quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Em mim, nela

Dei-lhe banho e ajudei-a a sair da banheira. Sentei-a num banco frente ao espelho, enquanto a vestia. Uma camisola interior fina, outra camisola interior grossa, a blusa do pijama, as cuecas, as calças, um casaco, as meias.
- Tens frio?
Não tinha.
A pele muito fina e seca, as costas dobradas em ângulo reto incorrigível; na anca direita, a marca de uma escara cicatrizada.
- Sentes-te bem?
Sentia.
- Agarra as mangas do pijama, para não ficarem dentro do casaco.
Era o que me dizia quando era miúda, "segura as mangas, Isabela, segura as mangas". E eu, fazendo ouvidos de mercador, sabendo que iam subir e dar uma trabalheira a puxar, mas não me apetecia. Nesse instante lembrei-me de mim, pequena, à sua mercê, frágil, contrariada, sendo não mais que a sua vontade e nenhuma outra coisa.
E sem querer, enquanto ela procurava o buraco da manga do casaco, olhei o espelho e vi-nos. Era eu a vesti-la. O meu corpo adulto, cheio de força. O seu, velho, torcido, de onde saí, agora dependente da minha ação, como se trocássemos de identidade. Era eu, mas não me via nitidamente. Via-me ela, antes. Via-a em mim nesse tempo. E por respeito desviei os olhos desse reflexo. Quis deixá-la ficar nesse éter vestindo-me enquanto eu resistia, e ela reclamava, "tens um génio que nunca nenhum homem te conseguirá aturar. "

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Usar tupperwares mata




Lembrei-me hoje deste caso enquanto arrumava a prateleira das caixas tupperware.

Há poucos anos trabalhei numa fábrica onde me davam pouco tempo para almoçar. Restava-me levar para o emprego uma caixa de plástico com alimentos já cozinhados, e pedir à funcionária do bar que mo aquecesse no microondas. A sua cara de enfado evidenciava que detestava fazê-lo, que não era a sua missão, mas, sem argumentos, lá me aquecia o almocinho enquanto eu esperava com cara de quem nada percebe, sempre sorrindo, como se quem está do outro lado fosse o cúmulo da simpatia. Era uma mulher jovem, franzina, nervosa, intervalando de meia em meia hora para fumar do lado de fora do portão. Tirar o avental e a touca, despir a bata e caminhar até ao exterior não só era uma trabalheira como não permitia ver rendimento nas tarefas do dia, mas ela ia e vinha do portão, pálida, tristonha, de cara fechada.

Um dia disse-me, de rompante, "não traga mais estas caixas". Olhei para ela, perplexa. Teria coragem de se negar a aquecer-me o almoço? Passaram-me mil pensamentos pela cabeça e nenhum deles estava certo. "Como?", respondi. Ela repetiu, "não traga caixas destas; só se for das apropriadas para microondas que se vendem no Continente; este plástico é cancerígeno, não presta; fica com a comida toda envenenada". E enquanto me transmitia a sua mensagem de saúde pública, que nunca cumpri, meteu o recipiente no microondas, pegou no isqueiro e no maço de tabaco e rematou, "olhe, vou lá fora fumar um cigarrinho; quando ouvir o aparelho apitar, pode entrar e tirar a comida, que deve estar quente."

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A balança

Enquanto aguardava que me atendessem na farmácia, fui passeando pelas estantes com produtos de beleza, para bebés, animais, suplementos vitamícos que costumam ocupar prateleiras de acesso ao público.

A certa altura do percurso ouço uma voz gravada que me diz, "Avalie o seu peso". Tinha-me aproximado da balança, cujo sensor despertara com os meus movimentos. Senti-me incomodada.

Quero avaliar o meu peso, mas, na verdade, prefiro não o fazer. E se engordei um quilo desde Agosto, a última vez que me pesei? No Inverno como alimentos mais calóricos e mexo-me menos.

A minha mente defende-se, "talvez, não, Isabela, talvez estejas na mesma. Talvez tenhas emagrecido um pouco."

A minha mente responde, "Impossível. A barriga estava mais pequena. Tenho a sensação que te está a aparecer, de novo, um pneuzinho na cintura."

E afastei-me da balança e dos meus pensamentos. Tenho de me pesar, obviamente. Não posso evitá-lo. Mas a eterna luta contra o corpo é um fantasma que me assombra os dias. A gorda está sempre presente.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Cool e desinfetados

Vinha a ouvir rádio enquanto conduzia, e apanhei um programa no qual uma figura pública era convidada a passar discos, justificando as razões da sua escolha.

Escutei a voz de mulher jovem, grave, cava, bem colocada, pausada. Uma voz profissional, o que se confirmou poucos minutos depois, ao referir a sua carreira musical. Penso que fosse cantora solista ou numa banda. Não cheguei a sabê-lo com exatidão porque mudei de canal: irritei-me. Era aquilo a que chamo uma voz encaixilhada, feita para agradar a um grupo urbano, comprometido com uma cultura, uma estética e um chorrilho de clichés na moda, nos quais acreditam e que não pensam ultrapassar. Uma voz que não fala alto, que não muda de tom, não se irrita, não dá um grito, não sai da cama ensonada, enfim, que "sabe estar", escolhendo as músicas aceitáveis, que o meio aceita como cool, alternativas, diferentes.

O meio é tão establisment como o que não o é. Ninguém está aqui para pensar pela sua cabeça, de acordo com os seus valores. Ninguém corre o risco de ser o que é, sem almofadas. Nada de de desvios, de inovações não autenticadas. Não se correm riscos.

Quando ouço o discurso do meio fico com a impressão que já eram apreciadores de Lou Reed, Tom Waits e Diamanda Galla na creche, enquanto os outros meninos aprendiam o "atirei o pau ao gato". Quando me confronto com semelhantes manifestações de parecer, lembro-me sempre do Poema em Linha Reta, do Álvaro de Campos. Serei a única que enrolo os pés nos tapetes das etiquetas e tenho de suportar o piscar de olhos dos moços de hotel? Os outros não vão à casa de banho, não têm dores nos ovários nem infeções oftálmicas? O meio nasceu cool e desinfetado?!

Se o senhor Lima tivesse brasão...

Duarte Lima (foto DN)



Duarte Lima nunca me pareceu flor de bom cheiro. De resto, não sei se tem culpas no caso Rosalina, se é culpado de fraude do BPN ou se deve milhões ao IRS. Até confesso que, sabendo como o Estado tem desperdiçado os nossos impostos, deduzidos em nome de um bem comum nacional, da justiça social, mas acabando em bolsos aos quais nunca chegariam se houvesse justiça económica e social, também sinto um luxurioso desejo de prevaricação.

Em relação a Duarte Lima tenho apenas duas certezas. Primeira, o homem enriqueceu depressa e incompreensivelmente. Em poucas horas desencantou 500 mil euros para liquidar a fiança do filho. O que são 500 mil euros?!

[Num país a sério, a política não serviria para fazer dinheiro, mas em Portugal, quem passa por tutelas acaba com contas no estrangeiro e familiares entupidos de bens, embora apresente saldos pessoais moderados em contas à ordem e a prazo nacionais. A peneira com que tentam tapar o sol tem a moldura sem rede.]

Segunda, Duarte Lima vem do torrão de Trás-os-Montes, o que significa que é um Lima, entre tantos. Não tem amigos de família, não pertence a um clã. As proteções que granjeou na política desapareceram rapidamente. O Lima que se desenrasque, porque. sem família. não se impõe o dever de proteção. Por outro lado, o poder precisa de nomes sacrificáveis para levar à fogueira. E o Lima, lá do torrão, serve.
Se o senhor Lima tivesse outro apelido, família, amigos de família, outro galo cantaria. Uma boa proteção torná-lo-ia alvo difícil.
Quem conta amigos pode dar-se ao luxo de escapar ao braço da Lei e desfrutar a honra de possuir diplomas emitidos aos domingos e dias feriados. Ou isso ou ser giro e pertencer a um lobby qualquer, mas gajos como o Duarte Lima serão sempre alvos fáceis para um sistema nepótico na política, cultura e justiça.