terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sr. Simões desmonta Isabela

Sábado de manhã. Mercado situado algures na Margem Sul, extremamente multirracial.
Quando Chico o encontra, o sr. Simões encontra-se debruçado sobre a banca da d. Irene, escolhendo cenouras para o creme. Já mandou pesar courgete e alho francês, arrumados num saco de plástico, ao lado.
Chico - Sr. Simões, então o Brasil?
Sr. Simões - Oh, rapaz, dê cá um abraço. Já não o via desde quando?
Chico - Desde o Verão. Foi para o paraíso e deixou-nos.
Sr. Simões - O paraíso, diz bem, Chico! Lá é que você arranjava uma rapariga dessas de que gosta. Há para todos os gostos, homem!
Francisco ri-se.
C. - Sr. Simões, a minha coluna está pior que uma estrada no interior do Kosovo...
Sr. S. - Ah, não diga isso. Não se faça de menos.
Francisco mudando de conversa, embaraçado.
C. - Estranho vê-lo na praça, sr. Simões. Costumo encontrar a sua esposa.
Sr. S. - (esboçando uma careta) - Desde que cheguei do Brasil está com uma crise de fígado que não se lhe pode dirigir a palavra. Uma bílis! Há uns tempos, sempre que lhe falo em Brasil, fica assim. Até parece que não tem tudo em casa. Olhe que não lhe falto com nada!
C. - Encontrei-a pelas Almadas a tomar chá com a Isabela, há umas semanas.
Sr. S. - O mal é esse: a Isabela não é boa companhia!
C. - A Isabela não é boa companhia?!
Sr. S. - Para a minha senhora, não. Para si, essas intelectualices de que falam, vá. A Isabela tem ideias muito modernas, percebe?! Muito cheia de opiniões, eu isto, nós aquilo. A minha mulher é doutra geração e a abordagem dá-lhe a volta à cabeça. Quando as sei ao telefone, tremo. As maluquices da Isabela são sempre de evitar.
C. - Mas agora anda sossegadinha!
Sr. S. - Pensa você. Aquilo está sempre a ferver. Você não lê o que ela mete no Facebook?! Estou sempre receando a próxima loucura a sair do forno.
C. - Vamos lá ver: é uma loucura literária, controlada.
Sr. S. - Uma loucura literária?! A Agustina tem loucuras literárias?!
C. - Não é a mesma estética.
Sr. S. - A Lídia Jorge tem loucuras controladas?!
C. - Não é o mesmo estilo, sr. Simões.
Sr. S. - Maluqueira...
C. - São uma metacoisas. A Isabela vive muito à artista, confundindo arte e quotidiano... Eu acredito nela, sr. Simões.
Sr. S. - Oh, Chico, você tem piada! Gostava era que me dissesse como se promove uma escritora que não se dá ao respeito!
C. - Eu não iria tão longe, Sr. Simões! São artistas, o senhor sabe bem... dá-se um desconto.
Sr. S. - É ridículo, meu amigo. Aquilo é ridículo, ridículo, rídículo.
C. - Para uns...
Sr. S. - Para todos!
C. - Há quem lhe ache graça!
Sr. S. - Você parece estar do lado dela.
C. - Conheço-a há muito tempo, sr. Simões. É boa rapariga. Tem o seu feitizinho, mas sei o que tem sido a sua vida.
O Simões franze a testa.
Sr. S. - Não me diga que você é do tempo do Anticristo?!
C. - Isso.
O Simões estala os dedos duas vezes e abana a cabeça outras tantas.
Sr. S. - Esse gajo teve uma sorte - e um azar! Sabe, Chico, eu, a Isabela, tenho cá a minha teoria...
Francisco não responde.
- ... aquilo é material... (hesita) Aquilo é material que nos vem à mão uma vez na vida.
Francisco treme.
- ... e ou se apanha... e é sorte, ou se larga... e nesse caso... sorte é!
Simões ri-se sozinho.
- Com a Isabela dá no mesmo, percebe?!. Tudo depende da quantidade de adrenalina que se está disposto a gastar. E no caso do Anticristo...
Simões não consegue parar de rir.
- ... o gajo acabou por ter sorte. Não tinha pedalada para um motor com aquela cilindrada. Quando fica sem travões, quem é que segura um bicho daqueles?! Você já a viu quando...
C. - Eu não vi nada! Nunca vi nada. Não sei de nada.
Sr. S. - Sorte a sua. É cada guinada!
C. - O sr. não a larga.
Sr. Simões - Sim, mas a Isabela é como trabalhar pro bono. Não leva aquilo a sério. A mulher devia ter-me entregue um romance em Julho.
C. - É a escola, Sr. Simões.
Sr. S. - Ela inventa desculpas: a escola, a mãe, as cadelas, uma cirurgia... Tem catálogo de desculpas.
C. - Agora arranjou um namorado.
Sr. S. - O canadiano?
C. - Sim.
Sr. S. - E você acredita nisso?
C. - Por que havia de duvidar?
Sr. S. - Oh, Chico, homem, acorde! A Isabela inventa tudo. A mulher não tem vida! Cria-a na literatura e consome-se nela. Uma solteirona diplomada daquele gabarito arranjava um canadiano em Nova Iorque, como nos quer vender?! Oh, senhor, nem um operador de call center que morasse ao Rato. Esqueça isso. É preguiçosa, é o que ela é!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O que nos separa do mundo




Trieste

Nesse Verão nenhum de nós buscava terra firme
parecia-nos caminhar há séculos sobre as águas
Donde viemos nós? Como chegámos a esta luz
austríaca sobre as colinas
ao fumo lento no anfiteatro do golfo
à ordem aleatória do tempo?

Talvez nos caiba viver por cidades estranhas
em casas que esconderão sempre o seu medo
e a sua glória
sós diante dos céus
sem a certeza culminante

Vemos a tarde perder-se na direcção do molhe
O mundo é aquilo que nos separa do mundo


José Tolentino Mendonça, O Viajante sem Sono

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Uma esperança, um se, um talvez



Olhei para trás e meti-me com a Morena, então, querida, vais com calor? Enquanto o dizia, revi mentalmente a Micas com o pescoço estendido para apanhar a brisa que entrava pela janela, sempre sentada, sempre atenta ao movimento na rua. Lembro-me de ter pensado, numa das últimas vezes em que andou comigo de carro, nem doente ela desiste, nem paralisada se conforma e deita. Lembro-me de me ter sentido feliz com a força, a vivacidade da Micas e de ter pensado, sem pensar, apenas uma certeza, a dona trata de ti, meu amor. Tudo isto no tempo que se leva a articular uma frase tão curta como "então, querida, vais com calor?". No segundo seguinte a realidade informou-me que a Micas já não existe, e no outro, ainda, equacionei para mim essa perda. Foi o pior segundo, aquele em que confrontei a imagem mental da Micas procurando a brisa que entrava pela janela do carro, e a consciência da sua ausência. A perda causada pela morte é um nunca mais. É uma dor diferente de todas, porque não nos resta uma esperança, um se, um talvez. O que a morte nos leva, sabemos que não voltaremos a encontrar no tempo da nossa vida.

Precisei, de novo, de trazer à memória os momentos bons da Micas, quando passeávamos pelo campo, quando se deitava no chão com a cabecinha sobre os meus pés, enquanto eu escrevia. Foi-me necessário pensar, foi feliz, sei-o muito bem, porque cuidei dela, estive presente, sei como vivemos; não morreu precocemente, viveu o que tinha de viver, e teve uma boa vida. E nisto há uma busca da minha isenção de culpa. Ela morreu. Eu não tive culpa. Eu fiz o que pude.

E pus-me a pensar na dificuldade que experimentamos perante a ideia de morte, sem a qual não haveria nascimento. Na carga negativa, na culpa com que a vivenciamos.

O Facebook está cheio de manifestações de pesar relativas à morte de Steve Jobs, ideólogo da Apple. Julgo que nenhum dos meus amigos tenha chegado a almoçar com ele, visitado em casa, o conhecesse intimamente. Contudo, as pessoas sentem a perda como própria. Era jovem. Não viveu nem realizou tudo o que estaria ao seu alcance caso lhe fosse oferecida mais vida.

Este ano a morte tem ceifado a eito pela seara da precocidade, e deixamo-nos ficar paralisados de um espanto medonho. Estou cansada, confesso: cancro no fígado, no pâncreas, nos pulmões, intestinos, cancro fulminante e metastizado a um ponto que se torna inútil investigar onde teve origem. As pessoas caem atingidas pela doença, aos montões, como cabelo doente, e isto amedronta-me. Agarro as mamas com as duas mãos e penso, tenho de ir fazer uma mamografia o mais depressa possível. Sinto tanto medo de morrer que não reconheço o desprendimento teórico com que defendo o destemor da morte, aceitando-a como parte de um binómio que inclui a vida. Não morremos, passamos, digo-me. Isto é tudo uma passagem. E julgo sossegar-me. Mas, o caraças se me sossego. Teoria.Tudo teoria. Alguém deveria ensinar-nos a morrer como se ensina a fazer reciclagem ou regras de três simples. Devíamos ter a disciplina na escola, com caráter obrigatório, logo a partir do 1ºciclo. Chamar-se-ia Viver e Morrer, e devia ter manual, material obrigatório, testes, trabalhos de casa, individuais, em pares e grupo.

Não sabemos viver nem morrer. Não aceitamos a vida própria nem alheia tal como não compreendemos a morte, esse futuro tão certo, provavelmente tão perfeito.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O caril é para sempre


Tenho a ideia de que nada é tão semelhante ao amor como o caril.
Quando eu era pequena a minha mãe comprava-o, em sacos de papel, no bazar de Lourenço Marques, a um monhé com banca na zona dos monhés, uma área-souk, fresca, umbrosa, cheia de cores, odores e idiomas, coberta de lonas coando a luz fresca. O monhé compunha a banca com sacos de pano de cerca de cinco quilos, cada um contendo a sua qualidade de pó colorido, ervas, sementes ou raízes. A banca era, assim, uma longa manta de amarelos, laranjas, vermelhos, castanhos, brancos de vários tons, texturas, densidades. E verdes, e negros. Cada saco tinha a sua colher de medida pousada na pirâmide de pó. A minha mãe parava e pedia meio quilo de caril, austeramente. O senhor Abdul sorria, tentava vender-lhe o quilo, e iniciava uma lesta alquimia de pós cuja memória transportarei comigo no dia do passamento.

Tirava umas quantas partes de acafrão, outras tantas de noz moscada, cravinho, cominhos, anis, gengibre, pimentas diversas, pimentões, piri-piri, mostarda, canela e outros pós indecifráveis, em quantidades que só ele sabia, apresentando-nos, no final, sempre sorridente, o saco de papel cheio e a conta regateada.

Restava sobre a banca um odor intenso e uma poeira turva levantada pelo movimento dos seus braços e corpo alongados sobre os sacos. O caril não era igual em todas as bancas, mas todos os monhés criavam o seu próprio sabor, como mestres perfumeiros.
O tempo passado na área dos monhés foi sempre pouco, pelo que voltaria a esse passado para vivê-lo de novo. A minha mãe não se perdia nestes lugares, porque uma senhora não parava, caminhava sempre com fito doméstico, honesto, e eu precisava de me demorar para absorver o caos e organização das bancas. Fui roubada à contemplação demorada das zonas menos nobres do bazar. Restam-me impressões de panos pendurados pelas bancas, saris de todas as cores, padrões, materiais, repletos de brilhantes, e pessoas sorridentes ou não, de uma diversidade e beleza que suscita a curiosidade das crianças. Essa zona e a dos pretos, ao fundo, onde era tudo diferente, desarrumado dentro dos limites aceitáveis, com montinhos de tomate, piri-piri, carvão, batata doce, folha de abóbora e legumes que não comíamos, prendiam-me. Tostava-se, ali, amendoim e caju, no chão, e assavam-se maçarocas na hora, por uma quinhenta. Pode ignorar-se o paraíso e o inferno misturados num só lugar? E em nome de que maravilhamento viver, depois?
Subíamos mansamente em direção ao Alto-Maé, com o saco de caril na cesta de palha, entre os nabos e as cebolas, eu pela mão, passando pela catedral braquíssima, rasgando devagar a manhã amena, de uma claridade azul clara muito limpa, como nunca depois.
Como poderia eu saber, tão menina, que levávamos connosco, num saco de papel pardo, 750 gramas do melhor amor metafórico?
Demoramos toda a vida a decompor as emoções que aqui nos puseram, mas uma vida inteira não seria tarde demais para o amor. Como um caril, o amor não se compõe com açafrão e cominhos, apenas. Nem com cominhos, gengibre e noz moscada. Carece da quantidade certa dos inúmeros ingredientes, e esta é a base da qual se parte. Aceita-se a alteração das quantidades, ou dois ou três ingredientes que se substituirão sem mácula para o paladar, mas não existe mistura sem essa ponderada diversidade. No saco do amor existem todos os pós da banca do monhé Abdul ou talvez mais. Existem ainda as sementes, as ervas e raízes. Todos os sabores amargos, doces, ácidos, neutros numa combinação cuja essência se complementa, acresce ou anula, mas que resulta equilibrada ao paladar. Dir-me-ão que no amor não há raiva. Oh, mas faz-se caril sem salpicos de mostarda? Não há desprendimento? A que sabe o caril sem uma nozinha de libertador anis? E se os pós forem bem medidos, e contidos na dose certa, sim, juro, o amor cola-se, a galope, como um vício bom, à memória dos sabores. Uma memória de sede e fome que não se sacia, não é de menos nem de mais. Sem espaço ou tempo. Fica para sempre como uma memória de infância

domingo, 2 de outubro de 2011

Modo de sobrevivência

Há um capítulo, no Caderno de Memórias Coloniais, no qual eu e uma amiga alfabetizamos os filhos dos negros que saquearam a casa onde esta vivia, no Infulene, após terem torturado e assassinado, de caminho, com crueza, imbuídos do que de mais eufórico e banal existe na crueldade, os vizinhos brancos daquela zona, bem como tudo o que fosse branco e respirasse.

E perguntam-me, o que sentiste ao alfabetizar esses negrinhos? Como foste capaz? Não tinhas medo?

Respondo, não, não tínhamos. Embora fôssemos ainda adolescentes, distinguíamos entre filhos e pais. Temíamos os pais, irmãos e primos assassinos, pela ameaça que constituíam para a nossa segurança e integridade sexual, mas as crianças encontravam-se absolvidas dos seus atos, portanto o nosso trabalho de alfabetização era autêntico, e não só os ensinávamos a ler e escrever como lhes limpávamos a cara e os assoávamos. Por outro lado, ambas sabíamos, sem o ter jamais verbalizado, que o nosso trabalho voluntário garantia, à nossa família, salvo-conduto junto do comité. Os comités de bairro tinham poder de vida e de morte. Tudo se decidia ali, e a informação chegada ao comité influenciava o futuro de cada branco.

Enquanto as meninas brancas fossem professoras, e aceites, cumpriam uma função, mostravam solidariedade, humildade, e isso podia, literalmente, salvar-nos pele, sobretudo a da nossa família. De igual forma, os nossos pais levavam-nos até à casa saqueada e queimada na qual se desenrolava a nossa atividade, sem que a funcionalidade da tarefa, num quadro de estratégia de sobrevivência, fosse admitida. Quando entramos em modo de sobrevivência há palavras que não precisam de ser ditas. Conhecedores da realidade, todos sabemos o que se joga em cada decisão. Há proposta e decisão, que deve ser rápida, porque a sobrevivência não tem paciência para esperar.

Perguntam-me, ainda, e insistem muito nisto, o que sentias? Revelo muita dificuldade em responder a esta questão. Não sentia. Em modo de sobrevivência não se sente, age-se. Faz-se. Anda-se. Tudo é pensado no momento, em função da situação. Não sentia, pensava. Para conseguir x tenho de fazer y, padrão que, aliás, segui toda a vida.

Insistem. Dá-me um sentimento. Não é possível saberes que estás a alfabetizar os filhos dos assassinos que violaram e mataram as tuas conhecidas e amigas e não teres sentimentos acerca disso.

Penso sobre sentimentos que pudessem ter-me dominado e só me ocorre um, que igualmente se transformou num padrão de vida para o resto do meu tempo: a esperança. Sentia esperança. Sentia que o perigo e a banalidade do mal eram superáveis. Sentia que vivia numa conjuntura que ultrapassaria, e que havia algures um futuro para mim. Mantive sempre esta certeza: há um futuro à nossa espera, não nos vai acontecer nada, vamos safar-nos. Sentia isto, mas não sei explicar porquê.

Aprendi também a sorrir com o medo. Conheço o sentimento de medo controlado, disfarçado de afabilidade, cumplicidade. Não interessa a quantidade de medo que se sinta, desde que não se torne percetível para o predador. Sorrir com medo não corresponde apenas a uma ação; há um sentimento associável, carregado de adrenalina.

Nos EUA, a professora Isabel Ferreira Gould, no contexto de uma das suas aulas, perguntou-me se eu me considerava uma sobrevivente. Respondi que sim, se bem me lembro. Tudo em mim cumpre a função da sobrevivência. É uma escolha dura, com custos emocionais elevados, contudo nunca me pareceu ser possível viver de outra forma, portanto poupem-me às teorias sobre o antidepressivo com caráter permanente não passar de um placebo ou a insónia crónica poder vencer-se sem Xanax. Não há escolhas sem custos, e eu pago as minhas.