Mas acha que há assim tanta diferença entre fingir e falar a sério? [Arthur Schnitzler, A Cacatua Verde]
Terça-feira, 31 de Agosto de 2010
Quando é que a minha mulher-a-dias volta da Moldávia?
Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010
Mais uma afilhada

O Gimbrinhas veio muito cedo para nossa casa, ao colo do meu pai. Eu mal recordo a sua chegada. Tenho uma vaga ideia, umas impressões apenas, o que data a sua entrada na nossa vida pelos meus 4, 5 anos. Era um gato capado, grande e gordo. Sossegado, mas esquivo. Diziam que era um gato bravo. Nunca percebi se tinha sido um gato doméstico encontrado no mato, vivendo uma feliz existência livre, ou se seria mesmo um gato selvagem. Sei que lhe tinha respeitinho, e penso que ainda se notam as marcas das suas unhas na minha cara. O Gimbrinhas não gostava de beijos nem de apertos. Com o meu pai é que a relação era amorosa. Não é que eu não tenha tentado conquistar-lhe o coração.
Mas o gatinho da foto não é o Gimbrinhas nem sequer macho. É mais uma gatinha abandonada que me pediram para divulgar no blogue. Disseram-me, vê lá se usas a tua influência... E eu ri-me. Não tenho influência alguma, sobre ninguém. Retorquiram, vá lá, para dar a gatinha..., lá no blogue, metes um poste. E aqui estou eu. É um gatinha jovem e pequena que precisa de dono. Qualquer pessoa que não tenha cães pode ter um gatinho (com cães também, mas a adaptação requer certos cuidados). Comprometo-me a amadrinhá-la entregando-a com ração, latinhas de paté, liteira, sílica e caixa transportadora. Se puderem, divulguem esta informação entre os vossos amigos.
Podem começar a escrever para omundoperfeito@gmail.com.
Nota: os gatinhos que divulguei na primavera estão todos muito bem. Um ficou com um amigo que mora em Queluz; dois com uma aluna, na Costa da Caparica, e outros dois com uma leitora deste blogue, e agora amiga, na Graça, em Lisboa.
Domingo, 29 de Agosto de 2010
Ainda falta muito?
O Filho do Homem, René Magritte, 1964Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010
A liberdade que nos permitimos
No momento seguinte, recordava o meu diretor do colégio, o Sr. Ilídio Correia, que me adorava. Devia ser uma adolescente adorável, penso agora. Como quereria ter sido minha própria filha, irmã, mãe! E talvez, sem o perceber, tudo isso me tenha acontecido num só tempo.
Cheira-me a sabão azul e branco, a roupa lavada.
Estamos sentados na salinha de visitas onde expôem as fotos das melhores alunas, se recebem os familiares e se é chamado para falar com os diretores. Sou chamada muitas vezes, nunca para levar ralhetes, mas para que o sr. Ilídio converse comigo. Gosta de conversar comigo, o que as prefeitas estranham e não me confere grandes simpatias. Conta-me histórias do passado. Foi missionário leigo em Angola. Andou a civilizar os pretos. Fala deles com superioridade, mas admiração. Bebeu a cultura nativa e vê nela nobreza. Depois pede-me opinião. Interessa-lhe saber o que penso sobre a independência das colónias, sobre os pretos, o colégio, a disciplina; sobre a vida. Eu nada sei. Conjeturo. É a opinião de uma menina que acredita que tudo é possível, que carrega uma esperança do tamanho da cidade. E ele ri-se. Ri-se muito quando lhe falo da liberdade que ali não tenho, nem as outras internas. Devíamos poder sair sozinhas, como os rapazes. Deviam deixar-nos ir passear ao domingo à tarde, pelo menos. Estamos completamente presas. Em que somos diferentes dos rapazes que podem sair todos os dias? Por que não sou digna de confiança? Não sou eu, são algumas, responde-me. Argumento. Sei que argumento. Falo de liberdade, digo muitas vezes essa palavra, "liberdade". Ser livre, livre, livre. Lá fora. Sim, lá fora somos livres. E eu quero isso: ser livre. No futuro serei livre. E ele ri-se.
A liberdade não existe, Isabela. Um dia verás que tenho razão. A liberdade não existe. E contradigo-o. Contradigo o homem de 90 anos que foi missionário leigo em Angola, em 1930, que atravessou quase um século de vida. O que me impede de invocar esse ideal que julgo ser possível sem limitações? Ainda estou tão longe de perceber que ele tem razão. Ainda estou tão longe de saber que, tendo ele razão, é possível conquistar parcelas de liberdade, e gozá-las com delícia. Ainda nem sequer imagino que somos nós quem estabelece as fronteiras da liberdade que nos permitimos gozar. Nós, a nossa consciência. Esse género de polícia de costumes em nós.
Creio que não valorizei suficientemente o senhor Ilídio enquanto nos conhecemos. Vi-o sempre como o velhote antiquado que, embora gostasse de mim, me prendia. Não lhe prestei a devida atenção, não o acarinhei suficientemente. Era um homem exigente, autoritário, possessivo, emocional, espontâneo, dadivoso. Oferecia-se aos outros com generosidade. Acho que os homens que marcaram a minha vida têm em comum esta personalidade intensa, vibrante, ocupando espaço à larga dentro de mim. Devo-lhe o reconhecimento da grande amizade que me dedicou, do carinho paternal com que me recebeu nos anos em que estive à sua guarda. As pessoas morrem e depois já não podemos dizer-lhes de viva voz que tinham razão, que aprendemos finalmente as suas lições. Que ainda as lembramos com amor.
Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010
Do ruído e do silêncio
Não sou escritora de livros sobre o colonialismo e os retornados. Não sou memorialista nem diarista, esses subgéneros para os quais se remete aquilo que à inteligência interessa chamar literatura de menor importância. Não quero ser coisa alguma. Sei que escrevo. Sei que, eventualmente, esse material poderá transformar-se em livro. Não conheço nenhum compartimento no qual me apeteça encaixar o que produzo. Não me interessa ser romancista nem contista nem ganhar prémios nem qualquer outra menção atribuidora de estatuto pessoal, artístico e literário. Não estou aqui para entrar na concorrência. Quero continuar a ser a dona Isabela, aquela senhora gordinha das cadelinhas, que vai ao café com chinelos de enfiar no dedo e t-shirt coçada. Quero falar e escrever livremente, sem medo, sem ambições, apenas porque me sinto bem, e, por outro lado, preciso de o fazer.
O lado negro de tudo
Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010
De Luanda para a Margem Sul
Domingo, 22 de Agosto de 2010
É imperioso fazer dieta
Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010
My man
Panorama
I had a machamba in África
Oh, tempo, volta para trás
Quinta-feira, 19 de Agosto de 2010
O sabonete é lindo e fofinho
Provavelmente os melhores sabonetes do mundo. E são portugueses.
Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010
A minha mãe não me autoriza pornografia em casa
Curso para agentes da autoridade
À GNR e PSP
Terça-feira, 17 de Agosto de 2010
Como sobreviver
Sábado, 14 de Agosto de 2010
Poste simples
Gosto muito deles, mas nunca lhes disse. Não podemos chegar ao pé de alguém e dizer "gosto de ti". Não sei porquê, mas se o fizermos considerar-nos-ão loucos, ou detentores de uma qualquer estratégia para obtenção de algo. Não podemos dizer o que sentimos, a menos que tenhamos desenvolvido uma grande intimidade com o outro, e mesmo assim...
Não me adapto à forma do mundo. Não a percebo. A maior parte das ocorrência sociais são destituídas de lógica e autenticidade, e eu não sei viver assim.
Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010
Essa terra já não existe

Os corvos
Eduardo Pitta tem razão. O caso Herança de Feteira tem todos os ingredientes de uma boa história. A dinheirama, à qual ainda ninguém deitou a mão legítima, vem envolvida em mistérios àcerca dos quais uma mente fantasiosa gosta de conjeturar. Eu pelo-me por uma historieta como esta. As imagens da amante no elevador são bastante fotográficas. Ela compõe-se. Ela sai. Imagino o que estaria a fazer antes, porque escolhera aquela roupa, o que faria a seguir, o que continha a pasta . O advogado português sem pedigree, nas palavras de Pitta, com um perfil físico e financeiro vistoso, mantendo, contudo, o low profile, desempenha aqui, excelentemente, o papel de potencial vilão. Eis um belo romance policial a desenvolver.

Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010
As câmaras da Margem Sul ainda não patrocinam este blogue
Segunda-feira, 9 de Agosto de 2010
Cafés, águas, panachés e afins
Como é que se fala para parecer jovem?
Quinta-feira, 5 de Agosto de 2010
Paris - diário de viagem 8

Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010
Paris - diário de viagem 7

Segunda-feira, 2 de Agosto de 2010
Paris - diário de viagem 6
Tenho sentido fortes dores na anca. Vou para a rua e caminho até que os analgésicos façam efeito. A certa altura a dor acalma e posso sentar-me no café a ler ou a escrever.
Estou a envelhecer. Da última vez que vim a Paris, creio que há três Verões, ainda não precisava de óculos para ver ao perto. Agora, peço a Gilbert que me diga qual é o melhor autocarro para a Porte Maillot. Esta perda de faculdades é o que mais me assusta.
Nos últimos dias tenho passeado a pé e de autocarro pelas ruas, sem objectivo, o que é bom. Ontem procurei na net informação sobre o que é essencial em Paris, a não perder, e descobri que o que me interessa já visitei, agora ou antes, portanto posso dedicar-me a fazer nada.
Quis voltar ao Louvre, mas foi impossível. Havia uma fila de entrada que me obrigaria a uma espera de pelo menos uma hora. A mesma coisa em Notre Dame, pelo que desisti sem insistir. Filas, nem pensar. Paris não foge.
Guardei algumas impressões dos últimos dois dias, que recordo neste momento, e não serão as mais significativas: os pombos deitados ao sol na relva dos jardins; o facto de escutar frequentes referências a Salazar, quando o que dizem é Saint Lazare; os sem-abrigo alienados, que já cá não estão; os saltos altos das raparigas muito magras e muito louras; as lojistas luso-francesas que falam umas com as outras, em português mal treinado, sobre os maridos e os filhos, porque o país muda, mas o universo mental não.


