terça-feira, 30 de novembro de 2010

Os portugueses feios, escuros e baixos

(Clicando sobre a imagem verá os painéis em tamanho maior e mais nítidos.)


Em Portugal, as telenovelas são muito más. Os textos, de uma vulgaridade exemplar; as personagens, lineares e previsíveis, e a interpretação, regra geral, como se toda aquela gente andasse a fazer de conta que sabia da arte de representar.

Uma telenovela da TVI ganhou um Emmy nessa categoria, e a estação, bem como os intervenientes, trilham agora os caminhos da fama. A melhor novela do mundo, dizem eles. Margarida Marinho, hoje, no telejornal da 4, referia-se à importância da subida ao palco do grupo de representantes portugueses, do orgulho que foi para o nosso país, do orgulho que sentiu, nesse momento, em ser portuguesa.

Eu gosto de ser portuguesa todos os dias, mesmo quando não ganho prémio algum. Não posso dizer que seja um orgulho especial, mas gosto das particularidades do meu país, e não pretendo ter qualquer outra nacionalidade, a menos que me obriguem.

Os nórdicos são muito civilizados, mas não são latinos, o que significa, mais ou menos, que têm os seus defeitos. Somos tão bons como quaisquer outros, mas tendemos a não acreditar nisso, como se uma praga rogada no início da nacionalidade nos perseguisse.

António Lobo Antunes escreveu algures que ao chegar ao aeroporto reconhece de imediato a fila do nosso avião, porque somos escuros, feios e baixos. Eu não sou escura, feia nem baixa. Os portugueses não são todos escuros, feios e baixos, mas é natural que os portugueses bastante pobres, que se viram obrigados a ir ganhar a vida na estranja, tenham saído da terra natal feios e baixos, e escuros de fome. O António Lobo Antunes deve achar-se uma grande beleza.

Confesso que não reconheço tão facilmente a fila do nosso avião, no aeroporto, porque a vejo cheia de gente de muitas origens. O que eu conheço, e procuro, numa sala de aeroporto, é a minha língua. E quem a fala tem a minha atenção.

Eu gosto dos portugueses escuros, feios e baixos. Para mim até são bonitos. Falam alto, mas os outros também. São felizes e ignorantes como os americanos. Tristes, ansiosos como os franceses. Esperançosos como os africanos. Gosto dos portugueses porque são meus e eu sou deles. Não tenho nenhuma outra explicação. Só a do afeto.

Garanto que se conhecesse tão os bem os italianos como nos conheço também teria escrito dezenas de textos irónicos sobre a sua forma particular de agir e pensar.

Deixem-me em paz


Vamos lá ver se nos entendemos: eu já não sou o que fui. Um rapaz assustado, calado: Mesmo que pareça. Não sou o que fui. Não devo nada a ninguém, excepto 545 euros ao Gil de Corroios, duns negócios Tirando isso e a prestação do carro, tudo legal, mais nada.

Tenho momentos em que o medo me tolda a razão por segundos, mas não deixo de ser o homem em que me transformei. O medo é como o sistema dos telemóveis que reconhece um sistema semelhante a menos de 50 metros. O chip do medo encontra-se instalado numa circunvolução cerebral, inativo, a maior parte do tempo. No momento seguinte subimos a ladeira que acede a casa, passamos por uma janela aberta da qual emana o odor da sopa de couves que a nossa mãe cozinhava no dia em caímos ao poço do vizinho, há 40 anos, talvez mais, e estamos de novo no poço. Acreditamos que não voltaremos a sair, porque ninguém nos descobrirá. Gritamos, tirem-me daqui, e não nos ocorre que estamos apenas a subir a ladeira de regresso a casa. O chip do medo ativou-se. É preciso pensar, já não és uma criança, o poço já não existe nem esse lugar nem esse vizinho. Isso acabou. Tu já não és o mesmo. Acabou. E lentamente regressamos a nós. Já não somos o que fomos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A morte é bastante virtual

Visitei hoje a página do Facebook de um homem recentemente falecido, que conheci em tempos, e senti-me a entrar em sua casa sem autorização. Há fotografias com familiares, mensagens pessoais. As pessoas continuam a deixar-lhe recados emocionados, comunicando-lhe como está o tempo ou o que farão nesse dia. Mantêm um diálogo sem resposta muito semelhante ao que aconteceria se ele tivesse viajado para longe, para um país onde não houvesse net fácil. Nunca foi possível estar tão perto de quem morreu. A morte é um estado bastante virtual, e lá do etér, aos mortos, não lhes custava nada responder.

sábado, 27 de novembro de 2010

Nunca leio textos de amor


O meu amor mandou-me uma carta tão bonita que quase chorei. Fiquei pensativa o resto da tarde, com um entusiasmo triste, como nos dias em que de repente nos acontece o que mais desejámos, um filho, um curso aprovado, uma crónica de jornal com um toque de génio, não existindo com quem partilhar um riso, um abraço, um "viste?!". Um sucesso torna a solidão mais só. Que interesse pode haver em vencer-se prova sobre prova se não temos testemunhas? Ninguém nos olhará com orgulho. Ninguém nos dirigirá uma palavra de apreço e afeto, por isso esqueçamos o acontecimento e retomemos a vidinha, como se todos os copos estivessem arrumados na prateleira habitual.

A caligrafia do meu amor continua magra, mas mais certinha. Amadureceu. Escreveu-me que já falta pouco para acabar o contrato. Prontamente regressará de Leste, mais ano, menos ano. Pediu-me que esperasse. Que não mudasse de carro, de casa, de trabalho, porque virá. Quando regressar, prometeu-me, voltaremos a passear de mãos dadas pela serra como se fôssemos miúdos, mas mais sábios. Voltaremos a beijar-nos com ternura e desejo, atos que julguei não repetir. Fiquei a pensar o que seria voltar a beijar esse homem distante, e senti a humidade da sua boca, o cheiro dela, que nunca mudou, como se nos tivéssemos separado ontem. Essa evocação tão intensa do desejo, o seu corpo, deixou-me tonta.

Dir-me-ão que foi uma pena desperdiçar a minha vida esperando por um homem que tem passado os anos ausente, trabalhando longe. Não concordo. Não houve alternativa. As pessoas têm sempre resposta muito fácil, mas eu sabia que não existia outro homem na minha vida. Era este ou nada. Não há sempre, algures, outro amor à nossa espera. Não existe necessariamente mais do que um amor, ou, pelo menos, não existe para todos.

O meu amor escreveu-me que está para chegar o dia em que virá ajudar-me a acabar de criar o meu filho, e que leremos o jornal diário juntos, enquanto tomamos o café da manhã. Fechei os olhos e vi-nos abraçados nesse cometimento. Dirão, ah, que parvoíce de adolescente. Talvez seja, mas não podem imaginar como este sonho me alenta.

Respondi-lhe logo. Disse-lhe que aguardo a sua volta com ansiedade. Que imagino que não possa ser amanhã, mas que venha no dia em que puder. Que o aguardo. Que tenho a chave debaixo do tapete. Que se sente na sala à minha espera. Pode ligar a televisão e fazer café.

Não devíamos ter sonhos destes passados os 40 e muitos, mas isto não é um sonho, é a verdade, e por muito que eu envelheça, o meu amor parou no tempo. Não tem idade.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

E desamparou

O senhor jornalista questionava-me sobre a ordem do mundo e de lugares mais pequenos, e eu já me sentia cansada, confesso. Para terminar, perguntou-me sobre projectos para o futuro, como é costume desde o tempo do Passeio dos Alegres com o Júlio Isidro, e eu lá lhe fui respondendo como podia, até que me atira a pergunta que ninguém poderia adivinhar ser a derradeira, "o título do livro, Isabela, o título?"
"Desampara-me a loja", respondi. E ofendido, sem uma palavra, o senhor jornalista meteu o gravador no saco e levantou-se sem ao menos me pagar o cafezinho.

Sem festa não há festa

Não houve bulha durante a Cimeira da Nato, a greve geral decorreu sem coquetailes molotof, até domingo teremos um frio vindo da Islândia [ice+land], o meu namorado não me veio visitar hoje à noite, o médico proibiu-me de comer mais pastéis de nata, portanto é natural que uma pessoa não tenha vontade de escrever nem para o blogue.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Parabéns, querido Caderno

Faz um ano que saiu para as bancas o Caderno de Memórias Coloniais, e a data teria passado sem recordação se a Angelus Novus não mo tivesse assinalado. A minha vida é uma roda viva de trabalho, e sou má com datas.
Ao ler este texto, tão objetivo, no blogue da Angelus, sinto que foi exatamente como escrevem, mas, mais, que foi um ano do caraças, ou, como se diz em Português, megassimpático.
Impunha-se um balanço, mas olhando para o papel que se acumula sobre a minha secretária percebo que não tenho tempo. Portanto, reduzindo a reflexão ao mínimo aceitável, permitam-me que responda à pergunta "O que ganhei?"
Perdoem esta falta de modéstia congénita, que cai sempre tão mal, mas jurei não dizer o que não penso: ganhei a notoriedade de uma voz. Tornei-me uma voz. Antes mandava uns bitaites e ninguém me ligava nenhum. Agora mando uns bitaies e há meia dúzia de incautos que me escutam. Podia ter ganho o Euromilhões e arranjar forma de comprar uma ilhota no Pacífico para onde iria escrever livros sobre o cancro de pele, mas não, o que me saiu foi essa voz, apesar de tudo inestimável.
Resta-me agradecer à Angelus Novus a atenção que tem dedicado ao Caderno ao longo deste ano, bem como ao meu agente, Sr. José Simões, que não me larga a perna nem o braço, e se esforça todos os dias por me trazer ao mundo real. Não é tarefa fácil.
Como bónus comemorativo de um ano de Caderno de Memórias Coloniais ofereço-vos este podcast que poderão pôr a tocar todas as noites para adormecer rapidamente.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Você pertence ao milieu?


Às vezes sente-se perdido, desajustado. Não percebe se é o meio social que o rejeita, se foi você que nasceu sem jeitinho algum que se aproveite para o meio (em francês, le milieu). Faça o teste e descubra se vale a pena continuar a deitar-se tarde de quinta a sábado.

1. Adora tudo o que seja comida japonesa ou "oriental de fusão" (20 pontos).

2. Marca presença em todos os festivais de cinema de autor, fantástico, LGTB, docs, inclusive ciclos de cinema mudo do Usbequistão, e deixa-se ficar a conversar com conhecidos da noite na varanda, átrio, entrada... (20 pontos).

3. Frequenta a Moda Lisboa e outros eventos cheios de gente "diferente", vestindo-se de forma relativamente descuidada para não passar a impressão que perdeu tempo com a aparência (10 pontos).

4. Considera que a quantidade de sexo deve sobrepor-se à qualidade do mesmo, e usa frases como "mais vale mau sexo do que no sex" entre outras mais espirituosas (10 pontos).

5. Está convicto de que os "trabalhadores sexuais" devem descontar para IRS, porque é uma profissão como qualquer outra (10 pontos).

6. Defende que chegámos a um ponto em que não vale a pena tornarmo-nos obsessivos com sexo seguro, uma vez que hoje em dia já ninguém morre de sida (10 pontos).

7. Quando se veste com roupas cinzento-escuras sente que anda a abusar da cor (10 pontos).

8. Na sua opinião, a canabis, nas suas diferentes formas de consumo, devia poder aviar-se na farmácia, de marca ou em genérico (10 pontos).

Pontuação:


De 0 a 30 pontos - Esqueça a civilização ocidental e junte-se a uma tribo de índios que viva isolada nos confins da floresta.

De 40 a 50 pontos - Não é um caso perdido. Você pode chegar a pertencer ao milieu se começar a misturar-se nos festivais de cinema e eventos de moda. Dê ouvidos aos profissionais que aí encontra. Mostre-se interessado.

De 60 a 80 pontos - Já esteve mais longe. Pertence ao milieu, mas ainda não lidera. Faz parte do grupo, mas as borboletas ainda não queimam as asas quando se aproximam da sua chama. Treine a pose e o sorriso frente ao espelho. Aprenda de cor algumas citações da filosofia. Ensaie um ar descontraído, mas empenhado.

De 90 a 100 pontos - Atingiu o cume, ganhou todas as medalhas. Você é o milieu e a festa não se faz sem a sua presença. Você brilha no escuro, você tem graça, você conhece toda a gente nos festivais - organização e público. Por vezes é aborrecido ser alvo de tantas atenções, mas você sabe que é o preço a pagar pelo sucesso extremo das suas capacidades comunicativas. Você acredita em Deus porque já percebeu que Deus é você.

Só para fingir

Lavei e aperaltei a minha casa, tal com ela gosta. Dispus os bibelots como acha que os devo ter, e arrumei tudo à sua vontade; meti-me no carro e fui buscá-la para um magusto dentro de portas.
Temos de agradar aos velhos, primeiro por serem velhos e merecerem mimos, segundo porque têm o poder de conseguir chagar-nos a cabeça como ninguém, quando algo não lhes convém por motivos que nem sempre são óbvios.
Entrou no carro e pediu-me para a ajudar a puxar o cinto de segurança, o que fiz. Não o afivelou. Segurou-o com a mão esquerda, sobre a barriga, e explicou-me, é só para fingir, caso apareça a polícia.
Não lhe disse nada. Pensei só, com os meus botões, que por muitas influências que a minha educação tenha recebido, ser-me-ia impossível não me reconhecer retintamente portuguesa.

domingo, 14 de novembro de 2010

Hoje vi o meu pai

Com os anos tenho desenvolvido a capacidade de apreciar a vida que advém da consciência da nossa mortalidade. Os gestos simples, os acontecimentos bons, independentemente da sua dimensão.
Aproveitei a manhã de domingo sentando-me nos bancos junto à igreja, lendo Dostoievski ao sol. As cadelas giravam à minha volta e acabaram por deitar-se na relva, observando os passantes.
A hora da missa aproximou-se, o movimento engrossou, de maneira que terminei a leitura e encaminhei-me para casa.
Aproximando-me dos baloiços do jardim, mas à distância de uns cem metros, avistei o meu pai sentado, falando com dois garotos de bicicleta. O perfil, os óculos que escureciam ao sol, o corte de cabelo, a compleição, um pulover ligeiramente encurtado pela barriga, todo ele era o meu pai. Deixei-me estar a observá-lo ao longe, com prazer, com um sorriso nos lábios. Não podia desperdiçar a oferenda da minha falta de vista: ao longe era o meu pai quando tinha os seus 50 anos. Aproveitei essa visão enquanto durou. Sabia que não podia correr para o abraçar e beijar. Não podia aproximar-me e dizer-lhe que o amava, que tinha saudades suas. Podia vê-lo e seria muito ingrata se não usufruisse essa dádiva que os meus olhos me ofereciam.
A felicidade é doce, literalmente doce. É um bolinho capaz de saciar a necessidade momentânea de açúcar. Estaquei e deixei-me estar a saborear a doçura desse bolinho de coco fresquinho, até que a figura do meu pai se levantou do banco, e a linguagem corporal não era a do meu pai. A maneira como abanava a cabeça, mexia os braços e as mãos, como caminhava... Retomei a subida e voltei para casa sorrindo. Hoje vi o meu pai. Que sorte!

sábado, 13 de novembro de 2010

Autobiografia

Estimo o que tenho: paz e vida modesta. Percebo que a formulação contém certos laivos salazaristas, contudo não consigo evitá-la. Estimo a minha vida: vivo em paz, sem estardalhaço, sem manias. Não tenho piscina, conto os tostões, mas levo-a bem.

A vida, para mim, já esteve pior. Houve um tempo em que não tinha casa nem pais nem terra. Hoje, para dizer a verdade, tenho tudo o que desejei nesses dias. Tenho até o que não desejei, nem sonhei, embora me falte um par de construções sociais que cheguei a incluir no meu projeto de vida. Mas um projeto significa literalmente uma projeção de algo que poderá eventualmente existir, não é uma realização, logo, depende das marés. Não se pode ter tudo. Isto não se constitui como um mero lugar-comum - é uma verdade universal.

Um aluno acusou-me de ingenuidade porque defendo que a satisfação com o que fazemos é mais importante que o salário que auferimos. Não pretendo convencê-lo do contrário, embora possa explicar-lhe o meu ponto de vista. Não dou catequese a ninguém. Basta-me viver de acordo com as minhas crenças, edifício da minha identidade.

A minha mãe considera-me demasiado inocente para este mundo, e o meu agente literário, o Sr. José Simões, quando lhe falei ontem do livro que estava a planear escrever no próximo mês, olhou-me nos olhos, riu-se, e disse, "a menina é mesmo sonhadora". Ficou entre o divertido e o incrédulo. Entre o "esta gaja é gira" e o "esta gaja é louca". Lá me respondeu, "projetos, isso são só projetos; falamos quando o tiver escrito". Não foi má resposta.

A minha ideia é a seguinte: se sou tão ingénua, inocente e sonhadora como afirmam, como consigo eu sobreviver num mundo tão inchado de mentira e estratégia?! Há duas respostas: ou não sou tão tonta como me pintam ou a ingenuidade, a inocência e o sonho me protegem da vileza humana.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Ah, ir para a política fazer fortuna!

Vou lendo notícias sobre cheques passados entre empresários e políticos, justificados com argumentos nos quais ninguém acredita. Negociatas por portas travessas. Passas o cheque ao meu tio que depois endossa ao meu assistente que depois o deposita na conta da minha mãe que com ele comprará um andar no Parque das Nações em nome da neta. O que interessa é que nada chegue diretamente às minhas mãos.
Vou tomando nota dos valores por que compram casas: uma moradia em Caxias por 950 mil euros. Onde arranjam os nossos políticos dinheiro para comprar imobiliário de quase um milhão de euros? Têm negócios? São heranças? Investiram em acções? Quanto? Como? De onde raio pinga a dinheirama anormal? Os sinais exteriores de riqueza dos servidores do Estado têm de ser justificados. Se eu ganho dois mil euros e compro um automóvel de 60 mil sem que o meu pai me tenha deixado herança, onde é que o fui ganhar? Sabê-lo é um direito dos contribuintes.
Para nós, portugueses comuns, é muito claro que os governos que tanta campanha têm feito contra a corrupção na administração pública são os primeiros de todos os corruptos. Não acreditamos nas justificações que poderão satisfazer os tribunais. Nós sabemos de onde veio o dinheiro. O tribunal pode ser manipulado, mas nós não. E tudo isso nos indigna enormemente.
Estamos muito zangados contra quem nos tem governado. Não apenas os governos Sócrates, mas todos os que vêm lá de trás, recebendo luvas, enganando, roubando descaradamente e saindo pela porta grande, com louros.
As instituições políticas do nosso país merecem outro respeito. Não se recebe na mão uma história política de coragem, esperança, força, para tudo se destruir em nome do benefício pessoal e do poder efémero.
Compreendo finalmente que os portugueses suspirem por Salazar. Pelo menos esse começou e acabou da mesma forma: remediado.

domingo, 7 de novembro de 2010

Chateio-te?

Por tua causa tenho medo de andar na rua. Por isso, se nos cruzarmos na bomba de gasolina do Jumbo, no mercado, no café tem a gentileza de fazer de conta que não me viste. Desvia-te de mim como puderes, ignorando a mancha do meu cheiro. Não é por ti, mas pela minha vergonha dos insultos que faço conta de te endereçar sem sossego. Não é que goste, mas tu tens merecido tanto. Até podes pensar, mas que tonta, de que vale isso, até eu posso pensar, que tonta, para quê. Não interessa. Tu não estás no meu mundo, tu não me beijas ao domingo de manhã no café, não me perguntas queres um bolo de arroz. Então, é por isso, vês?! Vou chatear-te, magoar-te enquanto puder, e à força lembrarás o meu rosto tão doce, capaz de esconder as mil ruminações que em silêncio preparo, e que contra ti lançarei à socapa, só quando me apetecer, porque estou aqui para isso. Se calhar pensavas que, tendo perdido, ia calar-me, domesticar-me, remeter-me ao silêncio dos vencidos. Não. Não direi que o objectivo da minha existência é infernizar-te a vida. Mas nos intervalos posso livremente chatear-te por desporto. Por desporto, não é absolutamente estúpido? Mas que tenho eu a perder? Nada. Pelo contrário, descobri que esta era a minha forma de, tendo perdido, vencer.

sábado, 6 de novembro de 2010

As pessoas que decidem a nossa vida

Estive a ver, no Expresso de hoje, a foto de Catroga e Teixeira dos Santos assinando o acordo para viabilização do Orçamento de Estado (OE), que constitui todo um Retrocesso do Estado Social (RES). São dois senhores de cabelo branco, pele avermelhada, óculos de ver ao perto, com a mesma estatura e fato igual. Distinguem-nos as cores das gravatas e das camisas. Catroga com gravata cor-de-vinho e camisa branca, e Teixeira dos Santos com azulinho-clarinho sob azul-acinzentado. A mim parecem-me gémeos contabilistas fazendo as contas à herança dos papás. Mas não, são dois homens sem nenhum talento especial a combinar o governo de uma casa grande. Para mim é sempre estranho sentir que a vida de milhões depende das assinaturas de comuns mortais que, hoje, ao acordar, tal como eu, lavaram a cara, penduraram os óculos no nariz e foram preparar café cheios de dores nos ossos.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O menino Italo Calvino

Italo Calvino e Jorge Luís Borges


Comecei a ler um livro de Italo Calvino intitulado O Conto de Fadas. A certa altura, Calvino escreve " Se numa época da minha actividade literária me senti atraído pelos folktales, pelos fairytales, não foi por fidelidade a uma tradição étnica [...], nem por nostalgia das leituras infantis (na minha família, as crianças só deviam ler livros instrutivos e com algum fundamento científico), mas por interesse estilístico e estruturas, pela lógica essencial com que são contados."
Ao lê-lo, senti que os parênteses continham um lamento de criança. Imaginei-o triste, sentado na biblioteca da família, privada, grave, lendo, não o que gostaria, mas o que lhe ordenavam; vi uma sala carregada com mobília escura, enormes estantes com porta de vidro biselado, nas quais se acumulavam livros instrutivos muito bem arrumados, catalogados, encadernados, iluminados invisivelmente por toda a sabedoria do mundo. E Calvino, com um volume pesado sobre o colo, lendo com a mesma dedicação com que outras crianças, pelo mundo fora, brincam ou se deixam esbofetear, hora a hora, sem qualquer dúvida sobre a pertinência das acções que os adultos para elas reservam. E tive pena da criança que foi, embora tanta solenidade e disciplina possa ter gerado o grande Italo Calvino. É provável que no passado de todos os italos calvinos exista uma criança triste, mas duvido que exista uma relação direta entre tristeza e saber.

Não pude deixar de recordar os meus hábitos infantis de leitura.
Quando ainda não sabia ler, lembro-me de folhear um livro que o meu pai guardava na mesa de cabeceira: tinha desenhos de um barco que se afundava e náufragos moribundos esbracejando. Devia ser uma história trágica e comovente. Desejava ardentemente aprender a ler para conhecer o seu conteúdo. Não sei se algum dia o li, porque mal comecei a juntar as sílabas dediquei-me com afinco às biliotecas alheias, onde existiam livros modernos, com capas bonitas. Trazia-os para casa e deitava-me no chão a lê-los, esquecendo-me que eu era eu, porque os livros me transformavam num veículo recetor em viagem, cujos órgãos vitais mantinham animado. O sangue circulava, o coração bombeava o sangue que os rins filtravam, e os pulmões insuflavam-se e esvaziavam-se por sua conta. Eu caminhava pelos cenários que o meu cérebro criava, sem consciência da realidade, e sabia-me bem, até a voz da minha mãe me restituir ao mundo, "Isabela, larga os livros e vai fazer o que te mandei". Na minha família líamos o que nos apetecesse, desde que primeiro tivéssemos lavado a louça, varrido o chão e puxado o lustro ao parquê com metade de um coco seco e um pano de lã. Essa grande indisciplina, não fazendo de nós italos calvinos, tinha outras vantagens: criava-nos, acordava-nos informalmente. Não lamento as leituras caóticas, frequentemente clandestinas, algumas vezes carecendo de "passaporte". O senhor Augusto, amigo da família, em cujo escritório mantinha uma biblioteca com mais de cinco mil livros, obrigava-me sempre a levantar a saia, até mostrar as cuequinhas, antes de sair com o braçado dos livros que me emprestava quinzenalmente. Suponho que a obra preferida deste grande literato das colónias fosse a Lolita.
E pensando agora bem, não é improvável que o menino Italo Calvino tenha sido obrigado a custear valores equivalentes, ao longo da infância, para aceder a livros de outras bibliotecas.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O verbo estar tá condenado

Ainda sobre questões de língua escapou-me o seguinte: costuma dizer-se que as línguas são organismos vivos. Uma metáfora, portanto. Mas as metáforas são o discurso. Vejo-as desenvolverem-se no meu cérebro como se lá dentro existisse uma sala dedicada a festivais de cinema experimental. Quando me dizem que a língua é um organismo vivo começo a vê-la multiplicar-se celularmente, atingir o estado da lagarta, passando ao da borboleta, imagino que se transforma em garça e depois em condor, e que vai subindo, chamuscando as penas de algumas asas, que depois se renovam.
Se a língua é um organismo vivo, está em permanente mutação evolutiva e involutiva, tal como eu. Fisicamente, perdi capacidades; a minha pele está uma lástima, as articulações, pior, e a minha memória já deu cartas, mas o cérebro, no geral, funciona melhor que nunca; se vamos perdendo neurónios, não perdi os que coordenam as capacidades verbais, que se apuraram nos últimos anos. Se involuí nuns aspetos, evoluí noutros. Como a língua.
Se a língua é um organismo vivo, existe limitadamente. Ou melhor, transforma-se noutra coisa qualquer, como eu um dia me transformarei em húmus ótimo para fertilizar alface, tomate ou batatas.
Se a língua é um organismo vivo passa por fases etárias, como eu. A língua portuguesa passou por diversos estádios e amadureceu bastante. Não é um organismo novo nem incólume. Entre as línguas românicas, a nossa é uma das que mais mutações sofreu, que mais se afastou do étimo, o que significa que tem sido largamente usada. Está cheia de cicatrizes, de acrescentamentos e reduções. É uma língua muito marcada, que tanto influenciou a vida de outros como se deixou influenciar. Tem andado por aí, tem-se metido à luta. Embora traga consigo muitas histórias, ainda tem cartas para dar. Encontra-se num estádio, como todas as outras línguas do mundo - cada uma no seu.
Quem usa a língua não pode partir do ingénuo principio de que ela vem do princípio dos tempos tal como se usa hoje. Não pode partir do princípio que a língua não tem fases, que não muda.
Esta língua que falamos e escrevemos hoje, aqui, é apenas mais um estádio, um plano, que já cá não estará dentro de décadas. Podemos vislumbrar, nesta altura, o que a nossa língua virá a ser dentro de 30 anos, ou mesmo 50. Por exemplo, alguém duvida que o verbo estar se encontra num processo de feroz redução para tar?! E não é por influência do sms nem do messenger. Não nasceu agora, embora só agora a escrita comece a registar essa alteração, a que tem resistido. Claro que quando se negociar o próximo acordo ortográfico, dentro de... 40 anos, um bebé que acabou de nascer há 10 minutos no Hospital Garcia de Orta estará veementemente contra mais uma delapidação do património linguístico.
Mas refiro-me tão só ao que o Português poderá ser dentro de 40 anos, porque dentro de um século nem Deus sabe.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A língua portuguesa é de borracha

Os portugueses, e se calhar os povos de outros idiomas, usam a sua língua como certos provincianos: ao comprar um sofá de pele nunca lhe tiram o plástico protetor, para não se estragar. O resultado é que passam a sentar-se num sofá de plástico, e, quando finalmente removem a proteção, porque entretanto lhes cheirou a mofo, a pele que tanto protegeram, apodreceu.
Todos são donos da língua e a usam e modificam a cada dia das suas vidas. As línguas não se alteram quanto à grafia, léxico, semântica ou sintaxe por mero decreto. Quando chega o decreto já elas mudaram há muito, e somos nós os responsáveis. Sentámo-nos nela, gastámo-la, remendámo-la, arranjámos formas de tornar o assento da língua mais confortável. A lei de Lavoisier aplica-se a quase tudo, mas à língua, que nem ginjas. Nela, nada se perde, e mesmo o que se ganha, transforma-se. Ninguém se preocupa com a evolução sofrida pelos diversos falares do Latim em contato com as línguas dos territórios para onde foram levados pela expansão do Império Romano, mas se uma palavra do Português europeu perde uma consoante muda, o nosso país indigna-se como não se indignaria se tivéssemos um primeiro-ministro mentiroso ou um presidente lerdo das ideias. Que estamos a imitar os brasileiros. Que nós não falamos brasileiro. E, sobretudo, que a nossa língua é melhor que a deles. Não levo as mãos à cabeça porque não posso perder tempo com dramatizações, embora goste.
Os meus alunos, que ainda há um ano davam erros ortográficos que deixarão de o ser a partir do momento em que o acordo vigore nas escolas - no próximo ano letivo, embora nos exames nacionais já tenhamos sido avisados para aceitar as duas grafias - insurgem-se contra ele. Escrevo-lhes, no quadro, redacção, e peço que leiam. Leem redação. Segundo passo: escrevo redação, e leem redação. Qual a diferença, pergunto. Bem, a diferença, é que sem a consoante muda está errado. Porquê? Porque altera. Mas a alteração prejudica a mensagem? Na leitura, não, mas na escrita fica estranho. Explico: a aquisição das regras gráficas de uma língua leva anos a fazer-se, e confere um estatuto cultural. Quem escreve de acordo com as regras pertence automaticamente a uma élite bem escrevente, com os privilégios sociais que daí advêm.. Nunca se sabe tudo, mas convém estimar o que se aprendeu, porque não foi fácil adquiri-lo, e porque mudar hábitos custa; no caso dos meus alunos, também porque a aprendizagem é recente, e estão inchados com ela: vêm agora dizer-lhes que têm de desaprender?! E, para mais, a extraordinária arrogância dos 17 anos, diferente da dos 20, dos 30 e dos 40...
Recusam-se a ler livros em Português do Brasil. Não é Português, alegam. Dou o meu melhor explicando-lhes tudo o que aprendi sobre dialetologia, regionalismos, história da língua. Provam-me que é uma língua diferente porque os brasileiros dizem que usam terno e deixam crescer a grama nos jardins. Explico que os dois vocábulos têm origem latina, e que embora constituam, hoje, para nós, arcaísmos, foram os portugueses que os levaram para o Brasil, e que ainda se encontram em todos os dicionários. Reforço que ainda há poucos dias, em Páre, Escute e Olhe, documentário de Jorge Pelicano, ouvi um velhote de Trás-os-Montes dizer que não tinha grana. Ah, que isso é porque nas aldeias são muitos atrasados, não falam bem, argumentam! Tento fazer-lhes ver que nas zonas mais isoladas os vocábulos de uso antigo se mantiveram. Mas o Brasil não é isolado. Não é agora, mas foi. Enfim, uma luta diária.
Passam a palavra, e há alunos de turmas que não me pertencem a interpelarem-me sobre como é possível eu ser professora de Português e defender o acordo ortográfico e a alteração da língua. Olham-me como se fosse uma professora sacrílega.
Entretanto, os brasileiros riem-se. Os brasileiros e todos os africanos e timorenses que usam a nossa língua, que é deles, quotidianamente, como lhes serve melhor. A língua portuguesa, felizmente, é de borracha. Eu admiro sinceramente o que fazem com ela. Parece uma grande manta de crochet que vai crescendo com malhas e desenhos diferentes, partindo de uma mesma técnica.
As alterações no léxico e na grafia de uma língua são peixe miúdo. Como é que se diz refogado no norte de Portugal e batata na Madeira? O que pode realmente afastar o português europeu do que se fala no Brasil e em África é a fonética ou a sintaxe ou ambas. E contra isso, nada a fazer. Não é impossível que o Português, no futuro, venha a divergir conforme o continente onde é falado, formando novas línguas. Por questões políticas e económicas isso é assunto que não interessa aos falantes da variante europeia. Embora a evolução linguística tenha um profundo desprezo pela política e pela economia, por enquanto, não há que temer. O Português ainda se mantém uno - embora o documentário de Jorge Pelicano, gravado em Trás-os-Montes, estivesse legendado; e se ajudava!