sábado, 31 de julho de 2010

Paris - diário de viagem 5

Canal St. Martin, no Bassin de La Villete, zona reabilitada nos últimos anos, e onde se situa uma das Paris Plage

Acordo dorida e cheia de nódoas negras, sobretudo nas pernas e braços. Bati com a coxa direita contra um torniquete no controle do acesso ao metro. Tenho aqui um belo rectângulo ainda vermelho escuro e dorido. E outros na canela. Enfim, muitas vezes não me lembro que bati nem como nem onde. Sinto-me quase sempre um carro de guerra.

Esta noite sonhei com o Farrusco. Por algum motivo já não tinha a Micas nem a Morena e resolvi procurar o Farrusco onde julguei que andasse. Sentia-me culpada de o ter abandonado. Tinha-o deixado com uma casota, mas não sabia quem o alimentava, e não me chegava perto, há anos, com medo da realidade. Não encontrei o Farrusco, apesar de tudo, embora me parecesse vê-los nos outros cães pretos.

O Farrusco é o cãozinho que veio de Moçambique e que está ao meu colo na foto do Caderno. Morreu envenenado em Porugal, um ano depois. Foi enterrado por mim na fazenda do meu tio, debaixo de uma bela nogueira que mais tarde abateram para cultivar aquela zona terra. A maior parte dos meus sonhos são sobre os meus cães passados e presentes.

O dia de ontem foi muito agradável. Encontrei-me com Gilbert e falámos imenso. Torturei-o com perguntas e repetições autistas. Fizemos um passeio no Canal St. Martin, desde a Bastilha até La Villete. O primeiro segmento da viagem é totalmente percorrido no interior de um túnel com algumas entradas de luz, circulares, onde cresceu vegetação, situadas ao nível do chão da rua que passa em cima. Medieval. Feérico. Invulgar.

Seguimos para o Quartier Latin onde finalmente encontrei os livros que procurava na Librairie Compagnie e na Gibert Jaune. Consegui adquirir, em segunda mão, e em belíssimo estado, por menos de 3 euros, a autobiografia de Mazarine Pingeot-Mitterand.

No café Reflet, já Gilbert ia no terceiro copo de vin rouge, Antinoo, cansado do dia, juntou-se a nós. Sugeriu jantarmos num restaurante etíope. Preparava-me para declinar quando Gilbert, luxurioso por via do álcool, acrescentou que se comia com as mãos. Não forneciam quaisquer talheres. Gilbert conhece os meus pontos fracos. A necessidade de economizar foi totalmente superada pelo desejo de viver esta experiência. E não me tinham contado tudo. No Restaurante Godjo, perto do Panteão, e de uma Igreja cujo nome não me lembro agora, mas os leitores saberão que é a que tem um foguetão apontado ao céu - Marie Geneviève, St. Geneviève?? - não só se come apenas com as mãos, como todos do mesmo prato de alumínio encaixado numa cesta de palha. Uma malga de comida para três, na qual todos nos debruçámos com as mãozinhas em riste, acompanhando uma garrafa de vinho Syrah. Fartei-me de dizer que em Portugal havia um vinho desta marca, e que se calhar era português, mas afinal não. Era uma marca francesa. Syrah deve ser uma casta. Tenho a certeza que alguém me escreverá a esclarecer este assunto. No final, com as mãozinhas limpas, pagámos 26 euros cada um.

Gilbert fechou a minha parte da noite dizendo que on a beaucoup rigolé et papoté. Perguntei-lhe o que era papoter, e explicou-me algo como "deitar conversa fora". Bahhh. Eu nunca deito conversa fora. Eles seguiram não sei para onde à procura de tangos. Eu apanhei três linhas diferentes de metro para conseguir chegar a casa. Uma senhora da minha linhagem tem horas.

A empresa Canauxrama gere uma frota de barcos de turismo que percorre o canal St. Martin duas vezes por dia em cada direcção. Há fotos a bordo, para quem não recusa,a 10 euros cada.


Entrada de luz vinda do Boulevard Magenta, no segmento inicial do cruzeiro no canal.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Paris - diário de viagem 4


Gosto de passar a manhã na cama usufruindo o silêncio da casa com as janelas fechadas, e procurando o lado mais fresco dos lençóis. Lá fora ouço motos e carros cujo ruído me chega amortecido. Paris é uma cidade muito barulhenta. Ou é o trânsito ou gente a mais. O barulho persegue-me, e Deus sabe como preciso de silêncio. Ontem, saída do Louvre, regressei ao prédio com a cabeça a pedir descanso, e os pés, uma bacia de água gelada. Tenho andado muito, apesar do passe Navigo, e à minha volta o ruído de uma coisa ou de outra, sempre o ruído. Em Lisboa penso que há lugares silenciosos. Mas Lisboa, ao lado de Paris, é uma cidade de província.

No Louvre não se pode fotografar com flash, comer, beber, falar alto, falar ao telemóvel ou correr. Há indicações destas por todo o lado. De tudo o que atrás enumerei, só não vi correr. Os visitantes andam pelo Louvre como se andassem na feira do Relógio. A única diferença é que se lhes aparece uma peça bonita não perguntam o preço, fotografam. Fotografam-se, igualmente, com sarcófagos em fundo. E esfinges. E tudo o que seja grande.

Questiono muito a febre da fotografia. O que significa uma foto minha a sorrir com um sarcófago em fundo, ou fazendo um v de vitória, o mais possível ao lado da Vénus de Milo? Serve para mostrar que"estive lá". Mas os outros não acreditam? É que são fotos horríveis, atrapalham os outros visitantes, e imagino o aspecto dos objetos envidraçados saídos das desgraçadas máquinas de férias.

De forma geral, reina uma atitude de total desrespeito pelas peças enquanto símbolos ou elementos de cultura, e pela magnífica exposição que oferece o Museu do Louvre. A maior fatia de visitantes não vê coisa alguma, vai passando, apenas, e produzindo ruído. Nunca estive num museu de dimensões tão gigantescas e cuja exposição fosse tão significativa - consegui visitar apenas as alas Sully e Richelieu, nomeadamente peças das culturas grega, egípcia, etrusca, persa, e escultura francesa do século XVII e XVIII, mas volto no domingo. Na maior parte das salas todas as peças são importantes. Não há como não ver uma vitrine, ou como desprezar uma peça.

Para além de arte e antiguidades vislumbrei no Louvre dois momentos de beleza viva: os cabelos louros naturais, brilhantes, ondulados de uma jovem de nacionalidade incerta, e uma mãe ocidental, sentada num banco da arte oriental, amamentando longamente um bebé, com o seio completamente exposto, exceto o mamilo que a criança sugava. A mulher encostou-se à parede, cansada, e deixou a criança mamar livremente, segurando-a com um braço e apoiando-se no banco com a outra. Fiquei maravilhada, nos dois casos, primeiro porque já não há cabelos assim e segundo porque a mama cheia me chamou - também eu senti vontade de mamar. Mas que bela mama! E depois dizem mal dos livros do José Rodrigues dos Santos. Eu compreendo o homem!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Paris - diário de viagem 3


Ouço uma rola piar no saguão. Das janelas da frente alcanço, bastante perto, um terraço onde alguém plantou pinheiros que cresceram como num jardim. É um prédio de cerca de 10 andares, logo, um jardim suspenso.

O senhor que cá veio resolver o problema da ligação à internet deixou-me o écran numa página da Wikipédia relativa a uma tal Mazarine Marie Pingeot-Mitterrand. Sou curiosa, para além de que creio serem os acasos igualmente fruto do destino, pelo que li com atenção. Trata-se da filha que Mitterrand teve com uma curadora de museu, e com a qual viveu, mas que escondeu durante mais de 20 anos. Mazarine publicou recentemente a sua história com o pai, livro que vendeu como pastelinhos de bacalhau dos verdadeiros. Procurei-o em duas livrarias e disseram-me, numa, que estava esgotado, noutra, que não havia. Tenho de encontrar este livro.

Por outro lado, encontrei a bibliografia quase toda de Annie Ernoux, autora que me foi dada a conhecer por uma leitora deste blogue. Comprei 11 títulos, todos da coleção Folio, da Gallimard, por 50 euros. Passei a tarde de ontem deitada na relva do Parque de Monceau, lendo L' occupation, uma história sobre o ciúme de uma mulher que perde o companheiro para outra, e que pensa não ser capaz de viver sem embrulhar na mão, logo de manhã, ao acordar, o pénis do homem perdido. Caramba, acho que já senti isto.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Paris - diário de viagem 2

Tão tradicionais como a foto da Torre Eiffel a partir do Trocadéro, os vendedores africanos de miniaturas de torres eiffeis, ignorando que o tempo dos souvenirs já passou.

O dia esteve coberto e abafado, com raríssimos momentos de sol. Em Portugal continua um calor insuportável. A minha mãe e as minhas cadelas preocupam-me a todo o momento.

Mudar de ares funciona como a música: acende-nos luzes no cérebro. Estava tão bem na minha casinha, mas aqui passam por mim milhares de pessoas diferentes e línguas inúmeras que não consigo identificar. A arquitetura é outra, bem como as ruas, as cores e os cheiros. Vim para quebrar a monotonia. Para parar.

No Cours de la Reine, um senhor que me observava sorrindo sozinha para o temporizador da máquina, ofereceu-se para me fotografar. Encolhi a barriga o mais que pude, encolhi, encolhi, aumentando o peito, e depois agradeci muito. A foto saiu um horror. Estou enorme, enorme. É preciso fazer algo quanto a isto, com urgência. Andar cinco quilómetros a pé, como hoje, ajudaria. Decisão para os dias futuros: ser menos preguiçosa - mas o meu bairro não é Paris, e detesto fazer sempre a mesma ronda!

Rue du Faubourg Saint-Honoré: eis o tipo de rua que não faz falta a ninguém, e que, contudo, tem procura. Qual a diferença entre uma t-shirt de algodão comprada numa loja honestazinha do centro de Almada e a que está na montra de Galliano? O material? O custo da mão-de-obra e dos transportes? Impostos? Não. Apenas centenas de euros. É a diferença de preço, aleatoriamente alto, que lhe atribui qualidade. Quem entra nas lojas do Faubourg Saint-Honoré procura preços altos. Pagar bem confirma a sua importância. A isto se resume todo o mundo da moda. Ninguém precisa de gastar muito dinheiro para se vestir de forma confortável e elegante. Os preços praticados, o luxo e a falsa cordialidade dos empregados atribuem às peças um valor que não têm. Apetece-me pedir prisão para quem vende por dois mil euros um objecto que vale 50. Mas considerando que há clientela desejando pagar o preço mais alto possível, que moral se pode aqui aplicar?

Na Place Chatelêt a happy hour vai das 19h00 às 20h30, sendo que as bebidas são mais baratas nesse período. Apesar do desconto, uma água de 33 cl custa 3,5€, e uma cerveja, 5. Pergunto a Gilbert por que são as bebidas tão caras, sobretudo a água. Explica-me que sobem os preços dos artigos mais baratos para que as pessoas não se sentem a consumi-los. Assim, ninguém ocupa a esplanada para beber uma água, ou, se o fizer, pagará o preço de uma cerveja. Subir preços para que ninguém se sente a consumir?! Que mundo, que mundo! E que estratégia infalível de combate ao alcoolismo. Piedade para os sedentos!


Cours de la Reine


Na Pont de l'Alma, zona onde morreu Diana de Gales, continuam a depositar-se flores em sua memória num monumento que não lhe diz respeito.

Aviso à moral

O Novo Mundo começou ontem a adaptar-se à nova grafia do português, a qual defende há muitos anos. Será uma grafia de fusão entre o velho e o novo, porque nesta casa ainda não se estudou o capítulo dos acentos gráficos.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Paris - diário de viagem 1

Canal de St. Martin


Chove em Paris. Que frescura! O Google diz-me que estão 36 graus em Almada e penso na minha mãe e nas cadelinhas. O calor não lhes faz bem algum.

Lá fora ouço homens falar português. Não percebo o que dizem, pelo que me debruço da janela atentando nas palavras. É russo.

Da viagem de ontem recordo o sobrevoo da cidade, descortinando, muito distintos, o Sena, a Torre Eiffel, o Trocadéro, e o Arco do Triunfo. Senti-me chegar ao centro do mundo, ou melhor, a um centro da Europa que constitui um centro cultural mundial.

À tarde, falei com um artista que acabara de pintar um enorme mural evocativo de As Flores do Mal. Pensei que fosse português. Falei-lhe em português. Era um jovem russo, relativamente bem parecido. A Rússia persegue-me. Explicou-me que a sua obra reportava para as relações homem-mulher, e realmente verifiquei que a composição incluia numerosas caveiras. A conversa prosseguiu por esse tema, tendo descoberto que o meu francês não está tão enferrujado como pensava. Quando lhe disse que o amor já não era para mim, o artista fitou-me nos olhos com atenção e respondeu-me que, pelo contrário, devo ser "uma mulher muito inspiradora". Fiquei aflita e pensei que afinal sou, tal como o meu pai, "só garganta". Finalmente, os meus amigos vieram salvar-me. Poderia ser uma linda história de amor? Duvido. Possivelmente, um empréstimo, a fundo perdido, a um jovem amante. Se não tivesse a prestação do carro poderia considerar.

À noitinha desci o Bassin de La Villete, lugar muito do meu agrado, em direção a Jaurès. Jantei num restaurante turco, excelente e barato, raro binómio, o qual os meus amigos conheciam. Ao longo do canal, à beira-água, milhares de pessoas piquenicavam sentadas pelo chão. Comiam, bebiam, conversavam e namoravam com uma descontração impossível de encontrar entre portugueses. Gilbert disse-me que se deverá ao facto de a memória da pobreza, em Portugal, ser ainda muito recente. A pobreza explicará a contenção, a timidez, o medo de parecer mal, mas creio que o caráter genético do meu povo conta em demasia. Somos tristonhos e, como se não bastasse, defendemos, sem pensar nisso, que a aparência é a essência.
Lá fora, alguém canta agora le vin rouge, le vin rouge, le vin rouge. Bela canção.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Preciso de um Adão e Eva, mas vestidos

Ao longo das minhas viagens pela Europa tenho adquirido reproduções cartonadas de algumas obras interessantes de grandes pintores.
Mudei muito recentemente de casa, mas ainda não a decorei, de forma que pensei usar duas reproduções de Durer, a saber, Adão e Eva.
Pretendo usá-las numa parede da entrada, realizando uma composição livre com figuras da minha autoria, em papel autocolante, as quais, partindo das imagens, as modifiquem semanticamente. Observei melhor os posters e concluí que não posso fazê-lo, pelo menos por enquanto. A minha mãe vem cá passar uns dias em Agosto, e seria um inferno se se deparasse com quadros de pessoas nuas. Os pêlos púbicos de Adão estão em enorme evidência e os mamilos de Eva, demasiado realistas. Preciso de paz e sossego. As pressões da minha mãe são poderosas, porque insistentes. Consigo ouvi-la, Logo à entrada, para os homens do gás e da associação de cães verem assim que abrires a porta. Que vergonha! Ao menos esconde isso lá para dentro. No teu escritório, talvez. Para a minha mãe não conta o argumento da relevância bíblica: são dois pecadores nus. Podem vesti-los pobremente, nada a opor, mas que lhes cubram o corpo com uns trapinhos, é o mínimo de compostura que se exige.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Tempos difíceis

Há uns anos achava que a D. Emilia tinha a mania da perseguição. Conversávamos sobre o país e ela avisava-me, Isabela, há coisas que não podemos dizer alto. Isabela, não assine nada, nunca se denuncie, não deixe rasto... Oh, D. Emília, por amor de Deus, não vivemos na ditadura. Isso acabou. São outros tempos. Não se sabe, Isabela. O mundo dá muitas voltas, e nunca adivinhamos o que nos vem bater à porta. Isabelinha, escute-me, olhe que eu trabalhei na Função Pública nos tempos do Marcelo Caetano, e sei bem como nos perseguiam, nos escutavam para a seguir nos chamarem aos gabinetes para interrogatório. Serviam-se de tudo para nos vigiarem. Qualquer papelinho que nos apanhassem, aqueles que no passado se tivessem mostrado... Mas, D. Emília, não estamos nos tempos do Marcelo Caetano. E continuei a comprometer-me a eito, a assinar por baixo, a dizer alto, a denunciar-me. É por isso que, da maneira que as coisas estão, não me admira que qualquer dia me apareçam uns homens vestidos de preto à porta, às quatro da madrugada, sem mandado de captura. Alguém pode negar que já estivemos mais longe?!

A direita

Desde que Pedro Passos Coelho apareceu na cena política comecei a achar Paulo Portas simpático. Ultimamente descortino laivos de humanidade no seu anterior olhar gélido. Isto é preocupante.

O cadeado sobre o dia de trabalho

Encontrei esta excelente prosa numa caixa de comentários relativa a um poste recente do Arrastão. O autor dá pelo nick Causas Perdidas (comentário 32 e respostas).

"Quando era puto costumávamos fazer uma festa sempre que o nosso pai chegava do trabalho. Largávamos a brincadeira, desatávamos a correr de onde estávamos e saltávamos-lhe para os ombros cansados para o beijar.
Ainda hoje o beijo sempre que o vejo, em casa ou entre desconhecidos. Só que ele já não me "pega ao colo", chegou a minha vez de o fazer.
Regressemos. Sempre que beijava o meu pai, sentia-lhe um cheiro que se misturava com o do sabonete barato com que se duchava após ter deixado o fato-de-macaco no armário. Não era um cheiro desagradável. Era o cheiro do meu pai, pensei.
Uma dezena de anos mais tarde fui assaltado pela lembrança descontextualizada do beijo de boas-vindas ao meu pai, fechava eu o cadeado sobre o dia de trabalho. Só então percebi, mal disfarçado entre o aroma de um melhor sabonete trazido pelo 25 de Abril, que cheiro era aquele que me fez lembrar o meu pai. Era o cheiro da ferrugem."

terça-feira, 20 de julho de 2010

Podia ser tão feliz em São Tomé e Príncipe


O Puma de São Tomé e Princípe tem uma namorada escanzelada, incapaz de saciar um animal esfomeado. Uma pindérica loura sem competências notórias.
Esta noite sonhei com esse negão enorme, sorridente, que, vá lá saber-se porquê, tem quelque chose capaz de me projectar para o espaço sideral num fragmento de tempo. Foi um sonho vagamente erótico. Nada de indecências, que eu sou quase uma senhora, mas julgo ter a impressão que me encostei à sua pele, que a cheirei, e que era toda calor e veludo. Senti-me reconfortada. Aquilo era homem para me desencaixotar tudo cá em casa e pôr ordem nisto que era um instante.
Encontrei-o há umas horas no café do costume. Sorriu-me com desvelo e tratou-me por D. Isabela, como sempre faz. Suspeito muito daquele sorriso, que não me parece totalmente vazio de interesse. Procura-me com o olhar no meio de muita gente, e eu percebo estas coisas, que ainda não me reformei. Há aqui muito potencial.
Conheço o Puma desde pequeno. Ele andava na escola e eu estreava-me como professora no Barreiro. Meu Deus, os miúdos crescem e uma pessoa nunca imagina que se transformarão em deuses!
Enquanto me sento na esplanada lendo o jornal, ouço-o lá dentro falando de futebol ou de outros assuntos igualmente interessantes, e perco alguns minutos congeminando como pôr patins na namorada fraquita. Imagino armadilhas, conjuras, esquemas... qualquer coisa me serviria. Depois lembro-me que sou eu quem está ali, que tenho princípios e essas coisas, para além de que não se deve interferir com a ordem divina. Em alternativa, imagino que ele a deixa porque está farto de tanta pequenez. Ou que ela arranja um namorado novo que conhece na Caixa do Continente. Ou que muda de cidade. Ou que se zangam irredutivelmente. Não interessa. O Puma passaria por mim na esplanada e dir-me-ia, Bom dia, D. Isabela, então as cadelinhas? E eu responderia, Olá, meu querido, senta-te, pede um cafezinho duplo e explica-me tudo o que há para saber sobre futebol. Adoro desporto.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Explicação

Já estava farta. Sou muito inconstante. Tudo muda, etc., etc., e mais o carácter transitório da existência e filosofias associadas... Qualquer dia mudo outra vez.

domingo, 18 de julho de 2010

A vida manda

Há dois textos do Mundo Perfeito e do Novo Mundo, na adenda ao Caderno de Memórias Coloniais, que têm suscitado muitos comentários, os quais me têm sido feitos directamente. Ocorreu-me referi-lo hoje, enquanto atravessava a ponte e contemplava o Cristo Rei. Refiro-me a "Dinamitar o Cristo Rei" e "Fígado de Porco".

Esclareço: não tenho qualquer sonho em ver destruída a estátua do Cristo-Rei, nem pretendo dar ideias. A estátua propriamente dita não é um primor artístico, mas também não envergonha quem a concebeu. Ao contrário de alguns amigos apóstatas e anti-clericais, não penso que simbolize meio mundo de atrasos civilizacionais. O que me incomoda é a questão estética do embasamento, concebido para que Cristo se contemplasse ao longe. Não temos ali um morro suficientemente alto, do género Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, ou seja, um suporte natural, porque isso modificaria tudo. O pedestal, em betão armado, é um horror arquitectónico. Poderia pensar-se se não haveria forma de se fazer ali um "Querido, mudei a estátua", mas era preciso que alguém abrisse os cordões à bolsa, e não o Estado, logicamente.


Quanto a "Fígado de Porco" custa-me sempre quando me dizem "arrepiei-me a ler aquilo", ou pior: detestei, não fui capaz, entre outros.
Dei a ler os textos da adenda, em pré-publicação, a alguns amigos, e chegou a ser excluído da selecção. Era demasiado cru. Mas esse era o motivo por que o preferia. Por outro lado, se aquela selecção de textos pretendia representar o que escrevo na blogosfera, e quem sou enquanto autora, deveria constar. E foi assim. Continuo a gostar muito do texto, e é raro gostar dos meus textos algum tempo após tê-los escrito.

O aborto involuntário não é um tema muito caro à literatura, sendo tão legítimo como qualquer outro. A ninguém agrada pensar nas maternidades como lugar onde se perdem filhos, contudo, em todos os hospitais, a par das mulheres que ali chegam com enormes barrigas quase a parir, ou só para se acalmarem, há todos os dias aquelas que ali foram ter lavadas em sangue dos embriões ou fetos perdidos. São várias e raramente falam entre si. Falar implica reconhecer, e até ao último momento ainda temos esperança que alguém nos diga ser possível reverter a situação.
Um procedimento que considerei humilhante, sobretudo pela atitude de quem o fazia, foi o exame para verificação da situação abortiva, ou melhor da possibilidade de ter sido eu a provocar aquilo. Sobretudo da primeira vez, no Hospital de Santa Maria, quando ainda não havia lei para interrupção de gravidez. Sentia-se essa desconfiança. Não me fizeram grandes perguntas, não falaram comigo antes da confirmação do carácter involuntário.
Lembro, ainda, a solidão de uma mulher sem parceiro, nestas condições. Devido à incompreensível política dos hospitais, apenas o companheiro nos pode acompanhar na enfermaria. No meu caso, como não havia pai, ou, pelo menos, pai no sentido tradicional, teria de estar só. Nem amigas nem primas nem mãe. Todas as restantes mulheres estavam acompanhadas e eram mais jovens. A minha solidão causava espanto não verbalizado nos casais.
A situação de aborto involuntário tem algumas semelhanças com o momento do parto apenas na medida em que nos são provocadas contracções com o objectivo de expulsar o embrião/feto, momento a que se seguem horas de espera, e que normalmente termina com a curetagem - raramente se expulsa tudo de forma natural. São momentos de desespero, porque nessa fase já não há qualquer esperança de que aquilo possa terminar bem. Não nos vão colocar nenhum bebé nos braços, no final. Também sentia vergonha dos maridos que ali se encontravam, porque com as dores precisava de me movimentar, a bata do hospital subia, abria-se, e não conseguia tapar-me por motivos vários, sobretudo as próprias dores. Pensava muito no que estava ali a fazer. Por que insistia? Valia a pena? Assaltavam-me os piores pensamentos. Pensar era tudo o que podia fazer.

Ter acreditado aos 42 anos que ainda poderia ser mãe trouxe-me uma enorme esperança. Nessa altura acreditei que talvez fosse possível ser uma mulher como as restantes. Ter uma vida como as restantes. Quando se tornou evidente que me estava a torturar, sujeitando o meu corpo a um sacrifício que rejeitava, e desisti, compreendi que esse mundo me estava vedado. Sobretudo, não tinha nem tenho dinheiro que me permita ultrapassar esse obstáculo. Eis outra situação em que o dinheiro nos pode tornar mais iguais. Portanto, sou uma mulher como algumas, mas nunca como as restantes.
Não podemos ter tudo o que sonhámos. A vida ofereceu-me benefícios que nunca pedi e retirou-me outros que sempre esperei, que julguei merecer. Não me queixo, mas tenho tido necessidade de aprender a viver com a ideia de que falhei esses sonhos Ainda estou nesse processo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Mundo gay cigano

Li num Correio da Manhã atrasado que houve tiroteio por questões passionais, entre famílias ciganas, na Picheleira. A mulher descobriu o marido aos beijos com outro. Foi um escarcéu do outro mundo. A senhora declarou que se tivesse sido traída com outra mulher não se queixava, mas que aquilo era uma desonra para o povo cigano - um marido pane..., quer dizer, homensexual não pode admitir.
Sou sincera, eu e o povo cigano vivemos em mundos tão diferentes que nem me tinha ocorrido a possibilidade de os vendedores da praça do Feijó andarem enrolados uns com os outros naquelas longas horas em que deixam as mulheres sozinhas nas bancas da venda. Já tenho reparado que estão sempre juntos, aos magotes, mas pensava que era a discutir negócios. Confesso-me aparvalhada com esta descoberta do mundo gay cigano. Falha minha. Por este caminho, qualquer dia vem a saber-se que as ciganas também andam entretidas com massagens de relaxamento nas cruzes, enquanto os maridos fazem aquelas longas viagens de noite, até fábricas longínquas, com as Bedford Transit cheias de espaço atrás para acamar o refugo que compram por atacado.

O terceiro mundo mental

Os seguidistas distinguem-se dos seguidores por não pensarem sobre aquilo que seguem. Os seguidistas não seguem porque acreditem, se identifiquem ou reconheçam lógica numa doutrina. Seguem porque estão habituados a seguir. É assim, pronto. Entram às 9 e saem às 5 ou às 7 ou às 9 ou às 11, não interessa, porque há-de vir uma ordem de cima que os oriente totalmente. Também não interessa quem emite a ordem, desde que apareça.
Os seguidistas são inseguros. Não aprenderam a pensar sozinhos e só superficialmente se responsabilizam pelo que realizam. A responsabilidade pertence ao emissor das ordens que cumprem e não questionam, porque não estão ali para questionar. Não lhes pagam para isso, e mesmo que pagassem. Dá-lhes jeito que o caminho a seguir esteja escrito num manual de regras ou que alguém lhas traga como indiscutíveis. Eu passo a vida a cruzar-me com seguidistas, e por isso a minha vida é difícil. Como gostam da Lei costumo perguntar-lhes "onde é que isso está escrito", e eles não desarmam: "São as ordens que temos". Ordens de quem? Ah, alguém de cima. Alguém superior a nós, querem eles dizer. Alguém com mais poder, logo melhor. Sofro. Há pessoas superiores a mim em muitas coisas: em bondade, paciência, tolerância, inteligência, organização, capacidades diversíssimas e por aí fora, e reconheço essa superioridade quando a encontro, o que acontece com frequência. Tenho os meus limites, por isso não questiono a superioridade alheia, mas gosto de perceber as ordens que me transmitem; em que se baseiam; servem para quê. Se me mandam assentar blocos com argamassa de gesso quero perceber porquê, uma vez que aprendi a fazê-lo com cimento. Expliquem-me, por exemplo, que o gesso cola os tijolos melhor, para além de ser um material mais leve. Que garante a segurança das estruturas de igual forma. Não faço ideia. Sou uma cidadã e uma profissional, portanto, nos aspectos públicos e profissionais, estou interessada em actualizar-me - há coerência na excelência. Tal como informação e justiça. Tenho a mania de gostar de perceber, de apreciar que dialoguem comigo, que me considerem pessoa. Os seguidistas gostam de ser números. Quanto mais números menos gente. O importante é não dar nas vistas.
O mundo está cheio de seguidistas. Toda a gente conhece meia dúzia deles. Em Portugal, e na maior parte dos países do terceiro mundo mental, o seguidismo é uma praga. Não conseguimos livrar-nos deles, podemos é recusar ser iguais.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Prova de Desenho: impressões sonoras


Os carros sobem a rua e param no semáforo. Ouço-os meter a primeira e arrancar. Na silêncio da sala, o ruído dos lápis riscando o papel com calma, ou um raspar rápido, sempre no mesmo sentido, preenchendo a forma, zezezezeze. O papel manteiga crepita nas mãos. Abre-se uma caixa de lápis de cor. Um ruído metálico. Os lápis chocalham dentro. Uma gota de tinta-da-china desliza no godé. O pincel largo da aguada produz um chchchch quase inaudível ao lavar o papel com o seu rasto escuro. Numa mesa, as costas da mão varrem raspas de borracha. Lá fora, os pardais da tarde piam nos arbustos. O paus de pastel emitem na minha direcção um silêncio oleoso que o dedos dela atenuam ao puxar a cor, mesclando-a. Passa uma ambulância com a sirene apitando. Uns godés cascalham no saco de plástico. Um frasco de vidro pousa na mesa. As lâminas verticais dos estores batem enormemente com a brisa lá de fora. As janelas fecham-se com um estampido. Uma outra folha para novo exercício: o papel da prova ondula metalicamente ao sacudir-se no ar. O lápis pousa na mesa. A fricção das faces de uma caixa de papel ao abrir-se. Uma cadeira arrasta. Há no chão uma garrafa de plástico que tomba surdamente como um bêbedo gordo que regressa a casa. As pulseiras da menina da frente tamborilam o tampo da mesa. O carro da polícia buzina autoritariamente lá em cima. A água a correr na torneira aberta. Os pincéis tinem contra os frascos meios de água. Uma borracha roça vigorosamente o papel da prova. Alguém sopra da mesa as raspas de borracha. As diferentes notas de piano dos lápis de cor rolando na caixa sob dedos de quem escolhe o tom certo. Um suspiro. Passos na rua. Lá fora descem a rua a correr para apanhar o autocarro. Estar lá fora...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Isabela ao vivo - doc

Aqui, apareço eu a beber um café que alguém teve a gentileza de me trazer para acordar, a fazer carinhas e a falar sem interrupção.
Aqui também sou eu, de novo a fazer carinhas, a destruir papelinhos para acalmar os nervos, a ouvir perguntas que não ficaram na gravação vídeo, e tentando responder-lhes, nuns casos melhor, noutros pior.
A análise da obra e a entrevista são da responsabilidade de Burghard Baltrush, professor de Literatura, Universidade de Vigo.

Nota 1: os vídeos são longos e óptimos para adormecer.
Nota 2.: não deixem os vossos filhos ver e ouvir imagens e palavras de tão grande violência - controlo parental.
Nota 3: isto vai para o Indie, de certeza.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

As ordens de cima

As pessoas sentem que não vale a pena lutar contra a reacção, como cantam os Homens da Luta. O que é hoje a reacção? Expliquem este conceito ao pintor de 34 anos que cá anda a tratar-me as paredes, e que hoje ouvi dizer ao servente, desempregado, "são ordens que vieram de cima". E, dito isto, o outro calou-se. As ordens de cima substituíram Os Dez Mandamentos. Matem, roubem, cobicem a mulher do próximo, mas por favor não questionem as ordens de cima, seja quem for que lá esteja.
Desde os primeiros tempos da pregação de Jesus Cristo que não se lutava em tão grande solidão. Quem luta hoje? Que armas existem? Ninguém adere a greves: precisam do salário para pagar a conta da televisão por cabo. E eu compreendo. Ninguém se manifesta consequentemente. Temos todos vergonha de sair para a rua a gritar. Um batalhão de fazedores de opinião dirá que não temos classe. Que o pouco que temos nos deveria ser negado. Custa-me admitir que os cartazes do PCP onde se lê "Não ao corte de salários" servem para nada. Também me aborrece deparar-me a todo o momento com exemplos da transferência formal e informal para o PS de um eleitorado habitualmente conservador.
O governo vende-nos a crise e nós não só acreditamos piamente como toleramos que nos roubem dignidade.
Não há qualquer coerência em planos de contenção que taxam salários. Taxem rendimentos de outra ordem; taxem as contas bancárias, os sinais exteriores de riqueza, confiram as declarações de IRS duvidosas, mas ir ao bolso de quem ganha para pagar as contas do mês é de uma vileza que me agonia. Eu sei nada de política económica, mas sei que não há moral em exigir-se a quem não tem.

Doutor Rui

O novo livro de Rui Manuel Amaral provoca em mim uma avalanche de curiosidade.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Grandes senhores da nossa praça

Tenho um amigo, especialista em grego antigo, que vive em Coina desde que aí nasceu, e muito se irrita quando percebe que atento na literatura das portas de casa-de-banho.
Acredito mais na literatura de porta de casa-de-banho do que na actual literatura portuguesa, mesmo a que ganha prémios. Aquilo é inspirado e autêntico. A gente percebe que não andaram a estudar como inserir uma sinestesia, uma perífrase. Saiu. Há por ali muita filosofia à mistura com números de telefone de todas as redes móveis e fixas, bem como mensagens lgtb e straigh. O meu amigo de Coina disse-me logo que uma mensagem de wc nunca poderá ser straigh. Certas pessoas têm preconceitos! Há de tudo, e a democracia sempre me agradou. E não é só a mim. Quem faz as limpezas também aprecia, ou teria já diluído toda aquela fraca tinta com uma solução de boa líxivia em água quente.
Este fim-de-semana, numa das casas de banho do Almada Fórum, descobri que alguém tinha grafado, com singeleza, o línque para um blogue. Memorizei-o, e ao chegar a casa descobri que se trata de um templo dedicado aos grandes senhores deste jardim à beira-mar plantado. Visitem-no.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Cristiano Ronaldo tem de esclarecer a sua situação paternal


Cristiano Ronaldo não se pode passear no centro comercial com os sobrinhos comendo um gelado. Eu posso, mas creio que CR não gostaria de regredir à minha situação financeira. A fama tem o seu preço. Por outro lado, gostaria muito que a Armani me contratasse para ser fotografada em tanga e sem soutien, mas muito injustamente ninguém me contacta. Acho que o Sr. Simões não está a fazer o seu trabalho.
CR é uma figura pública. É neste momento o português vivo mais conhecido no mundo; mais do que Tereza agora com z, ex-Madredeus, e Mariza, também com z, trinca-espinhas que canta o fado. Embora tenha o direito a pedir que respeitem a sua vida privada, se eu dirigisse um jornal já teria em acção uma equipa de gente capacitada para deslindar a história. O problema que se coloca é o seguinte: CR não explicou um dado essencial da questão. Afirmou que a mãe tinha dado o consentimento para a absoluta custódia paternal e pretendia manter o anonimato, e isto, desculpem-me, conhecendo eu as mulheres, mesmo as americanas, não é normal, a menos que seja uma senhora da vida, carregada de filhos e trabalho. Mas se fosse uma senhora da vida já teria tentado rentabilizar a questão por outras vias. A menos que seja uma senhora da vida muito católica, com muitos princípios, não corrompida pela idiossincrasias da vida.
Se não é barriga de aluguer configura-se uma outra situação de compra e venda, neste caso, import-export, e como cidadã quero perceber o que está aqui envolvido. Fazemos o que queremos ao nosso dinheiro, mas à compra de crianças chama-se tráfico. Portanto, resta a CR ser sincero relativamente à origem deste filho. Queremos saber se é produto de uma barriga de aluguer, e eu espero bem que sim, o que não tem problema algum seja para quem for - Cristiano, o pessoal já está no século XXI! Porque, imaginando que seria fruto de uma relação fortuita, ambiguidade gerada ao usar os vocábulos "mãe" e "custódia", quero saber quem é a mãe cujo anonimato e autorização de custódia terão sido comprados por largos milhares de dólares. Sobretudo porquê. Esta situação precisa de ser esclarecida.
Não custa nada, Cristiano, o menino manda os responsáveis pela sua imagem irem de novo ao seu Facebook escrever "o meu querido herdeiro foi gerado em situação de barriga de aluguer, e agora podem vir as modelos que quiserem, porque já tenho alguém em cujo nome pôr toda a minha propriedade móvel e imóvel. Kaput!"

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Calados

Há quem viva calado a vida inteira. Encaram a existência como um calvário que têm de ser atravessado em silêncio e de cabeça baixa. Desejam, mas não ousam desejar. Pensam, sentem, mas calam, porque calar é sentir mais, pensar mais, viver demais.
Aceito essas pessoas como alguém a quem foi diagnosticado um cancro. Vão morrer minados - não posso fazer nada por elas. Não lhes serve que eu me vire do avesso como se faz à tripa dos animais mortos. Nada lhes serve. Não querem ser outras. Não podem. Não conseguem. Não sabem.
O pior não é a destruição que operam nas suas vidas, mas o que as suas vidas, por contágio, tantas vezes por um inexplicável amor, matam nos outros.

domingo, 4 de julho de 2010

A barriga sem amor que Cristiano Ronaldo pagou

Filhinho, e se fizesses como o Ricki Martin, e arranjasses um herdeiro para os teus milhões, antes que uma galdéria qualquer te engane e depois tenhas de lhe pagar uma pensão de alimentos choruda?!


Hoje, às 15, apanhei, na RTP1, uma reportagem algures ao sol, numa festa dirigida a grávidas e afins, à qual chamavam Barrigas de Amor. Juntar os lexemas barriga e amor numa mesma expressão é suficiente para angariar a adesão do mulherio todo, convencido que os dois conceitos estão intimimamente ligados. A minha prima afastada, pessoa violentamente realista, costuma dizer que se o nascimento de crianças dependesse do amor, a raça humana já estaria extinta.
As Barrigas de Amor, na minha opinião, deve ser um programa patrocinado pelo Ministério da Saúde, como forma de antecipar os partos de Julho e Agosto, que devem estar todos para hoje ou amanhã, o mais tardar, considerando os 40º debaixo dos quais as grávidas se passeavam.
Os médicos têm de ir de férias. Há poucos de serviço às urgências, no Verão.
As apresentadoras iam apelando à necessidade de se ter filhos para aumentar a taxa de natalidade, enquanto as famílias se arrastavam, as grávidas se arrastavam, e toda a gente destilava os poucos euros da conta na Caixa, pagos tarde e más horas. Tenha a menina, tenha a menina, dir-lhes-ia eu.
Propunha, se não fosse pedir demais, que a festa se passasse a chamar Barrigas do Acidente/da Irresponsabilidade Total/da Pressa que não Deu para Meter o Preservativo ou Barrigas da Bebedeira de Sábado à Noite ou Barrigas da Rapidinha no Fiat Uno Com o Chefe da Repartição ou similar. Todos os anos se podia apelar a um tipo diferente de barriga.

Outro assunto do dia, a escaldar-me as mãos: Cristiano Ronaldo foi pai.
As senhoras estão babadas. Ai, o malandro, lá se arranjou com uma americana jeitosa. Se calhar ela enganou-o. Quem é que não quer ter um filho do Cristiano Ronaldo?!
Eu não quero, minhas senhoras. Preferia ter um filho do Sócrates, que é praticamente o mesmo que trazer no ventre a Semente do Diabo.
E passo a lembrar a receita para se pôr no mundo mais um desempregado, exactamente como fez o Ricki Martin, que tem ali duas lindas meninas ligeiramente achinesadas, que poderão um dia, quem sabe, caso não tenham cabeça para os estudos, tirar um curso profissional de geisha: Cristiano Ronaldo não é bonito, mas tem com certeza espermatozóides viáveis. Não são precisos muitos - meia dúzia deles basta - e na América há excelentes clínicas especializadas em técnicas de reprodução medicamente assistida. Bota-se uma gota do sémen do rapaz numa lamela, e escolhem-se ao microscópio os espermatozóides mais gordinhos e mais traquinas. Ignoram-se os sem cabeça, os de cabeça dupla, os que se movem mordendo a cauda e os imóveis. Não prestam para este fim, nem para nenhum outro. Combina-se a técnica de fertilização com o cliente: pode ser in ou ex vitro. Se for ex vitro, processo mais barato, e usado em candidatas mais novas, os espermatozóides são colocados no colo do útero de um receptáculo em exacerbada fase ovulatória, e fazem o seu seu caminho sozinhos. Se for in vitro, o óvulo é fecundado fora do corpo e posteriormente recolocado no útero do receptáculo.
Os espermatozóides do Cristiano Ronaldo são gratuitos para o próprio. Não seria necessário, porque ganha o suficiente para pagar os seus próprios espermatozóides, mas, neste caso, o rapaz dos milhões de euros apenas tratou de arranjar um bom receptáculo, através da clínica cujos serviços usou, e pagar-lhe em consonância, tal como à clínica. Não é certo que o Cristiano tenha conhecido a barriga sem amor. Pode ter sido saudável dona-de-casa do Alabama. Esperamos que a senhora seja inteligente, porque pelos genes do lado do pai só vai herdar massa muscular, o ar de português que trabalha nas obras, e sua muito e tem a pele oleosa, embora agora já sobrem poucos. A trabalhar nas obras.

sábado, 3 de julho de 2010

Os amigos

Sou resultado da difícil gravidez de uma mulher madura. Os meus pais nasceram em 1924, pelo que, sendo filha única, fui criada à moda antiga. Brinquei e estudei sozinha. Raramente tive direito a conviver com outras crianças. Não fui autorizada a sair. Nunca tive permissão para namorar, nem para qualquer outra actividade, excepto ser caseira, saber fazer tudo e fazê-lo bem, ser uma menina bem comportada, com pensamentos piedosos. A primeira vez que exclamei "vai ali uma mulher grávida" levei uma bofetada. Não se dizia grávida. Dizia-se, está de esperanças, está de bebé. Educaram-me para ser uma mulher honrada, trabalhadora, independente e forte para resistir à dureza da vida. E tudo isso aprendi, mantendo incólume a minha natureza frágil, sensível, impressionável. Sempre achei, e devo-o aos romances da irmãs Bronte, que não interessava o que me obrigavam a parecer desde que, em essência, me mantivesse fiel ao que sentia ser.
A minha mãe ensinou-me a viver sozinha. Dizia-me, não temos amigos, ninguém, nunca. A tua confiança nos outros será defraudada. Quando precisares de alguém, perceberás que afinal não há uma alma disponível para te ajudar. Aprenderás com a vida. Ri-me tantas vezes na sua cara, enquanto à tarde ela me ensinava a fazer ponto pé-de-flor. Chamei-lhe associal e pessimista. Disse-lhe, comigo não vai ser assim, mãe. Isso não é verdade, mãe. As pessoas não são assim, mãe. E ela respondia-me, vais ver, menina, vais ver.
Trouxe agora o meu enxoval para casa. São peças tão antiquadas que me comovem. A minha mãe concordou que já não fazia sentido guardá-las. É engraçado que tendo-me educado para ser uma mulher só, que em princípio cuidaria dos pais idosos, a minha mãe me tenha também educado para ser dona-de-casa, à cautela, não se sabendo o que poderia sair daqui. Nunca fui namoradeira, dizia ela. Ou melhor, nunca lhe pareci namoradeira, porque escondia bem as emoções que sabia desagradarem-lhe. Consumi-me de desejo muito cedo, e talvez a culpa seja igualmente das irmãs Bronte. Ou, então, do caril picante.
O que hoje sei é que essas palavras da minha mãe, que tanto neguei, todas essas palavras de decepção e desconfiança, todo esse discurso defensivo, essas palavras que rejeitei, pelas quais a culpei, tudo isso, tudo, era verdade.

A primeira vez custa sempre um bocado

Um amigo referiu-me ao telefone como "uma jovem escritora". Sorri.
Admitamos que aos 47 anos se está vertiginosamente perto dos 50, e mesmo sendo eu uma assumida adepta do discernimento das idades avançadas, quando nos toca pessoalmente não é pacífico. Lembro-me dos meus pais terem 50 anos. Eu tinha 10 e achava-os muito velhos. Tenho quase a idade que os meus pais tiveram quando os achava velhos?!
Hoje dei comigo a mentir duas vezes relativamente à idade. Num caso, pareceu-me correcto ter 44, noutro, 46. Não me custa assumir a idade, mas há contextos do diálogo social, sobretudo aqui no bairro, em que faz muita diferença justificar determinadas loucuras aos 47. Se tivéssemos 27 aceitariam melhor. Mas 27 não tenho, não dá para fingir. Entre os 44 e os 47, não se percebe bem, sendo que a primeira está mais perto dos 40.
Enfim, isto não tem lógica, a não ser para outras mulheres ou homens que, como eu, tenham já mentido na idade. A primeira vez custa sempre um bocado.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sondagem

Resultados da sondagem ao novo aspecto do blogue: 33% dos leitores gostaram muito; 29% preferia a mulher-cão rodeada de flores, que continua no Mundo Perfeito. A votação restante pulverizou-se e passemos à frente. O aspecto continua este. Por agora. Gostaria de ser mais constante, mas não fiz essa aprendizagem, lamento.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

No supermercado, enquanto passava no corredor do leite e dos ovos

Comprei uns ovos postos por galinhas criadas em liberdade. Espero que também tenham sido postos em liberdade, porque custaram um euro e tal a mais que os das galinhas da linha de montagem animal. Se todos nos recusássemos a adquirir produtos que resultam da crueldade e da injustiça...
Quantas vezes já dissemos "se todos..."?
A mesma coisa vale para o leite. Se apenas adquiríssemos o leite justo...
É mais caro, certo, mas vale a pena consumir menos desde que se cumpra aquilo que é ético.
E a seguir perguntei-me quantos vizinhos sabem o que significa ética. E mesmo que saibam, quando o dinheiro é à justa, conta mais a ética ou uma caixa de ovos ou de leite por menos um euro?

Conversa de café

Acabou o Estado-Social. Vamos voltar à caridade. Não adianta fazer greves, sair para a rua. Só resulta a resistência passiva, não permitindo que o sistema mude, mas sem que possas ser responsabilizado por tê-lo impedido. A crise veio para ficar. Não tenhas esperança que isto mude em 2012. É uma tendência generalizada que se instalou. Não é Portugal - é a Europa. O mundo. Sobretudo, a Europa, acabou. Porque nós competimos com os mais pequenos. Não somos concorrentes dos países do Norte. Por isso, educa os teus filhos para se safarem num mundo em que não se pode contar com nada nem com ninguém. Se queres saúde e educação, paga-as. Se queres reforma, poupa ao longo da vida. Diz-lhes que o mundo é global. Que não podem esperar acabar os cursos e ficar a viver no torrão natal para sempre, perto dos seus. Vão para onde sejam precisos, para onde possam ganhar a vida. O meu filho vou já pô-lo a estudar em Inglaterra.