quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A Confraria da Minhoca





Eu e alguns amigos temos um segredo que guardamos há décadas, porque a sociedade não está preparada para aceitar certas brincadeiras, mas chegou a altura de o revelar, a fim de evitar confusões: sim, é verdade, um grupo alargado de intelectuais portugueses, todos pela minha idade, têm uma minhoca tatuada no dedo médio da mão direita.

Nos anos 80, formamos um grupo para andar à minhoca, ao quilo, no Canadá. Ganhava-se dinheiro para os luxos, e era divertido, todos juntos na paródia, no escurinho da noite, metidos em lama luxuriosa até às virilhas. Éramos jovens e procurávamos sensações novas e o supremo estatuto da diferença, acima do comum mortal. Ninguém poderia saber que nos divertíamos com as minhocas, mas desde que nunca viesse a saber-se.

A tatuagem no dedo médio direito identificáva-nos enquanto membros da Confraria da Minhoca. Quem queria trabalhar com uma rapariga tatuava uma minhoca fêmea, quem preferia um rapaz, a minhoca macho, e quem era "boa boca", a minhoca hermafrodita. Isto servia para nos distinguir de outros grupos que também andavam à minhoca, mas com diferentes objetivos, sobretudo indigentes. Nós estávamos acima dessas insignificâncias. Note-se que alguns de nós chegavam a ser filhos de operários da Lisnave. Que nos interessava o dinheiro?! Não éramos emigrantezinhos: tínhamos orgulho na função, e métodos próprios. Apanhávamos minhoca com as mãos (manual), a boca (oral), com os dedos dos pés (podológica) e chegávamos a rebolar-nos na lama para trazer um ror delas pegadas ao tronco (total). Usávamos avental, como qualquer confraria, e quando combinávamos reunir-nos, cada indivíduo, para se fazer identificar, como senha, esticava o médio da mão direita e exibia a minhoca tatuada, ou seja, a sua pertença. Foram tempos bem passados.

Vemo-nos agora sujeitos a vil chantagem: um minhoqueiro do grupo ameaça contar tudo sobre esses tempos se a minhoqueira, com a qual acabou por casar, não lhe deixar a casa, o carro e as jóias, pelo que combinámos esclarecer este assunto antes que passe para os jornais, para não desviar as atenções do colapso financeiro internacional, o qual queremos seguir sem distrações.

domingo, 25 de setembro de 2011

Dez minutos

Manhã de domingo no meu bairro da Margem Sul, onde as pessoas são pobrezinhas e desempregadas, e num Bairro Bem de Lisboa, onde também devem ser, enfim, mas disfarçando melhor: observação direta.

1. No meu bairro os aviões passam muito mais alto, de maneira que não se sente um tsunami prestes a atingir a costa de 5 em 5 minutos.

2. No Bairro Bem a construção dos edíficios é de melhor qualidade, e existiu ali um evidente planeamento urbanístico. Não há urbanizações em forma de surto de cogumelos, cada um de espécie diferente.

3. No meu bairro não há tanto cocó de cão nos passeios. No Bairro Bem, sim, porque os senhores de idade deixam os animais ir sozinhos à rua e, já se sabe, não limpa o cão, porque não sabe, e não limpa o dono, porque a coluna não permite.

4. Na esplanada do Bairro Bem todos pedem para se sentarem na mesa do outro, só um bocadinho, a beber o café, o que para mim é confiança a mais, mas quando se vai a responder que sim, com certeza, por boa educação, já o outro se sentou. No meu bairro ninguém se senta na mesa da professora, ponto final. A professora está a ler. A professora não se incomoda. No meu bairro ainda há estatuto.

5. Na esplanada do Bairro Bem discutem-se:

a) marcas de antidepressivos e estabilizadores e outro tipo de calmantes. O antidepressivo toma-se à noite. Não, de manhã. Nem, pensar, sempre à noite. Então e o estabilizador, é de que laboratório? No meu bairro ninguém toma antidepressivos, e mesmo que tomasse não o revelaria. No meu bairro fala-se sempre do Benfica, e se alguém é do Sporting tem uma má manhã.

b) o casamento estudado e bem sucedido da mana com um fulano riquíssimo da linha de Cascais, que vai a lojas Dior e compra o que lhe apetece, e chega de visita ao Bairro Bem em carro com motorista. No meu bairro, as miúdas costumam engravidar de um preto que mora na rua da minha mãe, mas não sei explicar porquê.

c) marcas de tabaco e respetiva qualidade. Numa mesa, há quem enrole cigarros numa maquineta, uns atrás dos outros, porque sai mais barato e de qualidade e, sobretudo, porque SG nem pensar, e Gitanes é só carbono. No meu bairro fuma-se o tabaco mais barato da máquina e ninguém enrola tabaco nas mesas para evitar parecer amaricado.

6. Na esplanada do Bairro Bem os homens dão-se luxo de falar mexendo as mãos e traçando a perna. No meu bairro podem fazer tudo isso em casa, mas no café são machos, muito machos, cada um deles mais do que o outro, e ninguém duvida.

Nos dois bairros, o sol e a frescura da manhã são as mesmas.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Os do lado de lá

A propriedade servia de canal de entrada, no país onde eu vivia, a clandestinos, negros, provindos do regime autoritário cujo território se iniciava nas traseiras desse mesmo terreno. Saltavam a vedação e penetravam na propriedade, deslizando como cobras entre o capim alto.
Do lado de lá a vigilância era permanente, cerrada, mas os negros conseguiam, apesar de tudo, encontrar abertas, momentos de distração, golpes de sorte. Arriscavam. Todos os dias havia gente apanhada no salto e gente que saltava. Mulheres, crianças, homens, famílias inteiras.
A propriedade não me pertencia. A casa estava abandonada desde que os donos morreram. Frequentava-a para alimentar animais perdidos ou abandonados que aí se recolhiam. Cães e gatos. Havia lagartixas, osgas, insectos, ratos pela propriedade abandonada, para gáudio dos cães e gatos, mas que eu temia.
Via os clandestinos rastejarem, no escuro da noite, lentamente, pelo capim, escondendo-se nas árvores e arbustos, procurando que os seus movimentos não acordassem os sensores sonoros e luminosos que aí existiam, e lembrava-me desses animais asquerosos, embora pequenos, com os quais se cruzariam.
A minha passagem costumava despertar os sensores, e era desagradável, mas os guardas, sempre do lado de lá, com acesso ao lado de cá, confirmavam a minha presença pelas câmaras, conheciam-me, e comigo não havia problema. Eu era branca e pertencia ao lado de cá. Não queria saltar para o outro lado. Eu era a mulher dos animais, não representava qualquer perigo. Não interessava.
Os clandestinos sabiam da minha existência, conheciam as minhas horas, e esperavam que eu passasse, e os alarmes fossem acionados, para aproveitar o minuto seguinte de nova escuridão e restabelecimento da ordem e conseguirem sair. E eu, vendo na noite os seus vultos parciais, por vezes sentindo-os, apenas, um coração bater, uma respiração apressada, a erva roçada, fingia não os ver. Nunca trocámos uma palavra. Nunca contei a ninguém que os via todas a noites procurando salvar a vida. Era um segredo que ninguém revelava.

A sua coragem engrandecia-me, mas estava para além disso. Eu sabia o que era movermo-nos no silêncio e na escuridão em direção a uma luz futura. Sabia o que era arriscar tudo para salvar a vida.

Simulava trancar o portão, mas deixava-o aberto, apenas encostado, para que pudessem sair por ali sem saltar o muro. Era assim todas as noites.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Fica

Abrimos a porta de casa e dispersámo-nos farejando os teus lugares. Queríamos encontrar o cheiro da tua vida.

A Morena sentiu-o logo no tapete laranja da sala, e eu fui direta à tua cama do quarto, peguei nos teus lençóis e cheirei-os fundo. Ainda estás lá. O teu sangue, a tua carne fendida. Depois chorei longamente, rasgada, de joelhos, como as pessoas fazem quando são derrotadas, e não podem recuperar o que perderam.
No corredor percebemos o rasto do teu corpo arrastando-se em direção à varanda, devagarinho, e escutámos o teu latido baixo, vem dar-me uma ajudinha.
A tua taça de água, entre a casa de banho grande e o quarto, tinha uma capa de pó. Quebrei-a, e, por baixo, a água continha o sabor doce e morno do teu hálito, que a Morena bebeu.
Não devia ter lavado na véspera da partida o teu edredão do escritório, manchado de pus e sangue, porque agora poderíamos cheirá-lo e rebolar-nos sobre essa parte de ti ainda presente. Consola-me saber que temos o teu pêlo atrás das portas, e um pouco por toda a casa. Vamos recolhê-lo e guardá-lo, porque o pêlo nunca morre.
Na sala cheira a desinfetante, a pomada antibiótica e cicatrizante, e ficaram espalhadas compressas, ligaduras, adesivo, tesoura, e os medicamentos que tomavas a horas certas, para ficares boa.

Cheira-me também, não sei se é por saber agora demais, à morte que um corpo adia, não compreendemos porquê. Adia por acaso, não por amor, porque nesse caso tê-lo-ias antecipado, porque era a mim que me cabia tratar-te, aliviar-te, consolar-te, e, se nada pudesse alterar-se, cavar a tua cova com os meus braços, embrulhar-te numa mortalha, e enterrar-te, sentindo uma última vez o teu peso e cobrindo-te de terra. Isso era um assunto nosso e de mais ninguém, e tu sabe-lo muito bem. De mais ninguém. Era minha missão.
Já farejámos os teus lugares, já perguntei à Morena, sentes o vazio, sentes? E queríamos que ficasses, porque amanhã vai estar sol na varanda frente, logo de manhã, e tu adoras o sol da manhã. Por isso, fica connosco. Não lavo os teus cobertores. As tuas camas estão nos mesmos lugares e não sei se a Morena se atreverá, por ora, a ocupar o que sabe pertencer-te. Chama-me baixinho uma só vez, pela manhã; eu levanto-me, pego-te ao colo e levo-te para o sol.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Minha querida, minha muito querida, minha menina

Micas



A Micas morreu dois dias depois de sair de Portugal.

Contaram-mo agora. Que tinha um cancro.

Não tinha cancro nenhum. Não tinha. É uma desculpa qualquer.

A Micas era tão feliz. Éramos tão felizes as três.

Quando a deixei em casa da minha mãe, antes de vir, abracei-a, beijei-a e disse-lhe, "a mãe volta, a mãe não te abandona".

Morreu sem mim. Abandonei a minha Micas.

Esta é a última foto que lhe tirei, uma semana antes de vir para os EUA. Olhava assim para mim, e falava comigo.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A minha América II - Ajudar

Foi naquela esquina, naquele Andy's Deli II, naquela paragem de autocarro.




As cidades têm os seus segredos. Não basta seguir as indicações do phone card. Falta sempre um código qualquer que só um indígena nos poderá fornecer. Não basta apanhar o autocarro, é preciso saber como pagar a viagem. E é aqui que esta história começa.
Temos a paragem do autocarro, a mercearia em frente, que pertence sempre a asiáticos sem pele branca, e uma jovem mãe, loura, alta, magra, bem parecida, com o filho dos seus 8 anos ao lado. Parece-me a pessoa ideal para me ajudar a perceber como funcionam os transportes públicos. Atiro-me. Excuse me. Can you help me, please? A jovem mãe responde-me sorry, com um olhar vagamente culpado, tentando abrir rapidamente a porta da mercearia e ver-se livre de mim. E o olhar do filho. Sobretudo o olhar do filho. Fico a contemplá-los, parada, incrédula. Ninguém recusa um pedido de ajuda. Ela é uma senhora. Vê-se. Há uma fração de segundo em que não compreendo. Não quer ajudar-me? Não quer ajudar-me, porquê? E de repente, luz! Abordei-a usando uma linguagem que, aqui, está errada. E sinto o meu orgulho ferido. Por quem me toma? Abro a porta da mercearia, sigo-a e abordo-a de novo, com indignação, excuse me, again, but I was just asking you some information about the bus service! Ela olha para mim. Finalmente olha para mim, pede-me desculpa, e responde às minhas dúvidas. Fico a saber que posso comprar um cartão para uma série de viagens, na estação do metro, ou pagar com moedas. Pergunto-lhe, e se não tiver moedas? Não, só com moedas. Muito bem, entendemo-nos, agradeço e saio, pensando que isto nunca na vida me tinha acontecido. Primeiro pensamento, estou vestida como uma pedinte? O que é que vesti hoje? É assim tão mau? Estou assim tão acabada? Tenho um aspeto miserável? Cansada, olheiras, sim. Segundo pensamento, se perdesse o orgulho ainda ganharia uns dólares à porta desta mercearia, e com o mesmo tipo de abordagem. Terceiro pensamento, vamos lá arranjar uma frase que não seja equívoca para os nova iorquinos. E que tal, excuse me, may I ask you if… ou can you give me information about… Qualquer enunciado que não inclua help. Nestes dias, ninguém ajuda ninguém. Aposto que a jovem mãe olhou para mim e pensou, tens um belo corpo para ir trabalhar.