sábado, 31 de março de 2012

Nunca somos velhos

Foto: Steve McCurry

Tem 88 anos e acredita em sonhos.
- Ando há dois dias a sonhar com dentes. Não gosto nada de sonhar com dentes.
- Porquê - pergunta-lhe a filha.
- Sonhar com dentes é morte de parentes.
A filha sorri. Olha-a. Não responde. A mãe continua:
- Eu já nem tenho parentes. Pelo menos, parentes com idade... já não tenho.
- Já não tens?! Então o teu irmão não tem 90 anos?
- Ah, pois tem!
- E o teu primo J., que idade tem?
- Esse ainda é novo, tem uns 86.
- E as tuas primas?
- Quais? A I. e a J.? Essas já estão no lar, mas são muito mais novas que eu.
- Muito mais novas quanto?
- Da idade do J., mais ou menos. Uns 86, 87.
- Ah, pronto, sendo assim, mãe, não tens parentes de idade.
Riem-se ambas.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Pobre, suburbana, de nariz empinado

Roubei esta foto do perfil de algum dos meus amigos do Facebook, não me lembro qual, pelo que peço que me ajudem a identificá-la. Retrata pessoas que vivem na Margem Sul, que trabalham em Lisboa, que regressam a casa nos últimos cacilheiros, esgotadas, e que passarão pela vida sem que lhes tenhamos dado uma existência, enquanto formos todos muito bons, muito letrados, muito diferentes deles.



Ontem, na conversa sobre "Mulheres e Sexualidade" que teve lugar na Ler Devagar, organizada pelo CEMRI, tive oportunidade de tornar público um esclarecimento sobre o enquadramento literário que deve ser dado ao Caderno de Memórias Coloniais, e do qual não abdico a partir deste momento.
Na verdade, trata-se de uma autobiografia romanceada, ou de um romance de inspiração autobiográfica, expressões usadas no paraíso no qual vivemos para designar obras que partem da experiência do eu. Passo a explicar: fartei-me de recriar cenários, personagens, mudei nomes, alterei relações de parentesco ou outras, na verdade o meu pai não andava sempre de camisa branca, o diabo a sete. Peguei na minha memória e recriei-a literariamente sem trair os acontecimentos dos quais fui testemunha. Literariamente é aqui a palavra-chave. O Caderno de Memórias Coloniais é uma obra literária como o são O Amante, da Duras ou África Minha, da Karen Blixen. Não pretendo comparar-me com estas escritoras - sei manter-me no meu galho - mas ninguém se atreve a remeter para uma categoria de literatura à parte, de menor importância, a obra de cariz autobiográfico da Duras, da Blixen, nem a FNAC lhes coloca os livros na prateleira das obras de história sobre colonialismo, como acontece no meu caso. Portanto, não sendo o meu caso diferente, pretendo tratamento igual. 
Um dos participantes na conversa de ontem alegou que talvez a autobiografia não fosse tão mal considerada, em Portugal - subgénero dos subgéneros, afirmei eu - argumentando com Bilhete de Identidade, da Maria Filomena Mónica. Respondi não ter a origem social nem a entourage da Maria Filomena Mónica. Vim do nada, fiz-me sozinha. A resposta satisfez, mas a questão voltou a ser aflorada mais tarde, já a nível particular: parece não ser boa estratégia de marqueting assumir-me como suburbana, oriunda do nada. Foi a segunda vez em menos de uma semana que mantive uma conversa na qual questionavam a minha insistência na origem social. Em Portugal é tramado uma pessoa não se dar ao luxo de parecer qualquer coisa. Em Portugal, considera-se coragem uma mulher afirmar "eu sou isto, eu vim daqui, eis-me sem florzinhas". Isto não é coragem, é autenticidade. É não suportar viver de aparências, de faz de conta. Se faço questão de deixar clara a minha origem social e vivência suburbana é porque as meninas como eu raramente têm a sorte de dar o salto.
Na escola, na semana da leitura, aconteceu-me ler uma frase atribuída a Dickens, que cito de cor e mal: "a pobreza é uma fortaleza com ponte elevadiça". A ideia seria a de que quem está na pobreza se encontra encerrado num lugar de onde nada sai e onde nada entra, existindo, porém, a possibilidade de se sair pela ponte levadiça, caso ela baixe, não se sabe quando nem como. Devo dizer, pela minha experiência de cidadã, professora e observadora, e todas me levam à escrita, que raras vezes vi a ponte levadiça descer para deixar alguém escapar à pobreza ou à classe na qual nasceu. Claro que há exceções, claro que há pessoas que conseguiram escapar à maldição, contudo, as questões de classe são hoje tão atuais como nos últimos dez mil anos, pelo que continuarei a lembrá-las exatamente como lembro que há gente que passa fome e animais que são maltratados.
Há ainda outro aspeto a considerar: lembrar a classe da qual provenho e nomear a minha condição suburbana é também honrar a força dos meus pais, que trabalharam em nome da minha educação, e dar visibilidade ao meio no qual vivo. O mundo não é a élite "intelectual" da Bica e do Bairro, que veio exatamente do mesmo lugar que eu. O mundo são pessoas como eu, que vieram da merda, que a comeram quando foi preciso, que vivem com o pão nosso de cada dia, com tostões contados a partir do dia 20 e que pedem emprestado para depois pagar. Ou não. Este é o mundo no qual chafurdo tentando manter a cabeça à tona.  Não me digam que são todos diferentes!            

quinta-feira, 22 de março de 2012

Os clientes dos nazis das sopas


A minha vida está toda explicada no Poema do Funcionário Cansado, do Ramos Rosa, aquele cujo chefe o apanhou "com o olho lírico na gaiola do quintal em frente". A diferença é que chego a casa às dezanove e quinze, pouso as malas no chão, com descrédito e desprezo, levo a cadela à rua, e atiro-me para cima do sofá, pensando, obrigada, senhor, por afinal não me teres dado filhos, e, logo a seguir, por amor do teu Sagrado Filho concede-me, agora, ao menos uma horinha de apagamento na terra do jamais. E apago.
Ontem, foi mais de uma hora. Acordei eram umas vinte e três, fui à cozinha, bebi água, comi uma laranja, pensei, que se lixem as notas, acordo amanhã às seis da matina, mas aproveito este balanço. Meti-me na caminha com a Morena, mas nada. O segundo apagamento não só não se revelou, como se transformou numa lista de assuntos pendentes que a funcionária cansada adiava para o dia seguinte.
Levantei-me e retornei à sala para ver um episódio gravado do Seinfeld vintage. As outras pessoas não sei, que eu nem o meu vizinho do lado conheço, mas do que gosto mesmo é de uma boa risota. Édipo pode furar os olhos, Medeia matar os filhos, mas nada me expurga a alma de funcionária cansada como uma risota das antigas. E ontem tive sorte: calhou-me o episódio do nazi das sopas.
Não sei se já foram agraciados com o episódio do nazi das sopas, mas a ação anda à volta do seguinte: há um take-away onde se comem as melhores sopas da galáxia, gerido por um argentino excêntrico, que obriga os clientes a cumprirem regras para acederem à sua divina sopa. As regras não fazem sentido, mas não desencorajam a fila à porta. Os engraçadinhos que julgam poder conquistar o dono com sentido de justiça ou um palminho de cara, rapidamente soçobram, expulsos sem a sopa, servida ao balcão, à frente do qual se deve permanecer em silêncio e direito, fazendo o pedido como um soldado raso identificando-se ao general. Nomeada ao sopa pretendida, dá-se um passo de lado para a esquerda, seguido de um segundo passo exatamente igual e também para a esquerda, por esta ordem, e a funcionária da caixa entregará, com sorte, o saco com a desejada sopa. Nada de piadas, nada de reclamações. George, por exemplo, foi expulso por reclamar a falta de um pãozinho no seu saco, e Helen, porque gracejou, denotando semelhanças físicas entre o nazi das sopas e Al Pacino. Seinfeld, vendo-se na eminência de não receber o seu tesouro por se encontrar na fila aos beijos com a namorada, alegou não a conhecer, terminando assim o namoro.
Seinfeld sempre me fascinou, porque encena a vida quotidiana com as suas incoerências, obsessões, fobias, egoísmos, defeitozinhos sem os quais a existência podia ser a paz dos deuses, mas uma paz sem piada, sejamos realistas. Se pegasse nas pessoas que conheço, e em mim própria, e as metesse numa série do género, a risota seria a mesma: o que fazemos e dizemos e desejamos, e a forma como o manobramos, é risível.
Mas o nazi das sopas é especial. Porquê? Bem, é chato admitir, mas o que o nazi das sopas me deixa perceber é que estamos dispostos a tudo por uma recompensa, mesmo que tenhamos de a comprar ao preço da honra. Queremos cumprir as regras para chegar ao reino dos deuses, mesmo que para chegar ao reino dos deuses tenhamos de ignorar a justiça, o amor e a moral. Queremos, gostamos de cumprir as regras. Fomos domesticados para isso. Ainda a semana passada não consegui resolver um problema de palavras cruzadas porque não me veio como sinónimo, em momento algum, domesticar como "educar". Mas era. Numa série, faz-nos rir. Todos os dias, pelo mundo, deveria enraivecer-nos - não enraivece: estamos habituados e já nem sabemos viver de outra maneira.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Os lugares onde fui feliz

A Raquel escreveu, ontem, no Facebook, um pensamento que lhe ocorreu, relacionando o seu regresso a Cuba com uma afirmação de Carlos Esquivel: "nunca vuelvas donde fuiste feliz, porque es peligroso ser feliz dos veces".
Li, não comentei, e pus-me a pensar onde é que tinha sido feliz, mas estava difícil. A infância era para esquecer, e também a adolescência e adultícia, mas tal escandalosa ausência de memória pareceu-me injusta - temos a felicidade em alto conceito: só nos satisfazemos com coisa muita. Com esforço, a memória apresentou-se.
As tardes de Julho, em 1976, em que descia, com o Farrusco, a ladeira da fazenda do meu tio, na Boavista, para colher e comer, no instante, pêssegos gordos e quentes. A seguir, a água gelada da mina resguardada pela ameixoeira frondosa que depois abateram. Bebíamos ambos a mesma água na gruta escura que fazia eco.
Em 1986, quando eu e O Meu Amor fazíamos amor, o Pantufa costumava roer os bocados de lençol nos quais tinham caído restos dos nossos fluídos genitais. A minha mãe não compreendia os buracos na roupa de cama, nem eu conseguia explicar-lhos.O cão era maluco, dizia-lhe. O cão não batia bem da bola. Juro que me ri ao recordar isto. Acho que ainda tenho uma colcha indiana toda roída.
Houve um dia de Agosto, em 1995, se não engano - estávamos acampadas em Carrazeda de Anciães, num parque todo de pedra e silvas onde colhíamos amoras bravas, negras e doces, do tamanho de peras. Íamos comê-las para a borda do tanque a que chamavam piscina, sempre seguidas pelo cão do parque, com olhos chorões e orelhas caídas. Eu sentia medo do tanque, porque a água era escura e havia folhas  flutuando à superfície. Imaginava que seres maléficos me puxariam do fundo, portanto não me banhava. Temo os seres mágicos. Tinha um fato-de-banho azul escuro, e os olhos muito claros como uma cigana. Há uma foto na qual me vejo assim. Nessa madrugada choveu muito, a tenda meteu água e recolhemo-nos à pressa no Opel, com o cão do parque, que cheirava muito mal molhado pela chuva. Não cabíamos ali metidos com todos os pertences, mais o cão, e não sabíamos se havíamos rir da situação ou chorar do sono e da humidade metida nos ossos. Esse amanhecer depois da chuva, macerada pelos imprevistos, foi o mais puro, o mais lavado que contemplei.
Uns anos depois, em Álcacer, lembro-me de me levantar de noite para enfiar um Nimed pela goela abaixo do Putchi, que tossia deitado no sofá da sala. Tinha uma tosse crónica irritante, mas era um alívio dar-lhe o anti-inflamatório e sentir o ataque passar-lhe. O Putchi foi, de todos os cães que conheci, o que pior cheirava. Era o cão velho do meu senhorio, e tinha feito uma grande carreira na caça. Dormia em minha casa para não ficar ao relento.
Lembrei-me, ainda, que o ano passado, ao Domingo à tarde, ia apanhar pinhas com a Micas e a Morena para a Ponta dos Corvos, e a felicidade das duas enchia-me o peito de risos. Às vezes eram dias escuros, com um céu de chumbo azul. E vi de novo os olhos da minha Micas, senti as festas da minha Micas e as saudades inteiras como um grande saco de areia a embater-me no corpo. Fomos felizes.
Se tivesse tempo, é possível que me lembrasse de mais momentos, mas até agora cheguei à conclusão que, se calhar, todos os meus lugares felizes têm nome de cão.

Quero que pense que sou como as outras


  Foto: Monika Wiechowska, Resting at the sun

Não acredito na primavera nem na fonte inicial e pura. Peço perdão, mas não fumo cachimbo nem tive criadas de farda com gola de renda imaculadamente branca, pelo que o sentido poético da vida não encontrou o habitat ideal para medrar, proliferar e deixar-se admirar.
Sou bruta como um muro pintado a cal, com trincha das antigas, por uma velha toda vestida de negro, praguejando ao longo do trabalho.
O meu pai era do melhorzinho, oh, se era!, mas se fosse vivo havia de me fazer a vida negra com expectativas, e chegada a esta idade, o que eu quero é que me deixem dormir a sesta em paz. E as noites, e as manhãs. Deixem-me sossegar o dia inteiro e não me peçam documentos para hoje à meia-noite nem notas para amanhã. Estou-me nas tintas. Despeçam-me! Sinto-me tão imune a humilhações e a quem me lê os textos à espera que eu escorregue, e senhores, se escorrego, hora sim, hora mais ou menos - a minha maior virtude, ter uns pulmões impecáveis ao léu, todos limpinhos! Os espreitas da escorregadela façam o favor de me denunciar ao sistema, para que impiedosamente me cuspam fora, que eu não consigo cuspir-me sozinha.
Não acredito na primavera nem no pai, mas quando vou a casa da mamã não lhe conto nada: levo-lhe a dentadura, dou-lhe a sopa, o segundo, a sobremesa, faço-lhe o chá, o lanche e o jantar, pergunto-lhe pelas malandrices do cãozinho nova da dona Chinita, pelo enredo das novelas, pela sermão do padre na missa, peço-lhe a lista dos almoços da semana, escuto a lista dos achaques que a atormentaram, conto-lhe histórias inofensivas, fechou aquele restaurante, fui fazer a mamografia, mas ainda não a fui buscar, a seca vai longa, não chove, o frio, corto-lhe as unhas e o cabelo, e falo calmamente, como se tudo corresse sobre rodas bem oleadas, porque a minha mãe é como uma criança que se deve poupar, porque ainda acredita em mim. Isso quis dar-lhe sempre, a ilusão de que era como as outras, pensava como as outras, nada mais desejava, sonhava. Ou seja, era outra. Não sei se sabe que sou cruamente eu. Às vezes, há certas palavras, frases que lhe saem, que me levam a pensar que talvez o intua. Mas o ideal seria nunca perceber que pariu a semente da asneira e da verdade, na construção possível em que ambas viajam vertiginosas num mesmo corpo.
Amo a primavera e o meu pai, mas acreditar, para ser sincera, só na minha mãe, que nunca saberá que eu sou eu e não a outra. E convém que fique assim.

sábado, 17 de março de 2012

Não sei quê da sexualidade

Primeiro pensaram em convidar-me para a da literatura, mas depois arrependeram-se, ah, é melhor não abandalhar isto da escrita, ainda se fossem homens podia-se, mas com mulheres a coisa fia mais fino. De maneira que mandaram-me para a sexualidade, no dia 29. Não percebo bem porquê, porque toda a gente sabe que sou solteirona e tenho pouca prática.

Fome

"A minha infância foi a fundura do poço e o golpe de asa. O conhecimento do anjo e a queda."
Maria Teresa Horta ao ípsilon, de dia 16.03.2012

sexta-feira, 16 de março de 2012

Corpo adormecido

Acordei às sete com um toque na campainha, apenas um. A cadela não ladrou. Esperei o segundo. Não veio. Aguardei que tocassem para outros apartamentos. Não tocaram. Adormeci.
Voltei a acordar às nove, com um pip. Era o barulho do despertador, mas uma única vez. Um único pip proveniente de um mecanisno que não havia ligado na noite anterior. Que estupidez, pensei. Acordar para quê?! E dormi ainda uma hora, já sem a doçura do sono solto e sem dono.
O cérebro insiste em acordar-me o insatisfeito corpo adormecido, sem que eu compreenda para que destino.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Adília, amo-te

Há uns anos, poucos, encontrava-me sentada no King à espera do horário de um filme de que não me lembro, e vi a Adília Lopes descendo as escadas provenientes da sala onde acabara de ser projetado o Autografia do Cesariny. Tropeçou e caiu. Ou caí eu. Uma de nós veio por ali ao trambolhões, naquele dia. A minha memória confunde tempos, mas tenho a certeza que caí no mesmo lugar, nesse dia ou noutro qualquer.
Levantei-me da mesa, fui ter com ela, ainda atarantada pelo filme e pela queda, e disse-lhe que a amava, e foi assim mesmo, que a amava há muitos anos, que lhe conhecia a obra toda, e que se calhar ia fazer uma tese de mestrado sobre a sua poesia, ainda não era certo, mas se calhar ia, e mesmo que não fosse, amava-a, e disso não havia dúvida. Sentei-a na minha mesa e "obriguei-a" a falar comigo. Lembro-me pouco do que foi dito, mas recordo a generosidade com que me escutou. Não era só isso: não teve escapatória. Eu tinha-a apanhado sem defesa, não que tenha muitas, porque a Adília, como eu e vós, é uma mulher que limpa as lentes dos óculos e se penteia aos repelões. Perguntei-lhe pelo filme. Respondeu que ainda não conseguia falar bem sobre o assunto, acho eu. Respondeu que se espantava que fizessem documentários sobre poetas. Eu ri-me, porque para mim deviam fazer-se muitos, mas eu sou romântica e o que penso não tem peso. Estava hesitante, mas falava. Não me conhecia, mas falava. Aceitou-me. Depois disse que tinha vindo com alguém. Alguém a esperava. Uma mulher com um nome conhecido, mas que não recordo. E foi. Trocámos moradas. Prometi que lhe ia enviar um ensaio que escrevera sobre uma das sua obras, e que intitulara "Fode ou morre". Isto era o que eu pensava na altura, e ainda hoje: a mensagem de todos os dias: "fode ou morre", e a Adília exprime-o eximiamente. Acabei por nunca lhe enviar nada e perdi a morada. A Adília foi-se embora. Foi só isto. Continuo a amá-la todos os dias.

sábado, 10 de março de 2012

Vou para a cama em troca de favores

Foto: Steve McCurry

Um dia hei-de escrever sobre o momento em que perdi a inocência e terei de regressar à manhã de hoje.

Hoje fui para o café ler jornais atrasados. Gosto muito. De café. De jornais. De atrasados. Tudo me ajuda a compreender o funcionamento do mundo e o espanto domina-me. As notícias interessam, mas o subtexto paralisa-me de revelações. Leio sobre acordos, apoios, parcerias, financiamentos improváveis, ligações imprevisíveis, vou tomando nota dos nomes de colunistas, cuja especialização me surge sobremaneira opaca, e, quando acordo desa imersão, tenho na mão a chávena com café já frio enquanto o olhar vagueia.

Ao longo da história, através de todas as civilizações, a cama tem conseguido milagres, suplantando as leis da moral, do bem parecer e dos códigos judiciais. É uma lei paralela, marginal, não assumida, mas com mais poder que qualquer outra. Aprender a dormir com as pessoas certas é conteúdo que deveria fazer parte de qualquer cadeira de deontologia. Porque, sejamos realistas, mais cedo ou mais tarde, sabemos bem, é o único recurso para se desbloquear uma verba, resolver um emaranhado judicial, financiar um projeto, arranjar um lugarzinho. Tanto nos negócios bancários como nos da agricultura, pesca ou cultura. A caminha, em Portugal e no mundo, é sagrada.

Eu sei que na nossa terra nunca se diz a verdade. Por exemplo, desde que a crise começou toda a gente se queixa de falta de verba, mas sempre no ar, de forma muito geral - ninguém assume que deixou de ter dinheiro para pagar dívidas que anteriormente não tinha dificuldade em saldar.

Eu tenho uma nacionalidade muito misturada, como expliquei esta semana ao senhor Simões, e toda a gente sabe. Por outras palavras, não sendo excessivamente portuguesa, sou acometida por uma incontenção que não afeta os restantes compatriotas que vivem a crise com normalidade.

Desde o último Verão que deixei de conseguir satisfazer as minhas dívidas normalmente, o que aconteceu por razões muito simples: o valor do meu salário não se alterou em dez anos, embora eu tivesse mudado de escalão profissional por duas vezes - os aumentos consequentes ou foram congelados ou imediatamente eliminados pela subida do escalão de IRS na fonte ou pelos aumentos do IVA fora dela. Há 10 anos, o custo de vida era incomparavelmente mais baixo, a minha mãe ainda podia valer-se, e eu não pagava o salário à pessoa que hoje cuida dela, pelo que o que me sobrava ia sendo investido em pós-graduações, mestrados, viagens, livros, cd’s e arte, de forma geral. Houve tempos em que comprava quadros a amigos artistas como forma de lhes subsidiar os cursos. Dei dinheiro para associações de proteção de animais e de vida selvagem. Financiei, a fundo perdido, expedições alheias a África. Tudo o que tive, fui dando, e não me arrependo do altruísmo, salvo uma exceção, muito localizada..

Mas regressemos ao dia de hoje: não havendo alterações no valor do meu salário há 10 anos, não sendo eu herdeira, não me tendo saído o euromilhões, não tendo ficado rica com direitos de autor, e tendo aumentado o valor dos meus débitos, não é preciso ser especialista em contabilidade: vejo-me todos os meses em sérios apuros.

E volto aos jornais, ao momento em que me ocorre que a maior parte dos problemas do mundo, sobretudo os que envolvem dinheiro, se resolvem na cama. Custava-me muito foder com o homem ou a mulher certos para ver o meu estilo de vida melhorar? Depende, claro. Depende do que estaria envolvido nessa transação de carne. Teria de colaborar muito? E quantas vezes? Quais os custos reais do negócio para a minha liberdade de espírito, consciência e mundividência? Fodia durante um mês, sorria, fingia e acabava ali? Se o assunto não transcendesse o físico, se conseguisse manter a dignidade pessoal de uma menina com educação católica, cristã, e, ainda para mais, feminista, talvez fosse possível iludir o fator prostituição. Seria apenas um subgénero da referida ação, confinado a uma situação concreta, como num filme americano para grandes audiências.

O dinheiro não tem valor real. Nunca teve. Serve para garantir conforto e saúde. O corpo é um invólucro muitas vezes mal usado. Já usei o meu pessimamente, já o sujeitei a sevícias diversas que não desejo aos outros. Que valor tem, para mim, o meu corpo? É sagrado ou posso pô-lo a render?

Enquanto penso nisto lembro-me dos valores que recebi, do cuidado que tiveram com a minha educação! A minha dignidade deveria sempre estar salvaguardada, e entre ela e a honestidade existiam vínculos indissolúveis. “Sê digna, sê honesta”. A minha valorização pessoal viria da dignidade, da honestidade e da independência que me estaria assegurada pelo rendimento do meu trabalho. Ora, alguma coisa falhou nesta equação, porque eu trabalho que me farto.

E retomo o dilema atrás enunciado, resultante da leitura dos jornais no café, esta manhã: em que medida posso resolver todos os meus problemas indo para a cama com alguém sem perder a minha dignidade, sem profanar a forma como sempre vivi, encarei os outros e o mundo? Isto pode parecer de somenos importância, mas é que me dava mesmo jeito ir para a cama com alguém em troca de favores.

sábado, 3 de março de 2012

A baleia

A baleia, baleia, baleia, baleia.
No colégio, a nossa sala é a última do corredor dos mais novos. Somos a única turma de raparigas. Doze miúdas em humanidades. Os miúdos do ciclo juntam-se para nos ver passar.
Cheguei mais tarde. O professor de Introdução ao Direito recebeu-me com um "chegaram os pesos pesados". O homem tem razão. Um barril, barril de banha, banha, por todo o lado crescendo dentro de mim.
Passo com as botas de salto alto, a bata de algodão axadrezado em vermelho, e sobre ela o blusão azul da Melka, de um caqui grosso. Não aquece mas serve-me. Comprei-o num saldo da rua da Prata, tudo a monte, barato, roupa de rapaz, servia-me, xl, grande. Não escolhi cor ou feitio. O que servisse, está bem? Não temos nada que lhe sirva. Não?! O que me sirva. Chega. Tenho de me vestir. Comprei.
Os rapazes do ciclo que cobiçam as raparigas crescidas encostam-se às paredes do corredor para nos ver passar e atirar piropos. De passagem ouço, a baleia azul, a baleia, a baleia. Riem. Lá vai a baleia. Ecoa no meu cérebro até chegar à sala das raparigas. Fujo das vozes. A baleia vai a fugir como pode, devagar na gordura que a tolhe, lá vai a banha ambulante. São só os rapazes do ciclo, os rapazes mais novos. Têm razão. Uma baleia. Tenho um blusão azul da Melka, não me aquece nada, mas esconde-me as mamas enormes, disfarça a barriga. Tenho de esconder o meu corpo porque a baleia é um animal grande.