terça-feira, 28 de junho de 2011

Chão

O arroz estava pronto, mas a escaldar, por isso deitei-me com ela no chão da cozinha, esperando que arrefecesse.

Não dissemos nada, porque ambas sabíamos que era apenas um momento de espera. O chão estava fresco e ela tinha calor. Eu gosto do chão.

Estivemos a beijar-nos, a pôr as patas uma sobre a outra; rodávamos e a outra rodava, e encaixávamo-nos, enrolávamo-nos. Eu punha-me de barriga para cima e ela cheirava-me o umbigo. Ela punha-se de barriga para cima e eu beijava-lhe a cicatriz da esterilização. Eu enfiava a cabeça no seu pescoço, ficando com as suas patas nos ombros e ela metia-me o focinho no sovaco. Não sei quem era cadela nem quem era mulher. Eu não fui mãe nem dona. Ela não foi dona nem animal possuído. Não tivemos espécie. Foi uma fusão que é o nada, e parecia que já sabíamos, por um saber diferente, que o nada é tudo.

Avaliação do desempenho

Há dias em que fico só a viver, sem fazer mais nada e maravilho-me. Tudo está por fazer, e espanto-me só porque estou ali a olhar as nuvens sem pensar, porque encontrei uma pedra em forma de coração, porque descobri que havia musgo numa parede húmida do jardim.
Depois chego a casa, vejo as marcas de sofrimento no meu corpo, todo esquartejado a bisturi, anos após ano, e penso que demoramos demasiado tempo a perceber que viver não é uma missão de guerra. O que tenho chega-me perfeitamente. Não vim lutar, apenas viver, ou seja, estar aqui sentada escutando os cães ladrar lá fora, e agora sair já a correr, porque tenho uma sequência de aulas para dar e não faço a menor ideia do que vou dizer - afinal cheguei do estrangeiro há menos de 12 horas.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O amor é um fungo

Inês deixou de o amar numa tarde de Fevereiro, num repente, ao perceber que Marco lhe tinha zanga, que se masturbava imaginando as suas partes, apenas por ser o corpo mais à mão. Ele sentado na cadeira de rodas e ela mexendo-se por ali, rodeando-o a cada momento. Ele não podendo caminhar, vivendo mentalmente, e ela tratando da vida, trabalhando, agindo, bela, vivaz.

Mas nessa tarde de Fevereiro ele dissera-lhe "detesto-te", e acrescentou, "sorry". Inês não sabe se foi o detesto-te ou o sorry, pendendo para o segundo, mas nesse instante quebrou-se o amor, fez a malas e deixou-o atado à cadeira de rodas, às paranóias e à mamã, e foi procurar a sua vida, uma vida, uma flor ao sol, um chão acabado de regar.

Agora já não o ama, com uma certeza indesmentível. Di-lo a toda a gente, e a si própria, várias vezes por dia. O Marco e eu nada. Acabámos. Não o amo. Aliás, nunca o amei, foi uma ilusão, digamos, uma habituação. E vive. Veste-se, pinta-se, mira-se ao espelho, e imagina as palavras de Marco se pudesse vê-la como nos velhos tempos. Não as palavras, porque Marco nunca falou. Imagina os seus olhos seguindo-a. Não o ama, mas há uma raiz que fica lá no fundo, arrancado o arbusto do amor. Parece que veio tudo, mas restou um filamento muito subterrâneo, que não se sabe existir. Dali não sairá mais nada, com sorte apodrecerá, mas antes dessa morte é um desperdício que ocupa espaço; a terra sente-o como um espinho. Ou um fungo muito crónico. Como exterminar um fungo? Aplicamos pomada todos os dias e o fungo permanece sossegadinho, caladinho, ali, contemplando-nos inativo.

Inês deixou de o amar numa tarde de Fevereiro e esse empolgamento perdeu-se. Isso é certo. Não pensa nele, mas sabe que tem um fungo. Arranjou outros divertimentos masculinos, mas o fungo continua inextinguível. Já perguntou à médica de família se haveria uns comprimidos, mas que não, que o mais provável era levá-lo para a cova ou para o crematório, e aí, sim, curava-se. E a médica riu-se, como se também tivesse um fungo, como se soubesse.


Por isso, Inês continua pintando os lábios com vermelho-cereja, depois olha-se no espelho, sorri, vê que é bonita, que está tão bonita, e imagina, meu Deus, se ele pudesse ver-me agora.

terça-feira, 21 de junho de 2011

As ervas daninhas do corpo

Lembrei-me da Isabel enquanto tirava as folhas secas das plantas.
Em Alcácer, tive um belo jardim de rosas perfumadas e gordos gerânios, húmido, fresco, com sapos que se escondiam entre os vasos e lagartixas ao sol. O meu jardim era um pouco árabe e o seu único defeito consitia em encontrar-se tão longe das livrarias, festivais de cinema e teatro, enfim, da cultura. Por isso, acabou. No dia em que dei as roseiras, chorei, porque tinha a certeza que ninguém as cuidaria como eu. Nunca mais voltei a Alcácer por me ser insuportável encarar esta certeza.
A Isabel, minha colega, visitava-me, e demorava-se pelo jardim recolhendo tudo quanto era folha velha ou doente que eu não retirara por desleixo ou falta de tempo. Também arrancava dos vasos as ervas daninhas. Parecia-me mal aquela sua intromissão na limpeza do meu jardim e penso que só hoje compreendi.
A Isabel já morreu há uns anos, embora fosse da minha idade. Revejo na minha mente o seu sorriso, o seu rosto claro e sardento, a cor ligeiramente azul-acinzentada nos dias pós-quimioterapia, quando conseguia levantar-se e caminhar. Lutou cotra um cancro durante quase uma década. Tudo começou pelos gânglios e foi progredindo corpo fora, até tê-la tolhido por completo.


A Isabel tinha um filho muito jovem e reguila, e o que mais lhe doía era deixar a problemática criança, o que veio a acontecer. O cancro é uma doença que me lembra um dispositivo de autodestruição. A certa altura o dispositivo aciona-se sozinho e raramente é possível desarmá-lo, e nem sequer percebemos porque foi escolhida aquela pessoa e não outra qualquer. É uma roleta russa.
A Isabel limpava as ervas daminhas, as folhas velhas, as folhas secas ou doentes. Não suportava ver fora dela o que também a minava por dentro. E eu penso que só ontem pude compreendê-lo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Poderá a literatura portuguesa reabilitar a economia nacional?

Tinha nascido para grandes feitos, mas não o soube até conhecer Paulo.

Maria debatia-se com renitentes insónias desde a mais remota juventude, motivo por que sofria como ninguém para se levantar cedo para a escola, o trabalho, a vida em geral. Valia-lhe ser disciplinada. A dor, o cansaço, a tristeza, nada a detinha. Perseverava. Levantava-se da tumba para cumprir uma obrigação. Tinha sido educada à antiga e à católica, por uma família conservadora de direita: operários, mas limpinhos e passajados seguidores da ideologia salazarista.

O que quiseres, conseguirás, dependendo da tua diligência. Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje. Não cedas aos impulsos do prazer. Não podemos fazer apenas o que nos dá na gana. Cumpre e serás recompensada.

E Maria cumpriu à risca as instruções do senhor padre e da família: ofereceu a outra face, calou-se, levantou-se sem ter dormido, trabalhou sem ter descansado, e foram muitos anos nestas lides, lendo grandes obras pela noite fora: ingleses, russos, americanos, poesia e prosa. Mas a leitura não aplacava a sua ansiedade. Entretinha-a e alimentava-a.

Formou-se em Direito, e por via da sua boa vontade e da obra do Senhor, entrou na política. Admirava Paulo Maçaneta, da associação de estudantes, que, como ela, escondia atrás do sorriso, da energia artificial, um segredo de noites insones. Maçaneta teria como ela os seus momentos de derrota. Era muito possível que estes irmãos se sentassem à mesma hora no canapé do escritório, agarrando a cabeça entre as duas mãos, os cotovelos pousados nos joelhos, suplicando, Senhor, ajudai-me nesta hora de cansaço e trazei-me o alívio de que careço. Teriam os seus minutos de liberdade, de solidão apaziguadora.

Apaixonados pelas ideias, pela dignidade da nação, meteram-se ambos na política ao mais alto nível, sabendo manobrar influências e multidões para chegar aos mais relevantes cargos na estrutura partidária. Maria seguia Maçaneta para todo o lado, devotando-lhe uma dedicação ilimitada, uma paixão verdadeira, inocente, embora. Sobretudo desde que o mestre a tinha ensinado a dormir. Era fácil, afinal, explicara-lhe. Esquece o Xanax, Maria, esquece o exercício, os banhos quentes, a música zen. Faz o que te digo. E resultou.

Maria adormecia agora de luz acesa, com as mãos sobre o peito, e dormia noites inteiras até às sete, sem interrupção. Seguia agora o mestre com outra energia. Em campanha eleitoral mostrava-se sempre fresca, sempre a seu lado. Ele curara-a.

E Paulo Maçaneta não a esqueceu no momento em que, beneficiando de um golpe de sorte muito bem planeado, conseguiu um lugar no governo. Maria teria uma pasta, e não seria uma qualquer. Maria ascenderia a Ministra da Saúde. Sabia de Saúde? Quem é que não sabe fazer um xarope de cenoura, um chá de tília? Claro que sabia de saúde.

Maria, radiante, jurou cumprir com lealdade as suas funções e duas horas depois telefonava ao Secretário de Estado da Cultura e ao Ministro da Educação, propondo uma parceria que beneficiaria as três tutelas: poupava ela, ganhavam eles, e mudava-se o país. A proposta era muito simples, e tinha tudo a ver com medicamentos: os técnicos de saúde, nos centros e hospitais, deixariam de receitar ansiolíticos e soníferos. Em vez disso, literatura portuguesa.

Ah, senhora doutora, ando muito inquieto, não durmo.

Muito bem, vai aqui levar uma coleçãozinha do Alexandre Herculano e vai ver que resolve a questão num instante.

Oh, doutora, a ação, em Herculano, excita-me muito...

Bem, sendo assim, deixe-me cá ver os catálogos das editoras... Bragança, Abelaira, Oliveira, Saramago... olhe, um Lobo Antunes, que me diz?

Só se for destes últimos, doutora

Pois claro, destes últimos. Tem preferência por algum título.

Qualquer um, mas dois ou três.

Mas olhe que um basta-lhe para um mês ou mais.

Mesmo assim, doutora, para não andar sempre para aqui a caminhar, faça-me o favor e receite-me tudo o que publicou desde há 10 anos, exceto as crónicas em jornais, se faz favor.

O senhor é que sabe, mas não abuse, não abuse, olhe que isto vicia.

E só com Literatura Portuguesa, Maria diminuiu os custos na saúde, aumentou os índices de literacia, promovendo o sucesso escolar, e desenvolveu o setor editorial, diminuindo largamente o número de desempregados.

Maria e Maçaneta chegaram ambos à Presidência da República, um de cada vez. Nunca casaram: Maçaneta dedicava as noites à nação.

sábado, 18 de junho de 2011

Uma guerra nossa




Sardinhávamos por Cacilhas e ela reparou na minha mão esquerda. Olha, trazes a aliança da tua avó! Pois, se a tens, por que não usá-la?!

E riu-se, satisfeita. Assim ninguém se mete contigo, andas pela rua sossegadinha. Fazes tu muito bem.

E continuou a pelar o peixinho dos santos, pejado de sal, com um sorriso estampado nos lábios tão similares aos meus. Finalmente, a filha sossegara, já não pensava em descendentes, em homens, e contentara-se em ser uma freirazinha de cabeça descoberta, consagrada à castidade, ao senhor, desistindo de se meter debaixo de uns e de outros, uma fonte de preocupações.

Tremi. A sirene da minha dignidade pessoal, do meu orgulho feminino, disparou. Caramba, tenho vaipes de derrota, mas não arrumei as botas, não arrumei mesmo nada as botas, esperem por mim, deixem-me só recuperar um bocadinho, que já levo de novo o meu cântaro à fonte.

Cheguei a casa e desencaixei do anelar esquerdo a linda aliança de ouro velho da minha avó, com a qual tinha sagrado o meu casamento com o mundo, a solidão, a arte... Queria exibi-la simbolicamente; aguentem a aliança da singularidade, interroguem-se, ponderem, questionem, então a mulher não era solteira?!

Mas tirei a aliança. O prazer no rosto da minha mãe era a sua vitória. Mostrava-me que me tornara no que desejou, e a ideia era-me insuportável. Não sei se isto configura um conflito de gerações tardio, mas sei que nunca quis ser o que sonhou para mim, portanto não vamos pôr-nos agora com modernices, alterando uma ordem que sempre resultou tão bem.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Outra vez a morte

Quando o meu pai morreu foi um alívio. Será a centésima vez que inicio um parágrafo com esta frase. Quando o meu pai morreu, pensei, "finalmente". Não era possível continuar a vê-lo muito mais no estado em que se encontrava. Ele sofria, ele sabia algures que estava no fim, e para mim e a minha mãe era o calvário. A morte do meu pai foi uma dádiva para todos. Não só o seu sofrimento tinha terminado, como agora podíamos chorá-lo, fazer o luto e reiniciar a vida.

A sua morte marca um ponto de viragem na minha vida com uma importância semelhante à do 25 de Abril ou à do dia em que encontrei o Meu Amor. Digo sempre antes do 25 de Abril ou depois do Meu Amor. Digo sempre antes da morte do pai. Ou depois.

A morte de um Império, de um Amor, de uma vida, constitui um ponto de viragem. O que se segue não será igual ao que foi.

Não nos basta reconhecer teoricamente que tudo muda, que tudo nasce e morre. Que é essa a ordem do mundo, e está certa. É preciso compreender que o sentido da vida não é morrer, mas viver, e, contudo, aceitar que a morte é um fim bastante digno para um corpo que se usou até poder.

Não sei se quebrarei hoje, ou amanhã, a caneca verde-alface que se encontra junto ao meu pulso direito, ou se vou entorná-la sobre o teclado e destruí-lo. Não sei se vou ser alvo dos impulsos violentos de algum maluco no caminho até ao emprego. Não sei se herdei Alzeimer da minha avó, não sei se sofrerei de osteoporose, como a minha mãe. Aos 48 anos, o meu corpo ainda se defende, mas não sei que doenças se revelarão amanhã. Posso ter uma morte fulminante, com sorte, ou demorar um bocado, o pior, porque, chegada a hora, o que quero é morrer sem sofrimento nem atrasos. Não quero a minha vida prolongada artificialmente, não quero arrastar. Não sou esse tipo de pessoa, que vive no equívoco, que protela. Quero ser tão objetiva na morte como na vida.

Os amigos dizem-me demasiada fria relativamente ao tema. Talvez tenham razão. Sou como o vento de Janeiro no que toca aos finais. Se é para acabar, acabou, finish, passemos ao próximo. O que se gastou, está gasto. Mas, incomoda-me, também, a incapacidade revelada pela civilização ocidental para lidar com a única certeza que temos e podemos antecipar. A nossa morte virá dentro de dois, doze, trinta anos. Ou na semana que vem. Não interessa. Podemos tomar suplementos alimentares e usar cremes hidratantantes, o que faço muito, mas a morte, apesar de tudo, vem, instala-se, usa o que tem de usar, como tem de usar. Quem não conheceu na vida um joão que nos saudou, alegre, pelas dez, e às quinze estava ceifado?! Terá deixado a cama por fazer? A gaveta da cómoda aberta? A chávena do café, uma bolacha na mesa da cozinha?

Penso na morte todos os dias. Tenho tido bom treino. A minha mãe pode morrer a qualquer momento, e preparo-me para a notícia. O coração. Os pulmões. Se me telefonam tarde na noite atendo, pensando "foi agora". Penso igualmente na minha morte, sobretudo por questões afetivas, pelos que deixo: quem cuidará das minhas cadelas? Já levei alguém a jurar que cuidará delas na minha ausência. Cuidarás delas como se fosse eu? Sim, cuidarei.

Acredito que é importante, em alturas de ânimos exaltados pela morte, ou seja pelo que for, arrefecê-los, desemocionar, desproblematizar. A minha técnica continua a mesma, há muitos anos, e resume-se numa frase "Aconteceu. Vejamos o que fazer para resolver o problema e continuar a vida com a necessária calma".

Viver é uma experiência interessante com prazo de validade indiscernível. Enquanto não morremos, e os outros não morrem, convém vivermos e vivê-los. A roda roda outra vez, uma e outra vez. E por muito que se deseje, nada mais há a dizer.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A minha aliança de casada

Foto: Isabela Figueiredo, agorinha mesmo






Casei há cerca de hora e meia.

Foi em casa da minha mãe, que me ofereceu uma peças vintage, entre as quais a aliança de casada da minha avó paterna, que por acaso expulsou o marido de casa por volta de 1924, porque não queria bêbados a viver debaixo do mesmo teto. Esta história é capaz de já ter muitos pontos acrescentados, mas foi assim que ma contaram. Nunca ouvi falar do meu avô paterno, não lhe conheço a profissão, apenas o nome, e consta que morreu nos anos 60. Nunca se verteu uma lágrima, em seu nome, à minha frente. Não sei onde foi enterrado. Todas as especulações são possíveis.

Já tenho a grossa aliança de casada, em ouro dos anos 20 do século passado, no meu anelar esquerdo, e não faço contas de a tirar, a não ser por motivos que o justifiquem profusamente, e agora não estou a ver nenhum. Nas lojas e instituições vou passar a ser muito melhor tratada, pode ser que o meu namorado aqui da rua, o do cãozinho, desista de me pedir em casamento, e tenho a certeza que o meu estatuto, de forma geral, vai melhorar, porque uma mulher casada, toda a gente sabe, não é refugo, um estafermo qualquer que ninguém escolheu.

Se viajar para países árabes ou mediterrânicos, a aliança protege-me. Os meus vizinhos vão pensar que sou apenas uma senhora cujo marido trabalha no estrangeiro e não a solteirona dos cães. Até eu, olhando para a mão esquerda, reconheço o solenidade do objeto no seu contexto, e não sinto que haja, no seu uso, uma mentira.

Não casei há hora e meia, mas há muitos anos, com o meu desgosto, a minha necessidade de viver, sorrir, continuar, apesar de ter perdido o que se pode perder, exceto o último reduto de lucidez, tendo essa ficado ligeiramente suspensa por uns tempos, a ver se voltava a colar, e colou. Casei com a minha carência de silêncio, alívio e morte. Com as escolhas que fiz, que me trouxeram ao quarto de solidão almofadada de onde não pretendo sair, porque não saberia viver noutro. Casei com a memória, o passado, o meu pai, os sonhos que todas as noites sonho com o meu pai - olá, querido! - as minhas cadelas, a minha mãe, os meus amigos, alunos, os grandes filhos-da-mãe. Casei, também, com a sorte de ser uma pessoa amada de forma muito simples, mas autêntica, sem nada mais, só isso. Esse amor alivia o meu desgosto e justifica sem apelo a minha nova aliança velha.

Toda uma educação

Ser formal. Não dar nas vistas, mas dar-se a ver. Revelar apenas o essencial, sendo que revelar não é mostrar. Ter cautelas. Tatear o terreno. Ver até onde se pode ir. Dar a volta à questão. Mentir para benefício próprio como forma de resistência passiva, porque não nos vamos prejudicar à borla, certo? Não emitir opinião, porque a dos outros serve fartamente. Falar como se se sussurrasse. Não sorrir muito. Não rir alto. Passar a impressão de que se é alguém importante e acreditar que é possível ser-se mesmo. Fazer de conta que não se viu, não se ouviu, não se percebeu. Responder com perguntas. Não afirmar, colocar a hipótese.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A vida é lenta e morna

Fiz a massagem com o gel anticelulítico nas coxas, barriga e braços, enquanto aproveitava para ver em vídeo Lost in Translation, de Sofia Coppola. Não gostei de Lost in Translation quando o vi no cinema: desvalorizei a realizadora, bem como a principal atriz, jurei que jamais iria a Tóquio, cidade mais impessoal do mundo, e que não passava de um filme lento e morno, com uma historiazinha de atração quotidiana que agradaria à madre Lúcia dos Três Pastorinhos. Terei visto o fime em que ano? 2006? Se foi em 2006 talvez consiga contextualizar. O meu gosto é altamente influenciado pelos contextos de vida, que posso fazer?!
Hoje pareceu-me bem.
A Morena veio deitar-se no tapete da sala a pedir-me festas, com as quais a obsequiei, embora a tivesse avisado previamente de que as minhas mãos e pernas se escontravam barradas com odores insuportáveis para o seu faro canino. Suportou-os, pelo que a cocei e massajei, lhe dei beijos e lhe limpei os olhinhos com um paninho de flanela, enquanto ela respirava fundo. Pensei que devíamos todos ser Morenas que se aproximam de quem gostam e pedem, sem palavras, acaricia-me, dá-me atenção, faz-me festas. Trata de mim.
Os momentos felizes da vida são simples, ver um filme, acariciar o nosso cão e gozar a sua companhia, a sua confiança e entrega.
A história da minha vida, apercebi-me a certa altura, é assim lenta e morna e quotidiana como Lost in Translation.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Mamã vai votar à esquerda

Apesar do descrédito que me merece o negócio político, e tendo ponderado muito seriamente abster-me, pela primeira vez, desde que ganhei direitos de cidadania, decidi votar nas eleições do próximo domingo. Passo a explicar:

1. Não votarei à direita, porque os valores que defende já estão gastos desde a extinção do Tribunal do Santo Ofício.

2. Não votarei no PS, em tempos um partido progressista, que serviu como alternativa à esquerda não monolítica. O PS de hoje é uma organização muito diferente, um conluio de interesses e proteções.

O meu voto, será encarado, portanto, como não útil, uma vez que não contribuirei para a eleição de nenhuma das forças políticas de topo.

Mas o essencial da questão é exatamente esse: já fomos bastamente governados pelas forças políticas de topo, já sabemos o que delas sai, portanto não posso compreender a insistência autofágica em mais do mesmo.

Faz-nos falta uma experienciazinha diferente. Pode correr mal, como tudo, mas por enquanto não sabemos. Insistir em levar porrada todos os dias e gemer todos os dias e levar porrada todos os dias é que me parece pouco saudável.

Eu sei que somos portugueses, mas, caramba, não estamos mortos!

A Mamã esteve a explicar-me por A mais B, no passado fim-de-semana, por que temos de votar à esquerda, e eu sorri, porque me lembrei do Papá a chamar-me comunista - e a Mamã e o Papá sempre votaram nos mesmos partidos. Mas chegada a altura em que a Mamã me senta ao seu lado e me diz, Isabela, no próximo domingo vamos votar naquele partido de esquerda porque temos de ter alguém que nos ouça e nos defenda, algo quebrou. E essa quebra agradou-me.