quarta-feira, 20 de junho de 2012

Não se fiem nas impressões II

Chegou à aula atrasada, pousou os pertences em cima da secretária, pediu à única aluna que sabia ter feito os trabalhos de casa que os passasse no quadro para correção, enquanto ia a correr buscar o livro de ponto. Sair da sala era contra os regulamentos. Deveria chamar uma funcionária que o fizesse, mas não havia ninguém no pavilhão e os miúdos eram crescidos, ficavam bem sozinhos. 
Regressou. Os trabalhos estavam ainda a ser passados. Os alunos conversavam enquanto preparava documentos. Procurou o relógio para distribuir o tempo que tinha pelas atividades a realizar, e não o encontrou. Trazia-o no bolso ao entrar na sala, e antes de sair em demanda pelo livro de ponto. Provavelmente tinha-o deixado pousado na mesa. Não o encontrava. Perguntou à aluna que tinha feito os trabalhos de casa:
- Viste um relógio em cima da mesa?
A miúda abanou a cabeça, encolheu-se toda.
- Viste ou não viste?
A miúda encolheu-se ainda mais, olhou para trás várias vezes, em direção ao lugar onde se encontravam os colegas a conversar. Não era miúda de tirar nada. Já o resto da turma tinha fama de asneirar em regime intensivo, com longo cadastro. 
O relógio não estava ali, a miúda encolhida, não falando, olhando de viés e para trás... não havia que enganar.
- Ó, meus meninos, deixei o relógio em cima da mesa antes de ir buscar o livro de ponto, entretanto desapareceu, portanto comecem a pensar em fazê-lo aparecer, porque ninguém sai desta sala enquanto isso não acontecer.
Começam-se a ouvir suspeitos"eu não fui". 
- Não quero saber quem foi, quero apenas o relógio, portanto organizem-se e façam-no aparecer. Simples. 
E continuou a busca, não fosse ter visto mal. Revolveu a mochila pessoal, depois a mala de mão. 
E na mala de mão, entalado entre um montes de papéis de multibanco e folhetos de publicidade escondia-se o relógio. 
Retirou-o, suspirando. Grande erro. Suspeitar de alguém injustamente é muito embaraçoso. 
Olhou para a miúda. Continuava encolhida, olhando para trás. 
- Meninos, esqueçam. O relógio está aqui. Peço desculpa. 


Escrever

As mesmas pessoas que me viam passear com a Micas e a Morena, perguntam-me agora pela primeira, e eu respondo, morreu, estava velhinha. E os vizinhos encolhem os ombros, sorriem à mulher sozinha que passeia os cães e lhes sorri. Estava velhinha, repetem. Sim, estava velhinha, confirmo. Eles andam. Eu ando.
Sem fechar os olhos revejo a Micas, coxeando ao meu lado, feliz, sacudindo a cauda. Éramos um trio de fêmeas que se entendiam e dependiam dos mútuos afetos. 
O ano passado, por esta altura, tinha ela deixado de andar e eu preparava-me para lhe mandar fazer uma cadeirinha de rodas, e acreditava que duraria muitos anos nela. Adaptar-nos-íamos à nova situação, como sempre, e a vida continuaria. Depois morreu, e não fui eu que a enterrei. Passo no sítio onde ela está, de vez em quando. Não sei porquê. É apenas um cadáver animal a apodrecer. Passo, porque ela ainda está dentro de mim e quero ver o sítio onde o que resta ficou? Não sei, juro. Há comportamentos qu nunca conseguirei explicar. São irracionais. São meus. Talvez um dia perceba. É mesmo fundamental percebermos tudo? Demoro muito tempo a fazer o luto dos meus amores. Vou chorando e escrevendo, até parar de chorar. Não paro de escrever porque não se tira o pão da boca de uma pessoa.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Uma barragem contra a mudança


  Imagem - Chertkova Svetlana


Regressei do trabalho a pé e subi até casa por uma rua antiga onde não se passa de carro.

Tudo muda, mas, graças a Deus, nesta rua, nada mudou. São as mesmas tascas-mercearia, as mesmas mulheres à janela, os mesmos edifícios, feios e sujos, os mesmo pátios populares. Subo com o passo forte com que a subia há mais de 20 anos, mais umas gotas de suor na nuca, e a minha alma ilumina-se durante a subida. Há um sossego na permanência, na imutabilidade. Posso defender mil vezes as vantagens da mudança, enumerá-las, mas a rua que não mudou prova-me que o passado ainda existe, bem vivo, todo inteiro. Ei-lo ali exposto ao meu olhar mental.

Estou agora a ver o sítio exato onde reclamei com ele que já tínhamos pouco tempo para fazer amor, porque se entretera a falar com os outros, porque não queria saber, porque nada lhe interessava, porque agia como uma criança. Dali a nada os meus pais estariam de volta, e quando voltaríamos nós a ter tempo para fazer amor, por acaso saberia responder-me? Não sabia. Encolhia os ombros. Não sabia nada. Não pensava, naturalmente, e eu tinha vontade de o esganar. E continuava a subir, apesar de tudo desejosa de o abraçar, de sentir o seu corpo que era um vício tão vermelho. Depois amargo. Esse momento está ali. Ficou gravado nas paredes exteriores do café Nita, como as figuras de Pompeia, no sítio exato onde a rua começa a estreitar em direção ao prédio do sapateiro cujo cão me mordia a curva do tornozelo, quando descia às sete da manhã, apressada para apanhar o autocarro da ponte ou o cacilheiro. Passo e ouço-nos, vejo-nos, e também o cão do sapateiro, falsos ambos.

A casa com o painel de azulejos, onde se lê “contabilistas”, está para venda. Ao lado, a outra casa, decrépita, onde já só moravam velhos, encontra-se apenas abandonada.  De resto, tudo igual. Que maravilha, que sossego de existência a rua velha, feia, onde o passado permanece guardado para eu ter a certeza que aconteceu, e reviver de uma forma estranhamente física os momentos em que ficávamos sós antes dos meus pais chegarem, os dentes rápidos do cão na curva do meu pé e o suor na nuca.
Ainda existe tudo, afinal há coisas que não mudam; há mesmo coisas que permanecem dentro dos limites das velhas ruas feias onde só eu passo, porque só eu sei onde ficam, que existem. São atalhos que escaparam porque não interessavam. São cofres desengonçados aos quais ninguém deu importância. Talvez os outros tenham também as suas velhas ruas feias. Se assim for, guardem-nas bem.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Da tristeza



Mas a menina traz consigo uma alegria inata que eu nunca tive, responde mister Simões, argumentando relativamente às propostas de vida que lhe apresento.
Tenho uma alegria inata? Vim mesmo equipada com um acessório tão raro e caro? Talvez tenha razão, admito. Gosto tanto de me rir. Uma boa gargalhada não se recusa. Uma piadinha a qualquer hora. Um sorriso. Interrogações, constatações que elaboro na minha mente nos segundos que precedem a sua afirmação. Mas não, acho que não. Não lhe respondo. Nem sei se sorrio. O Simões engana-se. Mais uma vez confunde aparência e essência. Sempre me servi da aparência para ir furando e do resto para resistir. Sempre fui uma pessoa triste, como os tais palhaços que fazem rir as almas, mas no final do espetáculo regressam lentos ao camarim e tiram a pintura das caras como um funcionário administrativo descalça os sapatos ao chegar a casa. Acabou a terça. Há-de vir a quarta. Para quê? Para nada.
Mister Simões, sem querer, faz-me recordar os palhaços da infância. 
Estou sentada na bancada do circo Mariano, entre o meu pai e a minha mãe. O palhaço rico, muito brilhante e inteligente, e o palhaço pobre, desajeitado, tonto, contracenam na arena. Eu rio. Todos riem. O meu pai irá explicar-me que os palhaços são pessoas como nós, também tristes, talvez mais tristes, os mais tristes de todos. Explica-me que quando voltam para a roulotte deixam de rir. Compreendo parcialmente. Compreendo que tiram a roupa do palco, a maquilhagem, que fazem comida, tomam banho e dormem. Mas que sejam tristes como penso que seja a tristeza, não compreendo. Ninguém lhes bate, não têm de ir à escola e resolver contas de dividir. Na minha mente imagino-os interpretando a tristeza exatamente como interpretam a alegria: como atores. Sou demasiado nova para compreender a adultícia e o seu permanente diferendo entre a expetativa e a realidade. Escapa-me que quase tudo está fora do meu controle, que mesmo trabalhando eu a meu favor, a ação de alguns sobre a vida excede o meu poder e capacidades. Não percebo bem as minhas limitações humanas. Tudo é possível, querendo, e se todos quisermos, se todos virem a verdade… Não sei que os outros não querem todos, que a verdade não é visível nem universal. Sou uma menina cujos dias são alegres ou tristes, e nem pensa nisso. Quando são alegres, vive-os inteiros, e, quando são tristes, procura entreter-se. A tristeza não é um estado permanente. Não há um sentido na tristeza. Não me parece que tenha vindo aqui para ser triste.
E agora volto a mister Simões. A menina é otimista, encontra solução para tudo. Se o céu desabafar sobre si, a menina desata a escavar um túnel para se salvar. Rio-me.
Não é isso, senhor Simões. Há uma tristeza que se vai calcificando com os anos e que não sai, mesmo quando sorrimos, quando procuramos saídas. É um sarro que não se pode tirar. Entra e fica. Há episódios que a acordam, e nesses dias fico triste. No resto do tempo, ignoro a tristeza instalada, salto por cima, porque tenho estes anos para cumprir e quero cumpri-los sem dores atiçadas. A tristeza é como as borras do vinho velho, lá no fundo, quietas, não chocalhando a garrafa. E o senhor é igual, porque somos todos iguais.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Não se fiem nas impressões


Sempre me disseram que não devo confiar em primeiras impressões, e concordo. São enganadoras. Esforço-me por chegar às terceiras, mais adiante não, porque a resistência tem limites.
Hoje, no Café Machado, estando eu a comer meio delicioso croissant com fiambre, acompanhado por um garoto quase frio, o que muito me desgostou, ouço atrás de mim um vigoroso e apelativo bom dia. Pensei com os meus botões, é alguém que vem pedir alguma coisa, ou um vendedor, das duas, uma.
Não gostei da minha descrença, portanto voltei-me e olhei para o emissor do cumprimento.
Era um senhor de fato e gravata, com uma capa onde se lia Bolos Matinal - frescos/de longa duração - fornadas todos os dias.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A vida a acontecer

O senhor Simões aterrou esta semana vindo de um país do centro da Europa onde contactou jovens escritores promissores que pretende agenciar. Fura-vidas, este homem. 
Esteve ontem a jantar em minha casa. Fui buscar um frango ao Zé das Galinhas, que me trata sempre por menina, e eu sorrio, muito agradada. Também me trata pela filha de fulano de tal, e diz o nome do meu pai morto há 11 anos. Continuo a gostar de ser a quase menopáusica menina-filha-do-meu-pai.
Não me apetecia cozinhar. Era sábado.
Após o jantar, o senhor Simões confidenciou-me que tem tido problemas sentimentais com uma escritora que conheceu na República Checa e dá para os dois lados; que tem sido complicado com a mulher, que no fundo o ideal seria ficar com as duas, mas a checa não está pelos ajustes, que as mulheres não compreendem.
- O senhor tem um destino - respondi-lhe - a sua vida parece-lhe complicada agora, digamos, confusa, mas amanhã pode tudo mudar, a sua mulher conhecer um rapaz novo que entra para o escritório, a checa voltar para a anterior namorada... sabe lá o senhor. Está tudo a mudar, sempre.
E o senhor Simões, alheio à teoria do destino, continuou a contar-me pormenores do relacionamento.
- Mas a Isabela acha que mereço isto da minha mulher? Mas se estivesse no lugar da checa o que fazia a Isabela? 
- Olhe, senhor Simões, nada do que lhe está a acontecer é novo. O senhor tem obrigação de já ter vivido estas coisas. Isto é a vida a acontecer, senhor Simões. Isto é apenas a vida a acontecer.
E, de repente, olhando desconfiado para o conteúdo escuro do copo que eu segurava na mão - era Coca-Cola - pergunta-me, duvidando:
- Mas o que está a menina a beber?

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O tapete da sala

Esqueci-me da porta da sala aberta, ah, aposto.... Levanto o tapete frente ao sofá grande e lá está a esperada mija torrencial, estancada pelo tecido. Não me dececionou. Podia ter mijado no tapete da cozinha, do escritório, da casa-de-banho, noutro sítio qualquer que lhe desse na mona, e para variar, até mesmo usar um lugar autorizado, como a varanda, mas não, será no tapete da sala, porque gosta muito ali, porque é onde me sento à noite à ler, corrigir, pensar, porque aquele lugar especifico da casa é um spot de atração magnética alienígena, ou um uma ara consagrada à deusa do amoníaco. Há questões que nunca terão resposta porque o meu mundo mental aprendeu apenas uma lógica, a minha, não a dela. Talvez seja uma forma de me dizer, bom dia, adoro-te ou porque não te levantas às sete ou estás a ver como sou uma cadela fiel? Não quero saber. Levanto o tapete enquanto penso, dando o desconto, que é como se tivesse um filho de 12 anos que continuasse a mijar todos os dias na cama. Meto o têxtil na máquina, limpo, aqueço o chá, tiro duas bolachas torrada do pacote, visto-me e digo-lhe, vá, vamos lá à rua fazer uma grande cagada.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Ao telefone numa noite de verão I


 Robert Downey Jr.

Sim…
Isa…
Robert! Diz.
Não saíste.
Não. Porquê?
Amanhã é feriado.
É igual. Tenho sempre trabalho em casa.
Saías um bocado para descomprimir.
Nunca saio à noite
Devias.
Não há nada para ver.
E tu também estás em casa.
Mas eu é porque não me sinto bem.
Não te sentes bem, como?
Fisicamente.
Abusas.
Já abusei mais.
Mas podes abusar menos. Menos carne, mais legumes…
Não é isso, Isa. É a idade, o cansaço.
Robert, és mais novo que eu quase três anos... não gozes.
E depois?!
Querido, eu estou aqui para curvas em circuitos de Fórmula 1; trabalhei todo o dia, caminhei uma hora em regime de aceleração, cheguei a casa, tomei banho, esfoliei-me de cima abaixo, e agora…
... estás macia e cheirosa!
Ah, pois, mas não duvides.
(Percebendo o seu sorriso.) Não me importava de ir testar a eficácia dos teus produtos de esfoliação.
Podes vir. Tenho aqui testes de escolha-múltipla que me podias ajudar a corrigir.
E testavamos a esfoliação.
Já testei. A pele ficou macia, garanto.
Oh, Isabela, tem dó deste pobre condenado à pena da velhice!
(Suspirando paciência.) Tá bem, vem que eu faço-te uma massagem nesses ombros destruídos pelo peso da idade.
És um amor, miúda.
Eu sei, Robert. Mas olha que amanhã tenho o almoço para fazer à minha mãe e não posso ficar na cama até às tantas.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Nós

No outro dia, em Itália, perguntavam-me porque me referia eu aos colonos como "nós". Acredito que, tendo eu escrito o Caderno, pareça paradoxal. Mas não. Digo nós porque não posso dizer outra coisa qualquer. Porque existe uma parte larga em mim que ainda é a filha do colono, e nunca a declarei inocente.
Mas este "nós" vai ainda mais longe. África continua a ser o nosso paraíso, a terra de onde nunca saímos totalmente, e onde desejaríamos regressar num tempo já impossível, mas ainda sonhado, idealizado. Não percebemos porque não compreendem eles que nós não somos brancos como quaisquer outros. Nós somos brancos diferentes, que merecem tratamento irmão, porque fomos os brancos deles, tal como eles foram os nossos pretos, e isto, como é que eles não compreendem, é umbilical. Não somos ingleses, nem russos, somos os que falam português, os que lá nasceram ou viveram, os que nunca fizeram o luto, nunca eliminaram esse sentimento de pertença, apesar da expulsão. Ainda somos um bocadinho a potência, como dizer isto?!, a potência que esteve lá, certo? Ainda somos daquilo, e aquilo, nem que seja só nas nossas emoções, ainda é nosso. Não nos curámos, por isso aquilo somos nós, ou o inverso, não sabemos bem, mas que estamos todos metidos por África dentro, isso sabemos, ah, isso sabemos.

Essa é a questão

A grande questão que Shakespeare ignorou: olhar para o espelho ou não olhar para o espelho!·

Um do outro

O meu pai não tinha o anelar da mão esquerda. Foi-lhe amputado por uma máquina tipográfica quando era adolescente. Eu mexia-lhe muito no coto e perguntava-lhe, não te doeu? Não dei por nada. Só parei de trabalhar quando vi a mão cheia de sangue.
Estou sempre a contar as mesmas histórias.

O destino está marcado

A Nita Nails tem um salão decorado com purpurina nas paredes roxas. Faz unhas de gel, gelinho e depilação em pássaras, axilas e qualquer pelo que mexa, enquanto discute assuntos das revistas del corazón com os clientes e as clientas. Disse-me que o que queria mesmo era ser animadora socio-cultural, mas desaguou nesta via profissional sem perceber como. Respondi-lhe que é a vida, que o destino está marcado e, vendo bem, no fundo, é o mesmo tipo de trabalho.