quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Unfold me - I'm small


Boca

Vi uns namorados na rua beijarem-se encostados a um carro que não lhes pertencia. Estavam alheados do mundo e concentrados nas suas bocas. Lembrei-me que senti essas emoções no passado, e tive saudades de as viver de novo, dessa maneira, acreditando no que desacreditei. Senti o seu beijo como se fosse meu. Senti a boca sem nome que me beijava e a viagem do beijo, a sua promessa.

A professora deprimida

- Vamos ver se nos entendemos. Eu estou doente. Do-en-te. Já estiveram doentes?! Vim trabalhar porque, para mim, neste momento, estar aqui ou noutro lugar qualquer é igual, percebem?! Portanto, já vos disse uma vez e não repito, não abram a boca! Não vou falar mais alto. E sabem porquê?! Porque não sou capaz. Não sou sequer capaz de falar baixo, aliás, nem de falar, portanto, peço-vos, meninos, não tenham respeito por mim, tenham piedade. Sabem o que é piedade?! Se não sabem vejam no dicionário ou no google, onde vos apetecer, e façam uma composição subordinada ao tema para me entregar amanhã.
Grande silêncio.
- Stora, o que é subordinada?

Partir

A nossa cultura precisaria de se estruturar de forma que, ao perdemos algo ou alguém demasiado valioso, cuja perda se sofre irrazoavelmente, pudéssemos abandonar o espaço físico que materializa o choque, dispersando a nossa alma por outras realidades e visões, até se conseguir regressar, se necessário.

Memória e dilema



Vivo um dilema com as coisas da minha mãe. Por um lado preciso de não olhar para o que foi dela, mas por outro tenho muita dificuldade em libertar-me do que nos pertenceu.
Dou um exemplo: a mobília de quarto dos meus pais, que foi comprada ao mudarmos para a Matola, tinha eu 7 anos. Boa madeira exótica, sólida como quando foi adquirida. Não é apenas uma boa mobília; tem consigo a narativa dos caixotes dos retornados, que é a história do século XX e da descolonização. Quero ficar com ela, porque não posso desfazer-me de algo com um valor afetivo tão grandioso. Por outro, preciso de me desfazer dela, porque me perturba enfrentá-la, e desejo ver-me livre da dor; já chega; é urgente abrir caminho pela minha própria vida.
Sei que se me desfizer dela me arrependerei mais tarde, como quando me desfiz, com raiva, de todas as cartas que eu e os meus pais trocámos durante uma década, enquanto estivemos separados. Ao destruir essas cartas, destruí provas irrecuperáveis, e procuro afastar do pensamento que o fiz.
Do que eu precisaria era de um armazém onde guardar o passado até conseguir enfrentá-lo, como fazemos com a memória.

Bárbara, a filosofia não forma o caráter dos humanos [não necessariamente]

Sobre a Bárbara Guimarães: no ano em que o Guterres entrou para o Governo eu estava a dar aulas no Barreiro, e estimulei os meus alunos, no âmbito no cumprimento do programa, a escrever cartas a quem quisessem. Ainda não havia internet ou, se havia, era uma ideia ainda muito vaga para mim. Lembro-me que uma aluna escreveu à Barbara Guimarães, que na altura tinha um programa de notícias com o Albarran. Fiquei espantada, porque a Bárbara não delegou em ninguém a sua resposta. Respondeu ela mesma, em carta manuscrita, a todas a questões que a menina lhe colocava. Nunca me esquecerei disto.

O relógio

Acabei de descobrir, numa caixa que trouxe de casa da minha mãe, o relógio que o meu pai me deu quando saí de Moçambique. Um relógio grande, de homem, à prova de tudo. Durou muitos anos. Está parado nas 05h25 de um dia de um ano qualquer.

A loja de eletricidade



O que vou dizer, nesta altura do campeonato civilizacional, pensamos nós, é já um lugar-comum. Não há trabalhos só para homens. Mesmo os que envolvem força física estão ao alcance de mulheres, desde que cooperem. O motivo porque estas não realizam uma quantidade de tarefas de natureza tecnológica ou oficinal prende-se com o facto de lhes ter sido passada a ideia de que alguém o faria por elas. Haveria de aparecer um homem qualquer para as salvar das lâmpadas fluorescentes que não arrancam e dos pneus vazios e da torneira da cozinha avariada, porque todas as panelas têm o seu tampo. Não corresponde ao que o quotidiano nos oferece. A realidade encontra-se cheia de panelas e de tampos desemparceirados desde sempre, tantos como os homens que não sabem mudar um fusível. No meio cultural ao qual pertenço é já um must see. Não compreendo, portanto, porque continuo sem encontrar mulheres na loja dos artigos elétricos.

A lógica da salvação do mundo


É certo que sonhamos esse sonho, um dia qualquer, ou talvez dois ou três, mas já sabemos que não é possível mudar o mundo. Não dá. A natureza humana é demasiado imperfeita; é instável e incorrigível. As pessoas não sabem o que querem e esquecem-se rapidamente dos compromissos que estabelecem consigo e com os outros. Não temos resistência para lutar contra marés tão fortes. Não vale a pena o esforço, por ser inglório. Tanto faz agir, como não: nada se altera. Não temos esse poder. Nem os mártires, coitados, que acabam sempre mal, e por isso é que são mártires. Já levamos tanta porrada que nos passaram as ilusões, mas todos os dias nos levantamos preparados para salvar o mundo, a partir do nada, como se não existisse passado, porque nesse gesto impensado repousa o nosso instinto e salvação.