Mas acha que há assim tanta diferença entre fingir e falar a sério? [Arthur Schnitzler, A Cacatua Verde]
Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010
Como sobreviver à política portuguesa
Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010
Isabela e a culinária
Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010
Carta que não escrevi ao meu amor
Domingo, 24 de Outubro de 2010
A sorte dos remediados
Sábado, 23 de Outubro de 2010
Colonização à portuguesa
Estive a trocar impressões por email sobre a especificidade do nosso colonialismo.
Defendi a ideia de que os portugueses teriam sido menos vândalos relativamente aos territórios e povos africanos de que se apossaram. Tudo por uma questão prática, não intencional: os portugueses não tinham uma Inglaterra nem uma França ou uma Bélgica onde regressar. Tinham Portugal, ou seja, quase nada, em alguns casos uma mão cheia de miséria, portanto, interessava-lhes usufruir dos frutos da colonização na própria colónia, porque não sujamos o lugar onde comemos.
Fiquei a pensar nesta minha tese, que não quero que desresponsabilize os portugueses dos seus pecados coloniais, até porque não somos melhores, nem menos racistas nem menos xenófobos do que os outros. O que talvez tenhamos é uma forma dissimulada de fazer o que nos apetece. No fundo, somos especialistas em aparências, em dissimulação, e passamos para nós próprios a ideia de que até estamos a cumprir. Como fingir que somos importantes? Como dar a impressão que percebemos de música erudita? Como deixar os organismos internacionais com a ideia de que pretendemos... combater o deficit? A tal ideia do desenrascanço, que se adequa maravilhosamente a quem tem que apresentar trabalho partindo do nada. Nós somos isso.
Analisemos como este este excerto de uma autobiografia de Mia Couto, meu conterrâneo, ilustra bem o meu pensamento:
[...] A Beira era uma cidade muito conflituosa porque a fronteira entre os brancos e os negros era uma fronteira muito misturada, muito "atravessada". E eu recordo-me - toda a minha infância é uma infância de viver no meio de negros, brincar, com eles, os meus amigos [...] é uma infância toda vivida ali.
[...] Era um ambiente muito racista, ao mesmo tempo que sucedia este contacto, ou talvez até por causa disso mesmo. Os brancos da Beira eram profundamente racistas. Quando eu saí da Beira para Lourenço Marques, em 1971, parecia-me que estava noutro país, porque na Beira havia quase apartheid em certas coisas. Não podiam entrar negros nos autocarros, só no banco de trás... Enfim, era muito agressivo. No Carnaval os filhos dos brancos vinham com paus e correntes bater nos negros... Recordo-me duma história: eu tinha um senhor que me dava explicações de matemática, privadas, e ele era pai dum coronel que tinha feito um massacre em que tinham sido mortos 125 ou 130 camponeses. E ele tinha fotografias do massacre dentro de casa, como uma glória! Eu só andei uma semana naquelas explicações. Nós chamávamos-lhe o "Bengalão", porque ele tinha uma bengala grande, e quando começava a sessão de estudo ele mandava sair as mulheres - as meninas - e ficava só com rapazes, e dizia: "Cuidado, porque o pretinho está-nos a ouvir, é preciso impedir isso. Na escola eu tenho que baixar as notas dos negros para eles nunca ficarem à vossa frente, vocês têm que me ajudar nesta luta..." - e aquilo era uma coisa que para mim soava horrível.
A escola primária foi na Beira. Recordo-me que na escola primária só havia dois negros. Era tudo brancos, indianos, chineses e mestiços também. [...] Depois no liceu também havia só dois ou três. Na escola técnica, que é, digamos, um curso prático, havia mais negros, não muitos mas mais, muitos mulatos, também.
O relato de Mia Couto, que hoje em dia não se pronuncia sobre estas questões, está muito cheio de pormenores de grande riqueza sobre a cidade da Beira. Não me lembro de em Lourenço Marques existir um apartaide explícito, embora, no autocarro, os brancos se sentassem sobretudo à frente, e os negros mais atrás. Mas penso que muitos brancos ignorarão esta informação, porque não seriam muitos os que andariam de transportes públicos, na capital. Até porque havia horas em que era impossível subir para um machibombo ou permanecer dentro dele sem se ser esmagado. Os autocarros não seriam muito frequentes e os negros que queriam entrar na cidade e sair dela abundavam. Viajavam pendurados nas portas, segurando-se aos guarda-lamas. Era um salve-se quem puder. Nos cinemas, como já relatei, dava-se a situação contrária. Os negros sentavam-se à frente. De forma geral, escolhiam os lugares de segunda sem que fosse preciso mandá-los, ou, pelo menos, sem que eu alguma vez o tenha testemunhado.
Considero particularmente reveladora do que foi o nosso colonialismo a história do professor Bengalão, que chama os rapazes brancos à parte para lhes explicar que na escola tem de baixar as notas aos negros. Vejamos, pela frente, os pretinhos iam à escola, tinham direitos, mas nos bastidores da avaliação, os professores ocupavam-se baixando-lhes as notas. Ou melhor, roubando-os, destituindo-os do seu valor, do seu trabalho. Rebaixavam-nos, não pela pancada, que deixa nódoas, mas de uma forma mais aviltante, pela humilhação, que marca invisivel mas profundamente.
Outra particularidade no nosso colonialismo "suave" reside no desprezo por tudo o que era indígena: casa de preto, música de preto, dança de preto, comida de preto, roupa de preto, fala de preto. Havia as coisas de preto, de menor valor, e as nossas, com relevância. Um preto podia adquirir coisas de branco, mas a gente ria-se dele, como se fosse um palhaço.
Ainda hoje sei imitar lindamente, em registo privado, aquilo a que se chama fala de preto. As pessoas riem-se, mas o que faço sem querer é mostrar que os negros não sabem falar português, o que é, igualmente, uma forma de humilhação, de abaixamento. É por isto que continuam a chamar-nos patrão, quando por lá aterramos. Como se um branco, por ser branco, por falar português "sem sotaque" fosse necessariamente melhor. Deixámos-lhes essa absurda herança mental e, pior, pretendemos mantê-la.
Nota: o texto de Mia Couto encontra-se em Patrick Chabal, Vozes Moçambicanas, Vega, 1984
Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010
Avalanche de histórias

Se por um terrível acaso do destino se virem impedidos de estar presentes, não hesitem em contatar a Angelus Novus para um lançamento ao domicílio. O Rui pega no livro e na mantinha e toca-vos à campainha no dia marcado, oferendo vós o café.
(Clicar sobre as imagens para aumentá-las.)
Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010
Coisas que fazemos bem demais
A gente governa-se bem sem governo
Fado
Domingo, 17 de Outubro de 2010
Alguém disse bomba?
Prefiro que me roubem a carteira no metro
Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010
A mãe das minhas cadelas
Nunca pude compreender os homens que passavam serões nisso, zangando-se seriamente porque perdiam, porque alguém estaria a fazer batota. Não aprendi a fazer batota, não sei o que é um naipe, e refiro-me às cartas do baralho como fazem as crianças: parece um coração preto, parece um trevo, parece um losango... Neste momento não consigo evocar qualquer das designações. Só me ocorre a palavra ás. Só poderia jogar com um baralho cheio de ases, a única carta que compreendo, mas não deve haver nenhum jogo assim tão pragmático.
Terça-feira, 12 de Outubro de 2010
Nunca baixar a crista
Sábado, 9 de Outubro de 2010
Desejo
A certa altura de Tudo o que Eu Tenho Trago Comigo, de Herta Muller, o narrador afirma "A Trudi Pelikan cheirava a pêssegos quentes, mesmo da boca, mesmo ao terceiro, quarto dia dentro do vagão do gado." E pensei, isto é o desejo - o cheiro orgânico de quem desejamos destacando-se acima da dor, da incerteza. As pessoas não sabem, mas eu também conheci o desejo com uma candura assim, nos dias em que o conheci.
2. Esta semana, numa aula, um aluno apresentava um trabalho sobre publicidade que apela à evasão, ao prazer, e passou, para o efeito, o anúncio televisivo de um perfume de homem no qual um jovem estala os dedos e uma mulher deixa cair a roupa. Um dos colegas comentou, "até parece que é mesmo assim, sem tomar banho nem nada". Preparava-me já para abrir a boca, mas lembrei-me, "cala-te, Isabela".
Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010
A capoeira
Terça-feira, 5 de Outubro de 2010
Questões do nosso tempo 3 - Que futuro existe para os nossos filhos?

Confundo-me com a inversão de valores. Confundo-me, porque atenta à "miséria" do presente, questiono exacerbada, o que vai ser deste país num futuro próximo. - Maria
Será que vamos ter tempo para dar a volta a isto??? - Elisa
... aflige-me a incapacidade dos nossos governantes em resolver os problemas do País. - Salvador
A minha grande questão é se seremos capazes de educar as nossas crianças para que se transformem em adultos sensatos, coerentes e responsáveis e honestos. Serão eles que farão um mundo melhor, se as mentalidades forem mudadas. Hoje os educadores demitem-se desse papel e remetem-no para os professores e escolas. Está errado. A educação dá-se em casa, e sem ela nenhuma escola terá sucesso. Acredito que as coisas melhorarão se os miúdos de hoje forem bons Homens amanhã, mas terão os que têm a responsabilidade de os educarem essa capacidade e essa força? - Jacklyn
... por que é que é sempre o mexilhão que paga. - sem se ver
O mundo acabou realmente no ano 2000. Ou talvez tenha sido em 1997 ou em 2001 ou 2005. Foi por aí, mais segundo, menos segundo. Ninguém deu por nada, porque o planeta não explodiu, não colidimos com um asteróide, não ocorreu um sismo de dimensões incalculáveis, seguido de tsunami. Nada disso. O que ruiu, porque já estava podre, foram os alicerces de todo um sistema económico e político que sustentava uma vida rica em artifício, leveza e inconsequência, a diferentes níveis. O fim do mundo foi o fim de um mundo, e para mim foi um belo fim.
Durante muitos anos pensei que não conseguiria ser adulta. Sentia medo do dia em que teria de dar provas. Nunca compreendi as coisas do mundo: as relações de poder, a repartição desigual da propriedade e da riqueza, a indiferença relativamente ao sofrimento alheio, o fascínio pelos palácios, reis e princesas, a escravidão do trabalho, tal como o vejo exercer-se. Na minha papelaria, passei lá há pouco, vendem-se cerca de oito revistas semanais sobre a vida de pessoas colunáveis. Vende-se tudo. Há mercado para essas e outras. Quem são as pessoas colunáveis? O que nos interessa o seu aspeto, a decoração das suas casas, casamentos, gravidezes, batizados, traições, divórcios, funerais, heranças? O que fez essa gente na vida para sentirmos curiosidade pela sua vida privada? São excelentes profissionais na sua área? Salvaram vidas?
Nunca compreendi, por exemplo, o mês de férias tal como o gozamos. Trabalhar 11 meses que nem loucos, com os olhos postos num vindouro mês no qual se continuará a mesma roda viva, mas no inferno algarvio, para regressar ao trabalho louco por mais 11 meses, sempre me pareceu um ciclo vicioso absurdo. Lembro-me de pensar, teria uns 18 anos, eu não vou aguentar isto.
Eis outra interrogação que sempre me ocupou a mente: qual a diferença entre trabalhos forçados e um salário de 500 euros por mês que nos permite pagar consumos de 500 euros? Se me vir condenada a trabalhos forçados começo o mês com zero euros e acabo-o com a mesma quantia, sendo que pelo meio alguém terá providenciado as minhas necessidades básicas. Terei trabalho à força, com desagrado, mas não me preocupei com o almoço, jantar, alojamento, etc.
Se trabalhar "livremente" para ganhar 500 euros mensais, gastarei esse crédito em comida, transportes e alojamento, e terei de acrescentar o esforço realizado em horário póslaboral para transportar os sacos do supermercado, comprar o passe, entre outros. O resultado será chegar ao final do mês com zero euros mas mais esforço. Mas imaginemos que até consigo poupar 20 euros por mês. O objectivo dessa poupança será um consumo futuro, porque todo o trabalho tem como fim a possibilidade de um consumo. Ou melhor, cozemos pão e costuramos camisas para obtermos unidades de crédito que nos permitam comprar pão e camisas. Está visto que nunca compreendi aquilo a que se chama a economia de mercado e que o meu desprezo pela sociedade de consumo é quase indizível.

O mundo que compreendo foi o da minha avó materna, que se levantava cedo para tratar dos animais, da horta e do pomar. Daí tirava que comer. Com algum rendimento da venda de ovos, couves e pêssegos comprava uma máquina de costura, na qual cosia as próprias roupas, ou regateava o valor dumas alpercatas para os filhos, dumas calças que durariam até o tecido se gastar, incluindo o dos fundilhos e joelheiras. Nada se desperdiçava, porque tudo tinha aproveitamento.
Não passo de uma modesta professora de língua e literatura, mas sei que um mundo justo para os nossos filhos, um mundo em que não paga sempre o mexilhão, será aquele em que estaremos de novo mais próximos da terra, mais alheados da necessidade de consumo, menos obcecados com a propriedade, mais afeitos a uma existência modesta, mas autêntica.
Domingo, 3 de Outubro de 2010
A vida é demasiado boa
Não presto para nenhuma religião
Não tenho nada contra a sua religião, mas pratiquem-na sem me incomodar, e, de preferência, noutro lado qualquer, porque me parece concorrência desleal virem publicitar o seu produto à porta da igreja, à hora da missa. Não me parece lá muito ético, é isso.
Esta semana, numa caixa de comentários do Facebook, alguém afirmava, a propósito da minha atitude antipornografia, que o meu pior defeito era ser moralista, entre outros, com os quais não me identifiquei. Respondi, afirmando que se ser moralista implicava possuir uma moral, eu o era, sem dúvida. Rejo-me por um conjunto de princípios de origem cristã, mais precisamente católica, e julgo, decido, avanço ou recuo de acordo com eles. Uma parte de mim é inegavelmente católica, porque a basezinha está lá. O Pai Nosso, a Avé Maria, os pecados mortais, o certo e o errado, enfim, toda uma ideologia com a qual nem sempre concordo, mas que me deixaria perdida se a arrancassem de mim à força. A ironia reside no facto de o catolicismo também não ver em mim outra coisa que não uma pecadora, a menos que me confesse, o que não manifesto intenção de fazer. Sendo essencialmente religiosa, cristã e católica, não presto, afinal, para nenhuma religião, porque convinha a todas que não lhes questionasse o absurdo de leis, regras e rituais, de maneira que me resta ser religiosa no recato das minhas quatro paredes, o que até não me parece mal.
Todo este arrazoado porque, ao julgar o procedimento das senhoras Testemunhas de Jeová, me perguntei se não estaria a ser moralista. É mesmo muito provável que estivesse.
Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010
Deves-me milhares de euros em psicanálise
Estou a ver que és boa a dar ordens.
Consta que sim. Hoje, escreveram-me reclamando que sou parecida contigo.
Sempre foste. Mas mais do que comigo, és a cara, o corpo e o feitio da tua bisavó V.
Passavas a vida a dizer isso. Não conheço ninguém da tua família por alguma razão em especial?
Também os conheci mal. Não éramos unidos. Havia conflitos entre irmãos. A tua avó vivia no tugúrio que conheceste.
Farto-me de sonhar com ela.
Com a minha mãe?
Estou sempre a visitá-la numa casa paupérrima, escura, onde vive só, cega, com os animais como companhia, embora eu não os veja ou sinta lá. Não é a casa onde nasceste. Não conheço o lugar onde vou em sonhos, mas parece-me um bairro pobre de Londres, em 1820... ruas estreitas... escuras.... miséria. Como se vê nos filmes de época. Às vezes tenho de esperar por ela na casa negra e mal cheirosa. Uma casa sem alma, sem vida. Não é apenas a pobreza, entendes?! Há um vazio naquele espaço. Não há sentimentos. Nem dor nem alegria. É o nada. A total solidão. E sinto uma culpa enorme.
A minha mãe, em nova, antes de ficar doente, era uma mulher asseada.
Não digo o contrário, pai. Aquilo é um sonho. Sabes bem que não controlamos o que sonhamos.
Talvez entres na sua mente. No que a sua mente era antes de morrer.
Achas?! No que a sua mente era antes de morrer?! O vazio. Talvez. Mas sinto culpa, entendes?!
Esquece isso.
Costumas encontrar a avó?
Não, estás maluca. A tua avó não frequenta o meu andar.
Mas sabes dela?
Não, não sei nada dela. Isto aqui não é assim. Diz lá, hoje mandaste-me sentar. O que me queres contar?
Sorrio.
Nada de especial. Tenho saudades tuas. Disseram-me que somos parecidos. Fiquei orgulhosa.
Tens orgulho em mim?
Ensinaste-me isso.
Não ensinei nada.
Sem querer, ensinaste.
Já sei que foi complicado para ti gostar e não gostar de mim. Nunca compreendi as tuas atitudes. Eras ríspida comigo, quando voltámos de Moçambique.
Era ríspida contigo e desejava que te evaporasses da face da terra. Não suportava ouvir-te. Foste o meu maior pesadelo. Houve alturas em que te odiei... meu Deus, meu Deus, eu odiei-te, mesmo. E tinha de disfarçar, em nome do amor filial, da distância que nos tinha separado, de tudo o que esperavas de mim, do teu amor por mim...
Mas conseguiste o que querias, Isabela. Eu desapareci inapelavelmente da face da terra.
Rimo-nos ambos.
Acabaste por ter sorte, no final. Lutei para não te odiar. Não queria. O ódio pesa demais e tu eras tão grandioso, tão perfeito naquilo em que eras bom. Deves-me milhares de euros em psicanálise, estás a ouvir? E a falta que me fazem.
Rimo-nos de novo.
Se não os tivesses pago não poderíamos estar agora juntos. Tens aí alguma coisa que se beba?
Só se for moscatel de Setúbal.
Não tens uísque?
Acabei uma garrafa de Dimple há umas semanas.
Isabela, casa onde não há uísque....
... todos ralham e ninguém tem razão.
Mais risota.
Vai lá buscar essa zurrapa de moscatel, e escolhe aí na gerigonça um filme de cóbois, ou uma comédia, para vermos juntos antes de me ir embora. Nada de dramalhões. Se adormeceres, levo-te para a cama e tapo-te antes de sair.
Levanto-me e beijo-o.