domingo, 28 de julho de 2013

Continuar

Eu sabia que não queria morrer. Que não estava certo. Que outros se haviam aguentado sobre a Terra sem mais nada, só usufruindo o pleno que nela havia, porque havia por todos os lugares, e eu sabia. Já tinha experimentado antes essas visões, cheiros, sentimentos. A Terra era perfeita e justa como uma flor selvagem, um moscardo, mesmo que nesse momento não lhe encontrasse sentido. Eu sabia. Repetia isso. Eu sabia. Eu sabia. Precisava de me convencer dessa experiência anterior. Larguei a contemplação e atirei-me a tarefas cuja utilidade era inegável: dei banho às cadelas, sequei-as, penteei-as, limpei-lhes os ouvidos, cortei-lhes as unhas com o alicate, levei-as à rua, fiz-lhes festas, dei-lhes comida. Lavei o chão com a esfregona, dei comida e água aos pássaros, pus roupa na máquina, sequei-a, dobrei-a, deixei-a para passar depois, fiz comida para o dia seguinte até ser tarde e estar suficientemente cansada que justificasse deitar-me e tomar os comprimidos para dormir. Em nome da terra, do que estava na Terra para além de mim, eu não queria, eu não podia morrer.

sábado, 13 de julho de 2013

Escrever

Escrevo por ter escolhido escrever. É uma escolha. Escrevo porque preciso de o fazer como construção e reflexão, para fixar e compreender. É uma necessidade. Escrevo porque preciso de comunicar e esta é a via pela qual o faço melhor. Sou melhor a escrever do que a falar, por exemplo. É um meio para chegar ao outro. Escrevo porque escolhi, porque preciso, porque gosto e porque quero.
Se não escrevo sinto-me culpada, em falta. É uma compulsão.
Não me interessa o que farão com o que escrevo, o que dirão, ou se atinge fins. Preciso do ato, e, precisando, para meu sossego, realizo-o.

As elites do nada

Não sabia que não se podia saborear uma obra a não ser no original. Fiquei a saber anteontem.
Até argumentei, "isso quer dizer que quem não gosta de ler em língua estrangeira, como eu, não pode tirar prazer da leitura de autores internacionais".
Exato, argumenta a tia.
Acabei de saber que tudo o que li até hoje em tradução foi uma recriação sensaborona. Estou aqui que nem posso. Estou completamente fodida: terei de aprender romeno para ler o Eliade e a Muller e japonês para ler o Mishima. Tinha tantos planos para estas férias.

As gordas não têm rugas

A Anabela Duarte, dos Mler Ife Dada (anos 80), foi minha contemporânea na faculdade. Aparecia lá de vez em quando, montes de cool, toda de negro e sapatões, dos lados da Antropologia ou das Ciências da Comunicação ou da Música ou da História de Arte. Feiota, nariz de papagaio, gerava sempre muita admiração e eu olhava muito fascinada, com os olhos abertos da gorda que não tem lugar seguro no mundo, como os pretos, por causa da genética. Nunca achei graça nenhuma aos Mler Ife Dada e espero não estar a confundi-la com a Xana dos Rádio Macau que não me lembra se também andava na Nova.
Acho que vão voltar a cantar. Agora, eu e a Anabela Duarte já temos ambas cinquentas e cabelos pintados, com a diferença de que eu nunca arranjei as sobrancelhas e não tenho rugas. As gordas não têm rugas.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Super enfermeiro

- Senhor Enfermeiro, então aqui pelos meus lados?
- (sorrindo) Vim a casa de umas pessoas amigas, a pé, desde o Feijó, veja bem..
- Desde o Feijó?!
- Então não sabe que o posto médico agora é lá?!
- No Feijó? Naquela mega posto unidade familiar que está sempre a abarrotar?
- Nesse. Estamos de tanga. Na pele e no osso. Fomos todos mudados.
- Então, se quiser ir à minha médica de família tenho de ir ao posto chunga do Feijó?!
- Chunga, totalmente, não, porque estou lá eu, mas terá.
- (suspiro) Oh, senhor enfermeiro, já agora veja lá aqui este dedo que o senhor me tratou na Páscoa. Isto agora parece... uma coisa feia.
- (põe os óculos de ver ao perto e observa) Não, isso até está muito bom. O que causa o efeito de repuxado é a fibrose da cicatriz, mas se for aí fazendo massagens, até com vaselina, a pele, que é elástica, vai dando, e ganha outro aspeto.
- Ah, eu faço massagens à noite!
- Oh, menina, isso, à noite, é para outras coisas. Vá massajando durante o dia. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Alma das pedras

Foto: Mark Seawell


Tive uma colega de Geologia que era uma caga-tacos. Magrita, enfezada, tímida, mal se lhe ouvia um som Não projetava a voz, não articulava corretamente, fechava as vogais, desejando que não a ouvissem, tal como existia pedindo aos deuses que ninguém notasse a sua presença. E realmente ninguém dava por ela.
Ali estava aquele ser, tremendo, balbuciando, e uma pessoa perguntando-se como aguentaria as aulas. 
Certa semana, no âmbito de um projeto transdisciplinar, calhou-me estar presente numa das suas aulas, tal como ela estaria posteriormente numa das minhas, numa turma que tínhamos em comum. 
Aquilo começou mal. Fechada, acabrunhada, mal levantava os olhos da secretária, sobretudo muito envergonhada com a minha presença. A certa altura levanta-se, porque alguém ali teria de começar, e os putos começam a atirar-lhe questões. A tímida responde hesitante, pausadamente, primeiro, mas concentrando-se na matéria, exclusivamente, no seu saber, esquecendo a audiência, e inicia um dos mais belos discursos sobre calhaus a que assisti. Ela dava vida às pedras, usando verbos expressivos para lhes atribuir características morfológicas ou de comportamento perante diversos fenómenos. As pedras, no seu discurso, eram pássaros, pequenos bichos que se viam sujeitos a condições adversas, choravam, envelheciam e sobreviviam ao abandono. As pedras tinham pele e carne. Voava, pairando sobre a matéria, tornando-a compreensível, palpável. Aquela meia-leca de mulher, com medo de tudo e todos, transfigurava-se confrontada com a sua paixão. Nós não existíamos totalmente. Era certo que estava ali alguém. Ela sabia-o, e só isso faria sentido, mas éramos o menos, porque o que ali estava certo era ela saber tudo sobre geologia e conseguir transmiti-lo com poesia e notórias capacidades oratórias. Saí a sorrir.
Sou curiosa sobre pessoas. Quero conhecer e interrogar a natureza do outro. Fascino-me com comportamentos, com as histórias de vida. Porque é ela assim? Porque fez ele aquilo? Como suporta aqueloutro? O livre-arbítrio surpreende-me. Ninguém faz o que deve, ou, pelo menos, raros são os que o realizam pela via sacramental. Cada pessoa é a sua história e eu assisto fascinada ao filme dessa vida, sequiosa por mais. Porque és assim? Porque foste? Porque insististe? Porque aceitaste um sofrimento que ninguém te pedia? O que te motivava? Talvez a minha paixão seja fazer perguntas sobre os percursos alheios, mas não sei explicá-lo, tal como a minha colega tímida não saberia explicar porque amava o granito e mármore.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Cera dos ouvidos, macacos, ramelas e furúnculos no rabo

Miguel Esteves Cardoso e Maria João

A semana passada Miguel Esteves Cardoso escreveu uma crónica para o Público sobre a cera dos ouvidos e ainda não li ninguém a cortar-lhe na casaca. As pessoas gostam de cortar na casaca ao MEC, porque consegue escrever sobre tudo e fazê-lo bem.
A história da cera dos ouvidos era mais ou menos isto: tomou uns banhos de mar, ficou com os ouvidos entupidos; à revelia de todos os conselhos dos otorrinos resolveu usar cotonetes, mas piorou, criando um rolhão de cera mais profundo. Foi salvo por um enfermeiro do posto médico que, com mãos de deus e de bruxa, e um esguicho de água morna, lhe lavou aqueles porquíssimos recetores auditivos. MEC ficou aliviado. 
Do que gosto eu nesta crónica? Para já, tinha estado a semana passada, numa consulta para o mesmo efeito, com a minha mãe, e escuso de ser eu a abordar o tópico dos rolhões de cera que têm de ser extraídos a ferro - no caso da minha mãe. Posso ficar com os temas "macacos do nariz" ou "ramelas", igualmente edificantes e muito do agrado da inteligência nacional. Aprecio temas que me impeçam o uso de vocábulos como diáfano e nefando. Gosto de escrever exatamente como se fala no café Colina, estilo a que se dá o nome de coloquial. Fulano (nunca fulana, porque as mulheres não escrevem, fazem crochet) escreve num estilo coloquial, o que traduzido quer dizer algo como "não usa vocabulário grandioso, eloquente, nem estruturas sintáticas complexas".
MEC, não só é um dos melhores prosadores em língua portuguesa, vivos ou mortos, em estilo coloquial ou cultivado, como acumula uma outra característica que me agrada e que atinge como uma doença boa quem se aproxima do fim, quero dizer, da perda absoluta, abismo do qual não se regressa igual nem intacto: está-se nas tintas. MEC senta-se ao computador e escreve: estou com um furúnculo no rabo, logo hoje que preciso de passar seis horas sentado, enquanto a Maria João, na sala ao lado, trata o tumor que lhe nasceu no cérebro. Escreve: a vida é uma besta feroz, mas eu e a João vamos cozer lagostins para o jantar.
O que sinto é que, enquanto a sociedade e o Meio cortam na casaca do escritor e do homem, MEC está além. Está na sua, e o que se passa cá em baixo não chega a causar-lhe formigueiro na sola dos pés.

Declaração: não conheço MEC nem nunca o encontrei na rua, que me lembre.

domingo, 7 de julho de 2013

Verão, mulher, pássaros, cão

 Georgia O´Keefe, Red Snapdragons

Tenho dormido nua sobre os lençóis de algodão branco do meu enxoval. A minha mãe diz que uma mulher séria não dorme nua, mas eu sou bastante séria, embora a minha aceção do conceito seja diferente da da minha mãe.
O pombo da varanda da frente arrulhou a manhã inteira, cortando o meu sono às fatias. Não tive forças para o mandar calar. Tenho de me habituar, como me habituei ao ruído dos carros e do metro de superfície.
Pelas onze, escutei a Morena bebendo água na tigela do corredor, levantei-me, abracei-a e recitei-lhe todos os versos de que me lembrava, meio a dormir, do soneto Sem ti tudo me anoja e me avorrece, de Camões. Disse-lhe aquela ladaínha enquanto ela arfava e me lambia o focinho. Depois dei-lhe um beijo e senti-lhe os beiços molhados e frescos de água.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Eu sou aquela

Foto: Mike Brodie

A vida simples deve conter atos simples. As vidas simples parecem poemas colhidos no auge da verdura e atados com um baraço de erva  para dar de comer aos animais, no inverno. Regamos as plantas, metemos as mãos na terra e falamos com a criação.
Eu gosto de deixar milho aos meus pombos, à noite, e de lhes encher as malgas de água até acima. Sei de que de manhã hão-de estar à procura do que lhes deixei. Gosto de repetir o gesto quando regresso à tarde. Associam-me ao milho que vão comer e aproximam-se quando me veem chegar, sem medo, como se fosse uma entre eles. Eu sou aquela.
Banham-se na malga. Sacodem-se. Catam-se. O Tachada tenta pôr-se na Tachadinha.
Gosto de dar comida à Morena. À noite sentamo-nos no chão da cozinha e vou-lhe chegando grãozinhos de ração na minha mão em concha. É a segunda refeição. A primeira é ao almoço, composta por carne de frango ou peru cozida com cenoura, couve, arroz ou massa. Por vezes, peixe. O ritual do chão da cozinha é importante entre nós. Abstraio-me do que faço e sinto apenas a sua língua lamber-me a palma da mão.
Os animais reconciliam-nos com a vida, que é tão absurda, tão injusta, porque os animais são retos. Sabemos sempre o que nos querem, não fingem, não arranjam subterfúgios.
Os miúdos são parecidos. As pessoas não percebem isto, mas os miúdos são muito puros e confiam em nós. Mesmo quando têm problemas e são animais acossados. Os animais acossados exigem cuidado e paciência. Temos de ser cuidadosos, mas no âmago está o essencial, que é uma luz, um sorriso, um momento de paz. Um cuidem de mim.
Também gosto das pessoas. Digo o que sinto com uma brutalidade original. Não sei mentir e, se o tento, rapidamente me apanham. Conhecer os animais faz-me saber mais sobre os outros do que os próprios têm consciência. Intuo-os. A maior parte das pessoas traz o lado de dentro todo virado para fora, como se tivessem sido cortadas ao meio. Há apenas uns poucos que não consigo ver, e desses tenho medo, tal como do fundo do mar.

 O meu maior defeito é ser bruta, mas não é bem um defeito, é recusar convenções. O meu pecado maior continua a ser o mesmo desde os 10 anos, como confessava ao senhor padre da Matola: sou respondona à minha mãe. Sou muito respondona. Pensa que diz o que quer e que faz o que quer, mas eu não sou dela, sou minha dona.

À noite gosto de dormir com o braço direito todo estendido, encostado à barriga da morena, entalado entre as suas patas traseiras e dianteiras, mas com o calor ela não quer dormir comigo, por isso meto uma almofada entre as pernas e abraço-me a outra, para não sentir o calor do meu corpo.
O corpo é limitativo, mas sem corpo não estaria aqui, e não teria experimentado o horror e a maravilha que implica estar vivo para os outros e para mim.
Quando a minha mãe morrer vou ter saudades dos dias em que implicava comigo e me chamava gorda e me dizia que a roupa não me ficava bem nem o cabelo, e que a pele não estava em condições. As pessoas nunca estimam o que têm.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O preto do primeiro andar

No prédio da minha mãe havia um homem muito jovem que, que quando o meu pai era vivo e já doente, me ajudava muito. Talvez tivesse pena de mim e da minha mãe. O meu pai era gordo, paraplégico, colado à cadeira de rodas, e o prédio tinha cinco degraus à entrada. Tirá-lo de casa e fazê-lo entrar era uma aventura.
O homem era o Pinheiro, cabo-verdiano muito claro, de olhos amarelos, casado com uma miúda branca, linda. Para o meu pai era o preto do primeiro andar. "Vai lá chamar o preto". Gostava dele, mas não engolia aquilo da miúda branca, ainda por cima grávida duma grande barriga, e era preto, isso ninguém lhe tirava.
A minha mãe ajudava a rapariga, muito novinha: trocavam açúcar e batatas e azeite. Era boa gente.
Depois a vida correu-lhes mal, aqueles vizinhos divorciaram-se e largaram a casa. Não recordo se o meu pai ainda assistiu ao declínio da família Pinheiro, mas tenho ideia que morreu antes.
Lembro-me muito desse casalinho jovem que tanto me ajudou. Era tão duro carregar o meu pai, e o Pinheiro pegava na cadeira em braços e upa, punha-o em cima, levava-o para baixo. O meu pai ria-se com um sorriso de criança. Ficávamos muito felizes. Há pessoas boas.
O Pinheiro desapareceu do mapa, mas a miúda ficou pela Margem Sul, criou o filho e recompôs a vida. 
Hoje encontrei-a na escola. Pensei que se fosse inscrever em alguma disciplina ou curso. Continua a parecer uma menina. Linda. O que é o tempo?! Nem penso nele em casos assim. Acho que não dou pela sua passagem. Falámos a correr. Vinha do encontro com uma diretora de turma. "O seu miúdo vem cá para a escola?", perguntei-lhe. Estava com pressa. "Não, não, vai-se embora. Acabou agora o 9º." E despedimo-nos. Fui saber quem era a diretora de turma. 
A miúda linda, a mulher do Pinheiro, é a mãe do meu Ricardo, sempre sereno, doce, apaixonado, sonhador. Repito: o Ricardo é filho do Pinheiro. Fui uma data de anos professora da enorme barriga que a branca que estava casada com o preto pariu.