Eu para o sr. Simões, ao telefone:
- O que está o senhor a fazer?
- Olhe, menina, estou aqui na sala a ouvir o discurso do Marcelo Caetano.
- (Gargalhada) Rebelo de Sousa, sr. Simões, Rebelo de Sousa.
- (Apanhado, defendendo-se) É a mesma coisa, menina.
Mas acha que há assim tanta diferença entre fingir e falar a sério? [Arthur Schnitzler, A Cacatua Verde]
Segunda-feira, 30 de Abril de 2012
Mulhecadelas
Era uma vez uma cadelinha com patinhas
brancas de cabra com muitos pelos interdigitais macios
e despenteados que cobriam as suas unhas como botinhas de inverno.
Era uma vez uma dona que gostava de beijar as patas da sua cadelinha e de estar calada e não ouvir barulho.
Quando dormia com a sua dona, que gostava muito dela, a cadelinha virava-lhe as costas. Nunca lhe dava o focinho e não se percebia porquê. Talvez a incomodasse a respiração humana. A dona, pelo contrário, suspirava pelo cheiro a baba doce da cadelinha, e virava-se para ela, fazendo peso do lado da anca que lhe doía menos, beijando-lhe os quartos traseiros muito gordinhos; depois enfiava o braço direito entre as patas da cadelinha, deixando-o encostado à sua barriga quente; pouco depois,
chegavam-lhe os calores caninos, levantava a cabeça arfando, e por muito que dona lhe dissesse, não vás,
deixa-te estar aqui quente e docinha, era inútil, ia. A dona deixava, pois que remédio, e ela deitava-se muito encostada às suas pernas, sobre a colcha, suspirando fundo. A dona conformava-se. Suspirava também. Ajeitava-se ao seu corpo velho com dores e cicatrizes verdadeiras.
Quando acordava, durante a
noite, procurava-a no escuro, de olhos fechados. Encontrava-lhe o dorso, a cabeça,
uma pata, que afagava. Não lhe dizia nada. Só
aquela festa. A cadelinha acordava do sono profundo e gemia ligeiramente. Sim, sabia que estavam ali, e adormeciam ambas cientes do indizível que as ligava. Muitas vezes, a festa levava a cadelinha a levantar-se para voltar à posição inicial. Deixava-se de novo cair em
peso, encostada à almofada, do outro lado da cama. A dona beijava-a nos quartos traseiros,
dizia-lhe, estás friazinha, tapava-lhe as pernas, e adormeciam dormentes. Gostavam de dormir juntas, porque quando dormiam ficavam com os sonos misturados. Eram duas mulhecadelas dormindo, e falavam a mesma linguagem, não havia diferença. De
manhã, acordavam siamesas. Era esse laço que as ligava. Tudo nelas era diferente, era intuição e rotina. Tudo nelas era só aquilo que podia entender-se e nada mais.
Há quem nasça com jeito para tudo
Era o último dia para meter o IRS e o desgraçado andava a mexer na papelada, essencialmente por não suportar mais coimas de atraso.
Abriu a folha e ficou a contemplar o documento, procurando entendê-lo. Ah, era aquilo do telefone com a assinatura da mãe, toda bonitinha. Toda bonitinha? A assinatura da mãe? Não seria uma das falsificações que se via obrigado a fazer sempre que lhe diziam, "o papel tem de vir assinado pela sua mãezinha", e ele ia ao carro, sentava-se, olhava para o BI da mamã, ensaiava calmamente o desenho de cada letra, e ia escrevendo, com caligrafia da primária, inclinada para a direita, Maria Deolinda... A mãe estava velhota e sem paciência para escritas; via mal, custava-lhe escrever.
"Só amanhã de manhã, Mário, agora estou cansada, já não consigo", e ele lá assinava a urgente autorização pedida pela empresa de televisão por cabo. "Hoje está a tremer-me muito a mão", e o filho assinava o formulário da eletricidade, obrigando-se a tremer para que a assinatura saísse verídica. Era a assinatura de uma pessoa velha, cujas mãos tremiam, portanto, deveria ser igual à do BI, sim, mas tremida. Falsificar uma assinatura não era muito fácil, mas falsificar uma assinatura e as condições físicas da sua produção era de mestre. Por isso, olhava agora para o papel do telefone e interrogava-se, das duas uma, ou a mãezinha estava num dia mesmo muito bom ou ele podia ganhar a vida a fazer aquilo.
Abriu a folha e ficou a contemplar o documento, procurando entendê-lo. Ah, era aquilo do telefone com a assinatura da mãe, toda bonitinha. Toda bonitinha? A assinatura da mãe? Não seria uma das falsificações que se via obrigado a fazer sempre que lhe diziam, "o papel tem de vir assinado pela sua mãezinha", e ele ia ao carro, sentava-se, olhava para o BI da mamã, ensaiava calmamente o desenho de cada letra, e ia escrevendo, com caligrafia da primária, inclinada para a direita, Maria Deolinda... A mãe estava velhota e sem paciência para escritas; via mal, custava-lhe escrever.
"Só amanhã de manhã, Mário, agora estou cansada, já não consigo", e ele lá assinava a urgente autorização pedida pela empresa de televisão por cabo. "Hoje está a tremer-me muito a mão", e o filho assinava o formulário da eletricidade, obrigando-se a tremer para que a assinatura saísse verídica. Era a assinatura de uma pessoa velha, cujas mãos tremiam, portanto, deveria ser igual à do BI, sim, mas tremida. Falsificar uma assinatura não era muito fácil, mas falsificar uma assinatura e as condições físicas da sua produção era de mestre. Por isso, olhava agora para o papel do telefone e interrogava-se, das duas uma, ou a mãezinha estava num dia mesmo muito bom ou ele podia ganhar a vida a fazer aquilo.
Da implosão
As meninas que são bem comportadas e não fumam nem tem
uma vida promíscua nem bebem demais nem dão desgostos a ninguém e têm
uma moral e ética irrepreensíveis precisam de ter em casa muitos comprimidos para acalmar.
Domingo, 29 de Abril de 2012
Quinta-feira, 26 de Abril de 2012
Sobre os primeiros passageiros a entrar nos voos das companhias de baixo custo
Ainda eu vou a caminho da casa da banho para me pentear, passar o gloss e fazer um xixi, e já os meus companheiros de viagem voaram em
direção à porta de embarque.
Os voos das companhias de baixo custo, sem lugar marcado, motivam comportamentos dignos de análise sociológica. E trata-se apenas de uma viagem de avião com lugar para todos, não da corrida pela sobrevivência, por enquanto.
Assim que o número do portão de embarque é anunciado nos painéis dá-se início à caminhada dos 100 metros sem barreiras. Os passageiros movem-se apressadamente, concentrados,
em bloco, tentando, apesar de tudo, mostrar-se compostos e controlados. Não estão supostamente a
correr para ficar o mais próximo possível do balcão onde se realiza o embarque, mas apenas a aproximar-se diligentemente do local onde
este se realizará. Aí, manter-se-ão em filas
separadas: os primeiros a entrar formam à esquerda; os restantes, à direita.
Como se organizam na primeira
fila os passageiros das low cost que compram o direito a embarcar em primeiro
lugar? Observo-os e vejo como se sentem tensos, tão nervosos como os outros. Entre esses trinta, quem será
realmente o primeiro, o segundo, o terceiro, o décimo-segundo e o trigésimo a entrar?
Como se organiza a competição entre os first on board? Terá valido a pena gastar mais? Diminuiu-lhes a tensão, o medo de ir no lugar do meio, ou atrás ou de não ter espaço para a mala?
Ocorre-me: e se ninguém adquirisse o direito à pertencer à primeira lista de embarque? Deixaria de ser necessária, mas os passageiros
continuariam, indubitavelmente, a precipitar-se para chegar primeiro e obter os que
consideram os melhores lugares, ou seja, as janelas ou coxias. Mas haveria mais nervosismo ou seria igual? Na minha opinião, seria igual ou menor. A observação leva-me a defender que haver quem se disponha
a pagar para entrar primeiro gera um medo irracional que
influencia todos os passageiros. A partir do momento em que existem primeiros,
as pessoas tomam viva consciência de que são segundas: assim, não só desejam, naquele momento, não o ser, integrando o primeiro grupo que as livrará dessa secundarização, como ignoram que na primeira fila a concorrência se mantém igualmente feroz entre eventuais primeiros-primeiros e primeiros-segundos. A existência de um primeiro grupo de embarque antecipa a imediata lembrança da possibilidade de se ficar mal sentado, eventualmente entre um homem muito gordo
e uma mulher que cheira mal da boa. É por isso que desatam a correr irracionalmente,
acotovelando-se em direção ao portão de embarque, primeiro, e ao avião, em
segundo.
Contudo, ironia das ironias, nada pode impedir que ao lado da primeira pessoa a
entrar, ou imediatamente à sua frente ou atrás, não se sente o último
passageiro a cruzar o portão de embarque, imaginemos que uma espécie de indigente
relaxado, meio bêbedo, sujo e transpirado, que ganhou o bilhete
num concurso do Manuel Goucha. A natureza das coisas é incerta e aleatória,
mesmo que bem paga, o que faz da vida um interessante território cheio de
caminhos tortos que nos pareceram direitos ou mesmo o contrário.
Há nisto uma
justiça qualquer que não compreendo, mas me faz rir umas vezes, e chorar, outras.
A ordem natural do esquecimento
50 anos
Talvez escreva
Poemas
Que já li
Que outros escreveram
Que eu mesma já escrevi
Esqueço-me
Da minha vida
Adília Lopes, Apanhar Ar, 2010, Assírio e Alvim - exemplar nº 80 de uma edição de 400
Quarta-feira, 11 de Abril de 2012
Não posso ser eu nem qualquer coisa de intermédio
Mister Simões veio a Portugal passar a Páscoa com a esposa e os filhos, aproveitou para me visitar e acabou de sair aqui de casa. Está entre feiras literárias e anda agora entusiasmado com uma ficcionista espanhola cujo nome não devo revelar. Entretanto, conseguiu-me uma conferência numa universidade de outro continente, e esteve a avisar-me sobre como devo orientar a minha comunicação. As indicações foram, "fugir aos estereótipos tropicalistas que tanto lhe agradam, como dizer que os pretos são alegres, livres e coloridos", não fazer afirmações chocantes sobre coisa alguma, ser cool and soft e nada de declarações ou referências de cariz sexual. Ter cuidado com tudo e com todos, e agir como se fosse uma pessoa politica e socialmente correta. Acho que vai ser a minha primeira comunicação au noir, como o Branca de Neve do César Monteiro.
Terça-feira, 10 de Abril de 2012
Em verdade vos digo, meus irmãos
Eu e o ministro das finanças temos um método em comum: gostamos de explicar tudo muito devagarinho. Siga-se, portanto, a explicação: eu sei o que é uma crise das valentes, porque já passei por uma em situação de fogo real. Já saíram de casa assolados pela incerteza do regresso, perguntando-se se conseguiriam atravessar a estrada com vida? Já suaram a experiência de metralhadoras de origem soviética apontadas ao tórax? Já açambarcaram farinha para fazer pão, mesmo sem fermento? Já açambarcaram qualquer coisa que aparecesse, porque poderia vir a ser necessária, para vender, trocar, sabe-se lá? Já fizeram sabão caseiro com potassa e óleo? Já perderam tudo, mesmo tudo o que de material e emocional se pode perder, mesmo que temporariamente? Eu já! Estávamos em 1975, em plena descolonização. Juro: aquilo foi a sério!
Em verdade vos digo, meus irmãos, que nada de bom se aprende numa crise, porque nela não há valores nem moral nem grupo: é cada um por si em nome da sobrevivência. Não arriscamos a vida para salvar ninguém, porque primeiro convém-nos salvar a nossa, e todos os que morrem são bocas a menos. Em crise, regressamos ao que guardamos de mais animal: comer o que houver, beber água limpa, dormir em segurança, desenrascar esquemas para proteger a nossa vida e a dos nossos. Nada mais. Se chegar uma saca de farinha para divisão pela comunidade, dá-se início a uma guerra civil para acesso ao alimento, que acabará espalhado pela terra e sem uso. O desespero não une. Corrói, mata a fraternidade.
Não acreditem, portanto, que vamos sair da crise mais sábios e mais fortes. Aqueles que dela saírem, sairão apenas vivos. Digo-vos isto, porque eu saí de uma e só trouxe isso: vida e os meus valores. Não foi mau. Tive sorte. Os tempos eram outros: não só tinha acabado de entrar na adolescência, como acreditava numa ideologia começada no Maio de 68. Tinha esperança na humanidade, no progresso, na educação, na maturidade. Hoje, é diferente. Ter perdido a esperança. Não acreditar. Nem na educação. O que farão os meus alunos, nos tempos mais próximos, com a educação que agora recebem? Não consigo prevê-lo, e assusta-me.
Em verdade vos digo, meus irmãos, que nada de bom se aprende numa crise, porque nela não há valores nem moral nem grupo: é cada um por si em nome da sobrevivência. Não arriscamos a vida para salvar ninguém, porque primeiro convém-nos salvar a nossa, e todos os que morrem são bocas a menos. Em crise, regressamos ao que guardamos de mais animal: comer o que houver, beber água limpa, dormir em segurança, desenrascar esquemas para proteger a nossa vida e a dos nossos. Nada mais. Se chegar uma saca de farinha para divisão pela comunidade, dá-se início a uma guerra civil para acesso ao alimento, que acabará espalhado pela terra e sem uso. O desespero não une. Corrói, mata a fraternidade.
Não acreditem, portanto, que vamos sair da crise mais sábios e mais fortes. Aqueles que dela saírem, sairão apenas vivos. Digo-vos isto, porque eu saí de uma e só trouxe isso: vida e os meus valores. Não foi mau. Tive sorte. Os tempos eram outros: não só tinha acabado de entrar na adolescência, como acreditava numa ideologia começada no Maio de 68. Tinha esperança na humanidade, no progresso, na educação, na maturidade. Hoje, é diferente. Ter perdido a esperança. Não acreditar. Nem na educação. O que farão os meus alunos, nos tempos mais próximos, com a educação que agora recebem? Não consigo prevê-lo, e assusta-me.
Ao acordar, de manhã, olho lá para fora, abro o email, verifico os titulos das mensagens da escola e parece que tudo está igual: o metro de superfície continua a circular, as crianças fazem barulho na escola primária, há uma ação de formação sobre quadros interativos e outra sobre segurança na internet, o despacho normativo x, sobre exames, foi revogado pelo despacho normativo y, sobre exames. Mas, para mim, já tudo mudou. Não adianta manter a fachada. Eu já vivi isto: já vi esta aparente normalidade mudar devagarinho até atingir o insustentável. Por isso, deixei de ler emails sobre ações de formação e despachos normativos, e ao olhar lá para fora pergunto-me "quanto tempo ainda?".
Soar-vos-ei catastrofista, bem sei, mas é que é a minha segunda vez. Consigo ouvir um barulho próximo de máquinas descontroladas, prestes a colidir. Consigo ouvir o barulho de peças que se vão partindo e caindo ao chão. Reconheço-o de há trinta e tal anos. Garanto que o ouço todos os dias e que sei como vai acabar. É por isso que vos digo, irmãos, muito devagarinho, que embora a 2012 se siga 2013, convém agir depressa para que consigamos continuar a olhar-nos na cara uns dos outros como gente.
Soar-vos-ei catastrofista, bem sei, mas é que é a minha segunda vez. Consigo ouvir um barulho próximo de máquinas descontroladas, prestes a colidir. Consigo ouvir o barulho de peças que se vão partindo e caindo ao chão. Reconheço-o de há trinta e tal anos. Garanto que o ouço todos os dias e que sei como vai acabar. É por isso que vos digo, irmãos, muito devagarinho, que embora a 2012 se siga 2013, convém agir depressa para que consigamos continuar a olhar-nos na cara uns dos outros como gente.
Domingo, 8 de Abril de 2012
As férias de Páscoa dos portugueses em Cabo Verde e nas Caraíbas
Confirmam-se as notícias sobre as férias da Páscoa dos portugueses, em massa, em Cabo Verde e nas Caraíbas.
Vim agora da rua com a Morena e verifiquei que os voos charter já aterraram na Portela, os viajantes já retiraram a bagagem das passadeiras rolantes, e acabam de chegar, carregados de batatas, cebolas, favas e grelos de nabo nos seus Fiats e Seats. A minha vizinha de baixo depositou quatro embalagens de ovos nos braços do filho, dizendo-lhe, "se te desequilibras e me partes um ovo encho-te essa cara de bofatadas".
Antigamente trazia-se artesanato em madeira e uns colares de contas, se não me engano. O comércio de souvenirs está a mudar muito.
Vim agora da rua com a Morena e verifiquei que os voos charter já aterraram na Portela, os viajantes já retiraram a bagagem das passadeiras rolantes, e acabam de chegar, carregados de batatas, cebolas, favas e grelos de nabo nos seus Fiats e Seats. A minha vizinha de baixo depositou quatro embalagens de ovos nos braços do filho, dizendo-lhe, "se te desequilibras e me partes um ovo encho-te essa cara de bofatadas".
Antigamente trazia-se artesanato em madeira e uns colares de contas, se não me engano. O comércio de souvenirs está a mudar muito.
Terça-feira, 3 de Abril de 2012
A Morena está desesperada
Preciso, urgentemente.
Caso resolvido, graças a Deus. Obrigada pela ajuda dos leitores.
Caso resolvido, graças a Deus. Obrigada pela ajuda dos leitores.
Domingo, 1 de Abril de 2012
Para ter a certeza
O filho raramente a vem ver, e a dona Encarnação sente-se sozinha. Receia ir à rua, por medo de ser atropelada. Quando sai, procura a passadeira, mas, à cautela, não atravessa. Posta-se no lancil, olhando para um lado e para o outro, e fica parada, esperando que venha um carro: ele que pare para ela passar muito de-va-ga-ri-nho. Nunca atravessa uma rua vazia. Passar uma rua sem carros seria um grande risco.
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