sábado, 10 de agosto de 2013

O Calvin continua intacto

Eu sou como o Calvin. Nunca percebi por que tínhamos de nos pentear tanto, fazer a cama todos os dias e tomar banho se não nos sujamos. Considerava os professores uns monstros maus, e tenho a certeza que alguns continuam a tradição, e acreditava que à noite havia seres horrendos no escuro, esperando uma oportunidade para me atacarem. A parte de baixo da minha cama estava pejada deles, com os seus ruidozinhos indubitáveis. Lembrei-me disto por ter visto uma tira na qual ele entope a sanita da casa, brincando às tempestades nos navios. Também me aconteceu, enquanto filha, entupir vasadouros enquanto me projetava no mundo da brincadeira experimental. E sorri. Porque tive saudades de ouvir a minha mãe gritar o meu nome e correr atrás de mim para me dar umas palmadas onde calhasse. Não que gostasse desta parte final, mas que era emocionante, e que eu tinha experimentado, ninguém me tira o gostinho.
Fui uma criança que cresceu relativamente afastada das outras, como milhões de outras, mas tive muita liberdade para pensar e recriar-me, interrogando o mundo à minha volta. Não sabemos quase nada quando nascemos, e a descoberta do mundo que ao crescer vamos fazendo, livre e lentamente, sem estímulos artificiais, é boa.
Entretanto estive a preparar o meu almoço, que cada vez mais é constituído apenas por vegetais cozinhados ou crus, e de novo evoquei o poder formador dos tempos da infância. Comi cenoura, cogumelos, nabo e o interior do caule de uma couve portuguesa. Tudo isto, exceto os cogumelos, é doce e aquoso. Desde pequena que gosto de vegetais crus, o que em Portugal sempre foi mal visto e desaconselhado, porque se considera que a terra é suja. Mas a minha mãe, mulher nascida em criada num chão fértil, atribuindo grande valor ao que dele vinha, costumava dar-me a comer bocadinhos de legumes crus, enquanto eu a rodeava na cozinha, ainda muito pequena. Lembro-me de me deliciar com o miolo de talo de couve, e nabo, simultaneamente doce e amargo. Quando tínhamos quintal, arrancava as cenouras da terra e comia-as frescas sem lhes tirar a pele, bem como à rama, que cheira e sabe deliciosamente. Apenas as esfregava para saírem os grãos de terra. Uma agricultura saudável, como a que antigamente era praticada, permite que se possa comer assim. Porque a terra é boa connosco. Penso que o Calvin poderia aparecer numa tira a comer cenouras cruas diretamente da terra, como um coelho, enquanto a mãe e o pai abanariam a cabeça, observando de dentro, e Hobbes torceria o focinho. O Calvin é que sabe. O Calvin é que tem razão. O nosso mal é pensar que chega uma altura da vida em que já não somos o Calvin. Mentira. No nosso fundo, se a infância correu bem, o Calvin continua intacto.