terça-feira, 31 de agosto de 2010

Quando é que a minha mulher-a-dias volta da Moldávia?

Fui levantar dinheiro ao Multibanco, coisa que faço cada vez menos, não por falta de máquinas.
Enquanto esperava que o atm digerisse o código fui presenteada com publicidade a um produto que não fixei, mas cujo texto de apresentação era "Grandes questões do nosso tempo: há hoje algum concerto no Algarve?" Achei graça. Gosto que as pessoas se divirtam, que não estejam sempre a pensar o sentido da vida e a volatilidade das emoções. Viver a vida e as emoções é igualmente importante. É importante ser jovem, inconsciente e parvo. Não tive essa oportunidade e fez-me falta. Os meus alunos fazem-me sorrir todos os dias, exatamente porque dizem muita parvoíce. E gosto. O que seria de mim sem essa dose de frescura, de inocência, de tudo é possível?! O que seria de mim sem poder experimentar, através do outro, aquilo de que me privei por necessidade de sobrevivência?
Levada por este espírito, pus-me a pensar qual seria, para mim, no dia de hoje, a equivalente grande questão do nosso tempo, e ocorreu-me algo deste género: quando é que a minha mulher-a-dias regressa das suas férias na Moldávia? Isso, sim, é mesmo uma questão importante, porque vivo numa casa de quatro assoalhadas com dois sacos de pêlo, e preciso de socorro, para que possa sentar-me a fazer aquilo de que gosto, ou seja, ler, escrever e ver filmes.
Passo-vos agora a bola. Vou abrir os comentários a este poste, só a este, para que possam dizer-me, qual é, para vós, a grande questão do nosso tempo, e prometo que depois escrevo um texto baseado no que me disserem.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Mais uma afilhada



Este gatinho lembra-me o Gimbrinhas, espírito protetor da minha casa, em Lourenço Marques, e companheiro do meu pai, que lhe interrompia muitas vezes o traçado das plantas, com respetiva disposição de tomadas, interruptores e ligações de fios, porque se deitava sobre o papel vegetal, entre os seus braços. O meu pai adorava este gato, como sempre adorou todos os animais.

O Gimbrinhas veio muito cedo para nossa casa, ao colo do meu pai. Eu mal recordo a sua chegada. Tenho uma vaga ideia, umas impressões apenas, o que data a sua entrada na nossa vida pelos meus 4, 5 anos. Era um gato capado, grande e gordo. Sossegado, mas esquivo. Diziam que era um gato bravo. Nunca percebi se tinha sido um gato doméstico encontrado no mato, vivendo uma feliz existência livre, ou se seria mesmo um gato selvagem. Sei que lhe tinha respeitinho, e penso que ainda se notam as marcas das suas unhas na minha cara. O Gimbrinhas não gostava de beijos nem de apertos. Com o meu pai é que a relação era amorosa. Não é que eu não tenha tentado conquistar-lhe o coração.

Mas o gatinho da foto não é o Gimbrinhas nem sequer macho. É mais uma gatinha abandonada que me pediram para divulgar no blogue. Disseram-me, vê lá se usas a tua influência... E eu ri-me. Não tenho influência alguma, sobre ninguém. Retorquiram, vá lá, para dar a gatinha..., lá no blogue, metes um poste. E aqui estou eu. É um gatinha jovem e pequena que precisa de dono. Qualquer pessoa que não tenha cães pode ter um gatinho (com cães também, mas a adaptação requer certos cuidados). Comprometo-me a amadrinhá-la entregando-a com ração, latinhas de paté, liteira, sílica e caixa transportadora. Se puderem, divulguem esta informação entre os vossos amigos.

Podem começar a escrever para omundoperfeito@gmail.com.


Nota: os gatinhos que divulguei na primavera estão todos muito bem. Um ficou com um amigo que mora em Queluz; dois com uma aluna, na Costa da Caparica, e outros dois com uma leitora deste blogue, e agora amiga, na Graça, em Lisboa.

domingo, 29 de agosto de 2010

Ainda falta muito?

O Filho do Homem, René Magritte, 1964


Veio hoje até perto da minha casa. Parou a uns 40 metros e quedou-se perscrutando o edíficio. Qual seria o meu andar?! Eu estaria dentro de um daqueles apartamentos, com o meu marido, a quem me habituei, e as minhas filhas queridas, mas qual?. Eu, os meus olhos, o meu cheiro, o éter de mim, sobretudo de nós, que ainda paira sobre o mundo, e continuará nele após a nossa morte, amalgamado na enorme esfera de amor gasoso, e perda e dor que todos os dias cresce até um dia explodir e chover sobre o mundo estrelas de fogo. Um massa invisível que não tem para onde ir.

Vinha com o irmão mais velho, e disse-lhe, vês estes prédios, são novos, boa construção, deve custar bom dinheiro um apartamento destes, com lareira e garagem. O irmão não sabia; lareira e garagem, boa construção, sim senhor. Estava justificado o interesse pelo prédio onde moro. E continuou olhando como se as paredes fossem de vidro. Foi depois do almoço. Eu ainda estava à mesa com a Raquel, e explicava-lhe que não, que não podia ir ao cinema sozinha com amigos incertos, apesar dos 12 anos, porque eu não fui ao cinema sozinha, com essa idade, e é o que está bem, essa educação antiga, que colocava o certo e o errado em prateleiras sem talvez, sem dúvidas; e porque o mundo está cheio de mal de que pretendo afastá-la enquanto puder.
Tinha vestida a minha túnica negra e branca de trazer por casa, um saco que não me favorece, e o Carlos estava a preparar-se para lavar a louça. A Raquel amuou e foi para dentro ruminando a minha morte. Lá dentro, a irmã salgou a ferida, bem feita, tens a mania que podes fazer tudo. E eu dirigi-me à cozinha, em silêncio, sabendo que ele estava lá fora, e pensando que ter filhos é pior que suportar uma doença crónica, porque não há remédio que nos alivie o incómodo, e nem sequer desejamos livrar-nos dele. Ter filhos, o que nunca se sabe o que será antes de os ter na mão, de dependerem da nossa protecção, do nosso sacrifício que nunca admitirão. Tive filhos, porquê, pergunto-me? Eu e ele nunca falámos em filhos e tremíamos com os descuidos. Tive filhos porque toda a gente tem? Sim, por isso, claro, claro. Porque o esperavam de mim. Porque era a ordem natural das coisas, embora temesse a ordem natural das coisas! Mas a mãe do Carlos, nos anos seguintes ao casamento, perguntava-nos, todos os fins-de-semana, então, quando me dão um netinho? Toda a gente o esperava. E a certa altura decidimos que já gozáramos o suficiente, que poderíamos, então, iniciar o calvário.

Foi esse o cenário familiar que pôde observar através da sua visão raio-x. Eu, a minha família, o rame-rame diário, esquecida dele, do que construímos e destruímos juntos, como se nunca nos tivessemos conhecido. Na verdade, não o suporto. Viro a cara se o encontrar na rua. Finjo que não o vejo. Desprezo-o. Preferia nunca ter tomado nota da sua existência. Essa carraça mal feita que não me larga a pele, que me escreve cartas anónimas, perguntando se ainda tem de esperar muito. Quanto anos faltam até cumprires cabalmente, até sentires que cumpriste cabalmente as tuas tarefas de mãe e esposa? Não percebe o essencial: casei com o Carlos para o esquecer; é verdade que o amava, mas como pode esperar que após 16 anos de conjugalidade não me tenha afeiçoado ao homem que me ofereceu a oportunidade de ser uma mulher normal, integrada, uma mulher casada, igual às outras? Não interessa quanta rebeldia enegrece o nosso coração, desde que flua calada. Desde que os vizinhos de baixo e de cima não detetem nada de especial no nosso comportamento. Desde que passemos todos os anos férias no Algarve e façamos grelhados na varanda. Temos de ser iguais, fazer igual. É o segredo para uma existência pacífica, conquistando amigos. Ninguém tem nada que dizer de mim. Nem os meus pais nem os meus sogros. Tenho sido tudo o que se espera de uma esposa, de uma mãe e de uma mulher de trabalho.

O Carlos pode não ser bonito nem brilhante nem rico, mas é o pai dos meus filhos, e aprendeu a digerir as minhas neuras, sabendo que não o amava quando casámos. Espera aquele lá fora que um dia eu largue o meu marido para acabar nos seus braços? Oh, deixa-me rir. Quem é ele, agora? Já não me lembro dos seus braços. Um estranho. Não o conheço. Já não sou dele. O que passou, passou. Teima em não perceber que não lhe pertenço, que em nada me move, que sou apenas a sua obsessão. Porque não vai ele, ao domingo, com o irmão, observar a arquitetura do Parque das Nações?! Que me largue! Pensará ele, por um segundo, que deixarei o Carlos na velhice para me juntar a ele? O Carlos que me tem apoiado todos estes anos? Que me tem sido fiel como as minhas próprias mãos? Que patetice de quem não se cura porque não quer curar-se, avançar, viver. Eu fiz a minha vida. Faça ele a sua. E sem mim, caramba. Há por aí tanta mulher.
Olhou para a minha casa sem saber que era nesta que eu estava. Olhou para mim, que afastada da janela o observava, especado ao lado do irmão gordinho, de mãos nas calças, olhando para o alto como se esperasse ver-me flutuar toda envolta em chiffon azul-celeste, com asas brancas. Como se eu fosse a única coisa no mundo que não pôde ter e ainda deseja. Como se eu tivesse alguma importância. Como não se importando que eu valha nada, que não passe de uma afeita ao sistema que nos impomos, e uma traidora aos ideais que defendemos no tempo em que nos amámos. Olhou para mim sem me poder ver. Eu estava lá. Havia o reflexo no vidro das janelas e os seus olhos podiam ver apenas o que queria ver. Os seus olhos que passaram por mim, que pousaram em mim. Pobre homem.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A liberdade que nos permitimos

Há pouco estava a lavar cobertores no tanque, envolvida nos meus pensamentos, como sempre. Pensei na liberdade. Nessa dose mínima que nos é facultada como uma mercê da qual pagamos tributo. Pensei na minha liberdade e ocorreu-me a expressão "a liberdade que me é permitida". Fiquei a pensar nisso: a liberdade que nos é permitida, essa liberdade condicionada à qual nos habituamos. Podemos fazer isto e aquilo se. Podemos ir ali e acolá se.
No momento seguinte, recordava o meu diretor do colégio, o Sr. Ilídio Correia, que me adorava. Devia ser uma adolescente adorável, penso agora. Como quereria ter sido minha própria filha, irmã, mãe! E talvez, sem o perceber, tudo isso me tenha acontecido num só tempo.

Cheira-me a sabão azul e branco, a roupa lavada.

Estamos sentados na salinha de visitas onde expôem as fotos das melhores alunas, se recebem os familiares e se é chamado para falar com os diretores. Sou chamada muitas vezes, nunca para levar ralhetes, mas para que o sr. Ilídio converse comigo. Gosta de conversar comigo, o que as prefeitas estranham e não me confere grandes simpatias. Conta-me histórias do passado. Foi missionário leigo em Angola. Andou a civilizar os pretos. Fala deles com superioridade, mas admiração. Bebeu a cultura nativa e vê nela nobreza. Depois pede-me opinião. Interessa-lhe saber o que penso sobre a independência das colónias, sobre os pretos, o colégio, a disciplina; sobre a vida. Eu nada sei. Conjeturo. É a opinião de uma menina que acredita que tudo é possível, que carrega uma esperança do tamanho da cidade. E ele ri-se. Ri-se muito quando lhe falo da liberdade que ali não tenho, nem as outras internas. Devíamos poder sair sozinhas, como os rapazes. Deviam deixar-nos ir passear ao domingo à tarde, pelo menos. Estamos completamente presas. Em que somos diferentes dos rapazes que podem sair todos os dias? Por que não sou digna de confiança? Não sou eu, são algumas, responde-me. Argumento. Sei que argumento. Falo de liberdade, digo muitas vezes essa palavra, "liberdade". Ser livre, livre, livre. Lá fora. Sim, lá fora somos livres. E eu quero isso: ser livre. No futuro serei livre. E ele ri-se.
A liberdade não existe, Isabela. Um dia verás que tenho razão. A liberdade não existe. E contradigo-o. Contradigo o homem de 90 anos que foi missionário leigo em Angola, em 1930, que atravessou quase um século de vida. O que me impede de invocar esse ideal que julgo ser possível sem limitações? Ainda estou tão longe de perceber que ele tem razão. Ainda estou tão longe de saber que, tendo ele razão, é possível conquistar parcelas de liberdade, e gozá-las com delícia. Ainda nem sequer imagino que somos nós quem estabelece as fronteiras da liberdade que nos permitimos gozar. Nós, a nossa consciência. Esse género de polícia de costumes em nós.

Creio que não valorizei suficientemente o senhor Ilídio enquanto nos conhecemos. Vi-o sempre como o velhote antiquado que, embora gostasse de mim, me prendia. Não lhe prestei a devida atenção, não o acarinhei suficientemente. Era um homem exigente, autoritário, possessivo, emocional, espontâneo, dadivoso. Oferecia-se aos outros com generosidade. Acho que os homens que marcaram a minha vida têm em comum esta personalidade intensa, vibrante, ocupando espaço à larga dentro de mim. Devo-lhe o reconhecimento da grande amizade que me dedicou, do carinho paternal com que me recebeu nos anos em que estive à sua guarda. As pessoas morrem e depois já não podemos dizer-lhes de viva voz que tinham razão, que aprendemos finalmente as suas lições. Que ainda as lembramos com amor.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Do ruído e do silêncio

Estou apenas a dizer a verdade. Sem a verdade, por mais dura que seja, não pode haver cicatrização. É tudo.
Coetzee, J. M., Verão


Não sou escritora de livros sobre o colonialismo e os retornados. Não sou memorialista nem diarista, esses subgéneros para os quais se remete aquilo que à inteligência interessa chamar literatura de menor importância. Não quero ser coisa alguma. Sei que escrevo. Sei que, eventualmente, esse material poderá transformar-se em livro. Não conheço nenhum compartimento no qual me apeteça encaixar o que produzo. Não me interessa ser romancista nem contista nem ganhar prémios nem qualquer outra menção atribuidora de estatuto pessoal, artístico e literário. Não estou aqui para entrar na concorrência. Quero continuar a ser a dona Isabela, aquela senhora gordinha das cadelinhas, que vai ao café com chinelos de enfiar no dedo e t-shirt coçada. Quero falar e escrever livremente, sem medo, sem ambições, apenas porque me sinto bem, e, por outro lado, preciso de o fazer.
Também não me preocupa que o meu próximo livro não venha a ter a visibilidade do Caderno - tem sido uma pergunta recorrente, ultimamente, bem como, qual será o próximo, se já está pronto a editar, etc. Sou nova neste meio, não tenho amigos nem nomes de família nem uma máquina de marquetingue atrás das costas. Fiz-me sozinha no Mundo Perfeito, mas percebo que o orgulho operário tem o seu preço.
Nos últimos meses, tenho escrito e falado muito sobre sobre África, porque me têm solicitado para esse fim. A publicação do Caderno proporcionou-o, naturalmente. Toda esta onda me tem ajudado a posicionar-me identitariamente. Tornou-se agora mais claro, para mim, o lugar onde pertenço, e aquilo que afinal sou. As pessoas perguntam-me sobre tudo, e vejo-me levada a refletir questões que nunca me ocorreram.
Recentemente, revi uma entrevista gravada na qual Mia Couto e José Eduardo Agualusa falavam dos seus países sob diversos ângulos, e enquanto seus representantes culturais. Tenho de me pronunciar, desculpem, mas tem mesmo de ser. Mia e Agualusa não terão culpa, mas custa-me esta coisa dos representantes das culturas de Angola e Moçambique continuarem a ser brancos. Não há negros, mulatos, indianos misturados ou puros, outra raça qualquer a escrever nestes países? Estranho.
A certa altura, a apresentadora questiona os entrevistados sobre a forma como os seus países têm vindo a curar as feridas da colonização e descolonização. Agualusa lá se explicou sobre Angola, a meu ver, com sentido. Mia Couto, com a habitual lentidão discursiva e aparente desinteresse, defendeu a ideia de que em Moçambique não há ruído sobre o assunto. Segundo Mia Couto, os moçambicanos escolheram curar as suas feridas em silêncio. Curar feridas em silêncio!, ora aí está uma novidade sobre a qual a psicologia deverá debruçar-se.
O silêncio silencia, não cura. Acredito que Mia, pessoalmente, tenha escolhido o silêncio, mas tenho razões para duvidar que os moçambicanos escolhessem conscientemente coisa alguma, para além da sobrevivência diária, que é o que tem lógica. O silêncio dá jeito é aqueles que, se falassem, teriam demasiado a contar.

O lado negro de tudo

Se calhar este ano vão começar as obras na minha escola.
Ah, é? Vão ter as aulas onde?
Acho que em pré-fabricados. Mas não é a escola toda. É por fases. Por pavilhões. A minha preocupação é o tanque da tartarugas e dos peixinhos. Temos um jardim interior muito bonito, no pavilhão da biblioteca, onde está o tal tanque. As tartarugas e os peixes são enormes; todos gordos e lindos. Havias de ver as tartarugas a comer: o funcionário coloca a comida sobre um madeiro grande, que flutua no tanque, e elas conseguem subir para lhe chegarem. A minha preocupação é onde vão pôr as tartarugas e os peixinhos enquanto decorrerem as obras.
Olha, ontem apareceram muitas tartarugas mortas no Algarve - grandes que eu sei lá! Não percebem como é que foram lá parar.
Silêncio.
E não sei onde, também deram à costa dezenas de baleias mortas.
Mãe, tens a certeza que não morreu mais nenhum animal?
Não morreu mais nenhum animal?!
Falo-te de animais dos quais gosto ou com os quais me preocupo, e tu parece que gostas de me apresentar relatórios de animais mortos. Tens essa forma negativa de ver a vida. Essa mania de destacar o lado pior. Esse pessimismo. Sabes bem que detesto que me descrevas esse tipo de coisas. Isso faz-me sofrer, mãe.
Esqueço-me que tens pena dos animais, o que é que queres?!
É melhor mudar de conversa. Uma coisa que tenho andado para te perguntar: como é que se chamava aquela praia perto de Lourenço Marques, onde íamos ao domingo e havia macacos, muitos macacos, por todo o lado, a saltar de árvore em árvore, mesmo pertinho de nós? Era Macaneta? Inhaca? Era uma praia que ficava numa estrada de terra quando se ia até ao final da Costa do Sol, e se seguia em frente, sempre para cima, ou era preciso apanhar o batelão ou o barco? Lembras-te disso?
Lembro-me dos macacos, mas não sei onde era. Acho que era preciso apanhar o batelão. Havia macacos por todo o lado, havia. Os pretos matavam-nos, esfolavam-nos e comiam-nos.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

De Luanda para a Margem Sul

Prince Wadada


Há uns tempos revelei aqui a minha ignorância musical sobre bandas atuais e respetivos projetos artísticos. Recebi, entretanto, uma carta da leitora Maria Natália Aleixo, que me remetia para este Dog Fever (promo), com imagens gravadas em ruas onde passo todos os dias. Gostei bastante, eu que sou esquisita, e procurei saber mais sobre os Makafula Soundsystem e Prince Wadada.

É uma banda de Almada; meus vizinhos, portanto. Trata-se de um projeto recente, "com cerca de 4/5 meses. Dois músicos, o angolano Prince Wadada e Milton Gulli, juntam-se para animar as festas, os bares, discotecas, o que for, e convidar à dança os presentes com sons africanos que passam no "gira-discos"! O que se ouve? Afro Futuristic, Dub, Funk, Dancehall e muito mais!! "
Prince Wadada é ainda responsável pelo tema de sucesso, Táxi para Luanda. Vale a pena seguir estes línques.

domingo, 22 de agosto de 2010

É imperioso fazer dieta

A minha mãe assistia à missa na televisão, enquanto eu preparava a cozinha para dar início ao processo de consagração dos alimentos em pão do Senhor. Escutei o padre afirmar que a porta que acede ao Reino do Céu é estreita, e pensei, juro que pensei, se calhar eu não vou conseguir passar.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

My man

Ele é charmoso e meiguinho. Ele tem uma voz que me faz cócegas na espinal medula. Ele mostra-se selvagem, marginal, contra-corrente. Ele é generoso e solidário. Ele sempre foi um excelente profissional e eu morro de saudades de o ver na tv e ouvir na rádio. Adoro-o, e ele agora tem um site a explorar.

Panorama

Ultimamente, nas frases do dia, os jornais citam artigos de há 100 anos, e Eça e Ramalho e Herculano, críticos e cronistas políticos que nesse tempo apontavam o falhanço da nossa economia. A ideia é que nunca saímos da cepa torta e que a nossa crise é uma doença crónica.
Fico com a ideia que alguém, nos anos 90, julgou que a abundância de subsídios da CE queria dizer que já não éramos pobres. Como se uma família que vivesse de esmolas, de repente pensasse que tinha enriquecido. A nossa pobreza é essa: não pensar panoramicamente.

I had a machamba in África

Quando leio notícias sobre os pedidos de indemnização ao Estado Português por parte dos espoliados das ex-colónias, que perderam as machambas e tratores e dentes de marfim e peles de leopardo e fábricas e maquinarias e casas e carros e cabeças de preto, esses tesouros que por lá deixaram, ocorre-me que é uma injustiça não se satisfazerem as suas pretensões. Seria uma bela oportunidade de os levar, no passo seguinte, a indemnizar os espoliados que lá fizeram.

Oh, tempo, volta para trás

No Ípsilon da semana passada, o dossier da Raquel Ribeiro sobre Os Livros dos Retornados, bem como o ensaio de Eduardo Pitta sobre o mesmo assunto.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O sabonete é lindo e fofinho

A jovem apresentadora de um programa da SIC que está a dar neste momento (são 16h57) acabou de exclamar, em relação aos fabulosos sabonetes Ach Brito que lhe foram oferecidos pelo representante da fábrica, "que liiiiiindos!" E acrescentou, "isto dos sabonetes, há muito substituídos pelo gel duche, é uma onda de revivalismo, não é?!"
Não sei se a conhecem, mas é uma jovem toda cor-de-rosinha como um leitãozinho magro, lourinha, com pele de pêssego maduro, não terá mais que 17 anos, e deve ainda usar aqueles produtos inodoros e anti-alérgicos das linhas de higiene para bebé, de venda exclusiva em farmácia.

Provavelmente os melhores sabonetes do mundo. E são portugueses.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A minha mãe não me autoriza pornografia em casa

A Dama que Decobre o Seio, Tintoretto


A minha mãe descobriu, a semana passada, os meus posters de Adão e Eva, de Durer, numa parede do meu quarto para onde não esperava que olhasse. E não se conteve, que eu tenho 47 anos mas estou em muito boa idade para aprender. Olha lá, Isabela, o que estão aqui a fazer este homem e esta mulher nus? Lá lhe expliquei que eram os nossos pais, Adão e Eva, sobre quem o padre tanto discursa na missa. Respondeu-me, não parecem! Acerquei-me das imagens e mostrei-lhe, estás a ver a maçã?, e a serpente?, e as folhas que cobrem o sexo de cada um? Mãe, isto é uma pintura encomendada pela Igreja, para uma igreja. Oh, oh, não querias mais nada! Um quadro destes num lugar sagrado! E foi-se embora resmungando que não devia ter nus no quarto, que não parecia bem, que, mais grave, não estava bem, e que eu piorava dia-a-dia na loucura sem remédio que herdei lá da família do meu pai, que eu saía bem ao meu pai, toda a gente sabe. Quando me quer criticar, a minha mãe compara-me sempre ao meu pai, que esse é que tinha defeitos todos.

Tenho agora um outro poster de Tintoreto que também penso expor algures onde possa ter lugar. Trata-se de A Dama que Descobre o Seio. Talvez o pusesse no quarto de hóspedes, que um dia será o do meu filho. Mas enquanto a criança não vem a vida tem de seguir o seu curso.
Por outro lado, não sei o que fazer, porque a minha mãe dorme sempre no quarto de hóspedes, e receio que se desgoste ao pensar que, com tantos nus em casa, talvez a sua filha, a sua única filha querida sofra, afinal, daquela parafilia dos viciados em pornografia que às vezes dão a cara nas reportagens da televisão.

Curso para agentes da autoridade

Como os autuados nas ações de fiscalização da PSP e GNR não são necessariamente surdos nem burros, aconselharia a que as brigadas falassem entre si em jargão impossível de entender pelo comum mortal, nomeadamente senhoras que circulam normalmente, a 40 à hora, sendo seleccionadas para soprar no balão depois de terem bebido duas chávenas de chá Darjeeling.
Todos concordamos que fica mal ouvir polícias dizendo que "o melhor sítio para os apanhar com álcool é ali ao Princípe Real, de madrugada, quando vêm a sair do Bairro Alto" ou "este sítio é bom porque os condutores não nos conseguem ver aqui na esquina e não têm por onde escapar".
Ora bem, senhores agentes, vejamos como posso ajudar-vos.
Quanto à primeira frase, poderiam enunciar algo deste género: o pleice do best pa micar tansos cas antenas empanadas é no Prince, tardovski, quando o pipol geraute do gueto fashion.
A segunda frase seria transmitida com sucesso aos colegas, sem que ninguém de fora percebesse, usando o mesmo código. Ficaria algo deste género: "este pleice tá naice porque os tansos não nos micam aqui na corner e não dá pa geraute por outro pleice.
Informo que me encontro disponível para dar aulas sobre diferentes tipos de código aos agentes da autoridade, e posso mesmo ensiná-los a dizer, então, como é que o pessoal vai agora lixar esta senhora tão simpática, com ar de não saber como conseguirá esticar os euros até ao final do mês?

À GNR e PSP

Este texto é dedicado aos agentes da autoridade que ontem, às 22 horas, me aplicaram a rotineira multa de Agosto, a seguir às férias, no Martim Moniz.
Muito vos agradeceria que transmitissem a seguinte mensagem aos vossos superiores hierárquicos: com todo o respeito, gostaria de estabelecer uma parceria privado-público com a PSP e GNR. Não discuto que gostem de me multar, e que tenham mesmo um prazer especial nisso, quando me vêem aparecer, mas procedamos com ordem. Eu responsabilizo-me por ir cortando em bens de primeira necessidade para conseguir pagar as multas, e os senhores agentes marcam-me datas, horas e locais certos nos quais eu aparecerei para ser multada sem ter de esperar uma hora, por vezes de pé, pelos impressos que preenchem devagarinho. Compreendo que escrevam com alguma dificuldade, até porque a luz do candeeiro público não ajuda, mas que tenham os papéis já alinhavados para que seja chegar, comprovar-se a infração, assinar e andar. Multem-me, mas não me façam esperar - já não é a primeira vez que aqui escrevo sobre o assunto. Para o efeito, posso facultar os meus números de telefone, e é só ligarem-me na véspera, dizendo, dona Isabela, olhe, fachavor, quanto à multa de Agosto, gostaríamos de lhe perguntar se a senhora tem disponibilidade para passar na Avenida Capitão Leitão, em Almada, logo à noite, aí pelas 10 e picos, para a multarmos, como é habitual. Podemos até combinar o tipo de infração ao código da estrada que pretendem. Digam-me, olhe, fachavor, e já agora venha com excesso de velocidade ou beba uma garrafita de vinho antes de sair de casa, ou desta vez não traga documento nenhum, mesmo nenhum, ou não interrompa a marcha no primeiro sinal vermelho ou o carro-patrulha vai aparecer-lhe pela direita, e a senhora tem um stop, mas não só não nos dá prioridade, como, quando a mandarmos parar, tenta fugir e abusa das manobras perigosas.
O mesmo serve para a multa de Dezembro, só peço que seja de dia e com sol, porque no Inverno, com o reumático, custa-me muito estar fora da viatura à chuva e ao frio.
Só uma perguntinha, para terminar: se telefonam para os serviços centrais para ter acesso aos dados e validade da minha carta de condução, para poderem multar-me por falta de carta de condução, e lhos facultam, e tem os dados, e a validade, e ficam a saber que estou habilitada a conduzir, sou multada por quê?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Como sobreviver

Um sobrevivente de Auschwitz viajou até ao campo de concentração com os filhos e aí dançou ao som de I will survive, apesar dos seus 90 anos. Segundo o Público de sábado, esta acção terá gerado consternação junto de instituições e personalidades singulares relacionadas com a salvaguarda da memória do extermínio. A mim parece-me uma extraordinária celebração de vitória e de vida. Há algo a aprender aqui. Um homem que sofreu uma existência desumana em Auschwitz, conseguiu ultrapassar esse universo de humilhação e dor, e alcançar os 90 com energia e espírito para dançar e cantar no próprio local onde sofreu.
Precisamos curar-nos do passado. O que aconteceu ficou retido nesse balão temporal, e se o trouxemos, faremos melhor em largá-lo. Não se trata de branquear a memória, de apagar a história, mas de lhe sobreviver, abrindo na consciência espaços de silêncio, sanidade e justiça nos quais nos refugiemos das agressões. Ali, ninguém nos poderá atacar. Ali, estaremos sós, mas seguros, por muito que, à nossa volta, tudo trema.

sábado, 14 de agosto de 2010

Poste simples

Sentei-me na varanda a tomar o pequeno-almoço e observei um jovem casal vizinho passeando a cadelinha no jardim público. Costumo encontrá-los e falamos um bocado. São tão simpáticos, com tão bom ar, a cara limpa e um sorriso doce. Agora brincam na relva com a cadelinha, atirando-lhe objectos que ela vai buscar. Devem ter 30 anos. Não são pais. Ele pratica desporto.
Gosto muito deles, mas nunca lhes disse. Não podemos chegar ao pé de alguém e dizer "gosto de ti". Não sei porquê, mas se o fizermos considerar-nos-ão loucos, ou detentores de uma qualquer estratégia para obtenção de algo. Não podemos dizer o que sentimos, a menos que tenhamos desenvolvido uma grande intimidade com o outro, e mesmo assim...
Não me adapto à forma do mundo. Não a percebo. A maior parte das ocorrência sociais são destituídas de lógica e autenticidade, e eu não sei viver assim.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Essa terra já não existe


Descobri no Facebook um grupo de pessoas naturais de Lourenço Marques. Ao ler algumas das entradas, sobretudo comentários, lembrei o meu Amigo da Amora, que me dizia, no outro dia, "o que mais me irritava nos retornados é que chegavam a dizer que lá comiam camarões assim", e fez o gesto, à vontade uns 20 centímetros.

É verdade. Não conheço nenhum retornado, absolutamente nenhum, que não fale em camarões enormes.

E no FB, lá estão eles, partilhando palavras como tombazana (cerveja de litro, acho eu!), kanimambo, maningue; falando de mangas verdes com sal, galinha à cafreal e camarões grelhados com molho de limão, manteiga e piri-piri. Não é um grupo, mas uma irmandade. Pelos meandros, informação sobre escritores africanos na diáspora, poesia de Craveirinha e pintura de Malangatana. A ninguém ocorre que Craveirinha não podia publicar nessa altura, por que seria?, e que Malangatana pintava o que podia, não o que queria.

Ninguém fala dos negros, de forma geral. Como se aquilo tivesse sido uma terra só de brancos a comer camarão a todas as refeições. Num certo sentido, o deles, percebo que foi.

Os naturais de Lourenço Marques ousam ainda garantir um dia regressarão à sua terra amada. Não é um regresso qualquer - é voltar ao paraíso, à terra dos cocos, da marginal azul, verde, morna. É aspirar ao tempo de ouro em que se era jovem e se acreditava que a abundância e o conforto tinham vindo para ficar.

Não me parece mal que os naturais de Lourenço Marques se reúnam para partilhar as memórias, mas para seu bem convinha que percebessem que nunca terão de volta a Lourenço Marques que recordam. Não é que não gostássemos de os ver felizes, mas essa terra, tal como a recordam, não passava de uma foto retocada de onde se retirou o que incomodava, o que ninguém queria ver.

Os corvos

Tomé Feteira deixou 80 por cento da fortuna a Vieira de Leiria. Melhor seria se tivesse deixado 99,5 por cento. Considerando a incontabilidade dos seus bens, sobraria dinheiro para distribuir por muitos corvos.

Eduardo Pitta tem razão. O caso Herança de Feteira tem todos os ingredientes de uma boa história. A dinheirama, à qual ainda ninguém deitou a mão legítima, vem envolvida em mistérios àcerca dos quais uma mente fantasiosa gosta de conjeturar. Eu pelo-me por uma historieta como esta. As imagens da amante no elevador são bastante fotográficas. Ela compõe-se. Ela sai. Imagino o que estaria a fazer antes, porque escolhera aquela roupa, o que faria a seguir, o que continha a pasta . O advogado português sem pedigree, nas palavras de Pitta, com um perfil físico e financeiro vistoso, mantendo, contudo, o low profile, desempenha aqui, excelentemente, o papel de potencial vilão. Eis um belo romance policial a desenvolver.



quinta-feira, 12 de agosto de 2010

As câmaras da Margem Sul ainda não patrocinam este blogue

Marginal da Amora


Encontrei hoje um amigo e ex-colega da faculdade que não via há anos. Que felicidade perceber que alguém se manteve fiel ao que era na sua juventude. Tenho visto tantos insuportavelmente transformados em yes men!

Fomos comer caracóis e choco frito à Amora, junto à baía. Estava fresquinho. O dono da tasca, das verdadeiras, caiada à moda antiga, com a legítima esposa na cozinha, falou-me de Almada como se não fosse um concelho limítrofe, a menos de 15 quilómetros. Senti-me quase turista.

Aproveito para convidar Portugal e o estrangeiro a vir à tardinha à Margem Sul descontrair do calor, por exemplo, na marginal da Amora, de onde se avistam as luzes do Seixal começando a acender, ou em Cacilhas, agora com a cara lavada, cheia de esplanadas com sombrinhas logo à saída dos cacilheiros, e de onde se avista Lisboa e o mundo. Sardinhas na brasa a 4 euros a dose. Peixes e mariscadas. Se têm que gastar o vosso dinheiro em algum lado, venham gastá-lo à minha banda, que os meus vizinhos, e os pais dos meus alunos, agradecem.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Como é que se fala para parecer jovem?

Ultimamente tem-me dado para pensar na velhice, ou, pelo menos, na distância que me separa dos jovens de 20 anos. Admiro-lhes a força, a beleza, a capacidade para ainda esperar e acreditar. Observo-os, e logo me logo me projecto, de olhos abertos, para os anos da minha juventude, revivendo emoções que lá permanecem, quando ainda não sabia coisa alguma, e ainda bem.

Perceber que já não somos novos é uma novidade quando deixamos de o ser, por muito actualizados e abertos à mudança que nos tenhamos mantido. Tudo isto me espanta, e creio tratar-se de um espanto prolongado.
Pus-me a ler o programa das Festas de Corroios 2010, e confrontei-me com a minha ignorância musical: não conheço as bandas. Mal distingo as cool, da moda, obrigatórias, das da pimbalhada. Imagino que as que se chamam Skalibans e The Hipers sejam as do estilo. Imagino, apenas. "As do estilo" também não será o vocabulário corrente. Já não me autorizam a dizer "fixes" nem "curtidas". A minha prima afastada reclama que quando falo "à jovem", pareço anda mais cota. Espero que ainda se diga cota!
Não conheço o som das bandas, zero vezes nada. Creio que conheço os The Gift e penso que o Mickael Carreira seja o filho do contornável intérprete de A Vida que eu Escolhi.

A minha dúvida mantém-se: Jotas, Cores, Caffeina e Face Oculta são bandas de música da nova vaga (escrevo nova vaga porque também desconheço o que chamam agora aos diferentes sons), ranchos folclóricos, agrupamentos de música popular ou de música erudita? E Dharma Project? É um grupo de dança ou uma seita com filiações orientais? Agradeço qualquer achega que me façam chegar.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Paris - diário de viagem 8


Os outros estão sentados na esplada de um café à beira do canal Saint Martin, junto à Écluse de Récollets. Eu também, mas a diferença é que não sou como eles. Estou sentada mas não pertenço. Estou ali, mas aquele não é o meu lugar. Pareço adulta, mas sei que ainda sou uma criança. Não deviam deixar crianças pedir cervejas nos cafés, e bebê-las.
Os outros sorriem, conversam. Os outros devem ser importantes, ter uma casa, companheiros, profissão, vida. Não serão, como eu, solitários, associais, inadequados, preconceituosos, agressivos. Não enrolam, como eu, de certeza, os pés no tapetes das etiquetas. Não parecem. Há um homem que escreve num caderno. Parece-se bastante comigo. Será jornalista? Escritor, não. Os escritores ganharam vergonha de escrever em público. Aposto que é jornalista. Alinhava uma crónica para o jornal do fim-de-semana. Meia hora depois chega uma senhora jovem, com muito bom ar, e de repente o homem já não se parece comigo. Fecha o caderno. Sorri. Alegra-se.
Gilbert diz-me, "já não vais para nova, tens de te dar com os outros". Não é fácil. Eu dou. Quer dizer, dou-me o quanto posso. Há certos limites. O que quer ele dizer com já não ir para nova? Não estou à espera que ninguém me ampare quando for velha. Eu amparo-me. Sempre me amparei.

As pessoas detestam os outros, desconfiam dos outros, precisam dos outros. Os outros fazem-nos tanta falta. Alegram-nos como a jovem ao jornalista do caderno.
Gilbert devora um livro de Baudrillard. La société de consommation. Não quer falar comigo. Põe-me o meu Coetzee à frente e diz, "Vá, lê!" Não leio.

Um homem novo, de sandálias e t-shirt cava, descontraído, senta-se na esplanada com uma jovem asiática, cheia de estilo, de vestido dourado. Não são um casal. Gilbert exclama, "oh, não!" Chamo a sua atenção para o cãozinho que os acompanha. Diz, como uma criança, "o cão". O pequeno cãozinho, muito cordial, bem tosquiado e penteado, feliz por estar com o dono na rua reconcilia Gilbert com os vizinhos da mesa ao lado. Distrai-se por um minuto. Fazemos-lhe festinhas. O dono sorri.
Gilbert e Antinoo vivem em Paris há cerca de seis anos, lugar onde se sentem em casa. Não sei o que será sentirmo-nos em casa numa terra onde não se fala a nossa língua. Sinto-me sempre estrangeira, transitória. Mesmo em Portugal, sendo tão portuguesa, me sinto tantas vezes vinda de um outro lugar. Antinoo oferece-me um kir ao jantar: champanhe com xarope de framboesa, segundo percebo. Nunca tinha bebido, embora seja muito conhecido por cá. Kir não é um nome francês, digo. Não, deve ser alemão. Deve vir de kirsh. Não sabemos.

Finalmente, vi a rola que tenho escutado nas traseiras. Encontrava-se a apanhar sol na varande do prédio em frente. É um lindo pássaro doméstico, gordo, acastanhado, que vive em liberdade, voando pela rua, sem se afastar muito. Acho que vou deixar água e arroz nas minhas varandas, para que os pombos do meu bairro me visitem. Gilbert dirá, "esses transmissores de doenças vêm sujar-te a casa toda", e eu responderei, como sempre, "transmitem as doenças com que os humanos os contagiaram". Nós é que trazemos a podridão ao mundo.
Numa loja de souvenirs, um casal de chineses desistiu de comprar lenços de senhora quando leram, na etiqueta relativa à origem, a inscrição Made in China. Aposto que encontro lenços iguais na loja chinesa do meu bairro.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Paris - diário de viagem 7


Desde a semana passada registou-se certa alteração na dinâmica da cidade, ou pelo menos na do meu arrondissement, situado perto da Place Charles de Gaule - Arco do Triunfo.

As lojas não relacionadas com os géneros ou serviços essenciais fecharam para férias. Há ruas inteiras cujo comércio cerrou portas. Restaram os cafés, porque os parisienses podem viver alegremente num sexto andar sem elevador, mas sem café, não; restaram, também, alguns restaurantes; farmácias; mercearias e mini-mercados. O café cá de baixo, onde os russos bebiam e cantavam até às duas da matina, encerrou. Os meus vizinhos do prédio da frente, que estavam já habituados a ver-me por casa semi-nua, desapareceram - agora têm lá em casa uns ingleses cujo barulho substitui o dos russos.

A vida cultural, por outro lado, continua radiosa, a avaliar pelo Pariscope.

O número de turistas aumentou visivelmente no centro, zona onde, neste momento, é quase impossível andar. Os japoneses, sempre em grupo organizado, invadem tudo, como formigas. Precisávamos, em Portugal, de nos tornar um grande destino turístico, como é a França, para melhorarmos as finanças. O ano passado o Louvre foi visitado por quase 9 milhões de pessoas. Passei junto à Ponte Eiffel de autocarro, seriam umas nove da noite, e a acumulação de pessoas não envergonharia um concerto dos Rolling Stones com primeira parte dos Tokio Hotel. Não se tratava apenas dos que faziam fila para entrar, mas daqueles que ocupavam todo o Champs de Mars, em pé, sentados, conversando, comendo. Eram largos milhares de pessoas.

Mas para nos tornarmos um dos grandes destinos turísticos de mundo, precisávamos de uma dimensão de grandeza que não temos. Não somos assim. Não pensamos assim. Precisávamos de grandes arcos comemorativos em lugar de rotundas desvalorizadas. De grandes museus, De grandes torres que até podem não servir senão para vistas e decoração. De uma boa relação com o nosso rio Tejo, por exemplo. Uma outra relação com o rio, só isso, traria para Lisboa muita gente.
Há uns bons anos apanhei boleia de uns holandeses, no norte de Portugal, que me diziam que sim, que gostavam de Portugal, mas que quando chegassem à sua terra não saberiam que símbolo levar de Lísboa: não havia um Big Ben, uma Estátua da Liberdade, um Coliseu, uma Torre Eiffel. Falei-lhes no ambiente da cidade, nas cores, na luz. Concordaram, mas nada disso se materializava num souvenir. Penso que as nossas campanhas de turismo interncional deveriam reflectir sobre a ausência de símbolos arquitectónicos. Por que não os temos? Por que não pensamos nisso? E o que temos nós de grandioso, de tremendamente interessante, e a que nível, para que os outros desejem visitar-nos.

Não é que me apetecesse ter Lisboa, o país inteiro, cheio de turistas, como neste momento está a França, mas que nos dava muito jeito, dava.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Paris - diário de viagem 6

Campos Elíseos


Saí de casa sem me pentear. Esqueci-me. Ninguém reparou. Estou sempre igual, mesmo quando me penteio.
Tenho sentido fortes dores na anca. Vou para a rua e caminho até que os analgésicos façam efeito. A certa altura a dor acalma e posso sentar-me no café a ler ou a escrever.

Estou a envelhecer. Da última vez que vim a Paris, creio que há três Verões, ainda não precisava de óculos para ver ao perto. Agora, peço a Gilbert que me diga qual é o melhor autocarro para a Porte Maillot. Esta perda de faculdades é o que mais me assusta.

Nos últimos dias tenho passeado a pé e de autocarro pelas ruas, sem objectivo, o que é bom. Ontem procurei na net informação sobre o que é essencial em Paris, a não perder, e descobri que o que me interessa já visitei, agora ou antes, portanto posso dedicar-me a fazer nada.
Quis voltar ao Louvre, mas foi impossível. Havia uma fila de entrada que me obrigaria a uma espera de pelo menos uma hora. A mesma coisa em Notre Dame, pelo que desisti sem insistir. Filas, nem pensar. Paris não foge.

Guardei algumas impressões dos últimos dois dias, que recordo neste momento, e não serão as mais significativas: os pombos deitados ao sol na relva dos jardins; o facto de escutar frequentes referências a Salazar, quando o que dizem é Saint Lazare; os sem-abrigo alienados, que já cá não estão; os saltos altos das raparigas muito magras e muito louras; as lojistas luso-francesas que falam umas com as outras, em português mal treinado, sobre os maridos e os filhos, porque o país muda, mas o universo mental não.



Jardim das Tulherias

Marais