Mas acha que há assim tanta diferença entre fingir e falar a sério? [Arthur Schnitzler, A Cacatua Verde]
Sábado, 28 de Maio de 2011
Alívio
Sexta-feira, 27 de Maio de 2011
O Meu Amor não nos quis
Quarta-feira, 25 de Maio de 2011
Informes, incompletas
Terça-feira, 24 de Maio de 2011
Não existo
Sapphire, Precious. A Força de uma Mulher
Segunda-feira, 23 de Maio de 2011
As putas somos nós
As experiências de assédio e abuso sexual mais antigas que recordo datam dos meus 7 ou 8 anos, todas perpetradas por pessoas muito próximas à minha família, em quem os meus pais confiavam totalmente, e algumas das quais fui já relatando por aqui. Se em Moçambique, protegida, as tentativas de abuso sexual eram de difícil fuga, imaginemos o que terá sido, neste contexto, a vida de uma adolescente que cresceu depressa, sozinha em Portugal, saltando de casa em casa durante uma dezena de anos.
A minha adolescência foi isto: fugir de homens.
Um dia, já adulta, encontrei-o no Metro de Lisboa e não pude escapar-lhe. Estava velho. Pediu-me desculpa e agradeceu-me por nunca ter contado nada à esposa. Disse-me que eu tinha sido uma “grande mulher” porque evitei destruir o seu casamento. Não lhe respondi. Saí na estação de Metro que me cabia. Entretanto, soube, o homem morreu. Devo dizer que não era má pessoa. Era um homem culto, inteligente e bem-parecido, para quem foi normal assediar uma adolescente à sua guarda. Imagino que fizesse comigo o mesmo que faria às suas empregadas.
Por tudo isto me parece lindo que o diretor do FMI se encontre a ser julgado pelo crime de abuso sexual de que é acusado. Errou o alvo. Julgou que a negra se calaria, porque era pobre, porque não tinha poder. Lixou-se bem.
Domingo, 22 de Maio de 2011
Quando atingir a menopausidade...
A Mamã disse-lhe "não tenhas filhos: só dão trabalho, despesas, preocupações e tiram-nos toda a liberdade - e além disso, nesta idade, e com o teu trabalho, já não terias paciência". A menina pensou desobedecer, mas acatou.
A Mamã não gosta de ver a menina com cores claras. Não lhe ficam bem. "Não vistas a blusa creme; engorda-te".
A Mamã considera que as saias não favorecem a menina, e "o que tens andado a pôr na cara? Devias experimentar o creme que uso há mais de 60 anos, o Benamor, que aclara a pele e tira as manchas. E, já agora, penteia-te. Tens o cabelo tão fino que devias usar laca"
A Mamã pensa que a menina ganhava em passar uma pinturazinha, leve, uma base, um pó-de-arroz, um blush. "Antigamente usavas um batonzinho, agora nem isso."
A Mamã acha que a menina usa blusas demasiado decotadas e que se lhe vêem bocados do soutiã e é uma vergonha.
A Mamã pretende saber se a menina lavou o carro, se já entregou o irs, se foi tratar do problema das multas relativas ao automóvel anterior, se pagou o IMI, se a mulher-a-dias tem feito o serviço que lhe cabe, e se tem a casa arrumada e decente para apresentar a quem chegue.
Quando a menina não lhe obedece, a Mamã mostra-se zangada - pior, indignada.
A Mamã tem o poder.
A menina sonha que mais tarde, quando chegar à menopausa, quem sabe, há-de sair de dentro da Mamã e ser livre, completamente livre.
Sábado, 21 de Maio de 2011
Imunda imitação
Sexta-feira, 20 de Maio de 2011
Cada sentimento tem a sua fome própria
Gosto tanto de comer que não quero morrer, porque depois nunca mais como. Há 60 anos que sei que o meu regresso a casa não conseguiu domesticar a felicidade do campo. Ainda hoje continua a morder com a sua fome o âmago de qualquer outro sentimento. No âmago de mim reina o vazio.
Desde o meu regresso a casa, cada sentimento tem cada dia a sua fome própria, reclamando por satisfação, a que não dou resposta. A mim ninguém mais se pode agarrar. Sou instruído pela fome e, por humildade, inacessível, não por orgulho.
Herta Muller, Tudo o que Eu Tenho Trago Comigo.
Do poder
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.
[...]
Do patamar responde-lhe um criado:
"Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais." E muito descansado,
Atira um cobre ignóbil oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.
Transcrevo duas estrofes de Num Bairro Moderno, de Cesário Verde, pretendendo focar-me no gesto desdenhoso do criado.
De onde eram originários os criados, no século XIX? Do mesmo lugar de onde provinha a vendedora de hortaliças e legumes: da aldeia, da província, eventualmente da cidade, mas de um estrato social muito baixo. O criado que atira o "cobre lívido, oxidado" é seu "irmão social", contudo apresenta-se no patamar acima, ignóbil, oxidado - caraterísticas que podemos transferir da moeda para o homem envilecido.
Há uns dias, um amigo falava-me da realidade moçambicana nos dias de hoje, a meu pedido, e dizia-me algo que cito de memória, "os negros com dinheiro, todos de 4x4, são os que pior tratam os seus irmãos de raça. Não há hoje por lá nenhum branco capaz de tratar um negro com tanta indiferença e arrogância como outro negro. Não há um obrigada, um faz favor. Nada. É chocante."
Quem leu Primo Levi ou outros escritores do holocausto percebeu que os capos, chefes recrutados pelos SS para fazerem o trabalho sujo, criando leis dentro da lei, distribuindo trabalho, selecionando os grupos para as câmaras de gás e deixando-se corromper muito para além do que pode conceber a mente humana eram escolhidos entre os prisioneiros do campo de concentração. Os SS pouco saíam das suas casas, dos seus gabinetes. Concebiam uma estratégia que nem sequer precisavam de executar: os capos tratavam de tudo com grande eficiência, sem escrúpulos.
Somos lobos uns dos outros, não é o que se diz? Não é uma afirmação verdadeira, na sua essência: a natureza humana envergonha a animal, porque os animais comem-se por instinto, sem consciência do bem ou do mal, mas nós comemo-nos conscientes, procurando manter o mais artificial e transitório dos estados: o poder, mesmo o insignificante. Veja-se o criado em Num Bairro Moderno. Que poder tem aquele homem no interior da casa dos senhores?
Tudo isto a propósito da convicção socialmente correta do mainstream, todo escolarizado, de que os bonzinhos são bons e os mauzinhos são muito maus. Como se em cada um de nós não houvesse um anjo e um diabo e o que entre eles circula - a apetência para tudo, dependendo das circunstâncias, das oportunidades.
Quinta-feira, 19 de Maio de 2011
Aprendizagem
- Não dói.
Batemos com mais força, cada vez com mais força.
Pomos as mãos por cima de uma chama. Cortamos as coxas, os braços e o peito com uma faca e pomos álcool nas feridas. Dizemos de cada vez:
- Não dói.
Ao fim de algum tempo já não sentimos nada. São os outros que sofrem, são os outros que se queimam, que se cortam.
Deixamos de chorar.
Agota Kristof, O Caderno Grande
Da natureza humana dos monstros
Conforme pude ler na SIC on line, Lars von Trier declarou o seguinte: "Eu sei que ele fez coisas muito más, mas posso também imaginá-lo no bunker no seu final. (...) Que fique claro que eu não sou a favor da segunda Guerra Mundial, não estou contra os judeus", afirmou. E ainda acrescentou: "Estou com os judeus, com certeza, mas não muito, porque Israel aborrece-me verdadeiramente".
Desdramatizemos um pouco, se for possível, sem revisionismos. Se considero que Hitler, embora símbolo de horror, sofreu, como qualquer outro humano, o empolgamento da vitória e o desânimo da derrota? Considero. Alguém, desperto, pode ignorar que Hitler foi, na proximidade da morte, igual a qualquer um de nós, com as mesmas angústias, medos? Se ignorou e esqueceu a sua fragilidade humana, se se julgou acima dos mortais e os desdenhou profunda e impiedosamente - e sabemos que sim - terá regressado, no final, à sua condição humana: abandonaram-me; estou só; perdi; é o fim. O demónio que representou, retomou o homem, nas horas finais. Pelo que tenho podido testemunhar, vivendo, estudando, lendo, ao longo da minha vida consciente, isto tem certa lógica. Não a tem para quem organiza festivais de arte e pensa? A justiça humana precisa que os homens-monstro morram mais monstros e menos homens? Não somos só gente, e nada mais, na hora da nossa morte?
Assim que percebeu que as suas afirmações tinham causado polémica, Lars Von Trier apressou-se a explicar que "não é antissemita, racista ou nazi." E eu compreendo-o, devo dizer. O homem deve ter pensado o mesmo que eu penso tantas vezes, na rua, e que é, essencialmente, "para quê uma pessoa chatear-se?!".
Somos todos muito livres de expressar as nossas ideias na Europa democrática, mas livres dentro dos limites, desde que não se toque no que, podendo pensar-se, transformar-se em arte, aludidamente, não deve dizer-se.
Não creio que as afirmações de Lars Von Trier seja passíveis de equívoco, a menos que quem as ouve não compreenda ou não queira compreender o que é dito.
A maior hipocrisia, a meu ver, é que os responsáveis "sublinharam que o evento é um espaço "excecional" para os artistas de todo o mundo apresentarem as suas obras e "defenderem a liberdade de expressão e de criação".
Estou a ver.
Quarta-feira, 18 de Maio de 2011
O anjo caído
Terça-feira, 17 de Maio de 2011
A felicidade da boca
Domingo, 15 de Maio de 2011
Já não há surpresas
Meu deus
Percebo as veias que o percorrem à luz coada pelas cortinas. Quer-me. Quero-o. Beijo-o, desenho com a ponta da língua as curvas da glande, saboreio a camarinha que se forma no meato, e roço, ao longo do meu pénis, o rosto, os cabelos, o peito, as mamas, a barriga. Uso o brinquedo como me apetece. É só da menina.
No meu quarto na minha cabeça, ao longo dos anos, há um pénis ereto como nenhum outro. Quantos anos viverei? Sempre o mesmo, mil anos ereto, os mil anos da minha vida. No dia em que me atirarem à cova, ainda ereto. Enquanto houver uma célula da minha pele perdida atrás da porta, na casa vazia, ou um resto do odor das minhas axilas, ereto.
No meu quarto na minha cabeça, ao comprido de décadas, de décadas, brilha um pénis ereto ao qual me encosto. Um nervo flexível, um elástico bem esticado, retesado. Só eu posso vê-lo. Só eu conheço o seu cheiro a erva ceifada rente ao chão. Sinto-o duro contra a minha anca. Treme. Não há outro igual, em nenhuma coleção pública ou privada. É o meu pénis. Só meu. Acorda-me. Anima-me. Parece um cato tenro e sem espinhos, esse meu pénis vertical, o altar junto ao qual deixei de rezar, porque perdi o coração, queria eu dizer, a oração.
Sábado, 14 de Maio de 2011
Uma mulher muito bela
Era tão transparente que pude ver os tesouros que encerrava, e também os fantasmas que a assombravam. Sem palavras, pedia desculpa por estar ao meu lado, por achar não valer o suficiente, e era tão melhor do que eu.
Amantes
Poderia atribuir-se a causa ao calor, mas seria um erro. Tenho frio e tapo-me com os cobertores, muito aconchegadinha.
Percebi que os lençóis se aproveitam do meu corpo, durante o sono, e sem que eles saibam quero oferecer-me para que acordem frescos no novo dia.
O amor não anda ao nosso lado
Juntamo-nos porque os outros o fazem há milhares de anos como solução final. É o que se espera que façamos. Juntamo-nos e ficamos arrumados, nivelados.
Juntamo-nos para que a vida se justifique e legitime, ao assemelhar-se a todas as outras. É assim que se faz. É assim. Não vivemos sós.
Juntamo-nos porque acreditamos amar-nos. Descobrimos depois que, estando juntos, estamos juntos. Temos filhos. Habituamo-nos. Não estamos presos, mas de quem é este livro, e este jarrão? De quem é esta casa, este filho? O acordar de manhã, os gestos habituais? Fazemo-los porque estamos juntos ou porque nos pertencem? O que é meu e o que é teu?
Seria bom estar só, uns tempos, sem filhos, sem contas para pagar, sem obrigações; isso seria a vida, mas urgente, agora, é chegar ao Verão, liquidar os atrasados com o subsídio de férias. Comprar roupas para os miúdos. Substituir o frigorífico que não congela há mais de dois meses. Descansar por 15 dias.
Amamos aquele com o qual estamos juntos? Que pergunta mais estúpida! Estamos juntos, não estamos? Chega de pormenores. O que interessa o resto? Talvez tenha amado Helena muito mais do que Ana, mas o que importa isso agora? A minha mãe casou para se amparar, o tio Alberto amou toda a vida a cunhada - e nem no leito de morte lho revelou – e a minha tia negou-se ao rapaz por quem se apaixonou, por estar prometida ao tio Alberto. Todos amaram por demais, a vida inteira. Não terem acordado ao lado do objeto amado, não terem iniciado os gestos ou as palavras do amor não amputou o sentimento. Amaram. O amor andou à solta fechado nos seus peitos. Existiu, pesado, imanente. Adormeceu-os. Despertou-os. Fê-los sair de casa. Voltar a casa. Chorar. Rir. O resto foi apenas a vida. Convém distinguir.
O amor existe, não vamos negá-lo, e caminha todos os nossos passos. Se Deus for nosso amigo pode andar ao nosso lado, mas quem pode contá-lo como certo?
Terça-feira, 10 de Maio de 2011
Uma mulher muito pública
Desde que publiquei Eu e Mamã, seguido de Morena Mija no Tapete, mas, sobretudo, após o sucesso de Cunilinguus, a Vizinha de Cima, tem sido a loucura. Tornou-se incontrolável. A Imprensa escrita, audiovisual, nacional, estrangeira, generalista ou especializada não me larga. Conferências em universidades. Aulas abertas. Conversas em acontecimentos de índole cultural. Continuo a explicar, em todas as entrevistas, que não passo de uma funcionária pública que escreve, não pretendendo outro estatuto - apenas o de mulher extremamente pública, mas a mensagem não passa. A Isabela e as suas personas, essa desfragmentação, não será um indício, uma espécie de esquizofrenia? O José Rodrigues dos Santos já mo perguntou duas vezes, e sempre em direto. Ultimamente, os jornalistas tiraram especializações em psiquiatria. Esquizofrenia?! A persona é um eu totalmente sob controlo, um eu consciente, trabalhado, explico muito calmamente. E rio-me.
Hoje chegou-me um datiloscrito interessante. Não gosto de tratar mal ninguém, mas custa-me responder-lhes, meu amigo, está quase lá; minha querida, demasiado palavroso; caro senhor, o seu texto não flui; excelentíssima senhora, o seu texto vale como documento, mas falta-lhe... literariedade. É difícil permanecer gentil após tanta leitura inválida. Satura. Dêem-me uma verdade, ou mesmo uma mentira que se lhe assemelhe, que transpire nas minhas mãos e arrebate esta alma tão exigente quanto frágil.
Hoje a caixa do correio trouxe-me, finalmente, a obra. Passei os olhos pelo título e comecei a ler sem esperança: Corpos. Mais uma lírico-xaropada sem memória futura, pensei, mas, desta vez, lixei-me. O homem apanhou-me, segurou-me pela cintura, atirou-me contra a parede do corredor e fiquei presa no seu abraço de ferro menstruado. Escrevia, o cabrão. Um escritor! Imagine-se, um escritor a sério. Um num milhão, onde é que isso se encontra? Respondi-lhe sem demora para o email que indicava no datiloscrito, exigindo-me moderação. Isabela, juízo, juízo, calma, dizia-me. E escrevi. Caro Samuel B. Ramos, gostaria de poder falar-lhe sobre a obra que me fez chegar. Contacte-me para este mesmo email, por favor. Os melhores cumprimentos. Fiz enviar e pensei, já está, já seguiu. E foi esse o pensamento que me interpelou. Convinha compreender em segredo, só para mim, a importância que atribuíra à curta mensagem que lhe tinha escrito, à urgência com que respondera e ao pensamento pós-envio. Não era uma mensagem qualquer. Eu pensara, já está, já seguiu. O que era isto? O que se passava comigo?
Existia um subtexto nessa mensagem. Não tinha sido apenas um gostei, contacte-me. Não, havia ali outra coisa mais sôfrega, e isso era o que me havia interpelado. Olhando bem para dentro, compreendi que o que lhe tinha escrito se traduzia em poucas palavras de desarmante objetividade: temos de foder ou quero foder-te ou, eventualmente, vem comer-me sem lei.
Era só isto.
E pensei, dececionada comigo, mas excitada com a breve possibilidade de saciar o apetite que o jovem autor me havia despertado, primeiro, a foda; segundo, e muitos passos atrás, a literatura.
Eu e Francesca
Francesca Woodman suicidou-se. Eu não tenho planos. Francesca deveria ter tomado o anti-depressivo sem falhas, todos os dias ao pequeno-almoço ou logo que se lembrasse.
A Francesca Woodman é um grito de carne, uma lágrima seca, e eu, segundo dizem, sou apenas uma puta. Tirando o anti-depressivo não vejo grande diferença.
Segunda-feira, 9 de Maio de 2011
Num café, entre o Laranjeiro e a Cova da Piedade, pelas 13h30
Não me lembrava de nada de Cabeceiras; era como se tivesse nascido no Seixal. Um dia, tinha eu 14 anos, volto a Cabeceiras com uns tios, de férias.. antigamente, para se ir do Seixal a Cabeceiras davam-se mais voltas do que em viagem até à China... e ao chegar... imagine isto... ao chegar reconheço logo os cheiros da terra. O fumo. O curral. As ervas. Reconheci aquilo de que nunca me tinha lembrado, que não sabia que existia. Afinal, estava lá tudo guardado. Foi nessa altura que percebi o que era ter uma terra.
Sábado, 7 de Maio de 2011
História muito simples II
O cérebro contém um arquivo de rápido e imprevisível acesso, que procura, a cada instante, modelos, e desencadeia sistemas de alerta ao realizar o seu reconhecimento. Potencialmente, recordamos tudo, porque tudo está guardado, embora desconheçamos o processo e a linguagem de arquivo.
Há quase 40 anos que não me lembrava da Maria de Fátima. Desde o exame da 4ª classe que nunca mais nos encontrámos, nem haveria motivo, já que nunca fomos grandes amigas. Desapareceu da minha vida e da minha consciência. Foi apenas uma colega da escola. De certeza que percebia mais aritmética do que eu. Qualquer pessoa percebia mais aritmética do que eu. Pior, só os pretos, e mesmo esses. Pelo menos era o que me dizia a Dona Adelaide, uma regente muito séria.
Os olhos grandes. O cabelo escuro e liso, pelos ombros. Nariz e boca finos. O perfil, a maneira como rodou a cabeça, a posição do corpo. Eis a Maria de Fátima na descida do Pragal, inteirinha, 40 anos depois, mas ainda com 10 anos. Olhei-a, e o nome veio-me à cabeça sem que o chamasse: Maria de Fátima.
São as marias de fátima que não me deixam acreditar no esquecimento - suspeito, desagradavelmente, que um momento vivido sobreviva ao resto do nosso tempo.
Sexta-feira, 6 de Maio de 2011
História muito simples I
Eu parava o automóvel na berma da auto-estrada, salvava-a com jeito, beijava-lhe o focinho, as patinhas, o umbigo, tudo rosa, dizia-lhe meu bebé, e punha-a no meu colinho, onde faria o resto da viagem. A Morena sempre foi uma bebé frágil e tonta que me apeteceu comer de amor.
O carro de apoio da Brisa estacionava atrás de nós, enquanto duravam as operações de resgate, e eu ignorava-o, e continuava caminho, com a minha pequena felicidade sentada ao lado, ignorando ainda, duplamente, que aqueles seriam os únicos gestos maternais que me caberiam, e que a felicidade nunca deixou de andar sentada sempre à minha direita.
Quarta-feira, 4 de Maio de 2011
Antigos namorados
Nos meses seguintes apareceu-me um segundo candidato, desta feita muito católico. Chamemos-lhe um amante, porque tinha namorada desde o tempo dos escuteiros, iam casar, tinham a vida toda planeada. Eu tinha sido um acidente, uma tentação.
A namorada dava catequese aos sábados e ajudava à missa de domingo, e ele celebrava a eucaristia, diariamente, logo às sete, e comungava, antes de seguir para o emprego com a alma lavada.
Aparecia-me em casa de vez em quando, sem hora marcada, sem telefonemas, soterrado na culpa do seu incontrolável desejo. Sentia-o inominavelmente transtornado pela força invisível que o guiava até à minha porta, e não lhe dizia nada. Sem uma palavra, arrastava-me para a cama, encostava-me à parede, levantava-me a saia e a camisola e fodia-me vestida sem dar ocasião a que me alindasse ou criasse ambiente. Em momentos precisos, escutava-o murmurar um perdoai-me, Senhor, e pecava com sofreguidão, até já não aguentar, por atos e omissões, por sua culpa, sua grande culpa, com uma tal atenção aos pormenores, que nos censos que se seguiram resolvi declarar-me católica praticante.
Desde então, não quero cá ateus nem agnósticos nem hare krishna.


