segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O sentido da vida

Semeei alfaces, espinafres, coentros e salsa em embalagens de cogumelos que reciclei. Fiz-lhes uns furos para deixar escorrer a água da rega. Esperarei que as sementes germinem, depois transplantarei os rebentos para copos reciclados de iogurte até que se desenvolvam o suficiente para ocuparem pequenos vasos ou floreiras a reciclar posteriormente.
Este ano, as minhas varandas vão chamar-se hortas biológicas e hei-de fazer umas belas saladas com o produto do meu minifúndio.
Pedi ao Gabarik que me trouxesse da terra um pezinho de hortelã e outro de erva príncipe. Também cá tenho onde os plantar. Gosto muito de hortelã, em tudo, e de chás de ervas.
Também me agradaria fazer compostagem, mas não sei como se poderá realizar uma operação dessas em varandas.
Queria comprar meia dúzia de metros quadrados de terra para plantar cebolas e cenouras, mas a minha mãe não me deixa. Diz que a terra dá muito trabalho, e que eu, sendo uma menina de cidade, me fartaria rapidamente. Não sei se tem razão. Gostaria que não tivesse razão.
Também gosto de arte, filosofia e viagens, mas sou mais feliz plantando e colhendo. A objetividade dos bróculos e das couves de Bruxelas fascina-me, pelo que me considero uma mulher simples, com gostos simples. Não compreendo muito bem a vida, sobretudo as pessoas, mas consigo selecionar duas ou três coisas que gosto muito de fazer. Deve ser o sentido da minha vida.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Morena e o banho

Morena, estás a coçar-te muito.
Não, eu não, são só umas borbulhinhas que me apareceram.
Borbulhas de sujidade, não é?!
Não, é uma erupção cutânea.
Já andas a cheirar a cão. Estás mesmo a precisar de um b...
Beijinho, sim, dá-me um beijinho.
Banho, precisas de um banho, Morena. Se não estivesse tanto frio seria já hoje.
Não preciso. Deve ser a Micas. A Micas é que é velhota e cheira sempre mal.
Não, a Micas é velhota e porta-se bem. Tu, ainda não és muito velhota, mas cheiras muito mal. Cheiras a cão.
Tu também cheiras a gente e eu não me queixo.
Não queiras comparar.
Eu é que sei o que tenho de gramar com o teu cheirete de pessoa! Puff!
Ah, coitadinha...Embora desolada, anuncio-te que não escaparás ao banho.
Não quero, não quero, não quero.
Tu não tens querer, Morena.
Tens uma herança vocabular e expressiva muito fascista.
Era o que a tua avó me dizia e resultava.
Pudera, é fascismo. O fascismo retira o poder ao objeto da autoridade.
Tens andado a ler a enciclopédia, Moreninha. Muito bem, mas como não tens querer, logo, tomarás banho.
Mas eu tenho querer.
Que querer?
Um osso grande com bocados de carne e nervo agarrados...
Ok, um osso desses e no sábado vais ao banho.
Done.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Como decidir a quem entregar o seu voto?

Apanhou-me lá em casa e disparou.
Olha lá, menina, nós não vamos votar no domingo?
Não sei, mãe. - e fiz uma careta - Tu queres?
(Pausa) Quero...
Mas vais votar em quem? Não te passa pela cabeça votar no Cavaco, pois não? É que o Cavaco é um calhau, mãe.
Mas no Alegre não voto. Eu não gosto do Alegre.
Então, votas em quem?
Há um senhor..., ai, ai, como é que ele se chama? (pausa acompanhada de esgar próprio de quem que puxa desesperadamente pela memória) ... um que se vê que é uma pessoa muito séria. Ah, um que é médico e andou em África e outros sítios a curar pessoas.
O Fernando Nobre.
Esse. Esse.
Fazes bem.
E tu?
Não sei, mãe. Se calhar voto no candidato do Partido Comunista, no Francisco Não-Sei-Quê. Primeiro, parecia-me um candidato muito neutro, mas afinal até gostei de o ouvir em campanha. E depois, para mim, tem um grande vantagem em relação a todos os outros...
Achas que é um homem direito!
Sim... mas o que conta é que foi eletricista como o pai.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Sonho ser enterrado no teu quintal

Esteja eu bem morta e ao meu corpo serve qualquer destino. Não tenho quaisquer planos para a minha morte. Morrer é altamente evitável, por isso, só faço planos para a vida, a curto, médio e longo prazo.
As pessoas ambicionam que se lancem as suas cinzas funerárias aqui e acolá. Não sei onde é que se inspiram para ambição tão triste e egoísta, mas provavelmente em xaropadas sentimentalóides saídas de Hollywood.
Lançar cinzas do alto de um prédio ou numa praça implica que toda a gente que passe no lugar tenha de as respirar, tornando-se uma questão de saúde pública. Enterrem-nas ou usem-nas para fertilizar alfaces, mas não destruam os pulmões do incauto transeunte.
Ninguém tem o direito a desejar a realização de um ato que colide com os direitos sanitários de uma comunidade.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Insatisfação

Ontem tive um caracol. Veio num saco de bróculos. Um sobrevivente a andanças e frigoríficos, bem pequenino, com a casca clarinha e quase mole.
Arranjei-lhe lar numa folha de couve portuguesa cujo talo enfiei pela boca de um jarro de vidro transparente, e lá ficou. Pareceu-me feliz, aconchegado nas circunvoluções da folha, descansando numa temperatura amena. Mas hoje não o vi. Investiguei e percebi que tinha fugido da casinha confortável que lhe montei. Estava contente com o meu caracolinho, e tenho dificuldade em compreender por não se contentam as criaturas com a felicidade que o acaso lhes oferece. Agora anda perdido algures pela minha cozinha. Se tinha precisão! A insatisfação é muito má conselheira.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Votar em quem e para quê?

Manuel Alegre não tinha telhados de vidro, pelo menos conhecidos, até ontem. Escrever textos para a campanha publicitária de um banco, pagos à razão de 1500 euros a unidade, numa altura em que não recaíam suspeitas sobre a instituição, em nada afetava a sua credibilidade política. Até ontem, a campanha de Alegre ia aproveitando bem o favorecimento Cavaco/BPN.
O que Alegre teria a dizer sobre a publicidade ao BPP seria algo como, "recebi efetivamente dinheiro por participar numa campanha legítima", ponto final. Se o pagamento colidia com as suas funções de deputado, defender-se-ia como pudesse, "não estava alerta, pensei que direitos de autor não contassem", uma desculpa simples. O que estragou tudo foi a extrema elaboração da resposta: não tinha devolvido cheque algum à empresa publicitária ou, tendo-o devolvido, não o tinham aceitado. Uma mentira com perna tão curta que já foi alcançada pela exposição da sua declaração de rendimentos desse ano: o dinheiro entrou.
Foi pena ter mentido, porque perdeu uma bela oportunidade de disputar uma segunda volta com Cavaco, que, até este momento cauteloso, se limitou a responder que era honesto como uma pedra. Não deu explicações, não acrescentou, não alegou. Saber estar calado, em algumas situações, é uma ciência.
O que o eleitor terá de pesar, sobretudo no dia das eleições, é se prefere um Presidente da República metido em negociatas ou um mentiroso, e algo me diz que penderá para o primeiro.
Eu, que sempre me manifestei contra a abstenção, pondero a hipótese de não me acercar das mesas de voto. E pergunto-me, agoniada, como é que se chega ponto de pensar, "votar em quem e para quê?"

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Sinto-me comovida

No telejornal anunciam que em Faro se desenrola uma ação de apoio aos mais necessitados, distribuindo comida e afeto por diversos lares. Segue-se uma peça na qual uma senhora loura, de bata, faz festinhas na cara a uma outra senhora muito morena, ligeiramente curvada em agradecimento, que se vê logo que é necessitada.
Logo a seguir trazem ao nosso conhecimento a abertura de uma loja social na Covilhã. Os pobrezinhos podem lá ir duas vezes por semana buscar roupinhas, sapatinhos e brinquedos para as crianças, humildemente, compungidos em obrigados aos senhores e às doutoras. Na loja trabalha uma senhora com óculos Dolce & Gabanna que explica o funcionamento do projeto, e esclarece que também se realizam permutas de objetos.
Ainda bem que o senhor presidente viabilizou o OE. Bem-haja a todos os senhores e senhoras que o formularam. A caridade faz-nos sentir tão bons, tão úteis.
É comovente.