas e fugindo amedrontados dos meus passos.
Teria comigo os meus cães, porque podemos viver longe de tudo, excepto dos animais que guardam parte significativa da nossa alma. Não seria mais feliz. Uma mulher sem terra em viagem para sempre. A mulher simpática. A mulher dos cães. A mulher gorda. Teriam que me chamar alguma coisa e qualquer uma destas serviria bem para sintetizar o que sou. Não sei como se diz isto em russo ou em norueguês, mas aprenderia escutando.

sábado, 12 de junho de 2010

A voz de Deus

- Gostaste das sardinhas?
- Estavam maravilhosas. Ainda não são muito grandes, mas gordinhas e bem assadas... se eu imaginava vir hoje comer sardinhas...
- Onde é que te apetece ir agora?
- Olha, agora vai pôr-me em casa que quero ir ver os casamentos de Santo António. Já casaram de manhã, pelo registo, mas poucos, e de tarde é pela igreja.
- São muitos?
- São.
- Dez, vinte?
- Mais!
- Ena, pá, tanta gente a casar!
- E na igreja é muito lindo, porque vão as noivas todas com os ramos oferecer a Santo António. E à noite, nas marchas, desfilam os casais no final dos bairros.
- Isso é que pior, oh, mãe! Coitados.
- Pois é, que eles já estão cansados. E no dia seguinte vão todos de lua-de-mel para a Madeira. Aquilo vai ser preciso um avião inteiro para os levar. Nunca mais se vão esquecer.
- Para o ano já deve haver casais homossexuais.
- Nos casamentos de Santo António?!
- Sim. Pela lei já podem casar. Como é que lhes vão negar a participação se...
- Nem pensar! O casamento de Santo António é uma coisa religiosa. É o Santo António.
- Está bem que é uma coisa religiosa, e podem usar esse argumento se quiserem casar pela igreja, mas pelo registo não estou a ver como podem recusar, mãe. Não estou mesmo a ver.
(Segundos de silêncio.)
- Este ano não vi lá homens a casar. Só raparigas... quer dizer, raparigas com os noivos.
- Pois, mas para o ano, se calhar...
- Isso ia ser um escândalo... ia toda a gente falar. Era de ir para o jornal. (pausa) Não! Então, tu achas que a câmara vai pagar a esses homens todos para casarem à borla? Isso era um abuso. A câmara não vai nisso. Se querem casar que gastem do bolso deles.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Gritar, ah, gritar

Quanto pagam os jovens das artes circenses, e a quem, para fazerem animação de rua? Será preciso muito dinheiro para se aceder à possibilidade de dar urros em casamentos e baptizados, fazer percussão em caixotes do lixo, bater pratos de plástico uns contra os outros, atirar bolas ao ar; as meninas a esvoaçarem lencinhos de tule multicoloridos?
É que gostava de fazer o mesmo em alternativa à hidroginástica, mas não sei se tenho posses. Também consigo produzir som batendo em contentores do lixo; atiro objectos ao ar na perfeição - posso não os apanhar todos, mas eles também não; movimento lencinhos como se fossem passarinhos em migração; faço caras; imito muito bem o boneco da mulher das cavernas, e depois vem a parte que mais me agrada: gritar, ah, gritar, e ter 50 pessoas a olhar para mim, que, no final, dirão,"ah, que engraçado, que jeito que ela tem". De facto, não me importo de pagar para gritar. Digam-me só quanto custa que eu cá faço as minhas contas.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O sermão

- Vêm todos às aulas extraordinárias a partir de quarta, ouviram?! Vamos fazer exercícios de conhecimento explícito da língua e treinar comentário a texto, perceberam?
- Oh, stora, a gente quer ir para a praia.
- Têm exame daqui a uma semana e querem ir para a praia?! Estão a dizer-me que não são capazes de aproveitar os próximos dias para estudar e dar o vosso melhor, sabendo que a seguir vão ter três meses seguidos de férias para ir todos os dias para a praia, fazer asneira todos os dias? Olhem que três meses é muito tempo para asneirar, meninos. Tenham juizo. Não estraguem a vossa vida que é tão linda.
- Oh, stora, mas isso das aulas extraordinárias é obrigatório?
- Não interessa se é obrigatório. O que interessa é que já têm idade para perceber que vão ser sujeitos a exame, e se vocês precisam destas aulas! Já viram as notas dos alunos da turma G? Viram a diferença nos testes intermédios?
- Por favor, stora, eles trazem bolachas Maria de casa dentro de um tupperware, e metem as mãozinhas lá dentro, muito delicadamente. São uns nerds, stora.
- Cincos, o que eles são é cincos a todas as disciplinas! Vocês, só com muita água benta. E não é só isso, meninos, ninguém é anónimo nesta estrutura. Cada turma, cada aluno está associado a uma professora, e as vossas notas são também as minhas, para todo o efeito, entendem? É assim que as coisas estão, agora.
- Oh, não...
- Não é "oh, não", é "oh, sim". Quero aqui toda a gente para as aulas extraordinárias, já disse, ponto final.
- Oh, stora, por favor... diga lá ao ministério que nós temos uma vida social.

O professor Ernesto e o marido

Contra o casamento de homossexuais há muito quem me tenha dito, imagina o que é estares numa reunião de encarregados de educação e em lugar de teres o pai e a mãe, teres duas mães ou dois pais? Bem, para quem tem alimentado esse tipo de preocupação, chegou finalmente a hora de passar da imaginação à realidade, para concluir que tanto faz.
Com o tempo, pode ser que o professor Ernesto, director de turma do 9ºF, possa vir a dizer aos pais dos seus meninos, desculpem, mas hoje temos de acabar às oito, impreterivelmente, porque o meu marido vem buscar-me para irmos ao teatro.

A tua voz não era a tua voz


I acto, cena I

Personagens - um pai (José) e uma filha (Maria).

Cenário - uma sala com sofás, uma jarra com flores simples, móveis desirmanados; confortável, sem riquezas. Uma mulher de 50 anos sentada no sofá entretém-se tricotando. Dois velhos cães permanecem ao seu lado, deitados pelo chão, mudando de lugar de vez em quando.

O pai, um homem velho, aparece à entrada do compartimento. Aparenta 70 anos, coxeia como quem teve um acidente vascular cerebral. Tem um olhar bom. É um homem grande e belo apesar da velhice e da doença.
A filha vê-o, larga o tricot e levanta-se, como se contemplasse um fantasma.

Maria – És tu?! (aproxima-se, observa-o bem, toca-lhe na cara, segura-lhe uma das mãos, que observa nas palmas) És tu! Como é que conseguiste?! Estavas lá… como é que conseguiste voltar? Voltaste?! (pausa enquanto pensa e o observa) Mas és tu. És tu, sem dúvidas. Estou tão feliz por te ver. Deixa-me abraçar-te. Não me interessa como vieste. Estou tão feliz por te ter de novo.

(Abraçam-se.)

Maria – Senta-te. Senta-te aqui comigo.

José – Estavas sempre a chamar-me. Em pensamentos, em voz alta, nos livros que escrevias…

Maria – Sim, mas chamar-te era uma forma de me sentir acompanhada. Nunca julguei que viesses, que pudesses vir... Não sabia que isso era possível. Nem no Ghost a Demi Moore teve tanta sorte...

José (rindo-se) – Nós vimos isso juntos. Vim porque precisávamos. Parti mal. Parti sem falar contigo. Sem te dizer o que queria.E tu a mim. Depois, publicaste o O Colonialismo Eras Tu, no qual falavas de mim, de quem fui, da nossa relação… e pedi autorização para vir visitar-te.

Maria – Quer dizer que não vais ficar?

José – Só enquanto for necessário.

Maria – Queres ralhar comigo? Queres brigar? Queres acusar-me de te ter desonrado. De ter manchado a tua memória. Espero que não, pai. Estás lá em cima há anos, ou onde raio vocês estão. Deves ter aprendido alguma coisa entretanto. Devem ter-te metido numa escola, à força, e deves ter escrito muitas vezes, “nós e os pretos afinal somos iguais”. Fizeram-te lá isso?

José – Foi pior que escrever muitas vezes. Tive que o provar. Não quero ralhar, não, Maria. Até parece que passei a vida a ralhar-te... (Olha a filha nos olhos, sorrindo com muita ternura). Tu és a minha menina. És o meu tão-balalão-cabeça-de-cão, lembraste?

(Maria dá uma gargalhada.)

Maria – Lembro. Às vezes ouvia a tua voz pronunciar essa cantilena, e doía-me, porque sabia que a tua voz não era a tua voz, era um eco guardado na minha memória. Tu já cá não estavas. Não eras tu. Não imaginas o que é sentir a falta de alguém que nunca voltará. Que na melhor das hipóteses há-de estar à nossa espera do outro lado, com um bocado de sorte.

José – Era eu. Essa voz era eu. Tu foste o meu antídoto. Nasceste para isso. Vim para falar contigo. Vim, para que possas dizer-me tudo o que sempre quiseste. Para te responder, explicar. Não disseste numa entrevista ao Diário do Dia que gostarias de me ter dito tudo o que pensavas? Pois estou aqui.

Maria – Se sabes o que foi dito nessa entrevista também sabes o que penso e o que escrevi.

José – Por acaso sei.

Maria – Então, falar para quê?

José – Por ti. Sempre por ti.


domingo, 6 de junho de 2010

Desdenha de mim

Apanhei-a a olhar para mim com orgulho. Julgo não me ter enganado. Não sei se alguma vez a vi olhar-me daquela forma. Diria que não. Não me recordo. Os olhos estavam cheios, satisfeitos de mim, como se sempre tivesse sido a sua filha querida, a sua única filha querida, o seu tesouro. Senti-me embaraçada. Tive vontade de lhe dizer, mais vale tratares-me como é habitual. Diz-me que estou gorda. Diz-me que esta roupa não me fica bem, que não sei vestir-me, que tenho a pele do rosto estragada, o cabelo despenteado. Por favor, desdenha de mim, tal como é hábito, que para isso tenho defesas. Para a novidade do teu orgulho é que não tenho resposta.

sábado, 5 de junho de 2010

Nódoa burra

Ontem, lembraram-me que a minha vida era de conhecimento público. Foi sobretudo um toma lá que já aprendeste. A minha vida ser de conhecimento público! Que golo tão ao lado!
Mas, meu amor, tu estás à vontade; entre as notícias que circulam por aí, escolhe a teu prazer. Constrói camada a camada aquilo em que te convém acreditar. Interessa que tenhas alguma coisa para contar, todas as sextas, ao jantar, à senhora séria, modesta, contida que te lava as camisas, as calças, as peúgas. Não presto. Sou uma desbocada. Não tenho pudor. Descarrilei a certo passo do caminho. Nunca seria mulher para ti. E, sobretudo, que acabámos por não foder. Isto, sim, deves reiterar sem medo que se torne repetitivo. Íamos fodendo, mas tinhas hora para estar em casa. O conforto do cativeiro.
Se te peço muita desculpa é porque acabou de cair uma norme nódoa de gordura frita do teu jantar mesmo ao centro do peitilho da minha blusa, entre as mamas que um dia tive, mas mandei cortar para te agradar, num futuro improvável. Já usei os solventes e detergentes adequados, esfreguei, pus a peça a corar, mas o amor é uma nódoa tão burra.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Barata tonta

A barata e eu somos infernalmente livres porque a nossa matéria viva é maior que nós, somos infernalmente livres porque minha própria vida é tão pouco cabível dentro de meu corpo que não consigo usá-la.

in A Paixão Segundo GH, Clarice Lispector

As minhas cadelas não gostam de brincar com as minhas baratas. Deixam-se ficar estendidas pelo chão da sala, seguindo com o olhar o bicho pré-histórico que corre de um lado para o outro "feito barata tonta". Não compreendem que grite e pragueje. Eu sou um incómodo para as minhas cadelas; as baratas, não. Dificilmente posso compreender esta lógica. Ontem, disse-lhes, melhor seria que vocês fossem gatos para brincarem com elas até as matarem. E sugeri à Micas que me recordo perfeitamente do dia em que abocanhou um pardalinho cujo coração parou de bater na minha mão. E agora, o que fazia ela para me salvar da barata intrusa?! Sim, cobrei-lhes a sua natureza animal.
Talvez eu devesse tolerar baratas. São criaturas de Deus, como as lagartixas, que não despertam em mim sentimentos assassinos. Por outro lado, em Moçambique, desde que nasci, vivi sempre em casas com baratas debaixo do lava-louças, no motor do frigorífico, atrás do fogão, na arrecadação Quando vim para Portugal respirei de alívio. A população era menor. Tenho tido muita sorte. Faço sempre o esforçozinho sobrevivente de encontrar algo de bom para o que nem sempre resulta bem. Mas as baratas que em Moçambique voavam de parede para parede, e nos subiam pelas pernas durante a noite, não se tornaram realidade ordinária. Tenho medo e nojo dessas perfeitas criaturas de Deus. Deus também erra.

Em digressão até ao Verão

Sabem onde fica a Biblioteca-Museu República e Resistência? Eu ainda não.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Isabela, Aquilino e Afonso


Caras leitoras e leitores, estou a precisar de uma ajudinha: tenho cá em casa três gatinhos com um mês, filhos de uma gata vadia cá do burgo que ninguém consegue apanhar para esterilizar. São dois machos e uma fêmea, todos pretinhos lustrosos. Acho que dão sorte aos seus donos, e como precisamos dela!
A gatinha chama-se Isabela, mas podem pôr-lhe outro nome, que nunca será mais bonito. Os meninos chamam-se Aquilino e Afonso, por motivos que não posso revelar aqui.
Dou os gatinhos a quem puder fazê-los felizes, vou entregá-los, e ofereço lanche aos adoptantes. Por favor, comecem a escrever rapidamente para omundoperfeito@gmail.com.

De PS a Plano Sócrates

Mário Soares crê que a candidatura de Manuel Alegre poderá ser fatal ao PS. Finalmente, uma boa notícia! Se o propósito for demolir as ruínas do ex-PS, agora renomeado Plano Sócrates, até o Manuel Alegre me basta. O PS está morto. Enterrem-no e poupem-nos à restante decomposição.

Os iates que paguem a crise

Um agravamento da retenção na fonte de 0,58 e 0,87 pontos percentuais nas linhas correspondentes até ao terceiro escalão e a partir do quarto, respectivamente, é uma medida ridícula e insultuosa. Como é possível meter no mesmo pacote aqueles que ganham 525 e 2933 euros?! Chamam-nos parvos todos os dias, e permitimo-lo, em nome de uma bancarrota cuja responsabilidade não nos cabe realmente.
O slogan dos anos 70 continua actualíssimo. Quem enriqueceu com os negócios de fundo falso que a isto nos levaram, que pague a crise. Têm iates, carros de alta cilindrada, vivendas, contas de milhares, acções?! Então paguem a crise. A mim não me sobra nem para contas poupança-reforma. Portanto, este é o único Plano de Estabilidade e Crescimento que consigo aceitar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Isabela no Funchal II

Fotos aqui.

Aproveito para agradecer à organização da Festa do Livro do Funchal, nomeadamente a Francisco Faria Paulino, e assistentes Luísa e Maria, pela extraordinária simpatia com que me receberam, excelentes condições proporcionadas e por todo o apoio que me prestaram.
Agradeço, ainda, a Elisa Seixas e Isabel Ventura de Um blogue que seja seu, pelo carinho e amizade que me dedicaram. Foi óptimo conhecê-las, ir almoçar e jantar fora as comidinhas típicas da ilha e levarem-me a passear até ao magnífico Centro Cultural da Calheta.
Muito obrigada a todos.