segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Questões politicamente incorretas que me dou ao luxo de propor

Iniciei um processo de adoção em 2007. Em 2008, após visita domiciliária e entrevistas várias com a assistente social e a psicóloga da Segurança Social para apurar a minha idoneidade e capacidade para criar uma criança, fui aceite como candidata, estatuto que determinou a emissão de um certificado de adotante.

Contactei a Segurança Social no mesmo ano, para saber o estado da minha candidatura, que sempre me disseram ser de solução fácil, já que aceitava um filho de qualquer raça, sexo, com mais de 3 anos de idade e algumas doenças crónicas. Sempre parti do princípio que, caso tivesse um filho biológico, de igual forma não poderia escolher uma série de caraterísticas que são determinadas pelo destino - lamento que este vocábulo seja pouco caro à maioria dos leitores.

Em 2009 voltei a contactar a Segurança Social tentando saber o motivo da demora, num caso fácil como o meu. A assistente social afirmou que não havia crianças que cumprissem os meus requisitos. Perguntei quantas pessoas tinha à frente na lista de espera. Duas, fiquei a saber. Só duas, porque ninguém aceitava crianças negras e muito menos com mais de três anos de idade.

Deixei de telefonar e fiquei à espera. Entretanto, o meu projeto de vida sofreu alterações. Já não quero o queria há quase cinco anos. As prioridades mudaram. Vou fazer 49 anos, tenho o meu tempo ocupado em permanência: ter um filho, nesta altura, não seria uma boa ideia. Deveria ter vindo antes.

A semana passada recebi uma carta da Segurança Social na qual me pedem que manifeste por escrito, no prazo de dez dias, a intenção de adotar, caso contrário a minha candidatura será considerada inválida. E ao lê-la, acendeu-se na minha mente uma luz de certeza intuitiva relativamente ao que não passava de uma suspeita: embora a Lei não permita a discriminação de uma mulher solteira num processo de adoção, os motivos pelos quais nunca me foi apresentada qualquer criança (lembro que sempre me foi dito que o meu caso era fácil) terão estado relacionados com o facto de ser sozinha. O celibato põe-me à parte.

E ocorreu-me que ninguém se preocupa em comprovar a idoneidade parental das mães e pais que destroem crianças, por esse mundo fora. Qualquer psicopata nazi pode ter e educar filhos, desde que lhes transmita os genes. E a esses, cá por mim, era esterilizá-los nos centros de saúde, a bem ou a mal. "O senhor Adolfo e a dona Eva vão levar estes injetáveis gratuitos e cheios de vitaminazinhas para lhes darem saúde e energia". E poupava-se muito sofrimento ao mundo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Uma miúda sentada no degrau da cozinha

Olho para a minha carita de miúda, nas fotos, e penso, não sabias nada. Sonhavas, e tudo se perdeu.
Sorrio nessas fotos da infância, muito impregnada de vida, de modelos, de histórias. Observo-me com ternura, e lamento ter-me enganado e ter sido enganada. Afinal não era como imaginei.
O que sonhei?! Já não me recordo, mas sei que não o tive. Tive-me, e já não foi mau. Decidi as minhas decisões, escolhi o que pude.
Mas quando olho para o meu rosto de menina tenho pena da inocente criança. Eu já sei o seu futuro e ela ainda não, coitadinha. Não imagina que vai comer o pão do diabo. Tão ignorante! E imagino que volto lá atrás, ela está sentada no degrau da cozinha, descalça, com as mãos segurando o queixo, e lhe segredo ao ouvido, querida, não tenhas medo, não deixes que te domestiquem. Ouve, tudo será diferente. E estou junto dela, ajoelhada, amando-a, quando percebo que afinal não se deixou domesticar. Digo-lhe, segue então o teu caminho. Tens tempo para aprender. E enquanto lho digo, sei que vai surpreender-se, lutar, reclamar, e no fim, aceita, porque aceitar é a única saída. Deixo-a sentada no degrau. É bonita. Tem sonhos. Não a posso ajudar.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Não vão ao ginásio

Preparam a festa de Natal na escola primária frente à minha casa. Cantam à noite, ensaiando as músicas em coro. São mulheres jovens. Talvez mães, professoras, auxiliares. As suas vozes elevam-se e entram-me em casa meio da noite, soltas, livres. Sentem-se contentes. Sozinhas não sabem cantar, mas em conjunto a canção ganha força, liberta. Quero cantar como elas, no meio delas, sem voz, pelo prazer de libertar a música que existe em mim. Andamos tão calados, vamos ao ginásio perder calorias, mas, oh, se cantássemos ao final de dia e regressássemos a casa aliviados! Se cantássemos canções alegres e tristes, populares e eruditas, sem voz, sem pretensões, apenas porque cantar projeta os cansaços à distância. Seríamos todos mais sorridentes, mesmo com cinco cêntimos no bolso,não seríamos?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Uma gorda que sorria sempre

Enquanto arrumo armários, abro peças, observo-as, e mal acredito que era a minha roupa de há um ano atrás. O que uma pessoa veste para esconder a gordura!
Não suporto a maior parte das camisolas, mesmo que ainda se encontrem em condições, e possa vesti-las largas, para um efeito blasé. São de má memória. Não quero meter-me dentro desses panos, como se contivessem o efeito simbólico de me transportar muitos quilos atrás; recuso voltar ao espaço-tempo da clausura.
As cuecas grandes, os soutiens velhos. Roupa que comprei por ser a que me servia, não aquela de que gostava. Os pijamas nas gavetas, que abandono! Camisolas sem calças. Tudo desemparceirado, gasto. Dormia com estes trapos? Oh, que gorda tão triste, sorrindo ao longo da travessia!
Lixo! Repenso: esta roupa vestiu-me e não sou desapegada. Custa-me. Talvez possa reciclá-la, cortá-la às tiras para fazer tapetes; em quadrados grandes para panos de limpeza com diversos fins.
Entretanto, onde guardo as roupas antigas da gorda? Escondo-as atrás da porta da casa de banho pequena? Ganho uns dias e logo decidirei o que fazer aos trapos inúmeros, larguíssimos, coçados na anca e nas mamas.