sábado, 26 de maio de 2012

Da arte ao complemento oblíquo




Não gosto de ir muito acompanhada ao cinema, teatro, exposições, concertos, etc. A experiência da arte é, para mim, essencialmente solitária, reflexiva.
Reparo, também, que os poucos que me acompanham, não veem ou escutam o mesmo que eu, tendo lá estado ao mesmo tempo.
A vivência da arte é intrinsecamente pessoal, íntima. O nosso olhar é absolutamente condicionado pelo que vivemos e agora somos. Como dizia Barthes, um texto transforma-se em mil, se para ele existirem mil leitores.
Vem tudo isto a propósito de raramente sair de uma sala de cinema com a mesma abordagem do meu acompanhante, mesmo que tenhamos ambos a convicção de ter estado perante uma obra maior, se for o caso. Interpretamos cenas e diálogos de acordo com visões diversas. Isso é belo e não desvaloriza a obra nem as perceções individuais que dela temos.
Ao longo da minha vida de professora tenho tentado que os meus alunos percebam isto. Interessa-me menos que tenham um conhecimento explícito da língua. O implícito basta-me. Interessa-me que sejam capazes de ver e pensar arte, que a tragam para as suas vidas como um pulmão fora do corpo, através do qual respira tudo o que em nós não é apenas corpo. Nunca quis ser apenas uma professora de Português. Quis ensinar pessoas a viver amorosamente, com a convicção de que uma aprendizagem desse gabarito passa pela literatura e pelas restantes formas de contacto com a arte. 
Muitas vezes, em nome desta convição de que não abdico, tenho sido considerada uma professora à parte, desleixada. Vivo bem com isso. Confesso que me interessa muito pouco que os meus alunos saibam o que é uma oração subordinada não finita participial ou um complemento oblíquo. Eu própria me estou nas tintas para as orações e para os complementos. Quero que compreendam intuitivamente a respiração dos textos que escrevem ou leem e se emocionem com eles. Foi para isto que escolhi ser professora, tendo podido continuar no jornalismo e almejar uma linda carreira a entrevistar morcões, de que abdiquei. Se não posso ser a professora que desejei, não me interessa sê-lo, e faço o que me mandam para receber o salário e sobreviver. Transformo-me, assim, na funcionária cansada que os meus colegas dizem ter mudado de disposição desde o ano passado. Ando menos alegre, menos sorridente. Se calhar foi da operação ao estômago. Talvez da quase menopausa. Sinto afeto pelos meus colegas, que se preocupam honestamente comigo, mas como explicar tudo isto num intervalo de cinco minutos?!
Assumida esta condição, é óbvio que também me estou nas tintas para a avalição do desempenho que terei nos próximos anos. Aquilo que ensino nunca será avaliado, e eu serei fatalmente uma má professora para as estruturas tutelares e seus seguidores, mesmo que ensine sem paixão tudo o que há para saber sobre orações subordinadas relativas adjetivas e adverbiais finitas e não finitas. Avaliem-me, se conseguirem, e expulsem-me a pontapé, assim que puderem. Há sempre alguém disposto a substituir-me e a dobrar a espinha ao complemento oblíquo.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Escrever, essa coisa


Textos ensanguentados

Textos
ensanguentados
como feridas

Gralhas
ensanguentadas

Textos
gelados
como árvores
no Inverno

Textos
como árvores
cortadas
aos bocados

Textos
como lenha

Textos
como linho

Textos
brancos
como a noite

Textos
brancos
como a neve

Textos
sagrados

Textos bifurcados
como ramos

Textos
unos
como troncos


Adília, algures

Coisas pirosas

Deus é a nossa mulher-a-dias

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa

Adília, algures.

As luas do mundo

 Geninne's Art

O homem que amei não me quis e sonho com ele um par de vezes por semana.
A cabeleireira pousa o telefone no meu peito. Ele é seu amigo. Eu digo, D. Teresa não me corte tanto atrás. Ele ouve-me e pede para falar comigo. Tenho medo. Passaram tantos anos, a minha vida mudou e ainda gosto dele. Ainda gosto tanto dele como se o tempo não tivesse passado, como se fosse a mesmo menina tonta e iludida do tempo das fotonovelas. Falamos ao telefone com carinho. Tudo o que queremos dizer um ao outro está no que não dizemos, nesse silêncio carregado de doçura, falta, aceitação.
Ele pôde controlar a nossa história de amor de acordo com o seu ideário. Pôde decidir se teria lugar, se voltaríamos a cruzar-nos caso Deus não interviesse, e não o fez, mas escapou-lhe um detalhe: eu escrevo, e escrever é um ofício de talhante: cortar o corpo à faca desde a garganta até ao útero, voluntariamente, e o que sai, sai. Puxam-se as vísceras para fora, arrancam-se com a força dos braços, e atira-se a carcaça para os cortadores. Não estava nas suas mãos, nem nas minhas, amar e escrever. Calhou. O destino escolheu o seu alvo. Por isso, está tudo a nu, escancarado aos olhos de quem queira observar, escavar, comprazer-se na vileza, na dor ou na derrota. E eu estou cá, sempre  incomprável, incorruptível, único guardião do nosso amor. E enquanto estiver viva há-de ser assim.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Muita dificuldade

Tínhamos
em comum
ter de ganhar
o pão
de cada dia
e ter muita
dificuldade
em ganhar
o pão de cada dia.

Isto
é muito mais
que a questão
do destino

Adília, Poemas Novos, 2004, &etc

A cada dia basta a sua pena

Geninne's Art

Deixa
o dia de ontem
com Deus

E vive
em paz
a espera

A cada dia
basta
a sua pena

E
o amanhã
é
como o arco-íris

Um anjo
está contigo
quando desanimas

Um anjo
está contigo
quando te alegras

Sempre
um anjo
está contigo

E
o arco-íris
brilha
como a água
que corre

Adília, Poemas Novos, acho - transcrevi para o meu caderno de memórias e não anotei bem a referência. Para ti, minha querida Ana Almeida. E também para mim. E para os que amamos e desamamos. Para todos os que Deus trouxe ao doce inferno da vida.

terça-feira, 22 de maio de 2012

O meu relógio é muito forte

A engrenagem do relógio preto que me deu o meu amor bate com muita força, faz barulho. Ouço-o quando tento dormir. Mudo o mão mais para baixo. Pouso-a sobre a anca e o barulho fica distante.
Ouço-o enquanto trabalho no computador, enquanto escrevo. Penso, "deve ser um relógio mesmo bom. Nunca tive um assim."
Quanto dormimos juntos, pouso a mão do relógio sobre a cabeça do meu amor e com a direita agarro o seu sexo.
Ele desabotoa-me o relógio do pulso e quando acordo nunca sei as horas. Ouço os aviões passar e penso que é cedo.

Os meus pertences

Quando me perguntam o que tenho e respondo "nada", estou sempre a dizer a verdade.

Amendoim aos macacos

Presente.
Estou aqui para lembrar, aos que me amam, o mesquinho desamor que me atiram.
É o trabalho de uma vida, Um mister incompreendido.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O tempo


Em pequena a Morena era muito assustada, não a cadela confiante e calma que depois se tornou. Tinha medo de tudo. Ia à rua, fazia xixi e casa. Exceto quando conheceu o grande doberman preto de orelhas espetadas que morava na calçada do Esfola-lhe-a-Pele, uma rua muito inclinada, de sentido único, na encosta do Castelo, em Alcácer do Sal. Vinha de lá a dar ao rabo, rápida, cansada e sorridente, e uma vizinha que estava muito à janela, tinha todas as doenças, e, entretanto, naturalmente, morreu, contou-me: senhora professora, ela tem ali um amigo: a bisarma do doberman preto de orelhas espetadas, com o sêxtuplo do seu tamanho, com quem brincava no meio da calçada. Eram dois garotos a jogar à agarrada. Os carros paravam com uma grande chiadeira, e se a rua era a pique. Eu punha o coração ao alto, como se faz com filhos rabinos.
Não sei se sentiram saudades um do outro quando se apartaram, mas a Morena continua a enrubescer quando avista um doberman preto. Hoje não vimos nenhum. Foi a forma como ela atravessou a estrada, risonha, moçoila, de rabo a abanar. Vi a cadelinha jovem dessa altura. E, ao vê-la, vi-me, e a todo este tempo que temos passado juntas, que me atravesssou como um fantasma. Não me doeu. Foi o embate da força dos dias que circulam a alta velocidade. Não me magoou. Atravessou-me. Isto para vós não significa nada. Mas deixei-me ficar parada na rua, abstrata. Quando entrámos no elevador, abracei-a, apertei-a, beijei-a, tudo de uma vez. Ela não gosta que a aperte, mas devo prestar culto à vida que nos calhou, ao tempo que nos foi dado, a nós.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Ela foi minha escrava

Foto: Tina Modotti

Meto a mão na gaveta das cuecas e tiro um soutien. Volto a enfiá-la na dos soutiens e saem-me umas meias. O Sr. Simões diz que eu não sou organizada, que me mudaria a casa toda.
Mas houve uma altura em que fui organizada. Era adolescente, vivia pelos meus meios, depois durante a travessia dos 20, início dos 30, sofrendo ainda as consequências da luta que foi resistir à tristeza. Organizar o que me dizia respeito foi, julgo, uma forma de controlar o mundo. Organizar a minha vida e a dos outros, não permitir desvios. Era implacável nisso.
A partir dos 40 mudei. Passei a chegar atrasada, a não ter agenda, a não arquivar papéis. Depois da psicanálise voltei ao tempo em que tinha a cabeça noutro lugar, imaginando. Foi o regresso ao passado de menina, e já não saí desse nicho morno de conforto e inocência. 
O senhor Simões diz que piorei depois da psicanálise. Para os seus padrões de contenção, admitamos que sim. Incontive-me desde aí.
Hoje, enquanto tirava um soutien da gaveta das cuecas, perguntei-me “porque sou assim”? A minha mãe não me ensinou a ser organizada?! Que exemplos recebi, mesmo que não mo tenha ensinado?! Revi o passado. Não, não me lembro da forma como a minha mãe organizava a roupa ou as louças ou sequer  onde as tinha. Quando era pequena fazia o que me mandava, sempre obrigada, mas inventando mundos ou fantasiando com o Gianni Morandi. Nunca estava lá, estava dentro de mim. Hoje, da mesma forma, realizo as tarefas caseiras alheada da realidade, magicando projetos, ideias, escrevendo textos na cabeça, que depois me apresso a apontar, parando de aspirar ou de lavar a casa-de-banho. Nunca vivi neste mundo, sobretudo se tenho de fazer o que não me agrada. Desligo o botão e dirijo-me para o meu Shangri-La  
Não, não sei. Quando era pequena não sei onde a minha mãe guardava a roupa. Vestia-me, calçava-me, penteava-me, metia-me a lancheira na mão, dava-me ordens. Eu era o seu boneco e ela era a minha escrava, como do meu pai. Não fazíamos nada, esperávamos que ela o fizesse. Não sei como pôde aguentar sem ais os trabalhos que lhe demos. Eu não suportaria, porque a minha reduzida paz depende do espaço privado ao qual permaneço física e mentalmente só, lendo, escrevendo, vendo filmes, beijando a cadela, cuidando das plantas, amando a existência, e chega-me. Gostava muito de viajar, para me maravilhar com o que nunca senti e sei estar à nossa espera, basta querermos. Mas a minha mãe, como nos suportou. E que pesados fomos ambos, os dois gordos como focas!
Aborreço-me com ela porque reclama da minha comida, a sopa espessa ou rala demais. A carne inteira que devia estar desfiada, ou o contrário. A canja deveria ter arroz e não massa. Trouxe a laca x mas deveria ter trazido a y, e agora precisa do creme Benamor que está quase a acabar, só dá para três semanas. Aborreço-me porque é exigente, implacável, porque não dá valor ao meu sacrifício após um dia de trabalho. Ralho, tu não tens pena de mim, tu não tens consciência do que é a minha vida. Regresso a casa macerada de dor, sento-me no sofá e penso, sei, tenho a certeza que nós não tivemos pena dela. Ela foi a nossa escrava, e está tudo dito.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O sublime

No fim-de-semana fui ver É na Terra, não na Lua, de Gonçalo Tocha. Na segunda parte do filme vemos um grupo de bird watchers procurando avistar aves na ilha, apesar do nevoeiro. As vozes em off dos narradores informam-nos que um desses birdies tinha ficado preso no Corvo, certa altura, devido ao temporal, pelo que decidiu subir a serra para apreciar as aves; nesse contexto avistou uma tão rara que se emocionou, sentiu mal e vomitou. Duas raparigas de vintes, trintas, atrás de mim, riram-se. A sua ignorância incomodou-me. Os humanos têm reduzida consciência do sublime. Talvez já tenham passado por ele, mas não perceberam. Uma t-shirt e um par de sapatos com sola compensada não são sublimes. O sublime é uma visão intrinsecamente pessoal, solitária e rara. Já me aconteceu duas ou três vezes, se tanto, sempre só, no contacto com a natureza, os animais, ou na experiência da arte nas suas diversas formas. O sublime é raro e não tem testemunhas.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Um pingo de vida



Nas traseiras da minha casa, e à sua sombra, a câmara plantou há anos um renque de árvores frondosas, que no Verão dão bagas pretas. Desconheço o seu nome, porque não percebo de árvores, embora as escute e compreenda.  Esta semana houve um dia em que choveu e ventou desalmadamente, e passando eu sob as árvores, vi cair do ninho, lá do alto, um pardalinho bebé. Um pingo de vida. Saltou duas vezes no chão, antes que a Morena o abocanhasse e fugisse, provocando também a minha corrida no seu encalce. Morena, larga o passarinho, coitadinho, larga, Morena, larga, não faças isso, anda já aqui, Morena, dá. E deu. Aliviou a boca e depositou nas minhas mãos o passarinho assustado, que aí protegi do frio e do molhado, beijando-o de leve na cabeça, sem saber o que fazer, mas com o sério intuito de o trazer para casa, de o salvar. A minha mãe haveria de me dizer como se salvava um pardalinho. Pela minha cabeça passaram rápidas ideias sobrepostas, imagens, recordações. Dava-lhe pão molhado e esmagado, arranjava-lhe uma caixinha, e fazia de mãe-pardal enquanto não crescesse o suficiente para voar. Senti-me preocupada com a súbita responsabilidade, e apressei-me em direção a casa, com o pardalinho inquieto, abrindo e fechando o bico no côncavo das duas mãos fechadas. Sentia o calor do seu corpinho e o coração a bater-lhe muito depressa. Quando entrei em casa pareceu acalmar. Ficou muito quieto. Olhei para o bebé: adormecera. Estava mole. As pálpebras haviam-se cerrado.
Embrulhei-o em papel de jornal e enterrei-o ontem.
Hoje, sob a mesma árvore, duas pombas debicavam uma bolacha Maria cheias de vontade de viver.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Quero ter uma revelação

O novo edíficio que agora substitui o WTC, mais alto, é um brinquedo novo. De resto, não só não serve para nada, como se manda abaixo com igual facilidade.
O ataque às Torres Gémeas mostrou a América à própria América. Eram mais frágeis do que se pensavam. Aliás, nunca que lhes tinha ocorrido que estavam tão à mercê quanto eu. Afinal, a nação multipartida não era um cofre forte e os seus filhos não podiam dormir em segurança.
Lamento profundamente a dor dos que ali morreram, e também a perda que sofreram os que os amavam, mas o outro lado do mundo ganhou, usando o mais expressivo dos argumentos: a destruição do centro financeiro do mundo (World Trade Center). 
Dizem que a destruição do Centro Financeiro do Mundo (CFM) inaugurou uma nova era. Eu também. Aquilo que o CFM representava não me agradava. Os CFM que proliferam pelo resto do mundo continuam a repelir-me devido a duas ideias-chave contidas na expressão: centro e financeiro. 


 Foto: Steve McCurry



Não existe um centro do mundo porque todos os mundo são centros. Eu juro que não sei onde fica o Burkina-Faso, mas tenho a certeza que fica no centro do mundo, exatamente como Vila Nova da Barquinha. Por outro lado, o centro do mundo sou também eu a plantar couves de permacultura na varanda, o meu vizinho a levar o filho ao atletismo, a minha mãe a chagar-me o juízo porque toma o Laevolac e não caga, mas finanças é que, garanto, não. Ter misturado vida e finanças, pelo menos como o fez a cultura na qual nasci, foi um erro que pagamos caro.

Queria ter uma ideia do que será o novo mundo. Gostava de sonhar com ele à noite, de ter uma premonição. Gostava que Deus mo revelasse, mas nada acontece.
Julgo que teremos menos bens, que consumiremos menos, não apenas nós, mediterrânicos, ibéricos, países do alho e do tomate, mas todos, contudo não sei como vai acontecer. Percebo que o novo mundo não poderá ter um Centro Financeiro, portanto esqueçam os escravos da China. O novo mundo não é lucro, e a China tem os pés tão de barro como o WTC. Por isso me espantou ver na tv, anteontem, a notícia de que os nova-iorquinos podem agora contar com um novo edíficio mais alto que o World Trade Center, e que essa é a prova de que eixo do mal não venceu. Sorri sozinha enquanto o homenzinho falava. Parecia-me uma criança a dizer, "ele estragou-me o meu boneco, mas o meu pai, agora, comprou-me outro muito maior e melhor".
Não aprenderam a lição. Ainda não aprenderam. Manhattan não é centro de coisa alguma, as pessoas vestidas em fatos executivos transacionando em arranha-céus apenas jogam computador e tudo está prestes a dar uma volta tão grande que, como é que hei-de pôr isto em termos que se entendam? Tenho pena deles?

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Os escravos livres

Às 8 da manhã, o elevador anda para baixo e para cima com uma frequência que me agonia. Escuto os passos apressados das pessoas nos outros andares e o ruído do trânsito lá fora, acelerando. Levanto-me para iludir os barulhos do exterior, produzindo os meus. Sinto-me mal disposta, com o estômago às voltas, como quando aos sete anos me acordavam para ir para a escola, sabendo tão bem que se preparava mais um dia de pancadaria, de dor e resistência sem esperança. O meu estômago sempre me assinalou a angústia.
Começamos a ser escravos demasiado cedo, e, se não estivermos alerta, ou não pudermos libertar-nos - raramente estamos, podemos - somo-lo a vida inteira, tomando-o como a ordem natural da existência, aquilo que tem de ser feito porque outros fizeram antes de nós, porque é assim, é assim, pronto.
Não tomo o pequeno-almoço. Não consigo. Tenho o estômago às voltas. Bebo um chá para mitigar o vómito. Preparo rapidamente o meu fardo e sigo em direção ao campo de concentração onde trabalho para manter o direito a trabalhar.