segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Automutilação

 Sandro Boticelli


Somos tão infelizes! Emagrecemos e engordamos de tristeza. Crescem-nos cancros de infelicidade pelo corpo dentro, como cogumelos venenosos no escuro. O que nos falta se temos tudo, se nos parece que temos tudo? Somos mesmo infelizes, por isso trabalhamos de manhã à noite para esquecermos que existe sol, oxigénio, até mesmo paz. Comemos, bebemos, fodemos, contamos anedotas, vamos ao cinema, lemos livros tramados, corremos meia maratona sobre a passadeira, no ginásio, ficamos batidos. E então, sim. É importante sofrer para esquecer que sofremos.

Um vida inteira em dois verbos

Quando eu morrer escrevam na minha lápide, caso alguém a possa pagar, "gostava da bicharada e vivia com os pés gelados!"
Resume toda a minha vida.

Governar um país

Passo pela tv's enquanto estão a dar telejornais, e ministros e secretários de estado lançam postas de pescada. Penso, "se me pentear à queque" e vestir um fato de saia e casaco decente, faço exatamente a mesma figura, sabendo tanto como eles, ou seja, nada." Eu também me aguento a fingir um certo número de horas por dia. 
Ora, se não tenho competência para dirigir um país, tal como eles não a têm, como podem manter-se nos lugares? Porque aparentam e porque o permitimos, não é?!

A menina

Entro apressada na churrasqueira do senhor Manuel dos Frangos e pergunto-lhe se a minha mãe tinha encomendado algum.
- Sim, senhora, minha menina, para a uma e meia e está sair - respondeu, limpando as mãos ao trapo.
Atira o frango para cima da banca e grita à rapariga de 30 anos que os corta e faz o resto do atendimento.
- Este sai ali para aquela menina.
A rapariga olha para os clientes e não vê meninas. Hesita e pergunta-lhe, "qual menina?".
Sem olhar, voltando frangos, o senhor Manuel responde.
- A filha do senhor José. A loura.
Embaraçada, com o dedinho no ar e um sorriso de bebé, tentando parecer 30 anos mais nova, avanço um passo em direção ao balcão e à desenvolta rapariga. 
- A menina sou eu. - esclareço.

Não pagamos

Bloquearam as rodas do velho Citroen AX azul-bebé ao senhor Pereira, serralheiro-mecânico. Foi à oficina e regressou com um berbequim corta-ferro, livrando-se do bloqueador da EMEL, que vendeu a um ferro-velho em Carnaxide. Com o lucro da venda, comprou bifes para o jantar. 
A EMEL anda a viver muito acima das suas possibilidades.

Estou a ficar velha

"Lembre-me o seu nome, minha querida". "Já pode inserir o cartão, minha querida." Frases que me acabaram de ser dirigidas pela funcionária do franchising/linha de montagem em série/cabeleireiro do qual acabei de sair. Não me lembro de onde conheço a senhora que me tratou desta forma, mas devemos ter tido, algures no passado, uma relação de grande intimidade.

Os meus meninos

A minha barriga gerou três filhos. O Alprazolam, o Diazepam e o Lorazepan. São três meninos muito meus amigos e embalam-me até dormir quando ando triste e chorosa.

A essência da escola

A escola é um lugar maravilhoso onde se realizam ações de grande nobreza humana. 
O maior óbice consiste em ser uma linha de montagem de gente conformada com o sistema e formatada para o sustentar. Uma fábrica de parafusos

Castigo

Levantar-me da cama, lavar-me, vestir-me, pôr as lentes de contacto, pentear-me, tomar o pequeno-almoço, levar a cadela à rua e preparar-me para viver. Como se não bastasse viver, ter de cumprir o ritual da preparação até ao fim da própria vida. 
Não contem nada disto às crianças. Ensinem-nas a não se castigarem.

Acordei com estes versos na cabeça

Sem ti tudo me enoja e me aborrece. Sem ti, perpetuamente estou passando, na mores alegrias, mor tristeza.
(últimos versos de A fermosura desta fresca serra, de Luís de Camões)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Escrevo como me apetecer

Há pessoas que lutam contra o acordo ortográfico com mais sanha que eu contra o governo. Tenho colegas que me mandam emails de tudo o que na imprensa sai contra o AO. Apanho um, constantemente, a falar sobre o assunto com quem entre na escola: estagiárias, encarregados de educação, vendedores de livros. É a sua luta. Devo esclarecer que não me parece nada mal que as pessoas tenham as suas lutas, sendo que a defesa da pureza original de uma língua não é a minha. A minha língua não tem pureza nenhuma, é uma mancha enorme de influências, erros assimilados, hipercorreções, e gosto disso. Sempre gostei de uma língua rasgada, com lanhos antigos cicatrizados e faço contas de contribuir largamente para o efeito.
Serve isto para informar que me estou nas tintas para a presença ou ausência do acordo. Escrevo como me apetecer, misturo regras e não dou satisfações a ninguém. Estamos entendidos?! Ótimo.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Mulheres

Tenho a ideia de que o mundo não seria mesmo nada diferente se fosse governado pelas mulheres. Pelo menos é a impressão com que fico quando penso na Assunção Cristas e na Sofia Galvão, entre outras.

E-books, não, obrigada!

Tive uma conversa com os meus colegas sobre os e-books. Disse-lhes que jamais leria um livro nesse formato. Jamais é exagerado, porque leio livros de 100 páginas em pdf. Maiores nunca experimentei.
Apesar de o ter feito, devo dizer que não gosto. Prefiro o livro. Argumento com as notas, os sublinhados. Respondem-me que pode fazer-se no e-book, com mais limpeza. Digo que não é o mesmo. Acredito, já vi exemplos, mas não. Não será a minha caligrafia. Não sentirei a grafite do lápis de ponta macia, bem afiado, raspando a textura do papel.
Não sou nada retrógrada. Acho que os e-books estão muito bem, mas quero continuar com os meus livros, mesmo pesados, chatos de ler na cama, apenas porque a forma como os leio me agrada totalmente, me serve mesmo tendo de adaptar o meu corpo ao seu volume. Não quero um e-book. Por favor, não me tirem o papel. Mesmo os jornais, por favor!

Entradas do Dicionário Isabela

Foto de Albert Watson


Reforma do Estado - Expressão que designa a destruição do estado providência. A reforma do Estado implica o fim de todos os subsídios e comparticipações. Os cidadãos deixam de poder beneficiar da ajuda do Estado, embora continuem a contribuir para a sua existência através do pagamento de impostos avultados que se destinam a financiar ministérios para ministros, secretários de estado, chefes de gabinete, diretores-gerais e diretores-adjuntos de coisa nenhuma.

Sim, eu dopei-me

O mundo do desporto não é diferente dos restantes. Padece das mesmas fraquezas. O ser humano procura obsessivamente uma excelência contranatura, eventualmente fatal. Os custos da excelência são os do capital. Não interessa como se chega ao topo, desde que se chegue. E nisto se arrasta o que tiver de se arrastar. O mundo é vil e o do desporto não é exceção.
O uso de doping é admissível, sobretudo sabendo nós que não é possível controlá-lo, mas nesse caso é necessário acabar com a hipocrisia dos testes, aliás, absolutamente contornáveis, e criar duas categorias de competidores: os do doping, que vão encontrando novas formas de chegar mais alto, mais longe e mais fortemente e o dos outros, coitaditos, que se limitam a praticar desporto porque gostam, e estabelecem apenas marcas humildes, possíveis de alcançar pelo ser humano.