sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Sobreviver

Ofereceram-me o vídeo de uma elegante raposa peludinha saltando na neve para capturar a presa. Lembrei-me que a minha presa era uma sopa de cenoura com espinafres. Sou muito humana. Sobreviver é o primeiros de todos os instintos, e encerra em si implícita nobreza, manchado de carne, sangue e vísceras espalhadas pelo chão. É o horror ignorante de dor e saciedade. Como pode conter a beleza?

O monstro da fome



Tenho fome há meio século. Nasce no estômago, ao centro de mim. A fome aperta-o, tiraniza-o como se os órgãos à sua volta o maltratassem, pontapeando-o com saltos-agulha. 
A fome dói, não dá sossego, não deixa que me distraia com nada. Domina-me. Quanto sinto a fome do estômago, penso em matá-la antes que passe para a cabeça e me faça chorar. A minha fome é voraz. Engulo os alimentos sem os mastigar, muito depressa, porque o importante é saciar o estômago. Enchê-lo. Tapar o enorme buraco da fome, uma ravina sem fundo.
Estou cansada da fome, do seu domínio sobre o meu estômago. Preferia sentir fome nos pulmões para saciá-los com grandes golfadas de ar. Ou no coração, para correr e acelerar a pulsação. Calhou-me a fome no estômago, e eu recuso as tiranias.
É urgente dominar o monstro de múltiplas cabeças apontado ao meu estômago, fixado nele. Agora tenho direito a ser velha, logo, a pensar devagar, sem distrações, e começo a entender. O monstro é um relógio-despertador que toca de digestão em digestão para me dizer, está em falta, está em falta, está falta, estridentemente em falta. O monstro da fome busca uma saciedade que o meu estômago repleto só pode satisfazer momentaneamente. O monstro da fome quer que eu faça o que está certo, que olhe por mim, que não me traia. Que me alimente do que em mim nasceu. Cogumelos no escuro, no interior húmido do meu corpo, dos esporos que a criação semeou. Se tivesse sido o que vim ser, viveria em paz com o monstro e dormiria com ele como com um cão. O monstro da fome é um grande amigo. Comprou na feira da Ladra um espigão enferrujado de matar porcos e vai-o espetando de leve no meu estômago, para que não me esqueça, não me esqueça, não me esqueça.  Acorda, rapariga. 

sábado, 17 de novembro de 2012

Travessa do Cais, nº5, Caldas da Rainha


 Fogareiro a petróleo


Quando a minha avó abriu a porta, encarei um estreito corredor de cimento, a céu aberto. No chão, um enorme ralo. A porta abriu para a direita e, quando a fechou, reparei que escondia um tanque de lavar roupa e enormes bacias. 
Logo à entrada, mesmo antes de abrir a porta, escutava-se o cacarejar de galinhas e o arrulhar de pombos e rolas. Aberta a porta, os dejetos das aves apareciam difusamente, tornando-se um tapete de merda cada vez mais espesso ao longo dos 12 metros do corredor, desembocando num pátio interior, não maior que um quarto de dimensão média. De frente para o corredor, a capoeira, de porta sempre aberta. À direita, um complicado arranha-céus de casotas de pombos, construído com caixas de madeira. As  aves assomavam à entrada e arrulhavam fortemente, com medo de mim. Os borrachinhos, dentro, ouviam-se chilrear. Tudo se aguentava colado com detritos dos animais, pelo que a madeira dos caixotes apenas se adivinhava. No chão, os sapatos afundavam-se na alcatifa de poias acumuladas ao longo do tempo. 
À direita, transversal à parede dos pombos e à da capoeira, a porta de casa, finalmente. Ela abriu-a. A merda propagava-se pelo chão, menos espessa. Tinha havido ali um esforço de limpeza e arrumação. As galinhas entraram antes de mim, enquanto a minha avó ia falando com elas, meninas, meninas, já aqui estou, já cheguei. Era a cozinha. Frente à porta, encostada à parede, a mesa de madeira sólida, escura, polida pelo tempo, com duas enormes gavetas onde guardava talheres e pão. À direita, um poial  no qual se encontrava o fogão a petróleo e um velho armário alto, envidraçado, no qual guardava a louça e os tachos. À esquerda, caixas de papelão com a nossa tralha, ainda fechadas, que o meu pai lhe enviara por correio, perdida a esperança de comprar espaço para caixotes num navio. A certa altura, a sair de Lourenço Marques, nem navios nem espaço, pelo que restava a solução encomenda postal para as peças mais pequenas. Sobre algumas dessas caixas havia outras, de madeira. Eram ninho de galinhas entrevadas. A minha avó tinha pena delas, nascidas com defeitos congénitos, e não as vendia. Tratava-as à parte, cuidando-as com desvelo de mãe, mudando-lhes diariamente a palha, dando-lhes de comer à mão, limpando-as como se limpam os bebés. E as galinhas correspondiam a esse amor fazendo-se entender. Comunicavam entre si numa linguagem só delas que me enternecia. Pela cozinha voavam livremente pombos, rolas e pardais, empoleirados no alto das caixas e do armário.
À esquerda da cozinha, uma porta dava acesso ao quarto da minha avó. Ao abri-la, saiu de dentro  a Chinita, uma franga branquinha. Havia poias pelo chão, mas menos. Sobretudo, os seus restos mal desencascados. Os pombos voavam pelo quarto, como por qualquer outro sítio. Não havia sítios proibidos aos animais. À esquerda, a cama de solteiro da minha avó, em ferro, encostada à parede, coberta por uma colcha de chita com estampado colorido, a mesa de cabeceira, e, à direita, uma arca e um armário de gavetas, tudo de madeira, pobre, sem valor, coberto pela patine do tempo. O teto forrado a platex, abria-se no local onde existia uma telha de vidro, único ponto de luz natural nessa divisão. A minha avó orgulhava-se do forro a platex. Era uma casa vedada. Ali não entrava uma gota de chuva, como noutras, dizia. Bom dinheiro lhe havia custado o forro, acrescentava, mas para alguma coisa lhe servia ter-lhe o filho fugido para as Áfricas. 
Uma abertura rasgada na parede dava aí acesso a outro quarto de dormir, sem porta. Tinha sido o quarto do meu pai, e seria o meu, a partir desse momento. No meu quarto, também encostada à parede, à esquerda, uma cama de casal, em ferro pintado a branco, muito alta, e mais alta, ainda, porque o colchão de palha acabara de ser mexido para a minha chegada. O resto era  um atulhado de de sacos de cereais para a criação e de caixas enviadas pelo meu pai. Havia um espelho de 20 por 15 na parede da única janela, à direita, dando para o interior da capoeira. Nele, passei a pentear-me e olhar-me, tentando perceber se era bonita, questionando-me sobre o motivo porque os meus lábios não tinham a forma de um coração perfeito, espremendo borbulhas, furando-as com o bico da tesoura. Nesse quarto doeu-me o peito de falta, fantasiei que um rapaz da escola me beijava, e eu a ele, e que o Art Sullivan me beijava, e eu a ele, e o que fosse preciso para adormecer nos lençóis gelados, muito direita para o sangue circular melhor, como o meu pai me tinha ensinado. Muito direita, como na formatura da tropa, e o sangue havia de chegar rapidamente a todos os lugares do corpo que o corpo teria de aquecer.
Não havia casa de banho. As lavagens e as necessidades fisiológicas eram feitas ao lado do tanque, junto ao ralo, na entrada. Não havia água quente, a menos que se aquecesse numa panela e se carregasse à mão até uma enorme bacia de zinco junto ao ralo. Para aquecer os pés, a minha avó tinha, como grande luxo, um pequeno calorífero atravessado por dois tubos brancos horizontais. Ligado à eletricidade, os tubos encandesciam e deitavam calor. Havia ainda uma eficaz botija de água quente, em metal, que passou para a minha cama.
Isto acontecia na Travessa do Cais, nº 5, às Caldas da Rainha, e nessas noites de 75 e 76  consolava-me ouvindo os comboios passar. Iam para norte ou para sul, não ficavam ali. Eu também estava de passagem, não sabendo para onde nem quando. Uma coisa era certa, o futuro estendia-se à minha frente e eu voltaria a ter uma casa digna. Não que a da minha avó fosse indigna, porque a pobreza não era uma falta moral. Mas eu conhecia outra vida. Havia estacionado num tempo difícil, mas à minha frente estendia-se todo o futuro, para o resto da minha vida todo o futuro.

 Botijas para a água quente

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Requiem

Caspar David Friederich, Monk by the Sea



Fiz o costume, enquanto posso. Sentei-me no café a beber um garoto de máquina a escaldar e a ler o jornal. Estava a dar o GP EUA na Sport TV. Lembrei-me de ti, ou melhor, imaginei-te sentado ao meu lado. Perguntar-te-ia se GP EUA significava mesmo Grande Prémio dos Estados Unidos, depois em que circuito decorria. Reparei que em primeiro lugar ia um tal Ham, e, em segundo, um But. Saberias imediatamente identificar os apelidos abreviados, explicar-me-ias se tinham hipóteses de se manter à frente, ou se haveria um corredor mais atrasado à espera de uma oportunidade para os ultrapassar. Saberias as posições de cada um na geral do campeonato de fórmula 1. Decorei as abreviaturas dos nomes para vir aqui dizer-te, mas é uma estupidez, porque para ti já não existe tempo nem espaço, e é mais provável que te tenhas sentado na bancada, vendo-os fazer as voltas, ou mesmo que te sentes à beira da pista ou que estejas no posto onde vão mudar os pneus, apressando os mecânicos. A fórmula 1 é um assunto muito sério.
Como escreveu o Peixoto, morreste-me, cabrão. E morreste-me à grande, mesmo a sério, sem apelo, sem despedida, nada, e não deixo de pensar que te tinha entranhado nos costumes. Ao longo destas semanas não paro de te ver caminhar na minha direção, já sorrindo, com a gabardina do costume, os jornais na mão. E lamento ter sido tão crítica, teimosa, exigente, inflexível. Lamento ter exigido de ti o que os pais do meu tempo exigiam a um filho, ou seja, o que me exigiram, e que aprendi. Que tomasses tino. Que arrumasses a vida, ao menos com um emprego certo que te permitisse sobreviver. A tua alma devia  já saber que não valia a pena dar-se ao trabalho, e ias passando à frente. Não te interessava a escravatura dos outros. Sabias que não a querias para ti, que não viverias dessa forma. Sempre tiveste razão, e eu sempre soube que a tinhas, mas não havia alternativa a apresentar-te. Neste mundo, ou te deixavas escravizar, consentindo, ou te afastavas dele. Não há outra via. Afastaste-te dele no fim, com a coragem a que, por inveja, chamei inconsciência; era mais uma das que te passavam pela cabeça para depois regressares quando já não desse. Foste para morrer sozinho e me deixares, mais uma vez, com essa corda apertada na garganta. A morte não me interessa, pudesse eu atravessá-la para te abraçar, rirmos, e voltar até chegar o meu dia. E para te pedir perdão. Nunca falaste a linguagem das pessoas e nem sempre tive força para te socorrer. Houve alturas em que fui egoísta e não estive para te aturar as travessias e as mazelas. "Filho da mãe, fá-las e eu é que tenho de as aturar?!" Fui vil.
Tive saudades tuas no café e tenho-as sentido desde que te foste embora. Quando perdemos as pessoas, passam a fazer-nos uma falta estúpida. Eu sabia que estávamos ligados, mas não que ias fazer-me esta falta absurda numa tarde de chuva com fórmula 1. Já não posso apresentar-te como o meu amigo da juventude, o único, como eu, que não se vendeu, não se arrumou, não se acomodou. E ríamos, porque era verdade. Fiquei muito mais sozinha deste lado. Quero lá saber se estás para aí a sorrir, a dizer, "não te chateies, linda". O que eu queria era abraçar-te e sentir o horrível cheiro a tabaco da tua gabardina.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O dia em que compreendi os portugueses

  Josef Koudelka, Estremadura, Nazaré, Portugal, 1976, Magnum Photos

Perdoem-me a imodéstia, mas acho que vim à terra com uma missão específica: compreender e listar as idiossincrasias do povo português. Listar faz-se, compreender vai-se fazendo, mas aceitar é impossível. 
Durante muitos anos pensei que os portugueses eram pobres, atrasados, mas que, apesar de tudo, tinham feito o 25 de Abril, e via dignidade na revolta dos pobres. Depois percebi que Abril tinha sido obra exclusivamente militar, e que o português só saiu à rua, com a mulher e a filharada, ao compreender que nenhum tiro perdido lhe atravessaria as virilhas.
Mas perceber, perceber, só me aconteceu há meia dúzia de anos, no auge da luta dos professores contra as medidas do governo Sócrates/Maria de Lurdes no que respeitava à avaliação da classe. Trabalhava eu numa escola particularmente conservadora, com uma abjeta direção subserviente ao poder, mas houve a coragem para se realizar um plenário no qual ficou decidido que ninguém entregaria os objetivos no dia seguinte. Os objetivos implicavam a nossa aceitação do processo de avaliação contra o qual vínhamos lutando, o que na prática consistia apenas em fazer copy/paste dos que haviam sido definidos pelo conselho pedagógico, assinando por baixo, e entregando na secretaria. Estes plenários realizaram-se em todas as escolas, e o seu objetivo era a união de todos; a não entrega dos objetivos resultaria numa manifestação de rejeição impossível de ignorar pelo poder. No plenário foi possível obter um grande consenso. No final, fiz as contas ao produto da reunião, e calculei que, em cerca de 80 professores, havia apenas uma dezena de indecisos. Regressei a casa feliz. Batalha ganha. Os indecisos, provavelmente, encorajados pelos outros, perderiam o medo e acabariam por não entregar os objetivos.
No dia seguinte, chegando à escola no turno da tarde, alguém vem ao meu encontro dizendo que já todos os tinham entregado, dando como desculpa que falaram com a família e que não podiam pôr em causa a sobrevivência, a mudança de escalão e a estagnação na carreira, porque tinham os filhos, a hipoteca, o diabo a sete. Fiquei paralisada de indignação. Ao final do dia, último dia do prazo, apenas meia dúzia professores, nos quais eu me incluía, havia mantido o compromisso da véspera. Claro que este cenário se repetiu na maior parte das escolas, inclusive naquela em que hoje me encontro. As promessas da véspera não correspondem aos atos do dia seguinte. Os portugueses não acreditam na união, na força do grupo e muito menos lhes entra na cabeça que o poder são eles próprios, unidos, e que contra isso nada existe de mais forte num estado democrático. Os portugueses têm medo. Não acreditam na democracia. Desconfiam. Fazem ou não fazem à cautela, não por convicção. Escondem-se atrás dos outros. Enterram a cabeça na areia. Resumindo, isto não é gente, são sombras esperando por outra sombra que passe, para apanharem a boleia e passarem despercebidos.
Dizia ontem Angela Merckel, em visita a Portugal, que os portugueses são um povo orgulhoso. Santa mentira diplomática! Os alemães podem ser orgulhosos, os americanos, os espanhóis... Os portugueses são cobardes! Os portugueses são mesquinhos! Os portugueses mordem nas costas e na cara sorriem! Os portugueses são um subpovo que não merece a terra que os seus antepassados conquistaram! Eu só não tenho vergonha de ser portuguesa porque não sei ser mais nada.



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A carne e o sangue

Da esquerda para a direita, mãe, madrinha comigo ao colo e padrinho. Zambi, Lourenço Marques, 1963

Quando eu era pequena, a minha mãe dizia-me, "tu és esquerda". Às vezes também me calhava, "és judia e bem judia", e outros mimos similares.
Nunca quis ter outra mãe. Gostava desta que me acossava, me tratava duramente, aos repelões, como um bicho que não passa de um bicho e não é como a gente.
A minha mãe desejou uma outra filha, que tenho pena de não ter sido, para seu contentamento - uma que não subisse às árvores, não se mexesse, não falasse, não risse, não questionasse. Preferia tê-la feito feliz. Quis uma princesa, imaculada, capaz de se transformar numa criada de servir, se fosse preciso, e saí-lhe uma pessoa ansiando ser livre, inconformada sem lógica que pudesse compreender. Foi um grande desencontro para a sua alma. 
Meio século depois, aqui estamos, presas ambas com cadeias de carne e sangue, empedernidas, lutando como dois animais fartos de se ferir, conhecendo-se totalmente, mas não podendo parar de se atacar, de frente ou por armadilha. Temos a luta entranhada nos genes. Já não queremos, mas temos de fazer isto até ao fim. Não sabemos viver de outra forma. 
Eu não quero outra mãe. Não sei se ela ainda sonha uma outra filha. Talvez. Eu poderia ser bem melhor. Ela, sei lá eu. Temos o que somos e o que fizemos de nós e uma da outra. Entretanto, ataca, defende. Ataca outra vez. Defende de novo. Agora por outro flanco. Recomeçando.

sábado, 3 de novembro de 2012

Dia de Finados


Com os mortos não se brinca

 Disparate de Miedo, Goya

O feriado de Todos os Santos acabou oficialmente a semana passada. Acabou a romaria aos cemitérios no dia um de novembro, ritual que cumpria desde que me lembro de existir. No próximo ano estaremos a trabalhar à hora de lavar as jarras de flores e as lápides no cemitério. O fim do mundo atingiu proporções em que me sinto roubada de tudo, até da cultura em que me formei.
Se há dia santo que sempre respeitei, foi este. Significa, para mim, muito  mais do que o Natal - não sinto necessidade de prestar culto ao nascimento de Jesus num dia fixo. Toda sabemos que o nascimento do Menino corresponde a data difícil de determinar, sendo o dia 25 de Dezembro totalmente artificial. Contudo, o dia de Todos os Santos é, na tradição religiosa católica e mágica, de elevada carga mística. É o dia dos finados, dos mortos, aquele em que andam à solta, em que nos vêm visitar, e nos cabe dizer-lhes que ainda estamos unidos. A minha mãe sempre me desaconselhou andar nas ruas à noite, nesta época, porque se encontram pejadas de almas que não nos convém cruzar. Respeitei-o sempre, embora tivesse tentado ser desobediente à minha mãe em tudo o resto. É que com os mortos não se brinca.
Brincadeiras à parte, o culto dos finados sempre me pareceu, intuitivamente, de importância identitária crucial. Uma família, uma tribo, uma nação, presta culto aos seus mortos e respeita-os. Este culto é, em simultâneo, um ritual que consagra a vida. O que realizamos, ao rezar e oferecer flores aos nossos mortos, é dizer-lhes, "partiste, mas nós continuamos cá, e por isso viemos dizer-te que nos fazes falta, que estás na nossa memória, e que assim será enquanto continuarmos deste lado."
Roubar este feriado aos portugueses é despojá-los, portanto, de um momento de encontro com a sua identidade individual e comunitária. É amputá-los da sua cultura. Que tempos tão tristes, tão mais negros que a própria morte.

Algumas vozes virão lembrar-me que o feriado não acabou, apenas se encontra suspenso por cinco anos. A esses. gostaria de remeter para o Público da passada sexta-feira, dia 2 de novembro. Em caixa integrada no artigo de Ana Cristina Pereira sobre a suspensão do feriado de Todos os Santos, o deputado Ribeiro de Castro, do CDS-PP, alerta para o facto de o vocábulo suspensão ser um "logro". Segundo o mesmo, "o que houve foi uma eliminação de quatro feriados". Ou seja, a lei 23/2012, de 25 de junho, artigo 10º, elimina-os sem contemplar qualquer período de vigência. Disto não fez eco o governo, como se esperaria, e muito menos a Igreja. Que o governo iluda a realidade, é esperável, mas que a Igreja colabore na apresentação de feriados a suspender ou eliminar, e que cale a verdade sobre o que está em causa, é abjeto. A Igreja de hoje é exatamente o que sempre foi: é a da Inquisição e a do cardeal Cerejeira. Os assentos continuam ocupados pelos sucessores diretos, bebendo todos na mesma fonte de conluio e de favorecimento mútuo com o poder. Tudo isto me faz asco, e muito mais sendo eu católica.
Há cerca de um mês assisti a uma missa numa igreja da província cujo sermão versava o tema família, e pelo seu teor poderia ter sido pronunciado por qualquer prior nos anos 50. Nada mudou, portanto.