sexta-feira, 29 de abril de 2011

O beijo de Diana



Diana de Gales casou a um sábado, se bem me lembro. Eu morava com a tia Ju, em Cacilhas, e nesse dia ninguém nos despegou da televisão a preto-e-branco.
A tia Ju era costureira e estava interessada nos modelos dos vestidos. Eu, no conto de fadas.

A doce Diana, educadora de infância, casando com o príncipe após ter provado a sua virgindade e adequação ao protocolo! E que linda!
Eu não pretendia casar com um príncipe. Chegava-me um modesto professor ou mesmo um bancário que gostasse mesmo de mim, mesmo, mesmo. Uma coisa a sério. Que vivêssemos um para outro. Que tivéssemos filhos, no máximo dois, e um apartamento no qual nos pudéssemos amar e ser felizes, tudo o mais normal possível, como qualquer dos meus vizinhos. Como todas as outras raparigas de 18 anos era só isto que eu queria.

Preocupava-me apenas o vestido do meu casamento. Não poderia ser farfalhudo como o da Diana - engordar-me-ia muito. E o branco também não deveria favorecer-me. Segundo a tia Ju, para mim, tudo em evasé, para disfarçar barriga, anca, e decote em v, para favorecer o peito cheio. E em pérola. A questão do vestido ocupou o meu pensamento durante algum tempo.

Hoje, aconteceu-me entrar numa instituição pública no momento em que, na televisão ligada, os noivos reais britânicos se beijavam à varanda do palácio, de acordo com os procedimentos habituais, e lembrei Diana. Era o seu filho, mas não o mesmo beijo. Não estava ali o enlevo de Diana com Carlos nem o beijo imaginário que, nessa data recuada, me imaginei a dar, em sonhos, ao meu amor inexistente. Hoje eram outros noivos.
Os tempos mudaram muito, e ainda bem, mas desejei rever o beijo de Diana, tão doce e crédula como eu fui, porque eu fui, em tempos, esse beijo, perdido, traído, embora.

Na mesma varanda, o princípe que o recebera mostrava-se ao lado da segunda mulher, provavelmente a única que amou. Senti-me chorar a morte de todos os beijos que começaram e terminaram como o de Diana. A morte da ilusão do amor para sempre, a morte dos 18 anos, a inevitável morte dos sentimentos, das pessoas, dos beijos. Na vertigem de tristeza que me assolou, chorei também a morte do que fui.



quarta-feira, 27 de abril de 2011

Queres ver este livro?

Come, rapariga.
Já não consigo, mãe.
Tens de comer, ou qualquer dia ficas anémica.
Eu como.
Olha que podes ser muito parecida com o teu pai, mas de sangue saíste-me a mim. Sempre tive o sangue fraco. Nasceste muito magrinha. Foste a recém-nascida mais comprida e magrinha da maternidade. Não tivessem sido as papas de farinha torrada, com uma colher manteiga, que te enfiei pela boca, nunca terias medrado. Isso e o leite Pelargon, o melhor do mercado, que te oferecia o primo Jorge, às caixas, que essas obrigações lhe devo. Não engordavas, mas pesavas como chumbo.

Qual primo? Aquele que aos 8 anos queria que levantasse o vestido e lhe mostrasse o grosso da perna até às cuequinhas com renda? Levanta mais, levanta mais.
O que me sentava ao seu colinho, à secretária, com o pénis ereto contra as minhas nádegas, deixando-vos maravilhados com o desvelo com que se ocupava da minha educação?

Não respondeu à pergunta. Não lha fiz. Uma filha deve proteger a sua mãe dos perigos do mundo.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Um episódio muito antigo da série Fama



Na rua chamavam-lhe o Lunático. Não tinha cabeça para os estudos, era órfão de pai, estrábico, muito alto e magrinho, e operário da Lisnave. Frequentava a casa da tia Ju, em Cacilhas, porque na sua ainda não havia televisão, e ele gostava de ver a Fama aos domingos à tarde.

Sentava-se ao meu lado direito, no sofá vermelho, sem pedir licença, enquanto a tia andava lá dentro a mexer na cozinha, na máquina de lavar, na de costura.

Não era simpático. Não dizia nada que me interessasse. Era bruto que nem duas portas. Não tinha educação nem valores. Um calhau ambulante que conseguia pintar barcos a spray, pendurado num andaime.

Começou a pousar a mão nas minhas pernas e eu deixei. Porquê? Sabia-me bem uma mão sobre as pernas. Pousava-a na minha coxa, e com os ouvidos atentos à televisão e à cozinha, e os sentidos concentrados nessa mão sem nome, sem dono, permitia que me acariciasse, me fosse levantando a baínha da saia para me tocar os joelhos, a dobra dos joelhos, devagar, com os ouvidos bem atentos aos passos da tia, ele sempre subindo enquanto o Leroy se zangava com a professora de Inglês e saía batendo a porta.

O Lunático não significava nada. Não estava à minha altura. Nem existia. Que tonto.

Eu não tinha qualquer valor para os outros homens. Servia para alguma coisa ter um palmo de cara? Nada. Não correspondia ao que se esperava de uma beleza da série Fama. Não existia. Que gorda.

Ali estavam dois enjeitados sem uso, sem futuro, como dois automóveis bastante amolgados, o tonto e a gorda, passando os olhos por uma série de televisão com jovens lindos e talentosos, vidas interessantes, enquanto a mão do bruto lhe chegava à vulva, a tocava, a circundava com um, dois dedos, como sabê-lo?, e ela ia abrindo as pernas aos tratos mágicos que folheavam, apertavam os pequenos lábios, penetrando-a aos bocados - e cada vez mais fácil, vencida sem guerra, vinha-se em silêncio, sem respiração, enquanto a mão sem dono e sem nome se desembainhava devagar, sem uma palavra, um olhar, enxugando-se nas calças de ganga enodoadas, sempre as mesmas, que tresandavam a fêmea desde a semana anterior.

E lá de dentro a tia perguntava, meninos, querem lanchar?

Para si, Sr. Simões

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A minha ex II




Não me ouvia verdadeiramente. Não dialogava. Colocava questões muito breves. Como se sentiu nesse momento?
Ao falar, fingia por vezes preocupação com os meus sentimentos, uma voz mais doce, mais baixa, mas não passava do exercício da sua profissão. Não é que não gostasse de mim, mas eu era apenas uma entre muitos. Pagando o que pagava, merecia bem esses 45 minutos de atenção.
Projetei nela toda a minha insatisfação e descrença.

Quando interrompi unilateralmente as sessões precisava de parar de pensar em mim, em mim. Estava na altura de experimentar viver um bocado. Quando cheguei a essa fase já ela me tinha ajudado muito. Viver?! Desejar meter-me na vida, parar de trabalhar para esquecer que existia?!

Embora na altura acreditasse que não passava de mais uma forma de atirar dinheiro à rua, foi importante o trabalho das sessões. E foi importante parar. Precisei de confirmar que valia a pena arriscar, ter medo, sobreviver-lhe, duvidar, desejar, hesitar, confirmar, negar, perder, ganhar, eventualmente, se apanhasse alguém desatento. Valeu a pena.

Não sou a mesma. Tinha uma fenda de alto a baixo, como uma árvore que cresceu depressa demais, e mantenho-a - como uma árvore que cresceu depressa demais. Está aqui, mas posso despir-me, mostrá-la. Querem vê-la? Toda do lado direito. Funda. Podem tocar-lhe. Está sarada. Enfim, será sempre uma pele incerta, mais frágil, mas tem a sua beleza, não tem? Acho-a muito bonita, e, sobretudo, não sinto necessidade de a esconder, como antes. Já consigo vê-la ao espelho. Consigo rir-me. Às vezes digo-lhe, olha que hoje pareces uma bocado mais aberta, não vais engolir-me, pois não?

O trabalho da psicanálise demora muito tempo.

sábado, 23 de abril de 2011

O mundo, em silêncio

O meu quarto na Matola tinha as paredes pintadas de rosa-velho, e sobre a cabeceira da cama a minha mãe pendurara a gravura de um anjo da guarda louro, vestido de rosa-claro, que protegia uma menina igualmente loura, caminhando atrás de si com os braços ligeiramente abertos. A minha mãe assegurara-me que eu também tinha um anjo da guarda velando por mim, de dia e de noite, e ensinou-me a rezar-lhe.
Não posso dizer que a ideia de um anjo da guarda me tenha sossegado. Contemplei muito esse quadro, preocupada, porque as minhas ações nem sempre eram decentes para uma menina católica, e, logicamente, não pretendia ter um espião sempre a vigiar os meus passos, embora, na versão da minha mãe, não houvesse outra solução. Teria mesmo de andar sempre com o emplastro atrás de mim.

Embora solitária, cresci com a certeza de nunca estar sozinha: havia algo sem rosto, corpo ou lugar que me protegia e acompanhava. A minha solidão vivia-se bem. Tinha-a aprendido. Falava sozinha com as árvores, as ervas, as abelhas, a água da mina, o céu, os animais. Perguntava e respondia, ensaiando diálogos imaginários. Seria eu o meu anjo?

No início da vida adulta deixei de acreditar em Deus, logo, em anjos, e neguei a fé católica, dando um grande desgosto à minha mãe. Mas o tempo leva-nos de volta às origens, porque é a terra onde começámos, e precisamos de voltar, a todo o momento, para confirmações, comparações, enfim, é a matriz.

Sobretudo, após a morte do meu pai, dei comigo a conversar com ele. Era o vazio à minha frente e, contudo, íamos dialogando animadamente - foi quando voltei a lembrar-me do anjo da guarda. Seria o meu pai o meu anjo da guarda? A ideia continuava a não me agradar, porque as minhas ações mantinham-se indecentes para uma menina católica, e, ainda por cima, com o pai a ver! Nada agradável!

Desde que vivo neste bairro ganhei o hábito de me sentar nos cafés a ler os jornais. Sou a única mulher sentada a ler jornais, embora haja muitas mulheres nos cafés. Sou a única mulher que não tem um homem ou filhos, não sendo viúva ou divorciada. A única mulher que raramente está acompanhada, a não ser pelas cadelas. Pelo menos, sou a única que se atreve a revelar ao bairro uma solidão não legitimada por uma prévia situação de normalidade social, mesmo que temporária. Antigamente conheciam-me como a senhora gorda das cadelas, título que agora mudou para a senhora das cadelas que emagreceu bastante. Senhora, sou eu a inventar. É provável que seja só a gaja, a mulher, ou, simplesmente, a gorda, o que não me incomoda.

Estar sentada no café, lendo, escutando e observando os outros é uma forma de interagir com o mundo em silêncio. Ninguém dá por nós. Somos um entre muitos, contudo estamos ali, individualmente, e partilhamos a existência uns dos outros.
Gosto de olhar e escutar. Observo muito, e fito os outros sem complexo ou intenção. Olho, apenas. E o que me acontece, ao olhar, é que vejo.
Há anjos, sim. Há anjos da guarda e anjos da discórdia. Vão e vêm. Cruzam-se, misturam-se; acontece sentarem-se às mesmas mesas e não se reconhecerem. A maior parte dos anjos desconhece a sua natureza.

Refiro-me aos anjos da guarda: na minha rua há um velho perneta que é um anjo. Costuma dar pão aos pombos. Há uma senhora igual a todas as outras senhoras que é um anjo que apenas atravessa a rua, passando. Há um jovem com um problema mental que pára sempre para falar com as cadelas. Os anjos estão disseminados por todos os sexos, classes, culturas e eu conheço-os porque confio no seu olhar ou sorriso. Sigo-os, para confirmar a primeira impressão. E reencontro o olhar sem peso ou o sorriso esboçado apenas como um " sim, estou aqui" que inicialmente despertou os meus sentidos.
Não é impossível que o meu anjo da guarda esteja dentro de mim, mas a minha mãe tinha razão: eles existem, e amparam-nos de leve com a sua presença quase transparente.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A minha ex




Quando terminei as sessões de psicanálise fi-lo abruptamente. Decidi não ir mais e penso ter quebrado um protocolo qualquer, mas nunca fui muito dada ao protocolo.

Estava zangada com a minha terapeuta, porque todos os dias me perguntava por que estava zangada, e não queria falar disso, nem tinha consciência dessa zanga. Cheguei a dizer-lhe meia dúzia de vezes que não tinha coisa alguma a dizer sobre o assunto. Que o que considerava injusto, e me irritava profundamente, era que ela pudesse alterar horários e datas de sessões, aos quais eu me adaptaria, mas que, por outro lado, demonstrasse uma razoável inflexibilidade quanto a mudar o horário das sessões a que eu não pudesse comparecer por imperativos profissionais: reuniões de avaliação, por exemplo, ou horários em início de ano letivo que colidiam com os das sessões, sendo que eu as pagava mesmo que tivesse tentado mudá-las antecipadamente. Não era uma relação de iguais.

Deve ser uma relação de iguais? Segundo o protocolo, não faço a menor ideia, mas, para mim, sim.

Afinal ela tinha razão, e eu estava mesmo zangada, mas na altura não lho sabia dizer. Hoje, porque penso tanto em voltar a fazer psicanálise, julgo que a minha zanga era essa: nunca foi uma relação de iguais: eu tratava-a por doutora, ela por Isabela. Ela sabia tudo sobre mim, eu, apenas o seu nome. Não faço ideia se era casada, solteira, se tinha ou não filhos, qual a sua idade. Era o vazio. E isso incomodou-me, embora tivesse lutado contra. Havia uma enorme distância entre nós. Eu tinha contra ela algum preconceito de classe, uma vez que a imaginava uma senhora burguesa, enquanto eu não passava da filha do eletricista.

Procurava vestir-me bem e usar o vocabulário mais correto cada vez que tínhamos sessão. Passei quase cinco anos a tentar mostrar-lhe que era bem melhor do que ela podia pensar, que tinha classe, que não era preciso ter um apelido da alta para se ser inteligente e de bom género.

Se tivemos uma relação, foi esta, e, mais uma vez, tudo criado por mim, pelas minhas fraquezas.

Conhecimento

Sei distinguir os passos da Micas dos da Morena, quando as ouço a caminho da sala. Mas é fácil: a Micas coxeia.

Consigo saber, de manhã, a qual delas pertence a respiração que escuto aos pés da cama e a que me chega do tapete do lado direito. Esta é mais difícil.

Distingo sem dificuldade qual delas está a beber água. A Micas bebe compassadamente, como se tocasse um instrumento musical; a Morena, sofregamente.

Identifico os seus cheiros, como elas identificam o meu.

Quando eram pequenas, e dormiam ambas comigo, e me lambiam a cara ao acordar, conhecia a roçadela das suas línguas na minha pele, ainda a dormir, enquanto rosnava, deixa a dona dormir, seguido do nome da respetiva.

Quando esticava a mão de noite e sentia uma pelagem, sabia a qual pertencia, mas esta também é fácil.

Sei o que a Micas me pede, quando emite barulhos. Quando tem sede, fome, dores ou precisa de ajuda para se levantar. A Morena vem lamber-me as pernas, esfregar-se nelas, dar saltinhos, olhar-me muito fixamente. E também interpreto.

Às vezes penso que há pais e filhos, maridos e mulheres que não se conhecem tão bem.

domingo, 17 de abril de 2011

Primeira lição

Peço que realizem comigo um breve exercício que não precisa de se prolongar por mais de 20 segundos. Por um momento interrompam a leitura e observem a vossa mão direita ou esquerda: as veias e pequenos vasos, tendões, rugas, textura e tom de pele, nós e formato dos dedos, desenho das unhas, eventuais sinais e cicatrizes. Podem ainda seguir as linhas e nervuras existentes na palma de cada mão. É uma mão quente, fria, seca, húmida? Gostam dela? É bonita, tem elegância, personalidade, manteve-se infantil? Observem, por favor, eu posso esperar um pouco.



*



Olhei também para a minha mão direita, porque as minhas palavras me comprometem. Sempre tive as mãos muito enrugadas, mas agora estão mais. Há uma certa flacidez na pele. De resto, é a uma mão razoável, de alguém que teve até agora uma vida facilitada quanto ao trabalho manual. Não tenho calos, a pele é macia e bem tratada. É a mão de uma pessoa que foi poupada à escravidão física.

O que quero dizer é muito simples, muito rápido, muito lógico: dentro de algum tempo, não sei quanto, pode ser na semana ou no ano que vem, dentro de 10 ou 30 anos, a minha mão perderá a cor, porque o sangue deixará de circular nas minhas veias. A minha mão tornar-se-á fria, depois azul, e a matéria que agora a faz entrará em decomposição até restarem ossos limpos, brancos, como os dos meu pai. Mais tarde ou mais cedo morrerei, e esta é a única certeza que tenho sobre o meu futuro.

Embora não possa saber quando nem como será, desejo-me, bem como a quem me lê, uma boa morte, sem sofrimento, sem palavras por dizer.

Este deveria ter sido o tema da nossa primeira lição na escola, antes das vogais, dos algarismos, das somas. Alguém deveria ter-nos dito, “contemplem as vossas mãos, porque vós haveis começado a morrer…”

Após termos compreendido esta mensagem primordial, poderia vir o resto.

Precisamos de compreender que, estando aqui, não somos daqui. Talvez a compreensão e aceitação da morte nos tornasse menos ansiosos e incompletos. Acredito que deixaríamos de nos preocupar com assuntos minúsculos, que nos escutaríamos com outra atenção, que viveríamos cada momento mais devagar.

Mas admito que aceitar a nossa morte não constitua o exercício mais difícil. Difícil é aceitar a perda dos que amamos. Perder o outro implica perder uma parte de nós. Quando o meu pai morreu, uma parte de mim ficou com ele, foi-se embora, e eu chorei essa dupla perda. Mas a verdade é que, pensando à distância, uma parte dele, uma enorme parte, ficou comigo; nunca partiu. Sinto o meu pai vivo a todos os instantes, não porque também tenha herdado a sua carne, mas porque ele me deixou com tudo o que vivemos juntos. Essa memória do nosso amor abraça-me fortemente todos os dias. Paira sobre a mim, em permanência, a substância transparente do amor que nos uniu. Mesmo a dos dias em que nos zangámos a sério, em que nos insultámos. Consigo hoje sorrir ao pensar nesses momentos, e dizer com os meus botões, que se confundem com os dele, meu querido, é a vida, e não há bela sem senão.

O meu pai deixou-me como herança o seu amor, e acredito que é a única riqueza que podemos deixar uns aos outros.

Não estivemos juntos mais de 30 anos, mas aproveitámo-los bem: rimo-nos juntos à varanda, observando o vizinho da frente engraxar os pneus do carro e limpar-lhe o pó com um espanador, vimos filmes do Trinitá, o cobói insolente, chorámos juntos com xaropadas sentimentalóides, passeámos no comboio que fazia a ligação entre a Costa da Caparica e a Fonte da Telha, comemos bifanas na Baixa, bebemos imperiais fresquinhas, roendo tremoços, salvámos cães e gatos da rua, que trouxemos para casa às escondidas da minha mãe, andámos à batatada porque lhe chamei porco fascista ou qualquer coisa do género, e não nos falámos durante dois meses, quando fiz as malas para sair de casa - até o levei a ver filmes sobre nazis apanhados, na esperança de que se identificasse com as personagens, e o filho-da-mãe tinha o descaramento de me sair das salas de cinema como se aquilo não tivesse nada a ver consigo. Tramava-me sempre.

Tivemos uma vida intensa, conflituosa, cheia de alegrias, culpas e perdões, e pensando bem, afinal levámo-la boa. Poderia algum de nós, honestamente, pedir mais?

terça-feira, 12 de abril de 2011

Não tenho cura

Foto: Matt Blum


Nos anos 80, princípios de 90, era mais difícil entrar no Frágil do que no Pentágono. A porta era guardada pela Margarida Martins, hoje da Abraço, ex-Guida Gorda.

A Margarida Martins fascinava-me por parecer aceitar o seu corpo com naturalidade. Movia-se sem medo, sem vergonha de existir, e eu, infinitamente mais magra, contudo gorda, não queria crer que pudesse, como ela, transformar-me num objeto de desejo.

Recordo muito bem as fotos que lhe tiraram por volta dos anos 90, deitada num canapé, seminua, envolta num lençol de seda. Tinham cores frias, talvez verde, talvez azul. Tenho-as na cabeça. Lembro-me das mamas caídas da Guida Gorda, dos pneus na cintura, das pernas grossas, e de ter ficado muda ao contemplá-la.

Saíram num jornal bem da altura, eventualmente o JL ou o Independente.

Pouco tempo antes ou depois das fotos da Margarida Martins, eu e o Meu Amor tínhamos acabado.

Nesse Verão, um estudante de Belas Artes deu em quedar-se contemplando-me como se eu fosse a Mona Lisa, mas em melhor. Nunca senti qualquer atração pelo Belas Artes, mas era imperioso esquecer o Meu Amor, pelo que aceitei a corte e começámos, enfim, a namorar, com algum esforço da minha parte, tudo em nome do bem maior: o esquecimento. O que tinha eu a perder?

Contribuiu para esta decisão a grande vontade que o Belas Artes sentia em me pintar nuazinha, tal como a Margarida Martins, e essa intenção engrandeceu-me. Também queria estirar-me num canapé e deixar-me retratar. Queria ver-me como os outros me viam. Queria ser uma mulher como as outras, embora mo negasse.

Infelizmente, o Belas Artes sempre se sentiu mais vocacionado para o abstrato, para a performance, e o projeto e o namoro foram ficando para um plano tão secundário que a certa altura quase comecei a pagar para que lhe mentissem por mim, dizendo que não estava, já tinha saído, ainda não tinha chegado. Não conseguia beijá-lo, ou dar-lhe a mão, sequer. Sentia o contato físico como uma violação de que ele não era culpado, apenas eu.

Recordei este episódio por ter ido hoje dar de novo a este maravilhoso site.

Sempre quis ser retratada nua como estas mulheres reais. Não saberei explicar como é que alguém que se negou tanto como fêmea, que sentiu tanta vergonha de existir, e do seu corpo, quis desnudar-se, assumindo as cicatrizes inúmeras, as estrias, a celulite, a pele imperfeita, a gordura.

Há uns três anos, talvez, assisti, em Évora, a uma performance na qual os participantes de um workshop de Verão, em artes performativas, exibiam os seus trabalhos de final de curso, alguns de grande violência, absolutamente nus. Os seus corpos e o que deles faziam eram o resultado final do trabalho desse workshop. A certa altura, o mestre, mexicano ou argentino, convida o público a juntar-se aos actores, e se não fosse a minha prima afastada agarrar-me inapelavelmente pela manga da t-shirt, tinha-me descascado completamente e ido lavar o chão com uma esfregona imersa num balde de sangue, e a seguir ter-me-ia esfregado no chão ensanguentado e depois na própria esfregona, para acabar a bailar o tango com os restantes participantes.

Não tens vergonha?, perguntava-me a minha prima afastada, no hotel. Não te posso levar a lado nenhum. Não, respondia-lhe, enquanto dançava completamente nua pelo quarto, e ela abanava a cabeça, pensando, não tens cura, não tens cura. É importante estar nu? É. É importante envolver-me em cenas de grande intensidade e exposição? É. Admitamos, portanto, que não tenho cura.

O meu namorado II

Toda a gente sabe que tenho um namorado reformado aqui na rua. Um velhote com o seu cão, esfocinhando as partes baixas da Micas, e cuja senhora foi operada à barriga, portanto agora já nada, e que estaria interessado em casar comigo às quartas e sábados, caso aguentasse a pedalada.

Bem, acabou de me apanhar outra vez.

A senhora está cada vez mais jeitosa, é que é uma diferença brutal, como é que emagreceu isso tudo?

Preguei-lhe uma grande mentira piedosa e impressionou-se.

É que está mesmo muito boa, muito bem, estou maravilhado, e metia-me os olhos dentro do decote, sendo que hoje não vesti sutiã.

A senhora não deve ter mais de 40 anos, de certeza.

Pois não, respondi logo, sem hesitação.

E o seu esposo deve estar satisfeito.

Oh, se está.

Agora é muito melhor, sente-se mais leve.

Ah, pois, sinto.

Para a conversa não desenvolver, tive de chamar a Micas, vá, vamos lá embora, e enquanto subia a ladeira do jardim ouço os restantes reformados comentar, tal cão, tal dono.

Tarde


Geralmente, tudo o que vem de bom e de relevante durante a vida vem sempre tarde. Enquanto jovens estamos sempre e de tal forma embrenhados naquilo que suspeitamos ser, ou ansiamos transformar-nos, que não olhamos com atenção merecida para o mundo. Digo: vozes, pessoas, actos, espaços, tons sinais.

Sandro William Junqueira, O Caderno do Algoz

sábado, 9 de abril de 2011

Ofereceram-nos um ao outro

Ora aqui está o senhor meu pai sentado no sofá em frente, com a balalaica apertada no botão da curva da barriga, as pernas abertas à homem, as mãos enganchadas com os três dedos em falta na mão esquerda muito vísiveis.
Como é que fizeste isso?, perguntava-lhe.
Quando era pequeno trabalhei numa tipografia… foi uma máquina de corte. – E eu fazia uma careta. Uma lâmina cortando os dedos do meu pai. Devia ter doído tanto. - Houve sangue, muito sangue, a fábrica parou. Foi um drama, não foi?
Ah, já não me lembro – explicava – mas não senti nada. Estava a trabalhar. Só quando vi o sangue é que percebi. Pensei que tinha feito mais um cortezito.
Então e depois, levaram-te para o hospital?
Não me lembro. Embrulharam-me os cotos num pano e alguém me coseu os dedos. Deve ter sido um médico qualquer lá na terra.

O meu pai não tinha os três últimos dedos da mão esquerda e não sabe que destino lhes deram. Atiraram-nos ao lixo? À pia? Deram-nos a comer a um cão? Nunca se importou. Sempre se sentiu inteiro. E era. Perfeito. Uma obra do Senhor. Eu e ele fomos uma oferta que o céu resolveu de uma só penada. Ofereceram-nos um ao outro.

E ei-lo contemplando-me enquanto escrevo. Levanto os olhos do teclado e sorrio-lhe. Hoje ainda não me disse nada. Sorri para a menina querida cujos anos se vão seguindo. Saí-lhe tão ao contrário do que desejou. Ou talvez não. Só não fui engenheira agrónoma nem de direita nem disse mal dos pretos, de resto portei-me bem. Sou dona de mim. Tenho procurado ser justa e digna e evitado a loucura. E para ser sincera, a última tem custado.

Ele olha-me sério, agora.
Não sabias? Evitar a loucura? Saltar esses dias, trabalhando, comendo, dormindo, como se a vida fosse uma antiga máquina de tipografia que corta dedos e manejo com cuidado, protegendo os que me deste? Não sabias que me alimentei só da memória do teu sorriso e do calor do teu corpo? Não sabias!

Fito este homem sentado à minha frente. Que portento! Tens uma ideia do que seja ser frágil, forte, doce e amargo?
Tenho. Toda a gente tem.
Fugiste da loucura?
Não, Isabela, no meu tempo não havia loucura, havia álcool, e eu tinha de cuidar da tua avó, não podia dar-me a esses luxos. Vou lembrar-te algo que te protegerá da loucura, ouve-me.
Ouço.
Lembras-te, quando eras pequena e eu te ia buscar à escola mais cedo ou aos fins-de-semana, e íamos passear os dois?
Sim. Perfeitamente.
Do que te lembras?
Saías do caminho principal e dizias, vamos experimentar esta picada. Vamos ver onde é que isto vai dar. E íamos por ali fora com a Bedford, deixando à nossa volta uma nuvem de pó vermelho da terra. Às vezes era areia solta.
Às vezes. E lama, se chovia.
Havia mamanas carregando à cabeça feixes de lenha, latas de água, sacas de carvão. Formavam filas indianas, e pelo meio as crianças. Os homens caminhavam lentos, as mulheres, depressa. As crianças, ziguezagueando na brincadeira. Falavam aquela língua deles.
Sim, eu às vezes parava e perguntava-lhes…
… o caminho.
E onde era a cantina mais próxima.
Era para pararmos e bebermos uma Coca-Cola.
Sim, e parecia que conhecias sempre os cantineiros. Davas-te com todos como se os conhecesses de sempre.
Eram brancos.
Havia sacos grandes de serrapilheira com peixe seco. Peixe miúdo. Feijão. Milho. Muitos cereais. Eu provava-os, enquanto tu falavas com o cantineiro. Circulava entre os sacos abertos, da minha altura.
Eras curiosa, mexida, não paravas quieta.

A língua deles…
… era língua de preto, já sabes que eles não falavam como nós.
Não, a língua deles era misteriosa. Não falávamos a mesma língua e por isso eu sempre soube que aquela não era a nossa terra.
Era nossa, era, se eles tivessem compreendido…
Pai, não vamos entrar outra vez nesta discussão. Já chega. Nunca nos iremos entender neste ponto, pois não?
Dificilmente.
E o que me espanta é teres morrido há 10 anos e ainda não seres capaz de compreender.
Compreender, já compreendi. Que remédio! Difícil é aceitar. Mas se te alegra saber, os meus melhores amigos aqui são todos pretalhada. Já montei uma empresa, enfim, isto é difícil montar aqui empresas, que há regras para tudo, mas arranjei uma comissão de boas vindas para pretos, tudo a dançar e a cantar, comer, beber e rebolar o traseiro, como eles gostam, e outra, uma coisa mais a sério, só com música clássica, para os brancos. Quando saem da boca do túnel e entram na Grande Luz é o que os espera - música para todos.

Rio-me – só tu. O que é que cá vieste fazer hoje? Andas chateado? Tens saudade minhas?
Chateado, eu? Nem por sombras. Imaginei que gostasses de me ver. Tu é que tens pensado em mim. Rapariga, vim cá para te lembrar das estradas que percorríamos juntos. Dessa gente que as emoldurava, das palhotas construídas perto dos cajueiros, das mangueiras ajoujadas de fruta madura. As mafurreiras e as papaieiras, a cor de brasa do final da tarde, como se o céu ardesse contra o azul intenso, o cheiro das queimadas, da farinha a cozer nas panelas de alumínio, do cansaço dos corpos…
Tu não falas assim, pai, por amor de Deus.
Ri-se todo para mim. - Falo, falo. Agora, desde que escreves a sério comecei a falar assim.
És tão parvo.
Vai chatear o teu pai.
Rimo-nos outra vez.

Vá, diz-me, o que vieste cá fazer?
Isso, rapariga, isso. Lembras-te dessas tardes? Lembras-te bem dessas tardes?
Lembro-me delas como se ainda lá estivesse.
E tens saudades?
Meu Deus…
Então, ouve-me, escuta bem isto: nestes dias em que pensas na loucura, na doença, na solidão lembra os nossos passeios pelas picadas. A cinza, o fogo que havia pelo ar, as galinhas cafreais, os cabritos, os cães escanzelados dos pretos que os seguiam fielmente, as plantações de amendoim, a cana-do-açúcar que te comprava à beira da estrada, os cabos, os fusíveis, as tomadas a chocalhar lá atrás na caixa da Bedford a cada buraco. Lembra esses dias que viveste, que estão guardados em ti e que continuarão vivos após a morte do mundo, porque existiram, Isabela, e o que existiu um dia, como um bloco de granito vindo do princípio do tempo, não perece. Se nunca te esqueceres desses dias...
Pai, tu não falas assim.
Está dito.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Veio cá falar sobre o tema do meu próximo livro

Você escreve sobre cada coisa…, exclamou o Simões, preocupado, e com uma ponta de censura. Sobre a morte da sua mãe, Isabela?! Ninguém escreve sobre esses assuntos. Pelo menos antes de acontecerem.
Não sabia que havia assuntos proibidos, senhor Simões. Respondi-lhe a verdade. Afinal, há assuntos proibidos? O senhor sempre me disse, menina, escreva sobre o que quiser, desde que venda. Não posso escrever sobre a morte da minha mãe porque o seu coração enfraquece cada dia mais e o assunto me apavora? Devo escrever sobre quê, nos momentos em que sonho que alguém me avisa da sua morte, e em que corro para a salvar? Escrevo sobre a geração à rasca, sobre a crise, sobre a corrupção?
Não, Isabela, escreva sobre uma chávena de chá. A que tem agora à sua frente.
Isso é poesia, senhor Simões, e eu não faço poesia, dou porrada.
Escreva sobre a natureza.
Pode ser, gosto de terra, de lama. Agrada-me mais.
Escreva sobre as suas cadelas.
Mas a minha mãe morre, senhor Simões, e todos os dias um pouco mais. As suas mãos estão cada vez mais ossudas e paradas. O rosto branco, muito macio e mais distante. Tinha a pulsação a 40 e tal no domingo passado. Não lhe disse a verdade. Aumentei. E a pressão arterial muito baixa. Menti. Tinha dores e nenhum comprimido lhas podia tirar. Perguntei-lhe se tinha tomado os do coração. Que sim. Tudo. Disse-lhe, está tudo bem, isso é mania tua. Vê se descansas e te animas. Quer que eu escreva sobre a Primavera? Sobre uma família de classe média que de repente se viu desempregada e sem dinheiro para o minimercado?! Não me apetece. Vejo a minha mãe morrer e isso atira-me à cara que sobro eu, que sou a última deste ramo. Não resta ninguém. Fui um terreno pavorosamente infértil. Uma terra dura e seca que nenhum colono aproveitou. Aqui não havia ouro, prata nem sequer ferro. Mande cá um cabouqueiro escavar até ao mais fundo que puder, amanhã, e verá, só terra seca. Nem um veio de água, nem sinais.
Isabela, a menina não aceita… Não perdoa e não avança. Tem tomado o antidepressivo?
Todos os dias! E rio-me. Oh, senhor Simões, sem antidepressivo é que havia de ser lindo. E rio-me ainda mais. Estou sempre a lembrar-me da desgraçada da Elis Regina: no anos 70 não havia antidepressivos, a mulher nasceu cedo demais.
Bem, bem, a menina não é a Elis Regina.
Não, claro, e ainda bem. Lembro-me dela porque nunca compreendi como podemos deixar-nos morrer quando temos filhos. Eu tenho as cadelas, senhor Simões, e a minha mãe, e elas prendem-me à terra, tornam a vida obrigatória. Os que precisam de nós têm a capacidade de nos atirar para a rua com 40 graus de febre, sem podermos.
Lá isso… anuiu.
Pois, senhor Simões, é por isso que a minha mãe não pode morrer. É por isso que escrevo sobre a sua morte. Não me interessa Fukuxima. Eu já estou cheia de veneno, portanto é mais miligrama, menos miligrama. Mas a morte da minha mãe, esse assunto insignificante que não interessa a ninguém, que não altera uma palha na ordem do mundo... é isso, senhor Simões.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Druída

Embora tenha passado muitos anos a negar a influência que os meus pais tiveram na minha infância, percebo, hoje, que não vale a pena resistir: eu também sou aquilo. Não tolero facas cruzadas porque dão azar, nem tesouras abertas, nem certas espécies de plantas que a minha mãe acredita intoxicarem o ambiente. Guardo sempre garrafões de água e mantimentos para uma situação imprevisível. Aprendi a distinguir as ervas que servem para fazer infusão, sei onde posso encontrá-las, e aceitei essa sabedoria que a minha mãe herdou da sua, que por sua vez tinha vindo de há mil anos. Há em mim uma parte de druída, de terra estrumada. Esse é o meu lado preferido, porque não pensa, não julga, não tem medo. É o que tenho de melhor.

Joguei no totobola

O meu pai gostava muito de fazer o totoloto e tinha números fixos, que ainda sei de cor, e nos quais continuo a apostar.

Hoje sentei-me num café com máquina de registo de jogos da Santa Casa e resolvi habilitar-me em todas as modalidades.

Como o meu pai também fazia o totobola, e costumava pedir-me a previsão dos resultados, e rir-se muito a seguir, embora a respeitasse, também joguei em seu nome, e de acordo com a minha lógica desportiva, que é mais ou menos isto: um clube do norte com um clube do sul, ganha o do norte, porque tem mais dinheiro, logo, pode comprar melhores jogadores. Dois clubes completamente desconhecidos empatam. Os do litoral ganham aos do interior. Esta semana havia um Bilbao-Real Madrid, e pensei logo, o Bilbao vai vender a mãe para vencer o Real Madrid.

Há imenso tempo que não registava um totobola, de maneira que, ao entregar o boletim, o senhor do café avisou-me que tinha de preencher duas colunas de apostas ou fazer uma dupla, pelo que me resolvi pela dupla no Bilbao-Real Madrid.

Descobri que havia uma outra novidade: um jogo a mais no qual se espera que jogador escolha, em relação a cada equipa, se marca zero golos, apenas um, ou mais. Enfim, toda uma ciência.

Joguei em memória do meu pai e não tinha ideia que o jogo se tinha alterado. Também me ocorreu que o meu pai não gostava de futebol, não pertencia a nenhum clube e não perdia tempo a ouvir ou ver um jogo. O meu pai gostava de cinema, de passear, conversar, comer e beber. Só por isto, eu e ele merecíamos um belo resultado no totobolo desta semana.

A vizinha do terceiro vai queixar-se de mim ao condomínio

É quase uma da manhã. Estive a regar as plantas e alguma água escorreu para baixo, embora tome sempre cuidados.

Acabou de me tocar à campaínha a vizinha do terceiro, de roupão azul-celeste, muito decente. Se eu não tinha visto que havia roupa estendida. Não. No nosso prédio não há estendais, temos umas jigajogas no interior das varandas, umas coisas modernas.

Se eu tinha estado a baldear a varanda. Respondi-lhe que tinha estado a regar. E então a senhora avisou-me, bem alto, que eu vivia num prédio, não numa barraca, e que os estudos a mim, pelos vistos não me haviam servido para nada, e que eu era de uma má educação como ela nunca tinha visto, e outras coisas que não consegui fixar, embora a senhora fale com bastante desembaraço. E que ia escrever uma carta contra mim para o condomínio. Sorri-lhe, com bonomia e paciência, e disse-lhe, escreva, escreva. Foi tudo o que consegui. É injusto que a senhora saiba tanto sobre os locais onde vivi antes e os meus estudos e o resto, e eu não possa saber, nem me interesse, se concluiu o nono ano. Mas imagino que sim, porque a senhora é possuidora de uma expressividade verbal impressionante. Dou-lhe um 20 sem hesitação.

Medo da crise? Não. Eu tenho medo é de vizinhas destas.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Quanto custa uma segunda via do apocalipse?

Perguntam-me se tenho medo da crise, dos cortes, das dificuldades terríveis que se avizinham. Não tenho. Vivo com o que arranjo. Adapto-me. Como naquela anedota de judeus acabados de avisar sobre o dilúvio que ocorrerá amanhã, também posso aprender a respirar debaixo de água em menos de 24 horas. Perdi a terra natal aos 12 anos, perdi o lar, os pais, os cães, os gatos, e os brinquedos na mesma altura. Pela mesma altura vi matar e ser morto e tive medo de morrer. Durante 10 anos não tive casa nem gaveta para arrumar os pensos higiénicos, e partilhei cama com novos e velhos, os que me acolhiam por favor e em nome da renda paga pelo meu pai. Perdi irremediavelmente os homens que amei e todos os filhos que consegui fazer. Querem que tenha medo de quê? Um apocalipse, para mim, não passa da segunda via.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Espécies de felinos

Festival Literário da Madeira: as pessoas que escrevem livros
[Fotos de Luís Ricardo Duarte]

Raquel Ochoa


Sandro William Junqueira


Atendi.

Isabela, ainda bem que atendeu. Estava a ver que não conseguia falar consigo.
Senhor Simões…
Já sei que a menina se portou muito bem no Funchal.
Ah, obrigada. Podemos falar disso amanhã? Estou aflitíssima com…
Isabela, você nasceu para isto. Eu sempre tive o feeling, quando a apanhei ainda você não tinha onde cair morta e passava a sua vida entre a reunião do 8º5 e a do 10º2. Fez contatos, como eu lhe pedi?
Falei com a maior parte dos escritores, sim.
Escritores, Isabela?! O que lhe interessam escritores? Acha que lhe promovem a carreira? Eu digo Imprensa, livreiros, membros do Governo que possam adquirir edições suas para distribuírem pelas bibliotecas das juntas de freguesia…
Mas, senhor Simões, um encontro destes é para os escritores se conhecerem e falarem. Não contam apenas as mesas, as comunicações.
Oh, menina, escritores é quanto mais longe melhor… Falar de quê? De que é que andou a falar com escritores? Não andou a contar nada sobre o nosso próximo livro, espero, os nossos projetos?
Não, nada, como aliás o senhor me tinha avisado.
E nada de aproximações aos Alfaiates do Livro. Os gajos são perigosos. Cuidado, que eles têm olho, e agenciam, não sei se me está a perceber.
Estou, senhor Simões, estou a perceber muito bem.
Pois. Mas de que é que menina gostou mais, vá, vá, conte-me lá essas partes de que vocês, mulheres...
Para lhe dizer a verdade, foi de estar sossegadinha no meu quar…
Isabela!
Foi de estar sossegadinha no meu quarto a escolher a roupa que ia vestir e a pensar que ia descer para a sala de conferências onde ouviria comunicações interessantes e falaria com pessoas muito bonitas.
Ummm… Então e que pessoas?
Olhe, a Raquel Ochoa, o Pitta, o Sandro William Junqueira, o Paulo Ferreira, o Rogério Sousa, a Inês Pedrosa, o Zink, a Diana Pimentel, o Paulo Sérgio Beju, o Afonso Cruz, o Mário Zambujal, a Patrícia Portela, a Graça Alves…
E essas miúdas já têm agente?
Quais miúdas? A Inês Pedrosa, por amor de Deus…
As outras, menina, as outras…
Ah, não sei, mas devem ter. A Diana Pimentel é da universidade…
Mas são miúdas novas, giras?
Sim, tudo mais novo que eu, uns amores, sem manias nenhuma, ainda um bocado envergonhadas, mal acreditando que são escritoras. Sabe, eu gosto de pessoas assim, senhor Simões, que se mantêm sempre gente.
E já têm pespegos?
Pespegos?!
Namorados, maridos, amancebamentos, esses acessórios que julgam que mandam nelas, que andam sempre atrás a controlá-las?
Também não sei. Como é que quer que eu saiba uma coisa dessas? Não perguntei. Calculo que tenham. São muito bonitas, aliás.
Bem, passe-me os contatos que logo vejo como é que me arranjo.
E mais?
O Leão da Rodésia.
Leão da Rodésia?!
Sim, um escritor que eu não conhecia, que nasceu na Rodésia mas de lá saiu com poucos meses…
Quem?
O Sandro William Junqueira.
Ah, já ouvi falar. É da Caminho. Escreve bem?
De certeza que escreve, senhor Simões.
Já leu?
Ainda não.
Então?!
Percebe-se logo pela forma como anda, fala, mexe as mãos, pelo desenho dos lábios, pela sua caligrafia ligeiramente infantil que deve ter uma escrita intensa e lírica.
Isabela, eu já lhe expliquei que escritores com escritores não dá. Do que você precisa é de um homem que lhe trate da casa, das cadelas, do carro, das compras, do IRS enquanto você escreve. Não se vire para os intelectuais.
Está bem, senhor Simões, eu também só estava a tentar mostrar-lhe o género de escritor que me pareceu ser.
E mais?
O Afonso Cruz.
Ah, esse já é quase um Lobo Antunes.
Sim, mas com este consegue falar-se. Adorei ouvi-lo. Falou sobre as suas viagens pelo Oriente na senda de escritores cujas leituras o maravilharam. Falou da Síria, sobre comer no chão com os árabes, sobre túmulos de poetas, e enumerou escritores desconhecidos cujos nomes tive de escrever foneticamente, porque não conheço nenhum. Senti que não li nada, que nada conheço.
A Isabela tem de facto muito para aprender.
E é um homem tão calmo, tão doce. Eu teria ficado horas a falar com ele. Vive no Alentejo. Eu imagino-o escrevendo e desenhando numa quinta com aroma a rosas e a jasmim, e quando as crianças o vêm perturbar ele pega-lhes ao colo com um sorriso…
Ai, Isabela, ai, ai. E esse tal Beju, o que é que ele faz? Tem agente?
É artista plástico. Ilustra para o valter hugo mãe. Sei lá se tem agente. O senhor, desculpe a franqueza, mas não é capaz de olhar para as pessoas, apenas para o negócio que pode fazer através delas.
….
O Beju é poderoso. É o que lhe posso dizer. Poderoso. E místico. Tem qualquer coisa que pertence à terra e está, ao mesmo tempo, fora dela.
Isabela, faça-me um grande favor.
Diga.
Não se ponha com essa história de eleger mister e miss FLM. Não se ponha com revelações desse teor no blogue ou seja onde for.
Mas, porquê? Qual é o problema?
É uma vergonha. Ninguém faz isso. Põem-se a troçar de si e não é bom para a sua carreira.
Senhor Simões, o bilhete de identidade e o espelho revelam-me que tenho quase 50 anos - já atingi um patamar da existência em que posso dizer o que me apetece – amadureci, não morri.
Isabela, vamos lá ver uma coisa…
Hoje, desculpe, senhor Simões, mas não vamos ver mais nada, que eu tenho trabalho até às 4 da manhã e o senhor já me está a roubar tempo.
Isabela…
Até amanhã.


Clique.


Afonso Cruz


Patrícia Portela



Miss e mister Festival Literário da Madeira - uma promessa

Ana Nunes Cordeiro, jornalista da Lusa, fotografada por Ricardo Duarte, do JL


Estamos em final de período letivo e só vejo testes, folhas de cálculo, atribuição de notas por antecipação aos directores de turma, relatórios de não-sei-quê, de forma que não há tempo para o texto diário.

Falta-me ainda escrever a terceira parte de Os professores de Português não gostam de mim.

Falta-me fazer a minha crónica, à minha maneira, do Festival Literário da Madeira, e promete, juro, porque vou explicar quem são os escritores, organizadores e jornalistas mais giros, os mais doces, os mais poderosos, aqueles com os quais era à bruta; quem são as escritoras, organizadoras e jornalistas mais simpáticas, mais disponíveis, mais solteironas e, sobretudo, as vergonhas por que passei. Mas fica para depois, e encaminho-vos para outro blogue e outro estilo de crónica, delicioso, mais sensato e em folhetim, aqui e aqui. É o inimitável Eduardo Pitta, que já quase convenci a retomar a crónica social.

domingo, 3 de abril de 2011

Os professores de Português não gostam de mim - parte 2

1º Festival Literário da Madeira - dia 1 - ida às escolas


Mas, afinal, que palavras são essas que pronuncio e tanto dececionam os professores?!

Volto aos alunos que não gostam de ler, alguns deles filhos de professores de Português que lhes chagam a cabeça todos os dias – contraproducente! A mim nunca me mandaram ler. Pelo contrário, o que a minha mãe sempre me disse foi, Isabela Maria larga a porcaria dos livros e vai-me limpar o pó à sala e lavar a casa de banho, se faz favor! Não pode haver maior motivação! Os Planos Nacionais de Leitura deveriam ter estado sempre nas mãos da minha mãe. Aquilo era só estratégia.

Acredito que a pressão livresca exercida sobre os jovens que não gostam de ler é totalmente inútil. Tornar a leitura uma obrigação é o caminho todo andado para que sintam uma violenta alergia ao papel.

Portanto, o que lhes digo é que os compreendo; que sei que as primeiras páginas causam resistência, que muitas vezes as histórias são uma seca para a sua idade ou demasiado infantis ou que contêm palavras que não compreendem ou que os livros são enormes e sem ilustrações. E a leitura, como um desporto, um jogo que se aprende, exige no início algum esforço e disciplina. Não é um prazer imediato. Vai-se fazendo, descobrindo esse prazer, que a certa altura se torna viciante.

Os grandes leitores, toda a gente têm a memória curta. Já não se lembram como começaram.


Tento, por outro lado, explicar-lhes que não gostar de ler não faz deles umas aberrações. Não são piores do que os outros e não têm que se sentir mal por isso, embora admita que os livros constituem uma fonte de aprendizagem complementar à da família, à da escola e à da vida, nem sempre se confundindo com elas. Há coisas que só compreendemos lendo, que só podem ser-nos transmitidas por essa via. Segredos só nossos, cujo entendimento buscamos. Segredos que eram só nossos, julgávamos inicialmente, mas que de repente percebemos que também pertencem a outros. Os livros são uma forma de conhecer o mundo. Mas ninguém deve ler por obrigação. Ler por frete deveria ser um pecado capital.

Sugiro aos alunos que escolham ler o que lhes apetece: livros divertidos ou sobre vampiros que são giros, biografias sobre o José Mourinho ou os Tokio Hotel, histórias curtas, BD, livros só ilustrados, poesia, jornais e revistas… Leiam o que quiserem, e não se sintam pressionados com o que os adultos consideram a grande literatura.

Eu também me fartei de ler porcaria quando tinha a sua idade e fez-me maravilhas. Que saudades das fotonovelas Corin Tellado! Aquilo, sim, era grande literatura!

E continuo a insistir nesta mensagem: o que me interessa é que cada um dos alunos que não gosta de ler seja um bom colega, se preocupe com a dignidade humana, animal e ambiental; que aprendam a ser homens e mulheres e a respeitar-se; que aprendam a viver, e, meu Deus, se é bem mais difícil que a Matemática!

A Morena a dormir na sua cama

1º Festival Literário da Madeira - dia 2 - mesas


A Moreninha a dormir na minha cama, segundo Pedro Vieira.

A certa altura, sobre a dicotomia público/privado, ilustrei a questão com o momento em que resolvi revelar no blogue, com a maior naturalidade, que as minhas cadelas também dormiam comigo, facto comum à maior parte dos donos de cães em ambiente urbano. O escândalo que isso gerou junto dos leitores, na caixa de comentários de O Mundo Perfeito, foi para mim inesperado. Que grande porcaria! Que porcalhona! Isso excluindo sugestões de bestialismo. O privado que é implicitamente público não pode verbalizar-se.


Devo esclarecer que há dois erros no desenho de Pedro Vieira:

1. A Morena detesta dormir tapada.

2. A Morena dorme do lado direito da cama.


A propósito do lado direito da cama: está completamente livre até Novembro, porque com o calor a Morena nem quer ouvir falar em dormir com a dona. Portanto, caso alguém esteja precisado de cama, sem mesa e sem roupa lavada...

Escritores malditos

1º Festival Literário da Madeira - dia 2 - mesas


Sobre a mesa na qual participei hoje no Festival Literário da Madeira.

Futuramente passarei a texto, no blogue, os apontamentos e esquemas nos quais sempre me baseio para expor o meu pensamento.

sábado, 2 de abril de 2011

Os professores de Português não gostam de mim - parte 1

I Festival Literário da Madeira - dia 1 - ida às escolas

Fui falar sobre livros e leitura à Escola Secundária de Jaime Moniz, no Funchal, para um auditório de alunos do 10º ano.

Enquanto falo, observo a minha audiência, e as reações dividem-se. Os alunos sorriem-me, de vez em quando riem-se, e é para isso que ali estou; mas a maioria dos professores, sobretudo os de Português, gostaria de me sentir mais institucional.´

Seria minha obrigação explicar às crianças por que motivo devem tornar-se sábios e sensatos leitores, seguidores do Plano Nacional de Leitura. Deveria clarificar as vantagens culturais da grande literatura e excluir a de cordel, ou seja, Camilo Castelo Branco. Deveria ser capaz de meter na cabeça das crianças que a crítica ao clero feita no Sermão da Sexagésima é o mais interessante dos assuntos. E eu olho para eles e só consigo pensar que um dia fui aluna e tive de aturar pastelões que não lembram a Cristo.

Aos professores falta-lhes terem esquecido que um dia foram alunos. Os de Português, regra geral, não gostam muito de mim. Lamento muito, mas quando entro numa sala de aulas não concebo a ideia de ali permanecer 90 minutos sem me divertir. Preparo as aulas para mim, para que eu goste delas, para que me divirta. O interesse dos alunos há-de vir por arrasto.

Tenho também esta mania de que os alunos do ensino secundário, no que respeita ao Português, e à excepção do programa do 10ºano , de partes do do 11º, nomeadamente Cesário Verde, bem como o discurso argumentativo - e, enfim, no 12º, tirando Pessoa e o Memorial do Convento, apanham uma xaropada literária que não desejo a ninguém com a sua idade.


Por tudo isto, quando vou às escolas, não esperem de mim que convença os alunos a lerem com prazer o programa oficial. Se tivesse que cumprir essa função, recusá-la-ia.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Imortal

A D. Lucília telefonara-me logo de manhã anunciando a morte da minha mãe. Morreu, dissera, já não respira, e seguira-se um longo silêncio.

D. Lucília, desculpe, mas isso é impossível, a minha mãe não morre. Pode ser um problema nos pulmões, pode estar doente, mas morrer, não, que a minha mãe tem uma filha para acabar de criar.

E saí de casa para ir resolver o problema. Não podemos confiar em ninguém.

Nota importante após alguns emails e telefonemas relacionados com este texto: nem a minha mãe morreu nem eu tive qualquer intenção de criar uma mentira, por ser 1 de Abril. Este é um texto sobre alguém que não pode morrer. É só isso.