sexta-feira, 31 de maio de 2013

Sentença V

Detestamos a segunda-feira porque rejeitamos intuitivamente a escravidão.

Máquina de moer carne

Destruimo-nos, alimentando com o nosso sacrifício uma estrutura que depende de nosso sacrifício para nos destruir.

Relatório

 Imagem: Joseph Lorusso, 1966
 
A pombinha branca caiu esta noite do ninho. Encontrei-a debaixo de uma cadeira.
A Morena já comeu e foi dormir.
O almoço da mamã ainda está ao lume.

Sentença IV

As pessoas não acreditam nisso do karma porque não vivem a minha vida.

Um broche num beco, sem outra moral

Passei-me com os miúdos. Estando a falar-lhes sobre o caso em que a poesia é catarse, e não sabendo eles o isso era, expliquei. Gozaram. Não sei porquê. Porque a palavra tem graça. Porque alguém disse uma piada. Porque a poesia não lhes interessa nem a catarse nem nada que não seja o que nós valorizávamos na idade em que estão. Depois vinguei-me. Dei um dos poemas mais gay do Cesariny sem nunca perceberem que aquilo era, afinal, um broche num beco. Também, não lhes disse (que era um broche num beco).

Sentença III

É urgente mudar. Foquemo-nos nesta ideia, agora. O que será a mudança é um assunto para depois. Há uma ordem na mudança que nos escapa. Deixemo-la seguir o seu curso. Há uma outra coisa adiante, lá fora. Vamos ver.

Estado da cultura

Passei pela livraria. Estava nos escaparates o Servidões do Herberto. 22 euros. Um livro de 22 euros, sobretudo um bom livro, não é caro. Depois pensei que tinha de pagar a conta do gás. Faz-me falta para a comida e um ou outro banho, só de vez em quando. O Herberto ou o gás, o Herberto ou o gás, o Herberto ou o gás. Em nome da poesia falida, ganhou o gás.

Sentença II

Envelhecemos, ao correr dos anos, e o que antes podia esperar, torna-se inadiável.

Sentença I

Cada vida tem o seu assunto por resolver. Algumas nunca o resolverão. Não está nas suas mãos.

Dias de sol

  Imagem: Denise Nestor


Nos dias de sol, a tristeza do fundo deixa-se ver melhor. Aquece e sobe como o leite no fervedor. Ouço o barulho e vou ver. Transbordou. Tenho de a apanhar com um pano da cozinha. Ninguém gosta que a tristeza transborde. Não é bonito e dá trabalho.

Médico do Hospital Garcia de Orta a explicar procedimento ao enfermeiro

Sobre a reutilização de "material hospitalar sujo".

A gente ferve o cateter bem fervido e mete-o noutro doente. Depois a gente ferve outra vez, desinfeta com vinagre, que sai mais barato que o álcool, e usa de novo, e assim sucessivamente até o cateter derreter a meio da colonoscopia. A culpa não é da gente, mas do sistema. Tamos sempre a salvo, entende?!

domingo, 26 de maio de 2013

Esquecer tudo o que nos ensinaram

 Imagem: Denise Nestor

E se a cultura ocidental estabelecesse que comer cães e gatos estava muito bem, porcos e vacas é que não? Qual a diferença entre uns e outros? Os cães e os gatos merecem mais viver do que porcos e vacas? A resposta é "não sabemos. Estabeleceu-se que era assim e realizamos os atos que aprendemos, sem pensar neles".
Contudo, comer vaca ou porco é exatamente o mesmo que comer cão. As vacas e os porcos sentem exatamente o mesmo que sentiriam os cães e os gatos se vivessem e fossem abatidos nas mesmas condições.
Pertencer à espécie humana tem sido uma travessia  complicada, tumultuosa, incompreensível e incompreendida. Teria sido muito mais fácil nascer porco, ser engordada e abatida. Juro-vos, teria sido uma vida muito melhor. Viver durante um ano na corte dos porcos e ser abatida com  uma faca espetada no coração?! Grande vida, meus amigos! A morte não temo: um instante de perda que resulta em ganho.
A dificuldade advém de ter como muito certa uma lógica da existência que configura toda uma moral e ética de que não se pode abdicar.
Um pombo não ganha salário, não produz trabalho. Perguntam-me, como podes gostar desses bichos nojentos? Nojentos porquê? Porque não abatem porcos para fazer chouriço? Porque cagam em cima dos automóveis e não na sanita? Não compreendo o ódio aos pombos, de acordo com a lógica universal, tal como não compreendo que uma vaca seja mais abatível do que um cão. E não compreendo, porque a lógica não existe. É o mesmo que defender que um homossexual ou um preto carecem de tratamento diferente. Na minha lógica, que é a da dignidade e da justiça, ser homossexual ou preto é tão relevante como distinguir um louro de um moreno. Não tenho um juízo de valor, hoje, como não o tive no passado, e foi assim desde sempre, apesar do que a sociedade ditava. Acreditei no meu juízo, sempre, mesmo quando o ridicularizavam.
Não escutei os ditos da sociedade, mas os da minha intuição.Cheguei à terra totalmente equipada. Sabia tudo o que era preciso saber. O caminho tem sido duro, exatamente porque a maior parte dos humanos pensa saber nada, e confuso, perdido, apoia-se na bengala da tradição. Sabemos tudo. Nenhum de vós é diferente de mim. Estamos todos a caminhar na mesma estrada.


sábado, 25 de maio de 2013

Viver no primeiro mundo


Ontem dia bom. Patrão deu gorjeta escrava. Escrava contente vai loja patrão compra comida, bebida. Vai loja amigo patrão compra carvão. Vai loja filho patrão compra casaco, manta. Compra tudo precisar, acaba gorjeta depressa. Agora escrava ter força trabalho patrão, todos dias, sempre todos dias. Depois, patrão ganhar dinheiro outra vez e dar gorjeta, outro dia. Dia tem gorjeta, escrava ficar contente, comprar comida, bebida loja patrão, amigo patrão, e trabalhar muito. Patrão, todos amigos ficar rico. Patrão sempre ter escrava trabalhar toda vida.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Há uma luz vaga entre as nuvens

Imagem: @Paulo Sérgio BEJu


Levanto-me cedo. Trabalho. Nos intervalos bebo garotos para acordar. Leio e explico poemas e também a diferença entre uma preposição e uma conjunção. Respondo aos miúdos. Ralho com eles. Ouço-os. Mando-lhes bocas. Nunca minto. Digo-lhes que são uns traidores quando são uns traidores, ou que são o que de melhor o mundo alberga, quando são o que de melhor o mundo alberga. Parece fácil. Admito que chegue a parecer bonito, mas são horas a fio de interpretação em improviso, apesar do guião, e nunca nada está pronto nem completo nem satisfaz ninguém. Quem manda, pensa que não valho nem faço, que sou um falhanço, um balão de ar.
Conduzo o automóvel. Penso que um dia destes até podia aspirá-lo. 
Almoço durante dias a mesma refeição, porque a confecionei em grande quantidade para evitar trabalho. 
Dou beijos à cadela e aos borrachinhos. A cadela cheira-os, ansiosa. Explico que não pode fazer-lhes mal e o seu instinto contempla-me intocado. Beijo os borrachos e a cadela. Beijo a cadela e os borrachos. Um da varanda de trás, deve ser o macho, aponta-me o bico, defensivo. O pedaço de carne poupada ao tacho! Dou-lhe beijos. E à cadela. "Só podes ver. Não podes tocar nos passarinhos".
Penso que deveria arrumar a cozinha, mas amanhã é melhor. Rego as plantas. Acudo sempre primeiro ao que tem fome e sede.
Tenho muito sono. Não devia dormir. Durmo. Depois, amanhã.
Trabalho com papéis, canetas, lápis e computador. Muitas horas seguidas. Faço telefonemas, mas poucos. Estou sempre em silêncio. O silêncio concorda com a minha cabeça. Não penso no que não me interessa. Faço de conta que a vida é pássaros, cães, papéis e silêncio, simulação de paz à qual me sinto com direito, em certos dias. E beijo o silêncio.
Quando a cadela tem fome dou-lhe a ração à boca. "Tem de ser. Toma mais um bocadinho". Sentamo-nos ritualmente no chão da cozinha, alheadas como mãe, filho, mama. Enquanto enche a barriga, escuto o ruído crocante dos grãos triturados pelos seus dentes. A língua lambe-me a palma da mão.
Tomo os comprimidos. Fico na sala a ler, esperando que surtam efeito. Quando me chegam à cabeça, pego na cadela, entorpecidas pelo sono, e carrego-a nos braços até o quarto. Cheira a baba e pelo. É frágil, macia e doce. Ao meu pensamento acorre que levo nos braços a minha Marilyn Monroe. Deposito-a na cama, ela suspira e fica como a deixo. Deito-me e dormimos para aguentar recomeçar. Um dia havemos de morrer, mas agora ainda temos esta noite.

A menina do bar

 Para a menina do bar e para as minhas colegas dos sorrisos e dos abraços. 


 Imagem: @ Paulo Sérgio BEJu


Uma colega apanhou-me sentada num dos computadores da sala dos diretores de turma e abraçou-me de costas. Fiquei no ninho dos seus braços quentes, enquanto a ouvia dizer "a minha menina precisa de abracinhos". Os colegas de artes e eu temos uma aliança silenciosa. Conhecemos o mesmo segredo mas não temos vocábulos para o comunicar.
Tenho colegas que me sorriem com bondade e compreensão. Sobretudo as mulheres, o que parece contrariar tudo o que o vulgo afirma sobre as relações laborais no feminino. 
Também aqui tenho dez centímetros de papel de tabuleiro onde, há semanas, a menina do bar escreveu a seguinte mensagem: "Um sorriso para alegrar o seu dia". Fez o desenho de uma boneca com um grande smile de boca aberta. Tudo a esferográfica azul. Dobrou o papelinho e meteu-mo no bolso do casaco. Deve ter sido uma altura em que não consegui esconder a tristeza. Li-o, entrei para o lado de dentro do balcão e abracei-a com força, porque ela me viu.
No outro dia perguntou-me como ia de amores e contei-lhe que já não tinha namorado. Disse-me, "deixe lá, isso passa", e à tarde, quando me voltou a ver, já me escrevera um papelinho dobrado, como os que os alunos passam nas aulas. Quando cheguei ao carro desdobrei-o e li: "Ainda é jovem e bela e o seu príncipe está para vir." Sorri. Coisinha mais linda! A menina do bar tem trinta e tal.
As pessoas não são só malvadas por natureza ou viciosas nem passam a vida a armadilhar-se. O mundo está cheio de almas bonitas, ainda simples e autênticas, que me dedicam generosidade. Nunca serei capaz de responder com justiça a estes fluxos de afeto desinteressado, mas sinto o impulso que os motivou. Não fazem de mim uma pessoa feliz, mas compreendo ser uma afortunada.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Uma professora medíocre

Estávamos a falar sobre Fernando Pessoa e disse aos miúdos que o poeta ter-se tornado a sensibilidade que conhecemos seria inevitável, porque falávamos de um garoto órfão de pai aos seis anos, amputado da sua terra natal e levado para um país com clima, língua e cultura estranhas, um padrasto que o trataria com distância, e a quem a mãe, viúva, devia o desposado culto da generosidade, que lhe gerou mais quatro meios-irmãos. Acrescentei que Fernando Pessoa sabia o que era perder o pai, a mãe, a terra, a língua materna, as referências, e que poderíamos, se quiséssemos, considerá-lo um traumatizado das circunstâncias, portanto, a literatura, a arte em geral seria inevitável. Estava o caminho aberto. Ficaram a olhar-me baralhados. Não sei se me perceberam. 
De repente lembrei-me que a Paula tinha perdido o pai aos cinco e ido para França com a mãe alternadeira, onde desaprendeu o português; que o Rafa tinha vindo sozinho de Angola e vivia com uns tios traficantes de droga; que o Samuel vivia com a mãe e a avó porque o pai desapareceu antes de ele nascer, e depois soube-se que morrera de overdose; que a Renata fora criada pelos avós e não sabe dos pais, sendo que o único amigo que teve morreu ao cair a um poço na Sobreda e que a Micaela vive só com o pai porque a mãe emigrou para Espanha, onde arranjou um emprego que ela não sabe dizer... E foi quando achei melhor rematar que obviamente não era isso o que explicava a genialidade de Pessoa, porque traumatizados como ele havia muitos. E passei ao talento que, como o caráter, embora alguns digam que não, nasce conosco.

Esperar tem uma mística qualquer

 Foto: Mike Brodie

Nos dias em que há futebol na televisão sinto-me feliz, porque fico só na terra. Os outros emigraram para alhures e recolho-me à minha solidão e minudências. Que bom esquecerem-se de mim, deixarem-me só, finalmente. Tudo só meu. O silêncio das ruas, das folhas remexidas na noite crepitante. Tudo meu e eu. Tudo verdade e inteiro como se acabasse de nascer. Até o ruído dos autocarros que passam vazios me parece belo. De vez em quando o bairro grita, ouve-se um clamor e são felizes. Ocorre-me a alegre ceifeira de Pessoa, mas não os invejo. Sorrio. Eu nunca planeei nada a não ser isto: o meu canto, a paz dos meus bichos. Mesmo escrever sempre foi uma estúpida ilusão da alta. Porque haveria de aspirar a mais que um salário fixo, uma profissão certa, rotineira? Eu nunca nada! Esperei. Espero.

Ser

Eu nunca hei-de ser nada na vida por saber demasiado bem que não sou nada na vida.

Fé e esperança

 Michael Napples, Illuminated Eggs

Acredito no futuro. Os dias nunca serão mais longos, mas as plantas hão-de florir e as árvores cobrir-se de folhas. Os pássaros continuarão a tarefa dos ninhos e deles sairão corações juvenis que voarão entre continentes distantes, como um dia eu, antes de ser isto, gente. Acredito na inocência, e na culpa só se não houver caminho. Acredito no ouro imaterial que todos os dias me reveste quando respiro o bafo dos animais e da terra. Acredito na liberdade que não tenho. Acredito no amor e nos filhos dos outros. Acredito que sabemos dar e receber, mesmo em vergonha e segredo. Acredito porque escolhi, e essa é a minha fé, a minha salvação, e pode vir o meu último dia, porque acredito na morte e a receberei com generosidade.