quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Estou só aqui à espera

Eu às vezes escrevia para me aguentar viva.
A vida pesa à vontade os quilos todos de um frígorífico, de uma  máquina de lavar roupa, ou de um móvel aparador de sala, mas tinha dias. Havia dias em que não pesava tanto ou não pesava mesmo nada, e me sentia uma semente que flutuava, levada pelos ventos.
Nesses dias devo ter sido uma semente levada pelos ventos.
Às vezes, pensava “ eu não aguento” e ia escrever qualquer coisa. Escrevia a história de um homem que se oferecia para arrendar parte da casa para ajudar um outro que tinha de entregar a sua ao banco ou o episódio das sandálias de salto alto que o meu pai, aos 10 anos, me comprara na 24 de julho, contra vontade da minha mãe, para quem três centímetros de salto eram um incentivo ao caminho da perdição. Escrevia sobre conversas que ouvia na mesa do café, tal e qual como as ouvira, ou introduzindo elementos especulativos, morigeradores, manipulando a irrealidade. Eu não aguentava a vida porque a sentia irreal. Tinham-me metido num jogo que me via obrigada a jogar sem lhe ver o fim ou o sentido. Por isso, escrevia. “Estou aqui sentada e entornei parte do café no pires.”
Sem escrita a vida não tinha para onde continuar a ir. A estrada acabava ali. O pôr-do-sol perdia a magia. O ruído colossal das marés de setembro esvaziava-se. Sem escrita não tinha uma casa onde chegar, tirar o casaco, pendurá-lo, cumprimentar o cão, levá-lo à rua, regressar, alimentá-lo, sentar-me no sofá e apreciar o gesto. Podia viver sem tomar banho, sem fortuna, filhos, beijos, mas sem escrita era difícil. Ninguém entendia isto. Nunca ninguém entendeu, e diziam-me, “cala-te”, e viravam-me as costas como se referisse uma patologia indesejada, um vício de gente abastada que se pode dar a luxos. “Estás maluca”. A minha vida era um jogo que deveria viver sem luxos que não me eram exigidos, porque era a minha. “És maluca”.
Houve uma altura em que isto se tornou tão claro que precisei tapar os olhos. Eu queria compreender, mas a compreensão é o pior dos castigos. Nunca mais conseguimos ignorar a jaula e o jogo, porque não é possível regredir quanto ao que se viu.
Acordava com dificuldade e escrevia para me aguentar, dia após dia, mesmo que nada tivesse a dizer. Escrevia, “sinto-me perdida” ou “estou nos setenta e quatro quilos e não dá para emagrecer mais”.

Escrevia, por exemplo, “estou só aqui à espera”.


Marguerite Duras



sábado, 6 de setembro de 2014

Os vagabundos

O mês passado, uma jovem amiga apercebeu-se, dias antes das férias, que tinha deixado caducar o bilhete de identidade. A sua primeira reação foi o medo da multa. Quanto iria pagar de multa? Provavelmente, esse valor seria tal que a impediria de gozar as férias. Dirigiu-se à Loja do Cidadão constrangida, apertada de medo, desculpou-se perante a funcionária, e quis então saber o montante da multa, o que a preocupava. 
A funcionária olhou-a, fez uma pausa enquanto pensava, e respondeu, "multa?! Acho que não há multa."
À cautela, não lhe tivesse passado ao lado alguma portaria, despacho ou circular, voltou-se para a colega do guichet ao lado e perguntou, "oh, Maria Emília, sabes de alguma multa para quem venha revalidar o bilhete caducado?" Não havia. Agora acrescento eu: por enquanto. 
Ouvindo o relato na minha amiga, percebi que as gerações mais novas já assimilaram que o cidadão é culpado à partida e que a sua penalização não só é uma inevitabilidade, como pertence à ordem normal das coisas. As gerações mais novas já estão moldadas segundo um modelo ao qual eu escapei, Eu vivi em tempos que, não sendo perfeitos, eram mais justos. Portanto, eu estou na fase do choque profundo; aquela em que se questiona que um cidadão tenha de pagar 15 euros para revalidar um documento de identidade. Aquela que me dá a certeza moral de que não temos de pagar para nos podermos identificar perante as organizações, porque cabe ao Estado proceder a esse serviço: reconhecer os seus cidadãos e providenciar para que eles possam comprovar quem são.
E vou ainda vou mais longe: estou na fase em que sei que não temos de pagar um cêntimo para ter o direito a existir, e na qual considero que a atitude do vagabundo, do sem abrigo, é a única coerente com o autoritarismo dos diversos sistemas políticos e económicos. Eles não foram atirados para a sua aituação. A sua situação é o acúmulo de um somatório de recusas. E é nela que encontro a coerência.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Quem manda

O meu corpo é o meu marido e andamos brigando sem tréguas desde a adolescência. Há dias em que o detesto, o insulto  e nem o posso ver ou sentir; outros em que não reparo, deixo-o estar para ali como se não tivesse vindo ao mundo, e momentos em que amo esse contentor de carne, infinitamente, e é um amor puro e indissolúvel.
Chamo-lhe marido porque o meu corpo é uma outra pessoa dentro de mim. Ele não pensa como eu, não me obedece, ri de mim, troça mesmo e não consigo vergá-lo. O meu corpo quer ser gordo e não adianta eu explicar-lhe que não tem vantagem nisso, que mais vale mudar de comportamento. Não desiste de ser aquilo que é. É convicto.
Tenho ficado muitos momentos parada só a contemplá-lo, para poder entendê-lo, se conseguir ver com os seus olhos.
Quando fiz a gastrectomia, julguei que lhe tinha dado o golpe final.  Sofri para seu bem, e meu, porque estava cansada de o carregar, cansada de desobediência.  Joguei o nosso futuro nessa gastrectomia.  Planeei a mutilação do meu corpo para me libertar . Liberdade. Vou escrever outra vez: liberdade, liberdade, liberdade. Liberdade. Eu quis ser livre dele, porque isso me libertaria. O meu marido constrangia-me física e emocionalmente. Não o aguentava e tinha vergonha de andar com ele na rua. As pessoas riam-se dele, porque são cruéis e não aceitam a diferença, nenhuma. Eu própria não o aceitava, porque tal como as pessoas com as quais me cruzava, eu também fui ensinada a aceitar o normal e a rejeitar o anormal.  Lutar com uma pessoa que anda agarrada a nós todo o dia, e não descola, não é pêra doce.
Eu batia em mim e chorava, olhando para as calças que já não me serviam. Não aguentava mais,  e fui pensando intermitentemente na amputação do estômago até me decidir. Hesitava. Depois parei. Parei mesmo e atirei-me do precipício sem querer saber o que ia acontecer a seguir. Sentia-me gasta. Acabou. Não penso mais. Vou. E disse-lhe, “agora vais ver quem manda aqui”.  Foi assim. De um dia para o outro.
Sim, quero fazer a gastrectomia. Sim, quero passar uma semana sem comer nem beber e depois um mês a caldo e iogurte, e, na verdade, o resto da vida, como se veio a ver.
O meu marido levou um abalo tremendo. Ele não esperava que eu tivesse a coragem. Foi surpreendido logo de manhã. Levaram-me para a sala de operações e zás. Tchauzinho. Quando acordei, senti de imediato a ausência do estômago e levei a mão ao lugar onde costumava estar inteiro. O que restava dele doía. Fui cuspindo saliva e sangue, quase me sufocando neles, e pedia ar, ar, ar. Queria respirar com os meus pulmões, voltar à vida.  Pensava “o que é que eu me fiz? E agora, como vou viver?” Só queria a minha mãe, que estava em casa esperando notícias, respeitando a minha vontade, concordando que a amputação era o melhor, porque eu tinha de controlar o meu marido.
Quando estou em apuros quero sempre voltar à mãe ou ao pai ou a um refúgio seguro: eles. Quero os braços do meu pai e a sensatez da minha mãe, porque ainda não sei viver sem essa caverna boa. Todos os dias me forço para andar, dizendo, “dói, mas tem de ser, tens de ir, vá, vá lá, tens de ir, vamos”. E dói, dói, mas vou cheia de dor, e queixo-me.  Grito alto ou baixo. Gritar alto é melhor.
A minha mãe estava à espera.
Alguém lhe disse que tudo tinha corrido bem. Eu estava recortada e manchada de sangue, mas respirava sozinha e estava para ali sem saber nada, com uma única certeza: quem manda sou eu. E o meu corpo a piar fininho. Queitinho. Arrumadinho.  Dobrado sobre si. Eu pensava, “toma!” Mas quem julgava ele que eu era?! Pensava poder fazer de mim o que lhe apetecia?! Pensava que o ia aguentar a vida inteira?! Ah! Julgou-me muito mal, o filho-da-mãe impertinente, desobediente. Subestimou-me. Afinal ele não conhecia assim tão bem a mulher com a qual se meteu.
Na enfermaria, a doente da cama ao lado ia almoçando, lanchando, jantando, os dias todos, e eu virava a cabeça e desejava que tivessem inventado um comprimido para anestesiar o odor. O meu corpo sentia-se desesperado de fome e de sede. Tinha pena dele, mas já não estava nas minhas mãos. Não havia nada que pudesse fazer para o salvar. Dizia-lhe, “aceita o destino. Tens de te conformar. Não pode ser como queres.” Ele, coitado, chiava, e eu sentia, porque os esposos se conhecem como se tivessem nascido do corpo mútuo.

Ao quinto dia, o médico deu-me alta e vim para casa com o resto do meu corpo nas mãos e cinco buracos no abdómen. 




quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Judite e Cristiano


Mandaram-me ver a entrevista da Judite de Sousa ao Cristiano Ronaldo, e obedeci. 
Esta fez isto para se lançar, o outro para se justificar. Somos demasiado lestos nos julgamentos. Devíamos observar melhor os outros, tudo o que neles fala, e escutá-los bem. As pessoas merecem esse esforço.
Vamos ao que vi e ouvi, e começo pela Judite de Sousa. 

Um golpe cortado de alto a baixo. Uma coisa de gente atirada ao fundo do poço, arranhando-se para dele sair. Que batalha se trava ali! Tremia, sim, bastante. Atirava as perguntas com rapidez para conseguir controlar as emoções. Tinha pressa em calar-se. Alguns sorrisos eram trejeitos para se controlar. Não a conheço, mas admirei a sua força e capacidade de luta. 
Quem não ignorou as suas feridas imergindo no trabalho como hipnose não começou ainda a viver. Afirmo-o, porque o lugar onde estamos é de dor, e chega a todos, de uma ou de outra forma. O trabalho tem poder distrativo, mas não salva nem cura. Isso é noutro departamento, mas é preciso coragem, e ela tremia visivelmente, e tem-na. Eu também perdi, mas mesmo assim não me habituei e não queria estar na sua pele, por isso devo admirar a sua coragem.
O Cristiano Ronaldo! O que, levianamente, já escrevi sobre este miúdo! Já lhe chamei de tudo, cá do alto dos meus preconceitos intelectuais, e bem calada deveria ter estado! Fui injusta e devia pedir-lhe desculpas.
O Cristiano é muito cauteloso, muito cerebral. Tem muito apoio e está muito protegido, mas é um direito que lhe assiste. Pareceu-me bom miúdo, bem formado, extraordinariamente disciplinado, qualidade que me falta. Ah, se eu fosse assim disciplinada! Ah, se eu fosse a primeira a chegar ao balneário e a última a sair! Ah, se eu tivesse sempre acreditado em mim como ele em si! Temos muito a aprender com estes putos que dão toques jeitosos na bola, que nem sequer identifico, e falam a língua materna sem respeito pelas concordâncias. A língua materna é uma chatice de complicação! É um miúdo giro. Gostei dele. 
Continua a tratar bem de ti, rapaz! Obrigada pela lição.

http://video.pt.msn.com/watch/video/jornal-das-8-judite-sousa-entrevista-cristiano-ronaldo-parte-i/295q546tp?cpkey=540c966b-fb88-4c6f-a04e-f79892beaf6b%257c%257c%257c%257c

http://video.pt.msn.com/watch/video/jornal-das-8-judite-sousa-entrevista-cristiano-ronaldo-parte-ii/295tmo6rc