terça-feira, 19 de novembro de 2013

Arte: naturalidade, nacionalidade e lugar de residência

Amanhã, dia 20 de novembro de 2013, pelas 18h30, participarei numa conversa sobre Arte, no contexto do ciclo Migrações e Cidadanias, organizado pelo CEMRI/Universidade Feminista, na sede da UMAR, em Alcântara. Deixo o convite a quem estiver perto e pretender estar presente.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Funcionária número 989035



A funcionária acordou dilacerada. Lavou-se. Vestiu-se. Penteou-se. Saiu e foi trabalhar. A funcionária falou, agiu, cumpriu as regras. A funcionária não pensou. Os funcionários não são pagos para pensar, mas para executar funções, portanto, a funcionária executa funções dilacerada. Os funcionários têm numeros bordados nas camisas. O 320879, o 100987. Ela é o 989035, que é absolutamente igual ao 210865 e ao 278987. Todos vivem o mesmo tipo de vida, no mesmo tipo de casa com o mesmo tipo de família, amigos, problemas e alegrias. Ninguém conhece a vida da funcionária 989035, mas espera-se que seja normal como os outros são normais, e que se sinta satisfeita na sua normalidade, se levante, vista, penteie, saia e trabalhe. Há regras para cumprir, e as regras destinam-se a alguém.
Morreu-lhe o irmão numa terça-feira, logo, a funcionária tem direito a cinco dias para o chorar. Na segunda regressa às suas funções. O homem está enterrado. Acabou. Cinco dias chegam perfeitamente para se chorar a perda de uma vida que também era sua. Acabou-se a folga. Não há aqui lugar para preguiçosos, sentimentais, muito menos para sensíveis, mentes frágeis de tanto questionar o inquestionável, A regra. O funcionário tem os sentimentos todos regulados por decreto-lei, despacho normativo e portaria. Cumprem prazos Não cumpriu o prazo?! Penalização. Os funcionários cumprem prazos sem desculpas. Os funcionários funcionam no estrito limite do que lhes é solicitado. O funcionário não tem passado, tem processo em arquivo. O funcionário não tem futuro, tem funções para amanhã. Não tem vida, mas horário.
A funcionária adormece dilacerada. No dia seguinte tem de acordar cedo, levantar-se, vestir-se, como se fosse o 786210. Ela não é o 786210, mas faz de conta. Penteia-se, sai, vai funcionar sonhando com o dia em que ficará velha e doente. Nessa altura, pensa e sorri de alívio, hão-de vir buscá-la numa maca para a arrumarem na prateleira de uma instituição para velhos dementes, onde poderá encostar-se a uma parede ao sol e chorar o irmão. Um dia vão reconhecer-lhe essa diferença tão visível, e se Deus quiser, ainda terá lágrimas e o sol não se terá extinguido.

Maria, para sempre

É lourinha de olhos claros e doces. Ficou até ao final da aula. Chegou-se, embaraçada, de mãos nos bolsos, junto à secretária onde a professora, uma funcionária em farrapos, anotava o que tinha ficado para o dia seguinte. A funcionária olhou-a sem saber o que se ia seguir. Um problema de namorados? Um questão familiar? Algo mais grave? A mulher esquece as chagas. Escuta. "Professora, eu sei que não é normal os alunos dizerem isto, mas eu queria que soubesse que nós sabemos que não está bem, e que estamos do seu lado, e que se precisar da nossa ajuda, nós ajudamos". Contemplou a menina. Tem a sua idade quando a sua vida mudou para outra realidade. Tão bonita! Tem o dom da bondade, da sensibilidade. Que adolescente tão corajosa! Que perfeição tão perfeita a de Deus! Tão nova e já aprendeu uma lição que leva a vida inteira. Os outros somos nós; o que afeta o outro, o que o magoa, afeta-nos e magoa-nos, A funcionária em farrapos levantou-se da secretaria, abraçou Maria e disse-lhe, na linguagem dos humanos, "você é uma pessoa muito bonita, muito, muito. Não me esquecerei deste momento nunca mais." Abraçou-a e saiu da sala.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Os meus heróis

O meu pai demorou a digerir o meu aparecimento. Eu não era um rapaz. Habituou-se, porque a filha era fascinante em beleza e graça, e lançou-me consigo no mundo como se leva o filho homem. Fui o seu rapaz-mulher. Enquanto a minha mãe me transmitia em casa os valores próprios de uma menina que precisará de um homem para sobreviver, o meu meu pai dizia-me "não precisas de ninguém para te fazer à vida; tens de ser senhora do teu destino. Decides a tua vida e mais nada". Eram lições de liberdade, de pensamento livre, de ação segundo os valores da consciência, transmitidas pelo  homem encurralado na ditadura, mas cuja alma se elevava acima desta. Tendo agido no contexto dessa ditadura e dos pressuposto do colonialismo, o meu pai foi também um homem ambíguo, aprisionado pela formatação da propaganda, e em luta com os seus principios morais.
Nasci numa família que não era rica, mas dentro da qual havia uma educação cristã, que estabelecia limites muito claros entre o bem e o mal, embora tantas vezes a promiscuidade das ideias nos tenha traído. Em nome do meu pai e da minha mãe, desses gigantes e heróis de amor e raiva dos quais provenho, e à falta de água-pé, essa bebida qiue desconheci até aos 13, bebo um uísque com mais de 30 anos que trouxe do free shop de Joanesburgo, numa das visitas que lhes fiz a Tete em 1978 ou 1979. Ainda está ótimo. À vossa, meninos. Grata pela vida que me deram, por me terem ajudado a ser só minha sem limites. Grata pela saúde, pelo amor até ao último momento. Grata por nos termos encontrado neste ápice de espaço-tempo e desejosa por vos abraçar de novo, um outro abraço sem corpo. Meus queridos, não foi sempre bom, mas foi uma inesquecível, tremenda viagem atribulada. Até outro dia, e segue mais um golo à vossa.

domingo, 10 de novembro de 2013

Panela de marmelada

Estamos na época das castanhas e das batatas doces, por isso comprei e assei-as, mas não comi. Já não tenho fome. 
Fiz uma panela alta de marmelada, com uma receita tradicional da aldeia onde não nasci. Está saborosa, como se espera que esteja a marmelada caseira feita pelas avós. A banca da cozinha repleta de taças cobertas por papel vegetal e não sei por quem as distribuir. Não sou uma avó nem tenho uma aldeia, mas teimo em fingir a vida de alguém normal.

Cova de mendigos

Uma cova funda e mal cheia de gente nascida perfeitinha, que se vê cega e manca. Lamentam-se uns aos outros, gemendo como ciganos pedintes, "uma esmolinha", invetivando quem os mantém na miséria. Assim passam os anos, entre o ai e o palavrão. Não pensam sair da cova. Nem se encavalitam. É proibido espreitar os perigos que devem existir do lado de fora. Eis Portugal.

Costoleta, o fora-da-lei

@Carla Pires

sábado, 9 de novembro de 2013

Ah, que confortável ser fatalista!


Teresa, Mariana e Simão, em Amor de Perdição, aceitam o que o destino para eles guarda, tal como Manuel, Madalena e Maria em Frei Luís de Sousa. Não há grande luta, nestas personagens, a não ser íntima. Não há saída, portanto aceite-se o degredo, o convento, a morte. Estas personagens encerram o ADN da cultura portuguesa. Somos infelizes, tratam-nos mal?! Sim, mas não há solução, não vale a pena lutar, portanto aceitemos. É nestas alturas que acredito na astrologia. É possível que o facto de ter nascido numa diferente latitude e longitude tenha estragado a formação de mais um admirável caráter masoquista. Marte ou Plutão estariam posicionados uns milímetros mais à frente ou atrás

Recentemente propus, pelo facebook, uma ação política conjunta a mais de meia centena de pessoas com voz e responsabilidade cultural: escritores, jornalistas, pensadores, artistas plásticos, realizadores e técnicos de cinema. A resposta teve o seguinte eco: quem estava no estrangeiro e não podia participar presencialmente, apoiou a ideia. Quatro pessoas a viver em território português aceitaram. Duas mostraram interesse, mas a sua participação dependia de algumas condições (saúde/folgas). Uma pessoa não aceitou e explicou porquê. As restantes não responderam ou "saíram da conversa", pelo que deduzo que tenham projetos individuais ou não lhes tenha agradado ou não pretendam manifestar-se seja de que forma for. Algo me diz que a as duas últimas associadas constituem a resposta certa.
That's the spirit! Exprimir o que se pensa, racionalmente, sobre a humilhação a que somos sujeitos?! Não! Fazer barulho revela falta de educação e nós queremos parecer desenvolvidos como os suecos! Sabemos que não vale a pena, portanto para quê darmo-nos ao trabalho?!
Não estamos felizes com o que nos está a acontecer, mas tem de ser. Temos de nos calar e sofrer, como os nossos pais, avós, bisavós. É a vida! E a culpa é um bocado nossa, se virmos bem, porque pusemo-nos a pensar que podíamos ter  uma existência desafogada, relativamente confortável, como se não fôssemos pobres desde sempre. Está-nos nos genes, a pobreza. Agora, é aguentar. Nada a fazer. Eles é que mandam.
Isto estaria tudo muito bem se se tratassem dos homens do café, cuja filosofia não vai além da estratégia de futebol. Agora, meus senhores, gente que ganha prémos literários, gente que faz crítica, que pensa e escreve?! Que sabe e pode exprimir ideias?! Que vergonha sois para vós, para o mundo e quem vos trouxe a ele! 
É isto a cultura portuguesa! Que não dê trabalho! Que não tenhamos de passar vergonhas! Temos ainda razoável liberdade de expressão, mas considerando a quantidade de que parecemos precisar, é liberdade a mais.

domingo, 3 de novembro de 2013

Anatomia do cérebro de um agressor

Há uns bons anos, numa cidade estrangeira, vi-me envolvida numa situação deveras perigosa. Encontrava-me de férias com pessoa amiga e acedemos a entrar em casa de um completo desconhecido, habitante local, muito hospitaleiro. Eu estava consciente dos riscos, mas não consegui evitar o que aconteceu, por motivos que não contarei agora.
Enquanto nos encaminhavamos para a casa do indivíduo, ia-lhe concedendo o benefício da dúvida. "As pessoas não são todas más, não podemos viver sob o medo, e a vida surpreende-nos com as suas exceções, onde tantas vezes encontramos surpreendente beleza". As pessoas acusam-me de idealismo. Não me pareça que seja grande falha de caráter, mas também não me interessa o nome que lhe dão nem o julgamento que fazem. Gosto de acreditar que as pessoas realmente valem a pena e faço-o até ao limite. A experiência que passo a relatar não me tornou diferente.
Ao entrarmos na casa do indivíduo o seu caráter hospitaleiro desapareceu, e tornou-se claro, mesmo sem poder dialogar com o outro, a não ser por escassos momentos, que estavamos em apuros. Conhecíamo-nos bem, portanto pudemos entender-nos por olhares e gestos mais do que por palavras. Concentrei-me totalmente nas possibilidades de escapar. Tínhamo-nos metido num verdadeiro buraco. O indivíduo não pretendia deixar-nos sair, para além de que nos apercebemos da existência de um segundo homem dentro de casa. Escapar dali sem dano, apenas gritando por ajuda, era pouco provável. A porta era sólida e tinha sido bem fechada após a nossa entrada; encontravamo-nos num prédio de apartamentos de uma grande cidade, a uma hora em que a maioria do moradores estava no emprego. Para que não nos tornassemos vítimas, a porta teria de ser aberta por ele.  A estratégia consistia em agir em aliança com o potencial agressor, mostrando a nossa concordância, convencendo-o de que tudo era normal. Era preciso levá-lo a acreditar não ser agressor, não ter más intenções e estarmos nós a adorar o encontro.  Aquilo, para ele, era só o início de uma bela festa.  Jogamos, assim, um dos jogos mais perigosos das nossas vidas, no qual a própria vida se jogou. Falamos, rimos e mostramo-nos disponíveis. Convencemo-lo de que era necessário fazer compras para preparar a festa que se ia seguir; nós ofereceríamos o almoço, e insistíamos, portanto tínhamos de ir rapidamente ao supermercado mais próximo comprar montes de álcool e comidinha. Resistiu à nossa ida. Não sabia bem. Hesitava. Jogou a nosso favor o facto de realmente ele não ter em casa nada que se comesse ou bebesse, e o nosso desespero controlado pela razão. Concentramo-nos na representação. Lembro-me perfeitamente de haver momentos em que me parecia que o outro deixava transparecer demasiada ansiedade, e eu corrigia, mostrando-me ainda mais disponível. Conheço os cães; aquele animal não podia perceber o nosso medo. Certo é que conseguimos que nos autorizasse a ir ao supermercado, abrindo-nos a porta de casa e depois a do elevador. Tudo demorou muito, porque não estava seguro. Íamos na medida em que ele autorizava, queria, mas havia momentos em que hesitava, e tornava-se necessário reafirmar argumentos já usados, melhora-los. Não íamos fugir, mas comprar mantimentos para uma festa de arromba. E antecipavamo-la. Ríamos. Prometíamos.
Já estavamos no elevador, mas ele travava o fecho da porta de correr, com grades, própria dos elevadores antigos. Obrigava-nos a repetir o que íamos fazer, quanto tempo demoraríamos Houve um momento em que a fechou, apenas um segundo, e o elevador ficou preso, iniciando a descida. Nesse momento, quis abri-la de novo, mas foi impossível. O homem gritou, gemeu, como um mamífero esfomeado que perde a presa. Eu e quem me acompanhava fitamo-nos imóveis, atordoados, e incapazes de uma palavra. Não falamos até muitos metros fora do edifício. Abraçamo-nos depois e nunca esquecemos este dia cinzento. Raramente falamos sobre o assunto.

Lembrei-me do acontecimento, hoje, quando li uma entrevista a Manuel Maria Carrilho na revista que a cabeleireira me passou para a mão. O caso incomoda todos, porque não se passa no bas fond nem entre gente que não sabe falar nem escrever.
Carrilho afirma não perceber porque o tratou a mulher tão bem na véspera da sua ida a Paris nem porque lhe pediu que reservasse quarto num hotel romântico. Declara que na semana anterior à viagem, da qual regressou sem a possibilidade de entrar em casa, Bárbara se mostrou muito bem disposta, muito feliz...
Eu percebo, e creio que a triste aventura que relatei ilustra essa perceção.

Este vídeo é também muito eloquente sobre o assunto. Arrisquem vê-lo até ao final.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Viver e morrer na Cova da Piedade



A gente não temos terra. Podemos vagabundear sem destino, dormir um dia numa cova, outro dia noutra, mas não na terra dum senhor. Isso, correm-nos a pontapé. Podíamos ser ciganos e montar acampamento aqui ou ali, mas não somos ciganos. Vivemos na cidade, na casa que a câmara nos deu, porque não podíamos pagar uma e eles não querem barracas, por causa da higiene. Não temos um rio onde ir buscar água, portanto pagamos aos serviços municipalizados. Temos de viver, não é?! Temos de beber e lavar a cara, não é?! Para aquecermos uma panela de água para lavagens ou para a sopa, compramos o gás, porque aqui não se fazem fogueiras Não há onde. Podemos viver sem eletricidade, desde que nos levantemos e deitemos com as galinhas e não tenhamos aquecedor nem frigorífico, mas na cidade ninguém vive dessa forma. Precisamos de dinheiro para pagar as contas da nossa sobrevivência, mas para o obter é preciso trabalhar, e a gente não arranjamos trabalho. É que não há mesmo. Nem a dias, umas horas, nada. Vivemos do rendimento mínimo, que é para rir, eu lhe garanto. Antigamente faziam-se 200 ou 300 euros em biscates por fora, mas disso há cada vez menos, minha senhora. A gente agora não tem como se safar. Eu pensava que a gente éramos  livres. Eu pensava que a gente tínhamos direito a estar vivos, mas agora vejo que era mentira. Temos de pagar para beber água, para lavar a cara, para comer uma sopa, para não enregelarmos. Se não tivermos dinheiro não podemos viver. Ninguém nos vai valer, mesmo que a gente peça ajuda à junta. Se os tribunais decidissem que tínhamos direito a não pagar a água, a eletricidade, o gás, quer dizer, que podíamos estar vivos mesmo não tendo terra nem dinheiro, no dia em que eles viessem com as autorizações já as nossas campas tinham abatido com as primeiras chuvas. Então mais valia a minha mãe não me ter tido, porque a gente nunca teve dinheiro, portanto não tem direito a viver. Isto é que é a verdade, minha senhora, quem não tem dinheiro não tem direito a viver. Olho para os meus filhos, que como eu não têm direito a viver e tenho pena da nossa vida, porque a professora dá-lhes os cadernos, as canetas, os lápis, as borrachas, e eles vão à escola, e comem lá, e isso é que me vale, terem lá a comidinha, mas a professora um dia vai-se embora, e eles crescem, e depois percebem que afinal a gente não tem direito a estar vivo, mesmo tendo o corpo que a senhora vê. Acho que mais valia morrermos todos.