sábado, 26 de julho de 2014

Cartografia do meu corpo


O meu corpo tem sido muito usado. Tenho sempre arranhadelas, queimaduras, cortes nas mãos, braços e pernas, por causa da cozinha, dos animais, de andar por aí metida a carregar, sempre em frente. 
Também é um corpo muito cortado e cozido várias vezes, em diversos locais, como objeto de intervenções cirúrgicas necessárias e/ou urgentes. 

O meu corpo está desenhado por cicatrizes que mais ninguém tem. Feias. Irregulares.
Acho-lhe graça. Parece-me tão diferente e bonito.
Gosto muito dele e chego a abraçar-me, por amor a mim.

De todas, as únicas cicatrizes que me preocupam são as dos olhos, as que não consigo ver. Estão lá dentro. 
Quanto às dos sentimentos e emoções, conto removê-las, uma a uma, durante o tempo que me resta para viver. E quando for, hei-de ir limpinha.

Pipetas para as pulgas

A Ninah tem pulgas. Coça-se, e onde há fumo, há fogo, portanto levou a pipeta anti-bicharada do mês. 

Tenho uma amiga que vai agora fazer uma longa viagem de volta ao mundo. Poupou e decidiu que não queria comprar um carro. A isto chamo eu investimento seguro, de retorno constante, para o resto da vida. 
Conversando, abordou-se o assunto das pulgas que se apanham nas viagens não organizadas pelos circuitos normalizados. Uma pessoa à solta, dormindo em lugares não credenciados, lugares normais, autênticos, fora dos hotéis para turistas, naturalmente apanha pulgas. Acontece. 

As gajas mordem bem, e seguem as artérias mais à superfície da pele com faro de cadelas. Até gosto de ver o rasto de picadelas por cima de determinado ponto para perceber em que zonas do corpo o sangue aflora o suficiente para agradar. O instinto das bichas fascina-me, mesmo tendo de as eliminar. Ocorreu-me, com a Ninah, que poderiam fabricar umas pipetas anti-pulga para humanos, que depositássemos nos cachaços próprios. Seria um sossego. E o gozo de poder entrar na farmácia da rua e dizer, "muito boa tarde, como está?, bem obrigada. Olhe, agora que estou livre do antidepressivo, após nove anos e meio sem interrupção (sorriso, sorriso), o que eu quero é umas caixas de pipetas para as pulgas. Não para a cadela, mas para mim. Pipetas anti-pulgas para humanos. Também são vendidas consoante o peso do animal? No meu caso são 75 quilos, se faz favor!"

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A minha personagem é toda mentira

Agora que me preparo para iniciar uma carreira de escritora inteiramente dedicada ao texto, à fome a sério, às contas por pagar e ao pedir emprestado e adeus, porque a vida tem a suas fases, e consta que é de sete em sete anos, mais coisa, menos coisa, alertaram-me para a necessidade de estabelecer pactos ficcionais.
É o que venho aqui fazer. 
Passo a explicar o teor do meu pacto e depois assino por baixo
Tudo o que escrevo é ficção. Certo?
Se quiser escrever sobre a Ninah, mudo-lhe o nome para Nanih e descrevo-a como sendo de grande porte e pelagem preta, resgatada numa associação protetora onde muito ma gabaram. A Nanih nunca faz xixi à entrada da porta, faz à saída. Alternativamente, mudo-lhe o sexo para cão ou mesmo a espécie, para gato, às manchas, mas sempre animais problemáticos, com nomes começados por éne.
Textos sobre o meu pai hão-de ter personagens com nomes iniciado por V, como Vitorino ou Vítor. Tiro a barriga ao meu pai e meto-lhe uma corcunda. 
A minha mãe terá de me desculpar, mas passar-se-á a chamar Maria Júlia ou Maria Julieta. Os olhos mudam para verdes e, todos os dias, ao início da manhã, entoará mantras budistas. Quais avé-marias e pais-nossos! 
Eu vou deixar de ser uma mulher que teve muitos complexos por ser gorda e passo a rapaz que amou muito uma rapariga que não estava para lhe abraçar as banhas. O pacto ficcional é fixe, sobretudo porque uma pessoa depois desfila na passadeira vermelha dos esfomeados dizendo, não fui eu, atenção!, não fui eu, mas a personagem. Atenção: o pacto ficcional.
E agora, assino onde? Deixem-me meter os óculos na ponta do nariz. Não é que tenha alta miopia, degenerescência macular e cataratas, as linhas é que são muito finas, e tremem. Ai, querem ver que a minha personagem do pacto ficcional tem Parkinson?!




domingo, 20 de julho de 2014

Passagem

Passar a ferro, passar o chão com a esfregona, passar os papéis à volta da secretária a pente fino ou passo-me para Espanha e volto no final de Agosto?

Hoje é domingo


Tenho a minha mãe sepultada em campa rasa com uma tabuleta onde carimbaram um número a tinta branca. A minha mãe não foi um número, mas há vários à nossa volta. Duzentos euros é o valor da lápide retangular, lisa, branca, onde pretendo que inscrevam o seu nome, data de nascimento e morte, e uma frase que lhe escrevi durante a vigilância de um exame de Física e Química, enquanto pensava numa formulação de Einstein a propósito de montanhas russas e desaceleração de um corpo em movimento. Depois, mais 20 euros para o coveiro que arranjará a campa com a lápide, quando a puder pagar. Duzentos e vinte euros é muito dinheiro, e todos os meses há contas a mais: o IMI, o imposto automóvel, o seu IRS do ano passado, dois pneus e um farolim, uma operação aos olhos, óculos de dezoito dioptrias, o veterinário da cadela que morreu, o da que está viva, o condomínio, a devolução dos empréstimos aos amigos gentis, o ouro no penhor. Já não me recordo quando custou o ossário onde estão os restos do meu pai, com os da sua mãe. Pagámo-lo por inteiro. Nesse tempo conseguia-se pagar um armário para guardar a morte; neste, é difícil mantermo-nos vivos.
Quero tanto comprar-lhe a lápide, para ela ver que me aguento na sua ausência e que pode orgulhar-se de mim para sempre. Mas o orgulho tem de esperar. Tudo tem de esperar.
Apesar de tudo, ainda consigo sorrir quando me cruzo com alguém, e isso ninguém me rouba, mãe.

sábado, 19 de julho de 2014

Mono do Império

Esta história é sobre morte. 
Esvaziei o sotão por imperativos do condomínio. Mobílias. Malas. Tudo o que para aí se remete, inteiro ou partido, para arranjar depois. Encontrei os meus livros da escola, de Moçambique, e dos primeiros anos em Portugal; o livro A Minha Vida Sexual, do Dr. Fritz Khan, o tal que li às escondidas do meu pai, na Matola. 
Abri finalmente a arca da minha mãe, que foi para Moçambique com o seu enxoval, nas entranhas do Infante. Dentro, os restos não orgânicos do meu pai. Eu e a minha mãe nunca chegamos a ir ao sotão limpar os seus vestígios. Não éramos capazes. 
Herdei cabos elétricos, fios de toda a espécie. quilos de corda e fio de pesca, fino e grosso, que usavamos em Marracuene ou nos outros lugares onde íamos. Herdei ferramentas enferrujadas. Mais de cem quilos de ferro. Guardei algumas peças, por graça, e a caixa das ferramentas, de boa madeira, de que me lembro, desde sempre. Vou restaurá-la para os meus papéis. Havia uma outra, em ferro, com o nome e morada do meu pai em Tete. Não era a sua caligrafia. Deve ter pedido a alguém no Maputo que lha enviasse barco ou avião, ja nos tempos de Cabora Bassa. Raspei esses dados com álcool e um esfregão de arame, e mandei fora. Não a conhecia, não lhe tenho apego, mas não queria que quem encontrasse a caixa lesse dados tão precisos. Sinto vergonha, em seu nome, de deitar fora uma vida de trabalho e lazer. De deitar fora planos, sonhos. Pareceu-me, enquanto fazia aquele trabalho, que tinha esvaziado a Bedford e encaixotado tudo para um dia, na terra onde nasceu, talvez. 
Não vale a pena construir grandes planos. Morreu cedo e incapaz, e o que restava acabou hoje, num contentor de monos do município de Almada. Os homens do ferro estão lá em baixo respigando, felizes!
Já podem ir para a semana ao aterro procurar os restos do Império. Há camas, mesas, cadeiras. Algumas saíram do caixote dos retornados diretas para o sotão e nunca cá entraram. Os meus pais sobrestimaram o tamanho da casa. Entretanto, criei o quarto-Império, para onde atirei tudo aquilo de que não consigo libertar-me ainda. Não dá. Não consigo. Venham cá buscar, se quiserem. Uma pessoa precisa de tempo e fases para conseguir atirar o passado borda fora. 
Já me libertei de tanto. Dei. Vendi ao desbarato. Reciclei. Neste momento, o mais vivo mono do Império que por aqui resta, acho que sou eu.



domingo, 13 de julho de 2014

Circo

Como amanhã é dia de ganhar o pão, permitam-me hoje falar do circo.
Acabei o dia a ver o jogo final do mundial num restaurante de Cacilhas. Não tinha planeado nada, mas aconteceu ver-me frente ao écrã gigante sem mais para onde olhar. 
Toda a gente sabe que eu não percebo um nabo de futebol, de maneira que olho para o relvado de acordo com o meu entendimento do mundo.
1. O futebol é a luta de gladiadores deste tempo, mas os que se batem em campo, e levam, não comem sangue e areia, só sangue, às vezes, e nesse caso são imediatamente assistidos. São uns gladiadores mais limpinhos, apenas cansados.
2. O futebol é a guerra dos tronos. A bola é a arma disputada, única forma de conquistar território irreal. A posse da bola e o seu uso certeiro, entrando no território do oponente, é poder total. Um jogo de futebol é exercício de poder, e o final, seu usufruto.
3. Os vencedores gozam a glória do poder, mas aprendem pouco nesse momento. A vitória nunca é um momento de aprendizagem, porque ela ficou para trás. É apenas a confirmação. No próximo jogo poderão perder, porque a quem atinge o cume, só resta descer. Cuidado! Os perdedores, desolados, abatidos, aprendem muitíssimo. Fechados na sua deceção, podem chorar, convém que chorem, mas reverão, depois, os passos da derrota com o objetivo da futura vitória. Um perdedor tem o caminho aberto para ganhar - os seus rostos são tão eloquentes de tristeza! - e tenho vontade de os abraçar e consolar, "falta pouco, falta pouco". 

Um dia, voarei


Voa, mulher, voa

Os nossos braços são asas cujas penas, e estrutura na qual encaixam, não conseguimos ver, mas estão lá, e se por minutos conseguirmos voltar à inocência e imaginação de uma menina no baloiço,  veremos claramente o apetrecho e voaremos.

Até muito tarde na adolescência, fui capaz de voar. Nos sonhos, lembro-me. Dobrava ligeiramente as pernas, agachava-me, o rabo quase a roçar o chão, e, simultaneamente, elevando os braços e baixando-os rapidamente, com muito vigor, o meu corpo elevava-se sem peso. Quanto mais rápida e vigorosamente batesse os braços, mais alto me elevava, mas o esforço inicial era o que contava. Assim que tivesse atingido a altitude de um prédio de cinco andares, poderia espaçar o bater de braços, com as asas invisíveis, e elevar-me lentamente até aos picos, voando sem limites. Pousava, voltava a elevar-me. E a cada noite o meu voo se tornava mais perfeito, menos exigente de esforço inicial. Voar era como andar.

Tudo à minha volta era bastante sombrio nessa altura da minha vida – os lugares, as pessoas, a ignorância - mas eu voava normalmente à noite, sem pedir,  apenas porque era capaz, e isso compensava muito.

Foi assim durante muitos anos e o tempo foi passando sem que contasse os dias.

Esperei. Permaneci. Acreditei. Vinguei. Um mecanismo muito bem fabricado, admito.

Tornei-me adulta e fui viver essa vida, até ao dia em que me lembrei que tinha deixado  de voar. Não sei porquê, mas à noite já não voava. Estava muito presa ao chão. Havia obstáculos no meu caminho. Atravessava monturos, aterros sanitários de diversa índole, e caminhava por eles fora, mas sem voar. Tudo à minha volta tinha melhorado como eu esperava que acontecesse nos tempos em que voava. Tinha uma vida. Ganhava dinheiro. Os homens e as mulheres desejavam-me. Os amigos riam-se com as minhas graças, os colegas e alunos admiravam-me, o meu trabalho não tinha mácula, mas não voava.

Há uns dias atrás, conduzia na Capitão Leitão, e cruzei-me com uma colega de uma escola onde trabalhei há uns anos, e de onde saí, porque nunca nenhum trabalho me completou, portanto fui mudando, saltando, à procura de voar, provavelmente.

A minha ex-colega está nos seus cinquentas, avançados. Não me viu. Vinha cambaleante, ligeiramente coxa de uma perna, como sempre a conheci, magrita, pequena, toda vestida de escuro com os cabelos soltos. Talvez tenham sido os cabelos, não sei, mas houve um instante em que a vi com 18 anos. Não era a Marta, professora de História, uma mulher inteligente, sensível, mas calada, a quem a vida negou claridade, mas uma garota cheia de sonhos, de futuro. Foi uma visão, e ela nunca saberá que a tive.

Vi-a aos dezoito, já com a tendência para coxear, que ainda não tinha chegado, mas, pela forma como atirava as pernas, lá chegaria. Vestia-se descontraidamente, moda desses finais de 70: calças de ganga, t-shirt, sandálias, mas tudo escuro, como no momento presente: azul, preto. Os olhos, o rosto, isso era diferente. Não sorria muito, mas sorria um pouco. Sabia que era jovem, que o que houvesse de acontecer na sua vida, ainda não tinha vindo, mas podia vir, quem sabe, não era tarde. E os cabelos, negros, soltos. Acho que a culpa da minha visão está nos cabelos que se mantiveram iguais.

Foi um ápice.

Vi-a aos dezoito, e no instante seguinte voltei aos seus cinquenta e muitos. Senti vontade de parar, de a interpelar para lhe contar o que tinha acabado de ver. Ela haveria de se rir na minha cara, de achar que eu não tinha o direito. “Nunca bateste bem. Tens cada uma!”, dir-me-ia. “És uma inadaptada, tu sabes, toda a gente sabe. Olha para o que te deu!” Desmereceria a minha visão. Rir-se-ia, mudando de assunto, dando-me o desconto.

Por isso não parei e continuei. Queria ir até Cacilhas beber uma cerveja, sentir água na cara, levar uma bofetada de vento, respirar.

Mas devia ter parado, se tivesse coragem. Devia tê-la confrontado, não devia?! Devia tê-la encostado à parede da velha Academia Almadense e dito, “oh, minha parva, tu tens asas, usa-as; oh, minha parva, tu levanta-me essa cabeça, e veste-me uma camisola amarela, e põe-me um baton nesses beiços e sombra nessas pálpebras, abre-me esses olhos como quem vê o caminho, e voa, mulher, voa.” Porque era isso que eu queria dizer-lhe. “Voa, mulher, ainda tens tempo, ainda está tudo por acontecer na tua vida”.

Não disse.

Digo agora. 




quarta-feira, 9 de julho de 2014

Thumbs up

O senhor Simões não vive sem mim. 
Hoje estive a explicar-lhe toda a amplitude oratória contida num thumbs up via sms ou facebook e, claro, emudeceu.
As pessoas pensam que eu ando de cabeça no ar e vejo mal, mas, meus amigos, eu estou bem aqui.
A Yani, que anda com ele num "tô nem aí", mandou-lhe mensagem, perguntando onde parava e com quem; ele respondeu com o mencionado emoticon, por meu conselho, e ela, na hora, retorquiu, "ok, amor, tudo bem, te espero".

O quinto elemento

A mulher sem antidepressivo chora e ri, tem uns repentes, umas intuições, responde à bruta, o que primeiro lhe vem à cabeça. É uma pitonisa, um crescendo de aprendente. 
A mulher sem antidepressivo dá trabalho, exige ginástica do 8 ao 80, mas é mais pedra, céu, água, fogo. Mais verdadeira. Ri. Gosto dela.

domingo, 6 de julho de 2014

Cheira-me, terra

Vai

Não tenho medo.
Nesse sábado, acordei e disse para mim que tinha já vivido muito e que esse Homem estava no meio da minha vida como  “no meio do caminho tinha uma pedra”.
Eu tinha sido teimosa e volátil. Errado, errado. Rondado. Vigiado. Cercado. Injuriado. Tinha cometido todos os erros do sobrevivente nato, sobretudo os erros certos, os que se fazem porque não se desiste até ao último sopro.
Eu tinha vivido mais do que ele, ou pelo menos diferentemente. As minhas prisões tinham sido outras. E o Homem era a minha pedra no meio do caminho, mas chegava. Eu tinha o resto da vida para viver. Desistia. Era eu quem desistia.
Sabia onde morava o Homem, portanto fui encontra-lo no sábado de manhã. Ele saía para comprar fruta, pão, o jornal, e eu conhecia as suas ruas. Era fácil apanhá-lo. Só querer. Foi o que fiz. 
Encostei-me ao muro do jardim, junto ao mar. Ele havia de passar no caminho de volta a casa. Era o final da manhã. Do lado de dentro, as roseiras trepavam o muro rendado de tijoleira vazada, e tinham-se cosido ao sujo da parede. Eu escolhi esse local. Os espinhos picavam-me as costas, e a picada acordava-me enquanto o esperava.
O Homem apareceu ao longe. Eu vejo mal, mas era ele. A altura. A passada. Mesmo que não distinguisse ainda os traços do seu rosto. Que me interessavam os traços do seu rosto?! Nós já não éramos corpo, embora ainda precisássemos dele para o final. Ele trazia os olhos postos em mim. Ele trazia na mão o jornal que acabava de comprar. Eu, nada, só eu, para a despedida. Eu era muito, portanto mantinha as mãos desocupadas, e quando nos aproximamos abri os braços e abracei-o. Sabia que se não o abraçasse ele passaria por mim sem um gesto. Mas nesse dia foi diferente. Eu ia abrir os braços e ele ia deixar-se abraçar, e foi como eu quis. O Homem deixou-se enlaçar, e foi só isso, muito tempo, não sei quanto, porque o que era isso do tempo?! Para nós?! Até rio. Abraçamo-nos muito, sem pensamento. Só. Era o abraço. Uma prisão livre. O abraço forte, só. Presos nos braços, nos peitos um do outro, escutando a respiração alheia e a própria, sentindo os corações baterem muito depressa, depois acalmando-se ao longo do abraço agarrado. O tempo, que interessa?! Parou. Não andou para trás nem para a frente. O tempo parou para que fôssemos só um, pai, filho e espírito santo, mais nada. Éramos nada. Eu chorei, porque choro sempre como uma pessoa de carne, uma coisa que se atira e se desfaz, mas o meu choro não era alegria nem tristeza, mas o próprio abraço. O meu choro era a visão da clara luz do que o nosso abraço unia. Através das minhas lágrimas senti apenas o homem, não um deus nem o sensato cobarde. O meu Homem era pouca coisa, e tinha maltratado a vida, rido pouco, mas era meu, e seja como for, ninguém sabe viver antes de começar. Ele tinha perdão. E eu. E no nosso abraço foi o que realmente era. Pela primeira vez não temeu o meu corpo nem a minha loucura. Os seus braços apertaram as minhas costas e ombros com a mesma força com que os meus apertaram os seus. Não queríamos largar-nos, porque era o fim, era mesmo, acabava ali; eu tinha-o determinado e ele sentiu. Nesse sábado, eu ia-me mesmo embora. Tinha estabelecido a data na minha cabeça. Vinte oito de junho e pronto. Dava-o, a partir daí, ao que tivesse de ser. Acabava, ponto final, e não há burro mais teimoso do que este.
Durante o abraço, as roseiras do muro deixaram cair sobre nós as pétalas maduras, lentas, aleatórias. Uma oferta de reis. Uma a uma, iam tombando, claras, rasando as nossas cabeças, e deixando sobre o nosso abraço um cheiro a morte doce. Vai, disse-lhe. Temos de ir, repeti. Acabou, agora, vai, disse. Não esperes mais. Vai. Vai.
Não houve raiva nem dor nas minhas palavras. Tudo isso tinha já passado pela máquina dos dias, que esmaga e tritura e destrói, mas a mim não.
Tinha-o ainda preso no abraço, e os nossos corpos nem lhe faziam jus, pois nós éramos transcendentemente um do outro, sem corpo, há séculos e séculos. Estava escrito assim. Não havia nada a fazer. Não tínhamos escolhido. Não havia nada a fazer nesta vida, é preciso entender. Sabendo-o, aceitei e deixei-o ir nesse sábado.
Largámo-nos, ele apanhou do chão o saco das compras, compôs a t-shirt velha, e continuou para casa. Fiquei a vê-lo ir. Não se voltou. Ele nunca se voltava, portanto eu não esperei esse seu gesto. Queria só ver o que restava, até ao fim, porque era um vício.
Vais, porque te deixo ir. Vais, porque quero que vás. Vais, porque alguém tem de ser capaz. 
Pensei, contra mim, ele nunca cedeu, e de seguida, a meu favor, ele também nunca largou. Portanto, cabia-me decidir. Vais. 
Estávamos por nossa conta, finalmente. Sozinhos. Já não éramos como uma pomba que acabou de nascer e ainda não sabe que as aves progenitoras a vão alimentar, ensinar a voar e abandonar. Agora estávamos entregues a nós próprios, e não havia mais ninguém que nos amparasse. Olhei-o, ainda. Os ombros, as costas, na distância.
Caminhei até ao carro, que deixara mal estacionado rente à muralha do mar, abri a porta, entrei, pousei, respirei fundo  e arranquei.





sexta-feira, 4 de julho de 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Nina Simone - I put a spell on you.

Ana Carolina - Quem De Nós Dois (La Mia Storia Tra Le Dita)

Onde e como enterrar um poeta

Mato inculto, savana, tundra que os animais da terra e do ar habitem, e nele procriem, se abriguem e defequem.
Muito ao longe, em múrmurio, vozes de mulheres que cantam a vida e a morte indistintas e o baque seco dos homens que são escravos de outros escravos, suor sem consciência nem fim.
 Nesse lugar longe, despovoado, cava-se o buraco fundo, com uma pá difícil, para dentro do qual se atira a carcaça desanimada e sem sudário. Não interessa como cai. De bruços, de joelhos, todo torto. Pfff.
 Atulhem a cova. Lancem sementes à terra remexida. Não rezem, não digam nada. Só talvez um "valias tão pouco que nem morrer, morres". E venham-se embora.

 À Sophia, de quem não admito gostar.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Perder muitos a zero

Casa onde há tesão, todos ralham e todos têm razão. Agora tudo igual sem casa.

51

Posso perder tudo para que nada me falte perder. É um alívio chegar ao fundo e não ter caminho a descer. É um luxo a que me entrego. A última entrega louca, risonha, cheia de futuro vedado, como a primeira - o que tem de ser é sempre tão certo, tão irresponsavelmente bom.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Sem selo

Olha, limãozinho, no dia em que o irmão de Van Gogh se encontrou comigo a meio da ponte, eu respondi-lhe, cortei a orelha à navalhada, oh, sim, fui eu que a cortei, mas com as tuas mãos feias, de unhas bem feias, bem rentes, e tu não sentiste nada, por isso fica descansado, está tudo certo, tudo bem.