sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O cante albanês

Camponesa albanesa


Há algum português que não conheça a lamentação pela vida madrasta, pelo trabalho excessivo e mal pago? Esse é o motivo pelo qual todos compreendemos o cante alentejano e sentimos que tem muita alma. A nossa. Quantos, entre nós, se podem dar ao luxo de não reconhecer ali a história da família ou o seu próprio drama de vida?
Ouvir 60 minutos de cante sem entrar em transe ou desejar atirar-se da ponte é que pode ser mais difícil. Eu gostava de deixar à Humanidade um património mais alto astral, como dizem os brasileiros. Uma bossa nova ia bem. A passada ritmada, baloiçada da garota do Ipanema, sorrindo de bem com a vida. Porque imaginemos que, por dez segundos, deixamos de ser portugueses e conseguimos olhar-nos pelo lado de fora do molde de tristeza conformada no qual nos abrigamos, o que vemos? A Albânia. Uns camponeses quaisquer na Albânia profunda, num lugar tão recôndito, tão miserável, tão deprimente que o único entusiasmo que conseguiremos gerar, será o de umas senhoras inglesas reformadas, de classe alta, que já se devem estar a organizar para vir fazer some charity work. 
Isto é na melhor das hipóteses, porque a menos que as autoridades me empurrassem à força para dentro de um meio de transporte previamente direcionado, eu, que até sou boa pessoa, não teria ânimo para me deslocar à Albânia, nem por motivos humanitários. 
Não me dou bem com o martírio, não sinto vocação, não lhe vejo futuro.



terça-feira, 4 de novembro de 2014

As criancinhas são uma benção

Madrid, Museu de Escultura Contemporânea ao Ar livre, 2014


Eczemas fedorentos, tuberculose cavernosa, fome e pulguedo sem fundo eram as grandes doenças das criancinhas antes do 25 de Abril. 
Depois veio a Nova Era.
Nos anos 70, as crianças nasciam com problemas de ortopedia e tinham de usar umas botas especiais com geometria de arames.
Nos anos 80, a ortopedia começou a esmorecer e apareceram as otites, sinusites e alergias. Foi quando as minhas colegas começaram a dizer, nas salas de professores, "o meu mais novo fez uma otite", sintaxe do verbo fazer que ainda hoje me é muito cara. Foi a era da otorrinolaringologia.
Nos 90, manteve-se esta, acumulando com a alergologia, e apareceu um novo problema, que ninguém esperaria que o fosse: a sobredotação. Saltavam crianças sobredotadas de tudo quanto era esquina. Abria-se a porta de um prédio com seis apartamentos de duas assoalhadas, nas Paivas, e saía uma dúzia de sobredotados.  Uma pessoa até tinha medo de chegar às aulas e de já ter um sobredotado a ocupar-lhe o lugar. Foram anos muito difíceis.
Hoje em dia, a especialidade médica é a psiquiatria para os hiperativos, déficits de atenção, Aspergers, autistas e outras perturbações correlacionadas. 
Constato, apenas. 
Gostaria de compreender este movimento "migratório" das perturbações infantis e juvenis, e até de estabelecer alguma relação com o estado socio-económico do mundo, se possível, mas é melhor não enveredar por aí, e agradecer a Deus por ser do tempo em que apenas nos apareciam furúnculos, aftas, sarampo, partíamos a cabeça de seis em seis meses, esfolávamos cotovelos, pernas e joelhos, e, sobretudo, não tínhamos querer. É desse tempo que eu sou, do "tu não tens querer". Ouvi esta expressão muito mais vezes do que o All you need is Love, dos Beatles, e ainda bem.
A minha mãe, assim que me olhou para a cara, tirou-me logo o raio X do desejo. Tem sido o meu grande padecimento: querer muito, querer tudo, querer demais. 

sábado, 1 de novembro de 2014

A vida privada dos poetas



Há uns meses, um amigo contou-me que, no contexto de um acontecimento social, lhe tinha calhado ficar ao lado de um dos nossos poetas vivos, bastante conhecido e laureado, e que se sentiu constrangido, pois ouvi-o peidar-se uma meia dúzia de vezes. Na altura ri-me e adorei a história. É claro que os poetas, felizmente, tal como o Papa, os grandes pensadores, criadores, investigadores e cientistas, peidam-se. Fernando Pessoa e António de Oliveira Salazar tiveram-no em comum. Pedro Passos Coelho e rainha de Inglaterra, idem.
O peido tem tanto mais graça quanto maior seja a importância que atribuímos aos seu ator, ou aquela que ele se dá. O peido dos meus vizinhos, naturalmente, não tem qualquer interesse. 
O peido é um lembrete que nos traz à terra e a todos nivela por igual. Minha cara senhora, pode carregar consigo toda a sabedoria dos infólios, meu caro senhor, a sua coroa de ouro e jóias preciosas pode pesar como o planeta, mas os vosso corpos revelam a verdade das verdades: em essência estamos no mesmo patamar.
Não me teria lembrado deste episódio se não me tivesse aproximado das estantes de livros e não tivesse encontrado os do poeta peidorreiro muito alinhados. Li as lombadas e sorri. Tanta arte e solenidade, tanta elevação e talento e... o peido! Não queria chegar a este ponto, logo eu que também peco, sobretudo nos dias de sopa de feijão com couve-lombarda, mas confesso não saber se consigo ler mais algum poema do peidorreiro no resto da vida. Abri uma página ao calhas, li um poema, e senti-o dessacralizado pelo peido. É injusto. São belíssimos textos. Li-os muitas vezes apaixonada. Lembro-me de uma viagem de comboio de três horas em que o li o tempo todo, enquanto os outros passageiros me olhavam como a um estranho bicho.  Não que poeta do peido seja muito devoto do amor, ou que o deixe de ser, mas porque o amor pede poesia, e eu apaixonei-me bastamente, no passado, e fui lendo para atenuar os sintomas.
Os ataques de flatulência de poeta muito erudito, de grande elevação lírica não podem sobrepôr-se ao valor da sua obra. Tenho isto como certo. E a poesia é um território muito livre. Pois é. E as pessoas são pessoas! Mas o problema é que o homem não é um poeta maldito nem pop nem gente como eu. Nesse caso poderia peidar-se com crédito. É um poeta-lorde protegido, um poeta sem mácula. E a mácula cai tão bem onde nunca antes a vimos. 
O que gostava de pedir aos poetas, a todos sem exceção, é que, na epígrafe das obras, nos fornecessem essa informação essencial para que uma vida de dedicação à arte não se veja destruída por coisa pouca. O que peço é um simples "eu cá peido-me de vez em quando" ou um "confesso que embora vos despreze a todos, comuns mortais, eu também o sou, tal como vós, para grande desgosto meu". 
Seria uma grande ajuda para alguns de nós, gente ingénua que tolamente sacraliza a poesia.