sábado, 28 de maio de 2011

Alívio

O cúmulo da felicidade é uma gota de felicidade a mais. Acontece ao morrer.


Herta Muller, Tudo o que Tenho Trago Comigo

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O Meu Amor não nos quis

Deu-me um beijo e partiu. Fiquei a vê-lo voltar ao carro, estacionado metros à frente, percorrendo o caminho mais largo do jardim. Ia ao longe e gritei-lhe, volta, tenho saudades do nosso futuro. Escuta, há um tempo que será nosso! Eu sei. Eu tenho a certeza. Espera um pouco. Basta esperar.

Havia música nos altifalantes do jardim, para entreter os velhotes, e ele não ouviu, ou, se ouviu, não se voltou, ou eu não lhe gritei outras palavras que as do silêncio do meu desejo.

O Meu Amor não projetou o nosso futuro, não acreditou num tempo para os nossos beijos, sobretudo, não nos quis. O Meu Amor não nos quis.

Permaneci com o pescoço esticado em frente, fitando-o, enquanto a sua figura ia ficando cada vez mais pequena, e pensando já numa saída, o que fazer, sim, ainda sou nova, tenho uma vida inteira. Posso encontrar outro amor, não digo o Amor, não, não vale a pena apontar alto, isso acabou, viveu-se, digo, uma outra vida, filhos, isso, talvez filhos.

E nesse dia voltei para casa magicando quais os passos a seguir para engravidar no mês seguinte. Foi quando se iniciou o meu período fértil tal como outros tem a fase azul, a fase rosa.

O "período fértil" durou seis anos. Estive sempre grávida, exceto nos dias passados na maca, no corredor da maternidade, à espera da raspagem relativa ao último aborto espontâneo, cuja concretização ia passando de turno para turno.

Uma raspagem não custa nada. Abrem-se as pernas e cerram-se bem os maxilares e os punhos. Dez minutos, quinze, vinte. O que custa é ouvir o metal da faca a tinir na bacia e evitar olhar para o que lá ficou.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Informes, incompletas

- Partilho o seu ponto de vista - retorquiu o estrangeiro - não passamos de criaturas informes e incompletas enquanto alguém, mais prudente e melhor que nós, nos não der o seu amparo para melhorarmos a nossa débil e imperfeita natureza. Tive uma vez um amigo, a mais nobre das criaturas humanas e, por isso, posso pronunciar-me sobre a sua amizade, Você tem a sua esperança e o mundo à sua frente, não tem motivos para desesperar, Mas eu... tudo perdi e não posso recomeçar a minha vida.



Mary Shelley, Frankenstein

terça-feira, 24 de maio de 2011

Não existo

Eu sou grande, eu falo, eu como, eu cozinho, rio, vejo TV, faço o ca minha mãe diz. Mas sei que, quando a foto aparece, não existo. Ninguém me quer. Ninguém precisa de mim. Sei quem sou. Sei o que os outros dizem que sou - uma vampira a chupar o sangue do sistema. Um monte de gordura preta que tem de ser varrida, punida, eliminada, mudada, e posta a render.



Sapphire, Precious. A Força de uma Mulher

segunda-feira, 23 de maio de 2011

As putas somos nós

Foto de Ruth Orkin, American girl in Italy, 1951.



Todos os dias, pelo mundo inteiro, criadas do hotel são assediadas sexualmente ou vítimas de violação por clientes, patrões e colegas. Como sei? Porque não sendo criada de hotel fui a vida inteira alvo do mesmo por parte de desconhecidos, vizinhos, colegas e familiares. Porque tendo começado a relatar experiências desta índole a outras mulheres, já adulta, descobri que todas tínhamos vivido o mesmo.
As experiências de assédio e abuso sexual mais antigas que recordo datam dos meus 7 ou 8 anos, todas perpetradas por pessoas muito próximas à minha família, em quem os meus pais confiavam totalmente, e algumas das quais fui já relatando por aqui. Se em Moçambique, protegida, as tentativas de abuso sexual eram de difícil fuga, imaginemos o que terá sido, neste contexto, a vida de uma adolescente que cresceu depressa, sozinha em Portugal, saltando de casa em casa durante uma dezena de anos.
Uma boa parte das minhas memórias de adolescência relacionam-se com estratégias de fuga a homens concretos que pretendiam apanhar-me sozinha, e a formas de lidar com as famílias na sua presença.

Imaginemos este cenário e ação: uma família tradicional, abastada, com crianças pequenas, que me recebe por uma temporada. São pessoas a quem sou confiada, amigos da família, cujo “chefe” me corteja às escondidas pelos corredores da casa enorme, tentando agarrar-me, roubar-me beijos, carícias, aos quais me furto, lutando para me libertar, fugindo a correr para a cozinha, onde se encontram as crianças, a esposa, as criadas. Tenho de me manter em silêncio. Sei que não posso contar a ninguém. Sei porque sei. Contar como e para quê? Gero um conflito conjugal? Acreditam numa miúda? É preciso continuar a viver nessa casa uma quantidade de meses, é preciso evitar esse homem, é preciso manter uma aparência de normalidade, não mostrar animosidade, mas, pelo contrário, gentileza, agradecimento. Como evitar ir com ele de carro às compras? Que desculpa arranjar? A questão é: como evitar, durante meses, estar sozinha com um homem em cuja casa vivemos e que sabemos que nos molestará, se puder?
A minha adolescência foi isto: fugir de homens.
Um dia, já adulta, encontrei-o no Metro de Lisboa e não pude escapar-lhe. Estava velho. Pediu-me desculpa e agradeceu-me por nunca ter contado nada à esposa. Disse-me que eu tinha sido uma “grande mulher” porque evitei destruir o seu casamento. Não lhe respondi. Saí na estação de Metro que me cabia. Entretanto, soube, o homem morreu. Devo dizer que não era má pessoa. Era um homem culto, inteligente e bem-parecido, para quem foi normal assediar uma adolescente à sua guarda. Imagino que fizesse comigo o mesmo que faria às suas empregadas.

A adolescente que eu fui comportou-se como uma “grande mulher”? Não. Eu julgava não ter saída. No contexto, na época, não a tinha, realmente. Por outro lado, acreditei, durante muito tempo, que o assédio era culpa minha. Era o meu corpo que chamava os homens. A culpa estava em mim. Na forma como me vestia, como me movimentava. Eu era uma mulherzinha que gostava de ser bonita, de parecer bonita e pagava a fatura da minha vaidade. Durante muitos anos acreditei que embora o assédio fosse reprovável, eu também tinha culpas por ser uma mulher desejável. A primeira vez que me queixei de assédio à minha mãe, e lhe contei que na rua um homem me tinha dito x, respondeu-me o que lhe haviam ensinado, “mulher séria tem orelhas moucas”. E eu era uma rapariga séria, embora os meus ouvidos continuassem a escutar tudo, muito mais do que eu desejaria.

Tão violentas como as experiências de assédio físico foram as que configuraram ataques verbais, quando atravessava um lugar onde os homens se juntavam e comentavam entre si o meu corpo e a minha vergonha, grosseiramente, mencionando o tamanho das minhas mamas e rabo e que uso pretendiam dar-lhes. Mas também os ordinários solitários que simplesmente se aproximavam de mim e soltavam um “fazia-te isto”, “comia-te aquilo”, afastando-se rápida e cobardemente. Ou nos transportes públicos, os homens que se esfregavam em mim com asquerosos pénis duros, dos quais eu fugia sem pensar, sempre sem pensar, porque era fugir, ponto final. Só muito tarde ganhei coragem para os confrontar em voz alta com esse abuso, e percebi que reagiam insultando-me, chamando-me puta, e saindo na paragem seguinte, sem que qualquer dos passageiros do autocarro se sentisse motivado a ajudar-me. Eu estava sozinha naquilo. Queixava-me, era insultada e a assistência permanecia serena como se estivesse a acontecer o que era normal que acontecesse.
Por tudo isto me parece lindo que o diretor do FMI se encontre a ser julgado pelo crime de abuso sexual de que é acusado. Errou o alvo. Julgou que a negra se calaria, porque era pobre, porque não tinha poder. Lixou-se bem.

Mas o que convém ficar bem claro é que o diretor do FMI é apenas um entre triliões de predadores sexuais que todos os dias procuram as suas presas e as violam objectiva ou subjetivamente. Eu teria vivido uma vida muito mais saudável sob todos os pontos de vista, teria sido uma pessoa diferente se não tivesse aprendido que se deve fugir dos homens, se não tivesse passado grande parte da minha vida a olhá-los como ameaça. Aquilo em que me transformei também resulta dessas experiências traumáticas que as mulheres, durante muito tempo, tiveram vergonha de admitir, de contar umas às outras, porque afinal, tudo à nossa volta nos dizia é que as putas éramos nós, que o mal estava em nós.

domingo, 22 de maio de 2011

Quando atingir a menopausidade...

A doravante designada por Mamã sempre que a avisou que não casasse, porque os homens são uns putanheiros, e em velhos vão para pior; só pensam em meter-nos o pincel na boca. A menina obedeceu.
A Mamã disse-lhe "não tenhas filhos: só dão trabalho, despesas, preocupações e tiram-nos toda a liberdade - e além disso, nesta idade, e com o teu trabalho, já não terias paciência". A menina pensou desobedecer, mas acatou.
A Mamã não gosta de ver a menina com cores claras. Não lhe ficam bem. "Não vistas a blusa creme; engorda-te".
A Mamã considera que as saias não favorecem a menina, e "o que tens andado a pôr na cara? Devias experimentar o creme que uso há mais de 60 anos, o Benamor, que aclara a pele e tira as manchas. E, já agora, penteia-te. Tens o cabelo tão fino que devias usar laca"
A Mamã pensa que a menina ganhava em passar uma pinturazinha, leve, uma base, um pó-de-arroz, um blush. "Antigamente usavas um batonzinho, agora nem isso."
A Mamã acha que a menina usa blusas demasiado decotadas e que se lhe vêem bocados do soutiã e é uma vergonha.
A Mamã pretende saber se a menina lavou o carro, se já entregou o irs, se foi tratar do problema das multas relativas ao automóvel anterior, se pagou o IMI, se a mulher-a-dias tem feito o serviço que lhe cabe, e se tem a casa arrumada e decente para apresentar a quem chegue.
Quando a menina não lhe obedece, a Mamã mostra-se zangada - pior, indignada.
A Mamã tem o poder.
A menina sonha que mais tarde, quando chegar à menopausa, quem sabe, há-de sair de dentro da Mamã e ser livre, completamente livre.

sábado, 21 de maio de 2011

Imunda imitação

- Maldito o dia em que me foi dada vida! - exclamei no meu sofrimento. - Maldito criador! Porque fizeste um ente tão odioso que tu próprio te afastaste enojado? Deus, na sua misericórdia, fez o homem belo e atraente, à sua própria imagem; mas eu sou uma imunda imitação de ti próprio, tornada ainda mais horrível pela sua semelhança. Satanás tinha os seus companheios, demónios como eles, para o admirarem e encorajarem; eu sou um ser solitário e detestado.


Mary Shelley, Frankenstein

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Cada sentimento tem a sua fome própria

Mesmo 60 anos passados sobre o campo de trabalho, o acto de comer é para mim fonte de grande excitação. Como com todos os poros.

[...] Os outros não conhecem a felicidade da boca, são sociáveis e corteses a comer. A mim, contudo, precisamente quando como, passa-me tal gota de felicidade a mais pela cabeça, que a qualquer momento, assim como aqui estamos sentados, a todos pode apanhar e a gente é obrigada a largar na cabeça o ninho, no fôlego o baloiço, no peito a bomba, na barriga a sala de espera.

Gosto tanto de comer que não quero morrer, porque depois nunca mais como. Há 60 anos que sei que o meu regresso a casa não conseguiu domesticar a felicidade do campo. Ainda hoje continua a morder com a sua fome o âmago de qualquer outro sentimento. No âmago de mim reina o vazio.
Desde o meu regresso a casa, cada sentimento tem cada dia a sua fome própria, reclamando por satisfação, a que não dou resposta. A mim ninguém mais se pode agarrar. Sou instruído pela fome e, por humildade, inacessível, não por orgulho.

Herta Muller, Tudo o que Eu Tenho Trago Comigo.

Do poder

[...]

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

[...]

Do patamar responde-lhe um criado:
"Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais." E muito descansado,
Atira
um cobre ignóbil oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.



Transcrevo duas estrofes de Num Bairro Moderno, de Cesário Verde, pretendendo focar-me no gesto desdenhoso do criado.
De onde eram originários os criados, no século XIX? Do mesmo lugar de onde provinha a vendedora de hortaliças e legumes: da aldeia, da província, eventualmente da cidade, mas de um estrato social muito baixo. O criado que atira o "cobre lívido, oxidado" é seu "irmão social", contudo apresenta-se no patamar acima, ignóbil, oxidado - caraterísticas que podemos transferir da moeda para o homem envilecido.

Há uns dias, um amigo falava-me da realidade moçambicana nos dias de hoje, a meu pedido, e dizia-me algo que cito de memória, "os negros com dinheiro, todos de 4x4, são os que pior tratam os seus irmãos de raça. Não há hoje por lá nenhum branco capaz de tratar um negro com tanta indiferença e arrogância como outro negro. Não há um obrigada, um faz favor. Nada. É chocante."

Quem leu Primo Levi ou outros escritores do holocausto percebeu que os capos, chefes recrutados pelos SS para fazerem o trabalho sujo, criando leis dentro da lei, distribuindo trabalho, selecionando os grupos para as câmaras de gás e deixando-se corromper muito para além do que pode conceber a mente humana eram escolhidos entre os prisioneiros do campo de concentração. Os SS pouco saíam das suas casas, dos seus gabinetes. Concebiam uma estratégia que nem sequer precisavam de executar: os capos tratavam de tudo com grande eficiência, sem escrúpulos.

Somos lobos uns dos outros, não é o que se diz? Não é uma afirmação verdadeira, na sua essência: a natureza humana envergonha a animal, porque os animais comem-se por instinto, sem consciência do bem ou do mal, mas nós comemo-nos conscientes, procurando manter o mais artificial e transitório dos estados: o poder, mesmo o insignificante. Veja-se o criado em Num Bairro Moderno. Que poder tem aquele homem no interior da casa dos senhores?

Tudo isto a propósito da convicção socialmente correta do mainstream, todo escolarizado, de que os bonzinhos são bons e os mauzinhos são muito maus. Como se em cada um de nós não houvesse um anjo e um diabo e o que entre eles circula - a apetência para tudo, dependendo das circunstâncias, das oportunidades.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Aprendizagem

Estamos nus. Batemos um ao outro com um cinto. Dizemos, a cada golpe:
- Não dói.
Batemos com mais força, cada vez com mais força.
Pomos as mãos por cima de uma chama. Cortamos as coxas, os braços e o peito com uma faca e pomos álcool nas feridas. Dizemos de cada vez:
- Não dói.
Ao fim de algum tempo já não sentimos nada. São os outros que sofrem, são os outros que se queimam, que se cortam.
Deixamos de chorar.


Agota Kristof, O Caderno Grande

Da natureza humana dos monstros




Lars Von Trier foi considerado persona non grata pela direção do Festival de Cannes, por ter afirmado, quarta-feira passada, em conferência de imprensa, após a projeção de Melancholia, que "sente uma certa simpatia pelo antigo líder do partido nacionalista alemão, Adolf Hitler."
Conforme pude ler na SIC on line, Lars von Trier declarou o seguinte: "Eu sei que ele fez coisas muito más, mas posso também imaginá-lo no bunker no seu final. (...) Que fique claro que eu não sou a favor da segunda Guerra Mundial, não estou contra os judeus", afirmou. E ainda acrescentou: "Estou com os judeus, com certeza, mas não muito, porque Israel aborrece-me verdadeiramente".

Desdramatizemos um pouco, se for possível, sem revisionismos. Se considero que Hitler, embora símbolo de horror, sofreu, como qualquer outro humano, o empolgamento da vitória e o desânimo da derrota? Considero. Alguém, desperto, pode ignorar que Hitler foi, na proximidade da morte, igual a qualquer um de nós, com as mesmas angústias, medos? Se ignorou e esqueceu a sua fragilidade humana, se se julgou acima dos mortais e os desdenhou profunda e impiedosamente - e sabemos que sim - terá regressado, no final, à sua condição humana: abandonaram-me; estou só; perdi; é o fim. O demónio que representou, retomou o homem, nas horas finais. Pelo que tenho podido testemunhar, vivendo, estudando, lendo, ao longo da minha vida consciente, isto tem certa lógica. Não a tem para quem organiza festivais de arte e pensa? A justiça humana precisa que os homens-monstro morram mais monstros e menos homens? Não somos só gente, e nada mais, na hora da nossa morte?

Assim que percebeu que as suas afirmações tinham causado polémica, Lars Von Trier apressou-se a explicar que "não é antissemita, racista ou nazi." E eu compreendo-o, devo dizer. O homem deve ter pensado o mesmo que eu penso tantas vezes, na rua, e que é, essencialmente, "para quê uma pessoa chatear-se?!".

Somos todos muito livres de expressar as nossas ideias na Europa democrática, mas livres dentro dos limites, desde que não se toque no que, podendo pensar-se, transformar-se em arte, aludidamente, não deve dizer-se.
Não creio que as afirmações de Lars Von Trier seja passíveis de equívoco, a menos que quem as ouve não compreenda ou não queira compreender o que é dito.
A maior hipocrisia, a meu ver, é que os responsáveis "sublinharam que o evento é um espaço "excecional" para os artistas de todo o mundo apresentarem as suas obras e "defenderem a liberdade de expressão e de criação".
Estou a ver.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O anjo caído

Acalma-te!... Escuta, antes de dares livre curso ao teu ódio! Não terei já sofrido bastante para que tu procures ainda aumentar a minha infelicidade? A minha vida, a minha triste vida, é-me ainda querida e defendê-la-ei. Não esqueças que me fizeste mais forte do que tu. Mas não quero lutar contigo. Sou criação tua e serei doce e obediente para com o meu amo e senhor, se quiseres desempenhar o papel que a ti cabe. Oh! Frankenstein, se és justo para com os outros, não me esmagues a mim, credor da tua justiça, da tua clemência e do teu afecto. Eu deveria ser o teu Adão; mas afinal sou o anjo caído que baniste do paraíso. Por todo o lado vejo uma felicidade de que estou irremediavelmente excluído. Eu era benevolente e bom; o desgosto transformou-me num demónio. Faz-me feliz e tornar-me-ei virtuoso.

[...] Acredita-me, Frakenstein, eu era bom, a minha alma transbordava de amor e caridade; mas tu não vês que estou só, desesperadamente só? Tu, meu criador, detestas-me; que posso esperar dos teus semelhantes, que nada me devem? Eles repelem-me e odeiam-me. (...) Contudo, está nas tuas mãos fazer-me justiça. Deixa-te enternecer e não me desdenhes. Ouve a minha história; depois de a ouvires, abandona-me ou lastima-me, mas escuta-me.

Mary Shelley, Frankenstein

terça-feira, 17 de maio de 2011

A felicidade da boca

A felicidade é uma coisa repentina.

Conheço a felicidade da boca e a felicidade da cabeça.

A felicidade da boca dá-se ao comer e é mais curta do que a boca, até do que a palavra boca. Quando se pronuncia, nem tem tempo de subir à cabeça. A felicidade da boca não quer mesmo nada que se fale dela. Se eu falasse da felicidade da boca, deveria dizer DE REPENTE antes de cada frase. E depois de cada frase: NÃO DIZES A NINGUÉM, PORQUE ESTÃO TODOS CHEIOS DE FOME.

[...] Falar da felicidade da cabeça é mais fácil do que da felicidade da boca.

A felicidade da boca quer estar só, é muda e com raízes por dentro. Mas a felicidade da cabeça é sociável, exige a presença dos outros.


Herta Muller, Tudo o que Eu Tenho Trago Comigo

domingo, 15 de maio de 2011

Já não há surpresas

Este fim-de-semana fiquei a saber que em casa de Bin Laden se viam filmes porno e que o senhor diretor do FMI se atira forte às criadas do hotel. Não há, portanto, diferença entre as pessoas mediáticas e o senhor Rodrigues, que mora no 10º andar dum prédio em frente, e me costuma assobiar de cada vez que assomo à varanda para tratar da permacultura, me atira os olhos ao decote, no café, para descortinar se vesti soutiã, e embora não tenha oportunidade de me apanhar sozinha, vigia as minhas janelas a binóculo, e deve queixar-se à mulher que a vaca ali de frente anda toda nua em casa.
É toda a gente tão igual, em todo o lado, seja qual for o cargo ou o imaginário que ocupem, que as notícias sexuais do fim-de-semana não são notícia, mas vulgar fait-divers, e estão para a minha capacidade de espanto sobre o humano como a alegada ausência de hábitos homossexuais no mundo islâmico.
Perdida a inocência, que surpresas nos restam?

sábado, 14 de maio de 2011

Uma mulher muito bela

Ontem conheci uma mulher muito bela e doce, um pouco tímida, como eu fui há muitos anos.
Era tão transparente que pude ver os tesouros que encerrava, e também os fantasmas que a assombravam. Sem palavras, pedia desculpa por estar ao meu lado, por achar não valer o suficiente, e era tão melhor do que eu.

Comovi-me, sem deixar perceber, permanecendo o sismo de grau 9 no qual me transformei, e que todos esperam que seja, afinal, e que admiram, meu Deus, que coragem!, exclamam, mas desejando transformar-me num levíssimo fumo branco, e entrar nela, ser só ela, e eu, nunca, nunca mais.

Amantes

Durmo nua todas as noites.
Poderia atribuir-se a causa ao calor, mas seria um erro. Tenho frio e tapo-me com os cobertores, muito aconchegadinha.
Percebi que os lençóis se aproveitam do meu corpo, durante o sono, e sem que eles saibam quero oferecer-me para que acordem frescos no novo dia.

O amor não anda ao nosso lado

Juntamo-nos para não ficar sós. Para que olhem por nós, nos tragam um chá ou um cobertor. Sabe bem haver quem se preocupe connosco, nos toque no braço, nos cabelos, numa mão.
Juntamo-nos porque os outros o fazem há milhares de anos como solução final. É o que se espera que façamos. Juntamo-nos e ficamos arrumados, nivelados.
Juntamo-nos para que a vida se justifique e legitime, ao assemelhar-se a todas as outras. É assim que se faz. É assim. Não vivemos sós.
Juntamo-nos porque acreditamos amar-nos. Descobrimos depois que, estando juntos, estamos juntos. Temos filhos. Habituamo-nos. Não estamos presos, mas de quem é este livro, e este jarrão? De quem é esta casa, este filho? O acordar de manhã, os gestos habituais? Fazemo-los porque estamos juntos ou porque nos pertencem? O que é meu e o que é teu?
Seria bom estar só, uns tempos, sem filhos, sem contas para pagar, sem obrigações; isso seria a vida, mas urgente, agora, é chegar ao Verão, liquidar os atrasados com o subsídio de férias. Comprar roupas para os miúdos. Substituir o frigorífico que não congela há mais de dois meses. Descansar por 15 dias.
Amamos aquele com o qual estamos juntos? Que pergunta mais estúpida! Estamos juntos, não estamos? Chega de pormenores. O que interessa o resto? Talvez tenha amado Helena muito mais do que Ana, mas o que importa isso agora? A minha mãe casou para se amparar, o tio Alberto amou toda a vida a cunhada - e nem no leito de morte lho revelou – e a minha tia negou-se ao rapaz por quem se apaixonou, por estar prometida ao tio Alberto. Todos amaram por demais, a vida inteira. Não terem acordado ao lado do objeto amado, não terem iniciado os gestos ou as palavras do amor não amputou o sentimento. Amaram. O amor andou à solta fechado nos seus peitos. Existiu, pesado, imanente. Adormeceu-os. Despertou-os. Fê-los sair de casa. Voltar a casa. Chorar. Rir. O resto foi apenas a vida. Convém distinguir.
O amor existe, não vamos negá-lo, e caminha todos os nossos passos. Se Deus for nosso amigo pode andar ao nosso lado, mas quem pode contá-lo como certo?

terça-feira, 10 de maio de 2011

Uma mulher muito pública

Quase todos os dias o carteiro me traz um envelope volumoso cujo conteúdo conheço antes de abrir. Mais um datiloscrito de um jovem autor ou autora, amigo de alguém que me conhece vagamente e obteve o meu endereço mediante consulta a outrém, com acesso à minha morada por portas e travessas.
Desde que publiquei Eu e Mamã, seguido de Morena Mija no Tapete, mas, sobretudo, após o sucesso de Cunilinguus, a Vizinha de Cima, tem sido a loucura. Tornou-se incontrolável. A Imprensa escrita, audiovisual, nacional, estrangeira, generalista ou especializada não me larga. Conferências em universidades. Aulas abertas. Conversas em acontecimentos de índole cultural. Continuo a explicar, em todas as entrevistas, que não passo de uma funcionária pública que escreve, não pretendendo outro estatuto - apenas o de mulher extremamente pública, mas a mensagem não passa. A Isabela e as suas personas, essa desfragmentação, não será um indício, uma espécie de esquizofrenia? O José Rodrigues dos Santos já mo perguntou duas vezes, e sempre em direto. Ultimamente, os jornalistas tiraram especializações em psiquiatria. Esquizofrenia?! A persona é um eu totalmente sob controlo, um eu consciente, trabalhado, explico muito calmamente. E rio-me.

Hoje chegou-me um datiloscrito interessante. Não gosto de tratar mal ninguém, mas custa-me responder-lhes, meu amigo, está quase lá; minha querida, demasiado palavroso; caro senhor, o seu texto não flui; excelentíssima senhora, o seu texto vale como documento, mas falta-lhe... literariedade. É difícil permanecer gentil após tanta leitura inválida. Satura. Dêem-me uma verdade, ou mesmo uma mentira que se lhe assemelhe, que transpire nas minhas mãos e arrebate esta alma tão exigente quanto frágil.
Hoje a caixa do correio trouxe-me, finalmente, a obra. Passei os olhos pelo título e comecei a ler sem esperança: Corpos. Mais uma lírico-xaropada sem memória futura, pensei, mas, desta vez, lixei-me. O homem apanhou-me, segurou-me pela cintura, atirou-me contra a parede do corredor e fiquei presa no seu abraço de ferro menstruado. Escrevia, o cabrão. Um escritor! Imagine-se, um escritor a sério. Um num milhão, onde é que isso se encontra? Respondi-lhe sem demora para o email que indicava no datiloscrito, exigindo-me moderação. Isabela, juízo, juízo, calma, dizia-me. E escrevi. Caro Samuel B. Ramos, gostaria de poder falar-lhe sobre a obra que me fez chegar. Contacte-me para este mesmo email, por favor. Os melhores cumprimentos. Fiz enviar e pensei, já está, já seguiu. E foi esse o pensamento que me interpelou. Convinha compreender em segredo, só para mim, a importância que atribuíra à curta mensagem que lhe tinha escrito, à urgência com que respondera e ao pensamento pós-envio. Não era uma mensagem qualquer. Eu pensara, já está, já seguiu. O que era isto? O que se passava comigo?

Existia um subtexto nessa mensagem. Não tinha sido apenas um gostei, contacte-me. Não, havia ali outra coisa mais sôfrega, e isso era o que me havia interpelado. Olhando bem para dentro, compreendi que o que lhe tinha escrito se traduzia em poucas palavras de desarmante objetividade: temos de foder ou quero foder-te ou, eventualmente, vem comer-me sem lei.
Era só isto.
E pensei, dececionada comigo, mas excitada com a breve possibilidade de saciar o apetite que o jovem autor me havia despertado, primeiro, a foda; segundo, e muitos passos atrás, a literatura.

Eu e Francesca

Francesca Woodman



Francesca Woodman fotografava-se nua com jarros, nua dentro de aquários, nua só consigo. Eu escrevo-me nua com as cadelas, nua no café, com a minha frieza, mesmo que lhe junte o tapete cor-de-laranja da sala de estar.

Francesca Woodman suicidou-se. Eu não tenho planos. Francesca deveria ter tomado o anti-depressivo sem falhas, todos os dias ao pequeno-almoço ou logo que se lembrasse.

A Francesca Woodman é um grito de carne, uma lágrima seca, e eu, segundo dizem, sou apenas uma puta. Tirando o anti-depressivo não vejo grande diferença.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Num café, entre o Laranjeiro e a Cova da Piedade, pelas 13h30

Nasci em Cabeceiras de Basto. Melhor, numa aldeia lá perto. Vim cá para baixo com seis anos, porque o meu pai arranjou trabalho na Siderurgia Nacional.
Não me lembrava de nada de Cabeceiras; era como se tivesse nascido no Seixal. Um dia, tinha eu 14 anos, volto a Cabeceiras com uns tios, de férias.. antigamente, para se ir do Seixal a Cabeceiras davam-se mais voltas do que em viagem até à China... e ao chegar... imagine isto... ao chegar reconheço logo os cheiros da terra. O fumo. O curral. As ervas. Reconheci aquilo de que nunca me tinha lembrado, que não sabia que existia. Afinal, estava lá tudo guardado. Foi nessa altura que percebi o que era ter uma terra.

sábado, 7 de maio de 2011

História muito simples II

Não acredito no esquecimento. As experiências dos sentidos, as palavras, emoções que vivemos devem encontrar-se registadas em filamentos ligados a outros filamentos, algures entre sinapses.
O cérebro contém um arquivo de rápido e imprevisível acesso, que procura, a cada instante, modelos, e desencadeia sistemas de alerta ao realizar o seu reconhecimento. Potencialmente, recordamos tudo, porque tudo está guardado, embora desconheçamos o processo e a linguagem de arquivo.

Há quase 40 anos que não me lembrava da Maria de Fátima. Desde o exame da 4ª classe que nunca mais nos encontrámos, nem haveria motivo, já que nunca fomos grandes amigas. Desapareceu da minha vida e da minha consciência. Foi apenas uma colega da escola. De certeza que percebia mais aritmética do que eu. Qualquer pessoa percebia mais aritmética do que eu. Pior, só os pretos, e mesmo esses. Pelo menos era o que me dizia a Dona Adelaide, uma regente muito séria.

Os olhos grandes. O cabelo escuro e liso, pelos ombros. Nariz e boca finos. O perfil, a maneira como rodou a cabeça, a posição do corpo. Eis a Maria de Fátima na descida do Pragal, inteirinha, 40 anos depois, mas ainda com 10 anos. Olhei-a, e o nome veio-me à cabeça sem que o chamasse: Maria de Fátima.

São as marias de fátima que não me deixam acreditar no esquecimento - suspeito, desagradavelmente, que um momento vivido sobreviva ao resto do nosso tempo.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

História muito simples I

Quando vínhamos de carro de Alcácer, aos fins-de-semana, e a Morena era bebé, meio cega ainda, caía do assento de trás, indo parar ao saco da roupa suja ou ao das batatas ou ficava entalada entre duas peças de bagagem.
Eu parava o automóvel na berma da auto-estrada, salvava-a com jeito, beijava-lhe o focinho, as patinhas, o umbigo, tudo rosa, dizia-lhe meu bebé, e punha-a no meu colinho, onde faria o resto da viagem. A Morena sempre foi uma bebé frágil e tonta que me apeteceu comer de amor.
O carro de apoio da Brisa estacionava atrás de nós, enquanto duravam as operações de resgate, e eu ignorava-o, e continuava caminho, com a minha pequena felicidade sentada ao lado, ignorando ainda, duplamente, que aqueles seriam os únicos gestos maternais que me caberiam, e que a felicidade nunca deixou de andar sentada sempre à minha direita.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Antigos namorados

Em 1998, tive um namorado protestante, um rapaz metódico, que frequentava a igreja uma vez por semana, conversava com o pastor sobre temas da atualidade, e pode dizer-se que era um bom companheiro. Telefonava-me todos os dias à noite, não me propunha indecências, mesmo quando me fornicava aos sábados à tarde, num primeiro andar, esquerdo, em Vila Franca de Xira, onde morava. Digo fornicava, porque enquanto ele o fazia eu tinha tempo para observar o teto da assoalhada, contar o número de pendentes do cadeiro e observar o design do mesmo, até que a função acabava e podia finalmente vestir-me, enquanto ele recuperava. Era muito bom rapaz, mas tive de deixar de lhe atender os telefonemas.

Nos meses seguintes apareceu-me um segundo candidato, desta feita muito católico. Chamemos-lhe um amante, porque tinha namorada desde o tempo dos escuteiros, iam casar, tinham a vida toda planeada. Eu tinha sido um acidente, uma tentação.
A namorada dava catequese aos sábados e ajudava à missa de domingo, e ele celebrava a eucaristia, diariamente, logo às sete, e comungava, antes de seguir para o emprego com a alma lavada.
Aparecia-me em casa de vez em quando, sem hora marcada, sem telefonemas, soterrado na culpa do seu incontrolável desejo. Sentia-o inominavelmente transtornado pela força invisível que o guiava até à minha porta, e não lhe dizia nada. Sem uma palavra, arrastava-me para a cama, encostava-me à parede, levantava-me a saia e a camisola e fodia-me vestida sem dar ocasião a que me alindasse ou criasse ambiente. Em momentos precisos, escutava-o murmurar um perdoai-me, Senhor, e pecava com sofreguidão, até já não aguentar, por atos e omissões, por sua culpa, sua grande culpa, com uma tal atenção aos pormenores, que nos censos que se seguiram resolvi declarar-me católica praticante.
Desde então, não quero cá ateus nem agnósticos nem hare krishna.