terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Quantos homossexuais leram este texto?

O Metro de Lisboa não aceitou publicidade de uma empresa de encontros para homens cujo anúncio mostra dois indivíduos do sexo masculino, jovens e belos, prestes a trocar qualquer coisa que parece um beijo - nunca se sabe, podem estar apenas a arfar de cansaço.
A comunidade on line insurge-se, naturalmente, porque temos todos a mente muito aberta. Contudo, se o que se questiona é um preconceito sexual que se tornou inaceitável, convém ir mais longe, até porque estamos fartos de insurgências de segunda categoria: quantos homens que beijam outros homens ou que namoram ou vivem com outros homens ou que têm mulher e filhos e se vêm, clandestinamente, em sítios públicos, no corpo de outros é que trabalham no Metro de Lisboa? É isso que quero saber: quem são os professores, médicos, juízes, polícias, administrativos de topo, homens das obras, auxiliares de ação educativa, etc., etc. que andam por aí atracados a pessoas do mesmo sexo? Façam-me o favor de se inscreverem numa lista, por favor, para que o público do Metro de Lisboa, que poderia ficar chocado com a fotografia do linguado homossexual, se elucidar de uma vez por todas e ter um acidente vascular cerebral, se for caso disso.
Se é para mudar mentalidades, mude-se à bruta, que estou farta de paninhos quentes.
Deixo este poste com os comentários abertos para que possam começar a inscrever-se. Dou uma ajuda no discurso. Opção a: não dou facadinhas e sou contra; opção b: não dou facadinhas, mas gostava de dar com meninos/com meninas/com o que vier à rede, tanto faz, tenho muito boa boca; opção c: dou facadinhas dos dois lados, mas é cansativo/não é nada cansativo; opção d: dou facadinhas com outros meninos/meninas muito de vez em quando/sempre que posso; opção e: dei facadinhas, mas agora vivo com um(a) marmanjo(a) há x anos e já não o posso ver; opção f: tema livre.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Carne viva

Fotograma de La Piel que Habito, de Pedro Almodovar




O silêncio das manhãs de domingo é o mais completo. Não se escutam as crianças a gritar na escola. As mulheres e o homens pararam de circular, cruzando-se na azáfama das compras. Os automóveis circulam devarinho, e o ruído dos pneus sobre o alcatrão desvanece-se. Não ouço os autocarros descendo a avenida nem o metro de superfície. Parece que a humanidade desertou e estou só no mundo, finalmente, como fantasiei a vida inteira. Deixaram-me em paz com as minhas memórias e fantasmas, desistiram de me julgar, e posso finalmente ser apenas o que sou dentro da carne. Carne viva sem tribunal.

sábado, 28 de janeiro de 2012

A subalterna

Fotograma de Lolita, por Stanley Kubrik



A Nini chegou mais tarde ao colégio. O diretor chamou-me à sala das visitas. O que tinha eu em comum com Nini? Os pais em África. De resto, entrou na minha vida para me tornar mais consciente de que eu não prestava. Os meus cabelos eram claros, finos e quebradiços. As mamas grandes demais, a anca, as pernas. Celulite, miopia. Ventre dilatado.

Nini, magra, longos cabelos fortes, ondulados e castanhos-escuros repuxados nas têmporas, com intuito de ajaponesar os olhos, jeans muito justos torneando a perna fina, barriga chata, peito pequeno.
Eu era amiga e subalterna. A boa, a inteligente, a serviçal feia que lhe lavava as cuecas, a massajava aos sábados com loção hidratante, e se sentia amada por ser útil e tocar esse corpo tão perfeito como desejaria o seu.
Acompanhar Nini era uma fonte de stress. Nini atraía os olhares dos rapazes, e isso piorava a minha situação. Estando ao seu lado, facilmente veriam a bela e, dois passos atrás, o monstro. Íamos de férias, clandestinas, mentirosas, para casa da família. Viajávamos de comboio pela manhã azul e orvalhada em direção ao Alentejo. Depois, no apartamento desabitado que pertencia aos pais, onde nos refugiávamos das proibições e regras impostas às meninas, Nini queria ser uma estrela, vestir-se como uma, ir à piscina, à discoteca, aos bailes, e isso implicava despir, expor o meu corpo, a minha voz e alma triste. Os rapazes rodeavam-na. Chamava-me. Esta é a minha amiga, dizia. Eles riam-se, troçando de mim. Troçavam?! Certamente. Seria possível não troçarem, eu, tão feia, temendo a sombra humana como loba acossada, seria possível verem-me graça?! Ajeito-me a mim. O meu corpo tão teso que mais tarde sentirei dores nos músculos das pernas. Calo-me. Oh, esqueçam-me, por favor. Insultem-me, mandem-me para um lugar muito distante. Digam-me o que espero e não façam mesuras, como se me aceitassem. Sei que não. Digam-me, ó gorda, vai ver se lá fora está a chover, desampara. De bom grado ficarei encostada à porta dos bombeiros, escutando as grosserias dos velhos disformes, bêbedos, violadores reais ou mentais. Digam-me, olha lá, ó barril de banha, quando é que fazes dieta? Não fumas? Não, respondo. Não bebes?! Bebo. Pode ser qualquer coisa doce e muito alcoólica. Beber, bebia, claro. Beber era fácil, toldava primeiro devagar, depois sem freio.
Fumavam-se charros em grupo, e a gorda passava sem travar. Não queres? Não, obrigada. Obrigada?! Maldita eu. Aprender a falar, já que não sabia fumar, seria oportuno. Como é que falavam?! Iá. Passa, meu. Toma, pá. Não me bastava ser gorda, mas não conhecia os códigos, não sabia soltar-me, dizer coisas sem sentido, verdadeiramente jovens. Era straight. Tinha engolido o pau da vassoura.
No final da noite dormiria com ela na cama torneada dos pais. A melhor altura do dia. Conversaríamos antes de dormir, conversaríamos ao acordar. Confecionaríamos o jantar como se fôssemos um casal e comê-lo-íamos à luz das velas como crescidas e príncipe uma para a outra. Bem vestidas e penteadas, eu sempre feia, mas arranjadinha, falaríamos devagar, e já era o futuro. Pronto, agora eu já tinha 20 anos e o meu pai já me deixava namorar, onde quer que ele se encontrasse, e faz de conta que agora estávamos juntos; ela faz de conta que era o meu amor, e gostava de mim assim, assim tal e qual como eu era, com a barriga, o rabo, as mamas caídas. Sentia-me bem, o calor do amor, devia ser amor, percorria as minhas veias. O meu sangue fluidificava-se. Ser amada era bom. Agora não era gorda. Faz de conta. Agora esqueço isso de ser gorda. Somos só as duas e ela gosta tanto de mim e depois vamos dormir. Contar-me-á histórias de quando era campeã de motocross numa Kawasaki e campeã de ténis com o Bjorn Borg, que conhecia pessoalmente, de a ter cumprimentado, e campeã do sangue, porque o seu era único, o melhor do mundo, por isso é que os americanos da CIA a levavam todos os anos, nas férias, para uma infraestrutura subterrânea, num deserto, e a sujeitavam a todo o tipo de testes, em ambiente estéril, transportando-a de olhos vendados para que jamais pudesse seguir a pista, e ninguém sabia disto, só ela e os pais, e eu não podia contar, não, não contaria, claro, a quem iria eu contar uma coisa dessas, e se era segredo, era segredo, um sangue único, sim, e descobriram-no ao fazer-lhe testes por causa do desporto, sabe-se tudo e um dia chegaram junto dos pais e pediram para lhes falar - e também era campeã de wind sur, estás a ver esta foto?!, esta prancha que se vê ao longe, sou eu. Era um campeonato; ganhei o primeiro prémio. Também sabe fazer wind surf, como se não bastasse ter as mamas pequeninas e direitas e a cinturinha sem pneu! Perfeita. E depois deitávamo-nos nos nossos pijaminhas com lacinhos e o seu corpo era um sofrimento, uma quentura, uma perdição.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Louca bem comportada

Passei a tarde com o senhor Simões. Solicitou-me audiência para tentar perceber por que não escrevo no blogue há um mês e perceber como está o próximo livro. Expliquei-lhe que tenho uma vida profissional que consome as energias criativas, que ao fim-de-semana tenho estado ocupada com afazeres caseiros, que aguardo férias, que preciso de realizar uma viagem espiritual, eventualmente um retiro.
- A menina precisa é de se dar. – respondeu. – A menina precisa é de sair, conviver, conhecer o mundo. A menina precisa de se inspirar no contacto com os outros ou não desencalha.
Não respondi, porque, ultimamente, o senhor Simões cansa-me.
- Passa muito tempo no Facebook. O seu problema é esse.
Os moralismos do senhor Simões. A lista de preconceitos própria dos infoexcluídos.
- A menina, se lhe tiram o Facebook, sofre de sindroma de abstinência. Mas que o use para se promover, vá. Use-o bem, por amor de Deus. Continue a publicar no blogue, para o mundo perceber que está no ativo, e meta o linquezinho para o Facebook, como fazem os espertos. seja inteligente. Não gaste as suas energias numa rede social fechada onde tem apenas meia dúzia de amigos.
- Quinhentos e tal, senhor Simões.
- Ena, tanto amigo! Aproveite, saia da sua redoma e misture-se com eles, jovem. Deixe de ser a filha única dos papás. Não está farta de se portar bem?! Já pensou na quantidade de experiências que não viveu e que lamenta não ter vivido porque quis portar-se bem a vida inteira?! Se quer escrever deve conhecer o mundo, sair.
- Como é que sabe? Para o que lhe deu hoje, senhor Simões. Nunca o vi tão interessado na minha vida social. Tem de escolher se quer que escreva ou que saia. Ou uma coisa ou outra. Pensei que me censurasse os convívios.
- Engana-se. O que lhe censuro são as más figuras nos convívios. Que fale alte, que se exprima toda como se fosse o Álvaro de Campos. Pense na Lídia Jorge. Tenha-a como exemplo. Pense nas outras grandes figuras que sabem pensar um discurso e mantê-lo inalterável dez, quinze vezes seguidas, e exprima-se com comedimento. Mas, primeiro, escreva. E para escrever, viva. Viva, menina, viva. Observe, sobretudo. Ouça. Peça explicações.
- Bem, como é que faço, deixo de me portar bem ou continuo a ser uma menina que não dá desgostos à mamã? Decida-se.
Ficou pensativo. Passou a mão pela testa, suspirou de cansaço e bebeu um golo de Dona Ermelinda, tinto, 2010.
- Não consegue ser tudo isso junto? Uma louca bem comportada?
- Consigo. O senhor está agora aí sentado e existe na minha vida porque fui louca e muito bem comportada a vida inteira.
- Então ponha isso a render e dê-nos dinheiro a ganhar, menina.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Como manter a esperança?


A minha mãe nasceu em 1924 e encontra-se a poucos dias de completar 88 anos. Quando penso na sua vida, reparo que atravessou três quartos do século XX, a ditadura do Estado Novo, a II Guerra Mundial, a emigração dos portugueses para o estrangeiro e colónias e o seu regresso, no caso das últimas. Devo dizer que embora a veja encarar o atual período da nossa história com cuidados, não a vejo assustada ou desanimada. Não lhe pergunto nada, porque percebo que o seu presente não é mais grave ou mais duro que o seu passado, e nunca passou fome, nunca, diz-me - uma assunção de vitória.
A descolonização foi uma época duríssima para todos os que vieram de África, e essa é uma história diversa, que continua por fazer. Perder tudo, as coisas e as referências, atira-nos para um desamparo exilado, um nada inseguro. Porém, na altura em que vivi esta situação, entre os 11 e os 17 anos, e atiro a segunda idade ao acaso, uma vez que não sei quando deixei de ser exilada - penso mesmo que possa nunca ter deixado de o ser - havia em mim esperança. A vida era um perigo, os dias corriam em sobressalto, não sabia onde estaria amanhã nem com quem nem como, mas era temporário. Tinha a certeza absoluta que um dia teria a minha casinha, os meus móveis e gavetas, o meu mundo, outra vez. Questão de meia dúzia de anos, paciência, e, acima de tudo, resistência. Tinha razão, mas falhou-me uma previsão: imaginei que a paz seria eterna. Que não voltaria a sentir-me tão perdida como no dia de hoje. Não me podia ocorrer que as crises são cíclicas, mesmo que o estudasse em história. A história era o que tinha acontecido lá para trás. As guerras com os mouros, com os castelhanos, as intrigas cortesãs, os favorecimentos, tudo acabado, histórias. Eu estava na vida para furar por dentro dela, e era exatamente isso que ia fazer: rasgá-la como espada bem afiada. Acreditava nas ideias, nas pessoas, na justiça humana e divina, na moral, numa ética. E neste enunciado reside a grande diferença: hoje resta-me a justiça divina; a crença no resto foi-se. Perdi a inocência e, sem inocência, como manter a esperança?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sentença

Nunca tomei uma estrada principal, e esbracejei sem etiqueta ao longo dos atalhos e desvios pelos quais transportei aqueles que amei, mas eles não sabem.
Depois cheguei a esta clareira e há sol e sombra sobre a terra, e eu saio, e sei - e mais ninguém - que não há estradas principais. Se isso não estava escrito, escrevi-o eu.