sábado, 27 de dezembro de 2014

Ferida velha

Não tenho nenhuma ferida. Eu sou a ferida. Quero curar-me, ser a cicatriz, porque as pessoas mais sensíveis, passam sobre elas as pontas dos dedos, e beijam-nas.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Todos os nomes do mundo

José e Maria, afastados do estábulo, com a Menina gerada. ainda por nascer.


"Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Isaías 7:14

Não hei-de morrer como tu



Antes de morrer o meu pai olhou-me com amor e doçura e disse “vai ser feliz”.
No dia em que o meu pai morreu, eu estava a noventa quilómetros. Telefonaram-me. “O seu pai morreu”. Não me disseram “o seu pai morreu solitário como um animal”. Apenas, “morreu”. Pensei “não é verdade”, sabia que era, e meti-me no carro. Fiz o caminho escutando rádio. Cheguei ao seu leito de morte, afastei do corpo amado a mortalha que o cobria e constatei, “estás morto. Morreste mesmo”. Havia pouca luz no quarto. Não chorei. Tapei-lhe de novo o rosto e saí.
Antes de morrer o meu pai terá dito, “isto está mau”. Sentiu-a vir, ou não o teria dito. “Isto está mau. Ela vem aí.”  Não estive ao seu lado, e morreu só, como um animal desamado.
Antes de morrer, o meu pai disse-me “amo-te, amo-te, amo-te”; ouço estas palavras através dos anos; “amo-te, amo-te, minha parte de mim, meu um, meu todo”, e quando durmo realizamos longos passeios. Estamos sempre juntos, com a minha mãe, e outras vezes sem ela, com as nossas piadas, a nossa fala.
Antes de morrer, a vida inteira, o pai atirou-me para a vida sabendo que eu era a sua missão, condenação e salvação. E eu estou aqui.
O meu pai não tinha os dedos médio, anelar e mínimo da mão esquerda. Foram decepados por acidente, numa tipografia das Caldas, onde trabalhou em adolescente, para levar comida para a mãe e a avó, que faziam a sua parte na resistência à fome da casa. Criavam, com desvelo, pombos, galinhas e coelhos, aos quais davam nomes ternos, e meses mais tarde matavam para vender.
O meu pai deixava-me mexer-lhe nos cotos, não lhe fazia impressão que sondasse e mexesse com os meus dedos inteiros os seus perdidos. “Dói-te?” Não doía. “Doeu-te?” Não, nem dera por nada quando aconteceu. Tinha sido de repente. Quando deu pelo sangue que pingava no trabalho realizado, falava distraído com os colegas, e já não tinha dedos, percebeu de relance. “E os dedos cortados?” Não sabia. Não se lembrava.
Lembro-me de reconstruir o episódio dos dedos cortados, na minha imaginação, e de o ver saindo a correr da tipografia, com a mão embrulhada em trapos sujos, a caminho do hospital. Lembro-me da tipografia escura por dentro, repleta de máquinas oleosas e oleadas, pretas. Da aflição dos colegas, mais do que da sua. Imaginei a oficina na rua paralela à estação dos comboios, com porta para a rua. Imaginei tudo, a vida inteira, dentro da minha cabeça, como quando leio um livro. 
O passado do meu pai é um livro muito fechado.
O meu pai descalço sobre as ruas geladas. Foi a minha imaginação ou alusão da minha mãe?
O meu pai a fugir à escola e ao professor mau. 
O meu pai a roubar fruta do outro lado da linha dos comboios.
O meu pai a mentir à minha avó. 
O meu pai a foder mulheres casadas pelos esconsos da noite das Caldas. Inúmeras histórias clandestinas, alimentandas pela minha imaginação sobre os ninhos que aqueceu e abandonou sem explicação nem dó.
O meu pai a prometer à minha mãe, “menina, ainda havemos de casar e eu compro-lhe uma mobília de caixotes”. E a minha mãe a virar-lhe a cara, desprezando-o, “o casadão, o pobretanas - ó, Maria Amélia, quem é o atrevido?”
Todos estes lugares que nunca vi, existem na minha mente com cenários compostos, luzes, som, ação, e o rosto moreno bronzeado do homem que amei acima de todos os outros, gozando a vida de sorriso aberto, sem um tostão no bolso.
O amor é o primeiro dos mistérios. E o último. Ter sido desejada sem consciência e amada sem condições pelo homem que me atirou para este dia, e me disse, já morto, “vai ser feliz”, concilia-me com a solidão na qual me hei-de encontrar luminosa, inteira.

Cada mulher segue as suas obsessões. 

No dia em que ele morreu, prometi-lhe, "não hei-de morrer como tu." Começou aí.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A coisa

Foto: @Paulo Sérgio Beju


Quando trabalhei no Diário de Notícias era muito jovem. O meu trabalho não se via. Os outros percebiam que havia ali uma destreza, uma falta de medo e vergonha do texto, mas eu não dominava as técnicas do jornalismo, e quem me ensinou tudo, se é que se aprende tudo, foi o Manuel Rosa Dias, grande jornalista, filólogo e amigo.

O Natal, para mim, acabou em 22 de novembro de 1975, o dia em que levantei voo do aeroporto do Maputo para nunca mais regressar. Poderia pensar-se que o Natal voltaria a sê-lo, quando 10 anos depois os meus pais regressaram, e de novo nos juntamos enquanto agregado familiar, mas nessa altura eu já me encontrava estragada pela resistência, pela espera e pelo silêncio.
Os meus pais morreram sem saber que o dia 22 de novembro de 1975 alterou, não apenas o percurso da minha vida, e para meu bem, nunca o questionei, mas todo a ordem e sentido do mundo que me estava destinado a partir desse momento.

No Diário de Notícias, quando chegava o Natal, encarava com inveja benigna os jornalistas escalonados para trabalhar na noite de consoada e no dia que se lhe seguia. Lá no meu cantinho de jornalista sem importância, fantasiava com a altura em que, também eu, em glória, haveria de aparecer numa lista qualquer para estar ao serviço nesses dias e escapar-me ao que me foi roubado. Que perfeita e legítima desculpa para fugir à penosa tradição do bacalhau, das prendas, da família, das luzinhas, todo esse baile de Carnaval! Nunca tive a sorte.

Tenho Natais em que fantasio que sou motorista da Carris ou que trabalho no Metro de Lisboa, e mais ninguém aceita o encargo dos dias 24 e 25, a não ser eu. É uma alegria.

O Natal ainda é a data em que tenho de me confrontar com aquela coisa que me foi extirpada, que perdi, que deixei, que me caiu, que se desencaixou, que fugiu no dia em que saí do Maputo. Essa coisa, não a reconheço, não a identifico, por isso não consigo encontrá-la em lugar algum, para a mandar reparar.



Longo curso

Amo com desespero a terra dos meus pais, como se nela eles tivessem delegado o seu corpo e a minha salvação. Amo esta terra como quem naufragou numa ilha perdida, e tudo o que me resta é o sol, o mar e o sopro da vida.

Resistir

No outro dia, num contexto público, alguém, que me ouvia, afirmou sentir o meu discurso sobre os portugueses muito desencantado, angustiado, pessimista. 
Eu não posso inventar um Portugal diferente para representar, e os portugueses estão à vista.
Mas não sou pessimista nem derrotada. Pelo contrário, acredito que tudo poderia ser diferente se criássemos união, se não aceitássemos imposições autoritárias baseadas em mentiras nas quais nem sequer acreditamos. 
O fatalismo é uma herança que não deveríamos assumir. Tudo muda constantemente e os agentes de mudança somos nós, não os outros. Nós todos: eu, os meus amigos, os senhores do café onde se fala mal português e o do outro onde estão as horríveis famílias. Todos. É possível e urgente mudar esta sinistra ordem autoritária. 
Estamos aqui, estamos todos juntos, temos as mãos, a mente, a vontade. Eu tenho.

O tempo e o espaço

Eu vim de um mundo que já morreu. 
Tu também.

Colchão de palha

Quando cheguei a Portugal, em 1975, o primeiro colchão em que dormi, e durou um ano, era de palha de milho. Tinha de se lhe meter a mão numa fenda no forro, e mexer as entranhas do saco, de cada vez que se fazia a cama. 
Na casa da minha avó paterna também não havia sofá. Só uma mesa, duas cadeiras, tudo de pau barato, e duas camas de ferro. 
Não tínhamos casa de banho, mas um buraco direto para uma fossa, no chão do pátio. Era aí que se tomava banho numa bacia larga de metal, mesmo no Inverno. 
Foi nessa casa, nas Caldas da Rainha, na Rua do Cais, que o meu pai cresceu até ir para África. 
O meu pai nunca falava do passado.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A minha casa

Disse à médica, "doutora, há sempre um vazio". Não lhe disse "uma dor". Tive vergonha. Disse "um vazio, um síndroma depressivo subjacente".
Respondeu-me que tenho de arranjar entretém: ir ao cinema, ter algo para fazer que me ocupe o tempo; e que tinha de aprender a gostar de mim.
Disse que sim, que fazia coisas, que me entretinha, mas que sim tudo o que quisesse, e passou-me o Xanax, porque alguém tem de dormir.
Tenho dias em que me ponho a escrever logo que posso, como quem pega num analgésico e o enfia garganta abaixo. Quero só que pare de me doer, e às vezes alivia. 
Tenho dias em que preciso de parar de escrever para não doer mais. Nesses momentos sinto-me cercada de mim por todos os lados, e procuro portas sem alívio algum.
A minha casa é demasiado fria e o aquecimento é muito caro. 
A minha casa também é demasiado grande e vazia, mas isso não é totalmente mau, porque a cadela tem muitos cantos por onde mijar.
Às vezes tenho a sorte de os dias passarem depressa.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Os prazeres dos sentidos




As mulheres grávidas estão em extinção, portanto quando entrou uma no café, fixei nela a minha atenção e curiosidade e pensei para mim, “lá vem mais um, coitado”, e a minha mente seguiu, especulando sobre o nascimento e a morte.
Nós não morremos: nascemos para dentro. Tenho pensado muito sobre o assunto, e quero convencer-me de que vamos de novo para a barriga da mãe, de onde fomos projetados e arrancados, estrebuchando. Lavoisier tinha de saber o que dizia, e todos os dias me agarro a ele para suportar as mortes dos que amei.
Morrer talvez não seja muito difícil, se não tivermos pena do que deixamos. Difícil é ir vendo morrer aqueles com quem temos pertença, impotentes para lhes valer, conscientes da espada que, presa por um fio, espera para cair a qualquer momento, não sabemos quando.
As últimas caricias que ofereci ao meu pai, a última conversa que mantive com a minha mãe queimam-me, mas tenho de viver sem os seus corpos, vozes, olhares, palavras, vontades, ordem de todas as coisas. Meu castelo, meu mundo. Nascer, viver, morrer, nada a fazer quanto a esta trilogia. Resta aceitar o que foi feito e transformar o fardo em pura leveza, através do golpe de mágica dos dias que se vão sucedendo com desgosto e alegria, chávenas de chá, frio, torradas com manteiga, as vacinas da cadela, chuva, sol, gente inesperada ou costumeira.
Para mim tudo começou com o meu pai, que não era o mais forte nem poderoso de nós os três. Não tenho uma explicação para a breve e apaixonada ligação que tivemos, a não ser que sempre nos senti iguais no fogo essencial que acende o interior dos nossos peitos.
O meu pai usufruiu a vida com um prazer que não voltei a encontrar em ninguém. Para ele, todos os dias eram perfeitos, e se tinha cometido alguma ação que contrariasse a sua consciência, recolhia-se, de rabinho entre as pernas, aos conselhos sábios da minha mãe, fiel da sua balança.
O meu pai gostava do mundo, sem preferências: de mar, de campo, de flores e deserto, de pessoas e bichos, de cinema e teatro, de livros e música, de caminhar ou usar os transportes públicos. Gostava de falar com toda a gente e toda a gente o conhecia. Tinha conversa. Sabia rir e sorrir. Era um sedutor. As mulheres adoravam-no, portanto deduzo que os homens também. Defendia apaixonadamente os seus pontos de vista, por vezes demasiado, e uma ou outra vez envolveu-se em brigas que a minha mãe acabou por pacificar com paninhos. Até ao momento em que ficou preso à cama, pela doença, tudo viveu, e bem, e tirou partido. Lanço uma cintilante aurora boreal de fogo-de-artifício à variedade e riqueza de vida que o meu pai teve a oportunidade de viver.
Foi também essa vida que o matou, porque cada gesto tem preço.
O meu pai estimava os prazeres dos sentidos, entre eles, o do paladar, pelo que comia e bebia com um prazer visível, que alegrava as suas testemunhas. Comer bem, beber bom! Se aproveitou?! Nem a rainha de Inglaterra levará o estômago tão composto como o meu pai levou o seu!
Foi portanto com ele que aprendi a valorizar o prazer, nomeadamente o paladar. Foi com ele que aprendi a comer e a beber, experimentando o atordoamento satisfeito da saciedade. Com a minha mãe, que devemos controlar os prazeres, de preferência evitando-os. Impossível não sorrir: aqueles dois, que a vida juntou, foram os extremos opostos de uma pilha de alta voltagem. Faz. Não faz. Come. Não come. Vai. Não vai. E como se entendiam bem! Esse milagre nunca vivi.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Este é o meu corpo

Peter Paul Rubens


Este Outono decidi mandar apertar um casaco de quando era gorda.
Quando se emagrece quase meia centena quilos é natural ter de renovar o guarda-roupa à força.
Comecei por deitar fora o velho, dei as peças que estavam em condições, e apenas guardei algumas de que gostava muito, com a esperança de as mandar apertar. Desde essa primeira intenção, voltei a dar roupa, de entre aquela de que gostava muito, até me sobrarem apenas alguns casacos de abafo, que mantenho guardados.
Precisei,  o mês passado, de um casaco bom. Sondei o mercado, mas verifiquei que os preços estavam muito acima das minhas possibilidades, portanto decidi-me pelo arranjo do que tinha armazenado.
Com o advento dos centros comerciais deixamos de ter costureiras com atelier montado numa assoalhada da casa própria, onde nos deslocávamos várias vezes ao longo do processo de confeção.
Recebiam-me sempre com certa contrariedade, cheias de encomendas e não sei quandos, sentadas junto à máquina de costura ou à mesa de corte, com as tesouras, as linhas, os alfinetes, as agulhas e restos de tecido espalhados, fatos de outras clientes pendurados em cruzetas por todo o lado, e iam-me respondendo com distância e indulgência, sem levantar os olhos do trabalho, normalmente para me dizerem algo como “não sei se isso lhe assentará bem ao corpo”.
Fui assim percebendo que não tinha um corpo agradável nem fácil para a técnica da costura. Eram as pinças para as mamas e rabo, eram as folgas para o pano não ajustar em parte alguma e disfarçar. Disfarçar aqui, disfarçar ali era o mote condutor das provas, para além do rol de impeditivos relacionados com a decência: o tamanho dos decotes, a altura das saias. Entre o meu projeto de peça e o que me vinha parar às mãos ia a distância do irreconhecimento.
Não tenho saudades das costureiras.
Agora têm um ar mais moderno e trabalham em lojas com porta para a rua e em centros comerciais, pelo que me pus à procura de orçamentos, armada com o casaco no braço. Pedi três, aceitei o segundo, e pretendo contar parte da história que envolve o primeiro.
Entrei na loja, a costureira parou a conversa de entretém que mantinha com outra, e expliquei ao que ia. Pretendia um orçamento para aquele casaco que me tinha deixado de servir desde que… e fiz uma pausa de dois segundos, enquanto algo ocupou a minha atenção. Foi o tempo suficiente para que terminasse a minha frase:
- … engordou.
Olhei para ela, sorri, percebi, e corrigi:
- … emagreci.
A senhora calou-se e disse-me:
- Vamos ver. Vista lá então o casaco.
Vesti, sempre sorrindo. O casaco estava larguíssimo. Era preciso mexer na cintura, nos ombros, nas mangas, desmontá-lo todo. Ela a dizer-me o que eu já sabia,  sem perceber de costura.
Acabou por não ser o orçamento eleito, não pela gaffe cometida, mas porque a achei reticente relativamente à envergadura do trabalho a realizar.
Mas o que compreendi eu com este útil episódio?! A forma como os outros me veem.
Eu sempre me achei gorda, e era, até há 4 anos atrás, altura em que mandei amputarem-me a maior parte do estômago para me impedir de comer. Foi uma cirurgia violenta, radical e com grande sucesso. Parei de comer inapelavelmente, e o que restou do meu estômago ganhou poder sobre a minha vontade. Não só passei a comer muito pouco e amiudadas vezes, como a textura e densidade do que consigo comer se alterou.  Ao meu estômago, que manda totalmente na minha atual alimentação, não interessa aquilo de que gosto, mas apenas o que aceita. Por exemplo, eu gosto de bananas, arroz e massa, e pretendia ingerir estes alimentos, mas o meu estômago deixou de os aceitar. Quando não aceita, trata-me muito mal e obriga-me a esvaziá-lo. Vou ficando progressivamente indisposta, até ao ponto em que me vejo compelida a correr para um lugar apropriado à regurgitação. Portanto, quem me conhece, poderá testemunhar que como agora exiguamente, e mais para alimentar o corpo do que para satisfazer a gula. A gula ficou em tempos idos. Não lamento, não voltaria atrás.
O meu corpo estabilizou nos setenta e poucos quilos, não mais de 75. Devo esclarecer que não me lembro de pesar menos, em adulta, mesmo durante as drásticas dietas de cenoura, peixe cozido e lágrimas convulsivas, nos anos 80. Concluo que este é o peso e a forma do meu corpo, segundo a genética que herdei. Não me parece que seja possível baixá-lo, a menos que faça exercício diário com o objetivo de queimar calorias, do que não estou interessada. Até posso fazer exercício com qualquer outro objetivo, mas queimar calorias sempre me aborreceu de morte.
Acho que estou muito bem assim, não me vejo nada gorda, mas absolutamente normal.  Este é o meu corpo. Se as costureiras e o resto das pessoas me veem gorda, é um fantasma estético com o qual terão de lutar e ao qual sou totalmente alheia. Estou livre disso e, tanto quanto posso observar ao espelho, sou linda. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Não posso mudar o mundo




Praceta Projetada à Avenida Luciano Cordeiro foi o nome do lugar, atrás da Pinheiro Chagas, para onde fomos viver após os distúrbios do 7 de Setembro na Matola. Era um pequeno prédio. incluído numa zona de traça nova, da responsabilidade do meu tio materno, construtor civil. Vivíamos no 1º andar e a casa era boa. 
O Bolinhas, que eu recolhera na Matola, à revelia de todas as tutelas, um amarelo tigrado. gordo, luzidio, costumava fugir pela varanda trás, saltando para ir às gatas, e voltava três dias depois, esfolado e partido. Foi também a essa varanda que a minha mãe me chamou um dia, tinha eu acabado de fazer onze anos, para me dizer que o fenómeno que havia transformado aquela bacia de água, detergente e cuecas num contentor de aguadilha sanguínea me havia de aparecer todos os meses, doravante. Não me disse até quando. Esperei 40 anos que a resposta se desse sem palavras. 
Do lado fronteiro, existia uma segunda varanda da onde se avistava toda a praceta, e na qual me sentava, à tarde, efabulando, nos meus entretimentos solitários de filha única que pensava muito e falava pouco. 
Eu não tinha uma voz, sequer. Era uma criança e, pior, uma menina. Esperava-se pouca ambição de uma mulher, questão que sempre me passou ao lado. Eu tinha planos.

Na varanda da frente, imaginava ser a rainha da praceta e, nesses momentos, na minha imaginação, tudo era perfeito. Eu governava com justiça e tinha o poder de mudar aquilo que eticamente considerava errado. Mudava o mundo. Mudava os outros. Cada habitante daquela praceta, cada carro entrado ou saído era o elemento de um guião que eu ia construindo e adaptando mentalmente.
Os dias na praceta foram importantes na medida em que indiciaram um padrão de comportamento que revelei ao longo dos anos, e que mais tarde atingiu o expoente quando preteri, à humilde docência, aquilo que poderia ter sido uma frutuosa carreira no jornalismo. Como jornalista não mudaria o mundo, mas como professora tenho a certeza que o mudei centenas de vezes, sem que os visados alguma vez o tenham percebido. Como professora, toquei em cordas certas, nos momentos certos, sem pudor ou medo, e lembro-me de sair de aulas com o peito cheio por ter feito o que estava certo e faria caminho. Uma boa professora é simultaneamente um anjo da guarda e uma bússola que permite reconhecimento e revelação. 
Mas nem sempre sou bem sucedida. Tenho tido os meus fracassos. Eu, que sou teimosa, já desisti e me amargurei, de maneira que nos últimos anos apercebi-me de uma mudança no meu pensamento: afinal não consigo mudar muito o mundo, pelo menos não da forma como o fantasiava na Praceta Projetada à Avenida Luciano Cordeiro! Não tenho esse poder. Não posso mudar o mundo, mas posso mudar-me a mim no que respeita à forma como estou no mundo. É possível que esta revelação seja afinal o meu caminho para mudar. O mundo. Disse isto hoje a alguém e é para pôr em prática.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Qualquer lugar na terra - fantasia de um conto de Natal português

A suburbana de meia idade não tinha brincado com irmãos nem com eles brigado.
Deus, tendo para ela guardado desígnios elevados, também não lhe concedera família romântica nem consequentes filhos, para melhor a habilitar a  olhar pela janela, sempre do lado de fora, questionando implacavelmente tudo o que para os outros seria a ordem natural e normal das tentações. A suburbana experimentara fintar o oráculo, e bem podia apresentar as provas, mas sem sucesso. Deus decidira. Estava decidido.
Com os anos aceitara, porque o tempo vai naturalmente polindo as pedras mais teimosas.
Conseguia sentir-se feliz com a menopausa no inverno, porque não dava pelos afrontamentos. Terem-lhe sobrado dois pacotes de pensos higiénicos do último avio no hipermercado tinha a vantagem de se poderem guardar para futuras perdas de urina que, mais dia, menos dia, apertariam. 
Mulher prática, educada segundo princípios de Economia Pura do Estado Novo, portanto, oriunda das melhores castas de poupança.
Colesterol controlado. Plaquetas, triglicéridos, tudo no sítio. 
O que lhe causava grande incómodo, anualmente, era suportar o Natal e o Ano Novo no mesmo espaço onde atravessava a rotina quotidiana. As iluminações de Natal, a árvore, os presentes, as canções, os votos habituais, vazios de intenção, o horror. A família, a família, a família, essa construção de união, desunião, guerras, equívocos, clichés, ordem, regra, salvação. Salvassem-na. Ou, melhor, salvasse-se.
Se não os podia vencer, podia ao menos fugir. 
Tendo os familiares mais próximos falecido, e não existindo a obrigação cultural de lhes fazer a tradicional companhia da época, pensou “ bazo a mil e sempre são oito dias de liberdade, vagueando por um lugar sem referências que assaltem a memória."
Fechada num quarto de hotel frente a uma tv, o que tivesse de ser. Tudo seria melhor do que passá-lo em casa. Tanto fazia. Amesterdão. Granada, Roma. Qualquer lugar na terra.
Visitou o site da Ryanair, o da Easyjet, a TAP low cost, o das reservas de hotel, de seguida saltou para o saldo bancário, fez as contas e decidiu cometer uma loucura:  esse ano passava o Natal no subúrbio e não se falava mais nisso.