quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Ponham a mulher a escrever

- Aperte com ela.
- Aperto como?
- Explique à diva que, se não escreve, perde o capital do último livro.
Percebi de imediato que a conversa era sobre mim.
Isto foi ontem à noite. Estava para me deitar e peguei no telefone para combinar uma visita à feira de medicina chinesa com a minha prima afastada, e eis que apanho esta conversa entre o Sr. Simões e alguém da minha editora, cuja voz não consegui identificar, o que se justifica pelo fato de ultimamente terem contratado inúmeros funcionários, entre os quais, coordenadores de edição e outras designações profissionais que dão a quem seleciona e acompanha a feitura de um livro, promoção, etc. Parece que os gabinetes já ocupam os andares todos do edíficio no qual se encontra a sede.

Não pude evitar seguir a conversa, embora me sentisse incomodada com a ideia de me intrometer num assunto privado. Mas considerando que eu era o assunto...

Pela primeira vez, creio, ouvi o sr. Simões defender-me, o que talvez me leve a repensar a sua ação junto de mim, o seu trabalho..
- Ela diz que anda cheia de afazeres, que nem para o blogue consegue escrever.
- Cheia de afazeres...
- Que está no início do ano, documentos, uma direção de turma complicada...
- Direção de tuma complicada....
- E que anda cheia de dores de cabeça.
- Oh, Simões, desculpe lá, mas compre-lhe umas caixas de Ben-U-Ron.
- Não é isso, meu amigo, veja bem. A rapariga pode estar mesmo esgotada. Teve um ano muito sobrecarregado, a aguentar aulas de segunda a sexta, mais a promoção do livro, por todo o lado, ao fim-de-semana. Há que ter em atenção aqui alguns aspetos.
- Caro Simões, a sua protegida teve férias para descansar.
- Não é bem assim. Nas férias andou cansadíssima e, simultaneamente, a fazer uma mudança de casa. Já alguma vez mudou de casa?
- E quem é que a mandou mudar de casa? Não sabia que tinha responsabilidades, que escrever era a prioridade?
- Desculpe, mas isso não é da nossa conta. Se a mulher quis mudar de casa algumas razões teria. Ninguém tem de se meter nisso.
- Assim não a podemos ajudar, e você também não lucra, Simões, essa é que é essa. Veja lá se a põe a escrever o que está acordado e já devia ter entregue em... sei lá, Julho, para aí.
- Vou ver o que posso fazer, mas já sabe que ela tem a mania que não é escritora profissional, e que quer ser livre...
- O que a doutora diz não me interessa um chavo. Ponha-a a escrever, Simões. Faça esse favor a si próprio. Compre-lhe umas ampolas para o cansaço. Há o Bio-Ritmo, o Tonicê, a Magnesona... Ela não estará na altura de mudar o antidepressivo? Já cá tivemos uma escritora que só desbloqueou quando o psic lhe mudou o antidepressivo. Veja lá isso...
- Vou ver.
- E ouça, temos agora a coleção Aviãozinho, uns livrinhos para crianças, belissimamente ilustrados e escritos, que lhe vamos mandar.
- Mande, mande, que eu peço-lhe que os divulgue no blogue.
- Sim, faça isso, que ela, como se sente em falta conosco...


O Avião Saltitão, com texto de Bénedicte Houart e ilustração de Sebastião Peixoto. Na capa, o cais no Ginjal, na Margem Sul. Adquira na Angelus Novus, a preços já adaptados ao congelamento salarial.

sábado, 25 de setembro de 2010

Isabela na RTP África

É possível que hoje, pelas 14 horas, passe no programa Rumos, da RTP África, uma rubrica sobre o Caderno et moi, gravada no início do mês, aqui na Margem Sul.
Digo "é possível", porque ninguém me avisou.Segundo uma colega lá da fábrica, já passou na 4ª à noite, pelo que o de hoje será uma repetição.
Se estiverem em casa e puderem/quiserem ver, por favor não se esqueçam que a televisão engorda as pessoas cerca de 30 quilos.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O meu frigorífico não deixou testamento vital

O meu Amigo da Amora, atento a tudo o que escrevo, enviou-me hoje o línque para um dos meus textos do Mundo Perfeito com a seguinte nota: afinal, isto dos frigoríficos já não é coisa nova. Fui ler e ri-me. Já não me lembrava. Mas é verdade, sim senhor. É o mesmo frigorífico que tenho agora com o tesmostato "desregulado", e que tanto comentário solidário me tem gerado no Facebook. Cá em casa, um objeto só vai para o lixo quando já não apresenta qualquer hipótese de cirurgia, transplante ou cuidados paliativos, e convém que tenha deixado testamento vital. Deixo-vos o línque. Espero que se divirtam.

domingo, 19 de setembro de 2010

Por que saí do jornalismo

Hoje, ao acordar, ouvi uma ave levantar voo na minha varanda. Deveria estar pousada no beiral. Talvez fosse um pombo.
Ainda na cama, lembrei-me de uma malfeitoria que me fizeram quando trabalhava na Notícias Magazine, no último andar do Diário de Notícias, em 1994 - tenho uma memória de elefante!
Na Primavera, um casal de pombos fez ninho numa reentrância da estrutura exterior do edifício. O ninho era visível do lado de dentro, e não me lembro se o conseguíamos alcançar, mas sei que na redação nos apaixonámos pelas avezinhas, e lhes trazíamos arroz, milho, pão... Nasceram dois borrachinhos lindos, que íamos vendo crescer, ganhar penas, engordar, tentando equilibrar-se para dali a pouco voarem. Era como ter uma câmara da National Geographic ligada em direto ao nosso andar, mostrando-nos a vida dos pombos de cidade 24 horas por dia.
Uma manhã, quando cheguei, a secretária de redação olhou-me com cara de caso, barrou-me a entrada, e explicou-me que os pombos já lá não estavam. Não estavam, como? Tinham voado? Não. Alguém, na nossa ausência, os tinha tirado de lá, não sabemos como, e havia feito uma limpeza tal à zona do ninho que nem uma palha restara. Fiquei inconsolável. Fiquei pior que isso. Fiquei chocada. Onde estavam os meus pombos e os meus borrachinhos? Mataram-nos? Se calhar não, dizia-me a secretária de redação. Poderiam tê-los levado para um pombal. Algumas pessoas querem proteger-me da maldade humana, percebo, mas não é possível.
Eu sei que a ninguém no mundo interessa a morte dos pombos, mas não me importo de parecer ridícula porque este assunto, ou outro qualquer, me comove.
De maneira que, em 1994, resolvi escrever uma carta, nunca respondida, ao administrador do DN da altura, pedindo justificações sobre o desaparecimento dos pombos. Na redação todos me disseram que não valia de nada, e eu sabia. O administrador gozaria o dia todo com o assunto, bem como a secretária, e o piso inteiro onde se tomavam as decisões importantes sobre quem vivia ou morria naquele grupo. Mas fi-lo porque não conseguia calar-me perante esse ato gratuito que não importava a ninguém. Importava para mim.
É mesmo muito provável que os leitores também se riam desta história, e me deem certo desconto só porque se habituaram às minhas idiossincrasias, mas confesso que passados 16 anos ainda não tenho vontade de rir. E a prova está em que lembrei o assunto hoje de manhã, ao ouvir o bater de asas de uma ave que não vi.
Costumo dizer que saí do jornalismo porque não me sentia livre. Hoje ocorreu-me que talvez tenha sido porque me mataram os pombos e respetivos borrachinhos, que, num recanto arquitetónico do edifício do DN, traziam à minha vida a alegria de querer chegar cedo ao trabalho.

Nunca fui raptada por extraterrestres

Há um canal de televisão quase tão interessante como o E. Chama-se Zone Reality e passa documentários sobre extraterrestres e os seus contatos com norte-americanos, sobre pessoas com capacidades mediúnicas que ajudam os polícias norte-americanos, e certos crimes horrendos e misteriosos praticados nos States e nunca resolvidos. No essencial é isto.
Não invejo os crimes horrendos dos States nem as pessoas com capacidades mediúnicas, mas devo dizer que, quanto aos extraterrestres, considero uma grande injustiça que só se interessem pela América, e pelo Chile, desde que a Shirley MacLaine lá esteve, nos anos 70 ou 80. Nunca ouvi um angolano dizer que tinha sido abduzido por extraterrestres, nem um marroquino, e os portugueses são raros. Quererá isto dizer que os ET discriminam as etnias menos esbranquiçadas?!Pessoalmente, gostaria muito de entrar numa nave em forma de charuto ou de panqueca e de comunicar com eles telepaticamente, descobrindo os segredos do universo, percebendo como atravessam os buracos negros e o que está realmente para além deles.
Não seria necessário procederem a exames médicos da minha pessoa, não só porque tenho sempre análises feitas há menos de 6 meses, mas porque poderia explicar-lhes o funcionamento do meu organismo, inclusive com desenhos. No máximo, toleraria a introdução indolor dum dispositivo subcutâneo para procederem à elaboração de relatórios sobre o meu estilo de vida. A menos que considerem que o meu estilo de vida não é representativo da espécie humana.
Resumindo, acho injusto que os extraterrestres só se interessem pelos americanos.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Dá-me um abraço, pai

O vídeo no qual a Ministra da Educação pede entusiasticamente aos meninos que se apliquem na vida escolar, fazendo o que os professores lhes pedem, dormindo boas noites de sono, comendo saudavelmente, e arranjando tempo diário para o estudo, tem chegado à minha caixa de correio de duas em duas horas. Ou seja, nas últimas 24 horas já mo enviaram 12 vezes. Vi e ouvi até ao fim, como me pediam, e nunca me deu vontade de rir.
Explicava hoje à minha prima afastada que continuo a não perceber qual o problema do referido discurso, visivelmente dirigido a um público do 1º ciclo - meninos e meninas que iniciam a vida escolar ou que já a iniciaram, mas são ainda, apenas, meninos e meninas A minha prima afastada exortou-me a explicar publicamente as minhas razões, embora já o tenha feito em resposta a alguns emails.
Fico com a sensação de que sou uma pessoa muito antiquada ou muito à parte neste mundo ou ambas.
Os pais já não dizem aos filhos que devem estar atentos aos professores, dormir e comer bem e fazer os trabalhos de casa? Quando os meninos chegam a casa reclamando que detestam contas ou gramática, não lhes explicam que a educação serve para desenvolverem as suas capacidades, ou seja, para as "ginasticarem", e que assim poderão tornar-se melhores indivíduos, cidadãos intervenientes e bons profissionais, podendo ajudar as outras pessoas?
Se não dizem isto, dizem-lhes o quê? Falam-lhes com o discurso dos Morangos com Açúcar? Usam jargão da pedagogia?
Parece que tive sorte em ser filha do eletricista da Matola. É que, enquanto fui criança, não se coibiu mesmo nada de falar comigo como com uma criança. Falava entusiasticamente e de forma paternalista. Não porque me tomasse como tola, mas porque sabia que eu não era adulta. Penso que as crianças devem ter o direito a ser tratadas como crianças. Isso não está consagrado na Declaração Universal?
Quando o meu pai falava comigo sentia-me muito segura e confiante. As suas palavras abraçavam-me e justificavam a importância da minha vida. Não creio que o discurso do meu pai tenha atrasado o meu desenvolvimento ou me tenha tornado numa espécie de Eusébiozinho de Os Maias. Tenho a língua demasiado afiada, e exprimo-me com honestidade, mesmo que as minhas ideias não se enquadrem nos limites do que a corrente de pensamento dominante considera aceitável.
Não me parece que vá falar com o meu futuro filho de forma muito diferente da dos meus pais. Se calhar também vou ser uma mãe à antiga, e abraçá-lo com palavras, e enchê-lo de beijos e lanches e mariquices de mãe superprotetora. Vou dar-lhe discursos como o da ministra, à titi, à madrinha do século XIX, como se o menino fosse tontinho. Se calhar vou, porque realmento quero mesmo que ele se alimente bem antes de ir para a escola, e que durma como deve de ser, e que estude e respeite os professores. E é provável que lhe explique tudo entusiasticamente e com os olhos muito abertos. Não faço a menor ideia, mas creio que vou tratar o meu menino, enquanto for criança, exatamente como penso que se devem tratar os meninos. Ou melhor, sem modernices.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Brancos, cúmplices e hipócritas, tudo de primeira

O que digo sobre a vida dos brancos em Lourenço Marques cai muito mal a meia dúzia de senhores que de lá vieram e me acusam, e ao meu pai, do pior que a linguística vernácula e a divisão de classes inventaram.
Compreendo que lhes caia mal, e até me parece legítimo que desenvolvam os esforços possíveis para me descredibilizar com argumentos relacionados com a minha tenra idade, a pertença a uma classe trabalhadora sem educação, o fato de ter vivido na Matola, de ser gorda e não saber pontuar. Vale tudo. Parece-me muito bem, no âmbito da mesmíssima liberdade de expressão que me assiste de cada vez que escrevo uma frase. A História - não eu nem eles - fará o seu trabalho.
Agora, em relação ao meu paizinho, o qual, segundo parcas vozes, não passava de um indivíduo mal formado e de baixos instintos, cabe-me esclarecer que foi o responsável pela minha educação, e que o que sou depende bastante desses valores que bebi em casa. Por outras palavras: eu sou o melhor argumento de defesa do meu pai; respondo pelos seus princípios, na medida em que, tendo os meus defeitos, seria incapaz de me referir às pessoas que me têm insultado com a linguagem reles e raivosa que me têm dirigido. Não espumo da boca. Não lhes tenho raiva. Não são os meus fantasmas. Conheço bem a sua visão do mundo e o autismo com que a defendem. Acreditam tanto na sua versão da vida ultramarina que podiam levá-los ao polígrafo: passariam.
Não sou inconsciente. Sabia, antes de publicar o Caderno, que estas vozes acossadas reagiriam. Como disse, conheço o discurso destas pessoas, a sua forma de pensar: eu vivi no meio delas, nos locais onde garantem que eu não posso ter vivido, como se de fato me conhecessem.
A história que conto no Caderno, lamento imenso, precisava de ser contada. Por mim ou por outros. Tinha de sair.
Trata-se da minha visão daquele mundo, naquela idade; reproduzi ali as vozes que fui ouvindo e dei vida às personagens que foram passando por mim. Há momentos que não consigo datar com precisão, e houve a necessidade de proceder a algumas adaptações ao nível das personagens. Dou um exemplo: o primo a que me refiro como tendo estado na guerra colonial, tinha um laço de natureza diferente com a minha família e não morreu objetivamente. Pertencia, digamos, a uma família de brancos de primeira. Tanto quanto sei, milita num partido da extrema-direita, acompanhado por outros retornados que também sempre adoraram os pretinhos, e para mim está tão morto que fede.
Não se pode esperar que uma autobiografia literária seja um documento literal. Pode é esperar-se que os fatos relatados correspondam a algo realmente vivido e sentido. E, por esse lado, sintam-se à vontade para provar que a vida dos brancos, no campo de concentração de luxo que era Lourenço Marques, não correspondia ao que escrevo.
É que enquanto o meu pai andava atrás dos seus negros, e lhes dava encontrões expressivos, e os mandava para partes pouco elegantes, para que as instalações das casas onde os brancos de primeira viviam ficassem mesmo catitas, os últimos poliam cumplicemente os calções nas cadeiras da Princesa, da Fábrica, do Scala e do Infante, e mais no Clube Naval e comiam gelados na Coop e compravam cadernos na Minerva, e entregavam uma quinhenta ao preto da Baixa que lhes engraxava os sapatos, mas sem lhe tocar na mão, porque eram sujos. Dava-lhes imenso jeito que alguém fizesse o trabalho do eletricista da Matola e do machambeiro do Infulene, para não terem de misturar-se com a catinga dos pretos, tão bons para o trabalho braçal, mas bons à distância.
Convinha a todos que o meu pai se levantasse cedo para ir ao Xipamanine arrancá-los à palhota, porque alguém tinha que o fazer, e não seria o branco de primeira, com as mãos limpinhas e administrativas com que recebia, no Banco Nacional Ultramarino, o lucro que o meu pai fazia a explorar pretos em seu nome, para usufruto de um sistema de que todos hipocritamente dependiam e sustentavam.
É em tudo isto que me baseio para defender que o eletricista da Matola e o machambeiro do Infulene, que cheiravam a catinga do preto e nem davam por ela, ao lados destes senhores, foram uns santos.

sábado, 11 de setembro de 2010

Ah, eu também gostava tanto dos programas dele


Uma professora de Braga, que não se identifica por ser muito conhecida na cidade, iniciou um movimento a favor da inocência de Carloz Cruz, pretendendo recolher assinaturas para apresentar ao PR e ao PM, aos tribunais de recurso, enfim, "alguém" com poder para anular o acórdão judicial que se aguarda.
Não sei o que se passa no Norte do país, mas nos últimos tempos tornou-se uma região cheia de professoras colunáveis, por um motivo ou por outro.

A senhora professora de Braga baseia a firme crença na inocência de Carlos Cruz na sua intuição. É a intuição que lho segreda ao ouvido. Isso, e uma amiga que conhece bem o processo e lhe revelou terem sido os agendes da PJ que instrumentalizaram os jovens a acusar Carlos Cruz. "Então, ó jovem, foi ou não foi por causa do Carlos Cruz que te tornaste num prostituto barato, num agarrado, num desequilibrado emocional sem remédio?! Foi o Carlos Cruz, não foi? Vá, se confirmares, dou-te este Magnum de chocolate branco".

Eu, como toda a gente sabe, não tenho amigas bem colocadas, mas resolvi usar um método igualmente intuitivo para aferir a culpabilidade de Carlos Cruz, pelo que resolvi desenterrar de um caixote ainda por abrir, após a mudança, o baralho de tarô que me saiu na Elle há uns anos, e que guardei, à cautela.

Acabei de tirar um carta enquanto pensava Carlos Cruz, Carlos Cruz, Carlos Cruz e saiu-me um senhor de pernas para o ar, pendurado por uma perna. Parece que é o Enforcado. Tenho de ir à Wikipédia informar-me, mas a minha intuição diz-me que o Enforcado não deve simbolizar coisa boa. Antes, vou também intuir a culpabilidade do senhor Jorge Ritto e de cada um dos restantes sentenciados. Não sei o que dirá a intuição da senhora professora de Braga sobre os outros senhores, mas isto não é um processo no qual Cruz esteja sozinho.

Uma coisa é certa, de todos, era o que aparecia mais na televisão, e se era simpático... Eu também gostava muito dos seus programas. Tinha muito jeito para o écrã; era um sedutor; bom pivô, bom entrevistador, bom entertainer. E bonitão, que lembro-me bem dos tempos em que via o telejornal sem ser por causa das notícias.
Ultimamente, também lhe tenho descoberto vocação teatral. Enquanto aguardamos que se resolva este impasse, não me pareceria mal que o convidassem para integrar o elenco de atores do Teatro Nacional D. Maria.

Manhã

Acordei escutando a buzina dos cacilheiros avisando que se preparam para atracar, mas afinal era apenas um carro qualquer a apitar lá fora. Parte de mim ainda está na outra casa.
Nas manhãs de nevoeiro sobre o Tejo, se não tinha de me levantar cedo, ficava no quentinho dormitando e ouvindo ao longe esse barulho dos cacilheiros na sua faina. Sabia que o mundo continuava lá, embora eu me alheasse dele, e essa ideia confortava-me e embalava-me.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Questões do nosso tempo 2 - igualdade de oportunidades a passo de caracol

Não é melhor admitir de uma vez por todas que homens e mulheres não têm acesso aos mesmos direitos e que, por isso, deveríamos compensar socialmente as vítimas desse abuso? (mim)

Existe a possibilidade de os homens também trabalharem como empregados domésticos ou essa tarefa estará eternamente guardada para as mulheres? (Sei da Selva)

Identidade e memória coletiva, (Berta)


A cultura em que vivemos não muda porque nos apetece. Porque é lógico que mude. Há movimentações lentas, ligeiras alterações das práticas diárias que acabam por gerar tendências de mudança impossíveis de conter. Contudo, a mudança não se institui de forma generalizada, mesmo legislada. A legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, levará ainda muito tempo a tornar-se natural para todos. A alteração legal que permite interromper a gravidez até às 10 semanas de gestação não impede que o aborto ilegal continue a realizar-se às 11, 12 e 13. Portanto, mudou, mas mudou mas só bocadinho, porque a formação cívica e moral não chega a todos os indíviduos por igual. Mudamos sempre aos bochechos, conseguindo pequenas vitórias que se vão acumulando. Mudamos, também, avançando após recuos. O segredo é sempre a persistência.


As culturas resistem à mudança de dentes cerrados e sem respirar, até ao momento em que decidem permitir-se uma golfada de ar ou escolhem morrer por sufocação. Pode ainda dar-se o caso de estarem desatentas nas suas convicções. Quando as mulheres da classe alta e média tiveram acesso à educação fora de casa, transcendendo as lições de Francês, piano e lavores, e as da classe baixa foram trabalhar nas fábricas, o mundo já tinha mudado. Só os muito cegos não perceberam que o empoderamento das mulheres estava em marcha.
Dir-me-ão que tem sido uma marcha lenta e desigual (no que respeita a distribuição geográfica, classe social...), mas olhemos para o mundo de hoje e comparemo-lo com aquilo que se esperava das mulheres nos anos 60, em Portugal, por exemplo. Meu Deus, a volta que isto levou, que felizmente tive oportunidade de testemunhar, e na qual tenho participado!

A morosidade da alteração de costumes deve muito às questões de identidade e à memória coletiva. A memória coletiva é muito linda, mas pode tornar-se numa grande chatice, sobretudo quando nos vemos impedidos de alterar um costume em seu nome. Eu daria com gosto um belo entalanço na memória coletiva para acabar com touradas e outras práticas cruéis sobre animais, porque é essa a tradição, que nos chegou dos nossos trisavós. Daria um bom pontapé na memória coletiva para desfazer a ideia generalizada que que fomos colonizadores bonzinhos, diferentes dos outros, porque essa foi a ideia que a ditadura vendeu/propagandeou com sucesso.
Metia a memória coletiva nas ruas da amargura para apagar essa ideia ainda tão forte de que homens e mulheres devem manter-se à parte, com papéis diferentes...
Artificial e subjetiva, a memória coletiva regista informação que interessou sedimentar, excluindo o que se preferiu ignorar, mas não posso negar que é fundamental na definição da identidade cultural dos indivíduos, e a identidade é um assunto muito sério.

Numa reportagem recente sobre livros de retornados, no Ípsilon, a Professora Isabel Ferreira Gold, investigadora no âmbito da literatura e estudos pós-coloniais, nos EUA, dizia algo que achei interessante a propósito do meu livro, no qual não tinha pensado, pelo menos nesses termos, e me parece corretíssimo. Dizia ela que o Caderno é uma narrativa de decantação na qual "psicanaliso" a figura do meu pai, personagem fundamental na formação da minha identidade. Achei isto genial, porque, de fato, creio ter escrito a carta de alforria do meu pai; e fi-lo porque precisei dela para definir quem fui e sou perante tudo aquilo. Não foi um processo consciente, mas está lá. Digo sempre que quis apenas contar a nossa história de pai e filha, mas acontece que eu sou, que me situo na minha cultura, no que defendo e condeno a partir desse laço fundamental. Ou seja, ao emitir a carta de alforria do meu pai, defini-me, e isso permitiu expor-me sem culpa e sem vergonha. Definimo-nos contra ou a favor de uma formulação, ideologia, memória que recebemos, mas não sem ela.

Não podemos esperar que identidade coletiva que uma cultura sedimentou, e que situa civilizacional e ideologicamente os individuos que a ela pertencem, mude do dia para a noite. É preciso esperar que os filhos bebam outros valores e os passem aos seus filhos. Embora eu tenha sido educada numa família bastante antiquada ao nível dos valores, pairavam já por ali uns fiapos de liberdade individual. O meu pai não me queria subjugada a nada nem a ninguém, e isso constitui um grande avanço relativamente ao que o seu pai e avô desejaram para as suas filhas. Eu já sou fruto dessa ténue alteração na ordem do pensamento.

Embora vivamos uma época de crise económica, o que não favorece o desenvolvimento de igualdade de oportunidades, não creio que estejamos muito distantes do tempo em que os homens trabalharão como empregados domésticos sem que lhes chamem maricas. E afirmo-o porque, em Paris, o meu amigo Gilbert já paga a um empregado estrangeiro que lhe trata da limpeza da casa. Parece que a coisa se tornou natural por lá. Portanto, um dia destes ainda veremos Edilson e Carlinhos, acabados de chegar da Rondônia, limpando as escadas do nosso prédio com brio, e discutindo a performance do Sonasol em comparação com a do Ajax. Seria interessante, depois, desenvolver toda uma educação que levasse os nossos filhos a encarar os empregados domésticos, homens ou mulheres, como quaisquer outros trabalhadores, e não como serviçais de classe baixa.

Os homens e as mulheres têm, para todos os efeitos, acesso legal aos mesmos direitos. Daqui não arredo pé. Sabemos que na prática não é assim, porque os empregadores não tiram cursos de ética, porque há pessoas e pessoazinhas, e milhentas formas encobertas para promover a desigualdade no acesso ao emprego - sendo que é preciso nunca baixar as guardas e denunciar as situações; mas isso não pode constituir argumento para reclamarmos uma diferenciação. Se um parceiro ou parceira não nos ajuda a cuidar dos filhos, nem da casa, não havendo divisão de tarefas, e assistimos ao progressivo afundamento da nossa carreira, essa questão tem de ser discutida e resolvida no âmbito familiar ou no tribunal. E a haver compensação, deverá ser atribuída juridicamente, pelas vias legais. Não vejo nenhuma outra forma de compensar socialmente as pessoas que são vítimas dessa situação. No entanto, estou aberta às sugestões dos leitores.

Um maluco com cúmplices

A arte trata bem os malucos. Dão belas personagens em livros e filmes. Os malucos trazem à acção uns ventos de liberdade total, desobediência e irresponsabilidade, esse paraíso que perdemos. Na arte, admiramo-los, estamos do seu lado e somos os bons. Os outros, os que lhes atiram baldes de água fria, se riem do que diz, os desprezam, são os maus.
No nosso dia-a-dia os malucos são elementos perturbadores, indesejáveis. Eu, então, por quem eles sentem uma atração fatal, sou uma vítima. Não sei o que me leem na testa, mas deve ser qualquer coisa como "estás lá quase".
No meu bairro há um maluco. Um homem de meia idade, que em nada se distingue dos outros, a não ser que caminha pela rua gritando impropérios aos vizinhos, ao governo e a Deus. Apresenta uma boa construção sintática, mas quando insulta estala as consoantes explosivas, arrasta as fricativas e prolonga as sibilantes. De maneira que uma asneira saída da sua boa vale por três ou quatro.
Ocorre-me falar hoje dele porque estava no supermercado a falar sozinho, muito alto, contra alguém indefinido. O argumento era que ninguém gostava dele, porque dizia a verdade. E dissertava sobre o assunto. Dali derivou para a problemática da sua superioridade mental relativamente aos outros mortais, sendo que revelou que até já conhecia os números da sorte grande desta semana. Divulgo os primeiros três caso alguém queira aproveitar: nove, três, quatro. Juro que não fixei o resto, não só porque desatámos todos a rir, mas porque escolhi ganhar a vida com o suor do meu stress. Uma senhora ainda lhe disse, ó vizinho, se o senhor sabe o número, guarde-o para si e, amanhã, em vez de vir você às compras, manda um criado.
Enquanto isso, a senhora atrás de mim na bicha, com uma túnica toda dourada e preta, disse-me, e anda por aí de carro, veja lá, e passa as noites a beber.
Que ele anda por aí de carro sei eu, que o vejo ao volante atirando insultos a tudo o que mexe. Pára no meio da estrada para falar sozinho. Não sei é se a PSP sabe, e por razões de saúde alheia, convinha que este senhor, cujo nome e morada desconheço, vendesse o carro e andasse mais a pé. Parece-me grave que os vizinhos não avisem as autoridades. Pessoalmente, considero que ao dar-se algum acidente envolvendo este senhor (desconheço como ainda não aconteceu), os vizinhos deverão ser tão responsabilizados como quem testemunha um acidente na estrada e não pára para prestar auxílio. Este é um daqueles casos em que convém estar do lado dos maus.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Eu sei que não se pode ter tudo

Não nego que a vida de uma solteirona não esteja recheada de mordomias. Está. Mas não ter em casa um homem paciente a quem chagar a cabeça, e mandar a todas as partes, quando se chega do trabalho a exsudar stresse, encrua uma pessoa.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Pedófilos já credenciados

Já percebi que é politicamente incorreto pronunciarmo-nos a favor das vítimas do processo Casa Pia. Já sei que para pertencermos ao grupo das pessoas bonitas temos de relativizar, porque há muito mais gente envolvida que não foi a julgamento, porque se a verdade viesse a lume ainda correríamos o risco de descobrir que o sr. Moreira do talho, pessoa muito considerada aqui no bairro, nasceu realmente para meter a mão na carne, e porque Portugal é um paraíso para os pedófilos.
O mundo é um paraíso para os pedófilos. Portugal não é nenhum caso de estudo. Como diz a dona Maria José, minha vizinha de baixo, aos miúdos começa-lhes a saltar a pevide muito cedo, mas cabe-nos não tirar partido desse fato, porque embora a pevide comece a dar sinal de si, são crianças. Posso compreender que a líbido de alguns adultos se sinta particularmente estimulada pela inocência e curiosidade de uma criança, mas não posso aceitar que um adulto se sirva dessa criança ou desse adolescente com o objetivo de saciar um impulso sexual. Os miúdos têm forma de se iniciar sozinhos ou entre si, não precisam da nossa intervenção no caso.
Nesta altura do campeonato não tenho que ter paninhos quentes relativamente aos condenados do processo Casa Pia, apesar do que possa existir ainda por descobrir. Quem tem informações que as divulgue. Não tolero alusões. Expliquem-se.
Os fatos são os seguintes: um coletivo de três juízes que trabalhou debaixo de enormes pressões vindas de todos os setores considerou que havia matéria para considerar culpados seis indivíduos: Carlos Silvino, Carlos Cruz, Jorge Ritto, Ferreira Dinis, Hugo Marçal e Manuel Abrantes. Parece-me que não há aqui que enganar. Estes senhores abusaram do poder que detinham e pensaram ser impunes relativamente aos seus atos praticados com adolescentes que, em princípio, careciam de poder para os denunciar. Para todos os efeitos, e até prova contrário, estes senhores são abusadores sexuais de menores. Até posso explicar-me melhor: são pedófilos.

domingo, 5 de setembro de 2010

Questões do nosso tempo 1 - Domesticação



Por que nos calamos? (anónimo)
Por que temos medo de ser felizes e de viver? (sete e pico)

As questões que me foram deixando nesta caixa de comentários são quase todas universais, e não exclusivas do nosso tempo. Tentarei responder, agrupando-as por afinidades. Hoje respondo às que refiro em epígrafe.

A minha mãe tem um lema do qual discordo profundamente, mas que já pratiquei em desespero. Diz ela que o calado ganha sempre. Diz, ainda, que o que fica por dizer nunca se perde.

A minha mãe nasceu no início do ano de 1924, e atravessou, sem passar fome, os principais conflitos políticos, económicos e sociais do século XX. Tem quase um século de vida lúcida e atenta; creio que devemos conceder-lhe algum crédito.

Embora tenha nascido numa economia agrária, foi simultaneamente agricultora e operária, por necessidade de sobrevivência, como o seu pai e irmãos. Conta que, quando saíam da fábrica de fiação e tecidos, onde trabalhavam 12 horas por dia, vinham a pé para casa, ceavam, e para digerir melhor a sopa de couves e a sandes de toucinho, sachavam e semeavam pela noite fora, à luz de um candeeiro de petróleo.

A minha mãe é aquela que no mundo primitivo se designa como a "mais velha". Nenhum de nós faz a menor ideia do que realmente foi a sua vida. Do trabalho, angústias e humilhações que suportou; do que teve de calar para sobreviver e por delicadeza, para não magoar o outro.

Eis onde pretendia chegar. Calar constitui uma estratégia de sobrevivência como outra qualquer. Implica passar despercebido, viver invisivelmente, aguardando uma oportunidade para espreitar para fora da toca. A perversão da estratégia é que quem cala demais, quem cala uma vida inteira já não quer olhar para fora, já não consegue. Desaprendeu-o.

Os portugueses não são o único povo que cala, embora se revelem exímios no ofício. Calam-se socialmente, porque não querem parecer mal, porque precisam de se integrar num grupo. O silêncio confere uma impressão de seriedade, logo, de credibilidade. Os calados parecem-nos austeros, nobres, de confiança. São, assim, escolhidos para os cargos respeitáveis, mesmo que se calem porque não têm nada de interessante a dizer.

Calam-se politicamente, porque emitir uma opinião implica um compromisso, e os compromissos custam caro em épocas de mudança no poder. Calam-se, por outro lado, porque consideram que a sua voz não tem importância. É uma herança do fascismo que levaremos alguns anos a alterar. Os calados acreditam que não vale a pena falar: nada mudará. Em qualquer destas aceções calam-se por medo da exposição e do compromisso.

Calar é quase sempre uma morte, porque quem cala não participa na vida. É paradoxal que uma estratégia de sobrevivência possa configurar uma morte, mas a maior parte de nós foi domesticada pela família e pelos pares sociais para se transformar em zombie. Não falar, não pensar, não sentir, permanecer afastado da confusão, sendo que a confusão é a vida.

Viver calado não confere grande alegria, mas tem a vantagem de não desestabilizar a vidinha. Contentamo-nos com isso: a vidinha. Se tivéssemos acesso à inteireza da vida correríamos o risco de uma overdose de oxigénio.


Observo muito as crianças, ainda dotadas de espontaneidade. Observo igualmente os adultos que as mandam calar, a pretexto do seu bem. O leque do que as crianças podem dizer e fazer é ridiculamente reduzido, embora se tenha vindo a alargar nas útlimas décadas. Já não me lembro do meu processo de domesticação. Acho que não tenho memória disso, e, de qualquer forma, os livros e os filmes estragaram tudo, porque me devolveram, parcialmente, ao estado selvagem. Idealmente, deveríamos comunicar uns com os outros como se fôssemos crianças eternas. Diríamos, "gosto de ti", "não gosto de ti", "tens pêlos no nariz". Perguntaríamos, como um miúdo me perguntou no outro dia, "vens sempre tu passear com os cães: não vêm com o pai porquê?" Mas para isso seria necessário que neste mundo não se considerasse uma ofensa ter pêlos no nariz ou noutro lugar qualquer. Incompreensivelmente, é.

Está muto em voga afirmar que os jovens são hoje muito mal educados. Alguns serão. Mas sempre houve jovens mal educados. Estou convencida que a maior parte das acusações de má educação advêm do fato de se exprimirem muito livremente. Dizem o que pensam, e tem uma acentuada consciência dos direitos que lhe assistem. Não se calam. Que isto e mais aquilo. Que é injusto, que as regras estão erradas.

Sei que poucos concordarão comigo, sobretudo em contexto escolar, mas agrada-me a sua predisposição para a desobediência civil, e devo dizer que lhes encontro, muitas vezes, um raciocínio lógico, coerente, e imbatível sentido de justiça. Irrita-nos que sejam capazes de nos calar com a evidência dos seus argumentos, mas não é assim tão mau que aprendam a refilar. Gosto de os ouvir, e penso que o nundo poderá, quem sabe?!, vir a tornar-se num lugar menos doentio.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Escrito na testa

O advogado Hugo Marçal dizia sarcasticamente, aos jornalistas, à hora do almoço, que hoje podíamos todos organizar jantares comemorativos, como fez Catalina Pestana a certa altura do processo. Espero que sim, que comamos todos ração melhorada e que Catalina Pestana chegue ao caviar. Eu cá vou quebrar a dieta e mandar vir uma pizza com extra-queijo.

Ninguém respira

Edward Hopper, Sun in an Empty Room


A casa está vazia, com as luzes apagadas. Sem luz. Há fios elétricos descarnados pendurados do teto. Os últimos donos saíram. A mulher beijou a parede do quarto onde dormia. Disseram, adeus, gostámos de ti, olharam uma última vez pela janela e partiram. Terem gostado dela, isso é que é importante. Também gostou deles. Eram boa gente. A mulher pensava muito, e podia acompanhá-la nas suas dúvidas, medos, planos e desejos. As pessoas têm uma beleza tão grande na sua arquitetura. Não como as casas. Uma casa não muda. É o que é. As pessoas alteram-se com a direção do vento. São assim, são assado. São tudo. São tudo ao mesmo tempo.

É noite alta e a casa está vazia dentro de si. Ninguém respira lá dentro. Ninguém pensa, fala. O coração não bombeia o sangue que circula nas veias de alguém, pum-pum, pum-pum, pum-pum. A casa escuta tão bem, com as suas grandes orelhas de abano, mas agora nenhuma mão toca as suas paredes, ninguém se estende no chão absorvendo a frescura do soalho.
Que silêncio tão frio! Que abandono! A casa entretém-se na noite escutando repetidamente os pensamentos e as conversas gravados na atmosfera do quarto, da sala, da cozinha, na primeira camada de tinta, mas por baixo dela, chegando ao tijolo, impossível de expurgar. Gostas de mim? Gosto de te foder. Sim, mas ainda gostas de mim? Tenho de me ir embora. Não vás. Desta vez vou engravidar, tenho de engravidar. Não posso enervar-me. Se me enervar é pior. No trabalho detestam-me. Largo aquilo. Sim, largo tudo e vou-me embora. Que se lixe, hei-de arranjar trabalho em qualquer lugar. As pessoas são más sem pensar porquê. São más porque sim. O que vou fazer para jantar? Pão, não. Não vou comer pão nem nada estúpido. Tenho de me inscrever no ginásio. Estou cansada das pessoas. Finalmente em casa. Agora posso ser eu outra vez. Se fizer compras com o cartão Jumbo a partir de 21 de Janeiro, a despesa só será cobrada a 5 de Março. Dá-me tempo para pagar o seguro do carro. O mecânico pensa que me engana. O que faço agora? Desisto? Não desisto. Não se desiste. Pensa. Queres um chá? Chá de quê? Sei lá, tens tília? Devo ter. Só se mo trouxeres aqui. Não consigo dormir. É sempre a mesma festa chegando esta hora. Valerá a pena tomar um comprimido? Que horas são? Vou deitar-me no sofá com a televisão ligada.
A casa escuta. Respira fundo, fecha os olhos e deixa-se levar na melodia dessas vozes gravadas no lugar para sempre, com as quais poderá ainda contar quando chegar o fim do mundo.
E há cabelos nos cantos onde a vassoura não chegou. Cabelos muito finos, claros. Pó que é pele e unhas e fluídos repousando sobre as portas. Nos interruptores e tomadas restam impressões digitais. Por debaixo do balcão da cozinha ficaram grãos de feijão, uvas, parafusos, cotão. Secaram, enferrujaram. A casa respira fundo esse adn doce e ácido, denso. Afinal, cheira. Sim, sim, há um odor a limão e café na cozinha. O cheiro da terra dos vasos ainda por lá está. E o suor. O do calor e o do frio. Um suor pesado, carregado de tristeza, alegria, abandono, desilusão, esperança. O cheiro a sabonete nota-se ainda muito claro. É de leite. Gostava tanto de os abrigar sentados na cozinha, à primeira luz da manhã, em silêncio, bebendo leite. Deve ser tão fresco.
Não está completamente só, pensa. Os últimos donos ainda lá moram um pouco. Não é um abandono, mas um intervalo. Virá gente nova e a casa habituar-se-á a uma nova maneira de falar, a diferentes pensamentos e conversas. Uma casa precisa de saber adaptar-se ou não sobrevive. As noites é que são piores. As noites são muito sós. De dia existe luz entrando cheia pelos vidros das grandes janelas e os pombos piam lá fora. A casa olha para a rua e examina quem chega e parte.
Mas agora, nesta noite tão escura, tão funda, a casa permanece vazia e só. Tão só. Nada mexe. A escuridão engoliu as horas muito lentas. Ninguém respira, ninguém sonha no claustro da sua barriga.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A acção analgésica do poder

Compreendo que Carlos Cruz queira saber o porquê de tudo isto? Entenda-se o processo Casa Pia. Eu também. Por que o acusaram, afinal?
Carlos Cruz adianta mesmo toda uma teoria da conspiração, aludindo a interesses ocultos. Não sou totalmente ingénua: é evidente que há por aí muito interesse oculto, ou seja muitas formas de matar coelhos para se chegar ao caçador. Mas, observando os arguidos deste caso, encontro uma disparidade que não me permite relacioná-los, a não ser em dois casos. Temos um prefeito, um médico, um diplomata, um apresentador de tv, um político, um comediante, o diretor da instituição, dois advogados... e penso, conspiração para chegar a quem e com que objetivos, se esta gente vem de áreas tão diversas? Liga-os o facto de terem mais ou menos a mesma idade e serem pessoas bem colocadas na vida, com status, credibilidade. Estaremos perante uma conspiração ideada por uma associação secreta de assalariados com o ordenado mínimo? Quem teria interesse em prejudicar este grupo de homens e porquê? Será que afinal nos falta saber que pertencem todos a uma rede mafiosa que outra teve a intenção de destruir pela porta dos fundos? Que máfias serão essas? E as vítimas do processo? Estão todas enganadas? Vêem todas muito mal e não usam óculos, pelo que não fizeram reconhecimentos fotográficos válidos, não viram nem viveram o que dizer ter visto e vivido, foram alucinações, esqueceram-se compulsiva e coletivamente, foram todos pagos para mentir? É que são 32 moços a mentir! Um deles dizia há pouco à repórter da RTP que os arguidos, mesmo inocentados, terão de adormecer com isto na consciência todos os dias da sua vida. Está enganado. Este tipo de pessoas não pensa antes de dormir.
Vamos estar atentos à leitura da sentença Casa Pia, na sexta-feira, mas rezo para não ter de testemunhar, mais uma vez, a acção analgésica do dinheiro, amigos e classe social sedando os impulsos de justiça. É que as prisões estão cheias de ciganos, negros e habitantes dos bairros sociais a traficar droga dentro como o fizeram fora, mas o crime, o verdadeiro crime, a sério, em grande, mantém-se indemne, no exterior do sistema prisional e por ele ignorado. Esse, nunca lhe cheira as paredes.

Algumas questões sobre a situação no Maputo

Se a polícia moçambicana apenas dispara como forma de intimidação, como é possível registar-se uma dezena de mortos? Quem os matou? Os civis resolveram ajustar contas à pedrada? Atingem-se por engano?, desculpa lá, camarada, esta pedra não era para ti.
Os habitantes dos bairros de Benfica, Mafalala, das laterais da estrada do aeroporto e outras zonas periféricas guardam armas de fogo em casa em quantidade suficiente para iniciar distúrbios?
Por último, e isto é igual em todo o lado, quem paga é sempre o mexilhão. Se há crise, aumenta-se o pão, a água, a eletricidade e os transportes públicos. Os bens de luxo e aqueles que detêm dinheiro para os comprar estão sempre de fora. Por que não pensam em aumentar o preço dos veículos todo-o-terreno, das casas de alta cilindrada, desses artigos a que o povo não chega para conseguir comprar pão e pagar água, eletricidade e transportes?

Tomem e embrulhem

Disseram-me que as fotos publicadas na imprensa não fazem jus à minha beleza presencial. Sim, era da minha beleza que falavam, a da gorda, exato.