segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Uma matemática que adora o erro

Absoluta na sua tensão mais rudimentar, a escrita é a única forma directa de agredir o vazio. Um ritual. Viciada como mais nenhuma expressão artística na tua inteligência e imaginação.

Obsessiva e perversa: uma matemática que adora o erro; uma investigação que se envaidece com o caos e o desentendimento que produz.

Na pura rejeição de qualquer dieta estética ou formal, a criatura é movimento, espírito de uma época que ora se fascina ora se desilude e destrói para começar de novo. É vária. É um tremendo gozo colectivo e um horror. Na escrita encontramos possivelmente a única medida real para a vida. Escreve.


Revista Criatura nº 5, direcção de Ana Maria Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto, organização pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, Abril de 2009.

Texto transcrito da p. 5, sem indicação relativa à autoria

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Eu tinha tantos planos para depois



O meu segundo vídeo postado na blogosfera.
Foi uma aluna que me aconselhou a ouvir esta banda. Ouça os Ornatos Violeta, stora. Já ouviu os Ornatos Violeta, stora?
Agora, já.

Para que serve a psicanálise

Na primeira sessão perguntou-me, quer sentar-se no sofá ou deitar-se no divã? Respondi-lhe que me convinha o divã. O meu corpo não cabia no estreito sofá. No dia em que couber, estarei pronta a largar a terapia, disse-lhe. Mas larguei-a numa altura em que ainda mal cabia.

Ansiei por me deitar no divã negro durante quatro anos e meio. Nunca fui uma analisada das que se calam. Chegava e disparava com violência e precisão, ininterruptamente. Era a guerra.

Recordo a textura do teto falso. Era branco. Não me lembro muito bem da decoração da sala. Recordo que as lágrimas me escorriam pelas têmporas e me empapavam o cabelo por cima das orelhas. Recordo que me engasgava de choro, que perdia o ar. Caramba, o que chorei!

Um tratamento de psicanálise é trabalho para uma vida inteira. Poderemos largá-lo a a meio, mas a psicanálise continuará com qualquer gato pingado que apanhemos à frente. Ela força o caminho. Continuamos a querer dizer, dizer, pensar, encontrar razões. Passei a ter necessidade de contar todos os meus sonhos, de os recordar e pensar.

A psicanálise soltou-me a língua. Abriu-se o cofre e perdi a vergonha. Não há assuntos tabu. Diz-se a verdade. Estamos a pagar para que seja possível dizer a verdade, compreender a verdade.

Apetece-me rir quando penso nas palavras que fui e sou capaz de dizer aos outros, nos assuntos que menciono, para mim sempre lindamente enquadrados. Rio-me porque revejo a expressão facial dos meus interlocutores, de olhos parados, verbo bloqueado, mal acreditando no que acabaram de me ouvir dizer. Ela disse mesmo aquilo? E agora o que é que se lhe responde?

Sentia-me investida da missão pessoal de esclarecer, pacificar, explicar-me, pedir perdão, reconstruir todo o percurso de vida sem silêncios, sem ressentimentos. Não deixei de estar centrada em mim, mas percebi que os outros importavam, que não podia viver sem eles, que não valia a pena sujeitar-me a esse sacrifício. As pessoas levam a vida sacrificando-se por questões que não valem o sofrimento nem a negação. Viver com a consciência limpinha é um bem cujo valor excede largamente o das três pirâmides de Gizé no mercado imobiliário.

Numa das primeiras sessões, revelei à terapeuta que gostava de escrever, mas que andava parada. Anunciou-me, como certeza absoluta, que eu voltaria a fazê-lo, e interroguei-me: não sendo ela cartomante, em que se baseava para se dar ao luxo da profecia. E paguei para ver.

Aconteceu que ali se criou uma necessidade de verbalização absoluta. Um vício. Dentro e fora da sessão. Acredito que o maior trabalho realizado em psicanálise é o que se faz fora do gabinete. Contínuo, a todas as horas, obsessivamente, como somos quase todos.
Se isso implicou e implica uma enorme carga de exposição pessoal, cá continuo com a cara descoberta. Sujeita à censura dos outros? Aparentemente, sim, mas garanto que para mim esteve sempre tudo muito bem. Nomear o que não se nomeia, arranhar a pele, escavar a carne não é uma vergonha. Se se aprende algo em terapia é que tudo, um tudo vastíssimo, é passível de reflexão, de questionamento. E o discurso tem de aparecer. É necessário falar ou escrever ou ambos, porque precisamos de nos escutar.
Nunca me senti ridicula, mas livre, e quanto a isto, nada mudou. Não me envergonho de fazer ou dizer aquilo que em consciência me é exigido. Não foi só a língua que se soltou, mas uma mola em grande tensão na consciência. Um enorme alívio

Embora tenha interrompido o tratamento, e me faça falta, continuo fazendo a minha terapia todos os dias, na medida das possibilidades, com os utensílios que adquiri. Há quem lhe chame exposição. Há quem diga que até dói ver-me as entranhas e a seguir pegue às sete no matadouro municipal.

Talvez se pudesse questionar se as entranhas expostas serão todas minhas, factualmente minhas. Não me incomoda expô-las, se for o caso, mas também não faço planos quanto ao esclarecimento da respetiva identidade e natureza. O que é que isso interessa?

Há dois dias escreveu-me uma leitora dizendo não valer a pena perguntar-me como estava, uma vez que me lê todos os dias. Eu não estaria tão certa. Mas claro que isso exigiria aqui uma longa explicação que não sinto ter de prestar.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

As árvores da tua rua devem ser iguais

Há uns anos morei numa rua de província cujos moradores, por estranho que pareça, não gostavam de árvores, como outros não suportam cães ou vizinhos imigrantes.
A câmara plantava-as em fileira, ao longo do passeio, e na semanas seguintes alguém as arrancava pela raiz, as serrava rente, ou as envenenava com tóxico que nunca se chegou a apurar. É possível matar uma árvore.
Mas os delinquentes menos afoites, apenas lhes quebravam os ramos baixos.
Aceitando a poda, um novo rebento nascia mais acima, mais ao lado, e a árvore regenerava-se naturalmente. O ramo seria outro, mas continuaria teimoso, verdecendo, produzindo outros ramos.
O passado não se pode esquecer porque um ramo partido não destrói uma árvore. Muda-a.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Resistência

De todas as formas de violência o silêncio é talvez a mais perfeita, e a escrita também aprende a servir-se disso.

Há em toda a criação um grito que se insurge como uma forma de resistência, ainda que não consiga mais do que inscrever um intervalo digno no silêncio que arrasta a maior parte dos dias.

Escreve pelas razões que te apareçam, ou na falta delas; pelo gosto que sentes nisso, ou mesmo por desgosto; pelo ritmo que se ergue a cada linha, ou na arritmia que te consome. Continua. Do fogo às cinzas a criatura irá inventar-se de novo as vezes que quiser, antes de deixar um eco – uma promessa de contágio.

Revista Criatura nº 3, direcção de Ana Maria Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto, organização pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, Abril de 2009.

Texto transcrito da p. 5, sem indicação relativa à autoria

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A visita

A minha mãe nunca gostou de ter mulheres-a-dias: dava-lhe uma trabalheira colossal pôr a casa apresentável para poder recebê-las. E eu troçava: mas não as contratas exatamente para isso, para te limparem a casa?
Há uns anos passei a contar com uma senhora que cá vem uma vez por semana ordenar o meu caos. Um luxo que me concedo.
Vem às quintas. Por isso, à quarta, regulo sempre o despertador para as sete. A senhora chega às nove e preciso de compor a desarrrumação geral e varrer e lavar a maior, Parece-me mal estar a receber alguém não estando a casa em condições.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Outros

Na cozinha, ouço o vizinho de baixo entoar árias que não identifico. No quarto, a mulher adormece a bebé cantando-lhe o atirei o pau ao gato. No escritório, os filhos do vizinho do lado aprendem a viver."Vai-te embora." "Fecha a porta." "Mãããe, ele tirou-me os ténis." "Estúpido." Quando há jogo, correm pela casa gritando goooooooooolo, fora de si.
Os miúdos do lado são os meus preferidos. São meninos muito bonitos e educados. Olham-me com muita atenção quando nos cruzamos no átrio. Têm vergonha de mim, um bocadinho. Serei uma bruxa com cadelas? Que mulher é esta que sorri? Onde estão os filhos dela?
No meu prédio as pessoas vivem. O deus no qual não creem, abençoou-as.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Enviar

Comecei a escrever cartas para o éter desde que me instalaram internet em casa. Escolho um endereço de email ao acaso, e envio uma pergunta, uma ideia, uma palavra ao feliz contemplado. "Os dias de chuva são calmos." "Sinto-me mesmo muito cansada." "Não me peças para viver de novo: teria de declinar a oferta". Tão simples quanto isto. Claro que ninguém me responde. Nunca ninguém me respondeu. Não estranho. O éter não costuma dar resposta.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Pouco

Nunca ambicionei uma casa com piscina nem um automóvel elegante e veloz. Sou uma respigadora assumida, aproveitando o que outros rejeitam ou deitam fora. Tudo me dura muito tempo. Sei que se vive bem com pouco e desprezo as aparências como uma doença infeto-contagiosa.
Não preciso de telemóvel. Nunca tive um i-phone, um mp2 ou 3. Nunca me passou pelas gavetas um walkman nem um discman. Tenho alguns objetos afetivos que herdei ou guardei, transportando-os comigo de casa para casa.
Sonho viajar por lugares onde as pessoas nos sorriem e nos oferecem uma malga de caldo e um chão para dormir a noite. Gosto muito de falar, mas não é preciso falar muito.
Tenho muitos papéis, revistas, livros e dvd’s. No sábado gastei 100 euros em livros. Uma pessoa na minha situação não deveria desgraçar-se desta forma.

Saliva

Aos primeiros sinais de vida a Morena acorda-me. Faz hum-hum e lambe-me os olhos, o nariz e os lábios com a sua saliva morna e adocicada. Digo-lhe, deixa a mãe dormir. Encosta-se muito a mim, abraço-a, aquele calor, o veludo, abraço-a muito e adormeço de novo. Levanta a cabeça, escouceia-me, hum-hum e lambe-me os olhos, o nariz, os lábios. Digo-lhe, já não preciso de lavar a cara, e fica esperando que lhe faça festas, que lhe dê atenção, que levante o meu corpo. Hum-hum. Nariz, lábios, olhos. Coice. Está bem, pronto, a mãe levanta-se que já são horas.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Tomas conta de mim

Costumava puxar as unhas ao meu pai, como se lhas quisesse arrancar. Acontecia no cinema, se me enervava, ou enquanto aguardava que terminasse a conversa com os amigos. Acontecia em todos os lugares, porque o corpo do meu pai e o meu eram um só, e as suas mãos me pertenciam tanto como as minhas. Ele dizia-me, pára com isso, rapariga, mas ria-se, porque o alegrava, de um saber não percebido, que os nossos corpos fossem um só. Pára com isso que me arrepias. E eu parava, contrariada.

Revendo as suas fotos, a sua gentil e terrível figura que a minha caprichosa memória guarda inteira, incomoda-me a falta do seu corpo que as imagens registam. As mãos e a pele que beijei, que me pertenciam, evaporaram-se. Nada restou senão o roupão de seda azul que guardo na arca que veio de Tete. Nada e eu. Nada e a memória. Nada e uma presença sem corpo que me enche a casa, o tempo e a dor.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A culpa é toda tua

Estive a olhar para uma foto do meu pai com a sua camisa branca, sorrindo no Jardim 28 de Maio, em Lourenço Marques. A vida corria-lhe bem. Era feliz: mulher prendada, uma filha perfeitinha.
Olho para o seu rosto, o corpo: calhámos tão parecidos. O mesmo formato de rosto, o sorriso, o nariz, a testa. Saí ao lençol de cima, sempre me disseram. Eu sou uma parte tão grande de si!
Depois sorri. Afinal não fui eu que o traí, foi essa enorme parte de si, essa metade antagónica de si. E posso ficar na paz dos deuses.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Uma moral antiga

Fui a uma sala Lusomundo ver um filme sobre a outra vida. Convidei um amigo que se recusou a aturar tangas sobre o além. Lá lhe disse, olha que é do Clint Eastwood, e mesmo que seja sobre o outro lado, enfim, é uma obra, é arte. Não o convenci.
Sala cheia e público excitado. Que segredos já conhecidos se iriam aqui revelar?
No intervalo, o desânimo tinha-se generalizado. Era pior que o último que tinham visto. Só conversa, só conversa. Se se tivesse mantido ao nível do tsunami das primeiras cenas, mas não, conversa, conversa, quando é que alguém vinha assombrar-nos da outra vida?
Tenho lido alguns comentários do mesmo teor na blogosfera. Esperava-se mais de Hereafter, o Aqui-Depois, minha tradução favorita. Esperava-se mais o quê? Mais além? Mais fantasmas? Mais comunicação com os mortos em horário nobre? Não será o melhor filme de Clint Eastwood, mas agradou-me a fantasia paranormal, toda, afinal, sobre a vida. Um vidente que recusa o dom, porque não se pode viver rodeado de morte. Um rapazinho que tem de reaprender a existir só. Uma jornalista que acerta as agulhas da sua vida, após sobreviver a uma grave paragem cardíaca e respiratória.
Não sabemos se está alguém do outro lado, ou se existe, e não é o que importa. Estamos Aqui, e enquanto estamos, o que fazer-lhe, Depois do trauma? De quem precisamos, de quando tempo para nos reconstruirmos? Juro que não sei responder, mas em Clint Eastwood há sempre uma moral antiga que me sossega. Alguma personagem me segreda, isto arranja-se, tu verás, tudo se arranja - de uma maneira ou de outra, a justiça vingará. E eu acredito, porque acreditar é a minha salvação.

Faça-me a gentileza

Sá de Miranda, Camões, Pessoa, os outros, uma lista sem fim, nunca compreendi, juro, o que leva gente de carne a transformar pensamentos, visões em linhas, versos, e estes em, como é que se diz?, poemas, quando poderia, muito naturalmente, comer, trabalhar e fornicar, que não se precisa de mais.
Ontem à noite foi-me revelado o mistério: os poetas não estão vivos. Por exemplo, no dia em que Pessoa morreu já tinha morrido. Não nego que não andem por aí almoçando em cantinas, trabalhando com péssimo horário e fornicando quatro, no máximo seis vezes ao mês, é certo, mas relutantemente. As suas vidas não possuem, caramba, semântica, e mais abrangentemente, gramática. São vidas agramaticais. Deveriam ter-se declarado à Ofeliazinha, mas esqueceram-se. Tinha-se acabado o papel para carta, a tinta permanente, sobretudo o sentido das prioridades. E a Ofélia, coitada, foi ficando para tia, deitando o olho míope à caixa do correio.
Os poetas deveriam ter apanhado o comboio para a paragem seguinte, mas estava-se tão bem ao sol nesse dia, pelo que a máquina parou mas ninguém subiu. Foram ficando pela estação com a mala de carneira cheia de nomes brilhantes como sol, como luz, como areia, como rosto, e aproveitaram o transporte que seguiu, um qualquer, por acaso a caranguejola.
Agora vivem tristes, quer dizer, quando se lembram, quando vão sozinhos ao hipermercado comprar resmas de papel para a impressora e mandar encher os tinteiros no Smart Cartridge. Não é bem tristes, é um vazio, um pavor da vida, do que poderia haver se ousassem, meu Deus, encher o peito de ar, enchê-lo bem de ar e respirar três vezes. Se descerrassem os lábios colados com cuspo seco e chamassem a Ofeliazinha, cá de baixo, a menina desculpe, tenho-me atrasado, trabalhos, finanças, becos, a menina desculpe, estará livre para um passeio logo à tarde? Faça-me a gentileza.
Mas sacodem a cabeça, isso não; os poetas, já se sabe, sofrem em silêncio, infernizam. Uma tragédia. Se não morrem de doença do fígado, dos miolos, de fome, que ao menos seja por ausência de semântica. Isso justifica toda uma vida dedicada ao valor supremo da arte de descrever uma magnólia sem usar o vocábulo ou qualquer outro semelhante, como portefólia, sistólia, Mongólia.
Os poetas sorriem, mas não estão a sorrir. Não falam, não ouvem, não veem, não usufruem sensações, e escrevem que lamentam ter abdicado dessa forma de vida. Calor, frio, doce, amargo, macio, áspero. Usufruir, não. Desculpa, Ofélia, querida, mas afinal não dá. Paciência, sofro eu, sofres tu e mais as minhas irmãs, a tua, as tias, os poetas que me visitam no Martinho. Sofrem todos, mas tomei esta decisão. É uma nóia sem explicação, dizes tu, bem sei, será, mas deixa, é uma decisão, está decidido. A trabalheira que daria viver, mudar itinerários. Não, não, fiquemos por aqui, cada qual no seu cantinho, morrendo sem alarido. Incompletos. A meio corpo. Todos ao meio. Sejamos próprios, moderados, silenciosos. Não escandalizemos o pai nem a mãe. Temos obrigações. O que se espera de nós! Não precisamos de viver, escrevamos. Isso sim, fica muito bem na história da literatura, e chega.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

No sofá


Experimente no Sofá é o título de uma coleção da Angelus Novus de que gosto especialmente (título + coleção).

Também é possível usufruir o seu conteúdo, com o "garantido selo de qualidade Angelus Novus", algures outside, no banco de jardim, por exemplo, ou na caminha antes de desligar a luz da mesa de cabeceira; mas no sofá, digo eu que experimentei...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Um livro

Muitos gestos e reações mudaram em mim com o passar do tempo, mas no essencial sou a mesma dos tempos de criança. Mantenho a mesma esperança e vontade de viver, os mesmos desgostos e deslumbramentos. Hoje, abri um livro que desejava ler há muitos anos. Um livro que promete, com bom papel, bem encadernado, uma capa de bom gosto, e senti-me outra vez com 10 anos. Tinha nas mãos um cofre cheio de tesouros, ia desvendá-lo com cuidado e maravilhar-me.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Era educadora de infância

Não me agrada comentar casos da atualidade muito em cima do acontecimento, mas o caso da senhora da Rinchoa, morta no chão da sua cozinha durante quase uma década, é demasiado perturbador, e coloca-me algumas questões.

A primeira delas tem a ver com desmerecimento de que hoje são vítimas os velhos.
Quando eu era pequena os velhos contavam com os filhos ou os familiares mais próximos. Eram chatos, os velhos, como hoje; eram exigentes, davam trabalho, mas olhar por eles era uma obrigação moral que recairia sobre alguém. Ora, a obrigação moral que nos implica no cuidado aos velhos não se alterou. Não só carecem de ajuda para se mexerem, vestirem, lavarem e comerem, como precisam de quem fale com eles, lhes dê atenção, os leve à rua para apanharem sol e verem gente, flores. Carecem de dignidade. São os nossos velhos, os que cuidaram de nós! As suas necessidades são muito semelhantes às das crianças. Contudo, às crianças tudo se dá e aos velhos tudo se tira, como se ao chegar a uma etapa final da vida se merecesse menos, como se já nada se valesse.
Um dia destes, no café onde costumo beber a bica, uma vizinha que cuida de uma idosa minha conhecida dizia alto à sua interlocutora que as coisas já não podiam ser como a velhota queria, referindo-se ao banho. Incomodava-a que a velhota quisesse tomar banho uma vez por semana. Alegava que, não saindo de casa, não se sujava, logo, não precisava de tanto banho. A história indignou-me, pelo que, quando me levantei, cumprimentei a senhora, e disse-lhe, com delicadeza, que devemos fazer o gosto aos velhotes, e que gostar de tomar banho é um bom sinal. Não sei o que terá pensado nem me interessa, mas fiquei com a ideia de que não podemos delegar totalmente o cuidado dos nossos velhos a outrém. É absolutamente necessário vigiar e apoiar o seu quotidiano. Temos de estar presentes, mesmo que não sejamos nós a fazer-lhes o almoço. Nunca deixa de ser a nossa responsabilidade. Que mundo é este onde se aceita que quem se dedicou aos outros a vida inteira não merece, quando chega a sua vez, igual dedicação?

A senhora da Rinchoa não tinha filhos, mas existiam familiares que nunca se interrogaram sobre o seu desaparecimento. É provável que não fosse seu hábito festejarem aniversários ou feriados religiosos em conjunto, contudo, é muito estranho ninguém se interrogar sobre o paradeiro de uma mulher de 87 anos e respectivo cãozinho.
Morto o marido, a senhora do 4º andar da Rinchoa ficou sozinha com o cão, seu único filho, seu único parente. Fiquei a saber pelas notícias que esta senhora toda a vida foi educadora de infância, o que é a suprema ironia.

A minha segunda questão prende-se com o procedimento das Finanças. Imaginemos que esta senhora, afinal, estivesse viva na sua casa, mas não possuísse meios para pagar uma dívida de 1500 euros, ou que, eventualmente, não tivesse percebido as implicações da dívida.
Neste momento, se estivesse viva, e em nome de uma dívida de 1500 euros que rendeu 30 mil ao Estado, a velhota estaria na rua sem ter onde dormir. Isto constitui a prova da total desumanização das instituições para as quais contribuímos. As Finanças não sabiam que se tratava do imóvel de uma viúva? Ninguém tentou estabelecer diálogo com a senhora indo bater-lhe à porta?
Há menos de um ano, um emissário das finanças arrombou a porta de uma vizinha do meu andar que devia seis meses de renda ao senhorio. Tenho dificuldade em compreender os critérios para arrombamento de portas, mas algo me diz que tudo isto é aleatório, exceto a cobrança da dívida soberana.
Há gestores a ganhar centenas de milhares de euros mensais para tomarem decisões deste género.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A médica

É o stress, minha linda. A vida hoje em dia não se consegue viver. Como é que pensa que o Sócrates aguenta, sempre zum-zum-zum nas orelhas?! Não magoa?! Claro que magoa! Ninguém aguenta. É a antidepressivo, minha filha. E essa gente toda? Antidepressivo! Como é que pensa que eu aguento desde as 8 da manhã a trabalhar no Estado e ainda vir aqui consultar a estas horas, minha filha?! Antidepressivo! E Xanax... e outras coisas que não lhe posso dizer.
Mas reformar-me mais cedo, eles que nem pensem! Comeram-me a carne, hão-de roer-me os ossos. A menina olhou bem para o seu recibo de ordenado deste mês, não olhou?! Eu estou com o meu entalado aqui - e raspou a garganta como se se degolasse.

Sobre o Caderno de Memórias Coloniais

Queria dizer qualquer coisa sobre este texto, belíssimo, mas só me ocorrem parvoíces e lugares comuns. Deixo só uma: Pedro Serra selecionou alguns dos excertos do Caderno de que mais gosto: os da branca vestida de branco. Os dos brancos, vestidos de branco, que se sujavam.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A perfeição da nossa aristocracia

Escutar discursos políticos, em Portugal, é penoso. Reina a falta de originalidade, de espontaneidade; deputados e ministros usam a mesma cábula de frases feitas e vocábulos "adequados" com que vão polvilhando as banalidades que proferem. Passando para a arraia mais miúda, como membros partidários, funcionários públicos com responsabilidades e secretários de estado, a coisa piora: vigiam cada advérbio, cada conjunção ou locução conjuncional não vá dar-se o caso de usarem aquela que não agradará ao superior hierárquico. Toda esta gente é perita em falar dizendo nada. Saem discursos a metro, literalmente vazios, nos quais a palavra mais vezes usada é democracia. Por exemplo, na noite de 23 de Janeiro, dia das eleições presidenciais, ouvi-a tantas vezes, proveniente de tantos setores, que a certa altura me apercebi de que eles e elas, ao pronunciar "sistema democrático" ou "em nome da democracia" não estavam realmente a referir-se a um método governativo. O que se evocava com o vocábulo democracia era uma certa ideia de "regimento político". Regras, procedimentos a que se habituaram, sem os quais não sabem funcionar, e que não interessa atualizar. Em suma, democracia significa para toda esta gente que manda em nós, que decide o que vamos comer hoje ao almoço, "rotina à qual nos habituámos". O rigor expressivo, a semântica da coisa evaporou-se.

Mas lembremos o étimo: (demos: povo) + (cratos: poder, Estado). Explicitando: a democracia é um sistema de governo no qual o poder reside no povo, que elege os seus representantes, ou seja, os que falam em seu nome na assembleia decisória. Aprendi isto no 10º ou 11º ano, quando se estuda a democracia ateniense. Toda a gente aprendeu o mesmo. É elementar.
Continuemos, para chegar onde me interessa: no actual sistema de governo elegemos representantes, sem dúvida, mas a seleção dos mesmos é feita de acordo com critérios que ao povo escapam completamente. Quem elege representantes não somos nós, mas as estruturas partidárias. Estamos a milhas desse processo. Logo, os que opinam e argumentam na assembleia decisória não falam em nome do povo, mas da estrutura que os nomeou. Parece-me, assim, que o povo não está representado em lado nenhum e nada se faz em seu nome. Até suspeito que isto não tenha qualquer afinidade com a ideia de democracia. De maneira que ando com a impressão que vivemos numa espécie de aristocracia viciada e não assumida. Trata-se de um sistema de governo no qual uns poucos se governam à vez, uns para os outros. Nós somos, todos os dias, vassalos contentes.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O doce odor da podridão

Não sei se já viajaram por países muito pobres, mais pobres do Portugal. Eu já. Estive na Índia, numa altura em que anda não se tinha tornado uma economia relevante, há quase 30 anos. Viajei por países de África e do Próximo Oriente como Marrocos, Tunísia e o Egito, nos quais o custo de vida era barato. É mais fácil viajar para estes destinos: gasta-se menos, quando há pouco para gastar. Os salários locais são baixos, logo, o preço das recordações, mesmo inflacionadas, torna-se acessível a uma bolsa portuguesa.
Tenho de confessar o meu pensamento tantas vezes eurocêntrico: como é que estas pessoas vivem? Como serão as suas casas?
Entretanto, li no Público que o turismo normalmente dirigido para o Egito e Tunísia, talvez venha a ser direcionado para Portugal, o que tem lógica. Temos praias, bom clima e, sobretudo, somos igualmente baratos, pobres, caóticos e guardamos, ainda, pelas ruas mais estreitas, o doce odor da podridão. Só nos faltam as pirâmides, os túmulos, mas em aflição conseguimos desenrascar os turistas que pretendem férias baratas e ao sol.
Como é que todos esses turistas nos imaginam, nos pensam? Exatamente como nós vemos os outros, os africanos, os indianos, os tunísinos, os egípcios: como é que estes desgraçados vivem? Como serão as suas casas? Somos pobres e isso une-nos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Uma data marcante na história das transações comerciais

Está a chegar o dia dos namorados, uma data marcante na história das transações comerciais, na qual as mulheres como eu resolvem comprar presentes para oferecer à mãe, ao irmão ou à melhor amiga, sentindo que algo falhou no seu percurso de vida, que Deus as castigou, que não é justo não serem iguais às restantes vizinhas que penduram, a secar, longos estendais de cuecas e peúgas masculinas e se dão ao luxo de fingir de orgasmos. Vida injusta a nossa!
Hoje reparei que a papelaria/loja de prendas do meu bairro tem já as montras cheias de canecas com corações, almofadas de peluche vermelhas e outros acessórios de suprema utilidade, como algemas em metal cor-de-rosa. Umas algemas em metal cor-de-rosa? Oferecem-se algemas no dia dos namorados? E de repente achei que às largadas na vida tinha afinal saído uma espécie de sorte grande.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Alunos detestão o akordo ortográfiko

Stora, como é que se diz? É Egipto ou, tipo, Egito?
Eu digo Egito. E a menina?
Ai, stora, eu digo Egipto, portanto posso escrever Egipto.
Pode. Mas a partir de Setembro, na escola, vai poder escrever Egito.
E se eu, tipo, não quiser?
Algumas palavras terão dupla grafia. Ainda não estudei bem todos esses casos, mas assim que estudar dou uma aula só sobre acordo ortográfico.
Mas a stora concorda?
Concordo. Na minha vida particular já aderi ao acordo. Aqui na escola é que tenho de esperar...
Baahh, stora, o acordo ortográfico é uma cena tipo bué da podre. Eu nunca vou escrever assim.
Se bem vos conheço, nunca é capaz de ser um espaço de tempo muito exagerado.