quarta-feira, 23 de abril de 2014

Velha infância


Herdei as mamas grandes, descaídas das mulheres da minha família. Tu brincavas com elas no tempo em que ainda não nos lembramos das coisas, e eu deixava, pensando que um dia a memória não te deixaria ficar acabrunhado, e a mim, nobreza alguma me retirava. 
Depois crescemos, e eu cortei-as. Novecentos gramas da esquerda, um quilo e cem da direita, que ia perdendo em necroses de necroses. Portanto, não julgues que vou achar estranho teres começado a tomar progesterona e que a tua barba tenha começado a desaparecer e que se já note o esboço das maminhas. Miúdo, nós é que nos fazemos e mais ninguém.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Eu quis tê-lo

Para a Mariana

Não é verdade que acredite em tudo. Acredito em certas coisas, sobremaneira no destino. Toda a gente sabe.

Tinha eu 17 anos e tive um grande amor não correspondido por um Vicente, amigo de uma prima minha. Estava sempre metido lá em casa, e era um grande macho, morenão, alto, lindo mesmo ao meu gosto. Ensinava-me a acender a lareira e muita conversa, mas sem concretizações, para além de que saía muito com uma tal de Mena, de cabelo castanho-claro ondeado, com blusas claras justas e umas grandes mamas.

A Mena tinha um Fiat branco e o pai era rico, proprietário de indústria de carnes, gente de muita posse. Nunca pus a mão no Vicente nem ele em mim, mas sonhei e sofri muito à sua conta. Fantasiei beijos na praia ao final da tarde, mãozinhas e tudo o que as raparigas com hormonas atiçadas sonham.

Um par de anos mais tarde, o Vicente casou com a Mena, os dois de branco, com muita flor, muita grinalda, muita menina com folhos, e baile e marisco.

Há uns anos, numa ida à terra, pelo verão, perguntei por ele à minha prima Cesaltina. Respondeu-me, muito desprendida das coisas passadas e vastamente sabidas.

- Ah, não sabes?! Divorciaram-se logo a seguir. A Mena apanhou-o em flagrante, na cama, com um dos colegas que o acompanhava na empresa do pai. Uma cena de sexo tórrido. Um Almodovar. Foi o fim do mundo. Aquilo acabou logo ali.

Dei uma gargalhada. O destino sabe muito bem os caminhos que não guarda para mim.

As senhoras e as rotundas

Esta pergunta é só para as senhoras, não todas, que algumas até são desenrascadas, mas algumas. É simples: em que ponto do código da estrada é que leram que devem parar no meio das rotundas para dar prioridade aos carros que delas ainda se encontram à distância de 237 metros?
Mais, vamos imaginar que estamos no meio do Alentejo. À volta só se veem chaparros, e encontramos uma rotunda sem trânsito algum - nem da esquerda nem da direita nem da frente, nada. Acham mesmo fundamental parar a marcha do veículo e olhar para todos os lados antes de arrancar?

Nota: excecionalmente a caixa de comentários fica aberta. Só podem responder mulheres. Os homens remetam-se ao silêncio, que isto é uma questão que não lhes diz respeito nenhum, é entre mim e elas, quer dizer, nós.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Comer

Grelhei e comi com sal e piri-piri o bife do acém que tinha comprado para a Morena no dia em que a mandei eutanasiar. Não comi tudo. A carne agonia-me. Atirei dois terços à cadela enteada, a segunda, a que veio depois, que o devorou pensando ser domingo de Páscoa. 
Gostava tanto da Morena que tinha vontade de a comer crua, como se os abraços, beijos, palavras, não fossem suficientes para lhe oferecer de joelhos o meu amor. Creio que os pais sentem isto pelos filhos, mas eu sou uma quase-mãe, e nunca fui mais nada.

O meu corpo

Não escondo as fotos de quando fui mais, muito mais gorda. Nem poderia fazê-lo, querendo, por se encontrarem espalhadas pela internet. 

Não sou, por natureza genética, uma pessoa magra, mas sentia um sombrio desgosto pela minha gordura, que acreditava afastar-me dos outros. Penso que fui sempre eu quem se afastou, por defesa. 

O nosso corpo é o contentor do que vamos sendo. Primeiro está o que se é, e que nunca muda, como corrente subterrânea do que se vai sendo. Depois está o corpo, e aquilo que o que vamos sendo lhe vai fazendo. 

O meu corpo é a minha história e, hoje, finalmente, posso percebê-lo.

A primeira bofetada

Foto: Florina Onetiu

A primeira vez que a minha mãe me deu uma bobetada foi no prédio do Alto-Maé e doeu-me. Nessa altura não fazia ideia do que viria a ser o resto da minha vida.

Tinha cinco anos e o hábito de abrir a porta sem barulho, fugindo para me esconder no patamar das escadas, entre o sétimo e o sexto andar, espreitando as filhas do juiz a namorar em baixo. As escadas eram frescas, sombrias, resguardadas. Estava-se ali bem; fugia-se ao calor. Às vezes, as filhas do juiz olhavam para cima, notando a pequena voyeuse, e eu dissimulava-me, enquanto elas se riam, e continuavam sem me enxotarem nem dirigirem palavra. Eu não lhes interessava.

Não saber nada sobre o futuro é uma bênção. Uma bofetada é apenas aquela bofetada, que nada nos impede, e sem malícia nos estimula a encontrar maneira de repetir o mesmo sem consequência amarga. Dói, mas desenvolve.

Se pudéssemos acessar o futuro, recusalo-ía-mos ou tentaríamos negocia-lo como é costume com os promotores das televisões por cabo sentados nos sofás da nossa sala. No nosso caso, preferíamos um pacote com diferentes canais, não daria para escolhê-los à nossa medida, puxando um par deles de cada pacote disponível?!

Se tivesse podido conhecer o meu futuro, observá-lo-ia marcado de bofetadas duras, até procuradas, que transformariam a primeira de todas numa carícia de mãe. Havia de ser obrigada a contemplar um anjo louro, imaculado nos cinco anos, transformado numa mulher entre muitas, com cicatrizes espalhadas pelo corpo, atravessando a pancada como uma casa em chamas, procurando a saída e acreditando que existe, que se salvará continuando em frente. Era capaz de não ser lá grande filme para se ver nessa idade. 

Quando recebemos a primeira bofetada não podemos saber que sem ela e as que virão não compreenderíamos o peso e valor dos gestos e escolhas que realizamos. Esse filme, que justamente não podemos ver, é uma belíssima e singular realização sem guião. 

E agora, cá estamos.