Da última vez que estive no Céu pedi uma audiência a Deus, porque não me entendia com os restantes membros da Santíssima Trindade. Que era preciso deferimento superior, e hesitavam, e encolhiam de ombros, pelo que resolvi cortar o mal pela raíz, escrevendo ao Senhor pedindo que me recebesse.
Na terra estava-se em Outubro de 1962, e começava a sentir-se um frio de rachar para Norte do trópico de Câncer.
Bati à porta do gabinete, e escutei a voz cava de Deus, faça favor.
E entrei, pedi licença para me sentar, não me respondeu, mas sentei-me, contudo, e comecei, Senhor Diretor, pedi audiência para lhe expor um assunto que tem ocupado a minha mente desde que
Marilyn Monroe subiu, há dois meses, e se passeia por aí com a túnica justa demais e
livros de poemas debaixo dos braços.
Diz, minha filha, respondeu-me o Senhor, sorrindo com bonomia e paciência.
Senhor Diretor, já cá estou há muitos anos esperando uma oportunidade para regressar. Tenho saudades do aroma do jasmim e das rosas, dos dias quentes, dos banhos de mar. E como me garantiram que tenho de voltar, pensei, por que não agora, que Marilyn mudou de estado. Gostaria de voltar para ocupar o lugar que deixou vago.
Oh, minha filha, estás a ver esta pilha de requerimentos?
É tudo para a Marilyn? Tudo.
Mas, Senhor Diretor, pedindo desculpa pelo tempo que lhe estou a tomar, gostaria de alegar, em minha defesa, que tenho sido uma funcionária exemplar. Só falto aos rituais quando estou mesmo para lá de Marte. Vou às orações da manhã, da tarde, da noite, zelo pelos educandos recém-chegados com cuidado e amor… e se vêm confusos e perdidos... merecia uma oportunidade.
Minha filha, o Elton John alegou o mesmo, ainda ela estava viva - aliás, ainda por aí deve andar o formulário - mas neste século já não temos vaga.
Não há vaga para uma nova Marilyn?
Para o século XX já se esgotou.
Está a dizer-me que ninguém, no século XX, substituirá o lugar deixado vago por ela?
Exatamente. Ninguém, minha filha. Esgotámos a quota. Só se quiseres esperar pelo XXI, mas atenta na pilha de requerimentos, e sê realista. – e esticou-se no cadeirão, colocando os braços atrás da cabeça, visivelmente fatigado. - dizes-me que estás farta de cá estar?
Estou, Senhor Diretor, já são muitos anos sempre na mesma rotina, a paisagem não muda, raramente se faz uma viagem de recreio, é só tomar conta dos de baixo, zelar para que façam o mínimo de asneira… Depois, muitas horas de oração, muita concentração, muito círculo do poder rosa, do poder roxo, do poder açafrão e eu transpiro muito das mãos… estou cansada, confesso.
Não me pareces preparada para baixar, minha filha. Quem eras tu antes da atual estada na Grande Paz.
Prostituta. A Carmen do Valado.
De harém? Cortesã?
Não, senhor Director, exercia o ofício numa taberna à beira do caminho, onde paravam as carruagens para mudar os cavalos e descansar os cavaleiros.
Criada e puta, portanto.
Exatamente, senhor Diretor, mais a segunda que a primeira.
O pecado da luxúria deixa profundas marcas, minha filha.
Bem sei, meu Pai. Mas não matei ninguém.
E tiveste gozo no exercício do teu ofício?
De vez em quando, só de vez em quando.
Não mintas.
Senhor Diretor, ao fim do dia de trabalho uma rameira quer despachar serviço, mas de manhã, pela fresquinha, confesso que houve dias, enfim, raros, mas houve, não nego, em que gozei.
O pecado da luxúria… – e Deus coçou a cabeça, fazendo caretas. – mas se estás por cá há muito mereces uma oportunidade para te corrigires.
Assim penso, Senhor.
Mas na próxima, abstinência máxima!
Abstinência máxima, senhor director? Então, se lhe venho aqui pedir para ocupar o lugar deixado pela Marilyn! Eu errei por necessidade, senhor diretor.
Pois, minha filha, mas há regras – e consultou os livros.- vejamos, podes voltar como escritora. Interessa-te?
Como escritora?! Mais vale pôr-me de puta outra vez. A trabalheira… e para nada.
É que tenho aqui a Florbela Espanca, mas ninguém quer escritores. - notei-lhe um gesto facial de incompreensão, mas continuou folheando as páginas de um grosso caderno manuscrito a tinta permanente.
Professora, e que tal professora? Serás obrigada a manter uma moral irrepreensível, e os teus alunos respeitar-te-ão, não pensando em ti como mulher, mas como um modelo a seguir.
Bem, desde que haja professores para alegrar o local de trabalho...
Não to posso garantir, filha. Mas se quiseres podes nascer loura, como a Marilyn. Não tão loura, claro. Mas podes aclarar um ou dois tons àquele com que daqui saíres. E pintas as unhas com vermelho-traição, de uma marca brasileira que já te aponto num papelinho. Pintar as unhas ainda não é pecado. É o mais próximo da Marilyn que te arranjo.
E quero ficar bem em todas a fotografias, senhor Diretor. Quero ser fotogénica. Telegénica. Quero que os homens me desejem. Quero as mamas grandes. Quero um rabo redondo. A anca larga. Uma cara bonita.
Minha filha, vamos lá ver se compreendes: estou a oferecer-te uma oportunidade como professora.
Mas tenho direito a noites, fins-de-semana e férias, certo? Convém esclarecer este ponto, porque na última passagem pela terra fui puta o dia inteiro.
Nesse aspeto, garanto, melhorarás as condições de trabalho. Mas não esqueças que os teus erros passados têm de ser ultrapassados agora. Os tempos de fornicação terminaram. E pareces-me ainda um pouco verde.
Mas o que pode o senhor Director oferecer-me na próxima descida? – e consultou de novo o livro, desta vez cheio de colunas de deve e haver.
Quando pretendes regressar, minha filha?
O mais depressa possível.
Temos aqui um casal na África portuguesa, um bocado passados da idade procriativa, gente pobre, de trabalho, mas boa. Querem um filho. Vão dar-te o que puderem.
Uma boa vida?
Mas que mania que vocês têm! Desde quando é que vão lá abaixo para ter uma boa vida?! É sempre a mesma conversa! Podem dar-te uma vida, não te chega?
... se é para sofrer, se calhar prefiro esperar.
Oh, filha, não me faças perder tempo… É uma vida, e as vidas… mas tenho que te explicar o que já experimentaste?! Desta vez não será pior. Terás momentos maus, como toda a gente que desce...
E saberei antes?
Nem penses nisso.
Mas conseguirei ultrapassá-los?
Depende de ti. Isso depende sempre de vós. Vocês é que escolhem. Posso garantir-te que serás amada por muitos.
Homens?
Disse por muitos, apenas. Não vais para repetir o pecado da luxúria.
Mas, senhor Diretor, que tipo de entretimento me será então concedido?
Podes corrigir redações, por exemplo.
Bem, vejamos, professora, loura-escura, mas posso pintar pintar uns tons acima, bem como as unhas de vermelho-traição… E mamas, rabo e anca grandes?
Isso arranja-se, se é tão importante para ti.
É. Quero um corpo que eu possa sentir, que os outros dese… nhem.
Muito bem. Seja. – e redigiu uma declaração com a caneta de tinta permanente sagrada, assinando de seguida. Pediu-me para assinar igualmente, com outra de menor valor, o que compreendi.
E agora, senhor Diretor, quando nasço?
Olha, filha, segundo as minhas contas, já foste concebida, e verás a luz do sol a 1 de Janeiro, dia de Nossa Senhora, pelo que terás uma santa vida.
Ah, ótimo. Assim é um prazer negociar. Não sabendo se voltaremos a encontrar-nos antes da minha partida, aproveito para me despedir, de Vossa Excelência, com os melhores cumprimentos, muito atenciosamente.
Filha…
Sim, meu Pai!
Não saias sem ler o que assinaste. Leste tudo?
Penso que sim.
Leste aqui?
Onde? - e aponta-me uma linha com letra miúda. - Deixe-me pôr os óculos.
Li: professora, loura-escura ou uns tons acima de caráter artificial, verniz vermelho-traição de marca brasileira, mamas, anca e rabo grandes, qualidade de vida média, alguns acidentes de percurso, e gorda.
Gorda, senhor Diretor?
Minha filha, tenho de arranjar forma de te apartar do pecado da luxúria.