sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Como sobreviver à política portuguesa

Às vezes alheio-me um bocado, quero dizer, enfio a cabeça no trabalho e espero pelo fim-de-semana. Podemos torturar-nos todos os dias, ou adiar para uma altura em que tudo nos pareça mais resolúvel, esperando pelos jornais de sábado, não pelas notícias, mas porque é sábado, e ao sábado temos a vida toda pela frente, pelo menos até domingo à noite.
De maneira que deitei-me há bocado no sofá disposta a ouvir as notícias, perguntando-me, muito honestamente, se Portugal ainda existiria, ou se já nos teríamos soltado da Península Ibérica vogando pelo Atlântico, eventualmente pelo Mediterrâneo, como na Jangada de Pedra.
Parece que ainda cá estamos.
E mais: a filha e mulher de Mário Soares apoiam a candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República. Mário Soares, não, não. Deve apoiar o seu amigo Alegre, mas não diz, porque parece que estiveram desavindos. O candidato do PS é o Cavaco, não é? Pelo menos é a ideia que eu tenho.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Isabela e a culinária

Certas pessoas acusam-me de manter hábitos culinários dos anos 50. É mentira, que em minha casa nunca se dividiu uma sardinha por dez, como alega quem passou pelas fomes.
Para além do mais, nos anos 50 ainda não existia. Nasci oito meses antes de Martin Luther King ter proclamado o seu sonho de que um dia os filhos dos escravos e os filhos dos senhores dos escravos se sentariam à mesma mesa. Tempos difíceis, mas tão promissores. Vivi a minha infância nesse tempo bafejado por desejo de mudança, efervescente dela, e do início da realização póstuma do grande desejo do reverendo King.
Isso de a minha cozinha pertencer aos anos 50 trata-se de uma acusação injusta baseada no facto de usar apenas fósforos para acender qualquer lume, e de não possuir um moinho de pimenta moderno. Na verdade, possuo um bastante eficaz, cujo uso demonstrei recentemente: deito grãozinhos da pimenta num paninho, cubro com o outro lado do mesmo, e assento-lhes duas boas marteladas com um dos martelos que o meu pai trouxe de Lourenço Marques, e que herdei. Herdei toda a caixa de ferramentas, e tenho de lhes dar uso. Pode haver moinho mais moderno, mais caro, etc., mas mais eficaz, duvido. O martelo mói mesmo, e bem miúdo. A questão dos fósforos também a resolvo já: são biodegradáveis, e nas cozinhas por onde me movi era o que se usava.
Também alegam que cozinho pratos à antiga, como bacalhau com batatas e couve, peixe assado no forno à antiga, galinha estufada ou assada como no tempo dos avós, e peixe frito com arrozinho de tomate, e que, concluindo, não inovo. Perguntaram-me se tinha em casa lima e paprika. Perguntei, limão e colorau? E por que é que faço sempre o caril da mesma maneira paquistanesa, e não "tipo Thai"? Nas cozinhas por onde andei, desde pequenina até muito tarde, era assim que fazíamos. Além disso, sou filha de uma senhora que nasceu em 1924. Que mal tem continuar a culinária das nossas mãezinhas, se nos damos bem com ela?
Tenho o meu lado conservador, é verdade, e estou a ficar com manias de velha, admito. Mas gosto. 

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Carta que não escrevi ao meu amor

Às vezes penso que deveria escrever uma cartinha ao meu amor, toda manuscrita com a minha melhor caligrafia e em papel da ex-papelaria Fernandes.
Expunha-lhe os meus mais sinceros pensamentos, sabes, amor, continuo a gostar tanto de ti, embora isto, eventualmente, não passe de uma antiga pancada, e saiba que detestas tudo o que vem de mim, ideia, nome, figura. Estou ciente de que vais já telefonar-me rogando que te largue a porta, mal recebas esta missiva, que não me suportas, que vício funesto o meu. Amas a tua bengala, que aliás se encontra a teu lado no momento em que me falas, vigiando as tuas palavras com o seu triste ar de madeira trabalhada. Não esperavas desenvolver tanta afeição por ela, eu sei, amor, mas aconteceu. Contas-lhe tudo sobre mim, nós, os teus desvarios, de que agora nada te resta senão a cicatriz no calcanhar esquerdo. Aliás, o que existiu não interessa, porque há meio século que terminou, e mal, e não foi além de um engano juvenil, todo o Portugal sabe; que quantidade de desprezo me satisfará a ponto de desistir? Arre, que mulher teimosa!
Deste lado das ondas eletromagnéticas, quando me telefonares, responder-te-ei que compreendo que adores a tua bengala, porque, embora gasta, segura-te tão bem. Os dois formam um. Não fosse a tua bengala, como conseguirias apoiar-te para te levantares do cadeirão exótico tão semelhante àquele onde fodemos, às terças à tarde, as melhores fodas da nossa vida? Tudo tem a sua utilidade. E se foram umas fodas valentes! Se calhar não era amor, amor. Se calhar era só carne e vício. Mas se assim foi, caramba, deixa-me ao menos esclarecer o que merece lembrança: era carne de primeira, e deixou-me na língua e no céu da boca um gosto baço, negro, adocicado, profusamente canibal, que de tempos a tempos evoco, como se fosse o primeiro pêssego que comi.
Às vezes penso que deveria escrever-lhe cartas apaixonadas que o levassem a sentir por mim uma profunda pena. A criatura desgraçou-se, diria, e mais a sua abençoada bengalinha, anuindo, com o habitual aspeto de madeira consternada. Mas não escrevo. Não escrevo a puta de um corno de carta enquanto não esmagares as fuças contra a realidade, as fuças contra o vazio, amor, contra o que não pode, não pode, juro-te, mesmo que quisesse, não pode apagar-se.

domingo, 24 de outubro de 2010

A sorte dos remediados

O meu vizinho do lado que me perdoe, mas isto merece ser contado.
Toda a gente sabe que as paredes dos prédios são de papel. Estando eu a trabalhar no escritório ouço os filhos do vizinho do lado, no seu quarto, antes de dormirem. Um terá os seus 7 anos, o outro cerca de 12, mais coisa, menos coisa. São uns meninos desenxovalhados. Brigam um com o outro. Fazem as pazes. Chamam o pai ou a mãe. Mandam-nos baixar o som da televisão. Pedem ajuda nos trabalhos. Amuam. Riem-se. Nunca os ouvi chorar. Há bocado o pai chegou ao quarto a fazer de monstro, convincentemente, e foi uma risota pegada. Até eu me ri deste lado da parede. Foi impossível de conter. Lembrei-me do meu pai que também fazia toda a espécie de macacadas para me pôr a rir, e eu ria, ria até quase perder a respiração. Fazia de vampiro, de Abominável Homem das Neves, de fantasma, de King Kong, de monstro enlouquecido sem qualquer denominação. Adorava aquilo, aquele pai, aqueles momentos. Que bom ter alguém adulto que brinca connosco, que se importa com a nossa alegria! Sentimos que somos o tesouro de alguém, e essa certeza há-de acompanhar-nos para sempre. Não é só uma certeza, mas um seguro de vida que nos prende ao mundo apesar dele. Estes garotos têm uma sorte que nem sabem. São miúdos suburbanos cujos pais trabalham para pôr o pão na mesa. Ninguém dá banquetes e os manda para a cama enquanto entretém os convidados. Ninguém os trata de alto nem lhes dá lições de etiqueta. Têm direito a ser crianças e a fazer parvoíces. Quando pensei nisto ocorreu-me que era preciso ter sorte para se nascer apenas remediado. Nem de mais nem de menos: a conta certa.

sábado, 23 de outubro de 2010

Colonização à portuguesa

Estive a trocar impressões por email sobre a especificidade do nosso colonialismo.

Defendi a ideia de que os portugueses teriam sido menos vândalos relativamente aos territórios e povos africanos de que se apossaram. Tudo por uma questão prática, não intencional: os portugueses não tinham uma Inglaterra nem uma França ou uma Bélgica onde regressar. Tinham Portugal, ou seja, quase nada, em alguns casos uma mão cheia de miséria, portanto, interessava-lhes usufruir dos frutos da colonização na própria colónia, porque não sujamos o lugar onde comemos.

Fiquei a pensar nesta minha tese, que não quero que desresponsabilize os portugueses dos seus pecados coloniais, até porque não somos melhores, nem menos racistas nem menos xenófobos do que os outros. O que talvez tenhamos é uma forma dissimulada de fazer o que nos apetece. No fundo, somos especialistas em aparências, em dissimulação, e passamos para nós próprios a ideia de que até estamos a cumprir. Como fingir que somos importantes? Como dar a impressão que percebemos de música erudita? Como deixar os organismos internacionais com a ideia de que pretendemos... combater o deficit? A tal ideia do desenrascanço, que se adequa maravilhosamente a quem tem que apresentar trabalho partindo do nada. Nós somos isso.

Analisemos como este este excerto de uma autobiografia de Mia Couto, meu conterrâneo, ilustra bem o meu pensamento:

[...] A Beira era uma cidade muito conflituosa porque a fronteira entre os brancos e os negros era uma fronteira muito misturada, muito "atravessada". E eu recordo-me - toda a minha infância é uma infância de viver no meio de negros, brincar, com eles, os meus amigos [...] é uma infância toda vivida ali.
[...] Era um ambiente muito racista, ao mesmo tempo que sucedia este contacto, ou talvez até por causa disso mesmo. Os brancos da Beira eram profundamente racistas. Quando eu saí da Beira para Lourenço Marques, em 1971, parecia-me que estava noutro país, porque na Beira havia quase apartheid em certas coisas. Não podiam entrar negros nos autocarros, só no banco de trás... Enfim, era muito agressivo. No Carnaval os filhos dos brancos vinham com paus e correntes bater nos negros... Recordo-me duma história: eu tinha um senhor que me dava explicações de matemática, privadas, e ele era pai dum coronel que tinha feito um massacre em que tinham sido mortos 125 ou 130 camponeses. E ele tinha fotografias do
massacre dentro de casa, como uma glória! Eu só andei uma semana naquelas explicações. Nós chamávamos-lhe o "Bengalão", porque ele tinha uma bengala grande, e quando começava a sessão de estudo ele mandava sair as mulheres - as meninas - e ficava só com rapazes, e dizia: "Cuidado, porque o pretinho está-nos a ouvir, é preciso impedir isso. Na escola eu tenho que baixar as notas dos negros para eles nunca ficarem à vossa frente, vocês têm que me ajudar nesta luta..." - e aquilo era uma coisa que para mim soava horrível.

A escola primária foi na Beira. Recordo-me que na escola primária só havia dois negros. Era tudo brancos, indianos, chineses e mestiços também. [...] Depois no liceu também havia só dois ou três. Na escola técnica, que é, digamos, um curso prático, havia mais negros, não muitos mas mais, muitos mulatos, também.

O relato de Mia Couto, que hoje em dia não se pronuncia sobre estas questões, está muito cheio de pormenores de grande riqueza sobre a cidade da Beira. Não me lembro de em Lourenço Marques existir um apartaide explícito, embora, no autocarro, os brancos se sentassem sobretudo à frente, e os negros mais atrás. Mas penso que muitos brancos ignorarão esta informação, porque não seriam muitos os que andariam de transportes públicos, na capital. Até porque havia horas em que era impossível subir para um machibombo ou permanecer dentro dele sem se ser esmagado. Os autocarros não seriam muito frequentes e os negros que queriam entrar na cidade e sair dela abundavam. Viajavam pendurados nas portas, segurando-se aos guarda-lamas. Era um salve-se quem puder. Nos cinemas, como já relatei, dava-se a situação contrária. Os negros sentavam-se à frente. De forma geral, escolhiam os lugares de segunda sem que fosse preciso mandá-los, ou, pelo menos, sem que eu alguma vez o tenha testemunhado.

Considero particularmente reveladora do que foi o nosso colonialismo a história do professor Bengalão, que chama os rapazes brancos à parte para lhes explicar que na escola tem de baixar as notas aos negros. Vejamos, pela frente, os pretinhos iam à escola, tinham direitos, mas nos bastidores da avaliação, os professores ocupavam-se baixando-lhes as notas. Ou melhor, roubando-os, destituindo-os do seu valor, do seu trabalho. Rebaixavam-nos, não pela pancada, que deixa nódoas, mas de uma forma mais aviltante, pela humilhação, que marca invisivel mas profundamente.

Outra particularidade no nosso colonialismo "suave" reside no desprezo por tudo o que era indígena: casa de preto, música de preto, dança de preto, comida de preto, roupa de preto, fala de preto. Havia as coisas de preto, de menor valor, e as nossas, com relevância. Um preto podia adquirir coisas de branco, mas a gente ria-se dele, como se fosse um palhaço.

Ainda hoje sei imitar lindamente, em registo privado, aquilo a que se chama fala de preto. As pessoas riem-se, mas o que faço sem querer é mostrar que os negros não sabem falar português, o que é, igualmente, uma forma de humilhação, de abaixamento. É por isto que continuam a chamar-nos patrão, quando por lá aterramos. Como se um branco, por ser branco, por falar português "sem sotaque" fosse necessariamente melhor. Deixámos-lhes essa absurda herança mental e, pior, pretendemos mantê-la.

Nota: o texto de Mia Couto encontra-se em Patrick Chabal, Vozes Moçambicanas, Vega, 1984

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Avalanche de histórias

Caros leitores do Norte, muita atenção ao lançamento de Doutor Avalanche, de Rui Manuel Amaral, amanhã, sábado, às 18h30, na FNAC do Norte Shopping, com apresentação de Rui Reininho. Promete tornar-se um happening. Não sei bem o que é um happening, mas apetece-me escrevê-lo (tenho um aluno que diz que estou a precisar de um update - os alunos, hoje em dia, dizem cada coisa aos professores!).
O livro encerra uma bela fiada de histórias inteligentes, repletas de ironia e amoralidade.




Se por um terrível acaso do destino se virem impedidos de estar presentes, não hesitem em contatar a Angelus Novus para um lançamento ao domicílio. O Rui pega no livro e na mantinha e toca-vos à campainha no dia marcado, oferendo vós o café.


(Clicar sobre as imagens para aumentá-las.)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Coisas que fazemos bem demais

Meu Amor, telenovela de produção nacional com o carimbo de qualidade TVI, encontra-se nomeada para um Emmy, o qual disputa nesta categoria com uma obra de origem argentina e outra filipina. A cerimónia de entrega dos Emmies terá lugar dentro de um mês, e a novela portuguesa é uma séria candidata. Meu Deus!

A gente governa-se bem sem governo

Lá na outra fábrica onde trabalhei houve, a certa altura, problemas com a patroa, que, desagradada com uma derrota nas eleições, impugnou a vitória da sucessora.
A fábrica esteve cerca de dois meses sem gestão, porque a sede demorou a resolver o imbróglio, e havia advogados pelo meio: uma barafunda. Retenho dessa época que a fábrica continuou a funcionar como se nada estivesse a acontecer. Nada dissemos aos fornecedores nem aos clientes, e continuámos a fabricar os nossos parafusos, todos os dias, das nove às cinco, fora os extras, cumprindo os prazos das encomendas. Não haver ninguém no gabinete da patroa dava-nos um enorme alento. Começámos a contar piadas no refeitório, o ar sentia-se muito mais leve e o trabalho corria sobre rodas. Conclusão: vivemos bem sem governo. Já estamos habituados a desenrascar o serviço sem liderança.

Fado

Desiludam-se de uma nova revolução, um novo 25 de Abril, como andei a ler por aí.
Em Portugal não se muda coisa alguma, a menos que estejamos a braços com uma guerra para a qual sejam igualmente convocados os zés da beira e os meninos rebelos de sousa, beneficiando os primeiros do que se mude na Lei em nome dos segundos. E é preciso que os militares saiam do quartel, porque o português, à cautela, não põe o pezinho na rua para se manifestar. O povo tem medo. O povo não acredita. O povo está habituado a levar porrada.

domingo, 17 de outubro de 2010

Alguém disse bomba?

O PSD pretende alterar a Constituição e varrê-la de monos como a ideologia, a democracia, etc. O PS pretende salvaguardar o Estado Social consagrado na Constituição, bem como o acesso gratuito à educação, e etceteras. Os outros partidos, sinceramente, não estou certa, porque ultimamente só leio as páginas de anedotas.
Não vale a pena perder tempo a explicar o que penso da proposta do PSD, porque hoje falta-me o vernáculo. Mas, meus amigos, ouvir o PS defender o Estado Social ao mesmo tempo que se prepara para roubar aos portugueses com menos rendimentos as prestações sociais a que têm direito, e das quais dependem para comprar arroz, dá-me vontade de chorar, quero dizer, de fundar uma célula terrorista em Almada .
(Se os serviços de informação quiserem vir cá verificar o disco do meu computador e vasculhar as gavetas, façam-no depois das 19 horas, e mandem só agentes morenos, altos e bonitões.)

Prefiro que me roubem a carteira no metro

Dizia eu ontem que não me importo de fazer sacrifícios, mas gosto de saber para quê. Sim, senhores, o barco está a afundar, tirem-me os anéis dos dedos, reduzam-me a ração, mas tenham a gentileza de me explicar para onde vai o meu pechisbeque e o meu caldo de ervas. Não vão atirá-los ao mar, pois não? Imagino que construam uma barcaça com o pechisbeque acumulado e paguem ao seus contrutores com a minha ração. Preciso de saber se vale a pena esperar ou se prefiro lançar-me ao mar abraçada a um madeiro, esperando que passe um navio com outra bandeira qualquer. Eu e os restantes milhões de pessoas que aqui no bairro estão a inventar maneiras de passar o Inverno sem ligar o aquecimento.
É que se o sacríficio servir para continuar a afundar, mas adiadamente, prefiro que me roubem a carteira no metro. Entrego-a voluntariamente às mãos dos carteiristas, e pelo menos vejo-lhes a cara. Estou cansada de ladrões sem rosto.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A mãe das minhas cadelas

O amor parece-me um vulgar jogo no qual os intervenientes se vigiam mutuamente a linguagem corporal, interjeições e qualidade das cartas.
Nunca pude compreender os homens que passavam serões nisso, zangando-se seriamente porque perdiam, porque alguém estaria a fazer batota. Não aprendi a fazer batota, não sei o que é um naipe, e refiro-me às cartas do baralho como fazem as crianças: parece um coração preto, parece um trevo, parece um losango... Neste momento não consigo evocar qualquer das designações. Só me ocorre a palavra ás. Só poderia jogar com um baralho cheio de ases, a única carta que compreendo, mas não deve haver nenhum jogo assim tão pragmático.
Se o amor é o que me parece - uma espécie de póquer adaptado aos relacionamentos, percebo agora como foi possível ter ficado para carinhosa mãe das minhas cadelas. Não sei fazer bluff. Sou uma deficiente social.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Nunca baixar a crista

Trabalhei numa fábrica cuja patroa me dava na cabeça todos os dias. Defendia ela que eu pensava demais, pelo que me chamava ao gabinete e dizia, "toma lá mais um carolo para ver se baixas a crista", e eu não baixava. A patroa não me conhecia, portanto não podia saber que coisas do mundo têm o poder de me baixar a crista. Carolos, decididamente, não.
Agora, trabalho numa fábrica muito boa e bem situada. Tenho um patrão amigo do trabalhador, e as minhas chefes de secção mostram-se expeditas, simpáticas e informadas. Sabem tudo sobre parafusos e ferramentas, e ajudam-me. Agora, já não levo na cabeça todos os dias, e por isso a minha produtividade aumentou, muito embora o salário venha a descer. Apesar de tudo, fabrico parafusos e porcas que é um ver se te avias, tudo porque o trabalho nos liberta quando o fazemos com gosto - isto, a minha antiga patroa não percebia, para seu grande descrédito.

Isabela speaks English (almost like José Mourinho)

Aqui. Mas também se pode entrar por ali.

sábado, 9 de outubro de 2010

Desejo

1. Ainda estou a ler um dos meus livros de Verão, e a lista deve acabar lá para Janeiro, à velocidade que o empreendimento tomou. Não tenho culpa que o Verão seja curto.

A certa altura de Tudo o que Eu Tenho Trago Comigo, de Herta Muller, o narrador afirma "A Trudi Pelikan cheirava a pêssegos quentes, mesmo da boca, mesmo ao terceiro, quarto dia dentro do vagão do gado." E pensei, isto é o desejo - o cheiro orgânico de quem desejamos destacando-se acima da dor, da incerteza. As pessoas não sabem, mas eu também conheci o desejo com uma candura assim, nos dias em que o conheci.

2. Esta semana, numa aula, um aluno apresentava um trabalho sobre publicidade que apela à evasão, ao prazer, e passou, para o efeito, o anúncio televisivo de um perfume de homem no qual um jovem estala os dedos e uma mulher deixa cair a roupa. Um dos colegas comentou, "até parece que é mesmo assim, sem tomar banho nem nada". Preparava-me já para abrir a boca, mas lembrei-me, "cala-te, Isabela".

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A capoeira

Sou uma galinha gorda, de pena luzidia; uma boa poedeira. Divido o meu terreno com duas ou três outras galinhas de menor idade, em muito boa forma, e umas dezenas de frangas que veremos como se saem. Damos bom rendimento ao nosso galinheiro. Uma galinha tem muita utilidade. Cacarejamos todos os dias ao sol, bicando sementes, milho, insetos, minhocas, e, oh, couve envolvida em farelo húmido! Cacarejamos, cacarejamos umas com as outras, como se fôssemos tontas e só pensássemos em encher o papo. Também cacarejamos sobre os galos dos vizinhos, calculando quando é que a senhora da casa vai correr atrás deles com a faca na mão. Os galos não põem ovos. Não-servem-para-ca-ca-ra-nada-ca-ca-não-servem-ca-ca-ra-para-nada-ca-ca-ra-ca-ca-ra-ca-ca-para-nada.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Questões do nosso tempo 3 - Que futuro existe para os nossos filhos?




...Isabela, a grande questão é... a falta de horizontes; sonhos; causas... aos "nossos filhos"... - Nogueira

Confundo-me com a inversão de valores. Confundo-me, porque atenta à "miséria" do presente, questiono exacerbada, o que vai ser deste país num futuro próximo. - Maria

Será que vamos ter tempo para dar a volta a isto??? - Elisa

... aflige-me a incapacidade dos nossos governantes em resolver os problemas do País. - Salvador

A minha grande questão é se seremos capazes de educar as nossas crianças para que se transformem em adultos sensatos, coerentes e responsáveis e honestos. Serão eles que farão um mundo melhor, se as mentalidades forem mudadas. Hoje os educadores demitem-se desse papel e remetem-no para os professores e escolas. Está errado. A educação dá-se em casa, e sem ela nenhuma escola terá sucesso. Acredito que as coisas melhorarão se os miúdos de hoje forem bons Homens amanhã, mas terão os que têm a responsabilidade de os educarem essa capacidade e essa força? - Jacklyn

... por que é que é sempre o mexilhão que paga. - sem se ver


O mundo acabou realmente no ano 2000. Ou talvez tenha sido em 1997 ou em 2001 ou 2005. Foi por aí, mais segundo, menos segundo. Ninguém deu por nada, porque o planeta não explodiu, não colidimos com um asteróide, não ocorreu um sismo de dimensões incalculáveis, seguido de tsunami. Nada disso. O que ruiu, porque já estava podre, foram os alicerces de todo um sistema económico e político que sustentava uma vida rica em artifício, leveza e inconsequência, a diferentes níveis. O fim do mundo foi o fim de um mundo, e para mim foi um belo fim.

Durante muitos anos pensei que não conseguiria ser adulta. Sentia medo do dia em que teria de dar provas. Nunca compreendi as coisas do mundo: as relações de poder, a repartição desigual da propriedade e da riqueza, a indiferença relativamente ao sofrimento alheio, o fascínio pelos palácios, reis e princesas, a escravidão do trabalho, tal como o vejo exercer-se. Na minha papelaria, passei lá há pouco, vendem-se cerca de oito revistas semanais sobre a vida de pessoas colunáveis. Vende-se tudo. Há mercado para essas e outras. Quem são as pessoas colunáveis? O que nos interessa o seu aspeto, a decoração das suas casas, casamentos, gravidezes, batizados, traições, divórcios, funerais, heranças? O que fez essa gente na vida para sentirmos curiosidade pela sua vida privada? São excelentes profissionais na sua área? Salvaram vidas?

Nunca compreendi, por exemplo, o mês de férias tal como o gozamos. Trabalhar 11 meses que nem loucos, com os olhos postos num vindouro mês no qual se continuará a mesma roda viva, mas no inferno algarvio, para regressar ao trabalho louco por mais 11 meses, sempre me pareceu um ciclo vicioso absurdo. Lembro-me de pensar, teria uns 18 anos, eu não vou aguentar isto.

Não seria preferível trabalhar com moderação, horários mais flexíveis, e gozar férias quando fosse necessário, não apenas por cansaço, mas também porque pretendemos usufruir de outras coisas na vida? Uma pessoa como eu só poderá fazer uma longa viagem quando já não se conseguir mexer com dores nas pernas. Como é que posso, no meio de uma rotina de trabalho, como é a de todos nós, e sem me transformar num Edson Athayde, arranjar meio ano para conhecer a América Latina ou a a Ásia Central? É absolutamente necessário para a economia que nos estouremos ao longo de 11 meses de trabalho, seguidos de um de férias? O quotidiano terá obrigatoriamente que respeitar o esquema "levantar às sete, transportes, trabalho, almoço, trabalho, transportes, casa, telejornal e jantar, programa de televisão, cama, levantar às sete", ou haverá forma de não nos tranformarmos em indigentes fugindo a isto? Quem inventou esta receita de vida? A engrenagem? Eles? A máquina desconhecida pela qual nos habituámos a ser escravizados?

Eis outra interrogação que sempre me ocupou a mente: qual a diferença entre trabalhos forçados e um salário de 500 euros por mês que nos permite pagar consumos de 500 euros? Se me vir condenada a trabalhos forçados começo o mês com zero euros e acabo-o com a mesma quantia, sendo que pelo meio alguém terá providenciado as minhas necessidades básicas. Terei trabalho à força, com desagrado, mas não me preocupei com o almoço, jantar, alojamento, etc.

Se trabalhar "livremente" para ganhar 500 euros mensais, gastarei esse crédito em comida, transportes e alojamento, e terei de acrescentar o esforço realizado em horário póslaboral para transportar os sacos do supermercado, comprar o passe, entre outros. O resultado será chegar ao final do mês com zero euros mas mais esforço. Mas imaginemos que até consigo poupar 20 euros por mês. O objectivo dessa poupança será um consumo futuro, porque todo o trabalho tem como fim a possibilidade de um consumo. Ou melhor, cozemos pão e costuramos camisas para obtermos unidades de crédito que nos permitam comprar pão e camisas. Está visto que nunca compreendi aquilo a que se chama a economia de mercado e que o meu desprezo pela sociedade de consumo é quase indizível.

Não tenho nada contra um bom sistema, mas a este não lhe encontro utilidade. Não gera nada de bom, não nos torna mais felizes nem melhores. Se me chateia a crise? Nada. Eu quero mesmo é que isto rebente, para ver se dá para começar doutra forma qualquer.



O mundo que compreendo foi o da minha avó materna, que se levantava cedo para tratar dos animais, da horta e do pomar. Daí tirava que comer. Com algum rendimento da venda de ovos, couves e pêssegos comprava uma máquina de costura, na qual cosia as próprias roupas, ou regateava o valor dumas alpercatas para os filhos, dumas calças que durariam até o tecido se gastar, incluindo o dos fundilhos e joelheiras. Nada se desperdiçava, porque tudo tinha aproveitamento.

Mas, Isabela, isso é a economia agrária do Estado Novo. Lutámos para nos livrar disso. Era um atraso. E quem não tinha terra e tinha de trabalhar para outrém? Os operários? E no meio disso tudo como é que ias à escola, escrevias os teus livros e viajavas pela América Latina? Achas que a tua avó veio alguma vez a Lisboa?

Só me ocorre uma resposta: se a terra e o rendimento não se encontram divididos justamente, se os direitos de propriedade bafejam uns e excluem outros, com base em leis que regulamentam mas não pacificam, algo está muito errado desde há milénios.

Não passo de uma modesta professora de língua e literatura, mas sei que um mundo justo para os nossos filhos, um mundo em que não paga sempre o mexilhão, será aquele em que estaremos de novo mais próximos da terra, mais alheados da necessidade de consumo, menos obcecados com a propriedade, mais afeitos a uma existência modesta, mas autêntica.

Se calhar teremos muito pouco dinheiro, mas poderemos viajar e ser mais livres. Se calhar os nossos filhos não serão advogados nem gestores, mas talvez possam ser bons técnicos de ambiente, porque vamos precisar deles para consertar tudo o que o sistema vigente tem destruído. Se calhar serão canalizadores, eletricistas, técnicos de reparação de eletrodomésticos, técnicos de reciclagem, porque não podemos continuar a deitar fora cada máquina que se avaria ou cada sofá coçado. Precisaremos deles. Não existia nenhuma loucura de consumo quando eu nasci, e funcionava bem assim. Ainda uso peças do enxoval da minha mãe que viajaram de Alcobaça para Lourenço Marques, depois do Maputo para o cais de Lisboa num caixote de retornados. São lençóis e toalhas com 60/70 anos. Na minha casa não se deita fora o que não está irremediavelmente estragado, e não se adquire sem necessidade.

Portanto, algures entre o mundo da minha avó e as necessidades de conforto do nosso tempo estará a medida certa para o futuro. Não importa quanto dinheiro terão os nossos filhos, mas se poderão usufruir de uma vida pacífica e proveitosa que não se vejam obrigados a carregar como um fardo. Não me parece que seja pior do que o que temos.

domingo, 3 de outubro de 2010

A vida é demasiado boa

Hoje de manhã ventava e chovia miúdo. As árvores agitavam-se e as folhas arrancadas pelo vento voavam. Três cães brincavam na relva muito verde, correndo uns atrás dos outros, enquanto os donos os observavam, orgulhosos, conversando entre si, todos despenteados, como eu. As meninas caminhavam atrás de mim; a Micas coxeando e descansando; a Morena, sempre segura de si, observando apenas.
Sentei-me no banco do jardim, respirando fundo esse ar fresco da manhã, ainda tão pouco usado, e compreendi porque razão uma parte significativa da humanidade acredita que a morte é apenas uma outra fase da existência. É que a vida, esta vida, é demasiado boa.

Não presto para nenhuma religião

No passeio matinal de domingo, com as meninas, passei pela igreja do bairro, como é costume. Junto à entrada, duas senhoras testemunhas de Jeová postaram-se no meu caminho, sorrindo, aguardando a minha chegada, uns metros à frente, para me esfolarem com os meus próprios pecados, e os do mundo, endereçando-me ao Inferno sem possível apelo. Fintei-as, desafiando as cadelas para o outro lado do passeio.
Não tenho nada contra a sua religião, mas pratiquem-na sem me incomodar, e, de preferência, noutro lado qualquer, porque me parece concorrência desleal virem publicitar o seu produto à porta da igreja, à hora da missa. Não me parece lá muito ético, é isso.

Esta semana, numa caixa de comentários do Facebook, alguém afirmava, a propósito da minha atitude antipornografia, que o meu pior defeito era ser moralista, entre outros, com os quais não me identifiquei. Respondi, afirmando que se ser moralista implicava possuir uma moral, eu o era, sem dúvida. Rejo-me por um conjunto de princípios de origem cristã, mais precisamente católica, e julgo, decido, avanço ou recuo de acordo com eles. Uma parte de mim é inegavelmente católica, porque a basezinha está lá. O Pai Nosso, a Avé Maria, os pecados mortais, o certo e o errado, enfim, toda uma ideologia com a qual nem sempre concordo, mas que me deixaria perdida se a arrancassem de mim à força. A ironia reside no facto de o catolicismo também não ver em mim outra coisa que não uma pecadora, a menos que me confesse, o que não manifesto intenção de fazer. Sendo essencialmente religiosa, cristã e católica, não presto, afinal, para nenhuma religião, porque convinha a todas que não lhes questionasse o absurdo de leis, regras e rituais, de maneira que me resta ser religiosa no recato das minhas quatro paredes, o que até não me parece mal.

Todo este arrazoado porque, ao julgar o procedimento das senhoras Testemunhas de Jeová, me perguntei se não estaria a ser moralista. É mesmo muito provável que estivesse.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Deves-me milhares de euros em psicanálise

Senta-te aí.
Estou a ver que és boa a dar ordens.
Consta que sim. Hoje, escreveram-me reclamando que sou parecida contigo.
Sempre foste. Mas mais do que comigo, és a cara, o corpo e o feitio da tua bisavó V.
Passavas a vida a dizer isso. Não conheço ninguém da tua família por alguma razão em especial?
Também os conheci mal. Não éramos unidos. Havia conflitos entre irmãos. A tua avó vivia no tugúrio que conheceste.
Farto-me de sonhar com ela.
Com a minha mãe?
Estou sempre a visitá-la numa casa paupérrima, escura, onde vive só, cega, com os animais como companhia, embora eu não os veja ou sinta lá. Não é a casa onde nasceste. Não conheço o lugar onde vou em sonhos, mas parece-me um bairro pobre de Londres, em 1820... ruas estreitas... escuras.... miséria. Como se vê nos filmes de época. Às vezes tenho de esperar por ela na casa negra e mal cheirosa. Uma casa sem alma, sem vida. Não é apenas a pobreza, entendes?! Há um vazio naquele espaço. Não há sentimentos. Nem dor nem alegria. É o nada. A total solidão. E sinto uma culpa enorme.
A minha mãe, em nova, antes de ficar doente, era uma mulher asseada.
Não digo o contrário, pai. Aquilo é um sonho. Sabes bem que não controlamos o que sonhamos.
Talvez entres na sua mente. No que a sua mente era antes de morrer.
Achas?! No que a sua mente era antes de morrer?! O vazio. Talvez. Mas sinto culpa, entendes?!
Esquece isso.
Costumas encontrar a avó?
Não, estás maluca. A tua avó não frequenta o meu andar.
Mas sabes dela?
Não, não sei nada dela. Isto aqui não é assim. Diz lá, hoje mandaste-me sentar. O que me queres contar?
Sorrio.
Nada de especial. Tenho saudades tuas. Disseram-me que somos parecidos. Fiquei orgulhosa.
Tens orgulho em mim?
Ensinaste-me isso.
Não ensinei nada.
Sem querer, ensinaste.
Já sei que foi complicado para ti gostar e não gostar de mim. Nunca compreendi as tuas atitudes. Eras ríspida comigo, quando voltámos de Moçambique.
Era ríspida contigo e desejava que te evaporasses da face da terra. Não suportava ouvir-te. Foste o meu maior pesadelo. Houve alturas em que te odiei... meu Deus, meu Deus, eu odiei-te, mesmo. E tinha de disfarçar, em nome do amor filial, da distância que nos tinha separado, de tudo o que esperavas de mim, do teu amor por mim...
Mas conseguiste o que querias, Isabela. Eu desapareci inapelavelmente da face da terra.
Lá isso...
Rimo-nos ambos.
Acabaste por ter sorte, no final. Lutei para não te odiar. Não queria. O ódio pesa demais e tu eras tão grandioso, tão perfeito naquilo em que eras bom. Deves-me milhares de euros em psicanálise, estás a ouvir? E a falta que me fazem.
Rimo-nos de novo.
Se não os tivesses pago não poderíamos estar agora juntos. Tens aí alguma coisa que se beba?
Só se for moscatel de Setúbal.
Não tens uísque?
Acabei uma garrafa de Dimple há umas semanas.
Isabela, casa onde não há uísque....
... todos ralham e ninguém tem razão.
Mais risota.
Vai lá buscar essa zurrapa de moscatel, e escolhe aí na gerigonça um filme de cóbois, ou uma comédia, para vermos juntos antes de me ir embora. Nada de dramalhões. Se adormeceres, levo-te para a cama e tapo-te antes de sair.
Levanto-me e beijo-o.
Faço-lhe uma festa na cabeça, tal como uns dias antes da sua morte, quando já não se endireitava na cadeira, e mal falava. Não lhe digo que me ocorre esse pensamento. Seria demasiado triste. Para mim, seria demasiado triste.
Fui buscar moscatel para dois.