segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

História de Facebook

Teve por mim uma grande pancada não correspondida, e na impossibilidade de obter crédito sentimental escrevera-me uma carta na qual revelava que a minha beleza clássica não passava, afinal, de vulgaridade, que eu nada valia, nem ninguém da minha família e arredores.
Como tinha uma caligrafia ilegível, pior que médico, mal lhe percebia as frases, portanto não garanto que tenha sido exatamente isto, exceto a parte em que eu passara de beleza clássica a vulgaridade no espaço/tempo de um não
Tínhamos trabalhado no mesmo jornal, mas perdêramos o contacto a partir do momento em que deixamos de nos encontrar na cafetaria. Há mais de 20 anos que nada sabia dele, e nunca mais pensei no assunto. Obliterou-se da minha memória, que eu, homens, sou de atenções restritas e focadas.
Tudo teria ficado pelo sossego dos deuses se o facebook não me tivesse presenteado com o seu rosto: Manuel da Conceição Seabra e Vilhena, 44 amigos em comum, peça-lhe amizade. Era a cara do rapaz, mais velho, certo, e como!, que o tempo não os tem poupado. A minha curiosidade mórbida pensou em adicioná-lo, e já nem me lembrava do episódio da paixoneta nem da carta vingativa, nada. Adicionei-o e fiquei à espera que anuísse ao meu pedido.
Não me ocorreu que eu mudara de nome. Antigamente dava por Maria José Figueira, mas chamava-me agora Josefa Figueiroa, desde que entrara para os quadros do conceituado Dizível. Como imagem de perfil, no face, tinha a Marilyn deitada, vestindo apenas Channel nº5. Todos me sabiam mitómana, sobretudo da Marilyn.
Manuel da Conceição Seabra e Vilhena, meu ex-colega, não me aceitou como amiga e esqueci o assunto.
Tudo mudou a semana passada. De repente, não só me aceitou, como me enviou mensagem privada. Escrevia, e desta vez percebia-se lindamente, bendito teclado qwert:
"Não costumo aceitar este tipo de pedidos, mas estive a pensar e resolvi aceitar o teu. És muito gira, mas deixo claro que não quero compromissos nem nada para além de sexo, porque gosto é de homens. Mas tudo bem se queres marcar encontros pontualmente: o meu telefone é o 123456789 - tem é de ser num espaço teu, porque o meu companheiro trabalha em casa e não dá."

Lustrosa

Imagem daqui.

O senhor Simões não gosta que fale de mim como a gorda. Argumenta que não é de bom gosto nem digno nem desenvolve a autoestima. Digo-lhe, sim, está bem, nunca mais, e tento recordar-me de qualquer outro nomezinho que possa ter tido, mas chego à conclusão que ao fim de tres décadas de benzodiazepinas a minha memória não alcança tão longe. Fui a gorda. Sou a gorda, a mulher de leite, mel e amêndoa. A gorda ganhou o direito ao nome, único nome, e ganhou-o por usocapião.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Yo no te olvidaré

 Ilustração de Andrew King

Sento-me com a cadela na esplanada e ele vem vindo ao longe, sorrindo, com cabelo despenteado já a ralear, mãos nos bolsos, camisa amarrotada, sorrindo por me ver e pela consciência da sua dádiva de muitas vidas. Está um belo dia de sol que aproveito lendo, olhando em redor, escutando as conversas das mesas vizinhas. “Ela não avisou. Levou o miúdo e não disse nada”. “O tarifário que tenho agora é muito melhor”. “Quero lá saber que arranje outra: comeu-me a carne, há-de roer-me os ossos”.
A estampa aproxima-se. Diz-me:
- Sento-me, claro.
Respondo-lhe, sorrindo:
- Claro.
Tão bonito. Tão feliz. A pele morena. Os dentes certinhos. Olhos vivos e brilhantes. Luminoso. Olho para este homem luminoso que calhou ser meu pai.
Digo-lhe:
- Não tinhas ido já para o outro lado? Pensei.
- Devia.
- Então?!
- On the other side come-se mal e bebe-se pior, dear.
Atiro uma gargalhada sonora. As minhas gargalhadas vindas do estômago. A cadela assusta-se. Os utentes da esplanada olham-nos com desprezo. Continua:
- Tu não estás lá para conversar, rapariga.
- Mas olha que começa a estar na hora de mudares de endereço postal. Por mim podes andar por cá. Continuo a gostar da tua companhia. Aliás…
Calo-me. Conheço tão bem este sentimento de falta. Ele com a barba por fazer a raspar-me a pele da cara, o seu sorriso escancarado, sem vergonha, sem medo, ávido de vida e luz, e bebermos e comermos, e passearmos no comboio da praia, rir do vizinho que limpa o pó ao carro todos os dias, congeminar brincadeiras.
- O serviço de restaurante é mau desse lado?! (faço-lhe uma festa na mão bonita) Pai, ser gordo é toda uma filosofia que só outro gordo entende, não achas?!
- É uma merda para atacar os sapatos, mas um quadradinho de chocolate a derreter-se na boca… uma bela dobrada com feijão, picante, bem regada…
- Queijo da serra com um vinho, suave, aveludado… Os prazeres dos sentidos! Isso já não deves ter!
- Nada. Sentidos nem pensar. O sentir está todo aqui. Lá, é aprender e esperar. E sou como as virgens: não estou preparado. (ri-se) Bem, antigamente dava um trabalho até estarem preparadas! Mas esta esplanada, onde podes vir sempre que te apetece, é a maior dádiva que Deus te dá. Tu ainda tens tudo.
Estiro-me na cadeira. Pergunto-lhe:
- Lembras-te do sabor do uísque com soda e bastante gelo?
- Cala-te, rapariga!
Olha para mim, muito sério.
-Tens feito a dieta que te cabe?
- Tenho pecado muito.
- Porquê?
- A maldita fome.
Suspira.
- Prometeste que não ias seguir o meu caminho.
Respondo:
- Não vou.
- Mantém-te gorda só na cabeça. Só na cabeça, ouviste?
- Sim. Ouço. Descansa. (pausa)
Faz-me bem ver-te, falar-te. Nunca me sais da cabeça. Tudo o que existe no meu mundo existe em função do que vivemos. Se vejo o anúncio do Mac Donalds lembro-me que gostavas dos filetes de peixe. Se me deparo com a foto de um gato parecido com o Gimbrinhas, lembro-me do dia em que o trouxeste para casa. Não sei viver sem a bengala do que foi a nossa vida, talvez o nosso amor. Achas que nos amámos?
- Oh, mulher, até nos dias em que andámos à pancada.
Rio-me de novo.
- Lembras-te?!
- Então não lembro, rapariga!
- Fomos tão parvos. Dois gordos tão loucos, tão bipolares, tão…
- Amantes.
- Isso.
Encaro-o. Procuro os seus olhos. Não fazemos um gesto. Olhamo-nos e ao olharmo-nos percorremos esta vida dele, a minha, e as restantes, que não conhecemos já.
Repito:
- Isso, amantes.
Digo:
- Tínhamos de nos encontrar.
Digo:
- Vamos passar o tempo do tempo a encontrar-nos. Gordos, cheios de fome, e um do outro, como se o nosso destino fosse tão só o usufruto do que vamos sendo. E depois, esta fome que temos, que é estúpida, não a achas estúpida?!
- Não. Quero lá saber. Comer e beber sabe bem. É o que se traz. Acredita. Isso e gostar das pessoas e dos lugares, dos cães. Os sentidos. Os sentimentos. E respeitar Deus, rapariga, sempre respeitar Deus.
- Queria era resolver a fome. Nunca pensaste nisso? Como matá-la. Acho que sempre foi uma insatisfação, um poço de solidão, de tudo o que queria fazer e não pude.
Passa a empregada, de cabelos compridos negros, brincos caídos com brilhantes em triângulo. Dá-se mal com o pai que lhe mostrou a porta da rua. Aproxima-se da nossa mesa:
- Beleza, traga-me uma Coca-Cola e uma tosta mística, que a conversa da minha filha está a pedi-la.
Ela ri-se. Eu rio-me.
- De tudo o que quiseste fazer e não pudeste?!
- Esta vida é de merda, agarrada ao trabalho escravo para sobreviver, para pagar as contas. Fiz tudo o que quiseste, tu e a mãe: garanti a sobrevivência, mas, querido, não chega. Quero saltar: viajar pelas pessoas e lugares, dormir na terra com os lobos, comer com as mãos. Quero visitar ruínas e museus. Quero ver, pensar, imaginar, criar coisas. Está tudo errado. Tu e ela pensaram de acordo com o vosso tempo, pensaram numa vida para mim de acordo com o que eram as vossas expetativas: emprego e dinheiro certo, baixar a cabeça. Calar. Eu não sou assim, pai. Oh, tu sabes tão bem que eu não sou isso! Mas acabei por também ser uma parte do que vocês fizeram de mim, toda essa moral católica, precavida, misturada com a euforia do voo. Estou presa a vós. Presa a mim.
- Tu és maluca. Sempre foste maluca. Tens tudo aquilo de que precisas. Mais que muitos. Mais que eu, que a minha família e a da tua mãe juntas.
- Não. Não.
- Dei-te tudo o que tinha. Trabalhei muito. A única forma de te preparar para a vida era garantir-te o trabalho certo. Nem eu nem a tua mãe sabíamos quem tu eras, ao princípio. Não conhecemos os filhos que nos nascem como não conhecemos os pais dos quais nascemos. Acontece. Agora sei. E a tua mãe percebe mais do que admite… mas não podíamos imaginar que o trabalho de repartição não te chegaria. Fizemos o melhor.
Vem a Coca-Cola e a tosta mista. Sorri-se para a empregada.
- Muito obrigado, menina. Se tivesse uma esplanada roubava-a para trabalhar para mim.
Ela ri-se, embaraçada. “Só se me pagasse bem”.
- Pagava-lhe o que a menina quisesse, que um sorriso como o seu vale tudo.
Dou-lhe um pontapé debaixo da mesa.
- Deixa a rapariga, pai.
- As mulheres gostam de ser apreciadas. Já te expliquei muitas vezes.
- Gostam, mas exageras. Pensas que estamos nos anos 50?!
Conforma-se.
- Serias mais feliz como? O que queres tu?
- Não sei. Pensava apenas sobre a fome. A minha, pelo menos. De onde me chega a vontade de comer o mundo?
- Vives muito dentro de ti. Acumulas. És muito só.
- Não. Já não tanto. Tu não sabes. Já não estou tão só. Agora tenho um namorado a sério. Não é uma ilusão, uma obsessão, uma maluquice. Gostei dele. Declarei-me
- (Ri.) És bem filha do teu pai! Não deixas créditos por mãos alheias. Eu já sei, mulher, e escolheste bem. Demorou, mas foi. Estava a ver que não desencalhavas... (Ri.)
- O homem é quase igual a ti, sabias?! Eu precisava... Não havia ninguém. Quer dizer, até o encontrar...
- (Sorri como se soubesse tudo) Mas olha que nenhum namorado pode colmatar a tua solidão.
Demoro tempo a responder:
- Talvez não.
Continuo:
- É um silêncio branco, um espaço vazio que consome tudo, tudo o que passa. Uma espécie de cromossoma com consequências invisíveis para o comum mortal. Mas eu sei. Eu vejo.
- Quando te sentes saciada?
- Quando me alheio da realidade. Com os livros, a música, filmes. Gosto de ver quadros em livros e nos museus. Agora na internet. Escrever tanto me dá fome como ma tira. Depende.
- Muda de vida.
- A mãe mata-me.
- Não mata. Aceita. Já começaste a mudar no momento em que pensaste nisto. Arrisca.
- Fico sem rede.
- Bem, ficas. Ou te equilibras, e tudo bem, ou cais, e tudo mal.
- Arrisco?!
- Eu era o que faria, se estivesse no teu lugar. (pausa) Olha, lá, esta cadela também sofre do tal silêncio branco, do vazio que consome tudo?

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A moda da paneleiragem e da fufice se porem a procriar e adotar

Um amigo homossexual acabou de adotar um menino latino-americano, após um périplo de três ou quatro anos. É espanhol, recorreu a uma agência, pagou, frequentou cursos, provou a sua idoneidade moral e chegou agora a uma fase do processo em que lhe falta ir buscar a criança e educá-la.
Fico feliz por ele, embora, deva dizer, muitas pessoas informadas continuem a defender que um homossexual não deve adotar por motivos que se prendem com a felicidade da crianças. Alegam que são egoístas, não pensando no bem-estar dos meninos e menincas que geram ou adotam, e o argumento é sempre o mesmo: o bullying na escola. O que acontecerá quando os colegas souberem que têm dois pais ou duas mães? Respondo que, quando os colegas souberem, farão perguntas, e a seguir habituar-se-ão. Permanecem céticos perante o meu otimismo. Sou apenas realista. O fenómeno só será invulgar enquanto não houver um ou dois casos destes em cada turma. Depois, torna-se a ordem normal das coisas.
O desejo de ser mãe ou pai não é universal, mas quem o alimenta deve poder realizá-lo sem contemplações pelo género de quem ama. Em Portugal, fala-se agora da possibilidade de facilitar à mulheres solteiras o acesso à procriação medicamente assistida. Parece-me bem. Mas e os homens? Não têm o legítimo direito de almejar ser pais? Vozes do contra dizem-me que os homens são diferentes, que os pais não amam como as mães, que não se dedicam como estas. Que, enfim, até podem ser pedófilos. Podem, realmente. E as mulheres? E os progenitores casados que se aproveitam sexualmente dos filhos? Não seremos todos inocentes até sermos culpados?
A ideia que subjaz a esta impossibilidade de adoção pelos homossexuais é essencialmente a seguinte: tudo bem que fodam uns com os outros, ok, já nos habituámos, mas criar crianças é que não, porque ainda se corre o risco de saírem paneleiros ou fufas como os pais ou mães.
Uma aluna, discutindo estas ideias em aula, uma destas semanas, garantiu-me ter lido que uma filha criada só pela mãe tinha mais chances do que qualquer outra de se tornar lésbica. E o mesmo com rapazes criados só por mulheres, que ganhavam muita pluma. Lembrei-me logo do meu pai, putanheiro até à quinta casa.  Argumentar que as familias ditas normais tenham produzido todos os homossexuais que conheço é argumento que não colhe, não compreendo porquê.
Defendo que os homens e as mulheres têm direito à paternidade e/ou à maternidade, ponto final. Com quem dormem não me interessa, apenas o desejo honesto de procriar, de se continuar pelo sangue ou pelo afeto, realidade que compreendo, porque também alimentei esse sonho, e, sendo solteira, fiz o que podia,  muito para além do que as normas permitem, para o concretizar. 
Vedar a procriação ou a adoção aos homossexuais continua a ser uma forma de lhes dizer, "meus amigos, desculpem, juntem-se lá nos vossos barzinhos e interesses e fetiches, mas não sendo vocês normais não  vos confiamos a responsabilidade de criar filhos". Portanto, a ideia de uma cultura inclusiva para os homossexuais, em Portugal, é uma baita mentira.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A sério como a vida alheia

Acabou de comer os doces que fiz. Arroz doce. Bolo de limão. Levanta-se da mesa, aproxima-se do meu corpo sentado no sofá, concentrado, e diz-me, baixando-se para me alcançar, vê lá a que sabe a minha boca. E prova a minha. Tem a língua fria. Sabe a canela, a uma saúde enxuta de comida caseira que cozinhei no meu lume, com as minhas mãos.

Beija-me com a língua, e a barba roça na minha cara, inflamando-me superficialmente a pele. Ergue-se e conclui, a tua sabe a chá. Estás a beber Earl Grey. Sorri. É um homem alto, elegante, grisalho, maduro. Um homem a sério.

Olho-o, pensativa, enquanto se afasta com os pires na mão. Queres mais alguma coisa, pergunta, de longe. Não, não quero, obrigada. Olho o écran da televisão sem ver. Há cores, movimento. Não vejo. Penso.

É tudo tão novo: ser beijada, ter um amor que dorme o meu sono, ao meu lado, sentir-me estimada, querida. Tudo a sério. Sem medo, sem obstáculos. Parece-me a vida de outrém. Isto devo ser eu noutra reencarnação. Estranho a mudança. Que fiz para merecer os beijos?! Valia alguma coisa? Não sou repelente?! Conseguem aturar-me?! Mas que raio de solteirona sou eu, afinal? E a gorda?! Onde está essa mulher assustada com a qual vivi a vida inteira, que conheço tão melhor que ninguém?!