quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Sentença

Procuramos para sempre, para o bem ou para o mal, e não nos interpela enquanto insatisfeito, o que tivemos ou não na infância. O empenhamento na busca depende da força dessa anterior pulsão de posse ou ausência. Assim estamos presos ao que nos foi dado, ao que fomos e sentimos.

A ordem natural da respiração

Cada um tem os seus mortos, porque em tudo somos iguais.
Os meus mortos morreram sós. Ninguém lhes amparou a cabeça, segurou a mão, escutou o seu último suspiro, e não pensem que connosco será diferente. Como poderia eu morrer com testemunhas? Vão-se embora, deixem-me em paz, isto é privado. E ao mesmo tempo culpo-me por não ter estado junto deles. Não lhes ter dito, está tudo bem, está tudo bem, querido, eu estou aqui.
A última frase ouvida ao meu pai foi "isto hoje está mau". Quando foram vê-lo, duas horas depois, tinha-se ido embora e deixado o corpo. Telefonaram-me e não acreditei. Peguei no carro, conduzi cem quilómetros e disse, "deixem-me vê-lo". Era noite e estava num quarto com outras pessoas ao lado. Dormiam. O meu pai estava coberto com um lençol e tinha a cabeça tapada. Descobri-o, com uma réstia de esperança. As pessoas enganam-se. Toquei-lhe na testa, na cara. Estava morto. Não é preciso ser médico. O meu pai estava morto para esta vida e era justo. Não merecia continuar a viver nas condições em que o seu corpo o colocara. Não se enfia um gigante numa jaula, não se lhe atam as pernas e os braços. Matem-no. É mais digno. A morte não tem nada de mal. Ás vezes é preciso morrer para se poder voltar à vida. Eu pude fazê-lo, pude dar-lhe voz, esta outra vida através de mim.
Os meus mortos são o meu passado e o passado é tudo o que me resta. Não peço pão por Deus, porque já peço a Deus pão para os meus mortos, que morreram sós, sem um gesto meu, tal como eu morrerei sem um gesto vosso, por ser a ordem natural da respiração. Já dou a Deus todas as bolachas da minha despensa.
Imagino que os meus mortos estejam todos juntos, que se conheçam e acompanhem. O meu pai anda sempre com a Micas atrás. Quando o Gabi morreu, recebeu-o lá em cima, "então, já?! Olhe que a minha filha vai sentir a  sua falta." A Micas abanou a cauda ao Gabi, reconhecendo-o, e ele inclinou-se para festejá-la, "bonita, bonita". Construo uma narrativa para a morte. Quem fica, precisa de alguma razão, de uma certa lógica. Eu, que sou capricórnio, acho que deve ser isso.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Oração ao Anjo-da-Guarda


Querido Anjo-da-Guarda, agradeço-te pelo dia de hoje. Nada de especial aconteceu, mas mais uma vez consegui passar por adulta sem ninguém desconfiar, e ganhar o pão para amanhã. Obrigada pelas melhoras na patinha da Morena, que agora já corre e salta. As dores da minha mãe terem passado ao final da manhã também foi ótimo, mas, por favor, faz o que esteja ao teu alcance para evitar que ande a tomar Duphalac às escondidas. Ajuda-me a deixar de roer as unhas dos polegares e dos indicadores. Magoo-me muito. Já tinha deixado, e não percebo porque voltei. Cada vez vejo pior ao perto, mas é uma grande injustiça ter sofrido a mais graduada das míopias e agora passar a acumular o problema contrário. Afasta da minha vida os paradoxos. Ajuda os meninos que no quarto ao lado conversam sobre a escola e as namoradas, e as pessoas que gostam de mim, e também as que não gostam, mas essas menos. Prometo que vou gritar pouco com a minha mãe e tentar dormir mais horas por noite. Prometo que vou organizar o meu tempo e que amanhã lavo a louça toda que ficou na cozinha. Obrigado por estares sempre ao meu lado. Em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo. Amén. Até amanhã. Beijinho na mão.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Mundo-cão



Pouco tempo antes ou depois do meu nascimento, a minha mãe forrou uma alcofa de palha com tecido rosa, rendas e laços, e nela passou a transportar-me para todo o lado. Não tenho foto alguma de criança onde apareça uma cama de bebé. Provavelmente existiria, mas apenas me retrataram na alcofa rosa e na cama dos meus pais, por cima da colcha de damasco. Tenho de imaginar camas de época, e, mesmo imaginando-as, não me consigo ver nelas.
Isto pode parecer irrelevante, mas facilmente provo o contrário. Durante os anos terríveis em que desejei parir, imaginava o meu bebé a dormir no chão, ao meu lado, muito confortável no interior de uma alcofa bem melhor que a minha. Posso ir mais longe: comprar-lhe-ia uma caminha de espuma igual às dos cães, que forraria com tecido de bebé, e depois encaixaria num segundo suporte, igualmente semelhante às camas para cão, mas de verga. Em traços largos, o meu filho, tivesse ele vingado, teria dormido em caminhas de cão por tempo indefinido. Nunca me ocorreu que pudesse ter uma cama de bebé antes de... não faço ideia, nunca o imaginei numa cama. Era ali. No chão. Aos pés da mãe. 
Vem isto a propósito de uma realidade que remete para a Morena, e de um comentário de um amigo.
Primeiro, a cama da Morena é de espuma e tecido estampado com ursinhos azuis e patinhos amarelos, acompanhados da expressão "baby love". Quando me deito de bruços, na horizontal, a pensar, acontece fixar o olhar nessa camita de "bebé". Deve ser confortável. Deve ser bem mais confortável que a alcofa de palha, forrada à mão pela minha mãe, na qual me transportaram até não sei quando. Tomaria eu ter tido como alcofa a cama da Morena.
Segundo, um amigo concluiu que sou mais animal que gente, e anuí. Não é verdade, sabemos. Sou muito gente. Mas nas minhas fantasias imagino-me uma loba, entre os outros. Ultimamente, incluí a Morena na fantasia da matilha, o que me trouxe desassossego. Até ao momento em que fui loba sozinha senti-me livre, dona absoluta da minha necessidade e saciedade. Ao transportar a Morena para a matilha-fantasia, a sua proteção tornou-se uma prioridade. Já não posso dormir sossegada na matilha, unida aos outros corpos pelo torpor do sono; há que proteger a Morena, que não é selvagem e se encontra em desvantagem. Tenho de estar alerta pela Morena. Podem atacá-la.
O meu pai dizia que o mundo era cão. O que o meu pai queria dizer é que os lobos que não se transformaram em cão fiel não terão escrupulos em atacá-lo, dilacerá-lo sem culpa, sem remorsos, sem pensamento, porque o mundo é a luta pelo pão nosso de cada dia, ganho como a natureza o mandar. Mundo-cão quer dizer mundo-lobo. Eu, que nasci gente, fantasio ser loba e desejo ser cão, transformei-me na luta entre essas existências.

sábado, 27 de outubro de 2012

Estamos aqui


Não conheço o António Lobo Antunes e não li nenhum dos seus últimos livros, essencialmente por ser estúpida e não andar com paciência para resistir ao universo circular-obsessivo que passou a criar. Quando acabo de aspirar a casa e preparar aulas prefiro literatura de prazer, ordenadinha, tradicional, que não me dê trabalho, consciente, mas de costas viradas para a obrigação de saber que a arte está muito para além. Entre o saber e o fazer vai toda a distância das estradas nacionais secundárias que ligam Vila Real de Santo António a Bragança, percurso que, por mim, começaria a percorrer amanhã de manhã. Portanto, não tendo lido a sua obra, e não havendo sobre o assunto nada a dizer, resta-me declarar que gosto do homem. É bizarro, talvez inapropriado, mas sinto ternura apenas porque não tem vergonha de dizer "fiz aquilo porque a minha editora me pediu muito e não quis desagradar-lhe". O Lobo Antunes obedece à sua editora. Faz o que lhe pedem. "Está bem, ó, Piedade, é uma grande chatice, mas pronto, faço". Reconheço-me nisto. Também faço muita coisa que não me apetece para não dececionar quem mo pede, por deferência, delicadeza, amor. Estamos aqui com tanta gente à volta. Se vivêssemos sós no cu do mundo poderíamos ser livremente casmurros e nossos, mas, estando aqui, limitamo-nos a dizer que não aos vendedores de tv cabo e a estar sozinhos em casa de vez em quando.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Purgatório



O meu pai e eu. O  meu pai, a minha mãe e eu. Eu e a Morena. O meu pai, eu e a Morena. O meu pai, a minha mãe, eu e a Morena. Eu, a Morena, a Micas e a Lili. Todos a passear num Opel Corsa verde-musgo. O meu pai à frente, ao meu lado. Sorri sempre, com a boca ao lado. A cadeira de rodas na bagageira, pesadíssima, marcando-me de nódoas negras os braços e as pernas. Só eu a sei encaixar e retirar, mais ninguém. Há um truque que aprendi. Eu a refilar com a minha mãe por algum motivo que não mereceria tanta raiva, mas que nessa altura tem. Como se fosse o início do fim do mundo. Mulher de granito impossível de torcer. As cadelas como lenitivo que dá trabalho, mas sem o qual tudo o resto seria irrealizável. As cadelas que abraço depois de carregar o meu pai, depois de refilar com a minha mãe. As cadelas com o focinho húmido e cheiro a cão e muitos pelos. As cadelas macias, cuja pelagem identifico tateando, que chamo nos sonhos. Eles, todos, juntos, à vez, como uma enorme pedra que nunca se moveu dentro do meu purgatório.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Do zero pela enésima vez

  Gregory Colbert, do seu projeto Ashes and Snow

Quando os meus pais me mandaram sozinha para Portugal, aos 13, fizeram-no com dor, mas porque era necessário.  Eu era a única filha; queriam dar-me um futuro, garantir a minha segurança. 
Moçambique era, após a  independência, um território onde se vivia muito mal, em grande insegurança sob todos os pontos de vista. As escolas funcionavam, mas com poucos professores, a maior parte deles minimamente habilitados. Era importante, para os meus pais e também para mim, receber uma boa educação, ir para a Universidade. Nunca fomos ricos. Viviamos do trabalho, portanto era importante estudar para alcançar uma vida digna, completamente diferente da que levou o meu pai a emigrar para uma colónia. 
Nenhum de nós poderia imaginar que Portugal chegaria a isto, considerando "isto" como similar ao caos que se viveu em África após o 25 de Abril. Era o "ninguém quer saber, ninguém respeita nada". O meu pai não poderia ter imaginado que aquilo a que Jorge Jardim chamava a "terra queimada", ou seja, Moçambique, de onde era preciso que eu saísse depressa, para meu bem, se transformasse em poucas décadas no lugar onde quero regressar para escapar ao incêndio de miséria, injustiça e hipocrisia que grassa na terra onde ele nasceu, e para onde me enviou para minha segurança.
Falhou tudo, pai. Estivemos separados para nada. Imaginamos que trilhavamos um caminho de esperança mas acabamos numa estrada sem saída. É só isto que quero dizer-te hoje: tudo aquilo em que acreditaste de uma forma, e eu de outra, já não existe. A tua terra acabou. Vamos ter de regressar ao lugar que amávamos, mesmo que nos chamem estrangeiros. Agora somo-lo mesmo. Resta-nos a nossa língua. Ainda falamos português. Podemos recomeçar do zero pela enésima vez.

A malga

Tenho na cozinha uma velha tijela de louça feita com barro vidrado, do tempo da minha avó paterna.Trata-se de uma peça velha, mesmo velha, exibindo umas modestas florzinhas estampadas, que imagino que seria de louça barata na altura. Veio da casa da minha avó paterna nos anos 80, não imagino porquê, e muito menos tenho ideia sobre como acabou na minha, mas trata-se de um objeto com muito mau aspeto, todo rachado, partido nas bordas. Normalmente uso-a como malga para onde descasco legumes ou frutas, e vai ficando. Teria vergonha de dar comida fosse a quem fosse na dita. Mantenho-a porque não sou  capaz de a deitar fora, tenho respeito àquilo, sem qualquer razão lógica, mas eventualmente porque atravessou o tempo e sobreviveu a tudo. Sou muito agarrada ao valor simbólico dos objetos e das ações. Gosto dos objetos antigos. Uma garrafa, para mim, não é apenas a garrafa em si, é quem a adquiriu, quem ma ofereceu, o sítio onde foi comprada, o percurso que fez, o lugar onde a guardei. Uma garrafa ou uma malga são uma história, uma vida, expetativas, uma montanha de emoções associadas.
A malga está junto das outras apenas por ser o lugar das malgas na cozinha. Não é uma peça de museu, mas uma malga velha que não sou capaz de deitar fora, e mais nada.
O que eu gostava era de perceber porque motivo as minhas visitas, indo à cozinha pela manhã comer os cereais, enquanto ainda durmo, escolhem a velha tijela da minha avó, toda escamocada, podendo selecionar dezenas de de malgas de boa louça e design e em excelente estado. Fazem todos o mesmo, sempre, não percebo porquê. Morro de vergonha quando descubro a malga na máquina de lavar a louça. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Temos de arranjar pão para pôr na mesa aos nossos pais

Encontrei um aluno que o ano passado andava no 11º ano.  Não, não está na escola. Não se inscreveu no 12º. Fez 18 anos e resolveu ir trabalhar num call center. A escola tem de ficar para depois, não sabe quando. Não, ele gostava de acabar o curso e continuar, mas o pai e a mãe estão desempregados e ele foi o único da casa que conseguiu arranjar trabalho.

Futurologia

 Foto: Vivian Maier
 
No fim de semana passado estive a ouvir a Irene Flunser Pimentel dizer que a História não se repete, num do 723 programas de debate político que hoje existem pelos diversos canais de tv. A Irene é historiadora, de maneira que eu ia tendo um enfarte. Por outro lado, afirmava Irene, não gostava do discurso anti-politicos de hoje, porque lhe evoca o passado, na medida em que dele pode sair uma espécie de novo Hitler. As pessoas andam tão baralhadas que se contradizem em enunciados de três minutos. É compreensível. 
 
Embora ande aqui caladinha na minha rotina casa-escola-cadela-namorado-mãe-supermercado-adiamento de livros-desarrumação doméstica e outros pincéis, gostaria de exercer o meu direito à futurologia sobre os próximos tempos portugueses. Quero ser uma Maya, um Paulo não-sei-quê, e verão, futuramente, se acertei ou não. Quando acaberem de ler o texto dirão todos cruzes-credo, a mulher enlouqueceu - mas isso é futurologia a curto prazo.

A coligação PSD-CDS só não acabou ainda porque há que aguentar a chegada duns dinheiros de fora. Assim que cheguem, e tendo o país atingido o limite de indignidade(1) que se pode suportar dos políticos(2), Paulo Portas, que alimenta sonhos de messias, salta da coligação em dois décimos de segundo e vai preparar o seu católico rebanho para as próximas eleições, que estão mesmo aí à porta. 
O orçamento vai ser chumbado no Parlamento, porque se chegará à conclusão que os portugueses não podem pagar mais imposto do que o que auferem de salário. 
Seguir-se-ão, portanto, eleições, um demagogo que as vencerá(3), e a partir desse momento não posso garantir a ordem dos acontecimentos: saída da Comunidade Europeia(4); bancarrota de peito aberto, decompondo-se, cheia de vermes alimentando-se das vísceras; ditadura pior do que a que vivemos; revolta; caos; fome pungente; restabelecimento da ordem através de uma movimentação popular/militar, que desta feita vai derramar sangue para poder começar do zero. Sou muito boazinha, mas sanguezinho é importante.
 
Vão dizer-me que estou a ser pessimista. Mentira. Isto é hiperrealismo. Isto é pegar na tal História que Irene Pimentel afirmou não se repetir(5) e ir-lhe ao osso ver como se encaixa o esqueleto de uma crise grave. A todos os momentos de involução se seguem os de evolução, na História, na natureza, na vida. É uma tendência universal, uma lei não escrita para todas as coisas que surgem. Vida, morte, vida, morte...

Sou sempre otimista e previdente. Sobrevivi em África aos meses que se seguiram ao fim do império. Sei o que é viver num território sem lei, sem comida e sem garantia de segurança. Passo a vida a dizer que já vivi pior que isto. Por isso, com calma, sem alarde, vão comprando uns saquitos de arroz, massa, farinha e sal suplementares; umas garrafinhas de azeite; caixas de leite em pó ou condensado; umas latas de salsichas e outras de atum, e vão enchendo a vossa despensa, porque é provável que vos venha a fazer falta ter um pequeno armazém privado dentro de pouco tempo. Se não formos parvos, vamos acabar por nos safar. Quem quer realmente safar-se, safa-se sempre. Vão por mim. Não comigo.


(1) Acabei de receber um email da direção da escola pedindo-me, com urgência, que indique quem são os alunos da minha direção de turma que vivem situações de carência alimentar.

(2) Neste caso, são apenas jovens técnicos que fazem contas, saídos das juventudes partidárias sem nunca terem percebido o que era a vida real. A política é uma ocupação nobre que serve toda a população.

(3) Irene Pimentel acerta quanto ao demagogo, erra no que respeita à não repetição da história.

(4) E a Europa Central e do Norte terá conseguido o que sempre desejou: não alimentar os vícios dos preguiçosos do Sul. Os empréstimos do BCE são um mal menor se conseguirem livrar-se do fardo que constituímos. Sempre nos detestaram e nos viram como inferiores.

(5) Ainda me estou a benzer.