quinta-feira, 31 de março de 2011

Público e privado

Trazes um olhar muito triste.
É a velhice. Nota-se tudo. A velhice deita-nos abaixo, respondeu-me o Piloto.
Também nos traz coisas boas....
Quais?
Por exemplo, ficas mais... arguto. Entendes aquilo que nunca antes te foi possível compreender...
Compreendo mais facilmente a maldadezinha das pessoas, não é? Apercebo-me melhor? O prazer que têm em magoar? Em atirar-nos gelo às têmporas? Em humilhar e pisar?
Piloto, também aprendemos a proteger-nos da maldade, a transcendê-la. Eu tento todos os dias.
Levantou-se, sorrindo-me,sempre triste, e disse-me até amanhã. Os cães não ligam nenhuma às minhas palavras.

Umas horas depois regressei a casa e pude então chorar, às escondidas, agarrada ao peito, a fria maldade das pessoas que nunca aprenderei a transcender.
Ainda dizem que não percebo a diferença entre público e privado.

O nosso maior inimigo

Guillaume - (olha espantado para Grain; depois continua) As grandes casas é tudo para queimar. Se houvesse mais dois ou três como eu, daqui a nada já não havia juízes em Paris.

Grain - Morte aos juízes!

Jules - Só que há um juiz que, se calhar, nunca conseguiríamos matar.

Guillaume - Diz-me quem, que eu mato-o já.

Jules - O juiz que está dentro de cada um de nós.

Arthur Schnitzler, A Cacatua Verde

quarta-feira, 30 de março de 2011

Se a tua consciência te absolve, Jane Eyre

Vivi a maior parte da minha vida submersa pela culpa de não importar para ninguém. Não o sabia com estas palavras, mas era claro que eu nunca fora uma primeira escolha, uma prioridade, uma motivação. Eu estava ali, era isso. Vivia. Tinha sido posta no mundo e disseram-me respira até ao teu último dia, procura oxigénio e respira sozinha. Fi-lo, por esperança, teimosia e orgulho, porque eu não era menos que Jane Eyre, e ela tinha-o conseguido.

Depois chegou o dia em que me foi permitido analisar friamente os factos e compreender que sim, era verdade, tinha vivido submersa pela culpa de não importar para ninguém. Não se pode fazer nada. A vida é a vida. Observei-me inteiramente, sem lenitivos, e consegui arrancar e deitar fora o que dependia do meu controlo: a culpa.

domingo, 27 de março de 2011

A menina

Diverti-me a escrever este "breve texto biográfico".

Esclareço que o verbo retornar estava originalmente em itálico.

"de pé, com os braços muito abertos"

Arte de inventar os personagens

Pomo-nos bem de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente pelos seus seus nomes
e os personagens aparecem

Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação

sexta-feira, 25 de março de 2011

Ler não é importante

No início desta semana falei para vários adolescentes do concelho do Almada sobre livros e leitura. Expliquei-lhes por que tinha começado a ler - só havia livros e telefonia no lugar onde nasci; como é que a leitura me tinha prendido - uma personagem ou uma situação agarravam-me (e fiz o gesto), vencida a resistência inicial que as primeiras páginas por vezes constituem; por que é que a leitura continuava a fascinar-me - e esta parte foi mais difícil, sendo o público muito jovem, porque é difícil explicar a emoção de pegar num livro, folheá-lo, apreendendo os pormenores das ilustrações e grafismo, e sobretudo a constante renovação de saber que os livros me proporcionam. Após tantos anos de leituras, os livros continuam a oferecer-me respostas para questões com que me debato e para outras que entretanto se geraram. Está tudo lá. O que sempre quis saber e ninguém pôde esclarecer-me, bem como aquilo que ainda não sei que um dia buscarei.
Contei-lhes que tinha escrito o meu primeiro texto quando tinha uns 11 anos, e que se chamava As mãos. Não me lembro do seu conteúdo, apenas do título. Que tendo lido já alguma coisa, nessa idade, considerei-me capaz de imitar os outros - e que a necessidade de escrever os meus pensamentos e sentimentos nunca me largou, sendo que esse treino foi aperfeiçoando em mim a capacidade, como em qualquer ofício. Contei-lhes, ainda, que me tornei professora de Português por três motivos: gostar de ler, gostar de falar sobre o que leio e sentir-me muito bem entre os jovens.
Disse-lhes que sabia que alguns deles detestavam a ideia de ler, mas que essa relutância podia ser vencida se escolhessem livros divertidos, segmentados em textos curtos, e dei exemplos, ou se lessem poesia (e dei e li exemplos).
Sentia-me muito cansada, nesse dia, por isso falei devagar e com muita verdade. Era muito eu. Não o meu eu eufórico.
Infelizmente, não preparei suficientemente esta sessão, por falta de tempo, e acabei por me esquecer de uma mensagem fundamental para os adolescentes que não gostam de ler, e cuja atenção me interessava prender: não gostar de ler não é um drama! Não temos que ser todos devoradores de livros. Há muitas outras coisas interessantes para fazer na vida. A leitura não faz de nós melhores pesssoas, tal como a inteligência em nada contribui para esse efeito. Comecei a dar aulas em 1985, portanto já me passaram pelas mãos milhares de alunos. Alguns deles nunca gostaram de ler, nunca leram mais do que o obrigatório, e não são piores adultos que os ratos de biblioteca. Mais importante do que ler um bom livro é viver e morrer com a certeza de que fizemos aquilo que contribui para o bem geral, e que, em consciência, considerámos que deveria ser feito. Foi isto que me faltou dizer aos meninos das escolas de Almada. Espero não me esquecer da próxima vez.

Tentação

Grasset - Eles pelam-se por cá vir. Isto mexe com eles, acorda-lhes os sentidos. Foi aqui que comecei Lebrêt, foi aqui que proferi o meu primeiro discurso, como se tudo não passasse de uma brincadeira... (...) e acho muito bem, meu querido Lebrêt, que venhas conhecer as origens deste teu amigo, que percebas donde parti, onde comecei.


Arthur Schnitzler, A Cacatua Verde

Rebentos

Quando chove, estendo-me ao comprido no chão, contemplando os rebentinhos de alface e de girassol salpicados pela chuva, e penso, muito alegre, eu também cá estou.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Os filhos que não tive

Agora os bebés morrem por asfixia em berços tecnológicos ou estrangulados pelos cabos da câmaras de vigilância, para que possam ser socorridos em caso de asfixia.
Eu passei os meus primeiros meses de vida numa alcofa de palha acolchoada manualmente pela minha mãe, e não consigo lembrar-me se me senti asfixiada. Não sei de que morriam os bebés em 1963, mas imagino que fosse de fome, de infeções, de abandono ou pancada.
Jesus, por exemplo, nasceu num estábulo, e nos estábulos cresce esterco. Um estábulo é um sítio quentinho para se nascer.
Sempre que estive grávida incomodava-me a ideia de ter de parir num hospital, numa maca, de pernas abertas. As amigas aconselhavam-me, olha a tua idade, olha as complicações, mas eu só me imaginava de gatas, vergada pela dor, gritando e contorcendo-me em qualquer sítio, um estábulo, uma casa de banho pública, um talhão de terra e ervas. Eu sempre quis parir como uma cadela vadia.
Na minha condição de mãe sozinha, imaginava como sobreviver às noites da forma mais confortável possível, sempre que o bebé chorasse, pedisse colo, mama, tivesse dores, enfim, as coisas dos bebés que nem me passam todas pelas cabeça, admito. Estava tudo pensado: ia comprar uma caminha de cão, depositá-la no chão, do meu lado da cama, e aí dormiria a criança: se chorasse, bastaria erguer-me, tomá-la nos braços, acalmá-la, dar-lhe a mama e ir dormitando enquanto se saciava. Não tinha eu vivido os meus primeiros meses de vida numa caminha de cão com folhos cor de rosa?
A maternidade foi, para mim, um desejo, um impulso animal sem regras. O desejo sensual de lamber as crias, de as mordiscar, de segurar nessa minha carne e pensar, esta é a minha carne, não se extinguiu. Mas o meu corpo tratou de me lembrar que sou falível, e que muito tarde, na minha vida, foi tarde demais.

terça-feira, 22 de março de 2011

Exposição

Ross – Só dois pences, é entrar e ver: deste lado da tumba, John Merrick sem esperança nem consolo. O desespero em todos os sentidos. A agonia física somente superada pela angústia psicológica. Desprezada criatura sem consolação. Só dois pences, é entrar e ver! Já é um fardo ser esta monstruosidade, viver com tais deformidades incapacitantes, com dores intermináveis, mas ser exposto aos esgares de horror e de nojo de todos os que lhe põem os olhos em cima… é ainda mais difícil de suportar. Só dois pences, é entrar e ver! É em nome da sobrevivência que este homem se expõe a bandos de embasbacados que pagam para se pasmarem diante desta aberração da natureza, o Homem-Elefante.


Bernard Pomerance, O Homem-Elefante

domingo, 20 de março de 2011

Das mamas

Falta-me uma paciência para certa literatura! Aqueles lirismos pseudointelectualóides que lia nos anos 80, pouco me dizem. Paro nos sublinhados que fiz nesses tempos. Mas por que sublinhei isto? Por que é que isto foi importante para mim?
Tornei-me tão crua. O senhor Simões acusa-me de ser abrupta e de ter inaugurado um novo subgénero literário, a que chama "literatura de talho". Diz ele que cada talho português deveria ter uma foto minha em lugar de destaque.

Hoje fui a uma livraria procurar a última obra de um grande autor português, muito recomendado. Comecei a ler as primeiras páginas e abandonei-o. Não suporto que chamem seios às mamas de uma mulher. Sinto que me roubam identidade sexual, que me domesticam. Não quero ter seios. Sou uma mulher com um corpo pejado de cicatrizes e desejo. Sou uma mulher a quem um dia, um cão, arrancou a orelha direita. Procurei-a no chão enquanto o sangue me escorria pelo pescoço e encontrei o bocado de carne, cheio de terra e lixo. Pousei-a na mão aberta e perguntei-me, agora como é que vou coser isto?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Testamento para outra vida

Só cá quero voltar como raposa loura saltando no restolho, furtiva. Quero caçar gafanhotos e parir sozinha na toca funda de terra, arrancando a pelagem do ventre para aquecer a ninhada, e ao desmamá-la, adeus, expulsá-la. Quero caçar pardais e comê-los sem piedade, fazendo da vida e da morte uma coisa una. Quero saciar a fome, o meu espanto animal de noite e luz e carne e adormecer sem planos, sem gente, para acordar com a primeira luz que anuncia o dia.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Ele nunca a amou

Sra. Kendal - O Frederik diz que o senhor gosta de ler. Livros, portanto...
Merrick - Estou a ler o Romeu e Julieta.
Sra. Kendal - Ah. Julieta. Que história de amor. Eu adoro histórias de amor.
Merrick - Se eu fosse o Romeu, sabe o que faria?
Sra. Kendal - O quê?
Merrick - Eu não lhe teria chegado o espelho ao hálito.
Sra. Kendal - Está a referir-se à cena em que Julieta parece que está morta e o Romeu põe um espelho à frente da boca dela para ver...
Merrick - Nada. O que é que se vai pensar de uma pessoa que se suicida só porque não vê nada?
Sra. Kendal - Bem, a minha experiência como Julieta - especialmente com um actor que não vou agora nomear - é eu ali deitada morta, morta, morta, e ele a lamentar-se demais, e eu a pensar que se este canastrão não vai buscar esta tirada às entranhas tout de suite eu grito, levanto-me da tumba e espeto-lhe o punhal naquele coração empata-cenas. Os Romeus são muito falíveis.
Merrick - Porque ele não gosta da Julieta.
Sra. Kendal - Não gosta?
Merrick - Ele toma-lhe o pulso? Vai chamar um médico? Certifica-se? Não. Suicida-se Ele deixa-se iludir porque não gosta dela. Ele só gosta de si próprio. Se eu fosse o Romeu, teríamos fugido juntos.
Sra. Kendal - Mas depois não haveria peça, Sr. Merrick.
Merrick - Se ele não a amava, porque haveria de haver peça? Olhar para um espelho e não ver nada. Isso não é amor. Era tudo uma ilusão. Quando a ilusão acabou, ele teve de acabar com a vida.
Sra. Kendal - Mas isso é extraordinário.
Merrick - Antes de me dar com pessoas não pensava nestas coisas porque não havia ninguém que se desse ao trabalho de pensar nas coisas que eu pensava. Agora as coisas saem-me da boca verdadeiras.

Bernard Pomerance, O Homem-Elefante

Quinta


Aos leitores e investigadores que têm passado a palavra, à extraordinária receção pela Imprensa e pela crítica, aos livreiros que o têm destacado, ao cometimento dos coordenadores e editores da Angelus Novus na sua divulgação, à Ana Bela, que me tem ajudado a compreender este livro: muito obrigada!

terça-feira, 15 de março de 2011

O que resta

Um japonês residente na área mais afetada pelo sismo confessa à equipa de reportagem da SIC que, apesar da indescritível devastação, consola-o olhar para a lua e para as estrelas.
Vou sentar-me na varanda a olhar para o céu.

Não te trates

Mas a menina não pode andar com essa depressão. O que despoletou isso?
Não sei doutora. Talvez ter perdido muito peso em curto espaço de tempo. Talvez ter largado os antidepressivos...
Largado os antidepressivos, nunca, ouça, nunca! Que irresponsabilidade.
Doutora, não mos aviam sem receita e eu não tenho horário para vir ao médico.
Tem de arranjar, porque a saúde está primeiro. Vai já levar daqui medicação e um atestado de quê?, um mês?, quinze dias? Se calhar, quinze dias, para começar.
Doutora, desculpe-me, agradeço muito, mas neste momento nem de dia e meio; justifique-me só a falta de hoje, se faz favor.
Então mas o que é que a menina faz?
Sou professora.
Oh, doutora, não pode ser... nem pense nisso... tem de descansar. Dez dias, vá.
Entra o segurança com as guias dos próximos doentes.
Josélio, temos aqui um caso inédito: uma funcionária pública que não quer atestado...
Riem-se ambos. De mim.
Sabe, doutora, é que se eu não for à escola os meus colegas têm de trabalhar a dobrar para me substituir. Isto agora é diferente. E eu prefiro ir trabalhar. Não gostamos de ver ninguém a fazer o serviço que nos compete.
Mas a doutora está doente... precisa de descansar. Leva dez dias de atestado e não se fala mais nisso.
Calo-me. Amanhã apresento-me ao serviço. Um dia e só porque o azar, desta vez, bateu forte.
E livre-se de me aparecer cá outra vez nesse estado, doutora. Lave-me esse cabelo, pinte-me essa cara, ponha-me umas unhas de gel, um baton. Quer ver o meu?
Tira o baton da mala, levanta-se, enfrenta o espelho e pinta-se.
Fica-me bem, não fica?
Fica, doutora, fica. A receita já tem o antidepressivo, não tem?

domingo, 13 de março de 2011

Apagão

Podes matar-me só um bocadinho.

Aprender


Meninos, expliquem-me, por favor, como é que pessoas tão à frente, tão informadas sobre tudo, como vocês se consideram, têm tantos preconceitos relativamente aos comportamentos sexuais das personagens da peça?

Oh, stora, é que aquilo valia tudo! Era só sexo sem compromisso...

Riem-se. Rio-me.

Mas têm de pensar no contexto: é uma época de revolução, tudo arde ao redor, objetiva e subjetivamente; além disso, os franceses nunca foram conhecidos pelo seu conservadorismo sexual, muito menos num ambiente de artistas, sempre mais livre, licencioso e libertário, e ainda por cima numa taberna partilhada por criminosos, prostitutas e atores... A França não é Portugal, Espanha ou Itália. A moral católica, que condiciona a generalidade dos nossos comportamentos, nunca teve a mesma força em França. Pensam que no meio do qual venho, profundamente católico, me era permitido falar como vocês falam ou ler o que lêem? A minha mãe nunca me autorizou a usar a palavra sexo. Era tabu enquanto tema e vocabulário! Lembro-me de ter levado uma bofetada, pelos 10, 11 anos, ao comentar que uma senhora amiga estava grávida. As mulheres ficavam de esperanças, esperavam bebé...

Indignam-se.

Então como é que aprendeu coisas assim sobre o sexo?

Mais riso.

Como vocês.

Está bem, mas se em casa não podia perguntar nada... como é que sabia, depois...

Como vocês. Exatamente como vocês. Não é em casa que aprendem, pois não?

Mas é que no seu tempo nem havia internet, nem...

Pois não, nem televisão. Olhe, se quer que lhe diga, já não me lembro bem. Uma coisa é certa, aprendíamos. Aliás, era o que mais nos interessava aprender.

Risota geral.

sábado, 12 de março de 2011

O que é verdade e o que é mentira

Séverine - Não, isto são coisas muito sérias. (Para Michette) Então, diz-me lá, quantos amantes é que já tiveste?
(...)
Michette - (para Sevérine) E tu, ainda consegues contar com quantos já foste?
Séverine - Quando tinha a tua idade ainda me lembrava.
Albin - (para Rollin) A marquesa está a fingir, não está? Não está a falar a sério?
Rollin - Mas acha que há assim tanta diferença entre fingir e falar a sério?
Albin - Acho que há uma enorme diferença.
Rollin - Eu não. Sabe o que eu acho mais interessante observar aqui? O que é verdade e o que é mentira faz tudo parte da mesma coisa, acaba por nem valer a pena estar a distinguir entre uma coisa e outra. O que é real é só mais uma faceta do que é a fingir. A marquesa é que percebe isso bem. Veja só como ela fala com aquela criatura como se fosse uma rameira igual a ela. No entanto, na verdade ela é...
Albin - Outra loiça, por assim dizer.
Rollin - Obrigado por perceber isso.


Arthur Schnitzler, A Cacatua Verde

sexta-feira, 11 de março de 2011

A mulher-cão

Fui ao Garcia de Orta visitar um senhor do bairro que está há mais de três dias nos cuidados intensivos devido a um desgosto amoroso. Fui a pé, que a médica mandou-me caminhar uma hora por dia, ou isso ou quinze minutos de sexo, e eu respondi-lhe, doutora, sexo, com homem da minha idade, o melhor que consigo são três minutos, e, e...; só se arranjar um jovem garanhão com a verga... mas isso sai-me mais caro, e o meu ordenado, desde Janeiro, a doutora deve saber...
Muito bem, fiquemo-nos pela caminhada, concordou.
Tinha eu passado a superesquadra da PSP, ao Pragal, e aparece um cão meu conhecido. Um cão com pedigri, bem posto.
Queria mesmo falar consigo, disse. E explicou-se. Isto. Aquilo. Etc. O que hei-de fazer?
Quando os outros me contam a sua vida, vejo-a tão clara como a planta de um plano de emergência em caso de incêndio, com as saídas bem assinaladas, portas, janelas, escadas. O que eu sou é especialista na vida dos outros.
Bem, meu caro Bobi, respondi-lhe, não tens qualquer hipótese de entrar pela porta da frente. Nunca deixam os cães entrar. Podes tentar aproveitar-te de uma distração, nessa ou noutra entrada qualquer, mas digo-te, o teu objetivo não vale o esforço. Esquece isso. Distrai. Pensa noutra coisa. Arranja um osso com muita carne agarrada.
Ele baixou a cabeça, triste. Pareceu aceitar. Está bem, está bem. Se acha...
Segui caminho até ao hospital. O senhor do bairro que quase morreu de desgosto amoroso, conversava animadamente com uma auxiliar de ação médica com os peitos avantajados, e iam transferi-lo para a enfermaria. Não disse nada, mas pensei com os meus botões, isto, quando uma pessoa sofre de uma adição, é muito difícil curá-la.

Hoje, por um acaso fruto da extrema pequenez do mundo, vim a saber que o Bobi não seguiu o meu conselho. Ignorou-me com desprezo total pela minha experiência. Entrou pela porta da frente à descarada, descobriram-no e deram-lhe o maior pontapé da sua curta história de vida. Tendo tomado conhecimento do acontecido, houve um momento inicial de choque. Não confias em mim, é? Achas que ando aqui quase há 50 anos só a gastar as solas? Consideras-me uma mentirosa, uma fraude? É isso, ingrato? Mas, repito, foi um momento. No seguinte, senti uma ponta de orgulho por me ter desobedecido. Arriscou, o cão. Ignorou-me. Não acreditou em mim. Considerou a minha experiência de vida tão triste que a recusou e avançou sozinho. Fez bem. Um cão não veio ao mundo para dar ouvidos a conselhos de gente. Sorri. Assim é que é, traste canino. No teu lugar teria feito o mesmo: objetivo: porta da frente e mijadela nas botas do securitas.
Orgulhei-me por ele e por mim, e é fácil de explicar: ele recusa-se a pensar como gente e eu ainda consigo pensar como um cão. Resistir é isto.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Jesus voltou

Sei que vou perder leitores machos a sério.
Estou consciente que isto me vai custar umas boas dezenas de desamigamentos no Facebook.
É muito provável que nunca mais receba um convite para participar em conferências em universidades e festas do livro.
Aposto que dentro de duas horas tenho a caixa de correio cheia de emails dos meus amigos dos estudos sobre género, e são imensos, e eu também lá estou, lembrando-me que a reificação da mulher e do homem são uma mesma coisa.
Apesar de tudo, anda me sinto humana, apenas uma mulher, e não posso controlar a urgência em partilhar com o mundo esta experiência religiosa. Assim, correndo todos os riscos, apresento-vos Jesus, o messias regressado. Viesse a mim o seu reino! A sua luz cega-me de fé.

Jesus Luz (1)

(1) Clicar sobre a imagem para aumentar, imprimir a cores e afixar o poster por todo o lado


terça-feira, 8 de março de 2011

segunda-feira, 7 de março de 2011

"A minha África é uma história que cada um de nós carrega em silêncio"

A minha África é uma história que cada um de nós carrega em silêncio, sem nunca lhe mexer. Porque magoa. É uma história com apenas quatro personagens: o jovem goês; a negra, menina-mulher, sozinha na beira de um caminho de poeira vermelha a chorar, sem homem e sem filho; a enfermeira, a mais bonita do lar da rua da Sociedade Farmacêutica, que se casou com o goês e fez seu o filho da negra; o menino sem memória, mulato, que se aninha no colo da enfermeira portuguesa e lhe pede “mamã, faz-me cabelo de branco”.

A reação do velho pai goês sentado ao aquecedor é semelhante à dos pais, mães e tias dos meus amigos. Uma vergonha! E pior, escrito por uma mulher educada. É que se fosse um homem, quem não sabe como é que os homens pensam e falam! Mas uma senhora! Ou se fosse um livro estrangeiro. Duma brasileira, duma americana, duma francesa, todas licenciosas. Mas de uma portuguesa batizada!

Era de esperar que pusessem o livro de parte ao primeiro sinal de calão, mas não é o que tem acontecido. Continuam a leitura. Sabe-se lá quantas vezes mais a escritora repetirá os odiosos vocábulos, e leitor empenhado deve escandalizar-se até ao fim, o mais possível!

*

O que menos importa no Caderno de Memórias Coloniais é a cona e a foda. Ou melhor, importam na medida em que são vocábulos interditos, logo, violentos. Preciso constantemente dessas palavras, que saem como cargas de porrada. Gosto delas quando escrevo. Ninguém me apanha um inefável, pelo menos a sério. Do que eu gosto mesmo é da cona, do grelo, do pardal à chuva. Tirem-me tudo, mas deixem-me a cona.

O Caderno, quase na 5ª edição, que divulgarei oportunamente, é, para mim, um texto sobre perda, múltiplas perdas. No entanto, atingiu uma autonomia que lhe permite escapar à proteção das minhas asas, se é que alguma vez lá esteve, tornando-se no que quiserem fazer dele. O que representa para mim deixou de interessar.

Há apenas um aspeto que sinto necessidade de repetir até à náusea, uma vez que não me parece clarificado - os diversos setores do nosso panorama literário resistem muito ao género* dentro do qual a minha escrita se inscreve, pelo que, se puderem guetizá-la, não hesitam. Partindo, embora, de memórias da minha infância e adolescência, o Caderno é um texto literário, com todas as implicações que isso tem. É um texto literário do qual se podem apropriar a história, a antropologia, a sociologia, a psicologia, como tem vindo a acontecer, mas será sempre, antes de mais, literatura.

Agora, só para a Ana Cássia Rebelo, que não conheço, uma ameaça séria: eu também sei o que representava ser goês em Lourenço Marques, portanto, vejo duas hipóteses: ou eu reconstruo toda essa história, e os dados fornecidos bastam-me [meto-lhe umas conas pelo meio, prometo], ou escreve-a a Ana, que a mantém em tão excelente vinha de silêncio. Eu, cá por coisas, escolheria sempre a segunda.

* Uso o conceito "género" para me fazer entender com economia de meios. Não pretenderia inscrever-me num género nem num subgénero, pelo menos no respeito pelos conceitos da teoria da literatura clássica.

D. Sónia

Encosto-me ao balcão do bar da fábrica. Não está mais ninguém. Posso falar.
- D. Sónia, tire-me aí uma cafezada capaz de ressuscitar mortos, se faz favor.
Olha-me sem palavra, pensando, estás linda!
- Melhor, D. Sónia, dê-me um daqueles cafés da marca Força para Aguentar Isto ou Ergue-te e Caminha, qualquer coisa que me mantenha os olhos abertos até às sete, como se eu fosse uma pessoa mesmo, mesmo, mesmo normal.
Vira-se para a máquina e sorri. Estás fresca! Responde-me, deixe-me ver o que se arranja, e mostra-me um saco de grãos de café, dizendo, tenho aqui da marca Esperança, muito conhecida em Portugal - e com a sua profissão é capaz de lhe dar jeito. É o melhor que tenho agora.
- Vamos a isso, D. Sónia, tire-me um café Esperança reforçado, capaz de ressuscitar mortos.

domingo, 6 de março de 2011

O mundo é novo todos os dias

Ando há meses sonhando com um novo desenho para o Novo Mundo.
Tenho uma ideia do que este blogue representa para mim, bem como das imagens e símbolos que pretendo que acompanhem o que escrevo. A mulher-cão, por exemplo.
Por outro lado, admito que não perecebo nada de design. Portanto, ficaria muito feliz se pudesse receber propostas de quem percebe do assunto, mediante contrapartida publicitária (identificação visível do desenhador e/ou designação de empresa), ou outras que usamos por esta banda, "pago-te uma cerveja, um café, um pastel de bacalhau..." ou arranjo-te um convite para a próxima Festa do Avante. Como prefiram.
Agradeço a ajuda aos leitores já tão habituados aos meus... caprichos.

Email para envio de propostas: omundoperfeito@gmail.com

A minha primeira gravidez não planeada

A terra ideal para a germinação de sementes não deve ser demasiado pesada, o que pode acontecer com a que compramos em sacos, no supermercado. A este tipo de terra devemos juntar turfa ou outra fibra que a substitua, por exemplo, sama de pinheiro, pinhas e restos de ramos já muito secos, decompondo-se.
Em poucos locais da Margem Sul é permitido trazer do pinhal este tipo de material orgânico, cuja retirada do solo o empobrece. Eu e as meninas fazêmo-lo clandestinamente, e com parcimónia, em locais onde julgamos causar o menor impacto ambiental.
O objetivo é recolher material lenhoso, o qual, misturado com a terra negra, a torne menos densa e a enriqueça pela natural decomposição causada pela humidade da rega.
O mês passado aproveitámos um domingo de chuva e fomos recolher materiais orgânicos destinados à nossa permacultura de varanda.
Levámos sacos e apanhámos sama, pinhas velhas, pequenos ramos em fase de apodrecimento, bem como casca de árvore e alguma areia escura, da que já se misturou com terra. Aproveitámos tudo o que as árvores tinham rejeitado e fizemo-lo da forma mais sustentável possível, porque nós, em nos metendo no que quer que seja, somos sérias.
Chegadas a casa, desfizemos as pinhas, os ramos, partimos a caruma, e misturámo-los com a terra negra, criando um composto orgânico leve e riquíssimo. Um autêntico manjar germinativo que guardámos num velho saco de papel com as dimensões de um saco de batatas de 15-20 quilos.
Hoje, a vida surpreendeu-nos. Algumas das pinhas que desfizemos e misturámos no nosso manjar germinativo continham pinhões. Não sabemos como aconteceu, mas terá entrado luz e humidade em quantidade suficiente para que três pinhões germinassem dentro do saco. Verdinhos muito claros, muito frágeis, ainda protegidos pela casca, mas já agarrados à terra com muita convicção. Temos, assim, três embriões de pinheiro manso a crescer no interior de um útero, na nossa varanda. Não planeámos isto, mas já decidimos que não interromperemos esta gravidez - onde comem três, hão-de comer seis.

sábado, 5 de março de 2011

Pobre palhaço rico

Quando entro no elevador da minha clínica, e toco para o 9º andar, penso, em chegando ao 7º, no máximo ao 8º, começas já a sorrir, ouviste?!
Dando a volta habitual com as cadelas, aproximando-me da loja do chinês, lembro-me, tira o sorriso da mala. Vá, agora, que vem ali gente.
Chego à fábrica à hora de chegar à fábrica, fecho a porta do automóvel, ouço barulho vindo de todos os lugares, e ocorre-me, vá lá, então e o sorrisinho do costume?!

Quando eu era pequena o meu pai levava-me ao circo Mariano, montado no Zambi, num descampado para o efeito.
Eu gostava muito da trapezista, mas detestava o palhaço rico, que usava roupa brilhante; assentava-lhe bem como a um rei com bons alfaiates, fazia tudo certo, era inteligente e falava com propriedade, mas parecia-me tão fundamente triste.

O que se perde

Há anos roubaram-me uma carteira de verdadeira pele clarinha, no percurso do 45, entre o Campo Pequeno e o Cais do Sodré, com tudo o que levava dentro, dinheiro pouco, selos de correio, dois ou três bilhetes pré-comprados, cartões, entre outros. Sou muito distraída. Ia na conversa...
No gabinete de Perdidos e Achados da PSP, na altura ao Intendente, o senhor guarda informou-me que o objeto descrito ainda não tinha aparecido, mas que caso viesse a dar à costa, melhor seria esquecer o conteúdo. O que eu queria era a carteirinha! Ah, então pode ser! A menina vá passando.
Fui deixando andar, porque os Perdidos e Achados ficavam muito fora do meu percurso. De vez em quando lembro-me do episódio. Era uma bela carteira, que me servia bem, e não voltei a ter outra igual.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Leituras leves

Acabei de dar a minha primeira gargalhada da semana, e acordei as cadelas, que me olharam com a habitual expressão "não te cures, que não vale a pena".
Tinha acabado de esfregar a cabeça, pensando no embrulho que fiz de mim nos últimos 20 anos, repetindo, tu não tens emenda, o que é que precisa de acontecer - enfim, um raro momento de sanidade mental - e prometer-me que agora ia ser diferente, que, juro, vai ser diferente, e decidi ler um bocado para espairecer.
Não sei se tenho muitos livros. Há quem diga que sim, mas a mim parecem-me poucos. Também nunca gostei de contabilidade. Tenho-os espalhados em casa da minha mãe, pelo meu quarto de solteira, expressão que continuo a gostar de usar, e pela sua sala de estar; na minha, vivem pelo escritório, sala e quarto.
No quarto estão os absolutamente urgentes, que deveria ler, no máximo, até ao final da próxima semana. Encontram-se numa estante e numa cesta de palha. De novo sem contar, mais de cem obras.
Depois, vem a secção dos que terão de estar lidos até amanhã ao final da tarde, todos espalhados pela mesa de cabeceira e chão, cobrindo o tapete, à mão sempre que estou deitada. Esses, contei, são 18. Tenho 18 livros para ler até amanhã ao final da tarde. Foi entre estes que decidi escolher qualquer coisa, de preferência entre os já iniciados, ou quase no fim. Uma leitura leve, sem evocações existenciais, sem dor, sem nada que me lembre os meus últimos 20 anos. O que eu quero é adormecer com o livro na mão e ficar na paz dos deuses.
Procurei, procurei, selecionei, hesitei, e foi quando mandei a gargalhada. Não encontro nada leve para ler. Nada. Nem prosa nem poesia. O livro mais leve que tenho à mão chama-se O dever da Memória e é a transcrição de uma entrevista feita a Primo Levi sobre a vida nos campos de concentração, a prática de religião que aí se fazia, etc., etc.
O livrinho mais leve que aqui tenho é sobre um homem que sobreviveu a Auschwitz e acabou por se suicidar. Vamos lá então atacar esta leitura levezinha.

Poética

Escreve, não como se tivesse que ser, não tem, nem como se fosse essencial, porque não é, mas escreve por gosto, inocentemente, como por brincadeira. Dá-lhe o espaço e o tempo para que se torne séria. E lê, isso sim, de forma criminosa. Persegue, agride, assalta e possui - nisso sê violento. Levanta esse gosto bem alto, acende-te silenciosamente, não por alguma coisa ou alguém, mas só por isto, estas palavras estremecendo sobre o peso umas das outras, entornando-se para lá dos contornos desta solidão. Continua.
Como uma sombra que projectaste e que ganhou vontade, a criatura ir-se-á recortando contra a luz e movendo-se entre o tempo perdido, num grito sem voz, repetindo-se para a eternidade como uma espécie que se equilibrou entre a loucura e a beleza.


Revista Criatura nº 4, direcção de Ana Maria Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto, organização pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, Abril de 2009.

Texto transcrito da p. 5, sem indicação relativa à autoria

quinta-feira, 3 de março de 2011

Funcionária cansada

Eu preferia ser uma funcionária vulgar, que chega às nove e larga às cinco, que se senta à secretária datilogrando documentos, calada.
Se da minha janela avistasse aquele pássaro chilreando na árvore do pátio, não lamentaria estar entre paredes, porque breve sairia à rua sem papéis nas mãos, e poderia sentar-me no passeio, o resto da tarde, vendo as pessoas caminhar com a sua pressa, a sua dor.
Quem sabe se não enganaria o meu chefe, passando um texto clandestino, desde que mantivesse a mancha gráfica de uma carta confirmando a encomenda de 500 pares de sapatos!?
Se os colegas me traíssem, porque convém não ser demasiado inocente, mesmo nos sonhos, traíam-me só das nove às cinco, e quando o chefe me chamasse, baixaria a cabeça, pediria perdão, prometendo não voltar a acontecer, muito humildemente. Regressaria a casa para escrever e dormir, e não teria de interromper um relatório, uma ata, um plano, tudo estéril, relambório, para rabiscar uma frase emergente sobre o sabor amargo do meu café com leite.
Queria ser uma funcionária simples que chega ao emprego com a cara limpa de ter dormido, e que dormiu sem apelo. Que não precisa de fazer de conta que tudo está normal, porque tudo está normal. Era só isso que eu queria, e é tão pouco.

O funcionário cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
e as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa,
in "Viagem através duma nebulosa", 1960

A memória é ficcional

Deixo-me fascinar pela traição da memória, pela a sua imprecisão espacial ou temporal.
É possível que aquele passeio na Ponta Vermelha, num domingo com o pôr-de-sol mais salmão que pudemos testemunhar, tenha ocorrido num sábado, e que afinal fosse a manhã a despontar. Se calhar não foi na Ponta Vermelha, mas o chão do lugar era dessa cor.
A memória é um jogo de Lego cujos elementos se arranjam e rearranjam segundo uma lógica que, por muito que nos ultrapasse, tem a sua lógica. A importância de uma memória consiste no acontecimento que se guardou, um trapo rasgado de informação sobre um momento excecional, que por esse motivo não se apagou. Há uma história de datas que precisará dessa informação, mas a minha história segue outras regras. Todos os anos tenho de rever as que marcam o nascimento e a morte dos autores que ensino. Não consigo fixá-las, lamento. 1589? 1789? 1888? 1945? Consigo reconstituir de memória uma assinatura literária, versos, excertos de texto, mas não me exijam o débito do calendário. Para mim, o espaço e o tempo são resto, são ficção

quarta-feira, 2 de março de 2011

Peso morto

Não se mexia do lado esquerdo. Tinha sofrido um acidente vascular cerebral e uma parte da massa cinzenta liquefizera-se. Tinha um buraco no cérebro e vivia na cama, exceto aos fins-de-semana, quando eu regressava da província e o metia no carro para o levar a almoçar, a passear, a viver.

Forçava-me a vir. Tinha ido para fugir à sua degradação, e mais nada, mas forçava-me a viajar todas as sextas à noite, porque a minha consciência perguntava-me, que filha és tu? E voltava ao abraço a essa metade de corpo que não me pertencia.

Sentava-me ao seu lado, contava-lhe a semana, aquele departamento não sei quê, a DREA tinha enviado um ofício sobre, certos colegas defendiam que, alquém me criticara por haver emitido uma uma circular na qual, conseguira sobreviver a nove reuniões sobre merda executiva e administrativa, já não suportava enfrentar a página de rosto de um Diário da Republica.
Ele sorria e dizia-me sempre o mesmo, caga nisso. Para mim era o cântico dos cânticos. Caga nisso queria dizer “não interessa. Isso não é a vida. Estás agora aqui, estamos juntos. Gosto tanto de te ver. Onde vamos passear amanhã? Estás tão bonita. Gosto tanto de ti.”
Caga nisso era toda a poesia do mundo.

Sentávamo-nos na borda da sua cama, do seu lado, sobre os lençóis brancos. Ele estava de camisola interior de manga cava e calções largos de algodão, que a minha mãe lhe costurava, muito descalço, com os pés perfeitinhos sobre o tapete e a metade esquerda do seu corpo pendurada, imóvel, morta. Era um gordo. Tinha sido um gordo toda a vida. Tinha enfardado até queimar o cérebro.

Puxa as calças para cima. Estás gordo que nem um leitão. Dás cabo de ti, Não deixes de comer que qualquer dia ficas preso a uma cama! Eu e ele tínhamos ouvido a conversa da minha mãe a vida inteira. Sabíamos que era verdade. E agora, ali estávamos. Ele, preso a uma cama, e eu, a ele e à sua prisão.
O vaticínio cumprira-se, como se ela tivesse poderes. Olhava-o. Ele olhava-me, sorríamos com os olhos mergulhados no outro, sem palavras. És a minha imagem. Não sou. Sou a tua imagem mas não quero. És a minha imagem. Estou a ver-me ao espelho. Não sou o teu espelho, fugi de ti, só aqui estou porque a minha consciência… Te obriga! Me obriga. Não interessa. Estás cá e eu gosto tanto de te ver. E eu a ti. Ondes vamos almoçar amanhã? Onde quiseres. Queres comer enguias? Enguias, que horror! Não gosto nada disso. Comes outra coisa. Está bem, enguias, seja.

Ao sábado de manhã tirávamo-lo de casa a poder de músculo. No rés-do-chão viva um vizinho mulato e solícito que fazia musculação e traficava droga. O meu pai dizia, vê lá se o preto está acordado, que ele ajuda. Batíamos-lhe à porta, desculpe, senhor Pereira, dê-me aqui uma ajuda com a cadeira de rodas, se faz favor. Desculpe estes trabalhos. Não tem importância nenhuma, é só pedir. Não sei se era da droga, mas o homem era a minha salvação.
Eram quatro degraus, e o mulato pegava na cadeira como se fosse o cesto das compras, e punha-a à porta num ápice, com o meu pai sentado nela. Eu agradecia. A minha mãe agradecia.
O preto é simpático, dizia ele. Era. Arranjou aquela branca - é uma rapariga bonita. É pena. Mas pode ser que ele a trate bem. Pode ser, anuía eu.

Abria a porta do Opel, encostava a cadeira ao assento, e com os dois braços enlaçava-o pelo peito, levantando-o em peso, cerrando as minhas mãos uma na outra nas suas costas, como duas serpentes que se engolissem num mesmo tempo; com uma perna empurrava-lhe a cadeira para trás, que a minha mãe, nos dias em que o esquema funcionava, haveria de segurar; rodava-lhe corpo na direcção do assento, deixando-o deslizar devagar . Metia-lhe as pernas para dentro. Endireitava-lhe os joelhos, os pés e as costas no assento. Perguntava-lhe, estás bem? Ria-se, feliz. Estava.

Dobrava a cadeira de rodas, levantava-a, pesava bem, e encaixava-a no porta-bagagens. Tinha-lhe ganho o jeito. Fazia tudo com perícia. A força repentina lesionava-me tendões nos pulsos; trazia as pernas e os braços carregados de hematomas, mas não dava por nada. No momento em que me concentrava para mover mais de cem quilos de carne humana, concentrava-me nisso. Os movimentos deviam ser precisos, coordenados; era necessário usar toda a minha força e distribuí-la pelo peso do seu corpo morto, adaptar a mobilidade do meu corpo à do seu. As nossas figuras tinham de mover-se em uníssono, como dois pares em dança, quando se dava a trasfega. E só eu sabia fazê-lo.
Pensava, outra filha não teria força para isto. Deus não se engana, há uma ordem que nos governa. Preciso do meu peso para suportar o seu. Eu e ele éramos um bloco monolípido. Um icebergue de carne. E ele dizia-me, enquanto o sol lhe batia nos olhos, és uma gorda bonita. És bem feita. És gorda e forte. És gorda e sorris-me como a tua bisavó. És gorda, porque és a minha filha. És gorda, pronto, e depois, não és feliz?

terça-feira, 1 de março de 2011

Liberdade criativa, o caraças

O passatempo preferido do Simões é censurar-me a escrita.
- A menina desculpará, é só um reparo, mas não acha que a frase, e lê-ma, se pode prestar a equívocos?
Eu até fervo.
- Equívocos sobre quê, senhor Simões?
- Isabela, pense nos dissabores que tem tido...
- Desculpe, sr. Simões, é literatura... O senhor que lida com livros todos os dias, que sabe o que é escrever, tem a lata de me vir com uma moral à... com o que é próprio... com o que me convirá, com o que me será mais útil...
E depois lá vou, ferida no meu orgulho, eliminar a frase. Não é preciso fazê-lo, mas faço-o, porque o Simões me diz, a menina não devia magoar as pessoas. Mesmo sem querer, escute isto, mesmo sem querer.
- Não há ali nada para magoar. Aquilo não é o que pensa. No ano do incêndio do Chiado nem sequer...
- Seja como for, Isabela, a menina... Já lhe disse.
O Simões tem sobre mim um ascendente que não posso explicar. E lá vou eu emendar as referências equívocas, porque o Simões manda, porque o Simões é que sabe, porque eu aqui sou apenas a que lhe paga a percentagem, a que o atende ao telefone, a que lhe pergunta, o que é que acha deste ponto de exclamação? Estão tal mal vistos, não estão?!

Paguei

As coisas com o meu amor andavam mal. Nesse Verão fui de férias sozinha. Talvez não seja despiciendo esclarecer que nunca conhecemos juntos umas férias de verão, a relva verdinha, as árvores, os passarinhos, as amoras negras das silvas, os mosquitos. Passou-nos tudo ao lado - ele só tinha dinheiro para o passe, que acabava na Cruz de Pau ou em Corroios, era uma coisa assim. Namorávamos na rua que desce até à Amora, junto ao depósito da água, passando por umas amoreiras velhas junto a uma casa branca que não sei se ainda lá está. Quando chovia beijávamo-nos debaixo das varandas e chegávamos a casa ensopados de riso e contentamento.

Eu tinha-o visto namoriscar e não gostei. Meu filho-da-puta, hás-de ver quem se sai daqui a rir, e fui de férias sozinha, pensando, hás-de ver, hás-de ver, cheia de raiva, mas acreditando, sem dizer, só lá no centro de lava do meu cérebro, hás-de voltar, porque não vives sem mim, sabes perfeitamente que não vives sem o meu alento, arroubo, sem o calor da minha barriga. E fui de férias sozinha para lugares onde encontraria relva fresquinha, amoras, mosquitos.

Como habitual, o meu vasto conhecimento de línguas românicas, germânicas e aparentadas levou-me a conhecer um indivíduo que na mesa ao lado pedia um chá sem conseguir fazer-se entender. Chamava-se Donald e transportava uma história de amor trágico. Comovi-me. Vivia nas imediações de Londres e viajara para o norte de Portugal decidido a procurar uma namorada que lhe fugira sem explicações. Sabia, de fonte incerta, que estaria pelo Minho. Nós estávamos no Minho e eu disse-lhe, descrente, look, Minho is a huge place. Ele já tomara consciência, mas andava de parque de campismo em parque de campismo, procurando a sua metade fêmea. Nessa noite tínhamos jantado bem, bebido álcool depois do chá, estava fresco, e Donald sugeriu que dormíssemos na mesma tenda para nos mantermos quentes. Respondi que não. Nem pensar. Tinha aprendido a dizer não, era uma estratégia de defesa do território. Não, ponto final. Mas sorri com os meus botões. Achei graça. O homem era uma estampa, tinha frio, estava frio, e dois sacos-cama aqueciam melhor, era bem verdade, e quem podia garantir-me que a proposta fosse desonesta. O homem era tão espiritual. Tinha rapado o cabelo à gilete como prática simbólica. Desejava renascer. Não tinha espelho e estava todo escortanhado. Metia dó. Um cristo. E eu, que passava a vida debatendo-me entre o que achava correto – confiar no outro – e o que a minha mãe defendia enquanto política de aproximação ao estrangeiro – desconfiar sempre – considerei que estava na hora de conceder uma hipótese à confiança. Não ia acontecer coisa alguma. Sentia-o. Era uma intuição e as mulheres não se enganam nisto. Era mesmo um fulano espiritual, uma mente aberta, à frente, de outra cultura, um romântico à procura da namorada que o abandonara. De maneira que fomos buscar o meu saco-cama e enfiámo-nos na tenda dele, mais espaçosa, tapámo-nos muito quentinhos e fodemos toda a noite como coelhos de cobrição.

Lembrei-me dele porque era neo-zelandês, de Christchurch. Estava em Londres por mor de trabalho. Ainda tenho um livro que me ofereceu. Literatura de auto-ajuda, sobre como limpar teias de aranha e lágrimas. Nos quinze dias que se seguiram, andámos os dois à procura da namorada dele, e se continuámos a foder duas vezes por dia foi apenas por uma questão espiritual e higiénica, porque os homens e as mulheres se completam e Deus quer, mas sobretudo, sobretudo, sobretudo porque era fucking great.

Sentia-me aconchegada, porque uma mulher, conseguindo ver a luz ao fundo do túnel em vida, transtorna-se; aliás, a boa foda, genericamente, transtorna, e nesse verão queria que o meu grande amor fosse pintar paredes a tinta de água para onde lhe apetecesse, que namorasse, que me enciumasse, que metesse o rabo entre as pernas, que comprasse um passe para Setúbal, para o Inferno que o carregasse, que se evaporasse.

O que eu gostava de andar metida na tenda com o neo-zelandês e de o levar a foder nos mesmos lugares onde tinha fodido com o outro, e de no fundo continuar pensando, toma e embrulha, não sabes, mas toma. Hás-de ver, hás-de lixar-te tanto, e nessa raiva tão grande, nesse ciúme, sentia por ele uma enorme pena e desprezo, e por isso sentia-me obrigada a lembrar a sua figura franzina, o sorriso endiabrado e doce que nunca mais me voltaria a incomodar.

No dia do grande incêndio do Chiado, eu o meu neo-zelandês estávamos a experimentar a tenda em Aveiro. Tínhamos acabado de dar uma ao ar livre, nas dunas de São Jacinto, exatamente como havia feito com o meu amor, se calhar no mesmo lugar. Estava a ver na televisão que havia muito fumo na atmosfera, chegara à outra banda, aos pulmões do meu amor. Bem feita. Havia de pagá-las, de uma maneira ou de outra.

Não foi um mau Agosto, mas chegou ao fim, o Donald não encontrou a namorada, regressou a Londres e eu a casa. Pouco tempo depois voltaria a encarar o meu amor, namorando à larga e nas minhas barbas, porque eu tinha de pagá-las, estava a pagá-las bem e era só o começo. Eu havia de ver. Havia de lixar-me tanto, de vir comer-lhe os grãos de milho à mãozinha. Eu que me evaporasse, que fosse limpar móveis com óleo de cedro para casa da tia mais velha, porque havia de voltar para ele, claro que sim, porque sabia lá viver sem ele, sem o seu cheiro a máquinas, a subúrbio, ah, puta refinada, se não as pagas e eu não vejo, não seja eu filho do lugar onde nasci. Toma e embrulha.

Uma coisa é certa: Donald era de Christchurch, e a semana passada deu-se por lá um sismo.