sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Tábua rasa




O mundo para mim é como um avião, um computador ou outra máquina qualquer. Não tem significado algum, porque o que não compreendo faz de mim tábua rasa. 

O meu mundo tem vindo a perder significado à medida que tenho perdido os olhos. O que julgava perceber é agora muito difuso. 

Eu mudei. Eu neguei os pressupostos da adultícia. Eram uma construção falsa. Sou tão pouco para os outros, e nisso tão melhor do que alguma vez pude pensar, quando pensava que era preciso ser coisa alguma.

No oftalmologista

Explicando sintomas:
- Doutor, desde a última cirurgia, os meus olhos parecem dois instrumentos musicais muito desafinados a tocar a mesma música sem se encontrarem, sem qualquer harmonia. Sendo a mesma música, toca cada um a sua.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Fim do mês

Quem diz que há literatura difícil nunca leu o conteúdo das minhas folhas de remuneração.

Com quem briguei

As pessoas que mais amo e amei são exatamente aquelas com quem mais briguei. 
As relações mais intensas incluem grandes brigas. 
Brigamos porque o amor é espontâneo, honesto como uma criança, e também porque a outra pessoa vale a zanga. 
Zangar é uma forma de socorro e salvação.
Não advogo a briga e a zanga, mas ela aparece na colisão de ideias e intenções. Não as desejo, não as alimento e procuro a paz. 
Com este espírito vou ainda circulando pelo outro e pelo mundo.

sábado, 4 de outubro de 2014

Salvação

Ouvindo entrevistas do programa Bairro Alto, apanhei uma à Amélia Muge.
Referindo-se aos condicionamentos resultantes da falta de qualidade dos equipamentos de som ou dos auditórios, afirmava que ao chegar de Moçambique, a certa altura do seu percurso de vida, deu com o Zeca Afonso a cantar no Alentejo, de megafone na mãe, e se sentiu em literal estado de choque, porque o megafone não era música, mas grito.
De toda a entrevista à Amélia Muge guardo esta afirmação, porque encontrei na realidade que evocava uma grandeza trágica que compreendi. Esse megafone, o grito. A humildade do Zeca, cuja obra conheço mal. Compreendi. Imaginei o homem perante uma multidão que carecia de alívio e esperança, e para a qual os sons grotescos de uma "Grândola, Vila Morena" gritada ao megafone fossem o rosto da prosperidade, da necessidade inata de salvação que as pessoas trazem consigo, seja qual for a classe social a que pertençam ou o nível de cultura e erudição.
O Zeca, para a Amélia, gritou, mas creio que quem o ouviu, cantando através do megafone, escutou, nesses minutos, a mais bela melodia das suas vidas.

Apocalipse

A crise dos 60 será mais leve que a dos 50? 
A minha coleção de cd's tornou-se de repente vã. Não quero ouvir as músicas que não respondem ao que necessito. E necessito de quê? 
Tenho o escritório cheio de livros que não sei para que adquiri. Três paredes até acima. Aborrecem-me. Blá, blá, blá, blá, nada, nada. Um ou outro.
É tudo mentira, está tudo envenenado de matéria, aparência, ardil, orgulho, egoísmo, e agora já não não é uma ideia que se possa ignorar, uma coisa abstrata, vaga, mas um corpo enorme que se impõe, se faz ver e me afronta. 
Fiz tudo errado. Onde quis acertar, não consegui, mesmo lutando, arranhando, escavando. 
Na rua deixei de ver gente livre. Cruzo-me com os escravos das escravaturas diversas, todos apropriadamente agrilhoados, e mais cegos do que eu. Lamento-os. Tanto sofrimento assumido como «a ordem normal». Paro, atordoada, contemplando, imaginando, especulando sobre o vazio das vidas. 
De repente dei comigo sozinha comigo. Estamos as duas uma e não nos encaixamos uma na outra. Há um elo que não encontrei. Deve andar aí. Hei-se encontrá-lo um destes dias. É por isso que pergunto se aos 60 será mais fácil. Tenho de ter algo por que esperar.