quinta-feira, 28 de março de 2013

O amor perdido




Perder um amor ou a pessoa desse amor ou ambos mereceria alteração radical do curso de vida. Mudaríamos de cidade, de casa, de móveis, objetos e roupa. Se consumíssemos café Delta, passaríamos para o Sical. Que nada nos evocasse o que se perdeu ao perder, porque pior que a dor da memória é a estranheza de se mergulhar num passado ainda erguido, sólido, tocável sem poder atingir-se. O amor perdido mantém-se sensível desde o primeiro oxigénio, mas tão inacessível como a personagem de um romance. Amo Jane Eyre. Conheço-a tão bem que poderia falar em seu nome, mas não está ao meu alcance encontrá-la nem abraçá-la. O amor perdido é a nossa Jane Eyre.

É idealista, coitada




Daniel Stoole

Regressemos à política e para isso convém clarificar a etimologia do vocábulo. A política é a atividade desenvolvida pelos políticos dentro da pólis e a seu favor. A pólis é a cidade e político é cada cidadão. Se seguirmos a etimologia, eu sou uma cidadã profundamente envolvida na política do meu espaço. Sei que estas noções se perderam, mas vale a pena voltar a elas para que sejamos capazes de reedificar uma política na qual nos possamos rever e reencontrar.
O sistema político que temos não só não serve a pólis como nos excluiu da política, tornando-nos agentes passivos que não somos. Portanto, aquilo que temos em Portugal e na Europa já não interessa há muito tempo, o que se tornou óbvio quando percebemos que a corrupção não era exclusiva do terceiro mundo, mas tão nossa como deles.
A minha questão é saber se queremos manter a alternância entre Passos e Sócrates. Uma pergunta  retórica muito básica. Acreditam que Sócrates vive com uma única conta bancária na Caixa Geral de Depósitos, como se fosse professor do ensino secundário? Acreditam que precisou de pedir um empréstimo ao banco para fazer estudos em Paris? É disto que falo. Queremos clareza, autenticidade. Queremos que nós mostrem as grelhas excel com os cálculos verdadeiros, não os forjados. É que eu tenho aqui as minhas feitas para mostrar aos alunos e encarregados de educação que pretendam verificá-las na próxima terça-feira, e portanto não admito exceções. É gramática, 15%; produção textual, 25%; compreensão da leitura, 25%; compreensão e expressão oral, 25%; atitudes, 10%; resultado final, 14,32.
Não tenho um pingo de fatalismo no sangue. O fado não me assenta. Sei que há um futuro a médio prazo, para mim, e a longo para os vossos filhos, e terá de ser melhor porque já aprendemos lições e amadurecemos civilizacionalmente. E a questão é que futuro queremos agora, destruídas as ilusões da Europa? Que ideias temos para uma nova pólis? Como pretendemos contribuir para a sua reconstrução? Quem são os homens e as mulheres em quem podemos confiar para gerir a nossa casa enquanto nos dedicamos a outras tarefas? Partidos? Organizações? Indivíduos? Temos de discutir publicamente tudo isto e organizar-nos.  E mais: é urgente fazê-lo.

quarta-feira, 27 de março de 2013

O regresso do Anti-Cristo




A entrevista a Sócrates foi antológica, eventualmente histórica, porque Sócrates argumentou com atenção aos pormenores, vigor, emoção, brilho e precisão. Dominou totalmente a entrevista. Foi o espetáculo retórico, não excluindo a poética! Citou-se Dante, e mesmo sem este encontraríamos nesta entrevista matéria para muito verso épico ou lírico. Temos aqui um mestre, sem ironia! Que pena ter perdido a inocência política, caso contrário teria o meu voto nas próximas eleições. E esse é o motivo que poderá transformar esta entrevista num momento histórico, já que a legítima possibilidade de defesa que lhe foi oferecida, e a presente abertura ao comentário político pro bono, levará à eleição de Sócrates para o próximo Governo, se nada mudar entretanto. Obviamente, voltará à vida política, porque todos aceitamos que os planos de hoje não são os de amanhã.
Ao longo da entrevista repetiu-se várias vezes o vocábulo “narrativa” a propósito da performance do execrável atual governo, e foi essa a ideia dominante do discurso político-ideológico de Sócrates. Apresentou verosivelmente a sua narrativa sobre a narrativa, e o problema é meu, sei, mas já me custa tanta ficção. Não serve. Quero diários, cartas, tudo exposto.
Admito que gostei do espetáculo. Admito que jogador conhece as regras e joga bem. Tirando Paulo Portas, não estou a ver talento similar. É pena ser um espetáculo viciado, como as touradas, no qual sabemos antecipadamente que o touro, cada um de nós, vai morrer, e que, portanto, tem de acabar.
Sempre tive para Sócrates o epíteto do anti-Cristo. Carrego sem carga uma referencial formação católica, que domina o meu discurso e pensamento, e não podia tê-lo classificado melhor. Lembro, por isso, as escrituras, de viés, e muito por alto: o demónio fala bem, fala doce, é belo, agradável, está do nosso lado. Tal e qual como Passos Coelho quando chumbou o execrável Governo PS há dois anos. Estava contra os cortes nas pensões, certo? Ia salvar-nos, certo?

Senhor, Senhor, eu sei que estamos na Quaresma, mas porque nos abandonaste?

segunda-feira, 25 de março de 2013

O senhor cardiologista




A minha tarefa de hoje é dar nacionalidade à morte. Estive a pensar numa forma de a integrar na ordem das coisas, porque pertencendo-lhe, tanto como o nascimento, não é bem vista.
Não preciso de a compreender nem de a aceitar teoricamente. Isso é trabalho já realizado. Quero, precisamente, torná-la prática, normal como uma máquina de lavar. O senhor doutor cardiologista, jovem, sensível, simpático explica-me, “o coração bate 80 vezes por minuto: agora, multiplique 80 vezes por minuto por 24 horas, depois o resultado por dias, a seguir por oitenta e nove anos. Faça essa conta quando chegar a casa e vai ver que nenhum carro tem tanta resistência”.
Chego a casa e não faço a conta. São muitos batimentos, muitos mesmo e teria de ir buscar a máquina de calcular.

Nunca tive nenhuma máquina tão resistente. As minhas máquinas duram bastante, até que o motor se queima ou uma peça qualquer, por vezes muito pequena, se parte, mas tanto?! Posso substituir-lhes peças, mesmo que saia mais caro do que um novo eletrodoméstico, mas a máquina não voltará à sua juventude, e pouco depois sofrerá novo acidente noutra peça qualquer.
No outro dia quis comprar um cartão de memória para a máquina fotográfica mas não consegui. Os atuais cartões têm gigas a mais e a máquina não aceita o transplante. É como se o técnico me dissesse, “minha senhora, posso pôr-lhe um coração novinho em folha, mas não lhe garanto que funcione, e pior, o recetor pode mesmo sucumbir ao procedimento”.
O que preciso de deixar claro na minha cabeça é que as máquinas têm um prazo de duração variável, chegando o dia em que entram em falência mecânica.
 As peças da máquinas sofrem desgaste com o uso e não bombeiam nem canalizam sangue 24 horas por dia durante 89 anos, como o coração. Portanto, a minha reclamação perante o senhor doutor cardiologista não colhe. Não é verdade que o coração seja uma máquina frágil. Algum de vós tem consigo uma máquina de metal que trabalhe ininterruptamente desde 1924 sem nunca ter sido desligada?

O coração é o tal escravo sem redenção para o qual nos remete Bernardo Soares quando defende que “se o coração pudesse pensar, parava de trabalhar”. Os escravos não existem para pensar, mas para fazer. É princípio elementar de qualquer estado autoritário: retirar o pensamento, diminui-lo até à extinção. Quem pensa, sofre de uma dor que não obedece.
Pobre coraçãozinho cansado. Sim, não podes continuar. Claro que não. Descansa, tonto. Há um dia em que tens de parar ,a bem ou a mal. Ou paras ou rebentas, e, em qualquer dos casos, paraste. Eu cá me arranjarei à minha maneira.
E nesse dia, julgo eu, a morte regressará a casa e ocupará o corpo, seu país disperso.
Deve ser bom regressar, após tantos anos, ao lugar de onde saiu. Mas ela reclamará.  "Está tão usada a casa! Meu Deus, o que fizeram eles neste lugar que apenas emprestei. Isto é que foi estragar o soalho e rebentar com os candeeiros! O que andaram a fazer com aquilo que é meu?"

Nesse dia, não quero chorar. Quero sorrir à morte e dizer-lhe "levas a casa onde eu nasci. Vai tudo partido, minha amiga. Essa máquina atravessou oceanos e venceu o cabo das tormentas. Respeitinho, portanto. Das peças não aproveitas nada. Chama um empreiteiro, faz obras. Arranja-te, próxima amiga. A propriedade sai sempre cara."
Mas se chorar, que importância tem chorar?! As máquinas enferrujam com as lágrimas?

terça-feira, 19 de março de 2013

Eu que não morri, te saudo

Autor desconhecido, Rússia, 1909

Há uns tempos, os meus alunos perguntaram-me se eu acreditava no Inferno. Respondi-lhes que sim. Sim?! Esclareci que o Inferno era aqui, aquela aula, aquele momento, e que todos eles o estão já a viver. Que não há outro. Acrescentei que é amargo e doce. E que o seu lado de mel é tão delicioso, tão puro, que não queremos largá-lo, mesmo quando a ele nos prende um fio muito ténue.

O meu pai trabalhou toda à vida sem férias até integrar o contingente de técnicos da Hidroelétrica de Cabora Bassa, em 1975, o que lhe permitiu, dez anos depois, em virtude de um acordo estabelecido entre esse projeto e a EDP, integrar os quadros da última empresa.
Ao chegar a Portugal, o meu pai trabalhou até aos 70 anos como operador em diferentes subestações da região de Lisboa. Era ele que acendia a apagava a iluminação pública de zona que lhe correspondia, o que eu sempre considerei tarefa sumamente importante. Era ele que mandava na luz da capital!
Reformou-se, nos seis meses seguintes sofreu um acidente vascular cerebral que lhe destruiu metade do cérebro, e ficou paraplégico, preso à cama que veio de Lourenço Marques num caixote, porque a minha mãe implorou espaço num barco a um preto do comité, humilhando-se, dizendo que sim, era verdade, os brancos não valiam nada, muito menos o meu pai, mas que ela era apenas uma mulher, e assim conseguiu um papel com destino a outro preto, que também viria a exigir a sua humilhação de branca, devidamente acompanhada de luvas, de preferência em dólares ou randes.
Se o caixote dependesse do meu pai nunca cá teria chegado, o que me pareceria  aceitável, que eu também não sou de dobrar a espinha.

O meu pai não morreu nessa cama. Depois do avc, sentava-se nela de costas para a porta do quarto, enfrentado a janela aberta, de onde via os telhados dos prédios em frente, os aviões e os pássaros, nada mais. Com a mão direita agarrava o pináculo da cama e erguia-se sozinho, enquanto teve força nesse braço. Depois, o estado degradou-se, e dependia de nós para se sentar no mesmo lugar. Ficava horas assim, pensando, falando sozinho. 

Ao longo dos sete anos da doença, a sua condição mental foi-se alterando. Tinha períodos de euforia e outros de depressão. Finalmente, entrou numa apatia que rapidamente passava à agressividade. Foi perdendo faculdades próprias da consciência. Exigia de acordo com os seus impulsos, não atendendo à lógica ou à sensatez. Exigia do seu corpo uma normalidade perdida. Exigia-a de nós e dos médicos, como se fôssemos deuses com a possibilidade de o recriar.
Perto da morte, que lhe estava inscrita nos olhos e na voz com rigorosa nitidez, negava-a. Não queria morrer. Queria passear, rir-se, queria a minha companhia. Queria-me, mesmo que se risse como um bebé, mesmo que não houvesse nada de que rir, ria. Ria com os olhos, com a baba. Ria-se. Porque eu estava ali e o amava, porque eu era a sua carne, a sua luz, a sua vida. E sentado na cama, já entrado na demência do cérebro moribundo, ia dizendo, quando eu morrer, vais sentir muito a minha falta. Vais ver.  Hás-de chorar muito a minha falta. Quando eu morrer. Eu ia ao quarto e ralhava-lhe. Como é que podes dizer isso? Sabes o que estás a dizer? É o que me desejas? Calava-se, olhava-me com os olhos tristes onde se lia a morte com as letras todas, e baixava a cabeça, descaía o pescoço, os ombros. Eu havia de sentir muito a sua falta, pensava sem dizer.
O acidente vascular que lhe comeu o cérebro, transformou-o na sombra do meu pai e do homem que havia sido.

Ao longo dos 12 anos que marcam a sua ausência, realizei duas aprendizagens com ele relacionadas, que não servirão de exemplo, porque nada nunca serve.
Primeiro, que o amor não precisa de um corpo material nem de uma voz para se manter, evoluir e florescer. Continuo a amar o meu pai como se estivesse vivo, e é mais presente em mim do que muitas almas com as quais dialogo todos os dias.
Segundo, na sua demência, ele tinha razão: sinto muito a sua falta. Tenho-o chorado muito. Tenho fome dele. Uma fome voraz do seu corpo, voz, autoridade, poder, complacência. O desaparecimento do meu pai deixou-me mais única, só e alerta. Creio que ele me preparou para isso ao insinuar, desde sempre, uma solidão que me marcaria.
Com o meu reacionário, aprendi a dar, combater e resistir e não pensemos que a vida é coisa outra. Em sua memória e para sua satisfação, lá, onde me aguarda, continuarei o trabalho de guerrilha há muito iniciado.

domingo, 17 de março de 2013

Deus continua a escrever direito



Durante o passeio da manhã com a cadela, dei-me ao luxo de me sentar na esplanada do Colina bebendo um garoto. Hoje gastei sessenta cêntimos, hein?! Estamos ricos! 
Fui magicando as coisas que magico num dia sem trabalho fora de casa. Essencialmente, que o amor é uma puta cara e sem dignidade; que todos são tão escravos do seu senhor, como o Django, e em iguais lutas de morte, com a diferença de acreditarem ser indiscutivelmente livres, portanto, la nave va. Também me passou pela cabeça que as pessoas desprezam as dores e aflições alheias, mesmo que lhes toquem à porta, e tocarão, e que é assim desde o princípio dos tempos; e que os humildes se tornam sobranceiros com a fama e o poder; e que a escritora que estou a ler é má, mas sendo mulher de um bom autor pode escrever o que lhe apetecer - está vendido. Magiquei mais. Não me lembro.
Chamei o senhor Zé, espalhei sobre a mesa todas as moedas que trazia na carteira e disse-lhe, "faça como se fosse das finanças: tire à sua vontade, e não tem que justificar." O senhor Zé riu-se, respondeu que isto hoje estava mau. Neguei, "igual ao resto dos dias". Ainda me deu para magicar que hei-de ter dias bons, doces como flores puras. Não sorri, apenas pensei. Atravessei florestas e desertos; avistei fauna e flora nunca vista, bela ou horrível ou ambas. Eu sei.
Ao balcão estava um rapaz aqui do bairro que, aos dezoito anos, quando me aproximava do Colina, me comia com os olhos, ao mesmo tempo que com os lábios dizia para o grupo, "chegaram os cetáceos de grande porte". Olhou para mim. Passei os olhos por ele sem interesse. Está gordo.

sábado, 16 de março de 2013

Simone tinha um cão rafeiro




Quando Simone levou para a sua casa, nos subúrbios, os objetos que guardava em permanência em casa de João Paulo, Piruças, o velho cão rafeiro, recebeu-a à chegada, festejou-a, e distraiu-se com a carga; cheirou longamente as mantas, os casacos, os sapatos, os cremes no interior dos sacos que a dona pousou à entrada; depois levantou os olhos e perguntou-lhe, sem compreender, “para que trouxeste tu isto, se era de lá?”
Os cães não compreendem as mudanças e a sua incompreensão não carece de lógica. Os objetos que Simone deixava permanentemente em casa de João Paulo já não lhe pertenciam; eram testemunhas participantes do amor naquele espaço.
Quando Simone telefonou ao namorado,  anunciando que precisaria de "ir buscar a escova de dentes, e o resto das coisas", ele deveria ter-lhe respondido que não havia nada exclusivamente seu que pudesse levar, porque as mantas eram aquelas que os tinham cobrido, e as roupas as que tinham sido por eles abraçadas. Devia ter acrescentado que não se sai do amor sem rasto. Quereria Simone levar o seu cheiro,  palavras, sorrisos, choros e gritos? Julgaria ela apagar pelo vazio da ausência o que lhes tinha acontecido, retirando da casa os cremes de rosto e as mantas de sofá? Não lho disse e Simone não o pensou. Simone tinha ascendente de capricórnio, e disse para si, "acabou, portanto, separemos as coisas." Foi o que lhe passou pela cabeça, e mais nada. Simone era uma mulher sem mal, mas o namorado jogava xadrez.
João Paulo marcou encontro no jardim do bairro, e levou-lhe tudo em dois sacos do Jumbo, dos bons, dos que se compram. Afinal, parecia pouca coisa. Havia umas minudências que ficariam para depois. Simone acedeu, abatida pela necessidade de se mostrar forte. João Paulo era uma casa abandonada, pensou ela, e longe dele chorou os três dias seguintes. Ele sorriu-lhe sem vontade. Fez esforço para comparecer. Disse que telefonava. Não telefonou.Desapareceu.
Nas mantas, Piruças cheirou Paulo, Simone,cheirou os dois juntos, e o odor da casa e dos tempos. Só o cão de Simone sabia que o amor é uma reação química inscrita nas fissuras dos objetos, nelas permanecendo após a morte do mundo como um espírito sem salvação.