sábado, 29 de setembro de 2012

Está?! É do instituto alemão? Olhe, se faz favor, estou aqui a ler Mário de Carvalho e...

(...) Interessou-me trabalhar algumas referências alemãs, usar nomes - de certo modo como Gogol - , que significam alguma coisa. Interessou-me que um leitor que não saiba alemão vá descobrir alguma coisa por baixo destes nomes, porque eles têm um sentido."
Quer dar algumas pistas?
Para quê? Não vale a pena.
Nem toda a gente sabe alemão.
Pois não, mas há dicionários para isso. E pode-se sempre telefonar à embaixada ou para o instituto alemão.

Mário de Carvalho em entrevista a Isabel Coutinho, ípsilon, 28 de novembro de 2012

Arranjem-me um padre para um exorcismo

 Mário de Carvalho


"Nestas coisas [refere-se aos escritores que se desdobram em personagens], ai de quem tenha só uma voz... (...) acaba a carreira numa interminável lengalenga a sós consigo próprio [o escritor que, como o próprio, não se desdobre em personagens]".
"Com a idade que tenho já não me estou só a debater com os outros, estou a debater-me comigo próprio e com o que já fiz. Assombro-me a mim próprio mesmo que não queira."

Mário de Carvalho, escritor que quer leitores exigentes e rabugentos, em entrevista concedida a Isabel Coutinho, ípsilon, 28 de Setembro de 2012

Sete vidas

Annie Leibovitz, Susan at the House on Hedges Lane, 1988

Não posso escrever sobre o amor. Não há nada a dizer dez mil anos após a sua descoberta. Mas ontem ele fez-me festas no dedo da unha roída. A ferida dói-me, mas não me magoou. Fez-me festas de leve, roçando a pele puxada, levantada, que vai cair na ferida em carne viva, e disse-me, tu róis para além do sabugo, até à carne, até fazer sangue. Os polegares e os indicadores andam maus,  respondi quase a dormir. Depois adormecemos abraçados como dormem os amantes. Ele primeiro. Fiquei a ouvir a sua respiração e a da cadela, um de cada lado e à vez, por vezes simultâneas. Acho que ele nunca me tinha feito festas numa ferida. Tenho cinquenta anos. Sou muito teimosa, mas já não recordo o nome do meu primeiro amor, embora mantenha presente o calor das bocas, a pureza, a frescura idónea da juventude. Não devo escrever quadros intímos, singelos, estúpidos de uma afeição de cinquenta, tão impossível de provar como a fé em Deus. As palavras de amor continuam ridículas e eu só treinei redações sobre o que me faltava. Tenho de ter cuidado. Agora tudo na vida é novo para mim.
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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Comer a terra aspergida de sangue

 Joseph Koudelka


O mundo das crianças mudou muito desde que atravessámos essa idade!
As creches da cidade passaram a ter pequenas hortas, uma capoeira e uma coelheira para ensinar aos meninos que as coxas de frango não dão flor, as batatas não nascem nas laranjeiras e as peras não saem do chão como cogumelos. Uma vez por semana, vão com as educadoras para o quintalinho, onde descobrem que o chão tem grãos chamados terra, e lhe podem mexer com as mãos para enterrar sementes parecidas com as que os papás puseram nas mamãs para eles nascerem.
As escolinhas resgatam os meninos às famílias modernas, que os enclausuram em higiene e digitalização, não os autorizando a fazer festas aos cães da vizinhança, por causa das doenças, dos pelos, dos ataques mortais, e permite-lhes, por programa, tocar as orelhas de um coelho ou tirar do ninho os ovos das galinhas. Deus abençoe as escolas pelo pouco que conseguem fazer.
A minha infância foi um bocado diferente. A minha mãe andava de joelhos no quintal, dispondo nabiças, depois arrancava quatro cenouras e dois pés de cebola, escolhia uma galinha na capoeira, enfiava-a debaixo do braço, cortava-lhe o pescoço em dois segundos, enquanto me gritava, Isabela traz-me um alguidar, depressa, já esguichando sangue em todas as direções da terra. Escaldava uma panela de água, depenava-a, abria-a, preparava-a para o guisado, e punha-ma no prato, com batatas, sem que tivesse tempo para lhe perguntar "como é que conseguiste matá-la se a tratavas com tanto cuidado? Não gostavas dela? Que mal  te fez?" 
Tal como as alfaces e os tomates nasciam e cresciam para ser comidos, também os animais do quintal tinham como único fim a faca e o tacho. Penso que metade do meu tempo livre de criança tenha sido passado a meditar sobre o incompreensível holocausto dos animais domésticos. Darem-me um coelho, deixarem-me chamar-lhe Branquinho, depois matarem-no à cacetada para o assarem no forno com batatas, obrigando-me a comê-lo, era como mandarem-me comer a carne de um irmão, se o tivesse. 
Antigamente, sobrevivendo-se à infância sobrevivia-se a tudo. Bofetada à solta, castigos, dureza de princípios, violência e estoicismo. Alguém se dava ao trabalho de nos poupar uma cena ?! A hipocrisia guardava-se toda para o sexo, atividade que não existia. De onde é que vínhamos?! Da barriga da mãe! A conversa acabava. Penso que só a miudagem que dormisse com os pais no mesmo quarto pudesse perceber a verdade.
A vida das crianças, nos dias de hoje, na sociedade ocidental, nascendo-se nas classes certas, é quase blindada; amortecida, até. Talvez os miúdos se tenham tornado, de forma geral, mais calmos. São, sem dúvida, mais informados, e substituíram valores morais, éticos, cívicos pelo que no meu tempo era obediência cega. Não defendo que a cultura contemporânea tenha produzido piores indivíduos, pelo contrário. Mas penso que houve uma perda de contacto com a nudez dos atos da vida e uma diminuição da aprendizagem da sobrevivência, e ambas continuam necessárias. Isso preocupa-me, porque, menos subterraneamente do que se pensa, a vida continua tão dura e violenta como no meu tempo, sendo que atravessamos dias de convulsão e afundamento de todas as vigências, o que torna primordial a resistência para sobreviver.
Resistência. Sobrevivência. São palavras do tempo das cavernas, e temo que miúdos educados sem autorização para comer terra aspergida de sangue, e rebolar-se nela, não consigam desenvencilhar-se fora do cimento. É isso.

sábado, 22 de setembro de 2012

Correm o risco de se ter manifestado para nada



Tenho más notícias para a rentrée. A gritaria das manifestações de 15 e 21 de Setembro ainda não chegou, portanto não vai dar para ficar no sossego do sofá a ver a Casa dos Segredos. Por outro lado, considerando o preço da eletricidade, sair de casa e não ter de ligar os caloríferos, pode ter as suas vantagens para o esfarrapado orçamento das famílias.

Vejamos, parece que o ciclo do 25 de Abril acabou. Começou muito torto e amaldiçoado, foi o que foi. Não resultou. Uns não sabiam, outros aproveitaram-se. Costuma haver algum equilíbrio entre honestidade e pulhice, mas, neste caso, a balança encalhou. Portanto, se é para experimentar outra ideia qualquer, convém começarmos a mexer-nos, coisa que não tem sido muito usual num país onde se deixa que "eles" façam o que lhes apetece, porque "eles" é que sabem, embora toda a gente admita que só lá estão a encher a pança. O problema é que agora não se limitaram a enchê-la, e resolveram mandar os portugueses cortar o estômago sem anestesia. Dói, claro que dói.

Não tenham ilusões. Eles não sabem o que estão a fazer. Recuar na TSU para tirar noutro sítio qualquer é o mesmo que pedir à costureira para cortar a saia na baínha e não na cintura: a peça fica mais curta de qualquer das formas. O que o governo ainda não percebeu, perdoem-me o lugar comum do não perceber, é o que o problema transcende a TSU, e as manifestações de 15 e 21 de Setembro foram quanto a isso bem claras. Não queremos o sistema que temos, portanto a coligação não tem condições para governar, sejam quais foram os dados a lançar após o Conselho de Estado, ou após eventuais remodelações. Perdemos a inocência. Está perdida. Não acreditamos em quem nos governa, nem na Europa nem na América nem nas bolsas nem nos bancos; percebemos que ninguém está por nós em lugar algum, nem hoje nem no passado, que temos sido peças num jogo útil a quem não está interessado em ouvir-nos. Mais, queremos saber onde está o dinheiro dos nossos descontos ao longo de uma vida de trabalho, queremos saber porque nos roubaram o valor das reformas, porque nos cortaram os subsídios e os direitos laborais. Queremos saber como foi possível 5 euros não valerem hoje o caganito de um conto de réis. Desenterrem o nosso dinheiro lá do sítio onde o enterraram. E queremos julgamentos sérios para quem delapidou o Estado, para quem manobrou, jogou sujo.

Perdemos o respeito a esta gente que vai sendo eleita e nos lidera nas estruturas políticas, manipulando, jogando ao monopólio com os recursos do Estado, comprando habilitações, facilitando para os amigos, trocando influências. Tratá-los por Vossa Excelência?! Donde veio esta gente?! Quem são? Como aprenderam a gerir um país? São melhores que o Toino Maluco ou apenas disfarçam com mais eficácia? É por isso que nos cartazes das manifestações os mandámos foder-se prolificamente. São gajos, e é assim que os tratamos.

Basta passar os olhos pelas fotos das manifestações e ler os cartazes para perceber que não os queremos, que estamos para além da TSU, que queremos um novo modelo, uma outra forma de vida. Eu fi-lo: "Gatunos"; "Cavaco, dá-me a tua reforma!"; "Gostava de trabalhar antes dos 36, ter uma casa, filhos e educá-los com dignidade"; "Roubam aos pobres para dar aos ricos"; "Tenho fome no estômago e sede de justiça na alma"; "Capitalismo fora das nossas vidas"; " Não somos só números"; "O poder é nosso"; "Acordámos"; Queremos as nossas vidas"; "Quero o meu futuro de volta"; "Lutamos pela vida"; "Políticos tenham vergonha"; "Reduzam os salários dos políticos e gestores"; "A minha geração precisa de um país"; "Políticos ladrões devolvam-nos a esperança"; "Que futuro terão os nossos filhos?"; "Basta de roubar o povo"; "Estou triste"; "Vocês metem-me nojo"; "Quero ser feliz, porra"; "Dívida, quem a contraiu que a pague", "O lugar do ladrão é na prisão"; "Este país sufoca-me. Deixa-me viver"...

Não, não há condições para continuar. Não, a TSU não chega. A gente agora quer experimentar ter outra vez uma vida, se não se importam, porque não nos estamos a sentir nada representados e estamos um bocado chateados. O governo tem de perceber que, como se lia no cartaz, mete mesmo nojo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Vive-se quantas vezes?

Há umas semanas morreram uns miúdos dentro dum carro, nos EUA. Faziam piruetas com o automóvel a 190 quilómetros à hora, e até aqui nada de especial. O que me chamou a atenção foi conseguirem tuitar ao segundo o que lhes estava a acontecer, tendo escrito algo do género "só se vive uma vez", e capotado menos de um minuto depois, morrendo todos juntos, amalgamados e encarcerados, numa viatura transformada em arma acionada pelos próprios, como se tivessem decidido autofuzilar-se, conscientes do que estava acontecer. Para além deste aparente desprezo pela vida ou inconsciente desejo de morte, perturba-me ainda o último enunciado deixado no twitter. Se só se vive uma vez, segundo a minha lógica, claramente a de alguém que veio ao mundo para se perturbar com ele de todas as formas, talvez dê jeito prolongar a estadia. Se só se vive uma vez, deixa cá aproveitar, não apenas em qualidade, mas em quantidade. Se só se vive uma vez, os jovens desperdiçaram uma quantidade inumerável de experiências de adrenalina mais significativas do que fazer piruetas automóveis, a 190 à hora, aos 18 anos. Confesso que nunca andei a 190, nem tenho vontade, mas já tive os meus momentos de glória. E apesar de tudo, sinto que ainda não comecei bem a viver, que ainda estou no átrio. Se me oferecessem agora a oportunidade de viver uma experiência de enorme risco de vida, capaz de me proporcionar um prazer inultrapassável, não queria. Prefiro ir vivendo a pouco e pouco, ultrapassando, recuando, tendo frio ou calor conforme a manhã se oferece. Não me apetece morrer, embora aceite o acontecimento, em teoria. Nunca fui muito de morrer.
Não sei se a forma fria, frontal, como os jovens se expõem a experiências-limite está relacionada com inconsciência, ignorância, necessidade de liderança ou se, estando mais próximos do nada de onde vieram,  o retorno se torna mais fácil. Também gostaria de perceber se os jovens de hoje estão dispostos a correr experiências de maior risco que os do meu tempo ou mesmo os de antes. No meu tempo, as drogas constituíram um risco letal muito sério. E que riscos corriam os jovens que têm hoje 65 ou 70 anos?
Estou sempre a questionar o mundo. Eu sei que nunca compreenderei. Questiono porque me perturba. A morte dos miúdos que recusaram viver, perturba-me.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Adiliana III

As pessoas acham que tenho os olhos bonitos, e de vez em quando lembram-mo. Que transparentes! Quando penso no assunto, ocorre-me que vejo pouco melhor do que uma toupeira, e devo engolir os comprimidos pretos da luteína, diários, religiosos, para que as retinas não se rasguem de vez. Nunca serei capaz de explicar às pessoas que a beleza não traz claridade.

Uma viagem para conversar com o senhor Coetzee





Estive a ler sobre Coetzee e a África do Sul.


O escritor pouco me interessa, tirando a parte em que escreve os livros, o que eu percebi foi o homem, quando li Desgraça pela primeira vez, há uns sete anos, e depois a obra toda de seguida.
Ali estava uma pessoa que podia compreender o que era ser puro africano branco, destituído de África. Um homem mais desterrado do que eu. Filho de um holandês e de uma polaca, ou vice-versa, nascido boer numa África do Sul cuja realidade não aceitou e sempre o transcendeu, antes e depois da independência. 
Eis um homem com o qual eu poderia dialogar francamente sobre brancos e negros, racismo e violência, pertença, exclusão, identidade e vazio.

Gostaria de tentar falar com Coetzee sobre o facto de pensar não ser o mesmo nascer na África do Sul ou em Moçambique, países vizinhos. Que coisa foi essa de os brancos, os pretos, e o racismo não serem exatamente iguais nos dois países. Não conheço a história desta zona de África para poder explicar os motivos. Sirvo-me sempre da memória e da intuição, e o que ela guarda lembra-me que na África do Sul até os brancos portugueses piavam fininho. A paisagem do caminho entre Ressano Garcia e Joanesburgo parecia a de Música no Coração e, na cidade, os pretos andavam bem vestidinhos e calçados, à branco, como se aquilo fosse um território de cerimónia. Por cima da carapinha, usavam gorros de malha, os homens, e boinas de lã, as mulheres. Não me lembro dos bairros dos pretos. Só dos dos brancos, com belas vivendas centradas em espaçosos terrenos relvados.
Eu pensava que a África do Sul era um país civilizado, e que lá tinha de me portar melhor. Íamos para um hotel caro. Fazíamos compras. Passeávamos nos jardins e feiras. Tirávamos fotografias.
Eu sabia que era tudo separado, mas pensava, na minha mentalidade colonial, que os espaços dos pretos não me eram interditos. Erro.

Gostava de dialogar sobre o passado sem grandes limitações. O que sentiu? Como fez para? Porque não decidiu antes?
Coetzee diz que não se importar que o mar engula a África do Sul, mas eu não quero que o mesmo aconteça a Moçambique. Porquê? Porque não vivi por lá o pós-independência? Porque não voltei ainda?
Coetzee adotou a nacionalidade australiana, mas eu, mesmo que fosse viver para a Serra Leoa, não conseguiria deixar de ser portuguesa. Sou uma moçambicana que quer ser portuguesa, que é portuguesa. Sr. Coetzee, acha que eu tenho mais raízes do que o senhor?


Adiliana II

Podia ter pintado as unhas dos pés de azul, verde ou castanho acobreado. Pintei de vermelho porque, quando me levanto e olho para baixo, cega e tonta, me lembra o sangue derramado de Cristo.

Adiliana I

A Morena é velha e já não consegue saltar para cima da minha cama. A Morena já não se masturba às escondidas com a minha almofada. Há treze anos que o meu cabelo não andava tão solto e sedoso.