sexta-feira, 6 de julho de 2012

Descrença

Isabela (visivelmente entusiasmada) - Senhor Simões, vai haver book.
Sr. Simões (sem levantar os olhos) - Book, qual book?! Facebook?!

Quero emigrar para outro mundo



Hoje voltou a falar-se de questões relacionadas com o aborto legal. Alguém se lembrou que as mulheres que abortam devem assinar as ecografias e nelas apor o número de semanas de gestação. A medida, tal como é apresentada, parece-me inútil, contudo é importante haver formação cívica sobre este tema, porque a despenalização do aborto não pode passar a ideia de que se trata de uma forma de contraceção. Não há muito tempo deparei-me com o caso de uma estudante de 17 anos que já tinha realizado, no espaço de 3 anos, 10 interrupções de gravidez, entre legais e ilegais.
Numa sociedade ideal as coisas seguiriam esta ordem: a mulher tomaria conhecimento de uma gravidez indesejada, que não conseguiu evitar usando métodos de contraceção, consultaria os serviços de psicologia do seu posto médico, após o que seria remetida para o hospital para realizar a interrupção, sempre antes das 10 semanas. Funciona desta forma na Suécia, por exemplo.
No nosso mundo não ideal, engravida-se e aborta-se sistematicamente, muitas vezes após as 10 semanas de gestação, e o assunto vai sendo escamoteado. Se somos civilizados para despenalizar a interrupção da gravidez, direito que sempre defendi, devemos assumir a responsabilidade de formar técnicos de saúde física e mental para apoio às mulheres que recorrem a estes serviços. Para as que abortam por sistema e para as restantes. Abortar é um direito, somos totalmente donas do nosso corpo e das nossas barrigas, mas abortar não é o mesmo que ir à pedicura tirar calos, portanto, muito trabalho há para fazer nesta área, e não me parece que levantar o assunto seja um atentado aos direitos das mulheres.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

As licenciaturas de uma ideia de poder

Os percursos académicos e financeiros das pessoas que estão na política há algum tempo, e ganharam poder e rating no tráfico de influências, deveria ser investigado na generalidade. Os casos Sócrates e Relvas apenas levantam a ponta do véu. O que lamento é que seja necessário chegar a posições de ministro para a Imprensa se interressar pelo assunto, como se a injustiça pudesse passar, relevar-se, caso o seu sujeito não voasse aparentemente mais alto nos corredores do poder. Este sentido de oportunidade dos órgãos de comunicação social leva-me a concluir, ó santa ingenuidade!, que a Imprensa está amancebadíssima com o poder, e faz-lhe o serviço sujo, de ambos os lados: governo e oposição. 
Alguém deveria queimar o certificado de habilitações a Relvas, mas existindo o precedente Sócrates, será necessário queimar dois. Se se investigasse a sério, é provável que o INE tivesse de rever as estatísticas relacionadas com graduações de nível superior. Claro que, neste país, deixa-se andar, e nada disto acontecerá, para sossego de muitos. Ficamos apenas com novas expressões significativas na língua, muito semelhantes à "carta na farinha Amparo". A saber, "licenciatura de domingo", e, agora, "licenciatura whatever".

domingo, 1 de julho de 2012

Não sou normal


Pergunto-me porque casam as pessoas e não encontro uma resposta satisfatória.
Lembro-me que num tempo muito velho, muito atrasado desejei casar, ter filhos, uma casinha. Era um sonho de paz e normalização. O meu marido gostaria de mim sem obstáculos. Quando nos desentendêssemos, haveríamos de chegar a um acordo, porque um de nós cederia a sua posição, dialogaria. Os filhos seriam lindos, bons e estudiosos. Não nos aborreceríamos porque a casa estava suja e desarrumada, e o carro precisava ser levado à inspeção ou outros. Jamais iria à varanda gritar "vai-te embora, gordo, vai", quando o meu querido saísse de casa batendo com a porta, e tenho a certeza que, no dia em que tivesse ciúmes do meu colega José António, não me atiraria à parede a terrina de porcelana que herdei da minha avó materna.
Sonhei isto num tempo distante. Não sei porquê, mas deve corresponder ao que imaginava sobre a vida dos outros. Era um modelo e uma forma de construir um fim para a vida.
Foi tudo diferente. Do sonho todo, mantenho a ideia da casinha, mesmo desarrumada, e olhando para trás pergunto-me porque casam as pessoas. Não encontro uma resposta satisfatória.